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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

2509 - Biscoito rastreado

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4309                            Data: 08  de novembro  de 2013
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170ª CONVERSA COM OS TAXISTAS
Antes de entrar no táxi do Botafoguense, fiz um desafio a mim mesmo: por quanto tempo eu conseguiria evitar que ele falasse de futebol?
-Vinha lendo no metrô uma reportagem sobre o Roberto Carlos... -disse-lhe (mentira minha, na verdade, eu fazia palavras cruzadas).
-Minha mulher gosta do Roberto Carlos, assiste àquelas apresentações dele de fim de ano na televisão. Eu não gosto, são canções melosas...
-Xaroposas. - tonifiquei a sua crítica.
 -Ele é capixaba, de Cachoeiro do Itapemirim.  Conheço a cidade.
-Eu lia sobre o posicionamento dele contrário às biografias.
-Que vá lamber sabão! Não queria que falassem do acidente com a perna dele?... Todo o mundo já sabe. - indignou-se.
-Argumenta, com outras palavras, que apenas ele sabe o que se passou e, por isso, outra pessoa, no caso um biógrafo,  não seria capaz de descrever esse drama.
-E o que você pensa?- surpreendeu-me com a pergunta.
-Muitas celebridades se apoiaram em mestres da redação de textos para fazer a sua biografia. Eu penso que o Roberto Carlos é muito pretensioso, pois ele não é um mestre das palavras para reproduzir acontecimentos com todo o seu impacto, mesmo os que ele viveu.
Não era a hora, mas eu pretendia reforçar meu entendimento comparando a autobiografia do Charles Chaplin com a biografia sobre ele elaborada pelo psiquiatra Stephen Weissman, para afirmar que toda a atribulada e miserável infância e adolescência do gênio do cinema foram reproduzidas com muito mais realismo e pujança por este biógrafo.
-Roberto Carlos não é o rei?... julga-se, então, acima dos súditos. - comentou.
-O problema é esse: ele se julga, de fato, rei. O sucesso faz com que muitos  artistas  percam a noção da realidade.
-Com jogadores de futebol, existe um caminhão de exemplos. - interveio.
Reportei-me ao meu desafio, constatando que conseguira um bom tempo sem que o assunto descambasse para o futebol.
E prosseguiu:
-Veja o Ronaldo Fenômeno: fez programa de sexo e droga com travestis, a imprensa do mundo inteiro divulgou e ele foi prejudicado por isso?
-Na época, ouvi o Carlos Heitor Cony garantido que esse caso não respingaria no renome dele e julguei que não: o ídolo do futebol estava acabado. Nada; o Cony estava inteiramente certo. 
-Ronaldo é tão considerado quanto antes; é até representante do Brasil na FIFA, garoto-propaganda que embolsa milhões de reais. - cortou-me.
-E ele ainda dá opiniões idiotas sobre a destinação do dinheiro público. - emendei.
E, enquanto pagava a corrida até a Rua Modigliani,eu disse:
-E alguns artistas ainda pensam que vão ser abalados por biografias...

Se o Botafoguense não consegue ficar dez minutos sem falar de futebol, o Vereador, do táxi 184, não consegue ficar dez segundos sem falar de política. Assim, não me propus a fazer um desafio parecido como o do taxista anterior e entrei logo no assunto mal pisei o assoalho do seu carro.
-E o furto das vigas da Perimetral?
-Você tem dúvidas?... Foi a Prefeitura.
-Logo na primeira fase da demolição da Perimetral furtaram cinco vigas. - expressei o meu espanto.
-Não há dúvida alguma, foi a Prefeitura. O Porto Maravilha nada tem a ver com isso.
-Acredito na inocência do porto do Rio de Janeiro, pois eles têm de tirar de lá doze guindastes desativados e não conseguem e ainda vão pegar cinco vigas da Perimetral,  então...
Deixei a ênfase do meu comentário nas reticências.
 -Como é seu nome?
-Carlos. - respondi surpreso, pois era o primeiro taxista da cooperativa que, depois de três anos, queria saber o meu nome.
-Carlos, veja se é possível alguém levar de um terreno do Caju uma viga de 20 toneladas sem ninguém ver?... E não foi uma, foram cinco vigas. Furtaram 100 toneladas e ninguém viu?... Ninguém sabe onde estão essas vigas?... Eu não nasci ontem. Isso é outra falcatrua em que o prefeito está medido.
-Cada viga tem 40 metros de comprimento. Irregularidades desse tamanho e peso só acontecem em países à beira do abismo. - observei.
-Você sabe, Luís...
-Carlos.
-Você sabe, Carlos, quanto vale cada viga dessas?
Era uma pergunta retórica.
-Dois milhões e meio de reais. Multiplique isso por cinco.
-Dá mais de doze milhões. - aproveitei a pausa da sua fala com veemência de discurso para responder.
-Mas ainda há muita coisa a ser demolida da Perimetral.  São mais de quatrocentas vigas. Multiplique quatrocentos por dois milhões e meio.
-O senhor acha que vão furtar todas as vigas?
-Carlos... É Carlos o seu nome, não é?
Depois de eu confirmar com a cabeça, ele foi em frente.
-Carlos, essa Prefeitura do Rio de Janeiro é capaz de tudo.
E arrematou:
-Isso vai acabar quando eu me eleger vereador nas próximas eleições.
Meu Deus do céu! Só não levei as mãos à cabeça porque estava com o dinheiro na mão para pagar a corrida.

Paizão... Descobri por colegas dele que se chama Demerval, quando completou recentemente 80 anos de idade, mas prefiro tratá-lo de Paizão.
-Ontem, estavam dois no banco de espera, quando veio um táxi, tive de esperar o seguinte.
-Quando o itinerário dos dois coincide, eu me entendo com o passageiro que chegou primeiro e levo o outro também que, assim, não fica tomando chá de cadeira.
-Sei disso; o senhor já fez isso comigo, depois de confabular com a senhora que ia para a Rua Honório.
-Alguns não gostam; acham que é lotada.
E é lotada. - pensei, mas sem me manifestar.
-Eu vejo o que é melhor para o cliente, pois você sabe que já estou aposentado e só trabalho quatro horas por dia para me manter em atividade, o dinheiro já fica em segundo plano para mim.
-Eu tenho uma amiga de trabalho que mora em Campo Grande e se desloca para o Centro de lotada. Na volta para casa, ela, às vezes, pega um ônibus no Terminal Menezes Cortes.
-Uma corrida de táxi de Del Castilho até Campo Grande fica em 90 reais. Meus colegas disputam uma médica que para lá vai todos os sábados, mas eu estou inteiramente fora dessa disputa. Já foi tempo.
-Minha amiga paga 10 reais de lotada.
-Uma pechincha. -reagiu.
-A volta dela se tornou problemática, pois os assaltantes de ônibus voltaram a atuar constantemente na Avenida Brasil.
-Sei disso.   
E prossegui:
-Ouvi, ontem, no noticiário que houve um assalto de ônibus na Avenida Brasil e levaram vários relógios, celulares, dois ”tablets”, dinheiro...
-Esses bandidos fizeram a festa. - interrompeu-me.
-Não por muito tempo; foram todos agarrados pela polícia no Viaduto Negrão de Lima.
-Como?
-Um dos Iphones roubados tinha rastreador.
Enquanto ele soltava uma gargalhada de satisfação, eu comentava já na Rua Modigliani:

-Bandido tem de estar, também, em dia com os avanços tecnológicos.

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