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quarta-feira, 17 de maio de 2023

3136 - (R) O Circo do Carequinha atormentava O Biscoito

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O BISCOITO MOLHADO
   Edição 2250                                  Data: 26 de Janeiro de 2005       
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AS PROPAGANDAS DA TELEVISÃO

Não sei se algum assinante do Biscoito Molhado que viu televisão na época em que só existia a TV Tupi se recorda: os comerciais entre um programa e outro duravam, às vezes, mais de meia hora. Dá para lembrar, afinal não faz tanto tempo assim; ainda estão hoje, serelepes, alguns artistas que atuaram na primeira transmissão ao público da televisão brasileira, como: Lima Duarte, Hebe Camargo, Cassiano Gabus Mendes, Lolita Rodrigues. O programa de estréia foi “TV na Taba”, e dele também participaram, além dos citados: Mazaroppi, Walter Forster, Lia de Aguiar, Ivon Cury e Wilma Bentivegma. 

O pioneiro Assis Chateaubriand trouxera a parafernália transmissora de imagens e um receptor para o Brasil, em 1950, mas faltava um pequeno detalhe: os aparelhos de televisão para se assistir os programas a começar com o “TV na Taba”. Ele não teve, então, dúvidas; trouxe duzentas televisões contrabandeadas, deu uma para o presidente Eurico Gaspar Dutra que, no Rio de Janeiro, não poderia sintonizá-la, pois as transmissões só aconteciam em São Paulo e as demais televisões, Assis Chateaubriand ordenou que fossem instaladas em pontos movimentados de São Paulo.

A televisão só chegou ao Rio de Janeiro quatro meses depois da inauguração da TV Tupi de São Paulo, mais precisamente em janeiro de 1951. Assim, o aparelho de televisão que Eurico Gaspar Dutra ganhara de presente passava a ter serventia, embora ele tivesse que entregar logo o cargo (não a televisão), ao presidente eleito, Getúlio Vargas.

Mas o assunto deste periódico é a propaganda nas emissoras televisivas, não a sua história. Foram muitas as propagandas, principalmente nos primeiros anos, quando Assis Chateaubriand monopolizava os meios de comunicação. Uma concorrente da TV Tupi, aqui no Rio de Janeiro, a TV Rio, apareceu alguns anos depois, ainda assim os intervalos comerciais eram eternos. 

O ano eu não me recordo, mas o programa sim, “O Circo do Carequinha”, com Fred, Zumbi e o anão Meio-Quilo; eu, diante da televisão da minha avó, que era a isca que me levava a fazer-lhe companhia nas minhas folgas escolares e nada de o palhaço aparecer: anúncios, anúncios e mais anúncios por quase uma hora. Tempos depois, eu soube o porquê: era o Assis Chateaubriand faturando.

Havia anúncios, no entanto, que eu gostava, como os das Gotinhas da Esso do noticiário “O Repórter Esso”. Uma das Gotinhas possuía os trejeitos femininos, enquanto a outra, masculina,  soltava o vozeirão para cantar “Só Esso dá ao seu carro o máximo”. A melodia era da Canção de Escamilo, da ópera Carmem de Bizet. Quem emprestava a voz à Gotinha da Esso era o tenor Assis Pacheco, informou-nos, dia desses, o Sérgio Fortes por meio de um correio eletrônico enviado à redação do seu O Biscoito Molhado. Colocaram um tenor para cantar uma ária de barítono, mas tratando-se de comercial, tudo era válido.

Quando a Esso trocou as Gotinhas pelo Tigre a decepção me atingiu. Antes, eu suportava bem a voz indignada do Gontijo Teodoro informando sobre mais uma manifestação dos comunistas da CGT, porque as Gotinhas logo surgiriam; depois não, eram as más notícias com um Tigre, no intervalo, para acentuar que vivíamos numa selva.

Nessa época da televisão, a marca da propaganda já vinha anexada, muitas vezes, no nome do programa: “Repórter Esso”, “Teatro Walita”, “Teledrama Três Leões”, “Espetáculos Tonelux”, “Cine Max Factor”, Boliche Royal”, “Sabatinas Mayzena”, “Concertos Matinais Mercedes Benz”, “Grande Gincana Kibon”, “Divertimentos Ducal”, “Histórias Maravilhosas Bendix”, “Mappin Movietone”, “Teatrinho Trol”, “Circo Bom Bril” “Patrulheiros Toddy”, “Tele-Rio Times Square”, “Grande Resenha Facit”, e por fim,  “Jornal Nacional” (O “Nacional” vem do extinto Banco Nacional, o primeiro patrocinador desse noticiário).

A inauguração da primeira TV no Brasil, e em toda a América Latina, a Tupi, fora custeada por quatro empresas: Sul América de Seguros, Moinho Santista, Antarctica e Empresas Pignatari. Como retorno desse financiamento, foram cedidos espaços para a divulgação de produtos dessas empresas. É neste cenário de interdependência, de imagem e mercadorias, que a TV brasileira nasceu e sobrevive até hoje. Mas retornemos às propagandas televisivas propriamente ditas.

Uma das melhores, era a da Bardahl. Fosse eu um garoto que já não ficasse grudado na televisão, e deixaria uma recomendação urgente, urgentíssima, caso tivesse de me ausentar da sala:
- “Me chamem assim que aparecer o Chico Válvula Presa.”
Mal surgiam na telinha da televisão aquelas figuras sinistras, Chico Válvula Presa, Clarimunda, Carvãozinho e a sua Turma Brava, e os carros logo correriam sérios riscos de vida - não andariam mais meio metro. Vinha, então, o detetive Bardahl, com aquele capote à la Sherlock Holmes, e colocava os bandidos em fuga com uma lata na mão:
“Tudo anda bem com Bardahl”.
Aprendo agora que o nome Bardahl veio de um imigrante norueguês que vivia em Seattle, chamado Ole Bardahl.  Insatisfeito com o mau desempenho dos motores, por volta de 1939, ele resolveu por em prática os seus conhecimentos de química fina e mecânica.  Debruçado sobre o problema, concluiu que a lubrificação obtida pelos óleos utilizados no cárter era insuficiente no atendimento às necessidades dos motores. Essa insuficiência se refletia no estrangulamento da performance dos veículos. É nesse momento que entram em ação Chico Válvula Presa, Clarimunda, Carvãozinho e a sua Turma Brava. Assim mostrados, em figuras com movimento e voz, todos entendiam, até os garotos como eu. Esses “bandidos” representavam – o que ficaria sem graça alguma, se fosse dito em palavras – a incapacidade de os óleos lubrificantes, até então, de reduzirem o atrito entre as partes móveis do motor, com isso, o movimento dos pistões alargavam a circunferência das camisas, o que provocava redução da compressão, maior gasto de combustível e perda de potência. 
(Maiores dúvidas sobre este assunto, telefonem para 25089059, que o Dieckmann, além de entender mil vezes mais do que eu, possuiu carros da época das experiências, vítimas do Chico Válvula Presa e comparsas). Concluindo esta parte: ele, Ole Bardahl, criou então, um aditivo que diminuía o atrito e o desgaste, aumentando a vida útil das peças.
- “Tudo anda bem com Bardahl”.

Foi este comercial que, juntamente com as Gotinhas da Esso, mais marcou a minha memória das propagandas da  televisão.
Conheço alguns sessentões que garantem, hoje, que, nos “Espetáculos Tonelux”, o estalar de dedos da Neide Aparecida, acompanhado da sua voz que dizia “Toooooo-neeee-lux”, era de um apelo erótico irresistível. Não me recordo... Bem, nessa época eu ainda era um garoto meio bobão, que ainda assistia o “Circo do Carequinha”.


quinta-feira, 27 de abril de 2023

3135 - Cadê Maria Teresa? (R)






O BISCOITO MOLHADO

Volume 1 Edição 1686                  Data: 11  de Setembro de 2002 

INTRODUÇÃO

De um encontro do presidente João Goulart com as lideranças sindicais, surgiu a idéia da convocação de um ato público, onde o presidente buscaria o apoio popular para o seu programa de reformas de base. Além disso, o objetivo era pressionar o Congresso a aprovar os projetos desse programa, com essa manifestação. O comício seria promovido pelas lideranças sindicais; e o local da realização do mesmo teria de satisfazer as exigências das grandes concentrações populares, ou seja, com fácil acesso e escoamento para os subúrbios. Escolheram, então, a praça Duque de Caxias, ao lado da estação Pedro II, margeando o Ministério da Guerra. Data: 13 de março de 1964 às 17 h 30 min. 
O anúncio da presença de líderes populares como Brizola e Miguel Arraes era sintoma de disputas com o presidente João Goulart de prestígio junto às massas. O clima era tenso. O próprio Miguel Arraes, há poucos dias, em São Paulo, não conseguira entrar pela porta da frente de um estúdio de televisão para pregar a reforma agrária, porque um grupo de católicos se ajoelhara, impedindo a sua passagem. Enquanto isso, Brizola inflamava cada vez mais os seus discursos. 
No dia 12 de março, houve uma tentativa de incendiar o palanque armado, o que confirmava as denúncias que grupos da extrema direita tentariam impedir o comício. E também o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, procurava, de todas as maneiras, colocar obstáculos no trânsito para a Central do Brasil, principalmente de ônibus vindo dos subúrbios e de outros Estados do Brasil.

NO COMÍCIO DA CENTRAL

No dia 13 de março de 1964, às 17h e 30 min, no meio de 200 mil pessoas, na Central do Brasil, lá estavam o redator-chefe do Biscoito Molhado e o Dieckmann.
- “Loucura nós virmos, hein Dieckmann.”
- “Onde está a Maria Teresa Goulart, eu estou.”
- “Mas ela não vai cantar... Nem mesmo a Emilinha Borba e a Marlene vão cantar aqui.”
- “Então por que você veio?”
- “Ora, Dieckmann, pretendo mais tarde abrir um jornal, por isso eu tenho de ser testemunha ocular da história, como o Repórter Esso, sempre que preciso.”
- “Espero ser a personalidade mais retratada nesse seu jornal.”
- “Te compreendo, Dieckmann; e espero vender mais do que a Tribuna da Imprensa do Carlos Lacerda.”
Fomos interrompidos por um bando que bradava palavras de ordem:
- “Cunhado não é parente: Brizola pra presidente.”
O tumulto foi tamanho, que o redator-chefe do Biscoito Molhado se afastou com uma perna só, pois segurava a outra, o que preocupou o seu amigo:
- “O que foi?”
- “Alguém desse bando pisou no meu pé. Acho que foi o Brizola”
- “Ele pisa até no pescoço da mãe para ser presidente.” – concluiu o Dieckmann. 
Enquanto o tumulto crescia, Dieckmann lembrou-se da Glória.
- “Ela não vem?”
- “Ela ficará em casa, com uma vela acesa, na vigília pela democracia, enquanto durar o comício.”
- “Mas quem vai fazer esse protesto é o pessoal da zona sul, instruído pelo governador Lacerda, a Glória é tijucana.”
- “Você sabe, Dieckmann, ela é meio bestinha, ainda mais agora que cisma que provocou uma briga entre o Colégio Militar e o Pedro II por causa de dois namorados dessas escolas. Como se ela fosse a Helena de Tróia, que causou a guerra entre gregos e troianos.”  
Dieckmann já não mais atentava para as palavras do redator-chefe do Biscoito Molhado, pois se fixara no sujeito que esbravejava um discurso.
- “Olha aquele louco.” – apontou.
- “É o presidente da UNE; um tal de José Serra.”
- “Maldito comunista!”
- “Fala baixo, Dieckmann. Vão pensar que nós somos do MAC -o Movimento Anti-Comunista.”
 - “Mas ele carrega muito no vermelho. Te garanto uma coisa: esse cara nunca pegaria um filho meu no colo, muito menos um neto meu.”
- “Ele é bem mais velho que você. Você é um pirralho. Fica tranqüilo que isso é biologicamente quase impossível.”
Depois de a sua voz ser abafada pelo alarido da multidão, o futuro redator-chefe do Biscoito Molhado acrescentou:
- “Você, Dieckmann, é lacerdista, e se mete neste comício... só vai ter contrariedades.”
- “Olha as faixas.” – apontou o Dieckmann.
Legalidade para o Partido Comunista. Lacerda traidor da pátria. Reeleição de Jango. Fora os Yankees. Morram os gorilas. Lincoln  Gordon, lacaio do imperialismo.
 - “A Maria Teresa Goulart merece esse sacrifício.” - suspirou o Dieckmann.
- “Eu não entendo como ela vem parar aqui. Tem de tudo por aqui até aquela gente das ligas camponesas do Francisco Julião.”
- “Maria Teresa é o toque de ternura no meio da violência.”
Depois da poesia, Dieckmann foi mais realista:
- “Os organizadores do comício solicitaram a presença dela para abrandar o acontecimento do áspero aspecto político.”
- “Que bagunça!” – exclamou o redator-chefe do Biscoito Molhado, olhando em redor.
- “Parece a economia do país.” – comparou o Dieckmann.
- “É a conta pela construção de Brasília chegando. João Goulart ainda colocou o Celso Furtado para tocar o Plano Trienal e combater a inflação. Como?... O país é o próprio caos. O Goulart já não queria que a emenda do parlamentarismo desse certo...”
- “Temos de reconhecer: o parlamentarismo foi imposto.”
- “Tudo bem, Dieckmann, mas escolher Brochado da Rocha para primeiro-ministro... Esse nome não levanta o país. Bem, águas passadas; retornamos ao presidencialismo desde janeiro do ano passado.”
- “O que você pensa do Celso Furtado?”
- “O mesmo que o Eugênio Gudin; com a imaginação que ele tem, deveria ser romancista. Não vai resolver inflação nenhuma.”
- “Aquele cara ainda está perto dos maiores subversivos, no palanque.” – indicou o Dieckmann.
- “Quem?”
-“Aquele que eu disse que nunca pegaria um neto meu no colo.”
- “Ah, o José Serra?”
- “Quem?!...”
- “O presidente da UNE. O Cruzeiro, aliás, fez umas piadas com o Lacerda pegando uns rebocos no chão de uma dessas Obra do Governo Carlos Lacerda, dizendo: Essa UNE me dá um trabalho.” É o José Serra.”
- “Daqui a pouco a Maria Teresa  chega com o marido mancando.”
- “Ele manca porque foi baleado no joelho por um marido corno.”
Dieckmann discordou dessa versão criada pela oposição e retransmitida pelo redator-chefe do Biscoito Molhado:
- “Que eu saiba, João Goulart, quando rapazinho, jogou pelo Internacional de Porto Alegre quando estuporou o joelho.”
- “Olha:  o homem é um garanhão do sul, além de latifundiário. Ele fornicava as vedetes do teatro rebolado e, certa vez, porque a Angelita Martinez do Mané que nasceu em Pau Grande...”  
Dieckmann interrompeu:
- “Sei da história; porque a Angelita Martinez não abriu a porta, ele a abriu à bala.”
- “Que presidentes o Brasil tem, Deus do céu! Juscelino gastou o dinheiro que o país não tinha; João Goulart dá tiro nos camarins de vedetes do teatro rebolado... Dieckmann, daqui a quarenta anos, eles serão execrados pela história.”
- “Rapaz, eles até podem ser endeusados daqui a quarenta anos, basta para isso que se tornem mártires.”
- “Mas que estupidez humana os tornaria mártires?”
- “A ditadura. Você já viu algo mais estúpido do que a ditadura?”
- “Pelo que vemos, Dieckmann, a ditadura, se sair, é da esquerda. Ouça só o Brizola; perto dele o Fidel Castro é menininho de primeira comunhão.”
Brizola usava a mesma retórica vibrante com que ergueu o povo gaúcho em torno do palácio Piratini, por ocasião dos boatos de bombardeio de Porto Alegre, quando a intransigência militar não permitia que o vice-presidente da República do Brasil, seu cunhado, tomasse posse com a renúncia de Jânio Quadros.
- “A coisa vão pegar fogo, Dieckmann. Vamos embora.”
- “Eu não saio sem um autógrafo da Maria Teresa Goulart.”
- “Mas você não tem o da Jayne Mansfield, a peituda?!... Contente-se com esse autógrafo.”
- “E quem te disse que eu tenho? Na hora em que ela ia me dar o autógrafo no baile de carnaval do Municipal, puxaram o laço da fantasia dela que cobria a peitaria; o marido, então, o Mister América, saiu distribuindo porrada pra tudo que foi lado. Fiquei sem o autógrafo e quase sem a cabeça.”
O redator-chefe do Biscoito Molhado olhava a baderna que crescia assustadoramente com a voz flamejante do Brizola.
- “Agora é pior, Dieckmann. Mil comunistas são mais perigosos que dez mil Mister América furibundos. Vamos embora.”
 - “Esperamos até agora. Falta pouco. Depois do Brizola, virá o presidente.”
- “E a coisa começou há cinco e meia da tarde... Parece que foi ontem. Imagino a Glória, lá na Tijuca, acendendo vela na vigília pela democracia. Já deve estar na décima vela.”
Ouviu-se, de repente, um urro sobre-humano. Por momentos, Dieckmann esqueceu-se da Maria Teresa Goulart.
- “O que foi? Tocaram fogo nas câmaras da TV Tupi?”
- “Pior Dieckmann; estão incendiando um gorila vestido de verde-oliva e com o quepe do Exército.”
- “Nossa!” – tremeu, lembrando-se da disciplina que o contém, no Colégio Militar.”
Segundos depois, chegava até os dois o boato que os canhões do Ministério da Guerra estavam apontados para o comício.
- “Dieckmann, o Brizola para o exército é um troféu mais valioso que o Jango.  Se eles atirarem, vão atirar agora.”
Antes de os dois fugirem dali, Dieckmann ainda deu um último olhar para o palanque, e suspirou:
- “Fica para outra vez, Maria Teresa.”  

quinta-feira, 23 de março de 2023

3134 - D Presença de Espírito

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O BISCOITO MOLHADO
   Edição Moderna                                        Data: 23 de março de 2023       
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CIRCUNAVEGAÇÕES  NO  CLUBE  DO  BONDINHO


Quando Jaime e Muricy aparecem no Clube do Bondinho, a algazarra habitual é trocada por um papo bem mais civilizado, tão notável que vizinhos da Rua Triunfo sempre comentam a diferença...  E, desta vez, ainda pude tirar proveito de uma revelação nada usual.

Foi assim nos campos de batalha da Guerra Civil Espanhola, seria assim no prenúncio de visitas a Giverny, entre os dois não rola competição, são como dois tubinhos de Araldite, um é adesivo e o outro é catalizador. O Muricy anda, já subiu, e desceu, os Andes, atravessou o Amazonas desde as cabeceiras – mas não a nado como faria o Mao, apenas de carona de navio – foi a Verdun, a Omaha e também a Giverny, cumprimentou os astronautas, bebeu água no copo de Getúlio Vargas, mas ainda será em outra segunda-feira que essa história do Monet vai continuar.

Nesta reunião de ontem, muito entretanto, a conversa fluiu em dois momentos separados, mas era como se houvesse uma ligação aérea entre eles. Falou o Jaime – bem antes do Muricy saber que viria, pois tinha agendado uma reunião de condomínio – sobre a viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães e Sebastián Elcano. Na verdade, Fernão de Magalhães não deu a volta ao mundo porque morreu no meio da viagem. Elcano completou, mas não foi o primeiro homem a dar a volta, pois um marinheiro era filipino e ao reconhecer a terra natal passou este, de nome Henrique Hue, a ser o pioneiro. Vi imediatamente uma semelhança com a corrida de Le Mans em 1966, quando Ken Miles chegou na frente, porém como a Ford queria a fotografia da bandeirada para seus três carros quase emparelhados e seus colegas de escuderia que largaram em uma posição mais atrás cobriram efetivamente uma distância maior, eles foram os vencedores. Ninguém concordou comigo, mas a situação de Elcano é mesmo bem semelhante à de Ken Miles.

Mal passávamos por esse episódio, chega o Muricy, contente como se tivesse tirado carteira de motorista aos 12 anos. Ele não sabe bem que dia é hoje, qualquer hoje, e não reparou que a reunião do condomínio era na terça-feira; portanto, pode vir ao  Clube – grande alegria!

Aberto o vinho, a conversa esticou sobre Monet-Giverny e Van Gogh, dando um ar cultural, mas nada conclusivo àquela noite, porque começou uma enquete sobre os primórdios de cada um no interesse pelo carro antigo. Quando ia chegar a minha vez, excitado porque já estava com um texto pronto, quebrei meu copo e o pessoal achou que era melhor parar por ali. E sem qualquer revelação especial... tal como prometido no começo desta história.

Às duas e dezessete acordei e me dei conta que na circunavegação literária de Jules Verne, A Volta ao Mundo em 80 Dias, o protagonista Philleas Fogg, obcecado por horários e rotinas, não percebeu que economizara um dia de calendário ao cruzar a Linha do Tempo. 

O mesmo que aconteceu com o Muricy, embora sem a atenuante de uma viagem em sentido contrário do movimento do Sol em que se usou tudo quanto era possível como meio de transporte.  Porém, a alegria de ambos foi entusiasmante. Esfuziante.

Aí comecei a pensar se essa alegria do Fogg não foi a razão que levou Jules Verne a escrever o livro. Olhando friamente o filme, há uma atmosfera de road movie através da modernidade de trens, vapores e balões no mundo de 1870, e outra atmosfera de drama policial com o inspetor Fix (como esquecer dele, que fazia você retroceder inúmeras casas no jogo de dados que tinha a história como roteiro?) querendo desvendar o roubo do Banco da Inglaterra, simultâneo à partida dos 80 Dias... Chega o final e o script vai se encaixar no avanço do calendário para recuperar o tempo perdido com a prisão de Fogg por Fix. O suficiente para que Fogg viesse a vencer a aposta, pontualmente, às doze badaladas do meio-dia, levando criado e mulher para dentro do Reform Club, o que gerou faniquitos e desmaios na esnobice vitoriana.

Pois é, mas nem tudo são flores, falta a revelação, tudo pode piorar. Considerando que Muricy tenha chegado ao Clube às 21:17, e que tudo isso tenha se materializado às 02:17, percebi que minha presença retardada de espírito usa um tempo de espera de cinco horas para unir neurônios adequados. Muito triste, bem capaz de deprimir pessoas normais.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

3133 - Fofocas maritimas (R)

O BISCOITO MOLHADO

                   Volume 1 Edição 1864                       Data: 28 de Junho de 2003 




AVISO AOS NAVEGANTES


Caminhava eu pela avenida Rio Branco às quatro e meia da tarde quando, no sentido contrário, vinha uma moça com um megafone na mão:

-“Frouxo, covarde...”

Olhei para os lados: pouquíssima gente, apesar do horário. Seria pessoal?...Alguma coisa comigo?... 

-“Frouxo, covarde...”- repetiu.

Não podia ser comigo; horas antes, mais precisamente, no almoço, Vergasta me considerara até um temerário com essas últimas edições do Biscoito Molhado.

-“Cuidado com um processo administrativo, Charles Brown. O saco de maldades dessa gente não tem fundo.”

É verdade que, na época do Armando Freigedo, falaram em processo administrativo contra mim, e o Labruna foi um dos que mostraram o ridículo da idéia:

-“O jornal nem é assinado. E em muitos órgãos há jornalzinhos ...não tão criativos como esse, haja vista os personagens que andam por aqui.”

-“Frouxo, covarde...Lula é frouxo e covarde. ”

Ah, bom. Não é comigo.

Lourdinha, com uma gravidez de sete meses, para poupar a Helena do ar da ANTAQ, tirou uma licença de quinze dias. Eu, ontem, pelas onze e meia da manhã, fui para o Departamento de Marinha Mercante . Encontrando-me com a Célia, no elevador, ela sorriu:

-“Veio visitar os pobres?”

-“Se você soubesse o ar de montanha que existe no DMM comparado com o da ANTAQ...”

-“O pessoal daqui ficou puto com o que fizeram com o Dieckmann.” – informou-me.

No caminho para o restaurante, Vergasta  fez um estudo comparativo entre as diversas exonerações na marinha mercante:

-“Quando o Armando, o Paulo Octávio, o Sérgio Schechter e outros saíram, não houve essa comoção que está havendo agora com o Dieckmann.”

-“Dieckmann é carismático.”

-“É isso: carismático.”

Que chefe leva os seus funcionários, sem distinção de cargo, para a sua casa, nos elevados de Santa Teresa, e os faz deitarem-se na sua cama para conhecer o seu despertador?

-“ O relógio da Central.” – disse a Alba.

-“ O relógio da Central.” – disse o Dudu.

-“ O relógio da Central.” – disse o Fernando Pedrosa.

-“ O relógio da Central.” – disse a Glória Iscariotes.

-“ O relógio da Central.” – disse o Djalma.

-“ O relógio da Central.” – disse o Alberto.

Morando na rua do Triunfo, Dieckmann tinha de ter um despertador desse tamanho, já que o Big Ben – mais de acordo com o seu perfil um tanto vaidoso – encontra-se um pouco distante.

Houve, na ocasião, quem se lembrasse das reuniões que ele agendava todas as segundas-feiras às oito e meia da manhã, quando era coordenador:

-“Também, com esse despertador...”

A mulher que, de megafone na mão,  chamava o Lula de frouxo e covarde – soube eu, depois, no noticiário da noite – dirigia-se, certamente, para a manifestação contra a reforma da previdência. Há duas semanas, no horário do almoço, deparei-me com um comício na escadaria do Palácio Tiradentes: “Acorda, Lula”. Comício esse patrocinado pelo ex-governador Garotinho. Soube, depois, pela coluna do Anselmo Góes, que os adeptos do Lula preparavam o  troco: o “Acorda, Garotinho”, e o destaque do comício, como nas escolas de samba,  seria um gigantesco despertador. Não o despertador do Dieckmann, é claro.

Com tanta gente dormindo, sou contagiado pelo sono, enquanto rabisco essas notas em casa. O meu sono é tanto, que nem força tenho de me erguer e desligar o rádio, sintonizado na Voz do Brasil. Encontro-me naquele limbo entre a vigília e o sono, que chamam de devaneio. O locutor d´ A voz do Brasil diz:

“Aviso aos Navegantes

Corumbá a Cáceres – manobras com empurradores e chatas na  área do terminal, e existência de chatas abarrancadas a jusante da ponte Marechal Rondon.

Recomenda-se cautela aos navegantes que demandarem o local.”

Na minha sonolência, entendi tudo errado:

“Aviso aos Navegantes

Antaq ao cárcere – manobras com empurradores com a barriga e chatas com burrice terminal, e existência de chatas aboletadas nas gerências.

Recomenda-se cautela aos navegantes que o mar não está pra peixe.”

 

Ou eu entendi tudo certo?




quarta-feira, 31 de agosto de 2022

3132 - Gafes no Oscar (cont 3130)

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O BISCOITO MOLHADO
   Edição 2243                                        Data: 17 de Janeiro de 2005       
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AS GAFES NO OSCAR
PARTE II

Tantos artistas loucos pelo Oscar e o seu nome nasceu de uma piada... Contam que uma funcionária da livraria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e eventual diretora-executiva, Margareth Herrick, achou aquela figura dourada de um homem nu de corpo atlético, que representava o troféu, tão parecido com o seu Tio Oscar, que não se conteve:
- “Mas é o Tio Oscar...”
Sidney Skolsky, um jornalista especializado em Hollywood, soube da sugestiva semelhança e, na sua coluna, em 1934, escreveu com intenções maliciosas que o Oscar de melhor atriz foi para Katherine Hepburn, apelidando, assim, a estatueta pela vez primeira. A partir de 1939, a Academia passaria a chamar a estatueta de Oscar, consagrando o apelido.
O prêmio mais famoso do cinema fora criado, no entanto, bem antes; em 1927, e apenas para premiar os principais atores, atrizes e diretores da indústria cinematográfica.
O escolhido para desenhar a estatueta foi o diretor de artes dos estúdios Metro-Goldwin-Mayer, Cedric Gibbons, que sempre negou que o tio da Margareth Herrick lhe servira de modelo.
- “Nem sequer o conheci...” - dizia.
As primeiras versões da estatueta foram de bronze, mas com o esforço de guerra – a Segunda Guerra Mundial, naturalmente – não houve metal para o entretenimento e, por isso, o Oscar passou a ser confeccionado em gesso. 
Ultrapassados os tempos difíceis, o Oscar saiu do gesso, e agora é banhado em ouro e prata nos seus 34 centímetros de altura que perfazem 3,85 quilos. Desde o nascimento do Oscar, ele sofreu apenas uma modificação na sua forma: a inclusão, em 1945, de um pedestal.
Depois de tanta história, e de sabermos que o Oscar é, na acepção da palavra, uma piada, passemos para algumas gafes cometidas por artistas que o ganharam, ou que assim imaginaram.
Eu ainda peguei o tempo do Bob Hope como mestre de cerimônia da entrega da estatueta... Eu, Dieckmann, Causídico Verborrágico... Mas o Will Rogers como mestre de cerimônia, só mesmo o doutor Barreiros viu ...
Will Rogers não foi esquecido em algumas das nossas edições sobre os Roosevelt: animou as convenções do Partido Democrata que indicaram Franklin Delano Roosevelt como adversário do presidente Herbert Hoover. Como humorista, Will Rogers levava a extremos a máxima “o humor nunca é a favor”.  Ele foi, com as suas piadas cáusticas, um sucesso na época da grande depressão. E essa foi a principal razão para animar a noite mais esperada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
O estilo de humor “nunca a favor” do Will Rogers concorreu para que alguns artistas vitimados pelas piadas cometessem sérias gafes. Foi, por exemplo, o caso de Frank Capra, logo ele, o diretor do cinema americano que simbolizava a volta por cima dos menos favorecidos, o otimismo da Era Roosevelt.    
O ano era 1934. Frank Capra era o franco favorito para a estatueta de melhor diretor pelo filme “Dama por um Dia”.  Sabendo  disso, Will Rogers olhou para a   papeleta que indicava o vencedor e, em vez de  anunciar o premiado, fez um chamamento bem coloquial:
- “Venha buscá-lo, Frank”.
Radiante, Frank Capra ergueu-se da sua cadeira e rumou  para o palco. Mas o Frank agraciado como melhor diretor era outro: Frank Lloyd, pelo filme “Cavalgada”. Frank Capra, com os passos vacilantes, acusou o golpe, enquanto voltava para o seu lugar com as mãos vazias.
- “Foi a mais longa, triste e difícil caminhada da minha vida”.- registrou Frank Capra na sua autobiografia. 
Não se dando ainda por satisfeito, Will Rogers, nessa mesma noite de 1934, tentou fazer novas vítimas; chamou simultaneamente May Robinson e Diana Wynyard como ganhadoras do prêmio de melhor atriz. As duas não se mexeram das suas respectivas cadeiras, e aguardaram; foi a melhor coisa que fizeram, caso contrário, repetiriam a dolorosa caminhada de volta ao assento como o Frank Capra. Rindo um riso de sadismo esvaziado, Will Rogers anunciou a vencedora de fato: Katherine Hepburn, pela atuação em “Manhã de Glória”. Foi com esse prêmio – repetimos – que se usou pela primeira vez o apelido Oscar para a estatueta.
Humphrey Bogart, quem diria, engrossou o alentado volume sobre as gafes cometidas na entrega do Oscar. Foi em 1943. Favorito, por sua atuação em Casablanca, ergueu-se da cadeira com a intenção de ir ao palco quando mal abriram a boca para pronunciar a primeira letra do nome do vencedor do Oscar de melhor ator...  Paul Lukas do filme “Horas de Tormenta”. Humphrey Bogart sorriu amarelo, um amarelo Van Gogh, e, para não dar na vista, continuou de pé, aplaudindo.  Mas todos perceberam a gafe, pois ele era o único, entre centenas de pessoas presentes, que aplaudia Paul Lukas de pé.
Poucos anos depois, 1952, Shelley Winters, que disputava o Oscar por “Um Lugar ao Sol”, não pensou duas vezes; ela, aliás, nem pensou, antes mesmo de o apresentador Roger Colman olhar para o papel com o nome da melhor atriz, ela foi para o palco receber a estatueta. Ao ouvir que o nome da agraciada era, na realidade, Vivien Leigh, por “Uma Rua Chamada Pecado”, Vittorio Gasmann, marido da imaginária vencedora, puxou-a pelo braço. Resultado: os dois caíram.
- “Isso é que dá casar com americana pretensiosa”.- pensou, certamente, Vittorio Gasmann, com a bunda no chão. 
Ou, como declarara Napoleão, retirando-se da Rússia:
- “Do sublime ao ridículo a distância é de um passo”.
Em 1964, foi a vez da Rita Hayworth, que nunca disputou um Oscar, deixar a sua gafe na festa de premiação como apresentadora do melhor diretor daquele ano. Embora míope, não quis usar óculos e, assim, chamou um inexistente “Donny” para receber o Oscar. O nome que não conseguira ler era do diretor do filme “As Aventuras de Tom Jones”, Tony Richardson. A mancada da “Gilda” só não foi mais escandalosa porque o  diretor não se achava presente.
Para finalizar a edição de hoje, a gafe do jovem Steve Spielberg, na cerimônia do Oscar de 1976. Tão certo da vitória estava, que contratou uma equipe de filmagens particular para registrar o seu instante de glória. Quando foi anunciado “Um Estranho no Ninho” como vitorioso, e não “Tubarão”, Steve Spielberg nem procurou disfarçar a decepção: segurou a cabeça com ambas as mãos, e soltou um “I don't  believe”. Está tudo registrado pelas TVs e também pela equipe de filmagens contratada pelo diretor derrotado.
Cá, entre nós, o Oscar... ou o Tio Oscar, começou como uma piada, mas “Tubarão” vencer de “Um Estranho no Ninho” seria uma piada que nem o Will Rogers ousaria.

                        


terça-feira, 30 de agosto de 2022

3131 - Oscar Wilde (R)

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O BISCOITO MOLHADO



               Edição 2246                          Data: 20 de Janeiro de 2005      


                                                     

OSCAR WILDE


 Oscar Wilde não surgiu no mundo da cultura por geração espontânea – sua mãe, Jane Francesca Wilde, brilhava nos salões, entre os intelectuais, pelo seu talento na conversação e escrevera versos de irlandesa patriota com o pseudônimo de Speranza. Quanto ao pai, não se dedicara às letras, mas foi cirurgião-oculista (o termo é este) da rainha Vitória e sua carreira foi prejudicada pelos escândalos amorosos em que se envolveu.

O Filme “Wilde” de 1997, com Stephen Fry, homossexual assumido, no papel do escritor, soube dar a justa relevância à mãe do personagem principal, tanto que colocaram a atriz Vanessa Redgrave para viver o papel dela. Não me recordo de alusão alguma à Senhora Francesca Wilde no filme de 1960, que, aliás, perdi no cinema e acabei assistindo na televisão. 

O filme sobre Oscar Wilde – refiro-me ao mais recente – inicia-se e deixa o espectador mais apressado em dúvida: o escritor viveu na era vitoriana ou no faroeste dos mais rápidos no gatilho? Tal pergunta surge porque logo nos primeiros planos do filme Oscar Wilde/Stephen Fry é visto no meio dos mocinhos e bandidos do bravio estado do Colorado.  O ano era 1882 e Oscar Wilde, que tinha 28 anos, fora aos Estados Unidos, a convite, para proferir uma série de palestras - nelas, contraporia a beleza da arte aos horrores da sociedade industrial, que, aliás, inspirou os melhores romances de Charles Dickens. 

De volta a Londres, contou que, antes de uma das suas palestras, enforcaram dois homens:

- “... Veio, então, a minha palestra. Senti-me a sobremesa, depois que serviram a carne”. - Oscar Wilde não era rápido no gatilho, mas era rápido na língua.

Vai a Paris, fica pouco tempo por lá, o suficiente para esquecer a confrontação entre arte e indústria, e volta para Londres. Casa-se com Constance Lloyd, filha de um advogado de Dublin, mulher inteligente e culta que podia sustentar uma conversação de horas com ele. Em 1885 nasce o primeiro filho do casal, Cyril e, no ano seguinte, nasce o segundo filho, Vyvyan.

Oscar Wilde, que se destacara como latinista e helenista, quando aluno do Trinity College de Dublin, aparece, na pele do ator Stephen Fry, meio perdido: a vida de marido com esposa e filhos num lar vitoriano não o satisfaz. Aproxima-se, então, de rapazes, supostamente de programa, e ao ser abordado por um deles, foge mais por timidez do que por vontade.

As suas tendências homossexuais o acompanhavam desde a época de estudante, mas só na faixa dos trinta anos, depois de casado e com filhos, deixa-se seduzir por Robert Ross, um hóspede canadense. Conhecera o chamado vício grego e não mostra intenção de abandoná-lo.   

Em 1891, lança a sua obra mais famosa, O Retrato de Dorian Gray, ganha muito dinheiro e sempre é visto na companhia de rapazes.

No ano seguinte, é apresentado a Lord Alfred Douglas, um jovem estudante de Oxford, apelidado de Bosie. Mal comparando, ele foi para Oscar Wilde o que Francesca da Rimini foi para Paolo, e vice-versa, ou seja, tal relacionamento acabou no inferno dantesco.

Tanto o filme de 1960 quando o de 1997 mostram um “Bosie” caprichoso ao extremo, choramingas, mas sem os trejeitos de maricas; John Neville é, aliás, muito elogiado neste papel, sempre que o filme, que teve Robert Morley no papel título, é criticado.

Muito mais indignado do que a esposa de Oscar Wilde com o par formado entre o escritor e o seu “pupilo”, ficou o pai do rapaz, o Marquês de Queensberry, que investe, então, contra eles. Num dia de fevereiro de 1895, não encontrando o amante do filho, depois de procurá-lo, faz-lhe chegar à mão um cartão: “A Oscar Wilde, afetado sodomita”.

  Bosie, levado por repentes nervosos, aconselha Oscar Wilde a processar, por calúnia, o seu pai. É um mau conselho e Robert Moss mostra a Oscar Wilde o quanto é temerário levar o homossexualismo aos tribunais. Tais ponderações, que antecederam a decisão de Oscar Wilde de processar o Marquês de Queensberry no cinema, não vieram apenas de Robert Moss. Muitos outros amigos de Oscar Wilde pediram para que ele rasgasse o cartão do “sogro”, e esquecesse o processo. Sabiam eles, mas parece que Oscar Wilde não, que a polícia Londrina vigiava e fichava todos os suspeitos de homossexualismo; nada fazia contra eles que, até então, eram tolerados. Diz-se que, na época, quarenta mil pessoas eram vigiadas, só em Londres, pela Scotland Yard, e a maioria delas era homossexual. Seria arriscado desafiar as convenções da sociedade vitoriana, ainda mais com um processo em cima de um inimigo poderoso.

O próprio Bernard Shaw – fato não muito divulgado – tentou levar Oscar Wilde para o caminho da razão; advertiu-o que a sua derrota no processo também significaria um retrocesso na cena artística: o moralismo vitoriano recrudesceria, a censura se faria presente, sem contar a perda da liberdade relativa em que os homossexuais viviam, até então. 

   Com ouvidos apenas para as palavras do amante, Oscar Wilde foi em frente e processou o Marquês de Queensberry. Nós acreditamos que também o seu amor pelas gambiarras, a sua atração por um público pronto a aplaudir as suas tiradas inteligentes, mesmo sendo um público de tribunal, o levaram a esse princípio do fim.

   Como fora previsto pelos amigos mais lúcidos, Oscar Wilde de acusador passou a réu e os detalhes da sua vida dupla, colhidos pela polícia, apareceram.

Foi condenado por práticas homossexuais a dois anos de cadeia. Seus livros logo desaparecem das livrarias e as suas peças são retiradas de cartaz. Seus bens são leiloados para pagar as custas do processo e seus filhos são tirados da sua tutela. 

O filme, que mostrara até o julgamento as madeixas fartas do ator Stephen Fry, caracterizando como dândi o requintado Oscar Wilde, mostra seus cabelos cortados, talvez por causa dos piolhos, dele já prisioneiro, comendo, então, num prato de metal ordinário. Muitas décadas depois foi reabilitado e um livro escrito por um dos seus dois filhos contribuiu para isso.

Essa fita de 1997 termina com um pensamento do escritor: “Neste mundo há somente duas tragédias; uma é não conseguir o que se quer, a outra é consegui-lo”.

Nós preferimos outro pensamento de Oscar Wilde para encerrar estas páginas:

- “Que sorte tem os atores! Cabe a eles escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou regozijar-se, rir ou derramar lágrimas; isto não acontece na vida real. Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis pelos quais não têm a menor propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.”


quinta-feira, 25 de agosto de 2022

3130 - Prêmio de consolação (R)

 

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O BISCOITO MOLHADO



               Edição 2242                          Data: 14 de Janeiro de 2005       

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 AS GAFES NO OSCAR

                         

Depois das gafes dos filmes, propriamente ditas, passemos para as gafes cometidas nas entregas do Oscar. Nós não somos muito inclinados a assistir a essas premiações de Hollywood, por isso a relação da maioria das gafes por nós aqui apontadas foram retiradas de jornais. Vimos alguns Oscar no tempo em que a Bibi Ferreira fazia a tradução simultânea (uma lástima, segundo os caçadores de gafes interlinguístiscas). E depois, paramos de ver a denominada festa máxima do cinema.

Depois de uns anos sem a nossa presença diante da televisão, voltamos a nossa atenção para a entrega das estatuetas, porque a mesma não seria transmitida pela TV Globo, e sim pela TV Record. Era o ano da premiação da Lista de Schindler. Nossa vã esperança de melhora na programação logo se dissipou com os comentários de uma idéia do locutor Boris Casoy:

- “É ótimo que filmes como a ‘Lista de Schindler’ apareçam nesse momento em que os neonazistas colocam a cabeça de fora na Europa”.

Só faltava o “Isso é uma vergonha” para arrematar a fala do locutor. Em determinado momento da festa de Hollywood, surge no palco a Deborah Kerr – estava ela diferente daquela Deborah Kerr que foi beijada pelo Burt Lancaster no filme “A um passo da eternidade” em pelo menos oitenta mil calorias. Foi quando o Boris Casoy resolveu esquecer a “séria ameaça dos neonazistas” na Europa para interromper um comentário do Rubens Ewald Filho:

- “Ela ainda guarda a beleza dos tempos passados”.

- “Bem, Boris, a beleza dela agora...” - não ficava bem para o comentarista de cinema convidado pela TV Record discordar do anfitrião, mas as nuances na voz do Rubens Ewald Filho disseram tudo.

No ano seguinte, as Organizações Globo resolveram pegar de volta a transmissão do Oscar. Bem, sem o Boris Casoy, a transmissão só poderia melhorar e nós insistimos em ver mais uma vez a premiação máxima do cinema.   Era o ano do filme do Walter Moreira Salles, “Central do Brasil”, concorrer como o melhor estrangeiro. Também houve uma espécie de comoção nacional quando indicaram a Fernanda Montenegro para disputar o Oscar de melhor atriz com talentos internacionais, como Meryl Streep e Cate Blanchett.

Bem, não tínhamos Boris Casoy, mas tínhamos Arnaldo Jabor entre a festa em Los Angeles e os espectadores no Brasil. Com o clima de favoritismo criado para o filme italiano “A Vida é Bela”, que se tornou praticamente em vitória certa quando Hollywood convidou a Sofia Loren para entregar o prêmio de melhor filme estrangeiro, Arnaldo Jabor perdeu o senso de medidas. Antes da premiação, já na sua crônica do Globo, arrasou o filme de Roberto Benigni, que transformara, segundo as suas palavras, um campo de concentração nazista em parque temático. Na transmissão, propriamente dita, a bílis do torcedor fanático e frustrado do Central do Brasil, transbordava. Em dado momento da festa, Robin Williams foi focalizado pelas câmaras americanas com um sorriso de satisfação pela vida que Arnaldo Jabor, certamente ofendido com tanta felicidade, retrucou com azedume na voz:

- “Esse aí não passa de um canastrão...”

- “Caramba, e ainda não anunciaram ‘A Vida é Bela’ como ganhadora do Oscar...” - imaginaram, certamente, o Roberto Machado e o Rubens Ewald Filho, aqueles que se encontravam mais próximos da fera que salivava ódio, nessa reportagem da TV Globo.

Para encurtar essa história que todos se recordam, sem a menor dúvida, no dia seguinte, a atuação do Arnaldo Jabor era mais comentada na cidade do que a dos próprios artistas que receberam o Oscar, ou o perderam injustamente. Ele, o Arnaldo Jabor roubara o espetáculo.

- “Rapaz, você viu ontem, na entrega do Oscar, o Arnaldo Rancor?...” - perguntavam uns.

- “Você viu o Amargo Jabor?...” - perguntavam outros.

- “Amargo Rancor...” - resumiu em duas palavras o irmão de uma colega nossa de trabalho a noite em que se premiou ‘A Vida é Bela’ em vez do ‘Central do Brasil’.

Tudo bem que o Roberto Benigni guarda umas semelhanças com o paspalhão do Didi Mocó, mas “A Vida é Bela” até que é um filme razoável.

O momento da festa de Hollywood em que o Arnaldo Jabor deveria manifestar-se, no nosso entender, ele calou-se para sempre, foi quando a Gwyneth Paltrow no seu discurso de melhor atriz, no filme “Shakespeare Apaixonado”, reverenciou Meryl Streep usando as outras concorrentes para isso:

- “Você, que é a melhor de todas nós...”

Ora, sabia ela por acaso o que já fez a Fernanda Montenegro em matéria de representação?... Bem que o Rubens Ewald  Filho já vinha, com ironia, chamando a Gwyneth Paltrow  de “branquinha aguada...”  

Bem, como diz o ditado popular “Em festa de jacu, inhambu não entra”. O fato de os inhambus brasileiros entrarem na festa do Oscar de 1999, já foi uma façanha; querer, depois de tanto, ainda sair com o prêmio, só na cabeça do Arnaldo Rancor...ou Amargo Jabor...