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terça-feira, 7 de junho de 2022

3114 - Spica (R)

O BISCOITO MOLHADO

Edição 2111                       Data: 07 de julho de 2004       

                     

JUSTIFICANDO O NOME


Lembro-me que ninguém estava só com um radinho de pilha. Nélson Rodrigues até criou a expressão “mais só do que Robinson Crusoé sem radinho de pilha”. O grande navegador inglês, William Dampier, que realizara um minucioso levantamento da costa oeste australiana, na sua última viagem, em 1711, trouxe de volta ao mundo dito civilizado um tal de Alexander Selkirk, que estava há anos abandonado na remota ilha de Juan Fernandez ao largo do Chile. Inspirou com a sua história Daniel Delfoe a escrever o romance Robinson Crusoé, e pela solidão, a expressão que citamos do Nélson Rodrigues. 

O radinho de pilha surgiu nos anos 50 com o espetacular reerguimento do Japão das cinzas da Segunda Grande Guerra. Era da marca “Spica” o primeiro radinho de pilha que vi; pertencia ao noivo da minha tia que, quando procurava um lugar isolado do casarão da minha avó, para noivar, não conseguia ficar sozinho com a minha tia caso levasse também o “Spica”: eu, um garoto fascinado pelo radinho, ia sempre atrás. 

Não era só eu, havia, no mundo todo, gente fascinada pelo “Spica”. Recentemente, esbarrei com um texto de um argentino intitulado “La Spica, pequitita pero cumplidora” (pequenina, mas resolve), onde diz, entre outras coisas:

-”La aparición de un pequeño adminículo, el transistor, modificó los hábitos de toda una generación, que lejos estaba de suponer lo que sus ojos alcanzarían a ver en materia de cibérnetica. Pero junto com él o mejor, merced a él, llegó a nuestras manos la radio portátil y el símbolo por excelencia de esa revoluctión se llamó Spica... Hasta su arribo, escuchar radio implicaba una compleja negociación familiar para lograr la mejor ubicación frente ao voluminoso aparato. Pero a partir de la introducción de la Spica se hizo posible hasta escuchar el programa favorito...”

 E paramos por aqui com a transcrição do texto argentino antes que algum leitor insinue que o  Biscoito Molhado se integrou ao Mercosul.  

Fizemos referências, na última edição, mas não muitas, dos 50 anos do marco alemão - nome com que ficou conhecida a moeda criada na política do celebrado pai do milagre econômico alemão, Ludwig Erhard – e agora, com o radinho de pilha, pretendemos registrar apenas o início da reação da economia do Japão do yen depois das cinzas da guerra.  

E o Brasil?... Bem, o Brasil comemora com manifestações   meio chochas os dez anos do real. Um dos seus pais, que são muitos, foi o André Lara Resende. Na época em que o Otto Lara Resende era um personagem obsessivo do Nélson Rodrigues, este escreveu que o Otto era pai de um menino tão inteligente que seria presidente da República: era o André. Nélson Rodrigues, que já fora a primeira pessoa a chamar Pelé de rei do futebol depois de um Santos x América, em 1957, errou na previsão.

Fernando Henrique Cardoso, esse sim, o inteligente que chegou à presidência da República no Brasil (talvez o único), acaba de escrever sobre esses dez anos do Real. É suspeito para escrever, pois era o ministro da Fazenda durante a gestação e parto da moeda, mas não lambeu tanto a cria a ponto de delirar. Eis um parágrafo da escrita do ex-presidente.

-”Se o Real teve alguma virtude foi, além da criação da URV, a decisão de abrir o jogo: tudo foi feito informando a população, sem surpresas, com a antecipação do que poderia ocorrer. Sem a compreensão e a adesão da sociedade, o plano teria ido ladeira abaixo.” - 

-”Justificas o teu nome” - dizia Balzac ao seu empregado, que se chamava Paradis, sempre que este lhe trazia boas notícias. O Real justificou o seu nome, pois dissipou as nuvens espalhadas pela hiperinflação que ocultava a realidade. Muitos bancos já estavam quebrados. Recordo-me que freqüentava a Corretora Caravelo na década de 80, e já ouvia os conselhos dados aos clientes para evitarem o Bamerindus, abarrotado de papagaios do escândalo da SUNAMAM.  Mas só com os abalos da estabilização com o Real, o banco caiu, embora o seu presidente fosse o ministro da Agricultura do governo FHC. Outra aberração provocada pela  hiperinflação brasileira era o fato de o Banespa pagar um dos melhores dividendos da Bolsa de Valores, quando os seus maiores acionistas – as estatais paulistas – eram os seus maiores devedores: não pagavam a uma instituição, e ainda recebiam dinheiro dela. 

Tudo era permitido num país em que a inflação atingiu de 1980 a 1993, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas a marca de 146 bilhões, 219 milhões, 946 mil e trezentos. Na Alemanha, quando a hiperinflação de 1923 transformava as economias de toda uma vida num frugal café da manhã, o autor do livro “A República de Weimar”, Lionel Richard, registra que  muitos endinheirados ganharam ainda mais com a explosão dos preços, como  as indústrias dos Krupp, para darmos um exemplo mais conhecido.

O Real, desanuviando o ambiente hiperinflacionário, desagradou a muitos poderosos no início, mas depois os recompensou com os altos juros. Passados dez anos, os juros batiam os 1006% , enquanto a inflação pelo IPCA acumulava 167%. 

Se o Real justificou o nome, como o Paradis de Balzac, no que concerne ao fim da hiperinflação, durante um bom tempo deu a ilusão aos brasileiros de pujança por causa da taxa de câmbio sobrevalorizada.   Com um PIB de 900 bilhões de reais ou 900 bilhões de dólares, no início do Plano Real, quando  um real equivalia um dólar, nós éramos a oitava economia do mundo, mas quando o real passou a justificar o seu nome, vemos hoje que o Brasil é, na verdade, a décima quinta economia do mundo, e que o PIB, hoje, de 1,4 trilhão de reais, representa apenas 450 bilhões de dólares com o câmbio  3,11 reais igual a 1 dólar. 

O Plano Real mostrou a dura realidade que é o empobrecimento do Brasil na esfera mundial: 50 % em dez anos, ou seja, de US$ 900 bilhões para  US$ 450 bilhões. 

Afirmar que o empobrecimento do Brasil é provocado pelas dívidas seria, ao nosso ver, simplificar a questão. Aqui sempre existiu uma irresponsabilidade fiscal: os políticos sempre gastaram a mancheias o dinheiro do contribuinte com mira nas urnas. Nessa última eleição mesmo, os quatro candidatos a presidente da República, Lula, Serra, Garotinho e  Ciro Gomes foram a Brasília, no meio da campanha, prestar homenagem ao centenário do maior gastador deste país, Juscelino Kubitschek. Presidente que hoje é reverenciado, graças à mediocridade do regime militar que o transformou em mártir. Juscelino construiu uma cidade em três anos, e  foi chamado por Nélson Rodrigues de  “Canalha Dionisíaco.” Falando em Nélson Rodrigues, se vivo ainda fosse, já teria atualizado a expressão “só como Robinson Crusoé sem radinho de pilha” para “só como Robinson Crusoé sem celular”. Neste país, afinal, foge-se como o diabo da cruz da Lei de Responsabilidade Fiscal trazida pelo Plano Real, e venera-se  um celular. 













3113 - Mascarado (reedição)


                    O BISCOITO MOLHADO 

Edição 2117                                      Data: 17 de julho de 2004 

A BALEIA ASSASSINA 

É considerado modelo de início de romance o primeiro parágrafo do Moby Dick, obra-prima de Herman Melville e da literatura americana (Sei que alguns leitores, os mais críticos, dirão que errei o título, mas já daqui insisto sobre o meu acerto; não é Bob Dieck, que ainda não chegou à obesidade mórbida dos cetáceos). 

No primeiro parágrafo do Bob Dieck... digo: Moby Dick, estão as palavras que capturam o leitor para ele prosseguir na leitura até o desfecho, porque o escritor desenvolveu magistralmente a técnica narrativa que recebeu a denominação de lead. 

Não cabe nesta edição do Biscoito Molhado reproduzir integralmente esse primeiro parágrafo, que é longo, mas parte dele vamos destacar: 

“... Sempre que começo a ficar austero; sempre que é um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que dou a parar involuntariamente diante de empresas funerárias e a cerrar fila em cada enterro que encontro; e especialmente sempre que a minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas – então acho que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível. Este é o meu sucedâneo para a pistola carregada. Com um floreio filosófico, Catão se atira sobre a espada; eu calmamente vou para o navio.” 

Quem assim fala é o Samuel, o personagem que conta a história do ódio do Capitão Ahab pela baleia branca. O parágrafo se inicia, aliás, com essas palavras: “Chamai-me Samuel”. 

Ele foi para o navio, e nós observamos, no dia-a-dia, que muita gente deveria ir para o navio em vez de permanecer na terra, irritadiças, agressivas e hipocondríacas, importunando-nos com o seu azedume. 

Às vezes tentamos um lead no Biscoito Molhado, isto é, um início que enfeixe as principais questões como no início do Moby Dick – Quem? Quando? Onde? O que? Como? Por que? - mas ficamos na vã pretensão. Afinal, o mais próximo que nós chegamos de uma baleia como personagem, nas nossas tentativas neste periódico, foi o Paulo Octávio, antecessor do Dieckmann na CGTMAR - Coordenadoria-Geral de Transportes Marítimos - do DMM, que chamávamos de Orca, a baleia assassina. Em vez de investir contra o meu navio, arrancar-me a perna com uma dentada, Orca... digo, Paulo Octávio, com gestos amistosos, parou-me um dia num corredor do Departamento de Marinha Mercante: 

- “Liane, a minha mulher, está reclamando que você nunca mais me chamou de Orca, a baleia assassina. Ela quer saber quando é que você vai voltar a me chamar de baleia assassina?” 

- “É pra já.” - respondi. E para atender a Liane, antecessora da Bel como primeira dama da CGTMAR, suspendemos já nas rotativas a edição em que chamávamos uma colega nossa de “Anestesista de Dores de Indaiá”, e lançamos mais uma aventura de Orca, a baleia assassina. Pela pressa da redação desse número, não alcançamos a metade dos leitores da reportagem em que tratamos do confinamento do Paulo Octávio no Paraguai, por ocasião do assassinato do vice-presidente desse país (Com fronteiras e aeroportos fechados, Paulo Octávio só conseguiu voltar para o Brasil disfarçado de massagista do Corinthians, aproveitando que as autoridades abriram uma exceção para o time brasileiro, que lá jogara). Voltou ele para o Brasil, não para o navio, mas como o personagem que fez a narrativa do terrível embate ente o Capitão Ahab e o leviatã branco. 

 Transcrevemos, dia desses, grande parte do trabalho jornalístico do Canal Discovery sobre a vida de Francis Drake. Parece-nos que, na sua derradeira viagem, em 1595, o corsário já se enjoara da terra; precisava do mar para não sair batendo nas pessoas e ruminar picuinhas com a rainha que já o esquecera. Escrevemos,então, sobre o seu túmulo aquático, e nenhuma discordância apareceu. Ainda bem. Mas quando aparecem discordâncias como a do Rogério sobre a personalidade realmente homenageada com nome de rua no Leblon, repetimos: ainda bem. 

 Julgávamos o Conde de Bernadotte da rua do Leblon o próprio militar de Napoleão que, na Suécia, fora rei, mas estava errado, como o autor da biografia do Paulo Fortes nos mostrou. O Conde de Bernadotte, nascido em Estocolmo em 1895, foi sobrinho do rei Gustavo V. Conde de Bernadotte, presidente da Cruz Vermelha em 1945, foi intermediário na oferta de capitulação de Himmler frente aos aliados que, no entanto, recusaram a proposta alemã. Mais tarde, foi designado mediador da ONU, na Palestina, no conflito entre árabes e israelenses. Foi assassinado a tiros na zona de Israel, em Jerusalém, em 1948. Ficou, no Rio de Janeiro, a homenagem numa rua do Leblon. O Conde de Bernadotte não foi tão ilustre quanto o seu antepassado, que ajudara a derrotar Napoleão Bonaparte, em Leipzig, em 1813, mas mereceu com sobras a homenagem.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

233 - Quebra-dente (reedição)

O BISCOITO MOLHADO

Edição 2107                                                            Data: 01 de julho de 2004

BEBEDEIRA E HUMOR

Bem antes do New York Times, o Biscoito Molhado fizera referências às carraspanas do Lula em algumas edições. Não houve maiores repercussões porque o nosso divulgador, apesar da fama de democrata do nosso presidente (democrata borracho), evitou que tais edições chegassem ao Palácio do Planalto e à Granja do Trôpego... digo: Granja do Torto. Como o New York Times não tem um divulgador com a mesma perspicácia que o nosso, o jornal americano caiu nas do presidente que, por sua vez, caía de porre. Assessores do Chefe da Nação dublaram, então, a página do jornalista Larry Porter, e Lula, entendendo tudo, ou quase tudo pois a ressaca não passara de todo, quis expulsar o “ofensor” do Brasil. 

Nós, do Biscoito Molhado, que nos bons tempos líamos “Ofendidos e Humilhados” de Dostoievsky, e hoje participamos de leituras míopes sobre ofendidos e ofensores, acompanhamos o caso com as opiniões que pipocaram por toda parte. Alguns opiniáticos, pretenderam buscar erudição nessa dose exagerada do jornalista americano que não desceu bem pela goela do presidente brasileiro, e dois deles compararam o caso a um episódio de “Os Maias” de Eça de Queirós. Essas comparações que saíram no Globo através de um cronista e de um leitor não estavam corretas, pois falavam de ofensa de bebedeira através de um jornalzinho, “Corneta do Diabo”. Ora, de ofensas por jornalzinho, dizem (disseram até no Diário Oficial) que nós entendemos e, por isso, repetimos que na obra-prima do Eça de Queirós, ninguém ofendeu ninguém com alusões a bebedeiras via imprensa. Os fatos da ficção eciana foram mais ou menos os que seguem no parágrafo seguinte.  

Dâmaso, rejeitado por Maria Eduarda, que vive uma paixão por Carlos, procura o jornalzinho de Palma Cavalão, “Corneta do Diabo”, para arremessar lodo sobre essa paixão por meio de um artigo. Antes de essa cornetada ser ouvida por toda Lisboa, João Ega, amigo de Carlos, age. Carlos lê o artigo, e é tomado pela indignação. E, indignado, pensa: 

- “Mas só Lisboa, só a horrível Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu rebaixamento social, a perda inteira de bom senso, o desvio profundo do bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma Corneta do Diabo.” 

Com a ação do Ega, Palma Cavalão é procurado, cem mil-réis lhe são oferecidos, a tiragem é suspensa, o caluniador Dâmaso é descoberto, e o caluniado quer sangue. João da Ega vai, então, com Vitorino Cruges, que seria com ele a testemunha de um “duelo inevitável”, abordar um rotundo e acovardado Dâmaso Salcede. Nessa abordagem, Ega aproveita para também se vingar, pois o ofensor posava em público de amante da mulher de um banqueiro, o Cohen, que também fora amante sua, Raquel, “a amada hebréia”. Vingou-se, ditando ao ofensor uma carta de retratação em que este se confessava um bêbado. Narrar essa cena, só mesmo com as palavras de Eça de Queirós: 

- “E desenvolveu a sua idéia, mostrando quanto era generosa e hábil – enquanto o Dâmaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos nem ele queriam que o Dâmaso, numa carta (que se podia tornar pública) declarasse “que caluniara por ser caluniador”. Era necessário, pois, dar à calúnia uma dessas causas fortuitas e ingovernáveis que tiram a responsabilidade às ações. E que melhor, tratando-se de dum rapaz mundano e femeeiro, do que estar bêbado?...Não era vergonha para ninguém embebedar-se... O próprio Carlos, todos eles ali, homens de gosto e de honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma higiene e um luxo, muitos homens da história bebiam demais. Em Inglaterra era tão chic, que Pitt, Fox e outros nunca falavam na Câmara dos Comuns senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bêbado! Enfim, a História, a Literatura, a Política, tudo fervilhava de piteiras... Ora, desde que Dâmaso se declarava borracho, a sua honra ficava salva. Era um homem de bem que apanhara uma carraspana e que cometera uma indiscrição... Nada mais!” 

Dâmaso assina a carta e, depois, se enreda com um tio sóbrio que chegara da França, mas isso fica para outra vez. Está claro, portanto, que não houve ofensa alguma de bebedeiras através do jornalzinho dos Maias de Eça de Queirós, como andaram citando nessa polêmica toda. 

Voltando às piteiras do nosso presidente Lula, sopraram por aí que, na festa dos vinte e quatro anos do PT, no Hotel Glória, ele foi fotografado pela revista Veja aos bordos, isto é, ziguezagueando. A revista preferiu não divulgar as fotos pois, na mesma ocasião, estourava o escândalo do Waldomiro. 

Para nós, do Biscoito Molhado, chamar alguém de bêbado, tanto pode ser calúnia como humor, depende do tempo transcorrido. Tentaremos nos explicar nos parágrafos seguintes sobre esse tempo transcorrido. 

No inverno de 1999, por volta das cinco horas da manhã de uma sexta-feira, praticava eu minha aeróbica pelas ruas quando, na vizinhança do Dudu, nosso colega do DMM, hoje da ANTAQ, mais precisamente na Praça Avaí (sem “h”), tropecei num quebra-mola, caí de boca no chão, perdi o dente coroado de jaqueta da frente com raiz e tudo, e parei numa clínica com um pequeno vaso sanguíneo rompido. Na segunda-feira seguinte, de beiçola inchada e lenço na boca para esconder o humilhante buraco na dentição, sou abordado pela Ana Maria, então chefe da Divisão de Acordo sobre o meu drama. Conto-lhe, visivelmente desconfortado, aquilo que ela já sabia por terceiros, com toda certeza. No momento em que chego à parte em que tropeço no quebra-mola, ela intervém: 

- “Carlos Eduardo, você não estava bêbado?...” O riso, mais para gargalhada, que soltou em seguida, indicava, para quem a conhece, que a sua pretensão era humorística. Vinguei-me na edição do Biscoito Molhado do dia seguinte, lembrando o personagem do Alan Alda do filme “Crimes e Pecados” do Woody Allen que afirma que o humor é a tragédia mais o tempo, e dizendo que a “engraçadinha” Ana Maria já apressava o humor quando a tragédia ainda se fazia presente. Ou seja, não transcorrera ainda o tempo em que a tragédia se transforma em humor. Ela não lia sempre o Biscoito Molhado, mas a sua leva-e-traz, hoje gerente de Afretamentos, era leitora assídua e, assim, ela tomou conhecimento da minha reação. Olhou-me por alguns dias com desconfiança, e depois a coisa parecia superada entre nós dois. Parecia, mas isso é assunto para a edição do Biscoito Molhado de 9 de julho, quando comemoraremos um ano desde que foi lacrado o meu computador na ANTAQ. Comemoraremos com muitos brindes. Até lá.

domingo, 2 de agosto de 2020

3111 - Auto-censura não existe (reedição)


O BISCOITO MOLHADO 

Edição 2106     Data: 30 de junho de 2004 
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NO ÚLTIMO ATO, O TIRO 

 - ”Eu já não te vi em algum lugar?”

Ora, uma pergunta dessa feita ao Dieckmann é uma oportunidade para ele abrir toda a sua plumagem de pavão. 

- “Não teria sido no Faustão?... Ou foi no Bom Dia, Brasil?... Também dei umas entrevistas na TV a cabo...” 

Não; o senhor que fora apresentado ao Dieckmann, por mais que exigisse da memória, não se lembrava do local. 

 - “Califórnia... Sou nome de armazém na Califórnia, sem o “c”... 

Explico: um admirador mexicano, não muito afeito aos sobrenomes batavos, comeu o “c”, e meu nome ficou Diekmann. Diekmann Store. Não teria sido lá que você viu, não a mim, pois viajo mais à Europa, mas o meu nome?” 

Não. Não fora no estado da indústria cinematográfica. A memória do interlocutor do Dieckmann falhara, mas o seu entendimento não: fora apresentado a uma pessoa assediada pela mídia. Nosso amigo percebeu, então, que era o momento de se mostrar mais próximo da realidade. 

- “Apesar dessas aparições, evito o que posso expor-me na mídia. Sabe como é: aglomerações ao redor... 

Agora mesmo, o Faustão me convidou de novo para ir ao seu programa. Recusei o convite. Pediu-me, então, permissão para mostrar o meu retrato. Dei a permissão, porém impus uma condição: 

“Pode mostrar o meu retrato desde que seja o mais rápido possível.” 

Faustão ainda tergiversou, gaguejou com aquele sotaque paulista que a disputa no IBOPE com o Gugu se acirrara, que precisava me mostrar mais... Não adiantou: fui incisivo. 

No dia seguinte, amigos falavam que viram o meu retrato no programa do Faustão, e que o meu retrato estava com pressa...” O interlocutor do Dieckmann, que já estremecera com um estalo na memória quando ele falara no sotaque do apresentador da TV Globo, sentiu a mesma sensação de Arquimedes quando descobrira a Lei do Empuxo. 

- “Eureka! Foi em São Paulo... Eu te vi em São Paulo por ocasião das festividades dos 450 anos da cidade com um amigo, assistindo a um desfile de carros antigos.” 

- “É verdade – meneou Dieckmann a cabeça – eu lá estava com um amigo que pertencera ao governo da prefeita Marta Suplicy. Fui lá para fazer-lhe companhia, ver os carros clássicos e, principalmente, porque, dias antes, a Rita Lee se queixara num show, no Canecão, que não via celebridades em São Paulo...” 

Nesse momento, Dieckmann tentou não imitar, mas caricaturar a Rita Lee: 

-“...Paulista não sabe fazer festa. Vejam os 450 anos de São Paulo...Enquanto no Rio se esbarra em cada esquina com uma celebridade, lá em São Paulo o máximo que a gente vê é a Hebe.” 

Dieckmann, agora, despia a máscara da Rita Lee, e vestia a sua: 

- “Resolvi, mais pela queixa da cantora e compositora, ir a São Paulo, naquela ocasião. Não poderiam agora reclamar de falta de celebridade na festa dos 450 anos...” 

Bem, leitores do Biscoito Molhado, com pequenas traições aos fatos, pois procuramos deter o máximo o ímpeto da nossa imaginação, foi esse o diálogo do Dieckmann com o senhor que sofrera uma rápida crise de amnésia. Dirá um, ou talvez dois leitores mais caturros, que nós incomodamos muito o nosso amigo com piadinhas. Bem, às vezes comparamos o Dieckmann com personagens do Nélson Rodrigues, como recentemente à consultora sentimental Myrna, como ao Otto Lara Resende... Alguém talvez diga que o escritor mineiro nunca foi personagem nelsonrodriguiano; mas foi. Nélson Rodrigues escreveu centenas de páginas galhofeiras onde Otto Lara Resende se destacava como personagem. Muitos estudiosos garantem que a frase “O mineiro só é solidário no câncer”; foi criada na realidade por Nélson Rodrigues que, para deixar Otto Lara Resende em situação constrangedora perante os seus conterrâneos, atribuiu-lhe a autoria. Não contente, o dramaturgo escreve uma peça em que um personagem cita por diversas vezes essa “frase do Otto”, e a intitula “Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Resende”. 

Carlos Drummond de Andrade, que nada tinha a ver com isso, a não ser a mineiridade, telefonou certa vez para Otto Lara Resende, incitando-o a dar um basta a esses deboches do Nélson Rodrigues. Não me recordo onde li isso, faz muito tempo, mas a resposta do escritor ao poeta que o chamava ao mau humor... digo: à compostura de macho, foi mais ou menos esta: 

- “Fique sossegado: quando chegar ao último ato, eu dou um tiro no Nélson Rodrigues.” 

Talvez no quinto ato do Rigoleto – sussurrou, talvez.  

Eles, na verdade, eram fascinados um pelo outro. Conta Ruy Castro, no “Anjo Pornográfico”, que Nélson Rodrigues muitas vezes batia à porta da casa do Otto Lara Resende e ouvia da empregada o aviso que o patrão não estava em casa. Passados alguns minutos, o dramaturgo repetia o ritual até o próprio dono da casa aparecer e abrir a porta com essas palavras: “Está bem, Nélson, você venceu.” Era tamanho o encantamento que escritor mineiro exercia sobre os ouvintes, numa conversação, que o cronista Rubem Braga afirmava que o Otto Lara Resende era que nem passarinho: de quem pegasse primeiro. 

Nesta altura da nossa edição, talvez um ou outro leitor note o desaparecimento do Dieckmann. Mas é proposital: vamos deixá-lo desaparecido, senão ele fica mais mascarado do que já é.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

3110 - Biscoito Sacro-Fundamentado (reedição)

O BISCOITO MOLHADO

Edição 2105                                            Data: 29 de junho de 2004       
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   DO TIO DO ESTÁCIO DE SÁ AOS JUDEUS NO BRASIL

Na Fortaleza de São João, na extremidade do bairro da Urca, foi fundada a cidade do Rio de Janeiro por Estácio de Sá que, pouco depois, morreria aos 24 anos, flechado pelos tamoios que lutavam ao lado dos franceses. Parece que não existia uma estátua para lembrar o fundador da nossa cidade pois, não faz tanto tempo assim, uma música com o refrão “Cadê a estátua do Estácio de Sá?” alcançou um grande sucesso na voz do Miltinho. Hoje, no entanto, vê-se a estátua de Estácio de Sá, trabalhada em  bronze, lá na Urca. 

O barítono Paulo Fortes, com um diafragma infinitamente  mais possante do que o do Miltinho, andou fazendo pergunta quase igual: “Cadê a estátua do Carlos Gomes?”; isso porque ela estava  bem longe da casa da ópera da cidade do Rio de Janeiro. Resolveu, então, contratar uns sujeitos parrudos que trouxeram o Carlos Gomes para o seu local de direito, o Teatro Municipal e enviaram a estátua de Chopin, que ali se encontrava com a sua melancolia de romântico empedernido, para a Praia Vermelha. Dia desses, na Rádio MEC, num programa sobre serestas cantadas por Paulo Fortes, a viúva do barítono, Dona Zilca Fortes, contou como o marido arquitetara o remanejamento das estátuas de Carlos Gomes e de Chopin.

Estátuas têm motivado confusões e, no Don Giovanni de Mozart, a estátua do comendador assassinado resolveu dar um corretivo no seu assassino no fim da ópera, já que os vivos não se mexiam. Mas vamos retornar ao Estácio de Sá, ou melhor, ao seu tio Mem de Sá.

Mem é uma letra hebraica, uma das três letras mães, Aleph, Mem e Schin. Há indícios, portanto, de que o governador-geral do  Brasil, sucessor de Duarte da Costa, tenha sido judeu como, anteriormente a ele, Tomé de Sousa. Contudo, o que aprendemos  nos livros de escola é que os judeus chegaram ao Brasil com as invasões holandesas no Nordeste em busca de liberdade religiosa. Sabemos hoje que o principal estímulo para a colonização sistemática do Brasil, a partir de 1516, foi a cultura da cana de açúcar para cá trazida da Ilha da Madeira por “alguns judeus proscritos de Portugal”, segundo um relato de 1779, redigido pelo membro da Academia Real de História e Letras de Sevilha, Don António Capmany de Montpalau. Também  sabemos hoje que, no grupo de Fernando de Noronha, o cristão-novo que arrendara terras no Brasil, encontravam-se outros cristãos-novos que se tornaram senhores de engenho, mercadores de açúcar, administradores de fazenda, etc. 

Acontecia com o Brasil, no que diz respeito aos judeus, o que acontecera  com Portugal muitos séculos antes.

Nas invasões romanas, às terras que seriam posteriormente Portugal, avultavam muitos povos considerados decisivos na formação étnica dos portugueses: sírios, itálicos e, principalmente, judeus.  Lê-se no Pequeno Dicionário de História de Portugal que inscrições funerárias descobertas no Conselho de Lagos, no século VI e VII, comprovam a existência dos judeus no que viria ser a terra lusitana. 

O leitor do Biscoito Molhado já percebeu, certamente, a nossa intenção: provocar o Causídico Verborrágico, catedrático no assunto, a complementar com palavras e mais palavras esta nossa pequena  resenha. Mas prossigamos na nossa provocação.

Em 1147, Dom Afonso Henrique, ao tomar Santarém dos mouros, encontrou populosas e proeminentes colônias judaicas. Os judeus gozaram, na verdade, de certa paz na terra lusa, sobretudo do século VIII ao século XI e de 1450 a 1480, quando alcançaram grande prosperidade. Porém, já começaram a aparecer na Espanha as  perseguições ferozes aos judeus: Toledo, em 1355, com a estimativa de 12 mil mortos, Palma de Mallorca e Sevilha, em 1391, com 50 mil mortos. Em 1478, com a instituição da  Inquisição, muitos milhares de espanhóis buscaram refúgio em Portugal. 

Em 1492, foi declarada a expulsão de 90 a 130 mil judeus da Espanha que, então, se transferiram para  Portugal. Entre esses judeus, encontrava-se Isaac Abravanel, ascendente do Sílvio Santos Vem Aí, e que fora ministro da rainha Isabel I. Também se achava nessa leva o importante astrônomo Abraão Zacuto. Historiadores calculavam que a população judaica acrescida dos judeus expulsos da Espanha atingia a um quarto de toda população portuguesa. 

Em 1495, Dom Manuel, o Venturoso,  subindo ao trono e, vendo nos judeus, homens do comércio e da ciência que possibilitariam o crescimento de Portugal, concedeu liberdade aos judeus castelhanos que tinham sido escravizados. 

Depois, pretendendo casar com a filha dos reis católicos, Fernão de Aragão e Isabel de Castella, deparou-se com uma cláusula no contrato de casamento que lhe exigia  a expulsão dos hereges de Portugal, ou seja, os mouros e os judeus. Sem conseguir convencer os reis católicos da Espanha do desastre econômico que tal medida acarretaria, Dom Manuel I assinou, em 5 de dezembro de 1496  o decreto da expulsão dos hereges, com o  prazo limitado até 31 de outubro de 1497. 

Aos judeus, sob a punição de  confisco de bens e morte, foi dada a opção do desterro ou da conversão pelo batismo. Surgiram, assim, no Brasil, os desterrados e  os cristãos novos  de que já falamos de passagem nesta edição. E com  os batizados dos cristãos novos, surgiram os Coelhos, os Baratas, os Aranhas, os Nogueira, os Pereira, os Carvalho como eu, etc, etc. 

Dia desses do mês de abril, no programa do Rodolfo Botino, na TV Educativo, ele entrevistou o professor de Arquitetura e Urbanismo, Nireu Oliveira Cavalcanti, que publicara um livro sobre crônicas da História do Brasil que redigira anos antes no Jornal do Brasil. 

O professor lembrou o fato de o tribunal da Inquisição de Portugal enviar um inquisidor às colônias para se enfronhar das denúncias de práticas judaicas de cristãos novos. E por causa de uma dessas denúncias, a família Paredes, de senhores de engenho, que celebrara um casamento em Jacarepaguá, com rituais estranhos ao catolicismo, segundo uma delatora, foi presa e destituída dos seus bens (parte dos bens confiscados passava para o delator - o que incentivava o dedurismo). 

Essa mesma delatora, segundo o entrevistado do Rodolfo Botino, apontara o cristão novo João Ximenes como praticante de ritos judaicos, e a sua chácara, no Largo do Machado,  depois de confiscada, passou para a Carlota Joaquina.  

Entre os rituais judaicos no casamento dos Paredes denunciado estava o fato de  os homens ficarem num compartimento da casa e as mulheres noutro. 

Ainda dentro da prática dos rituais judaicos, depois da chegada dos judeus ao Nordeste com a invasão dos holandeses, passaram ser observados, com suspeição, os seguintes hábitos: pintar a casa no final do ano, arrumá-la às sextas-feiras, comprar mercadorias à porta de casa, etc. 

Hoje, falamos do fundamentalismo islâmico, mas também foi terrível o fundamentalismo católico que, entre outras coisas, levou Dom Sebastião a lutar contra os mouros em Marrocos e Felipe II a querer destituir a igreja anglicana com a Invencível Armada.


domingo, 21 de junho de 2020

3109 - Tem Bububu no Bobobó (reedição)

O BISCOITO MOLHADO
Edição 2104                                           Data: 28 de junho de 2004       
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PARA ERRAR MENOS...


O gosto musical de Napoleão Bonaparte eram as marchas militares. Mesmo diante das ginásticas  virtuosísticas e das pirotecnias de Paganini com o violino, bocejava e sonhava com uma batalhazinha. Apesar do tédio, tinha, às vezes, de ir  à ópera, pois é aconselhável, politicamente, um chefe de Estado mostrar-se despreocupado diante do seu povo. Numa dessas idas à ópera, já se aborreceu com a mulher, que levara horas para ficar pronta.

- “A ópera que vamos assistir certamente foi composta num tempo mais curto do que o que você levou para se arrumar.” - disse à Josefina.

No caminho para o teatro, o imperador e a imperatriz, seguidos por um cortejo de carruagens interminável, sofrem um terrível atentado a bomba, que mata um punhado de gente. Fouché, o ministro da Segurança, como o chefe de polícia de Vichy, séculos depois, no filme “Casablanca”, emite logo a ordem de prisão dos suspeitos de sempre. Napoleão Bonaparte, no entanto, cismara que os cabeças do atentado foram os monarquistas da França com o apoio logístico dos ingleses, e não os jacobinos. O imperador ordena, então, o seqüestro do Duque de Elghien, que se encontrava abrigado no território de Baden, para ser julgado em corte sumária, e, em seguida, fuzilado. Ao tomar conhecimento da execução do nobre francês, Talleyrand proferiu uma frase sobre a decisão de Napoleão que se tornou célebre:

- “Mais do que um crime, foi um erro.”

Nós, do Biscoito Molhado, de modo algum consideramos o erro mais grave do que o crime; os erros são corrigidos, mesmos os grosseiros. Aliás, falamos na última edição dos erros inteiramente  palatáveis do Sérgio Brito no seu programa de quinta-feira, e vamos agora citar erros espalhados na televisão difíceis de engolir que, logicamente, não serão desse animador cultural.

 Um desses erros foi do locutor, do torcedor, do comentarista, do propagandista e do espaçoso Galvão Bueno, que cismou de informar que um piloto fora “penalizado” com dez segundos nos boxes, quando o referido piloto não sentiu pena de ninguém nem por um segundo e muito menos nos boxes, ele só foi punido.  Outro erro foi do Luciano do Vale que, ao transmitir dos estúdios da TV Bandeirantes um jogo de futebol realizado na Espanha, reclamou da TV espanhola que deu uma panorâmica nas proximidades do estádio: “Até morrotes eles mostram agora...” O comentarista interveio rapidamente: “...Luciano, são os Pireneus.” Sem sair do mundo dos esportes, chegamos ao Sílvio Luís, que sempre conversa mais do que transmite os jogos. Certa vez, falando sobre  o filme Malcolm X, perguntou ao seu repórter de campo se ele já assistira ao Malcolm 10. Ou estava ele de gozação e sabia muito bem que o X do sobrenome representava uma incógnita, porque o líder negro, que adotara a religião muçulmana, desconhecendo o seu sobrenome africano,  recusou-se a adotar um sobrenome cristão? Ficou a dúvida; nos outros dois casos não: foram erros, pachouchadas ou, para repetirmos o sinônimo preferido pelo Dieckmann, batatadas. Já que falamos do Sérgio Brito, vamos prosseguir com o Dieckmann, que também possui o viés de animador cultural.

Como já escrevemos, as reuniões das segundas-feiras, às  8h e 30min, do Dieckmann foram uma antecipação dos  Brainstorming dos nossos melhores professores do curso de Regulação Econômica. Como temos espaço no papel, vamos reproduzir algumas palavras sobre Brainstorming: “É a técnica para reuniões de grupo que objetiva ajudar os participantes a vencer as suas limitações em termos de criatividade e inovação.  Foi criada em 1963 por Osborn, adotada em Harvard, e pode  durar de minutos a horas, mas a regra são 30 minutos. Tem quatro regras básicas: nunca critique uma sugestão, encoraje as idéias bizarras, prefira a quantidade à qualidade, e não respeite a propriedade intelectual. O líder da sessão de Brainstorming deve manter um ambiente relaxante e propício à geração de novas idéias.”

Somos testemunhas que o Dieckmann, como líder dessas sessões, sempre procurou deixar o ambiente relaxado e preparado para as novas idéias, o diabo é que, em vez de novas idéias, muitos participantes só queriam novos cochilos. Era difícil fazer do DMM uma Harvard, principalmente às segundas-feiras de manhã cedo... Como os leitores do Biscoito Molhado já viram, a tomada de decisão, matéria fundamental não só na administração das empresas, foi posta em prática no teste dos perdidos na lua. Mas houve segundas-feiras não tão dinâmicas como esta da tomada de decisão no satélite da Terra, como aquelas em que o Dieckmann se pôs a ler um livro. Lia trechos, por exemplo, sobre o relacionamento dentro de uma equipe de trabalho para, em seguida, despertar alguém com uma pergunta.  

Ouvimos as leituras do Dieckmann numa reunião, mas na reunião seguinte, o Biscoito Molhado chegava às bancas comparando o nosso coordenador com o Caetano Veloso. Explico: o compositor, na época, exibia-se de terno e gravata num espetáculo intitulado “Livro”. Lia ele trechos do livro que acabara de escrever, “Vereda Tropical” e, em seguida, pegava o violão e entoava uma música. Esse espetáculo, diga-se de passagem, acabou certa vez em confusão porque um engraçadinho perturbou tanto o compositor com gritos “Tira a gravata, Caetano”, que o baiano soltou meia dúzias de palavrões e perdeu a voz. Nós do Biscoito Molhado, que ouvíamos as leituras do Dieckmann, apenas lhe perguntamos, nas nossas páginas, quando começaria a cantar como o Caetano Veloso. Antes que o Brainstorming do Dieckmann se transformasse em caraoquê, ele aposentou o livro.

Também se falou em cinema nessas reuniões, pois através de todas as artes podemos exercitar os neurônios e expandir o poder criativo. E, nessa ocasião, tomamos conhecimento de um endereço da internet que era um autêntico arquivo de filmes, o www.imdb.com.

Retornando ao Sérgio Brito e aos erros palatáveis, ele exibe, atualmente, nos seus programas  uma retrospectiva dos filmes do Hitchcock. Já passou da fase inglesa do cineasta, com a Dama Oculta, e chega agora à fase americana, com “Um corpo que cai”. E não é que nesse filme a Kim Novak aparece com uma echarpe que, de tão comprida, lembra a peça do vestuário que se enrodilhou na roda traseira de um Bugatti, matando a Isadora Duncan? 

Se o James Stewart, com toda aquela fobia de altura, em vez de tentar puxar a Kim Novak pela mão, tentasse puxá-la pela echarpe, talvez ele a salvasse da queda... Sim, sei que a idéia é bizarra, mas a boa técnica do Brainstorming ensina que as idéias bizarras devem ser incentivadas, pelo menos na sua germinação.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

3108 - D Chicão Tirano

O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5367 D                           Data: 03 de junho de 2020

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXVII

                     UMA ESPINGARDA NA MÃO 
                                
                            E NADA NA CABEÇA               


As famílias de Santa Teresa que eu conhecia eram lacerdistas. Ou, pelo menos, a minha, mistura de Dieckmann, Klinger e Rodrigues Gomes, e a do Chico, Figueiredo com Rios, eram. E nós dois decidimos fazer alguma coisa contra o recém eleito Negrão de Lima, em atos completamente à revelia dos desejos dessas famílias deprimidas com a derrota do candidato lacerdista. Tínhamos 14 anos e a firme ideia de espalhar o terror por Santa Teresa. 

Lembro de discutirmos uma atitude semelhante aos mau-mau do Quênia e aos tonton macoute do Haiti. Como essas identidades não eram corriqueiras em dois garotos, imagino que tenham advindo de algum estudo sociológico do pai do Chico, como exemplo de terrorismo atual da época. E como mau procedimento, o que não levamos em conta.

As primeiras vítimas foram os reservatórios de areia dos bondes. Colocávamos um morteiro de São João com um cigarro aceso atravessado no pavio, acomodando o petardo na areia que servia para dar tração ao bonde. Apenas uma vez seguimos a pé o bonde para ver no que dava. Uns trezentos metros depois, achamos ao longo de um trecho dos trilhos uma boa quantidade de areia; a nossa ideia funcionara.

Como éramos criativos, não repetimos essa manobra mais do que três ou quatro vezes. Deixamos de fazer o tedioso acompanhamento do sucesso e partimos para outras empreitadas, explosivas e inéditas. Um bom lugar é a coluna de recolhimento de lixo dos edifícios. Não só o estampido adquire uma sonoridade surda, entusiasmante, como é acompanhado pelo som da abertura das tampas de cada andar, em tempos diferentes. Testamos no meu prédio, mas ninguém ouviu porque a coluna era distante dos apartamentos. Mas, na Rua Triunfo, 63 obtivemos sucesso de público e de crítica - que éramos nós, os terroristas. Tampando o nariz do cheiro fedorento, colocamos uma cabeça de nego no depósito de lixo no térreo, com o cigarro em cima e fomos para a rua esperar.

Foi um senhor tiro, com o barulho surdo acompanhado de três aberturas das tampas e logo as janelas se iluminaram de rostos assustados, olhando para um lado e para o outro, lembrando uma cena de Mon Oncle, onde o pai e a mãe investigam, a partir de uma janela redonda para cada cabeça, parecendo duas pupilas à procura de um fato.

Já era tempo de nos localizarmos por alcunhas, caso fôssemos presos. O Chico virou Chicão Tirano e eu, qualquer coisa do gênero, que esqueci. Talvez fosse Demolidor.

Na varanda da casa das minhas tias nós, ficávamos de tocaia com duas espingardas de ar comprimido acertando as capotas dos carros que passavam na rua de baixo. A Ana Lúcia, irmã do Tirano, estava presente algumas vezes e, para dar graça, um dançava com a Ana, enquanto o outro ficava com as duas armas, em revezamento obrigatório, porque ninguém queria saber de dançar. Quando os disparos ocorriam, procurávamos escutar os dois tecos de Diabolô na capota, dois segundos depois e saboreávamos a boa mira.

Um dia custou a passar carro e Chicão alvejou um grupo na escadaria de Fátima. - Foi pedra! Apalpando a bunda, alguém gritou daquela escuridão fria, onde tudo se ouvia e eles recomeçaram a subir. Quando chegaram na rua, nós já estávamos na porta conversando e inventamos uma correria de crianças... vai ver foram eles... como a Ana estava junto e emprestava um ar solene ao trio, acho que aceitaram e foram embora. Voltamos a respirar logo que dobraram a curva. Como eles voltaram ao mesmo lugar, Chicão ainda queria dar um segundo teco, mas o bom senso prevaleceu.

Um bom senso que não atraiu o Roberto Guerra, meu colega de colégio que não tinha arma e morria de vontade de estar conosco. Aceitamos. A gente saía de calça lee e camisa de goleiro, às vezes com um casaco por cima. Na cintura, três ou quatro morteiros como se fossem os nossos colts. Na primeira noite do Guerra, passamos em frente à casa do Borghoff e a Chiquita estava lá, com um pneu furado. Fui ajudar, com o Chicão de ajudante do ajudante e trocamos a roda. No meio do trabalho, escutamos o triplo estampido de um morteiro. Do Guerra, que estava à toa e indócil. 

Mal o carro saiu, apareceram uns quatro caras da pequena comunidade na rua: - Foram vocês? Sorte que eu e o Chico não tínhamos soltado nada e negamos com a honestidade beatificada de origem pneumática. Um bonde passou por nós e só vimos o Guerra pegá-lo andando, já longe, para nunca mais voltar.

Sentamos no meio-fio, agradecendo a boa fé dos nossos vizinhos - uma revista na nossa roupa não teria escapatória, seria condenatória e executatória - e filosofamos sobre a exclusividade do nosso clube. Um por dois e dois por um, no máximo.

O novo governo do estado decidiu abrir uma agência do BEG - Banco do Estado da Guanabara no ponto mais central do bairro. Era uma boa iniciativa, mas que durou pouco, talvez menos de um ano, certamente por falta de movimento. Essa agência ocuparia o imóvel de um antigo armazém, a Casa Mauá e houve uma obra volumosa para a transformação. Virou objetivo imediato de Chicão Tirano e Demolidor.

Era cercada por altos tapumes de madeira e os operários dormiam na obra. Vimos pela frestas que ocupavam um grande espaço e decidimos atacar os operários. Compramos um super morteiro, chamado Canhão; ele continha doze explosivos e era bem mais parrudo que o morteiro comum. Com alguma procura, encontramos um nó de madeira meio solto, que abrimos com uma chave de fenda. A visão pelo buraco era perfeita, a turma sentada no chão se preparando para dormir; o armamento foi introduzido raspando e ficou firme. Desta vez não teve cigarro, riscamos direto o pavio e caímos fora. Ainda deu para ouvir aquele suceder de estampidos enquanto subíamos o zigue-zague da Rua Triunfo (a mesma já abordada...). Nem vimos qualquer clarão, nossa imaginação foi suficiente.

A essa altura, manuseávamos os explosivos com desenvoltura e iniciamos a produção de artefatos mais poderosos. O objetivo de todo mestre-explodidor é chegar no canudo do rolo de papel higiênico, o que consumia mais de meia dúzia de cabeças de nego - uma fortuna em mesadas reunidas. Nasceu um dia a nossa mãe de todas as bombas.

Escolhemos na Joaquim Murtinho um trecho ermo e equidistante dos prédios. Nós medimos em passos, dividimos ao meio e cavamos um buraco no terreno, onde hoje tem uma pousada, tudo cientificamente. Enterramos o rolo, deixando um longo pavio de fora. Esperamos o bonde passar, nenhuma testemunha à vista, acendemos o cigarro e voltamos para a rua.

E toca a esperar. Uma senhora sai pela pontezinha do prédio e dobra na rua, em direção à "mãe". Aquilo nos deu um arrepio de pavor, pois certamente seria desastroso, mas ela passou pelo ponto, andando devagarinho. E nós contando cada um dos passos, torcendo por mais um, mais dois...

Quando ela chegou no prédio vizinho, um Gordini apareceu na curva da rua. Foi o tempo da senhora ainda atravessar um corredor cheio de janelas, entrar na casa e a bomba explodiu. A vibração foi de balançar a roupa e o Gordini estava exatamente no alcance da bomba, que jogou uma quantidade de terra em cima do carro. O dono parou na hora e ficou olhando de onde saíra aquilo. Deve ter achado que era alguma caixa de eletricidade, ou de gás, tirou a terra do vidro e prosseguiu.

Petrificados, em tempo decidimos abandonar os explosivos e só ficou a história para contar. 

Jackson de Figueiredo é o avô do Chico e vai saborear prazerosamente toda essa criatividade, bem herdada. Se ele tinha curiosidade sobre seu neto, agora eles terão tempo para tudo e, quem sabe, até para pegar no pé de um São Pedro desavisado.