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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

2721 - balalaika 2


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4971                            Data: 22 de  outubro de 2014

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ORLANDO SILVA PARA SEMPRE NO RÁDIO MEMÓRIA

PARTE II

 

Soou a última nota do “Na Balalaika”

-Ricardo, e aí? - perguntou, já prevendo elogios rasgados à interpretação do Orlando Silva.

-É de babar, Jonas. Essas gravações emocionam mais ainda porque são muito raras. As pessoas não se dão conta… É importante que seus ouvintes se deem conta precisa do valor desta manhã musical, quando você exibe essas maravilhas. Em geral, sempre houve um lado da crítica  mais vigorosa, eu, inclusive, participei disso e me arrependo hoje; a gente abominava as versões, porque era importante preservar e privilegiar a música popular brasileira. Mas as versões que o Orlando gravou são melhores do que as muitas versões gravadas pelo Francisco Alves, que é outro cancioneiro.

-São versões muito bem feitas. - acentuou o Sérgio Fortes.

-Osvaldo Santiago. - citou o Jonas Vieira aquele que verteu “At Balalaika” para o nosso idioma.

-São as melhores, primeiro, pelo arranjo, e melhores sempre pela voz do Orlando Silva. - finalizou o Sérgio.

-Exatamente por causa da interpretação dele.

E acrescentou o Jonas Vieira:

-Estamos envolvidos no projeto sobre o centenário do Orlando Silva.

-Nós vamos fazer um comitê “Orlando Silva 100”. - anunciou o Ricardo Cravo Albim. 

-O lançamento vai ser no Instituto Ricardo Cravo Albim, na Urca, naquele casebre onde mora. – informou o Jonas Vieira.

-Você quer coisa mais charmosa do que trabalhar na Urca? Duas alternativas: Mônaco ou Urca.

Até o Dieckmann, que não pode estacionar seu iate na Urca, concordaria com o Sérgio Fortes. Quanto a mim, adorava ir, a trabalho, a uma empresa de navegação com endereço na Urca. (*)

-Outra versão que o Orlando dá um banho de interpretação se chama “Boa Noite, Querida”. Vamos lá.

E o Peter, obedecendo a ordem do titular do programa, acionou as carrapetas, e a gravação nos chegou aos ouvidos.

“Boa Noite Querida”, “Good Night Sweet Heart”, de Noble, Connelly e Campbell.     

 Consideramos interessante abrir aqui um parêntese para transcrever um trecho de “Ecos da 2ª Grande Guerra – Memórias da Minha Infância, de Vivaldo Lima de Magalhães:

  “Durante a Segunda Guerra Mundial, os shows que eram realizados em homenagem aos soldados norte-americanos, que iam para o front, eram sempre encerrados com a música “Good Night Sweet Heart” (fox) gravado em 1931de autoria de Jimmy Campbell/ Reg Connelly/ Ray Noble. Em 1944, o compositor Décio Abramo fez uma versão, colocando uma letra que recebeu o título de “Boa Noite, Querida”, gravada por Orlando Silva e, posteriormente, por Francisco Alves. Na Bahia, havia um parque de diversões chamado Feira de Amostras, instalado na cidade baixa, num terreno baldio que ficava próximo ao 4º Armazém das Docas de Salvador. O encerramento dos shows, que ali eram realizados ao ar livre, todos os dias, à noite, era tocada essa canção na voz de Francisco Alves.”

Estivesse lá o Jonas Vieira, protestaria com toda razão: “Francisco Alves é bom, mas Orlando Silva é insuperável”.

Fechado o parêntese, sigamos com o Rádio Memória.

-Outro filme. – julgou, referindo-se ainda ao “Good Night Sweet Heart”.

A palavra retornou ao Ricardo Cravo Albim:

-Possivelmente, Jonas, porque naquela altura, os filmes americanos nos anos 30, no final, e, principalmente, nos anos 40, no começo, os musicais americanos dominavam. Eram o grande “top de linha” Ginger Rogers e Fred Astaire e todos os demais. Eram um grande sucesso, e as músicas que embutiam dentro do filme. É claro que quando chegavam aqui, as pessoas queriam comprar os discos, e os grandes cantores cantavam as versões. O Orlando é insuperável nessas gravações.

Jonas Vieira, provavelmente preocupado com a mudez do Simon Khoury, o abordou:

-Estou ouvindo vocês. - limitou-se a dizer.

-E você, Sérgio? – voltou-se para ele, não tão calado quanto o Simon, porque chegou atrasado.

Nosso amigo revelou a sua perplexidade com a voz do Orlando Silva e pela beleza do seu repertório.

Feitas as perguntas, Jonas Vieira seguiu adiante.

-Assim como “Na Balalaika” ficou como canção predominante depois que o Orlando gravou… Uma canção do Lecuona, do filme que foi um sucesso mundial “Sempre no Meu Coração”, depois que o Orlando gravou a versão, só deu ele, a original americana sumiu. Prestem atenção que o Orlando canta isso como se estivesse conversando com você. É uma das minhas favoritas, “Always in My Heart”.

 Mais um parêntese, desta vez, autobiográfico.

Assisti ao filme de Walter Hugo Khoury, lançado em 1982, “Amor Estranho Amor”. A história se passa num bordel de luxo, de São Paulo, em 1937.  Na trilha sonora, havia canções cantadas pelo Orlando Silva e parece, não garanto, que “Sempre em Meu Coração” foi uma delas. É claro que orlandólogos (pessoas versadas na obra do Orlando Silva), dirão logo que ele não tinha esse repertório em 1937. Vi o filme num cinema de Madureira e, quando a Xuxa seduz o filho da Vera Fisher, de 12 anos de idade, gritaram na plateia: “Turma da Xuxa!” Mas isso é outra história, que mais parece um causo contado pelo Simon Khoury.

Agora, Sérgio Fortes tem a palavra:

-Jonas, sobre essa música do Lecuona, ela foi a segunda classificada no Oscar, perdeu para “White Christmas”. O que aconteceu com “White Christmas”, eu não sei se viria acontecer novamente, vendeu tanto que Bing Crosby foi obrigado a gravar duas vezes, porque a primeira matriz acabou.

Jonas Vieira se manifestou:

-Vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Retomou o assunto o Sérgio Fortes:

-Na época, havia aqueles processos de produção. Bing Crosby foi obrigado a entrar no estúdio e fazer uma força danada para que tudo saísse absolutamente igual; as pessoas não podiam notar que foi regravado.

-Segundo os críticos, foi exatamente o que aconteceu. O americano tem o máximo cuidado com o detalhismo, de fazer a coisa perfeita. – garantiu o Jonas Vieira.

Finalmente, já estávamos preocupados, Simon Khoury quebrou o seu silêncio:

-Eu gostaria de fazer uma pergunta para o Ricardo. Ele tem muito prestígio artístico e político. Todo o mundo gosta dele, todo o mundo o conhece. Há alguns anos morreu o grande compositor americano Richard Rodgers. Os americanos fizeram filmes, documentários, entrevistaram pessoas abastadas, feirantes… Lá, todos sabem, todos conhecem “Always in My Heart”. Por que o Orlando Silva, aqui do Brasil, ninguém sabe quem é? Por que o brasileiro esquece?

Quando afirmou que ninguém, no Brasil, conhece Orlando Silva, pisou no calo do Jonas Vieira:

-Isso não é verdade.

-Eu também discordo um pouco do meu amigo Simon Khoury. - manifestou-se Ricardo Cravo Albim.

-Quem tem 20, 30 anos não sabe quem foi Orlando Silva. - insistiu o polemista Simon Khoury. (**)

 (*) Contou o Dieckmann a este Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO: “Certa vez, alguém respondeu sobre o que seria mais inútil a bordo de uma embarcação de lazer – engenheiros navais e oficiais de marinha. Sendo participante de ambas as categorias, na última na condição de reserva não remunerada, o Dieckmann, amparado em sua lógica e bom senso habituais, concluiu ser melhor ficar de fora.

 (**) Este Distribuidor, em que pese respeitar a admiração de muitos sobre a obra do cantor em pauta, já não tem mais 20, ou 30 anos e faz de tudo para ficar longe das gravações do homenageado.

 

   

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

2720 - balalaika


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4970                            Data: 21 de  outubro de 2014

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ORLANDO SILVA PARA SEMPRE NO RÁDIO MEMÓRIA

 

Primeiramente, levei um susto: sintonizei a Roquette Pinto às 7h 40min e ouvi a voz do Jonas Vieira, do Simon Khoury e de uma pessoa que não foi nomeada, nem precisava, era o Ricardo Cravo Albim, que muitas vezes ouvi na Rádio MEC.

-O Sérgio Fortes está com um pequeno atraso.

Pudera, Jonas Vieira, com o programa se iniciando neste horário que, na verdade, seria 6h 40min, se o horário de verão não tivesse início nesse mesmo dia.

De repente, estornaram tudo e entrou uma programação musical, já que não haveria o “Almanaque”, por causa da primeira meia hora tomada pelo horário eleitoral.

Às 8 horas, sim, tudo voltou ao normal.

-Bondíssimo bom-dia, senhores ouvintes. Hoje, recebo com imenso prazer uma pessoa por quem tenho enorme, demais mesmo, admiração. A música brasileira deve demais a ele: Ricardo Cravo Albim.

-Bondíssimo bom-dia, meu querido amigo Jonas Vieira. É uma alegria estar com você por todos os motivos. Eu devolvo todo o carinho, todo o afeto que você dirigiu a mim. A minha admiração arrebatadora pelo seu trabalho, que é modelar.

A palavra retornou ao titular do programa, que tratou de provocar o Simon Khoury:

-Peço desculpas, tive de convidar o Simon Khoury. Ele aqui está porque é metido, mas você pediu para eu convidá-lo. Bom dia, Simon Khoury.

-O Ricardo falou de você tudo o que pedi para ele dizer. – reagiu.

-O Sérgio Fortes está com um pequeno atraso…

Neste momento, houve a interrupção a que já nos referimos.

-… - mas já chega.

Agora, Jonas Vieira impostava a voz:

-Nós vamos homenagear Orlando Silva, que é a minha e a sua devoção, não é isso, Ricardo?

-Orlando é o Orlando; isto eu declarei a vida inteira, até porque Orlando foi meu amigo, gravou comigo no Museu da Imagem e do Som. Tem uma história de amizade, de fraternidade comigo, sobretudo uma história de fã para ídolo. Eu, certamente, coloco e sempre coloquei Orlando num pedestal. Ele é o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Eu sempre assino embaixo.

Jonas Vieira se mostrou mais orlandófilo.

-Perfeito. Eu vou mais longe: ele é o maior cantor do mundo. Segundo a crítica americana Daniela Thompson, que tem um “site” e conhece a música brasileira profundamente, dá informações preciosas nesse “site”. Ela é fãzona do Orlando; diz que para ela o maior cantor do mundo se chama, exatamente,  Orlando Silva.

Ricardo Cravo Albim se manifestou:

-Eu não me surpreendo com isso, até porque o Orlando Silva desenvolveu essa magia que é a música popular brasileira no que ela tem de melhor. Poucos países do mundo tem uma magia de diversidade, de talento, sobretudo de miscigenação, como a música popular brasileira. Então, o Orlando já chega no auge de uma culminância, a nossa música, que ele une com a culminância da sua voz. É claro que tudo isso faz sentido: é o maior cantor do mundo.

A hora de se ouvir a grande voz urgia, e o titular do programa percebeu isso.

-Eu vou apresentar, Ricardo, com a sua concordância, um lado do Orlando pouco explorado, mas, pelo qual, tenho a maior admiração porque também é genial: as versões. A versão que ele gravou, por exemplo, “Quando Se Pede a Uma Estrela”. É de um filme famoso. Conhece, Simon?

Antes que o Simon quebrasse a sua mudez, acrescentou:

-Vamos ouvir “Quando Se Pede a Uma Estrela”.

A música aflorou a faceta de professor de inglês do anfitrião.

“When You Wish UP a Star”. E aí, Ricardo?

-Sem palavras; é de uma beleza espantosa e, no começo da primeira parte, eu me emocionei; meus olhos ficaram úmidos, ouvindo aqui de manhã… Orlando é para qualquer hora, de manhã, tarde, noite. Especialmente de manhã, a voz dele soa como um pássaro cantante.

“When You Wish UP a Star”, “Quando Se Pede a Uma Estrela”, é uma composição de Leigh Harline  e Ned Washington.

-Eu queria saber quem é o clarinete?- manifestou-se o Simon Khoury ainda mais rouco de tanto ouvir.

-O clarinete deve ser do Luiz Americano. - disse o Jonas.

-O Cole Porter mandou um telegrama para o Orlando Silva dizendo que a melhor gravação de “Begin the Beguine” era a sua.

-Foi? Eu não sabia disso, não. – surpreendeu-se o Ricardo Cravo Albim com a informação do Simon Khoury.

Jonas Vieira corroborou as palavras do amigo com quem briga há 50 anos.

-Exatamente, ele mandou um telegrama. Nessa época, o Orlando morava perto da Praça da Bandeira; houve uma chuvarada, e ele perdeu disco, tudo. Mas Cole Porter enviou mesmo uma carta para ele.

-Ou seja, Cole Porter sempre foi esperto. - concluiu Ricardo Cravo Albim.

-Por sinal, o cinquentenário de morte do Cole Porter está transcorrendo agora.

Jonas Vieira também está atento para as efemérides dos outros países; Cole Porter nasceu no Peru (não o país, e sim a cidade de Indiana) em 1891, falecendo em 1964, com 73 anos de idade.

E eis que chega o Sérgio Fortes.

-Sérgio Fortes, o senhor está atrasado; cartão amarelo; vou cortar o seu ponto.

Se eu dissesse que o Sérgio se atrasou por causa do horário de verão, o Dieckmann logo atacaria com um asterisco, dizendo que o programa foi gravado na quinta-feira, no horário antigo. Mesmo correndo esse risco, afirmamos que, caso o Sérgio Fortes alegasse o horário de verão, nós aceitaríamos, afinal, a ilusão de que tudo é improvisado, que nada é editado, deve perdurar.

-O Ricardo, você conhece?

-Claro, Jonas, conheço demais. Nossa enciclopédia.

-Sérgio está falando sério; o Ricardo escreveu uma enciclopédia.

-Eu recorro frequentemente à sua enciclopédia. - declarou o Sérgio Fortes.

Agora, Jonas Vieira impostava novamente a voz.

-Mais uma vez Orlando Silva com outra versão, agora, uma das canções mais lindas que eu conheço. Essa música é uma das minhas admirações, “Na Balalaika”, que não concorreu ao Oscar por incrível que pareça.

E prosseguiu:

-É de uma opereta de 1936, passou para o cinema em 1938. Foi lançada por Nelson Eddy, em inglês é “At Balalaika; ganhou uma versão brasileira lindíssima, que o Orlando dá uma dimensão fantástica.

-Vale registrar, Jonas, que a gravação original é de Nelson Eddy com Jeanette MacDonald. Essa versão foi das mais vendidas pelo Orlando; vendeu como um grande sucesso da música popular brasileira.

Não, caro leitor, Simon Khoury permanecia ainda com a sua retórica represada, a intervenção acima foi feita pelo Ricardo Cravo Albim.

-Exatamente – disse o Jonas – a gravação americana ficou de lado, e prevaleceu a do Orlando Silva.

E anunciou “Na Balalaika”, de Posford e Estothart, versão de Osvaldo Santiago.

 

 

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

2719 - Josefina e Vandredi


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4969                                 Data: 19 de  outubro de 2014

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CARTAS DOS LEITORES

 

“Jovem Carlos,

Um BM falando na Rua Americana me recordou o único dia em que andei de quatro, só consegui galgá-la me agarrando nos tufos de apetitoso capim; não é rua adequada a bípedes.

O livro da Josefina me abriu os olhos os olhos para o dia em que me abriu os olhos para o dia em que os dois ilhéus se conheceram num jantar, ela, teúda e manteúda. Na estante do 86, havia reprodução de um quadro em que o filho dela procurava o fulano pedindo a devolução da espada do pai, apreendida pela Revolução e daí os futuros apaixonados vieram a se conhecer.

Apreciei a festa da petizada (?!). No século passado não havia animadores, bom mesmo era levar para casa um prato de guloseimas. Pelos idos de 1989, estive em Anchieta, e, no ônibus, comecei a devorar os petiscos; o trocador foi mimoseado e também o motorista, nada chegou à minha tebaida.

Participo que o Calígula tem um irmão batizado como Vandredi, encontrei-o na rua, tão pequeno que o julguei um rato até que miou. Não sabia comer sozinho, levei-o à creche da Dileta e o trouxe preparado para o chatô. O filme de Gary Cooper eu vi, era baseado num livro de Ayn Rand, a dama era Patricia Neal, e me pareceu que o verdadeiro galã era Raymond Massey.

Em 1951, vi o primeiro filme do Charlton Heston, no Cine Roulien, em Todos os Santos, e gamei. Certa vez, no Merré, houve um debate, o que nós imaginávamos como o Paraíso. Sugeri o Charlton Heston coberto de creme e nenhuma colher. Aprazível indigestão!!!

Rosa

 

BM: Nossa amiga Rosa nos desvanece com mais uma missiva.

No primeiro parágrafo, Rosa Grieco se refere à rua onde desfrutei parte da minha adolescência que, até a metade é chata, no bom sentido, ou seja, é plana, na outra metade é quase vertical, o que explica a sua dificuldade em escalá-la. Nesse dia em que a Rosa se agarrou nos tufos de capim, como os náufragos numa tábua. Ela se esqueceu dos apetrechos de alpinista.

Lembro o dia 1º de abril de 1964; meu pai grudado no rádio para se inteirar das ocorrências da revolução que se deflagrou, enquanto eu passava por ele rumo a uma pelada para jogar, nos paralelepípedos da Rua Americana, com uns quinze amigos. O diabo era quando um pé descalibrado chutava uma bola, e ela descia a parte vertical da rua, tínhamos, então, de descê-la e, em seguida, escalá-la. Mas o que não fazíamos por uma bola de futebol?... Éramos capazes de quaisquer sacrifícios por ela, a nossa amada.

Rosa, logo depois, alude à biografia de Josefina Bonaparte escrita por Kate Williams, que ela me deu de presente de aniversário, deixando-me eternamente agradecido.

Os dois ilhéus, que se conhecem num jantar, são Josefina, crioula, pois nasceu na Ilha Martinica, e Napoleão Bonaparte, cuja origem é a Ilha da Córsega. Na ocasião, ela era teúda e manteúda de Barras, o responsável pelo fim do Terror, na Revolução Francesa, quando derrubou Robespierre, que seria guilhotinado. Paul Barras foi comandante supremo das forças armadas de Paris e do Interior e propiciou a ascensão de um jovem militar ambicioso, Napoleão Bonaparte.

Josefina se casou pela vez primeira com Alexandre-François, visconde de Beauharnais, o que a fez se mudar da Martinica para a tão sonhada Paris. Tiveram dois filhos, Eugène e Hortense, mas o casamento desandou.

Com o poder na mão dos sanguinários jacobinos, o marido da Josefina foi preso e a viscondessa de Beauharnais, pouco depois, seria enviada para uma das mais terríveis prisões de Paris, “Les Carmes”. Ele seria guilhotinado, Josefina, por outro lado, foi salva com a queda de Robespierre por Barras, a quem viria conhecer e se tornar amante.

Rosa, na sua carta, faz menção a Eugène Beauharnais quando ele pede àquele que estava no comando, íntimo da sua mãe, a restituição da espada do pai, que fora guilhotinado.

No parágrafo seguinte, a nossa amiga passa para o Biscoito Molhado que tratou de uma festa infantil. Sublinhou petizada e não entendemos o porquê, pois, de fato, havia no salão petizes por toda parte. Rememorou as festas infantis do século XX, que não tinham animadores, mas era dado aos convidados, mesmo adultos, levarem doces para casa, como se o Dia de São Cosme e Damião fosse também festejado.

Hoje, ainda se permite que os convidados saiam com um ou outro pitéu. Nada comparado ao primeiro aniversário da sobrinha da minha cunhada, ocorrido no Clube da Light, no Engenho Novo. Depois de entoado o “Parabéns” e se aproximando o fim da festa, foi dado o sinal verde  para os convidados carregarem as guloseimas que estivessem na mesa. Uma prima minha, com uma sacola de compra de mês nos supermercados, da época da hiperinflação, fez a limpa. Pegou petiscos suficientes para mimosear trocador, motorista e passageiros.  Isso, corroborando o que a Rosa disse, se deu no século passado, no fim dos anos 70.

Quanto à tebaida, palavra que a nossa missivista prefere à cama, a não ser nos seus textos eróticos, os leitores de boa memória devem se recordar que até transcrevemos, neste periódico, um soneto de Olavo Bilac: “Na Tebaida”.

Em seguida, Rosa, gatófila juramentada, discorre sobre os seus felinos de nomes tão peculiares. Ela se detém no “Vendredi”, jamais o chamaria de Sexta-Feira, haja vista que leu “Robinson Crusoé” em francês.

Lendo e relendo essa parte da sua carta, posso dizer que esse caso guarda muita semelhança com o que aconteceu com a minha mãe. Ela pegou um gato recém-nascido, abandonado num terreno baldio, com os olhos ainda cerrados, e o alimentou com leite num pinga-gotas. Ele se tornou um gatão, e foi batizado pela minha mãe com o nome “Fluminense”, fosse ela francófila, talvez ele se chamasse “Paris Saint-Germain.”

Depois, Rosa incursiona pelo cinema, especificamente, pelo filme “The Fountainhead” (Vontade Indômita), até chegar ao Charlton Heston, ator que despertava seus instintos primitivos. Tudo bem, Rosa, não é só o público masculino que tem direito a esses arroubos diante de uma tela.

Encerramos aqui, pedindo à Rosa que prossiga nos remetendo mais cartas à nossa redação.

 

 

 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

2718 - Modigliani


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4968                                 Data: 18 de  outubro de 2014

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191ª  CONVERSA COM OS TAXISTAS

 

O 162 é um dos taxistas que vejo trabalhando antes do nascer do dia, não perto do pôr do sol, estranhei, por isso, quando foi o seu táxi o que peguei na rua Domingo de Magalhães.

-Nesta hora?...

-Hoje, houve um problema, e tive de começar tarde.

Expressei outro estranhamento:

-Quando desço a Rua Van Gogh rumo à estação do metrô de Del Castilho, por volta das cinco e vinte, cinco e trinta da manhã...

-Eu sei, por várias vezes, eu vi o senhor passando. - cortou-me.

-O que houve com o ponto de táxi? ... Há alguns dias que não vejo um só carro de vocês lá.

-São os assaltantes; eles vêm de motocicleta e nos atacam.

-Assaltaram quem?

-O 009.

O 009 é o Gaguinho, já o identificaram os leitores de boa retentiva que acompanham as nossas conversas com os taxistas.

-O seu filho?!...

-Levaram o dinheiro e o celular dele.

-E quem mais foi assaltado?

-O 028, o 134...

Nunca surgiu a necessidade de o taxímetro do 028 rodar comigo, mas o 134 não é um taxista bissexto nestas páginas, pois deve suar na sua profissão umas dez horas por dia.

-O Bob Esponja?!...

-O Bob também foi assaltado. - confirmou.

Como ele se casou recentemente, já deve ter deletado da agenda do seu celular nomes e telefones de toda a mulherada que ele dizia ter  conquistado. -passou-me pela mente, como um relâmpago, esta hipótese impertinente.

-O cidadão acorda de madrugada para trazer o suado dinheirinho para casa, vêm uns vagabundos e se apossam de tudo. - indignei-me.

-Nosso ponto passou para a Rua Itamaracá, entre o posto de gasolina e a padaria, que abre às cinco da manhã; lá, é maior o movimento.

-Sim; e, às vezes, aparecem uns PM, saltando de uma viatura, para lanchar; ao que parece, pouco se importando se estão assaltando ou não nas redondezas.

-Rua Modigliani. - anunciou.

 

O taxista do dia subsequente foi o 101, um jovem que não chega aos 30 anos de idade. Eu só entrei no seu veículo uma vez e parecia que me achava num bólido da Fórmula 1. Cogitei, por isso, evitá-lo, fingindo que aguardava o ônibus para, depois de ele partir, atravessar a rua e chegar aos táxis, porém, no embalo em que eu vinha, só parei no meio deles e não houve escapatória para mim.

Dessa vez, o 101 dirigiu civilizadamente; talvez as reclamações de outros passageiros tenham abrandado a força do seu pé direito.

Como mal o conheço e ele seja, aparentemente, introspectivo, não puxei conversa.

Pelo seu bom comportamento, tirei a carteira da mochila e lhe paguei com dinheiro trocado, quatro notas de dois reais; seu rosto, por isso, se iluminou de contentamento.

 

Na quarta-feira, o taxista era o 017. É um tanto irritadiço, mas o conheço há alguns anos e sei que dá para prosear com ele.

-Eu soube que assaltaram os seus colegas na Rua Van Gogh.

-Roubaram de motocicleta a turma que começa mais cedo.

-Ali ficam o 070, o 151, o 115... foram também vítimas?

-Eu não estou ainda inteirado de tudo. - respondeu, dando mostras de que não queria se aprofundar no assunto.

-Na minha ida para a estação do metrô de Del Castilho, passo costumeiramente por eles.

-Cuidado, porque eles assaltam as pessoas que estão a pé.

-Sou cauteloso, já tomei as minhas providências. Antes de sair para o trabalho, eu coloco todos os meus documentos e cartões do Banco do Brasil e Santander numa meia, depois, eu a enfio na cueca e dou um laço na parte em que a zorbinha cobre um dos quadris.

-Não fica volumoso?

Não sou o homem-berinjela do programa humorístico, pensei em lhe responder, mas como ele não cultiva o bom humor, prossegui com seriedade.

-Não fica volume algum, e, além de não haver possibilidade de a meia cair pelo caminho, ela não me incomoda em nada.

E prossegui:

-Eu me inspirei naquele petista que foi preso com milhares de dólares na cueca, a diferença fundamental é que eu fujo dos ladrões e ele era um deles.

-E o que você faz com o dinheiro?... Não esconde também?...

-Não escondo; deixo na carteira umas 4 notas de 20 reais, no máximo, para carregarem caso o azar me faça topar com eles. O mais importante é não cair no estresse de quem tem de tirar segunda via de documentos e suspender cartões bancários.

-Isso é verdade. - concordou.

-O único problema é que, chegando ao trabalho, tenho de retirar a meia do esconderijo e, em seguida, sacar o que lá está para colocá-lo um a um no lugar que ocupam na minha carteira. 

-Modigliani. - anunciou.

 

No dia que se seguiu, a corrida foi no táxi do Botafoguense. Notei nele uma cava depressão, como escrevia o Nélson Rodrigues, não porque fora assaltado, pega no batente no horário vespertino, e sim por causa de mais uma derrota do Botafogo.

-Perder de 5 a 0 para o Santos?!... Nem no tempo do Pelé eles conseguiram esse placar. - não se conformava.

Perdeu sim, na final da Taça Brasil de 1963, poucos dias depois da vitória do alvinegro carioca por 3 a 1. Partidas essas que estão marcadas na minha memória por causa de uma aposta entre o Seu Dilmar (Santos) e o Tarzã (Botafogo roxo) na vila em que morei na Rua São Gabriel, mas isso é outra história para ser contada oportunamente.

-Eu não assisto a certames esportivos para sofrer, já foi tempo, por isso, larguei de lado programas com o Botafogo há algum tempo.

-Eu queria ser assim, digo que não vou ver o jogo do Botafogo, não resisto e, depois, vou dormir aborrecido. - lamentou.

-Eu vejo meu irmão, que é vascaíno, em casa; xinga jogadores e o técnico do seu clube o tempo todo. Já falai com ele: “Já superamos essa fase de paixão, temos de ver o futebol como lazer”.

-É incrível os gols que o Botafogo tem tomado. - remoeu a sua dor encruada.

-Os jogadores do nosso time não veem a cor do dinheiro há alguns meses, eu os vejo até com admiração.

-Admiração?!... reagiu com uma mescla de surpresa e discordância

-Admiração porque os vejo suando a camisa.

E fui além na minha argumentação:

-No meu trabalho, na época da hiperinflação, bastava o salário atrasar dois dias, que os meus colegas entravam em desespero. O telefone não parava de tocar, eram os agiotas que sabiam, melhor do que ninguém, os dias de pagamento dos funcionários públicos.

-A época da hiperinflação foi brava. - manifestou-se.

Certa vez, o Banco do Brasil depositou o nosso pagamento em agências erradas, e o pessoal foi à loucura atrás do seu minguado dinheirinho.

-Foi?

Sim, foi. Não lhe contei que, na época, o Biscoito Molhado, com a manchete, EM BUSCA DO SALÁRIO PERDIDO, se esgotou rapidamente nas bancas, porque já nos encontrávamos na Rua Modigliani.

-Vamos torcer para o nosso Fogão ganhar o próximo jogo. - disse-me enquanto eu saltava do seu táxi.

    

 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

2717 - Dia das Crianças 3 (final, ufa!)


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4967                                 Data: 17 de  outubro de 2014

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RÁDIO MEMÓRIA DAS CRIANÇAS AO ORLANDO SILVA

3ª PARTE

 

Levados pela crônica do Fernando Milfont, meditamos sobre a maçonaria. Jonas Vieira, logo em seguida, fez considerações sobre ela, e Sérgio Fortes também; disse que estudou no Colégio Santo Inácio por toda a vida (força  de expressão) e afirmou que os padres nutriam verdadeiro horror por essa sociedade fraterna, mas, para eles, satânica.

Jonas Vieira concluiu que era religioso, mas não tinha religião.

Não se falou que Mozart era maçom e que influenciou Haydn a entrar na maçonaria; que o gênio de Salzburg, além de compor uma Missa Fúnebre Maçônica, compôs a Flauta Mágica, considerada uma ópera da enredo maçônico. Não se falou porque o horário era curto e dedicado à música popular, particularmente ao grande cantor Orlando Silva.

Depois dos comentários que se seguiram à Pausa para Meditação, vieram as propagandas tanto dos programas da Rádio Roquette Pinto, quanto eleitorais.

Ufa!... Quando encontraremos um bálsamo para os ouvidos, a voz do Orlando Silva?

O mais ferrenho dos orlandistas, Jonas Vieira voltou, com o Sérgio; antes da música, porém, fez um instigante introito.

-Orlando Silva foi pioneiro em muitas coisas. Eu vou contar lá, no nosso show, no Cariocando, entre outros assuntos, que ele é um dos pioneiros do tropicalismo com a Carmen Miranda. Falar em Caetano Veloso… não é verdade! Nos anos 30, Lamartine Babo e outros compositores, Noel Rosa,entre eles, faziam tropicalismo da melhor qualidade. Orlando Silva, com a Carmen Miranda,  foi um dos seus propagadores.

E prosseguiu com a sua tese:

-Então, ele gravou, de Cristóvão Alencar e Frazão, uma marchinha que não é das mais conhecidas do seu repertório, mas é genial. A interpretação do Orlando é fora de série, ele tropicaliza tanto a música como a letra. A marchinha se chama “Pour Vous, Madame”.   O francesismo daquela época era acentuado, tudo era francês. Os dois fizeram uma espécie de gozação com isso.

Jonas Vieira citou um trecho da letra e foi em frente com seus comentários.

-Temos a popularização da palavra madame, pois, até então, a mulher brasileira era chamada de senhora.

Concordamos, aqui no Biscoito Molhado, esse tratamento se tornou muito popular com os sambistas, marcantemente lá, na Lapa de Madame Satã . José de Alencar, no século XIX, intitulou um dos seus romances “Senhora”, e não “Madame”, embora o Brasil, entre muitos países, fosse fortemente influenciado pela cultura francesa no século XIX.

Depois de ser tocada a gravação, Sérgio Fortes se encantou com a riqueza das rimas.

-Temos umas rimas aí de uma sagacidade… L’ argent com balangandã. Eles eram geniais, muito bons.

Jonas relembrou que o Frazão (se evitasse o nome completo do compositor, Eratóstenes Frazão, teria  razão, mas não o evitou) era tio do Osmar Frazão  da Rádio Nacional e de outros órgãos que lidavam com o público, como a TV Tupi.

Agora, Jonas Vieira se fixava na interpretação do Orlando Silva em “Pour Vous, Madame”.

-A maneira de o Orlando interpretar é única. Ele entoa diferentemente verso por verso. O fraseado muda, a entonação também. Eu fico impressionado porque essa marchinha não fez um grande sucesso. É de uma beleza extraordinária.

Sérgio Fortes procurou as razões de ela não ter alcançado o merecido êxito; a marchinha é brilhante, mas demanda percepção do ouvinte para as sacadas contidas nela por parte dos autores e do intérprete.

-“Não é très jolie, mas suficiente para me fazer feliz.” – evocaram mais um trecho da música que ouvimos.

Corroborando o que os apresentadores do Rádio Memória diziam sobre a popularização, no Brasil, de palavras francesas; lembramo-nos, agora, da “Jolie”, uma cadela pequinês neurastênica de uma vizinha. Havia também, nessa mesma rua, um “Chérie”, este vira-latas; como esta palavra não foi citada na letra, não vamos mais nos alongar nesse assunto canino. 

 Agora, Jonas Vieira passava para a próxima atração. Tratava-se de uma canção que (quem sabe?) foi inspirada no poema de Francisco Otaviano de Almeida Rosa, que viveu no século XIX, e merece ser transcrito;

“Quem passou pela vida em branca nuvem,

E em plácido repouso adormeceu;

Quem não sentiu o frio da desgraça,

Quem passou pela vida e não sofreu;

Foi espectro de homem, não foi homem,

Só passou pela vida, não viveu.”

 

-“Quem Pela Vida Passou”. - anunciou o titular do programa a próxima canção a ser ouvida, antes, porém, o Sérgio Fortes  se antecipou:

-O título já é brilhante; deixa tanta coisa subtendida; tem um cunho de mistério.

Estimulado, o maior dos orlandistas trauteou os primeiros versos.

Enfim, reinou soberana a voz do seu ídolo.

 -“Quem Pela Vida Passou”, de Frazão e Cristóvão de Alencar- disse tão logo soou a última nota musical.

Sérgio Fortes interveio para aludir à tetralogia sobre o CD do Simon Khoury, e que ele, graças a este periódico, se igualou a Richard Wagner.

A seriedade retornou com o decano dos radialistas brasileiros:

-Da fase tenorina do Orlando Silva, veio a transição para a fase abaritonada, que se deu nos anos 43,44 e 45.

E apresentou a gravação de “Carioca Boêmio”, de Heitor dos Prazeres.

Depois de algumas considerações sobre o jeito de ser carioca, que consta na letra, Sérgio Fortes atentou para o fato de Heitor dos Prazeres, além de grande compositor, ter se destacado como pintor.

-Eu tive a infelicidade de cobrir a morte dele no Hospital dos Servidores do Estado. Eu trabalhava no Diário da Noite nessa época.

Sérgio Fortes espantou a tristeza do seu parceiro referindo-se, de novo, à inserção música e pintura.

-Outro que é um desses casos de compositores que incursionaram pela pintura foi Gastão Formenti.

-Guilherme de Brito também. – listou o Jonas Vieira mais um.

E seguiu adiante:

-Muito bem. Dessa fase maravilhosa do Orlando, temos uma valsa antiga se compararem com os costumes de hoje, “Rococó”, de Sivan Castelo Neto.

Depois dos previsíveis elogios, vieram os comentários.

-Rococó era uma expressão que estava muito em voga.

-Exatamente. - concordou o Sérgio.

-O arranjo é de Lyrio Panicali e o piano, também.

E prosseguiu o Jonas Vieira:

-Então, aí está o meu projeto: “Orlando Silva, 100 anos, cantando cada vez melhor”. Não é meu, peguei do Carlos Gardel, que os argentinos dizem que está cantando cada vez melhor; ele e o Orlando Silva.

Agora, era para fechar o programa:

-Uma criação de Lauro Maia que, infelizmente, morreu muito cedo, de tuberculose. O Orlando Silva dizia que o Lauro Maia era o Noel Rosa cearense. Prestem atenção no que vão ouvir, “Febre de Amor”.

Tocada esta gravação de 1943, Jonas Vieira ainda se estendeu sobre o compositor que partiu com 38 anos de idade:

-Foi o Lauro Maia quem apresentou o Luiz Gonzaga ao seu primo, Humberto Teixeira.

Mas o tempo urgia; as nove badaladas do relógio estavam prestes a se impor.

-Até o Cariocando e um demorado abraço. - disseram os dois num uníssono bem ensaiado.

   

 

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

2716 - Dia das Crianças 2


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4966                                 Data: 16 de  outubro de 2014

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RÁDIO MEMÓRIA DAS CRIANÇAS AO ORLANDO SILVA

2ª PARTE

-”Ele, sempre ele.”

Nélson Rodrigues citava as palavras acima de Victor Hugo para comparar a fixação que o poeta tinha no Napoleão Bonaparte, com a sua, cronista esportivo, no Pelé.

Quanto ao Jonas Vieira, a sua fixação é no Orlando Silva.

-”Ele, sempre ele. Orlando Silva...”

Um foi gênio militar, o outro, gênio do futebol, e Orlando Silva, gênio do canto popular.

Feita essa introdução, sigamos.

Depois que o Sérgio Fortes terminou de relacionar os fatos que marcaram o dia 12 de outubro, a voz do titular do programa Rádio Memória ecoou solene.

-A partir de agora, vamos homenagear o centenário do Orlando Silva, que se dará no ano que vem. A contagem regressiva começou.

E foi adiante:

-No dia 28 deste mês, estarei no Cariocando, com Paulo Marquez e Simon Khoury. Paulo cantando sucessos do Orlando Silva, e Simon Khoury, falando bobagens.

É difícil manter a seriedade depois de citar o contador de causos e também compositor de música instrumental, Simon Khoury.

-Cariocando fica na Machado de Assis?

-Não, Sérgio, fica na Silveira Martins.

O Bar Cariocando se situa, precisamente, na Rua Silveira Martins, 139, Catete.

-Será uma espécie de pocket show. - recorreu o Sérgio Fortes ao estrangeirismo.

A palavra voltou para o Jonas Vieira:

-O Orlando Silva é esse cantor pelo qual tenho veneração. Para mim, ele é o maior cantor do mundo. Eu vou dizer, no show, porque ele é considerado o maior cantor do mundo também pelos estrangeiros.

Agora, ele se voltou para o programa Rádio Memória propriamente dito.

-Orlando Silva vai cantar uma das suas melhores coisas, que foi composta por AssisValente. Isso foi em 1937, antes de ele despontar como cantor. “Alegria”.

Entrou a gravação que, mesmo antiga, não perde o seu frescor.

Sérgio Fortes se enlevou, além da voz do Orlando Silva, com os músicos e o arranjo.

-É uma preciosidade. - declarou o seu maior admirador.

-Jonas, compare … Eu estava ouvindo, nos intervalos da TV Globo, trechos do programa “The Voice Brasil”, que é absolutamente lastimável. E você ouve abobrinhas do tipo “Que voz! Que isso! Que aquilo!”.

-É tudo péssimo. - resumiu tudo taxativamente.

-É para testar a nossa capacidade. É para saber até onde podem empurrar pelo ouvido da gente essa coisa. - disse o Jonas Vieira.

-A competição ali é a seguinte: quem são os piores, os cantores ou os jurados.

Depois de os dois ratificarem as suas opiniões sobre o programa da TV Globo, Jonas Vieira se ateve à próxima atração musical do Rádio Memória.

-Ouvimos “Alegria”, e agora, com Orlando Silva, o seu primeiro sucesso carnavalesco. Em 1938, ele gravou da dupla Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti “Abra a Janela”.

Ouvindo essa composição, imaginei o meu irmão Claudio, arquivo-vivo de sambas enredo, citando o samba-enredo da Portela, de 1971, “Lapa em Três Tempos”, em que Paulinho da Viola entoava um trecho dessa música.

“Abra a janela, formosa mulher,

Cantava o poeta trovador.

Abre a janela formosa mulher.

Na velha Lapa que passou.”

Sérgio Fortes se empolgou, mais uma vez, enquanto Jonas Vieira se deteve mais nessa marcha carnavalesca.

-O Orlando contava que percebeu o seu primeiro sucesso de carnaval porque o bloco, na Praça da República, perto da Casa da Moeda, saiu com “Abra a Janela”, e quando esse bloco incorporava uma música...

-É porque ia emplacar.- adivinhou o Sérgio Fortes.

-Ele viu o bloco cantando e disse: “Já ganhei o carnaval”. Ele, então, começou a despontar, a ser o “Cantor das Multidões”.

-Isso, em 1838.- interveio o Sérgio Fortes.

-Exatamente, em 1938. Ele estourou…  Veio o “Carinhoso”…

-Foi o ano daquela  consagração em São Paulo, que ele, numa rádio do Vale do Anhangabaú, parou tudo?...

Às palavras do Sérgio Fortes, seguiram-se as do Jonas Vieira:

-Ele parou o Vale do Anhangabaú, a Praça da República… Cantou por três noites em São Paulo para aquela multidão.  Não cabia uma multidão no auditório da emissora, ele, então, cantou da sacada. Quando retornou para cá, o grande Oduvaldo Cozzi disse: “Está de volta à Rádio Nacional Orlando Silva, o “Cantor das Multidões”. Daí, surgiu essa alcunha.

-Jonas, quem tinha a mania de dar alcunhas aos artistas?

-O Cozzi, o César de Alencar, e um da Rádio Mayrink Veiga cujo nome me escapa.

-Manoel Barcelos?...

-Isso, foi ele quem alcunhou a Carmen Miranda de “A Pequena Notável”.

E passou a listar outros epítetos:

-Carlos Galhardo, “O Cantor Que Dispensa Adjetivos”; Sílvio Caldas, “O Caboclinho Querido”.

E voltou-se para a próxima atração  do programa:

-Agora, o meu querido e saudoso amigo, Pedro Caetano; ele e Claudionor Cruz deram ao Orlando uma canção que foi um imenso sucesso. Claro que tudo que ele cantava se tornava um sucesso. Essa música é de uma tristeza fora do comum.

Antes de ela ser ouvida, Jonas Vieira narrou um causo:

-O Pedro Caetano contava que vinha no bonde, e havia duas normalistas. Naquele tempo, as normalistas eram muito populares. Então, uma delas disse a outra: “Você sabia que o autor dessa música se suicidou?... E o Pedro, muito gozador, ficou entre as duas e disse: “Ele ressuscitou, sou eu”.

Em seguida, deixou de lado a descontração:

-“Caprichos do Destino”. Reparem como o Orlando Silva faz um prolongamento da voz lá em cima e emenda.

Soada a última nota da melancólica plangente que acentuava versos de desilusão, veio a voz do Sérgio Fortes:

-Preciso me recompor.

Jonas Vieira se reportou a um pianista italiano, um dos maiores da Europa que, por duas vezes esteve no Brasil.

-Aqui, conheceu “Caprichos do Destino”, e se apaixonou. Tocou lá em Roma, e houve um aplauso geral. - concluiu.

-O que me chama a atenção é que o Pedro Caetano era um cara muito alegre.

-Não só ele era alegre, Sérgio, como o Claudionor Cruz.

Jonas Vieira se voltou para a próxima música gravada pelo Orlando Silva.

-Agora, novamente a dupla. Essa é genial, e de 1940: “A Felicidade Perdeu Seu Endereço”. Prestem atenção na letra.

Sérgio Fortes mostrou que atendeu a esse pedido.

-Os termos que se usava… a riqueza do vocabulário... Atualmente, não existe mais isso. Alguém escreveria mordaz hoje em dia?... A não ser no contexto em que um cachorro abocanhou alguém.

Nessa toada, Jonas Vieira aludiu à baixa qualidade do funk, pedindo desculpas aos funkeiros (há um programa na Roquette Pinto dedicado à música da periferia) e se justificou:

-Eu gosto de Música, sou um melômano.