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O BISCOITO MOLHADO
Edição 1551D Data: 23 de julho de 2022
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 1551D Data: 23 de julho de 2022
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 360 Data: 12 de dezembro de 2004
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OS MATARAZZO E ASSIS CHATEAUBRIAND
A comparação entre o maior empresário do Segundo Império, Barão de Mauá, e o maior da República Velha, Francesco Matarazzo, era inevitável. Em dado momento, o entrevistador não se conteve, interrompeu o entrevistado e fez a comparação. Ronaldo Costa Couto concordou inteiramente.
- “O Barão de Mauá é agora mais reconhecido pelo excelente livro do Jorge Caldeira, mas o Conde Francesco Matarazzo está mais esquecido ainda...”.
A força empreendedora dos dois empresários era inigualável ou só comparável entre si, mas há diferenças entre os gigantes: o Barão de Mauá era bem mais aristocrático do que o Conde Francesco Matarazzo. O conde, no início da construção do seu império, sacrificou porcos com facão, derreteu banhas e foi açougueiro do açougue em que era dono. Teve o cérebro do empresário, sem perder os músculos do operário. Chegava às sete horas no escritório e só não chegava às cinco horas da manhã, porque a esposa, Filomena, protestava com a gesticulação própria das italianas. Não podemos afirmar com certeza absoluta que os treze filhos do casal sejam provas do poder de convencimento da Filomena... Desses treze filhos, nove nasceram no Brasil, e quatro na Itália.
Ronaldo Costa Couto, comentando a intervenção do Roberto D' Ávila com o Barão de Mauá, inseriu a figura do Assis Chateaubriand, que também o impressionava:
- “... Décimo segundo filho de um casal de Umbuzeiro, interior da Paraíba, que construiu um império jornalístico, Roberto. Impressionante também”.
Em 1920, Assis Chateaubriand, escrevendo no Jornal do Brasil, ainda sonhava com o seu primeiro jornal. Morre Ermelino Matarazzo e Assis Chateaubriand capricha tanto no obituário que redigiu, que o telefone da redação do Jornal do Brasil toca: era o Conde Francesco Matarazzo, que pretendia conhecê-lo. Um encontro entre os dois é então marcado. Conhecem-se, Chateaubriand o saúda, e recebe, em seguida, os agradecimentos pelas palavras elogiosas que dedicara ao seu filho morto. Na despedida, o Conde Matarazzo lhe estende a ponta do paletó e pede que Assis Chateaubriand raspe os dedos nessa ponta de paletó. Diante do espanto do jornalista paraibano, o Conde Matarazzo lhe explica que se trata de uma tradição da Calábria:
- “Fazendo isto, a minha sorte passará para você”.
Não sabemos se o Ronaldo Costa Couto narra esta passagem na sua obra sobre os Matarazzo, mas Fernando Morais a narrou no “Chatô, o Rei do Brasil”.
Os modos aristocráticos, diríamos mais, e o refinamento, chegam aos Matarazzo do Brasil com o sobrinho do conde, o Ciccilo. Ele, como já foi assinalado, tinha uma inclinação irresistível pelas artes e a cultivou sem esmorecimento enquanto viveu.
- “Baby Pignatari, o Francesco Matarazzo Pignatari, foi o maior amigo de Assis Chateaubriand, mas Ciccilo também foi seu grande amigo”.- enfatizou o Ronaldo Costa Couto na entrevista.
A sorte do paletó do Conde passara para Chateaubriand e este já era o proprietário da mais poderosa rede de comunicações da América Latina quando criou, em 1947, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), associado ao galerista italiano Pietro Maria Bardi. No ano seguinte, o Museu de Arte Moderna era criado por Francisco Matarazzo Sobrinho e, ao contrário do MASP, contou desde o início com a representação de todas as áreas das artes e da cultura, que traçaram o perfil e a política de aquisição e de formação do seu acervo. Ciccilo Matarazzo financiou de seu próprio bolso a compra das obras para a coleção do Museu e fomentou seu posterior crescimento com o “Prêmio Aquisição” promovido pelas futuras bienais. Os estatutos do Museu previam a criação de comissões de cinema, arquitetura, folclore, fotografia, gráfica, música, pintura e escultura. Sua sede foi instalada numa sede do edifício dos Diários Associados, na rua 7 de abril, cedida por Assis Chateaubriand.
O endereço do MASP prova que o historiador não exagerou, na entrevista, sobre a amizade entre Ciccilo e Chatô. Outra prova dessa amizade foi a Esplanada do Trianon – o espaço cedido por Assis Chateaubriand para a I Bienal promovida por Ciccilo Matarazzo.
É a autora do livro “Bienal, 50 Anos”, Rosa Artigas que conta:
- “O êxito da I Bienal, apesar de toda a improvisação, mostrou a capacidade de realização de Ciccilo e da equipe do MAM. Ainda sob o impacto do sucesso, já se programava a II Bienal, que viria acontecer no final de 1953, abrindo as comemorações do IV Centenário de São Paulo, sob o comando de Ciccilo Matarazzo, como presidente da Comissão organizadora dos festejos. O local escolhido foi a área do Ibirapuera, na época uma várzea distante e sem nenhuma infra-estrutura urbana”.
“Oscar Niemeyer foi convidado a projetar o conjunto de edificações. Considerando suas dimensões, o Parque, seus edifícios e os jardins de Burle Marx foram construídos em tempo recorde. Dos sete prédios – entre pavilhões e centros de cultura propostos – foram edificados o Pavilhão das Indústrias dos estados e o Pavilhão das Nações, ligados por uma elegante marquise”.
“Considerada uma das mais importantes Bienais, esta 2ª edição reuniu obras dos mais importantes artistas modernos e, como destaque maior, 51 telas, de todas as fases de Picasso, entre as quais Guernica, que, por vontade do pintor, tinha o MoMA como depositário enquanto a Espanha estivesse sob a ditadura franquista. Até então, a grande tela nunca havia deixado Nova York.”
“Em novembro de 1953, a II Bienal começou a ser montada ocupando o Pavilhão das Nações, onde ficaram expostas as representações dos países da Europa e do Oriente, e o Pavilhão dos Estados que recebeu a Mostra Internacional de Agricultura. Eram, no conjunto, 24 000 m2 de exposição. Em 12 de dezembro a mostra foi inaugurada com a representação de 33 países e 3 374 obras”.
“Em 1957, a IV Bienal de São Paulo passou a ocupar definitivamente sua atual sede no Parque Ibirapuera, o Pavilhão Ciccilo Matarazzo”.
Se Ciccilo Matarazzo era um mecenas, era o maior do Brasil, sem a menor dúvida. Assis Chateaubriand, para muitos autores, era um mecenas entre aspas. Esperto, sempre, percebeu, com o fim da Segunda Grande Guerra, o momento de adquirir grandes pinturas de empresários europeus empobrecidos. Adquiriu-as, então, de todo jeito, principalmente com o dinheiro alheio. Resumia a sua filosofia numa frase:
- “Crédito é melhor do que dinheiro; dinheiro acaba, mas crédito a gente sempre estica”.
Assis Chateaubriand foi amigo de Ciccilo, repetimos, mas Chiquinho Matarazzo, que substituíra o grande Francesco à frente do império, o odiava.
- “Na briga entre os dois, a terra tremeu”.- afirmou Ronaldo Costa Couto, enquanto Roberto D' Ávila sorria.
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 346 Data: 12 de dezembro de 2004
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- “Nossa! Vêm por aí mais vinte edições para falar de outro presidente dos Estados Unidos!” - já imagino alguns assinantes exclamando de mãos na cabeça.
Acontece que chegou uma carta no Departamento de Divulgação do Biscoito Molhado indagando se é mesmo verdade que as molas de um colchão contribuíram para morte de um presidente dos Estados Unidos.
Prometemos tirar essa dúvida com apenas esta edição. Dito isto, vamos em frente.
Tudo começou em 2 de julho de 1881, numa estação da estrada de ferro de Washington, quando o presidente eleito pelo Partido Republicano, James Garfield, foi alvejado pelo disparo do revólver de um advogado. Esse advogado, chamado Charles Guiteau, alegou a promessa de um emprego específico feita pelo presidente e não cumprida, como o motivo do seu gesto tresloucado. Verdade ou não, os estudiosos afirmam que esse atentado contribuiu para a aprovação, dois anos depois, da primeira lei abrangente do serviço civil, a Lei Pendleton.
Concluirá, talvez, um ou outro leitor:
- “Nos Estados Unidos tudo é motivo para se matar o presidente; até não entrar pela janela no serviço público”.
O presidente não morreu no dia em que recebeu esse tiro, nem nesse mês, nem no mês seguinte. James Garfield possuía a pele escarmentada de quem lutara na Guerra da Secessão e de quem exercera sucessivos postos militares na Brigada de Middle Creek. Antes, graduara-se no Williams College de Massachusetts para se tornar professor de línguas clássicas no Eclectic Institute, em Ohio. Lá, conheceu a sua futura esposa, a estudante Lucretia Rudolph, com quem teve sete filhos mesmo com uma Guerra Civil no meio do casamento.
Depois da guerra, James Garfield seguiu a carreia política, elegendo-se senador por Ohio. Indicado pelo seu partido nas eleições presidenciais de 1880 derrotou por uma quantidade mínima de votos o canditado democrata, General Winfield Scott Hancock. Empossado em 1881, a sua popularidade cresceu, pois atacou de imediato a corrupção política. E, como vimos, com pouco mais de sete meses no cargo, recebeu um tiro disparado por um advogado.
A bala se alojara no tórax, mas não se sabia o local com precisão. Se penetrara em algum órgão, fazia-se necessária a cirurgia, se não, podia-se aguardar a recuperação do paciente. A localização exata da bala era, portanto, fundamental. Nessa época, recorria-se à sondagem manual no corpo, o que contribuiu para inúmeras mortes por infecção de pessoas baleadas. O Raio-X só seria descoberto quatorze anos depois do atentado à vida do presidente James Garfield. Cabem aqui algumas palavras sobre a descoberta, por acaso, dessa preciosidade para a vida humana.
Na tarde de 8 de novembro de 1895, o físico Wilhelm Conrad Roentgen, reitor da Universidade de Wurzburg, na Alemanha, fazia pesquisas no laboratório da sua casa com o tubo de raios catódicos inventado pelo inglês William Crookes, quando reparou num brilho muito estranho. Enfurnou-se durante seis semanas no seu laboratório para estudar esse brilho estranho, que era uma radiação, que atravessava livros, folhas de alumínio e outras barreiras que ele interpunha entre o tubo e uma placa de material fluorescente. Finalmente, no dia 22 de dezembro, chamou a sua esposa e cobaia, Bertha. Chamou-a e fez, durante 15 minutos, a radiação atravessar a sua mão atingindo, do outro lado, uma chapa fotográfica. Revelada a chapa, viu as sombras dos ossos da mão da sua mulher – era a primeira radiografia da história. Via-se o invisível. Fascinado, mas ainda confuso, Roentgen chamou os raios da sua descoberta de “X”, que é o símbolo da ciência para designar o desconhecido.
Seis dias depois de radiografar a mão da esposa, Roentgen apresentou o seu achado na Universidade de Wurzburg. O fato chegou à imprensa e ver o próprio esqueleto passou a ser o sonho de consumo de todos os alemães. Já no ano seguinte, 1896, os médicos adotavam o Raio-X.
Porém em 1902, nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova Jersey, um grupo de deputados, defensores da moralidade e dos bons costumes, tentou proibir o Raio-X sob a alegação de que essa radiação permitia a qualquer um ver os corpos nus de quem passasse pelas ruas.
Mas é hora de voltarmos ao agonizante presidente James Garfield.
Existisse o Raio-X já em 1881 e o projétil no tórax do presidente seria visto, apesar dos moralistas americanos; como não existia, o drama se intensificava.
Nos dois meses de padecimento do presidente James Garfield– de 2 de julho a 19 de setembro de 1881, quando faleceu – a cobertura jornalística foi considerada impressionante e selvagem. Curandeiros, pajés, charlatões, rezadores, inventores, ficcionistas, médicos e aproveitadores em geral apresentaram mil palpites para salvar a vida do presidente. As redações dos jornais recebiam um volume inacreditável de cartas dessa gente; e muitas delas eram publicadas. No meio de todo o corre-corre para salvar o presidente, um cidadão de Baltimore, chamado Simon Newcomb, declarou ao jornal Washington National Intelligencer, que fazia experiência de eletricidade em bobinas. Ressaltou que um desses solenóides, conduzindo corrente, quando próximo a um pedaço de metal, produzia um zumbido tênue, quase inaudível, e que, afastando a bobina do metal, o zumbido sumia. Em Boston, Graham Bell lera a matéria, e concluiu que o telefone, seu recente invento, poderia ampliar esse zumbido e localizar com precisão a bala no tórax do presidente. Telegrafou então, para Newcomb e, em seguida, partiu para Baltimore.
Deram os dois então início aos trabalhos: montaram um aparelho que consistia de duas bobinas de fio encapado, uma bateria, um interruptor e o telefone. Uma das bobinas ficava na ponta de uma varinha, que agia como detector. Quando aproximavam um diminuto metal do implemento, o telefone de Graham Bell acusava logo com um claríssimo zunido. Constataram também a sensibilidade do detector: 12 centímetros. Não tinha erro.
Testaram o aparelho com balas deflagradas e não deflagradas escondidas na boca, nas axilas e nas virilhas deles mesmos, e tudo deu certo. Foram, em seguida, para um hospital de veteranos da Guerra Civil, onde muitos tinham balas encravadas em diferentes partes do corpo, e novo sucesso. Aprovado o invento, a missão agora era salvar o presidente.
No dia 20 de julho, dezoito dias depois do atentado, portanto, Graham Bell, seu assistente e Newcomb se encontravam junto ao leito de James Garfield. O enfermo, já vulnerável, com a expressão assustada, temia ser eletrocutado pelo invento, enquanto acompanhava com os olhos esbugalhados o percurso da varinha milagrosa. Algo, no entanto, dava errado: o zumbido no telefone se avolumava independente da parte do corpo do presidente próxima ao detector. Tentaram eles outras vezes mais, até a exaustão, e sempre dava errado. Foram, então, convidados a retirarem-se do quarto do presidente.
Os invejosos aproveitaram para tachar Graham Bell de incompetente, de um charlatão em busca de publicidade. Recusando-se a aceitar aquele aparelho como uma geringonça, Graham Bell o desmontou todo, para depois remontá-lo, certificando-se de qualquer mau-contacto. Voltou às experiências com veteranos de guerra com balas pelo corpo e novo sucesso.
Depois de muitas dificuldades, conseguiu convencer as autoridades da Casa Branca a deixá-lo tentar novamente. No dia 31 de julho, Graham Bell, Tainer, seu assistente, e Newcomb estavam de novo próximo ao leito do presidente que, de novo, temia que a sua morte fosse antecipada por um choque elétrico. Novo fracasso. Bastava aproximar a varinha do presidente e o aparelho zumbia loucamente. Foram os cientistas quase que expulsos da Casa Branca. O fracasso agora era definitivo. Cinqüenta dias depois dessa tentativa, terminava o sofrimento do presidente James Garfield. Morria no dia 19 de setembro.
Muito tempo se passou até que alguém se desse conta do motivo de o aparelho de Graham Bell e Simon Newcomb só desatinar com o presidente dos Estados Unidos: a Casa Branca fora um dos primeiros lugares do mundo a usar um produto novíssimo para o conforto das pessoas: o colchão de mola.
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 285 Data: 14 de setembro de 2004
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3003CC Data: 8 de outubro de 2022
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O CATADOR DE LIXO
Quando Collor assumiu e falou-se em feriado bancário, pensei logo em zerar minha conta no Bradesco, onde estava com o dinheiro aplicado no Overnight. A inflação era alta naqueles tempos e era a maneira mais simples de não se perder tanto, só que por diversos motivos, resolvi não mexer na aplicação.
Decretado o feriado bancário, Collor aparece na Tv com seu pronunciamento anunciando o confisco, nos deixando com 50 pratas no banco. Imediatamente começaram discussões políticas no setor onde trabalhava em Furnas, alguém levara um aparelho de tv e acompanhamos tudo.
Resolvi decretar o meu feriado, peguei minha CB-400 e fui para casa. Naquele tempo morava no Humaitá. Peguei a Visconde de Caravelas e ao virar à direita na General Dionísio me deparei com o trânsito interrompido por um caminhão de lixo. Aproveitei o espaço entre o caminhão e os carros estacionados e passei devagar, mas só que o catador de lixo que pesquisava na caçamba se assustou e começou a me ofender aos berros.
Parei a moto, tirei o capacete e comecei a acalmar o cidadão, que dizia não ter medo de nada, que o irmão fora assassinado pela PM e coisa e tal. Claro que juntou gente para assistir àquele verdadeiro espetáculo, só que felizmente o rapaz foi se acalmando e terminou por me pedir algum para comer.
Foi quando outro catador de lixo se aproximou e disse “Esquece, meu irmão, o homem tirou toda a grana dele, só ficou com cinquenta pratas no banco. Sai de perto porque ele vai acabar te pedindo algum”. Foi uma gargalhada geral! Pelo menos diminuiu minha frustração e fui rindo até chegar em casa.
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3002D Data: 8 de outubro de 2022
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TRINTA E SEIS ANOS
Fiquei fora do Brasil durante 36 anos. Dividida entre as carreiras de médica e pianista, abandonei a primeira ainda no quarto ano da universidade, em benefício da música, o que desgastou o meu relacionamento familiar irremediavelmente, porque aqui todos gostariam de me ver sucedendo meu pai. Mas não voltei antes ao Rio porque não quis, pois, apesar dessa frustração, todos sempre fizeram de tudo por mim.
Eles me prepararam para a música clássica, seguindo o raciocínio natural da época - mulher deve tocar piano e ser professora primária. Quando perceberam, eu estudava medicina e continuava com o piano também. Em 1935, passei por um dificílimo concurso, que me dava o direito de me aprimorar na Europa, em Viena; nem pestanejei, tranquei a matrícula da medicina e prometi voltar...
Casei em fevereiro de 1936 com um maestro austríaco e fiquei. Foram dois anos esplêndidos, até a anexação à Alemanha. Então a regra passou a ser: quem está fora, não entra e quem ficou dentro, não sai. Minha família moveu céus e terras, getúlios, embaixadores, generais e marechais para obter um indispensável salvo-conduto. Pensei bem e fiquei lá mesmo, achando de verdade que não haveria a guerra que houve. Afinal, a história da noviça rebelde só seria contada muito tempo depois. Comecei a me assustar quando umas figuras um tanto sinistras resolveram perguntar aqui e ali por que eu me chamava Ester e de onde eu vinha. Ou bateram de cara com meu salvo-conduto, ou arranjaram ocupação, mas o fato é que me deixaram tocar piano em paz.
Quando me batizaram, era comum o uso de nomes ou antigos, ou bíblicos, como o meu, Raquel, Judith, nomes que eram usados muito comumente pelos judeus, que já tinham sofrido ao longo dos séculos, inúmeras perseguições, mas nada parecido, nem a mim tão próximo, com o que viria acontecer.
Entre 38 e setembro de 39, podíamos passear à vontade, desde que não passássemos dos limites da Alemanha e da Áustria, mas a guerra impôs restrições ao uso do combustível e ficamos muito mais em casa, meio sem o que fazer e meio sem o que comer, A mim pouco afetou, mas Karl perdeu 30 de seus 110 quilos com esse novo regime.
Atrapalha muito numa guerra dessas proporções não ter uma profissão de uso imprescindível, como médicos ou professores e comecei a refletir se não teria sido melhor se estivéssemos no Brasil. Essas minhas decisões impetuosas começavam a pesar na minha consciência, até então juvenil e aventureira. Acabei me oferecendo para trabalhar em um hospital próximo pelo resto da guerra e cheguei a repensar o tema da escolha da profissão, mas, quando acabou, voltei ao piano e foi certo, pois nunca mais passei por outra guerra.
Melhores tempos, melhores salários, um Porsche creme na garagem, um carro super resistente que rodou a Europa toda sem pedir refresco, nem agasalho. A cor bem clara era um contraste com as velharias escuras a que tínhamos nos acostumado.
Mas tudo dura e acaba e um dia Karl ligou o carrinho bem cedo e levou tudo que era dele. Ora, fiquei pensando, já lá estava há 22 anos e não haveria de ser agora que eu voltaria correndo para o colinho da mamãe... nada disso, continuei fazendo tudo igualzinho. De início, para me esquecer do verme, mas logo percebi que as coisas melhoravam pouco a pouco, e depois, muito a muito. Não é que o Karl só atrapalhava?!
Em 59 eu já tinha um Mercedes esporte, comprei usado, vermelhinho com bancos pretos, uma graça e, um dia, passei pelo Karl ainda com o Porsche, de pneu furado e já meio acabado; aliás, ambos. Empinei meu Ray-ban na ponta do nariz, ajeitei o lenço também vermelho e preto, enquanto jogava uma segunda para rosnar como só os carros alemães rosnam e passei acelerando.
Mal deu pra ver que o verme tinha um petizinho que estava com uma mamãezinha... aí a visão da criança mexeu comigo. Chegando em Florença em belíssimo dia, escolhi um cartão postal cheio de cores renascentistas e escrevi carinhosamente, me desculpando por não ter ajudado.
Fui trocando de Mercedes, sempre duas portas, sempre dois lugares, onde poucos sentaram até 72. Já era hora de me aposentar e podia muito bem rever a família. Cheguei gritando papai e mamãe no meio do Galeão, todo mundo olhando a grisalha senhora que parecia órfã a se reunir com os velhinhos.
Fomos para casa no Itamaraty do papai. Fiz questão de decorar o nome pomposo do carro, pois ali mesmo já começava a sentir saudade de casa. Era o tempo do milagre brasileiro, dos reflexos do tri-campeonato e do fim da guerrilha urbana, mas nada disso me iludiu, peguei um Boeing dois meses depois.
Meus 36 anos musicais terminam aqui. Teve de tudo, guerras e guerrilhas, promessas em vão, correrias e investigações, estagnação, meditação, muita música, Porsches, Mercedes e Itamaraty. Penso nas minha sobrinhas no velhor sofá vendo novela, na mesma casa em que tramei, solitária, um enredo difícil de engolir, fácil de fazer, delicioso de viver.