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terça-feira, 25 de março de 2014

2578 - notícias, news, nouvelles



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4378                              Data: 08   de março de 2014
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LENDO AINDA  O JORNAL

Leio no Globo, precisamente na coluna do Ancelmo Gois que, no seu dia – 8 de março – o que as mulheres querem mesmo é dar uma boa risada. Assim sendo, reproduzo uma piada que o meu amigo Luca me contou, impressa num recorte de jornal que ele tirou de um envelope. Tratava-se de um campeonato de futebol entre animais.
Jogavam as formigas contra as aranhas e o primeiro tempo do certame se encerrou com as aranhas vencendo por 8 a 0, porque faltavam pernas ao time das formigas. No segundo tempo, entrou a centopeia em campo do lado das formigas e mudou o placar; as aranhas perderam o jogo por um placar elástico. Os torcedores do time vencedor não entenderam por que a centopeia só entrou em campo no segundo tempo e abordaram o técnico.
-Por que demorou tanto?...
E o técnico das formigas esclareceu tudo:
-Demorou porque ela estava calçando as chuteiras.

Um carro, depois de capotar sete vezes no Vão Central da Ponte Rio-Niterói, caiu no mar.
 Esta notícia eu ouvi, primeiramente, no radinho de pilha, enquanto caminhava na quadra de futebol de salão da Praça Manet, poucos minutos depois do acidente.
-Morreram todos. - murmurei na hora.
No dia seguinte à quarta-feira de cinzas, li essa notícia, no jornal, bem esmiuçada.
A jovem, única ocupante do carro, resgatada por tripulantes de uma lancha de praticagem da Camorim, deve a sua vida ao cinto de segurança, principalmente. Ao colidir com a mureta, o air-bag foi eficaz, mas depois, com as sete capotagens que se seguiram, o cinto de segurança impediu que ela ficasse solta dentro do veículo, com o corpo indo com violência de encontro do painel e demais partes contundentes e, o que seria fatal, que fosse cuspida para fora.
Não posso precisar o ano em que se tornou obrigatório o uso do cinto de segurança nos carros neste país. Sei que quando as autoridades homologaram a obrigatoriedade, algumas pessoas tidas como inteligentes expressaram a sua oposição. Millor Fernandes foi visceralmente contra, cometendo o erro crasso de argumentar com a exceção em vez da regra.
Outro fato que chamou minha atenção desse acidente em que a vítima saiu sem uma fratura, apenas com lesão no baço, foi a queda de 50 metros no oceano. Direi por que.
Num livro do escritor inglês Lawrence Durell, que li anos atrás, havia um personagem, num penhasco que, para fugir, teria de mergulhar de onde se achava para as águas. O seu dilema cruel, que significava a sua sobrevivência, era saber a que altura o mar recebe com a dureza de um concreto os corpos que nele caem. Com o livro nas mãos, tamanha foi a empatia entre mim e esse personagem, que esse dilema passou para mim.
O romancista não dirimiu essa dúvida e eu, então, catei a resposta nas publicações de Física; nada encontrei e a minha curiosidade, com o correr do tempo, se desvaneceu.
Há uns seis meses, num programa didático de um canal de TV a cabo, jovens alegres tocaram nessa questão. Falaram do impacto dos objetos arremessados na água e do comportamento das suas moléculas de acordo com a altura da queda. E despertaram a minha atenção aludindo ao ponto em que o mar se tornava duro como uma rocha de granito.
-Enfim, vou saber... - animei-me.
E vieram as demonstrações dos jovens mestres de Física. Uma geringonça içou uma massa e, em seguida, deixou-o cair no mar. Ele se abriu e a recebeu. A geringonça ergueu mais alto outra massa e largou, o mar de novo se abriu e a recebeu.
Como a tal geringonça só tinha autonomia para levantar massas até 25 metros, perdi o meu tempo assistindo a essa aula de Física.
Agora, com essa notícia da moça que caiu com o carro do Vão Central da Ponte Rio-Niterói, fiquei, pelo menos, com uma certeza; a altura em que o mar se torna duro como concreto para os corpos que nele despencam é maior do que 50 metros. (*)


Pulei as páginas do noticiário sobre os dias de carnaval, mas não há como fugir de uma imagem a não ser que se pulem cadernos do jornal, o que só faço com os “Classificados”.
A imagem carnavalesca com que eu me deparei é de um folião fantasiado de Batman pedalando uma bicicleta.
Aí está uma boa ideia: amoldar a cidade de Gotham City ao ecologismo, trocando-se o Batmóvel pela... como direi, Batbike.
É verdade que Coringa, Pinguim. Charada e Mulher-Gato, com a vantagem da velocidade na fuga, gostariam de ver a cidade optando pelo verde.

Esta notícia, como outra tratada na última edição deste periódico, eu também li na coluna do Ancelmo Gois.
Devido à crise financeira no país governado pela Cristina Kirchner, a torcida argentina ficará fora dos estádios brasileiros na Copa do Mundo.
Até mesmo um pacote de viagem de ônibus para o Brasil, ao custo de 6 mil dólares, está fora das possibilidades financeiras do torcedor argentino. Apesar da rivalidade histórica entre nós e os hermanos, que sempre desaparece quando assistimos a um casal dançando a milonga, essa ausência será lamentável.
Nesse diapasão, aparecerá na Copa do Mundo apenas a entourage ligada à presidente.

No segundo caderno do Globo, do dia 7 de março, foi dedicada meia página à divulgação da Orquestra Sinfônica Brasileira, o que certamente alegrou o nosso amigo Sérgio Fortes, diretor da mesma, que apregoa o quanto pode as suas apresentações.
Quando, no programa Rádio Memória, eu escutei o violinista Luzer, que lá foi um domingo como convidado do Jonas Vieira e do Sérgio Fortes, destacar bem que tocava na Orquestra Sinfônica Brasileira Ópera e Repertório, e confesso que estranhei. Fico sabendo agora, com essa leitura do jornal, que se trata de uma orquestra surgida para abrigar 36 músicos que se negaram, em 2011, a se submeter a avaliações de desempenho impostas pelo maestro Roberto Minczuk.
Recordo-me que, na época, Sérgio Fortes remeteu umas trezentas mensagens eletrônicas diárias para todos aqueles que possuíam computadores em casa, inclusive eu, criticando o mencionado maestro.
Passaram uns meses, e deduzi que tudo estivesse resolvido, mas sei agora que não o foi totalmente; houve apenas um acordo temporário entre as partes conflitantes.
Também entendo, agora, por que o Sérgio Fortes disse que o Luzer levitava de felicidade porque a OSB Música e Repertório foi indicada para o International Opera Awards pela sua performance na ópera “Sonhos de Uma Noite de Verão”, de Benjamin Britten, realizada no Parque Lage.
Torceremos daqui que tudo termine harmonicamente, como pede a boa música.

(*) Sem pretender dar aula de Física ao redator do seu O BISCOTO MOLHADO, ou a seus leitores, este Distribuidor informa que depende da velocidade com que o corpo encontra a água. Essa velocidade deve aumentar com a altura, certamente, mas não é a única componente que influi. A forma do objeto e seu peso específico podem determinar alterações sensíveis na velocidade com que o objeto atinge a água. Como exemplo, imagine-se uma gaivota de papel, por mais alto que se a solte, ela chegará sempre com a mesma velocidade final.


quinta-feira, 20 de março de 2014

2577 - jabuticabas, ainda bem!



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4377                            Data: 07  de março de 2014
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LENDO O JORNAL

Maestro holandês Bernard Haitink rompe com a Orquestra Concertgebouw.
Essa manchete de imediato me chamou a atenção. Antes de prosseguir, retiro a “manchete”, pois logo saltou da minha memória a crônica do Nélson Rodrigues sobre a morte do Guimarães Rosa. O cronista expressou o seu espanto quando leu a manchete em letras garrafais do Globo sobre o falecimento do grande escritor por um corriqueiro enfarte. E assinalou, no seu estilo hiperbólico, que o único autor literário a chegar a manchete de jornal, quando morreu, foi Euclides da Cunha, mas, para tanto, teve o queixo arrancado a bala.
Voltemos à música e ao que provocou tamanha desafinação.
A citada orquestra holandesa completa 125 anos de existência, e, para a efeméride, não convidou o maestro Bernard Haitink que, de 1961 a 1988, ou seja, durante 27 anos, foi seu maestro titular e, desde 1999, é maestro honorário.
“Por que me queres mal, se eu nunca te fiz um bem?”- esta frase, atribuída a Confúcio, versa sobre a ingratidão humana. No caso do maestro, a ingratidão o atingiu com todo o bem que fez a orquestra.
Para culminar, Bernard Haitink tem 85 anos de idade, ou seja, poucas alegrias lhe restam e, talvez, a maior delas nesse fim do seu caminho lhe foi cruelmente arrancada.
Sei da importância de um convite desde que li um romance de Somerset Maughan, na adolescência, cujo nome esqueci. Mas ficou na minha retentiva a profunda depressão de um personagem frequentador assíduo dos salões da alta sociedade, quando, já idoso, não recebeu convite para uma festa de gala. Espero que o músico inglês não chegue a tanto, que fique apenas irritado com a Concertgebouw, que deve mais a ele, por ser eleita pela revista Gramophone como a maior orquestra do mundo, em 2008, do que aos anfitriões desse evento dos 125 anos.


Neste período de rescaldo carnavalesco – leio a edição do Globo de quarta-feira de cinzas, passo as vistas sobre os nomes das miríades de blocos que o prefeito Eduardo Paes incentivou com o objetivo de retomar o carnaval de rua. A maioria dos nomes é de duplo sentido, alguns deles de triplo e de até quádruplo sentido, tanta é a apelação.
A identificação de um desses blocos, contudo, me saltou aos olhos: “Me Beija Que Eu Sou Cineasta”.
Eis um nome pudico para mim. Por que assim penso? Explico-me: logo me vi diante da televisão assistindo ao filme francês “Os Sete Pecados Capitais”, que juntou igual número de diretores, cabendo um pecado capital a cada um deles.
O incansável, na época, Jean-Luc Godard, ficou encarregado da Preguiça. Na sua história, certamente com tons autobiográficos, ele é um cineasta que atrai uma jovem. Diferentemente dos foliões do bloco de carnaval, ele não pediu um beijo a essa jovem, ela, sim, que tomou a iniciativa e se ofereceu para ser atriz do filme que realizaria. Para isso, ela prometeu ir muito além de um beijo.
O cineasta vai, então, com ela a um apartamento discreto. Mas, antes mesmo de um beijo, lhe vem o pensamento de que teria de se despir e, em seguida, de ficar de novo vestido. É tomado pela preguiça e dispensa a jovem que fica com as mãos abanando.
O cineasta do Godard não sairia, certamente, nesse bloco de carnaval do Rio de Janeiro.

Foi divulgada pelo IBOPE uma pesquisa sobre as três maiores paixões do brasileiro:
Futebol - 77%
Cerveja - 35% 
Carnaval - 30%
A conta não fecha, ou seja, ultrapassa os 100%. Como a metodologia de cálculo não é revelada pelo Instituto de Pesquisa, vamos considerar isso um mero detalhe e tentar fazer uma análise desses números.
30% gostam de carnaval. Há mais de 30 anos, o Jornal do Brasil divulgou, na primeira página, com estardalhaço, que apenas 25% dos brasileiros gostavam. Foi uma surpresa quase geral, na época, pois imaginava-se que a grande maioria dos nossos patrícios não resistia ao batuque do samba. Mas se nos detivermos para examinar o número de pessoas que viajavam durante o denominado tríduo momesco, concluiremos que não cabia surpresa alguma.
Passados tantos anos, houve um aumento, segundo o IBOPE, de 5% de aficionados. Se levarmos em conta o número absurdo de pessoas que suportam nas estradas até 7 horas de viagem para escapulir da folia, fica a desconfiança sobre esses 30%.  E caso a questão fosse formulada de outra maneira? Assim: você gosta dos dias de carnaval? Se assim fosse, os 30% subiriam acentuadamente, porque englobariam os que participam da folia e aqueles que preferem ficar o mais longe possível do trabalho, mesmo que, para isso, tenham de suportar um engarrafamento de veículos de 15 horas, mais ou menos, computando também a volta da viagem.
Quanto à cerveja, 35% a consideram sua maior paixão.
Cremos que, embora a cerveja da Bélgica seja a melhor do mundo, nem 15% dos belgas a colocariam entre as suas maiores paixões.
Em primeiro lugar, aconteceu o previsível: o futebol reúne o maior número de apaixonados com 77%.
  O nosso governo populista, que sabia disso, trouxe a Copa do Mundo de 2014 para o Brasil. E com isso ocorreu um paradoxo: o chamado povão ficou de fora dos estádios. O Maracanã, para que fossem atendidas as exigências da FIFA, foi reformado, para o delírio não da torcida brasileira, mas das empreiteiras e hoje suporta apenas 70 mil espectadores. Tendo em vista que houve público de mais de 190 mil torcedores no Maracanã antes das reformas, conclui-se que perto de 120 mil ficaram fora da festa. E os preços dos ingressos podem, agora, subir exponencialmente de acordo com os interesses dos dirigentes, chamados de cartolas. E, até o momento, é o Flamengo, o mais popular clube do Brasil, que cobra mais caro, com alguns valores até comparáveis aos do Metropolitan Opera House de Nova York, sem exagero da nossa parte. Há quem diga, não sei se é verdade, pois não pretendemos assistir a jogo algum, que existem flamenguistas que comemoram gols, batendo palmas. Não creio: até em um espetáculo operístico no Covent Garden se grita.
Resumindo:
Um governo populista elitizou a maior paixão do brasileiro, o futebol. (*)
Essas coisas e a jabuticaba só existem neste país.

(*) Na ocasião da morte do Frank Sinatra, o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO leu uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, dele mesmo, no jornal, não era nada da internet, sobre contradições. Nela, o escritor comentava qualidades do cantor, que pronunciava as palavras com perfeição sem ser tão instruído e fazia jazz sem ser negro. Se não era bem isso era parecido. Aqui no Brasil, esse governo populista que queria o futebol como circo e a Petrobras mais estatal do que nunca, foi quem estragou o futebol, a Petrobras e, de quebra, a distribuição elétrica.
Muito parecido com o que se vê hoje, há uma cena em Lawrence da Arábia, em que os árabes nômades, comandados pelo tenente Lawrence tomam Istambul e da noite para o dia, tudo começa a cair, o fornecimento de água, a energia, as comunicações, até que os árabes ficam cheios de viver na cidade e vão embora, de volta para o deserto. Naturalmente, quando cessa uma etapa de má gerência, há um sofrimento generalizado até que as coisas voltem ao normal. Este será o nosso preço, mas, pelo menos temos jabuticabas.
  

2576 - dando com os burros n'água



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4376                      Data: 06 de março de 2014
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FRASES E COMENTÁRIOS

   “A leitura torna o homem completo, as preleções dão a ele prontidão, e a escrita torna-o exato.
A frase acima foi escrita pelo filósofo inglês Francis Bacon. Chega-me a propósito, pois, ontem, li no Globo a notícia que José Dirceu, detido no Complexo Penitenciário da Papuda porque comandou da Casa Civil a quadrilha que desviou mais de 100 milhões de reais dos cofres públicos, leu 15 livros em 4 meses, desde que foi preso em 15 de novembro de 2013.
Pretende o José Dirceu se tornar um homem completo, indo ao encontro do que diz a frase de Francis Bacon? Bem, lembrando o que falou Millor Fernandes sobre as pessoas de caráter duvidoso: eu não confiaria ao José Dirceu nem o meu cachorrinho para passear.
Na verdade, o Departamento Penitenciário determina que a cada 12 livros lidos em um ano, o detento ganha 48 dias de abatimento da pena. É essa determinação que motiva a bibliofilia do nosso ex-ministro da Casa Civil.
Rosa Grieco, leitora de uma voracidade insaciável, sairia logo da prisão. Por que pensei nela, que nunca cometeu um deslize que prejudicasse o próximo? São as artimanhas da nossa mente. Desculpe-me, Rosa.

“O que outro disser bem, é meu.”
É verdade que na época em que viveu Sêneca, de 4 a.C a 65 d.C, não havia copyright e se podia tomar como seu um grande pensamento de outrem. Não sou versado na obra do filósofo, mas acredito que ele jamais se apropriaria de ideias alheias, ou não?
Muitas vezes, o autor de uma citação está tão em evidência, que dispensamos nomeá-lo. Se se diz que há algo de podre na Dinamarca, por que atribuir isso a Shakespeare, se todos já sabem? Caso fosse no Brasil, em vez na Dinamarca, então sim, seria preciso identificar o autor da frase entre milhões.
Quando se trata de uma sentença popular, muitos fazem uma ressalva para não assumir o clichê. Nélson Rodrigues atribuía as citações populares a uma vizinha machadiana gorda e patusca. Rosa Grieco, por outro lado, atribui à Dona Isaura, que não era a escrava de Bernardo Guimarães.

“Vox populi, vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus)”
De tanto que a ouço desde criança, sem o nome do autor, eu dizia que era de um político demagogo. Bem mais tarde, tomado pela curiosidade, pesquisei a autoria.  Deparei-me, então, com controvérsias, mas fico do lado daqueles que julgam ser essas palavras de Alcuíno de York, monge beneditino anglo-saxão. Numa carta que escreveu em 798, em latim, naturalmente, foram pinçadas as seguintes palavras:
“E essas pessoas não devem ser ouvidas por quem continua dizendo que a voz do povo é a voz de Deus, desde que a devassidão da multidão está muito próxima da loucura.”
Embora pareça que a mídia de hoje pretenda nos levar para o tempo do império romano e da sua derrocada, de tanto que expõe o erotismo, não vamos nos ater à devassidão.
Fiquemos com a voz do povo, quanto a alguns dizeres no Brasil que, pelo passar dos anos, já se enraizaram na nossa cultura. Aqui vão dois:
Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão foi transformada pelo em “batatinha quando nasce esparrama pelo chão”;
Ele é a cara do pai esculpida em Carrara foi transformada em “ele é a cara do pai cuspida e escarrada”.
É a voz do povo, e Deus nada tem a ver com isso – parece-nos.

“Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la”.
Há mais de 500 anos antes de Cristo, Pitágoras nos deu esse pensamento que nunca perde a atualidade.
Em 1933, quando assumiu a presidência dos Estados Unidos em plena Grande Depressão, Franklin Delano Roosevelt aperfeiçoou a Administração de Ajuda de Emergência Federal, que estabelecia benefícios sociais com o objetivo de combater a pobreza em toda nação. O sistema social americano atual deriva dela.
Os americanos desempregados pela Grande Depressão podiam se candidatar para obter auxílio do governo. Havia muitos programas de serviços sociais disponíveis para socorrer os cidadãos empobrecidos, como o Corpo de Conservação Civil, a Administração do Progresso das Obras e a Administração das Obras Civis. Tais programas, no seu conjunto, ajudavam cidadãos e estados a conseguirem independência financeira do governo.
Quando o sistema social foi promulgado pela primeira vez, não só assistia os necessitados como os ajudava a se tornarem financeiramente independentes e não dependentes do governo.
Contextualizando com a frase de Pitágoras, ajudava-se o semelhante a levantar a carga sem levá-la.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa política social do presidente Roosevelt foi James Braddock, conhecido como campeão mundial dos pesos-pesados de 1935 a 1937 e também como “Homem Cinderela” pelas adversidades que superou na vida.
Braddock foi um campeão que sofreu na carne a crise de 1929 a ponto de pedir auxílio ao governo. É sabido que uma das maiores vergonhas de um povo orgulhoso, como o americano, era requerer esse auxílio, mesmo para aqueles que perderam seus bens no crash da Bolsa de Valores, que não era o caso de Braddock.
Boxeador que, depois de uma derrota pelo título mundial no fatídico ano de 1929, ainda teve o azar de quebrar a mão direita, foi trabalhar como estivador. Carente de recursos para sustentar mulher e filha, entrou na fila e recebeu a “esmola” do governo americano.
Quando se ergueu e retornou ao ringue com seguidas vitórias, restituiu ao governo todo o dinheiro que havia recebido. Até o fim da sua vida, em 1974, foi tratado pelo povo dos Estados Unidos como campeão.
 E cá no Brasil destas primeiras décadas do século XXI? Bem, aqui há o programa Bolsa Família que, no papel, beneficia famílias em situação de pobreza ou de extrema pobreza com transferência direta de renda. Deveria ser gerido pelo governo, mas o é por um partido político. Como a maioria dos beneficiados vota e não quer saber de orgulho, a sua carga não só é levantada pelo governo como levada.
Tudo errado – diria Pitágoras se visse isso.


quarta-feira, 19 de março de 2014

2575 - de bom humor também se vive 3



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4375                      Data: 05 de março de 2014
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PERGUNTAS  DOS LEITORES

-Como Camões adquiriu cultura tão sólida? Travassos.
BM: Existem muitas controvérsias sobre a infância e adolescência do poeta e, consequentemente, sobre a sua formação intelectual.
Especula-se que, aos treze anos de idade, foi educado pelo seu tio Bento, que o encaminhou para estudar na Universidade de Coimbra. Todavia, o seu nome não consta nos alfarrábios do tradicional educandário. Com o terrível terremoto de 1755 se perderam documentos valiosíssimos?... Sim, caro Travassos, mas a catástrofe se deu em Lisboa, não em Coimbra.
O que sabemos é que Camões adquiriu uma excelente formação intelectual, interessando-se pela literatura clássica e moderna, cosmografia e história.
Reza a tradição que ele foi um estudante indisciplinado, o que deve ser verdade, haja vista o seu temperamento irrequieto.
 
-Sendo a língua portuguesa, como versejou outro poeta – Olavo Bilac - “esplendor e sepultura”, acredito que a fama de Camões, com toda a centelha do gênio, não se espalhou por toda parte. Maria João
BM: Engano seu; as obras camonianas não ficaram sepultadas na língua portuguesa. Torquato Tasso, um dos luminares da poesia italiana, que possuía espírito competitivo, declarou que Camões era o único poeta que temia e lhe dedicou um poema. John Milton, proeminente nome da literatura inglesa, reconheceu a influência de Camões no seu trabalho. Cervantes considerava Camões o “cantor da civilização moderna”, e outro grande nome espanhol, Lope de Vega, também o enalteceu com entusiasmo. Em terras alemãs, Goethe reconheceu a sua genialidade; Friedrich Schlegel considerou-o o expoente máximo da poesia épica; Humboldt se encantou com seus versos sobre a natureza; e August-Wilhelm Schlegel escreveu que Camões vale por uma literatura inteira.
Resumindo: o poeta foi bem modesto quando escreveu aqueles dois versos sobre a divulgação dos feitos portugueses:
“Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar engenho e arte.”

-Na visita de Camões ao redator do Biscoito Molhado, este se ateve por mais tempo, a “Os Lusíadas”, mas o gênio lisboeta tem outras obras de inspiração equivalente. Ferreirinha.
BM: Falamos das demais criações, porém não desenvolvemos a matéria devido à premência de tempo.
Camões enveredou por três gêneros literários com igual competência: o lírico, o épico e o teatral.
Não só foi um mestre do soneto, como demonstrou virtuosismo nas canções e elegias. Na arte da glosa, instilou espontaneidade, ironia e humor, sendo insuperável nas redondilhas.
Para o teatro, contribuiu com três peças: “El-Rei Seleuco”, “Auto de Filodemo”, e “Anfitriões”. Das três, destaca-se “Auto de Filodemo”, representada em 1555, na Índia. Trata-se de uma comédia novelesca, com influência de Gil Vicente, autor que, de fato, dominou esse gênero no português quinhentista.
Quanto às edições das poesias de Camões, excetuando-se seu poema épico, aconteceu com ele desde o século XVI o que ocorre no presente com a internet, principalmente, ou seja, textos de autores anônimos atribuídos a autores famosos.  Se hoje assistimos a autores conhecidos, alguns de pouco talento, descabelando-se de indignação com essa prática, imagine-se como reagiria Camões se vivo fosse.
Na edição das “Rimas”, de 1595, foram inseridos vários poemas apócrifos, e tal patranha se estendeu até o século XIX. Nas “Rimas” da primeira edição, havia 65 sonetos, na edição de 1862, já eram 352. No final do século mencionado, dois especialistas do estilo camoniano realizaram a garimpagem do livro, e muitos sonetos foram descartados.

-Camões, que citou deuses gregos e romanos, era realmente católico? Almeida
BM : Camões, que enaltecia Vênus, e se sentia atraído pelos “roxos lírios” das ninfas, era profundamente católico. Não seguiu o catolicismo da Idade Média, pois, como sabemos, o Renascimento se impunha e os censores eclesiásticos consideravam natural a presença de deuses pagãos nas artes.
Camões não viu com bons olhos aqueles que professavam outra religião; atacou os protestantes e, mormente, os muçulmanos, representados como ardilosos, traidores e pérfidos.
Também criticou a Itália, sede do papado, devido aos crimes e vícios que lá vicejavam.

-Como era Camões fisicamente? Gomes
BM: Segundo os seus contemporâneos, tinha o porte mediano, cabelo louro arruivado, além de ser cego do olho direito.
Em Goa, entre 1573 e 1575, Camões foi retratado, porém, o original se perdeu e foi encontrado num saco de seda verde nos escombros de um incêndio do palácio dos Condes da Ericeira. O enredo novelesco não para aí; coube a Luís José Pereira de Resende, sob encomenda do Duque de Lafões, fazer uma cópia desse retrato.
Há também uma miniatura de Camões, pintada em 1581, na Índia, quando o poeta contava um ano de morto, que chegou aos nossos dias.
Fala-se também de um retrato, com data de 1556, em que ele aparece na prisão.
Enfim, não se conhece Camões hoje apenas pelo olho direito cego.

-Camões teve um amor definitivo? Pela sua vida turbulenta, parece-me que não. Amália
BM: Muitas foram as musas que fizeram o poeta segurar na pena. Como ele mesmo versejou: “Em várias flamas variamente ardia”.
Sabendo-se homem de muitos amores, Camões não identificou nenhum deles. Mesmo a Dinamene do célebre soneto, suposta donzela chinesa, seria um artifício poético.
Os biógrafos, enxeridos como deve ser, nomearam algumas damas: Catarina, Dona Joana Meneses, a Condessa de Linhares, etc.
Nos seus poemas amorosos, sobressai o amor respeitoso, platônico, mas, em muitos deles, nas entrelinhas, pulsa o desejo.
Do livro “Eros e Tanatos“ vale reproduzir este parágrafo:
“Da poesia trovadoresca, herdou a tradição do amor cortês, que é ele mesmo uma derivação platônica que coloca a dama num patamar ideal, jamais atingível e exige do cavaleiro uma ética imaculada e uma total subserviência em relação à amada. Nesse contexto, o amor camoniano, como expresso nas suas obras, é, por regra, um amor idealizado que não se realiza e se expressa no plano da abstração da arte. Contudo, é um amor preso no dualismo, é um amor que, se por um lado ilumina a mente, gera a poesia e enobrece o espírito, se aproxima do belo, do eterno, do puro e do maravilhoso, é também um amor que tortura  e escraviza pela impossibilidade de ignorar o desejo  de posse da amada e as urgências da carne. Queixou-se o poeta inúmeras vezes, amargamente, da tirania desses amores impossíveis, chorou as distâncias, as despedidas, a saudade, a falta de reciprocidade, e a impalpabilidade dos nobres frutos que produz.”
É isso aí.