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sexta-feira, 25 de abril de 2014

2594 - Reritiba, infame ironia



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4844                          Data: 05   de  abril de 2014
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CARTAS DOS LEITORES

-Sobre a edição do Biscoito Molhado alusiva à recente visita do Senador Pinheiro Machado ao redator do Biscoito Molhado, fiquei impressionado com o duelo que ele travou com o dono do Correio da Manhã. O Dr. Edmundo Bittencourt era uma boa pessoa? Outra pergunta: houve muitos duelos na Brasil no tempo da belle époque? Albertina
BM: Se o Edmundo Bittencourt era uma boa pessoa?... Podemos responder com uma reprodução da peça o “Anti-Nélson Rodrigues”; afinal, o nosso maior dramaturgo passou a trabalhar nas redações dos jornais a partir dos 13 anos de idade e conhecia os casos que aconteciam nos bastidores do jornalismo. Agora, o trecho da citada peça:
_”Salim: E o Dr. Edmundo Bittencourt? Conhece o Dr. Edmundo Bittencourt?
Oswaldinho: Não conheço.
Salim: É hoje nome de praça. Mais importante do que o Barão do Rio Branco. E fez o diabo neste país. Um dos maiores lances do  Dr. Edmundo Bittencourt foi o duelo com o Pinheiro Machado. E, melhor ainda, o caso de João de Deus, um crioulão, voz de Paul Robinson – sempre de fraque e chapéu-coco. Era pré-fundador do Correio da Manhã. Desde o primeiro número do jornal, o João de Deus ia para a porta esperar o patrão. E dizia, abrindo o gesto: “Boa-noite Dr. Edmundo”.  O Edmundo cuspia um “boa-noite” e pronto. Até que um dia, o Edmundo chega ventando fogo. Ao ouvir o “boa-noite” do revisor do jornal, espetou-lhe o dedo nas fuças: “Rua, Negro! Não aceito cumprimento de urubu. Está despedido, urubu!” Dois dias depois, o João de Deus morreu de paixão. Praça Edmundo Bittencourt, não! Praça Urubu!”.
Como vimos na edição citada que Pinheiro Machado convidava João da Baiana para as suas festas e ainda o presenteou com um pandeiro que serviu ao músico popular de salvo-conduta, ele, o Senador, não trataria um negro com racismo.
Visto isso, foi derrotado no duelo a pistola o vilão maior.
Quanto aos duelos ocorridos na belle époque, houve alguns citados por historiadores ou bisbilhoteiros do passado, que é o nosso caso. O que ocorreu entre Olavo Bilac e Pardal Mallet falamos no número passado. Esses dois, no entanto, tiveram outros adversários; Olavo Bilac duelaria com Raul Pompeia e Pardal Mallet com Coelho Neto.
As ofensas trocadas entre o parnasiano e o autor do “Atheneu” deram a impressão que correria sangue. Bilac escreveu uma crônica na seção “Vida Fluminense”, no jornal “O Combate”, que Raul Pompeia sofria de amolecimento cerebral porque se masturbava muito a noite evocando as beldades que viu na rua durante o dia. Raul Pompeia, por seu lado, reagiu dizendo que Bilac estava marcado pelo estigma do incesto, aludindo à união do poeta com o sobrinho Oscar e o fato de não ter filhos. Na verdade, a paixão política jogou um contra o outro; Raul Pompeia era um visceral adepto do governo ditatorial do Marechal Floriano Peixoto e Olavo Bilac, um ferrenho opositor. Frente a frente no duelo de florete, reconciliaram-se, talvez porque se reconhecessem como masturbadores.
Mas, segundo os biógrafos, as testemunhas mais o médico conseguiram com êxito reconciliar os dois duelistas:
-”Fui eu o ofensor. Dou-me por satisfeito.” disse o poeta, estendendo-lhe a mão, que foi apertada pelo escritor mesmo que a contrariedade se expressasse no seu semblante.
Coelho Neto, considerado pela crítica um “fabricante de romances”, que foi, durante alguns anos o autor brasileiro mais lido, encontra-se hoje quase totalmente esquecido. Não fosse nome de um bairro do subúrbio carioca, poucos diriam hoje o seu nome. É uma pena. Ah, sim: o primeiro verso decassílabo de um soneto seu é muito lembrado: “Ser mãe é padecer no paraíso”, mas quem sabe o nome do autor?
No que diz respeito ao duelo do Coelho Neto com Pardal Mallet, acabou sem morte. O escritor ainda viveu muito, dedicando-se aos esportes do Fluminense Futebol Clube; era pai de João Coelho Neto, o Preguinho, considerado o atleta símbolo do clube. A sua filha Violeta Coelho Neto foi considerado no mundo operístico brasileiro como a melhor Madame Butterfly.

-Sobre a visita que Ricardo Coração de Leão fez ao redator do Biscoito Molhado, foi dito que os seus adversários, quando ele foi coroado rei da Inglaterra, acusaram-no de nem falar o inglês. É verdade?... Como pode? Odete
BM: Sim, é verdade. Houve uma época em que, na Inglaterra, falava-se o latim, o francês e a língua inglesa. Pelo latim, sabemos nós, a igreja católica monopolizava a cultura. Quando Lutero liderou a Reforma, traduziu a Bíblia do latim para o alemão, um dos seus gestos de rebeldia contra o papado.
O francês, durante muitos anos, era falado na Inglaterra pelas classes dirigentes e pelos comerciantes abastados. Eis o que escreveu Henriette Walter em “A Aventura das Línguas no Ocidente” - livro que me foi generosamente presenteado pela Rosa Grieco:
“No reinado de Ricardo Coração de Leão, no fim do século XII, o bispo William of Ely, por ter caído em desgraça, resolveu aprende inglês por conta própria. Ao tentar sair da Inglaterra, disfarçou-se de mulher e, como os mercadores, levou um pedaço de tecido embaixo do braço, chegou sem dificuldades a Douvres, mas acabou sendo preso porque não conseguiu responder em inglês a um comprador que lhe perguntara o preço do tecido.”

Ricardo Coração de Leão foi o rei da Inglaterra, mas não sabia falar o inglês.

-Acho que Reritiba, hoje, se chama Anchieta, onde estive há alguns anos. Abraços. Elio Fishberg
BM: Antes de entrarmos no assunto vamos esclarecer os leitores que, com essa frase, nosso amigo Elio, que aniversariou no dia 4 de abril, encerrou a sua revisão do texto do Biscoito Molhado sobre a visita que o jesuíta José de Anchieta fez à nossa casa.
Sim, Elio, Reritiba, a cidade onde o santo homem faleceu, passou, há muitos anos a chamar-se Anchieta; uma ironia essa alteração, pois Reritiba é um nome tupi-guarani, e José de Anchieta foi o maior estudioso e propagador da fala indígena.




 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

2607 - Ernesto Joplin 2



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4857                 Data: 22 de  abril de 2014
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COELHO DA PÁSCOA NO RÁDIO MEMÓRIA
PARTE II

Antes da pausa da meditação do Fernando Milfond, Sérgio Fortes e Jonas Vieira contaram, em tom descontraído, a visita que Antonio Maria fez a Ary Barroso, muito doente, no hospital. Nós, do Biscoito Molhado, soubemos desse caso através de um texto do Sandro Moreira. Antonio Maria irritava Ary Barroso afirmando que o sucesso de “Ninguém me ama” era maior do que o da “Aquarela Brasil”. Na mencionada visita, Ary Barroso pediu que ele cantasse “Aquarela do Brasil”; penalizado com o estado do doente, Antonio Maria cantou. Logo depois, Ary Barroso solicitou que Antonio Maria pedisse a ele que cantasse “Ninguém me ama”. Ele pediu, e Ary Barroso respondeu com um sorriso de satisfação: “Não sei.”
-Rádio Roquette-Pinto. 94.1 FM. Programa Rádio Memória. - ecoou solene a voz do decano da radiofonia brasileira, dando início ao segundo tempo.
-Scott Joplin morreu com 49 anos de idade. Era funcionário de uma estrada de ferro; abandonou tudo e percorreu o sul dos Estados Unidos como músico itinerante. Seu sucesso começou na Feira Mundial de Chicago em 1893; a carreira dele, até onde foi possível, deu uma acelerada.
Apesar de a biografia ser autorizada, Sérgio Fortes foi interrompido pelo titular do Rádio Memória falando do disco “Elétrico Nazareth” do Mú de Carvalho.  Foi um choque ouvir, agora, “Fon Fon”, depois da interpretação do Nicolas de Souza Barros, domingo passado, no violão de oito cordas, que ainda ressoa nos nossos ouvidos.
Depois de elogios ao elétrico “Fon Fon”, pelos temas entrelaçados, Sérgio Fortes se voltou para o seu homenageado.
-Hoje, depois do sucesso do filme “O Golpe de Mestre”, Scott Joplin é tema de estudos nas universidades americanas. Enquanto viveu, jamais gravou, o que fez foram em sete rolos para pianola.
E procurou ser didático para explicar todos aqueles rolos.
-Você interpreta uma canção para um piano mecânico, a pianola, e, através de rolos perfurados com as notações da peça executada, ela é reproduzida. Mas isso não é a gravação que conhecemos.
Devido à premência do tempo e do Jonas Vieira, Sérgio Fortes não pôde prosseguir no seu tom professoral, nós, como não temos esse problema prosseguiremos o assunto depois de uma consulta ao oráculo atual, o Google.
A pianola foi inventada pelo engenheiro americano Edwin S. Votey, que a patenteou em 1897. Depois de sabermos que era um piano equipado com dispositivo para executar automaticamente a música, por meio de pedais e alavancas manuais, passemos para os mencionados rolos, onde cada perfuração abaixava uma tecla e impulsionava o respectivo martelo, substituindo a ação dos dedos.
E Jonas Vieira anunciou a nova atração musical composta pelo Rei do Ragtime, “Bethena”, com Jean-Pierre Rampal, na flauta, e arranjo de John Steele Ritter.
Foi a pausa para deslumbramento.
-A respeito de Ernesto Nazareth - voltou o Sérgio Fortes – ele sofreu uma forte influência de Chopin.
-Todos sofreram. O piano de Chopin dominou. - declarou com veemência o Jonas Vieira.
Faremos um parêntese aqui, que poderia ser chamado de pausa para elucubração, para nos reportarmos ao Bruxo do Cosme Velho (não é o Roberto Marinho).
No conto “Um Homem Célebre”, o escritor narra o estrondoso sucesso de um compositor de polcas, Pestana, que vivia frustrado porque não conseguia compor uma peça erudita no nível de Mozart ou de Chopin. Aclamado por todos, morre, segundo Machado de Assis, “bem com os homens e mal consigo mesmo.” Há quem afirme que Machado de Assis, que faleceu em 1908, se inspirou em Ernesto Nazareth, nascido em 1863, na criação do seu personagem Pestana. Será?... Quanto a nós, estranhamos que Ernesto Nazareth, quando foi apresentado a Arthur Rubinstein, pôs-se a tocar Chopin. Era o mesmo que rezar o Padre Nosso para o papa, pois Arthur Rubinstein era considerado o maior intérprete de Chopin na época. O que ele queria mesmo era ouvir as músicas do Ernesto Nazareth, queria o compositor, não o pianista.
Antes de prosseguirmos com Rádio Memória, recomendamos a leitura de “Um Homem Célebre”, o melhor conto, na nossa opinião, de Machado de Assis.
E o Sérgio Fortes prosseguiu:
-A primeira composição de Ernesto Nazareth é de 1877, “Você bem sabe”, quando ele tinha 14 anos de idade.
 -Um Mozart!
Menos, Jonas Vieira, menos...
-Com 14 anos de idade, eu aprendi a cantar “Parabéns pra você”, e foi um orgulho na família.
Mais, Sérgio Fortes, mais...
Talvez preocupado com a inusitada mudez do Simon Khoury (seria a comilança de chocolate naquele domingo pascal?), Jonas Vieira lhe perguntou o que ouviríamos.
-Tenho, com Antonio Adolfo, “Brejeiro” e Feitiço”; escolham.
E optaram por “Feitiço”, que nada tem a ver com o lendário craque da década de 30 do Santos Futebol Clube. Como já disse o Ratinho, também conhecido por “Rato Feroz”, pelos amigos mais chegados, o primeiro jogador de futebol a ser citado na música popular brasileira – um samba de Noel Rosa - foi o vascaíno Russinho (pai do soprano Glória Queirós, informou o Sérgio Fortes).
Ficou para o fecho do programa a surpresa maior; o compositor a ser ouvido não seria Ernesto Nazareth nem Scott Joplin, e sim Simon Khoury.
Por isso, ele se comportou tão bem, não contando uma só fofoca de gente famosa. - pensei comigo mesmo.
Simon Khoury narrou, então, o seu processo criativo. Convocou o arranjador Vittor Santos e pôs-se a trautear a melodia para que ele a transcrevesse em notas musicais. Como são pouquíssimos os compositores brasileiros que sabem ler partitura, temos de louvar arranjadores como Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, Pixinguinha, Rogério Duprat, Vittor Santos e outros que, algumas vezes, arrancaram leite de pedra.
-Eu disse para o Vitinho (Vittor Santos), que queria em cada faixa dois instrumentos dialogando, e ele fez coisas do arco da velha com o seu trombone.
Em seguida, Simon Khoury nos informou que a sua música foi inspirada na sobrinha.
-Ela não gostou do nome “Lambisgoia”, disse-lhe, então, que mudaria para “Desenxabida”, ela preferiu o nome inicial.
-O disco do Simon Khoury será lançado ao público com uma grande festa. - empolgou-se o Jonas Vieira antes de a gravação ser tocada.
Não seria a estreia mundial, pois já escutamos “Lambisgoia” há cerca de um mês no Rádio Memória. 
O costumeiro “apertado abraço” encerrou o programa.

2606 - Ernesto Joplin 1



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4856                       Data: 21 de  abril de 2014
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COELHO DA PÁSCOA NO RÁDIO MEMÓRIA
PARTE I

Quando ouvi, no programa Almanaque, a voz do Simon Khoury dos áureos tempos da Rádio Jornal do Brasil, tive a premonição de que ele reapareceria na sua fase outonal, no Rádio Memória; vinte minutos depois, ao ouvir o Sérgio Fortes informar que, naquele domingo de Páscoa, havia alguém fantasiado de coelho nos estúdios da Roquette Pinto, não tive dúvidas: ele estava lá.
Trouxe dois discos de presente: os dois sobre Ernesto Nazareth, um do Antonio Adolfo, que vive nos Estados Unidos e o outro do Mú Carvalho. - informou o convidado com a rouquidão que não existia nas épocas pretéritas, conforme constatamos minutos antes.
Não houve nem tempo para a dupla de apresentadores dizer “sem mais delongas”, pois logo uma faixa do disco “Rio Choro Jazz”, do Antonio Adolfo, silenciou todas as vozes, inclusive a de baixo-profundo ou baixo-abissal do Simon Khoury.
Logo após, travestido em Homem-Calendário, Sérgio Fortes enveredou pelos cantos sinistros da história para dizer que, em 20 de abril de 1233, Gregório IX lançou duas bulas que marcaram o início da Inquisição. As bulas inspiraram piadas do Jonas Vieira, mas o ambiente ficou ainda mais carregado porque, logo em seguida, fomos informados que, no dia 20 de abril de 1889, nascia Adolf Hitler. O clima se desanuviou quando o Homem-Calendário passou a citar Cantinflas, Aurora Miranda, Barão do Rio Branco e Miró; e mais ainda quando ele e Jonas Vieira aludiram a um dos compositores homenageados pelo Rádio Memória.
-Ernesto Nazareth é patrimônio da humanidade. A UNESCO o considerou um grande nome da música.
-Fosse ele estrangeiro e teria umas dez estátuas. - seguiram-se as palavras do Sérgio Fortes às do Jonas Vieira.
-Também homenagearemos Scott Joplin. - aduziu o titular do programa.
Sem citar o historiador Plutarco, célebre pela sua obra “Vidas Paralelas”, Sérgio Fortes afirmou que se poderia traçar um paralelo entre esses dois grandes criadores (numa tabela, no final desta edição, tentaremos mostrar a pertinência da sua afirmação).
Simon Khoury se manifestou para anunciar a valsa de Nazareth, “Confidências”, do disco do Mú Carvalho.
-Beleza! - vibrou o Jonas Vieira depois de ouvir a valsa-jazzística.
-Andar com o Simon Khoury é certeza de chegar. - a declaração modesta do convidado gerou controvérsias no anfitrião.
-O que você tem a dizer do Scott Joplin?
Sérgio Fortes respondeu a pergunta do Jonas Vieira como Plutarco, ou seja, explorando o paralelismo entre a vida dele e do Ernesto Nazareth.
-A obra do Scott Joplin, porém, é bem menor; foram 49 no estilo “ragtime”, mas compôs também um balé e duas óperas com inspiração wagneriana, escrevendo inclusive os libretos.
Jonas Vieira aludiu às humilhações que ele sofreu, negro e pobre, e ao fato de ter morrido, num sanatório, louco (a doença que afligiu o artista brasileiro, mais uma coincidência). Depois, se reportou ao “ragtime” - gênero musical que alia a polca ao ritmo afro-americano.
-O “ragtime”, que nasceu no término do século XIX, foi o precursor do jazz. - declarou antes de ser interrompido pelo Sérgio Fortes.
-Durante 57 anos, nem o nome do Scott Joplin estava na lápide do seu túmulo. Com o grande sucesso do filme “O Golpe de Mestre”, em que “The Entertainer” é o tema-musical, corrigiram essa injustiça.
E ouvimos, então, a mencionada música na interpretação de Jean-Pierre Rampal, considerado o maior flautista da atualidade, com o arranjo de John Steele Ritter, 
De volta à biografia do Ernesto Nazareth, Sérgio Fortes lembrou o fato de ele ser um dos primeiros artistas a se apresentarem, em 1933, na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que se tornaria a Rádio M.E.C. depois que o educador Roquette-Pinto a doou para o Ministério da Educação do governo Getúlio Vargas.
E mais uma criação do Nazareth foi executada na leitura jazzística de Antônio Adolfo.
Bem, disseram que a Carmem Miranda voltou americanizada, mas o Ernesto Nazareth foi americanizado sem nunca ter saído do Brasil.
Estranhei mais ainda os longos silêncios do Simon Khoury, logo ele que, junto do Dieckmann, é o convidado mais tagarela do Rádio Memória. Será que, por causa do dia, Jonas Vieira se colocou no papel de Grande Inquisidor, colocando mordaças nos hereges?
Mas ele falou, finalmente, para dizer que, lendo a relação dos discos mais vendidos, no exterior, no ano passado, não ouviu falar de um só deles; que a mídia do Brasil não dá a menor bola para discos sensacionais de música instrumental lançados lá fora.

Por determinação do Sr. Distribuidor, este espaço foi inserido para que a tabela, interessantíssima por sinal não ficasse em duas páginas. Certamente aqueles privilegiados que recebem o seu O BISCOITO MOLHADO por e-mail estranharão o aparente vazio.

 
COMPARACÕES ENTRE OS DOIS COMPOSITORES

ERNESTO NAZARETH
SCOTT JOPLIN
NASCIMENTO:
1863
1868
MORTE:
1934
1917
INSTRUMENTO:
PIANO
PIANO
GÊNERO MUSICAL:
POLCA COM RITMO AFRO-BRASILEIRO (CHORO)
POLCA COM RITMO AFRO-AMERICANO (RAGTIME)
INFLUÊNCIA:
CHOPIN
CHOPIN
DOENÇA:
SÍFILIS
SÍFILIS
FIM:
SANATÓRIO P/DOENÇAS DA MENTE
SANATÓRIO P/DOENÇAS DA MENTE

quinta-feira, 17 de abril de 2014

2601 - Violão II



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4851                              Data: 15   de  abril de 2014
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UM VIOLÃO NO RÁDIO MEMÓRIA
PARTE II

E a voz do Jonas Vieira voltou a ser ouvida:
-O nosso Nicolas de Souza Barros... Assim que ouvi o seu disco, vi que havia nele uma das minhas favoritas, “Confidências”.
Mas as “Confidências” ainda não se fizeram ouvir.
-Eu comecei com essas transcrições , mas tenho de dar um voto de reconhecimento para Paulo Aragão, que foi meu aluno.
-Você é professor?
-Sou professor da UNIRIO; mas Paulo Aragão estudou comigo por fora.
E prosseguiu no seu instigante depoimento:
-Eu procurava projetos, e Paulo Aragão me sugeriu Nazareth. Em 2004, ele me arrumou tudo que tinha fotocopiado de Nazareth, mais de 200 peças. Hoje, no site Moreira Salles, você baixa tudo, mas, naquela época era uma dificuldade.
-Sem mais delongas – disseram em uníssono os apresentadores – vamos escutar “Confidências” no violão de oito cordas de Nicolas de Souza Barros.
E cessou tudo que a antiga musa cantava porque outro valor mais alto se alevantava.
-Nicolas, você não tem vergonha de tocar tão bem? - brincou Jonas Vieira.
Quando perguntaram ao violonista se ele era carioca, respondeu que sim, embora o  seu sotaque – acrescentou - (que não percebemos) denotasse a sua vivência no estrangeiro por 20 anos, basicamente nos Estados Unidos e na Inglaterra.
-Por que você escolheu Nazareth? - indagou o Jonas Vieira incisivamente.
-Paulo Aragão me incentivou muito, e porque eu estava motivado em tocar o violão de oito cordas.
-Seis cordas não são suficientes? - interveio o Sérgio Fortes.
Com essa pergunta, o violonista se tornou  didático.
-O precursor direto do violão se chama guitarra romântica. É o momento da evolução que chega às seis cordas que conhecemos com a afinação central do violão. A guitarra romântica é magrinha e, principalmente na construção interna, é diferente. Já, em 1816, aparece, em Paris, o método do italiano Ferdinando Carulli  da guitarra romântica de 10 afinações, com 4 baixos a mais; esses 4 diapasões são conhecidos desde 1580, ou seja, os alaúdes todos trabalharam com esse princípio.
E foi em frente na sua aula que nós, do Biscoito Molhado, incapazes de arranhar um violão, tentaremos reproduzir com o menor número de erros possíveis.
-Agora, a corda aguda. A corda aguda surgiu no cenário mundial em 1994, quando o grande violonista Paul Galbraith, escocês, em parceria com o luthier inglês David Rubio, criaram o instrumento que chamaram de violão Brahms, porque a primeira peça que Galbraith transcreveu era de Brahms.
Antes de irmos em frente, um esclarecimento, pois Nicolas julgou que estivéssemos no mesmo nível dos seus alunos universitários: luthier é  o profissional especializado na construção e reparo de instrumentos de corda com caixa de ressonância.
Retornando aos seus ensinamentos:
-Essa corda aguda existe, em termos gerais, há 20 anos; e eu fui pegar o instrumento em 2004. Sou violonista há 40 anos, mas parece que agora (com o violão de oito cordas), eu estou na adolescência do violão de tão diferente que ele é. 
E acrescentou sem falsa modéstia:
-E eu sou conhecedor dos instrumentos precursores do violão clássico.
Todos queriam aprender, pois ele não foi interrompido.
-O princípio da corda aguda é que abre toda uma série de perspectiva de transcrição de arranjos de obra, principalmente as de teclado.
E enfatizou:
-É uma coisa muito nova.
As palavras cederam o lugar à música quando Nicolas de Souza Barros tocou a polca “Marieta”. Ele ilustrou essa faixa do seu CD dizendo que Ernesto Nazareth compôs polcas no século XIX, mas não o fez no século XX, que a sua primeira peça foi uma polca-lundu.
-Mais tarde, passaria a compor o que se chamava de tango.- esclareceu.
-Tango é o batuque. - disse o Jonas Vieira.
Mais tarde, no programa, eles se deteriam na diferenciação entre os tangos do Nazareth e dos hermanos.
-Este grande artista, que eu não conhecia, foi você Sérgio que me mostrou. - Jonas Vieira dava a César o que era de César naquele domingo de Ramos.
-Quero agradecer à Maíra da Rádio MEC que me indicou o Nicolas. -aproveitou o Sérgio Fortes para também fazer o seu reconhecimento.
E a Pausa para Meditação do Fernando Milfond prevaleceu, por alguns minutos, com o tema “Solidariedade”.
-Fale um pouquinho do violão de oito cordas. - pediu o Sérgio Fortes logo após o momento meditativo.
-Não há grande diferença entre os violões de oito e seis cordas fora a questão estrutural; mais uma corda para cima e uma para baixo.
-Mas o braço do violão é outro? - insistiu o Sérgio Fortes.
-O braço é um pouco mais amplo, mais largo.
-Quem fabricou isso?...
E prontamente ele respondeu a mais uma indagação do Sérgio Fortes.
-No caso, o grande e emblemático Sérgio Abreu. Eu, basicamente, sou um tocador, sou um “Abreuniano” faz trinta anos.
-Mais Nazareth com Nicolas: “Carioca”. - anunciou o Jonas Vieira, já íntimo do convidado.
Vibrada a última nota, Sérgio Fortes também vibrou:
-Sensacional!... Que disco!
Jonas Vieira foi mais pragmático:
-Como os interessados podem conseguir esse disco?
-No Arlequim ou pelo e-mail nicolassouzabarros@gmail.
Em seguida, Sérgio Fortes citou a coluna do Globo de sexta-feira do Arthur Dapieve em que ele, escrevendo sobre o Tristão e Isolda, de Wagner, dedicou os últimos parágrafos à excelência do Nicolas de Souza Barros no violão de oito  cordas com as músicas do Ernesto Nazareth na  sua apresentação na Sala Villa Lobos.
-E agora, meu querido Nicolas? - pediu mais música o Jonas Vieira, mas o violonista fez uma pequena introdução sobre a peça de Ernesto Nazareth que tocaria: “Improviso”.
-Há discussões sobre maxixe, choro, tango nas criações de Nazareth. Ele compôs tangos em 1890, quando não havia o tango portenho, o que havia era o tango afro-americano de Cuba, Argentina...
-Tango é palavra africana. - acentuou o Jonas Vieira.
-Vamos para o “Improviso”, obra que Ernesto Nazareth dedicou a Villa Lobos.- apressou-se o Doutor em Música da UNIRIO.
-Villa Lobos, Nazareth e Nicolas Souza Barros, três cobras. - afirmou o titular do programa.
-Estou aqui todo picado. - não deixou o Sérgio Fortes passar a oportunidade para uma piada.
-Mais um. - pediu o Jonas Vieira.
E veio mais um tango: “Famoso”.
Querendo ouvir notas musicais, e não palavras, Jonas Vieira anunciou outra música: “Odeon”.
-Eu li que as pessoas iam ao Cinema Odeon, não para assistir ao filme, e sim para ouvir Nazareth  no piano.
Depois do “Odeon”, uma das muitas criações de Ernesto Nazareth  que nunca nos satura por mais que a ouçamos,  Jonas Vieira fez uma sugestão ao grande violonista:
-Faça com o Custódio Mesquita o que fez com Nazareth. Seria de tirar o chapéu e também toda roupa.
-Todo mundo nu.
Calma, leitores: Sérgio não propôs o nudismo também fora das praias, ele apenas fez uma piada.
-Vamos fechar com “Fon-Fon”.
Depois de mais um deleite musical, vieram os agradecimentos mútuos e o costumeiro “demorado abraço” aos ouvintes.