Total de visualizações de página

quinta-feira, 16 de maio de 2013

2389 - Dia das Mães 2, com madeleines proustianos, revisado.

-->
-------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4189                                  Data:  15 de  Maio de 2013
----------------------------------------------------------------

RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DAS MÃES
2ª PARTE


Jonas Vieira pediu pausa para meditação e foi lida uma crônica sobre o Dia das Mães. Depois, ele aludiu à última crônica, sobre a frase “O que é sólido se desmancha no ar”, com elucubrações marxistas, que ficou nebulosa no seu final e que, por isso, não foi entendida pelos ouvintes.
Feita a emenda, entrou o reclame do programa das bandas, às 11 horas da noite e logo me recordei da “Lyra do Xopotó”, da Rádio Nacional, que meu pai não perdia e eu, na carona, escutava. Em seguida, outro anúncio, “A voz da periferia”, à uma hora da tarde. “É para o maternal do trabalho do Dieckmann, estou fora” - disse comigo mesmo.
E a escolha musical da Branca foi feita antes da pausa para meditação? - imagino as reclamações.
Resolvido o problema de som no meu computador nesse trecho do programa, detenhamo-nos nesse pedido. Tratava-se nada mais nada menos que Cole Porter, que não só compunha como escrevia as letras. E a música que a Branca solicitou é considerado um dos momentos mais elevados da sua inspiração: “Anything Goes”.
Branca falou da peça que entrou em cartaz na Broadway, pela primeira vez, em 1934 e que, além de ser uma contribuição para o American Songmusic,  recebeu duas versões cinematográficas. Em seguida, fez uma rápida resenha do musical; um rapazote pobre que estava num transatlântico que fazia a travessia New York- Londres, que conhece e se apaixona uma herdeira que estava noiva de um lorde. Enfatizou ainda que, nesse musical, estreou a Ethel Merman.
-E a gravação? - perguntaram.
-A gravação é com a Patti LuPone. Depois falo sobre ela.
Jonas Vieira lhe deu o sinal verde para falar antes de a música ir ao ar e a Branca prosseguiu:
Patti LuPone é fantástica, porque não era só cantora, também era atriz. Ela fez “Evita”, “Os Miseráveis”. Em 1983, recebeu o Tony Awards.
O entusiasmo da Branca tinha razão de ser, era a conclusão nossa a cada nota do “Anything Goes” que soava.
O titular do Rádio Memória tinha todo o direito de escolher, pelo menos, uma música e o fez; antes, preparou o espírito dos ouvintes.
-Os tempos de hoje são bicudos. Nos anos 40, 50, era tudo romântico, principalmente o cinema. Até os filmes de guerra eram românticos.”
Houve um aparte do Dieckmann sobre um filme de 1958 do Festival de Cinema Francês e foi dita a música que iria ao ar: “Sempre no meu coração”, de Ernesto Lecuona, versão de Mauro Mendes, na interpretação arrebatadora (adjetivo preferido do Dieckmann) do Orlando Silva.
Caramba, às primeiras notas que chegaram ao meu ouvido, o filme, de 1942, logo entrou em cartaz na minha cabeça. Apesar de eu não o ter assistido na tela do cinema, que causa uma empatia maior com a plateia e sim, na telinha da televisão, fiquei maravilhado.  Todos os problemas do mundo, por piores que fossem e os da fita eram familiares, seriam resolvidos com essa belíssima criação do Ernesto Lecuona, foi o sentimento que tive durante semanas.
A opção retornou ao Fernando Borer, que preferiu “Day by day”, de Axel Stordahl, Paul Weston e letra de Sammy Cohn, a gravação era com o trio Los Panchos e Eydie Gormé.  Ilustrou seu pedido dizendo que a gravadora se encontrava em dificuldades financeiras e, por economia, juntou a cantora com o trio, o que redundou em extraordinário sucesso. E disse mais: “Day by day” foi o sufixo de um programa muito demandado da Rádio Tamoio, “Músicas na Passarela”.
-Grande Rádio Tamoio. - exclamou o Dieckmann, prenhe de saudosismo.
No momento de identificar o locutor de Músicas na Passarela, Fernando Borer se tornou dubitativo. Ora, ninguém melhor do que o nosso amigo Luca para falar desse locutor, pois Humberto Reis quase se tornou seu cunhado. Foi ele, segundo o Luca, que o introduziu na poesia de Rainer Maria Rilke. Radialista de bom gosto, ainda com a palavra o Luca, informou, certa vez, que o “Coração de Luto”, de Teixeirinha foi o disco mais vendido do ano, mas que não o tocaria no seu programa.
Humberto Reis se tornou mais popular como jurado do Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, em que teve de fazer “tipo”.
Lembro-me dele na Rádio Nacional enaltecendo, por inúmeras vezes, a voz do Tony Bennett e como intermediário de perguntas de cultura geral dos ouvintes dessa emissora para o enciclopédico Vieira de Mello.
Na vez da Branca, ela só disse uma palavra:
-Surpresa.
Então, uma voz feminina, que se tornou mais sensual por causa da língua francesa, convergiu a atenção de todos.
-Não é uma Barbra Streisand, mas agrada. - disse comigo mesmo.
E a Branca matou a nossa curiosidade, pelo menos, a minha: era Brigitte Bardot.
-A música, de 1963, celebra a propriedade de Brigitte Bardot em Saint Tropez, “La Madrague”. – prosseguiu, com palavras parecidas com estas, que aqui reproduzo.
Fiquei tão interessado, pois Brigitte Bardot estrelou o único filme proibido para menores de 18 anos a que não consegui assistir no Cine Cachambi, e acionei o Departamento de Pesquisas do Biscoito Molhado.
Ela filmara, em 1962, com Marcelo Mastroiani, sob a direção de Louis Malle, a película “Vida Privada”, que, até certo ponto, era a sua existência de prisioneira da celebridade. Retirou-se, em seguida, para Saint Tropez, onde se estabeleceu na mansão chamada “La Madrague”, que deu samba, ou melhor, canção.
Mas lá ficou por pouco tempo, retornou a Paris e, em 1963, atuou no filme de Jean-Luc Godard, “O Desprezo”.
Dieckmann, sem a concisão da Branca, falou que era o dia das surpresas, além de ser das mães e citou o nome do seu pedido: “Flying Home”.
Ótima pedida. Solos de vibrafone e clarinete com swing não deixavam ninguém indiferente. Após uns quatro minutos, chegou o momento de o nosso amigo apresentar mais informações sobre a sua surpresa com palavras que tento aqui reproduzir.
-Lionel Hampton, membro da banda de Benny Goodman, tinha pavor de avião, então seus amigos colocaram em música o momento dele subindo os degraus de um avião. (*)
Coisa de gente com talento, que transforma algo banal em uma obra de arte. Caso do André Victor Correia, por exemplo, que, por ter ido a uma baile em que sofreu com um calçado apertadíssimo, compôs o choro imortal, “André de Sapato Novo.”
Sobre “Flying Home”, Dieckmann nos inteirou que a composição é de Benny Goodman, Eddie De Lange e do próprio Lionel Hampton, o primeiro vibrafonista da história do Jazz.
 Coube ao doutor Fernando Borer, além de iniciar o programa, encerrá-lo. A sua escolha recaiu sobre uma música que quase todos os grandes cantores gravaram, “Autumn Leaves”. Assim como uma programa de jazz da Rádio MEC foi todo dedicado às gravações de “Stardust”, poder-se-ia fazer o mesmo com “Autumn Leaves”.
O convidado do Jonas Vieira disse que a sua origem é francesa, de 1945, com o nome “Les Feuilles Mortes”, composta pelo franco-húngaro Joseph Kosma, com letra de Jacques Prévert.  Yves Montand a apresentou ao público no filme “Les Portes de la Nuit”.
Veio, depois, a versão inglesa, “Autumn Leaves”, que, em 1950, foi gravada pela Edith Piaf, que também o fez no original.
Apesar de todo o encantamento que “Autumn Leaves” traz, principalmente na voz do Nat King Cole - a gravação escolhida – não posso deixar de me lembrar do filme de 1956, dirigida por Robert Aldrich.  Talvez porque tivesse medo de ficar maluco, fiquei assustadíssimo com a cena do eletrochoque, além de me decepcionar com o Lorne Greene de “Bonanza”, no papel de um vilão.
Mas voltemos ao “Autumn Leaves” com o Nat King Cole.  Fernando Borer citou o LP lançado em 1957, “Love is the Thing” (O Amor é Importante), mas, pelas nossas pesquisas, essa gravação aparece na faixa 5 do lado A do Long Playing “Sings for Two”, com créditos para Joseph Kosma, Jacques Prevert, Johnny Mercer e arranjos de Nelson Riddle.
Bem, importa mais a excelência da música.
Jonas Vieira, com intervenções do Dieckmann e da Branca, encerrou o programa sem deixar de aludir às férias do Sérgio Fortes nas “Oropas”.
Bem, Rádio Memória cumpriu inteiramente a sua missão nesse domingo; em uma hora, serviram-me várias os bolos Madeleines proustianos.

(*) Lionel Hampton merece uma linha a mais. Ele realmente se tornou membro da banda do Benny Goodman, antes de fazer a sua própria, mas o que interessa é o seguinte: o nosso Lionel tinha um vagão ferroviário de beira de estrada, onde mantinha uma lanchonete e vivia. Um dia, um Benny Goodman faminto parou ali com amigos e pediram os hambúrgueres de praxe, no que foram plenamente atendidos pelo balconista Lionel, preparados pelo cozinheiro Lionel e servidos na mesinha pelo garçon Lionel. Todos servidos e bem sentados, o Lionel puxou um vibrafone e começou a tocar, sem saber quem eram os comensais. Bom, a surpresa completa e, como a qualidade do vibrafonista Lionel era tamanha, eles foram pegar seus instrumentos de trabalho e montaram uma Jam session por horas, finda a qual, o Lionel virou banda.
É o que jura o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO. Publique-se a lenda!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

2388 - Dia das Mães 1


----------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4188                                  Data:  14 de  Maio de 2013
----------------------------------------------------------------------------

RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DAS MÃES

Quando o Jonas Vieira anunciou Branca Dieckmann, pensei logo em nepotismo, no Fred sendo o próximo convidado, isso porque esperei o início do programa lendo o noticiário político, mas, às primeiras palavras dela, logo revi o meu pensamento.
-Branca Dieckmann.
-Branca Euler. - corrigiu a Branca.
Tudo bem, o sobrenome alemão permanecia.
Não estavam lá apenas o casal de Santa Teresa, substituindo o Sérgio Fortes; foi convocado também o médico Fernando Borer cujo ânimo era de paciente, ouvidas as suas primeiras palavras. Sofria com uma famigerada dor na coluna, disse, confirmando a informação do titular do programa.
Talvez, penalizado com o seu esforço por ali estar, Jonas Vieira lhe deu a primazia de fazer a primeira escolha. E ele não decepcionou os ouvintes, pedindo “Brejeiro”. Depois, aludiu ao fato de essa composição de Ernesto Nazaré ser de 1890 e a sua primeira gravação só acontecer em 1930.
-Um absurdo que uma obra-prima tenha levado 40 anos para ser gravada. - indignou-se.
Ainda fez considerações sobre o Choro, que teve sua ascendência em 1870 e decadência em 1960, sendo retomado pela pianista paulista Eudóxia de Barros. A gravação que solicitava era com ela e o Conjunto do Evandro.
Enquanto essa criação do Ernesto Nazaré encantava aquela manhã de domingo, eu me reportava à minissérie Chiquinha Gonzaga, que foi ao ar uns 10 anos atrás na TV Globo.  A história, bem fundamentada em dados históricos, mostra Joaquim Calado, compositor e flautista, como o mestre de Chiquinha Gonzaga e de outros músicos, nos poucos anos que viveu, 32 anos (1848 a 1880).
Ricardo Cravo Albim e outros musicólogos consideram Joaquim Calado o pioneiro, aquele que pode ser considerado o criador do Choro ao incorporar a flauta aos violões e cavaquinho. Foi ele o primeiro a gravar a palavra Choro no local destinado ao gênero musical na partitura da sua polca “Flor Amorosa”. Bem entendido que Choro não é um ritmo específico, mas a maneira de se tocar solta e sincopada, com floreios e improvisações. Assim, os tangos brasileiros, além das polcas de Ernesto Nazaré, se tornaram Choro.
Tocada a última nota do “Brejeiro” pela Eudóxia de Barros e o Conjunto do Evandro, Jonas Vieira se penitenciou por não ter concedido a primeira opção à Branca.
-Acontece nas melhores famílias inglesas. - justificou-se.
Como se já tivesse substituído o Sérgio Fortes em férias passadas, Branca se mostrou à vontade e escolheu a gravação que me proporcionou a maior surpresa do Rádio Memória desse domingo, ao escolher uma gravação que eu desconhecia inteiramente, o “Boogie Woogie Bugle Boy”, com “The Andrews Sisters”.
Disse a Branca que as três irmãs gravaram “Boogie Woogie Bugle Boy” em 1941, antes de os Estados Unidos entrarem na Segunda Grande Guerra Mundial. E prosseguiu com essas palavras que julgo ter entesourado na memória:
-Pode-se dizer que é a primeira gravação de “Rock and Roll” vinda do “Rythm and Blues”.
Jonas Vieira acrescentou que o começo foi nos anos 40, como continuação do “Swing”.
Ouviu-se, então, a voz do Dieckmann que falava em “Hot Music” e nos ritmos que foram os precursores do “Rock”.
A Branca retomou a palavra para dizer que as irmãs obtiveram grande sucesso, trabalhando com Benny Goodman e Tommy Dorsey e, como curiosidade, uma delas, Patrícia, morreu  agora, em 2013, com 95 anos de idade.
-Abrimos o obituário. - não perde o Dieckmann a piada, mesmo que seja humor negro.
Ouvi “Boogie Woogie Bugle Boy” e fiquei tão entusiasmado que tratei de pesquisar. O trio “The Andrews Sisters” era formado pelas irmãs La Verne, Maxena e Patty.  As três se completavam, pois cada uma tinha um registro vocal da voz feminina: soprano, meio-soprano e contralto. Segundo o Wikipedia, venderam mais de 75 milhões de discos.
Quando chegou a vez do Dieckmann, ele foi tão enfático que julguei que pediria Maria Callas, mas se tratava Madeleine Peyroux.
-Eu julgava que Madeleine Peyroux fosse francesa, mas ela é americana.
Seguiu adiante:
-Eu quero ouvir a gravação dela de um grande sucesso de Ray Charles, “I can't stop loving you”.
E reportou-se aos tempos de garoto.
-Lá por 1961, 1962, os vizinhos de cima chegaram dos Estados Unidos com o compacto dessa música com Ray Charles, que eu ouvi à exaustão.
Quanto a mim, não tinha, nessa época, vizinhos que viajavam aos Estados Unidos, creio que, na Rua Cachambi, ninguém ia além de Nova Iguaçu, mas também ouvi o Ray Charles até ficar rouco, cantando “I can't stop loving you”, porque era o grande sucesso do programa “Peça bis pelo telefone”, da saudosa (antes de o Brizola comprá-la) Rádio Mayrink Veiga.
E os comentários continuaram depois de emitida a última nota.
-Eu só fui entender as palavras do “I can't stop loving you” com a Madeleine Peyroux, porque com o Ray Charles era impossível.
-Jonas Vieira, com a sua bagagem de professor de inglês, concordou com o Dieckmann.
Fernando Borer interveio citando Frank Sinatra e Nat King Cole como cantores de dicção irrepreensível, o que é uma unanimidade.
Jonas Vieira lembrou que os negros, como Ray Charles são enfáticos, quando cantam. Branca acrescentou que o negro valoriza mais a interpretação, expõe mais a emoção.  Recordei-me de uma edição pretérita do seu O BISCOITO MOLHADO em que, baseado em alguns adeptos da música popular, como Arthur da Távola, escrevi que Elvis Presley tinha a voz de negro. Elio Fischberg concordou, mas o Dieckmann investiu contra diferenças raciais na voz.
Mas voltemos ao presente, pois chegou a vez do segundo pedido do Fernando Borer. A cantora da música que pediu era negra, mas de uma dicção perfeita, Elizeth Cardoso, aquela que recebeu o título dado por Sérgio Porto de “Divina”.
A gravação era “Tudo é magnífico”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa.
Todos aprovaram a sua escolha, mas ele confessou que não sabia quem era o pianista dessa gravação.
-Luís Reis. - aparteou o titular do Rádio Memória.
Fernando Borer disse que assim supôs, mas que não tinha certeza de quem tocaria o piano. Em seguida, enalteceu Haroldo Barbosa, uma escola do rádio brasileiro, de onde vieram artistas como Chico Anísio.
Haroldo Barbosa e Max Nunes, pensei. Também me veio à mente, a coluna do Globo “Pangaré gostou”, “Pangaré não gostou”, que o Haroldo Barbosa escrevia, aliás, Luís Reis era outro turfista.
Enquanto soava a belíssima voz da Elizeth Cardoso, recordei-me de um sorteio que o Dieckmann promovera há uns dez anos, quando trabalhava na ANTAQ.  Sorteou a sua coleção de Elizeth Cardoso e a felizarda foi a nossa colega Amelinha. Por coincidência, ela era muito amiga de um tal de Haroldo, que, vim a saber, era filho do Haroldo Barbosa.
-Essa gravação da Elizeth Cardoso é definitiva. - afirmou o Fernando Borer com o entusiasmo de quem não sentia mais dores na coluna.
 





terça-feira, 14 de maio de 2013

2376 - antro de antropófagos

----------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4176                                      Data:  22 de  Abril de 2013
--------------------------------------------------------------------

CARTAS DOS LEITORES

“Não há comprovação de tripulantes inexperientes a bordo, o que seria a comprovação da presença de tal Juventude (Hitlerista). Alguns historiadores realmente mencionam cerca de 500 jovens, mas considerando o tempo inicial da guerra, é bem provável que 500 oficiais e marinheiros pertencentes ao partido nazista é que estivessem a bordo. O Dieckmann negou peremptoriamente ter declarado tal frase, o redator deve ter ouvido de algum tripulante incomodado com as atitudes dos oficiais, coisa típica.” Dieckmann
BM: Esclarecemos que, como o Dieckmann se reporta a si próprio na terceira pessoa, como o Pelé, se trata de um só o remetente dessa carta. Ele alude à aventura que viveu no couraçado Bismarck com o redator deste periódico. A frase que ele nega ter dito, com a veemência de Pedro na Via Crucis, é a que se segue: “Muitos são mais jovens ainda, vieram da Juventude Hitlerista.”
Bem, nós bebemos em duas fontes para escrever o drama desses combates navais: o relato do Capitão de Mar e Guerra Russel Grenfell, da Real Marinha Britânica e de Edwin Muller, visto a bordo do couraçado alemão.  Este escreveu o que se segue:
“A tripulação era constituída em sua maioria de rapazes com pouco mais de 20 anos e ainda iam a bordo uns 500 aspirantes de marinha, todos com menos de 20 anos. Essa gloriosa vitória era exatamente o que todos eles tinham esperado com cega certeza. Novos como eram, só vagamente recordavam o que fora o mundo antes do advento de Hitler; na qualidade de membros da Juventude Hitlerista, todos os dias, ao acordar, lhes tinham martelado na cabeça a indiscutível crença na Raça Superior.”
Sobre os sobreviventes alemães, que o Dieckmann não abordou nos seus asteriscos, eis o que escreveu, por sua vez, o Capitão de Mar e Guerra Russel Grenfell, da Real Marinha Britânica:
-”Tinha acabado a grande caçada. O poderoso Bismarck deixara de existir após uma valorosa batalha contra forças muito superiores. Tudo o que dele restava eram algumas centenas de homens, cujas cabeças se viam à superfície das ondas alterosas, nadando. O cruzador Dorsetshire e o contratorpedeiro Maori ainda conseguiram salvar uns 110. Mas veio então o alarme de periscópio à vista e os vasos de guerra ingleses se retiraram.”

 “O livro sobre a África do Embaixador Costa e Silva consta de relatos de viajantes em vários séculos, incluindo uma tribo que negociava com um sultão que lhes dava de presente uma linda jovem. Para farrear? Como diria o Paulo Francis: “neres de pitibiriba”, eles a degolavam e comiam, as melhores partes eram as palmas da mão e os seios (creio que recusavam mulheres magras). Eles mostravam que tinham apreciado o almoço exibindo as mãos sujas de sangue. Não eram todos assim, “cela va sans dire”.
Um dos primeiros livros que tirei da Biblioteca do Merré (Itamaraty), em 1950 e poucos, foi “Old Africa Revisited” (não me desmoralize, não sei o nome do autor). Contava que, pelas bandas da Idade Média, havia inúmeras aldeias africanas com água encanada e esgotos, enquanto a Europa jogava tudo na rua; na Inglaterra criaram umas bolas de cera recheadas de perfume (“pomander”) para se sobreviver no trajeto pelas calçadas.
O que houve com a África?  Os árabes invadiram tudo, destruíram as aldeias e levaram a população escravizada. O Feliciano precisava saber disso... (pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados – nota do redator).
Nunca saberei e não tento saber o nome do autor da “Old Africa Revisited” (...)    Rosa
BM: Mais uma instigante carta da nossa polimata Rosa Grieco.
Tomei conhecimento da antropofagia quando ainda usava calças curtas e cursava o primário na Escola 9-10 Manoel Bomfim. Lá estava no meu livro de Conhecimentos Gerais, que englobava História, Geografia e Ciências Naturais, que o navio do bispo Pero Fernandes Sardinha naufragou, e ele foi comido pelos índios caetés. 
Não bastasse o que li, a professora, Dona Arlete ou Dona Eunice, não me lembro qual, confirmou em voz sonora. Nesse dia, nem comi a minha merenda na hora do recreio (pão com banana).
Algum colega, talvez eu mesmo (a minha memória é nebulosa nessa questão) disse que o nome do bispo já abria o apetite dos índios. Soube, depois, quando me debrucei na matéria, que Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil, e que, acompanhado por eclesiásticos, fidalgos e famílias lusitanas, voltava para Portugal na nau Nossa Senhora da Ajuda, quando um acidente a fez naufragar logo depois que zarpou de Salvador. Quem não morreu, entrou para o cardápio dos caetés.
Procurei, então, refúgio no livro de Linguagem (como era chamada a matéria sobre a nossa língua) e me deparei com o poema de Gonçalves Dias “Y- Juca Pirama”, em que os índios devoravam as carnes de índios valentes para ficar tão corajosos quanto eles. Nesse caso, a musicalidade das palavras do poema (um dos melhores do nosso idioma) amenizou o prato que foi servido.
Lendo sobre a linda jovem dada como presente por um sultão a uma tribo de africanos antropófagos, vieram-me à mente não apenas passagens do meu tempo estudantil como a expressão bem brasileira “mulata para 300 talheres”.
Pelo visto, o sangue dos nossos ascendentes indígenas ainda fala alto nas nossas veias.

-Examinando a sua narração sobre a visita que Pierre_Auguste Renoir lhe fez, tenho a dizer que você foi mais atento, cometeu erros irrelevantes de digitação. Sobre o pintor, ele soube ganhar dinheiro, o que não aconteceu com Modigliani, nome da rua em que os taxistas o deixam na volta do trabalho. Elio Fischberg
BM. - Meu caro Elio, assisti o filme de 2004, “Modigliani, Paixão Pela Vida.”  Nele, há uma rivalidade entre o pintor italiano, que vivia em Paris, com Picasso, espanhol que também lá vivia.  Esquecendo as picuinhas, Picasso leva Modigliani até a casa de Renoir com o objetivo de lhe mostrar que se pode ser um grande artista e receber uma boa remuneração pelo seu trabalho.
Modigliani, porém, continuou bebendo e se drogando, além de trabalhar à exaustão, morrendo em extrema pobreza com 35 anos de idade, de meningite tuberculosa. Quanto a Picasso, ganhou dinheiro como nenhum outro pintor da história. Sabia farejar como ninguém os humores do mercado. Dizem que criou o cubismo, quando se desejava épater la bourgeoisie, que pintou “Guernica”, quando se clamava pelo protesto político. Um argentário, resumindo, mas de extraordinário talento.

É só por hoje.



segunda-feira, 13 de maio de 2013

2375 - O primeiro pintor

---------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4175                                      Data:  21 de  Abril de 2013
----------------------------------------------------------------------

87ª VISITA À MINHA CASA

-Eu já não dormia direito... Morador de uma localidade que homenageia tantos pintores e não ter recebido, até hoje, a visita de nenhum deles.
-Modigliani não pôde vir, eu o substituí.
-Modigliani, como disseram Verdi e Boito sobre Desdêmona, “nasceu sob uma maligna estrela”.
-Vim eu e, pelo que vi, sou nome de uma rua espaçosa e asfaltada. - brincou Renoir.
-Você merecia bem mais.
-Eu até penso em sair daqui e conversar com os moradores.
-Não faça isso, Renoir, porque eles nunca pronunciam direito o seu nome.
-Então, em vez de mim, deveria vir Gaugin.
-Pior ainda. - assustei-me com o “gôgim” que soava ainda nos meus ouvidos.
-O sol daqui inspira um bom quadro. - disse, olhando pela janela.
-Jean-Pierre Renoir, você foi o mais sensual e descontraído de todos os pintores impressionistas. Sua obra é uma celebração da vida.
-Gosto de pinturas em que eu gostaria de caminhar, se forem paisagens, e de acariciar, se forem mulheres.
-De todos os impressionistas, você foi o mais preso à tradição.
-Pintei em porcelanas, quando era garoto, caprichando na precisão dos traços.
-Como foi isso? Mas conte desde o início.
-Meu pai era alfaiate e minha mãe, costureira. Fui o sexto de sete filhos. Éramos de Limoges, mas nos mudamos, quando eu tinha 3 anos de idade, para uma casa perto do Louvre, em Paris.
-A proximidade do Louvre despertou, certamente, sua inclinação pelas artes plásticas. - antecipei-me.
-Estudei até os 13 anos de idade e saí da escola, pois queria pintar de verdade. Meus pais não se opuseram. Trabalhei, então, na fábrica de porcelana dos Irmãos Lévy, onde pintava flores e buquês em artigos de porcelana. Com 17 anos, passei para outro trabalho e os meus traços passaram a reproduzir temas religiosos. Também pintei em leques e tecidos o que me trouxe um dinheirinho.
-Você era de uma família pobre, sabia o valor do dinheiro.
-Não era apenas o interesse argentário, se eu não me divertisse pintando, procuraria outra coisa para  fazer.
-Com 21 anos de idade, você alcançou a sua meta: entrar para a “Escola de Belas Artes”.
-Foi em 1862, ano em que tive aulas no ateliê de Charles Gleyre e conheci Sisley, Monet e Bazille.
-Nomes que, com o seu, revolucionariam a arte.
-Nós colocávamos em prática as ideias que nos ocorriam nas nossas longas conversas. Saíamos dos ateliês e pintávamos muito ao ar livre, em Argenteuil.
-Em 1863, você abandonou a “Escola de Belas Artes” e foi pintar sob o sol e as folhagens da floresta de Fontainebleau?
-Sim. No ano seguinte, apresentei “A Esmeralda, no Salão de 1864. A obra recebeu alguns elogios, mas eu a repudiei.
-Os seus primeiros grandes quadros foram 15 óleos em que a modelo foi Lise Trèhot.
-Também minha musa, pois eu estava apaixonado por ela. Tinha ela 19 anos de idade.
-Dos 15 óleos, destacou-se “Mulher com sombrinha”, pintada na floresta de Fontainebleau. - frisei.
-Tenho orgulho dessa minha primeira grande pintura.
-O branco nunca esteve tão maravilhoso num quadro, nele se aprecia o modo como você lidou com a sombra e a luz.
-Você elogia a cor branca do vestido da “Mulher com sombrinha”, mas houve críticos engraçadinhos que escreveram que parecia “um queijo meio mole indo passear...”
-Zola enalteceu a “Mulher com sombrinha”, disse que ela era a representação das nossas esposas, das nossas amantes. - lembrei.
-Fico mais preocupado com esse elogio do Zola do que com os críticos do “queijo mole”. - disse com um olhar que expressava precaução.
-O seu décimo quinto óleo com Lise Trèhot foi “Mulher com periquito”, pintado em 1871.
-A tragédia baixou sobre a França com a guerra contra a Prússia de Bismarck. Eu me alistei na cavalaria, mas fui afastado com uma doença intestinal. O talentoso Bazille morreu em combate.
-Vocês nasceram para pegar em pincéis, não em armas.
E mudei de assunto:
-Em 1870, você já se enquadrava na escola impressionista.
-Na 1ª Exposição Impressionista. Apresentei quatro pinturas. Gostaram mais de “La Loge” (o camarote) em que retratei meu irmão de binóculos e a minha amante, na época.
-Em “La Loge”, você usou admiravelmente o negro.
-A cor negra é a rainha de todas as cores. - afirmou.
-Você vendeu esse quadro por 425 francos.
-Deu para alugar um apartamento em Montmartre,
-Depois, você pinta mais uma das suas obras-primas, “Moulin de la Galette”.
-Lá, em Montmartre, havia um doce, “galette” e um moinho de vento, então, o nome “Moulin de la Galette”, onde havia uma salão de dança.
-Nunca uma cena da vida cotidiana foi retratada numa tela de tal dimensão.
-Eu tinha tudo na cabeça e pintei aquela cena ao ar livre no meu ateliê.
-A luz filtrada através das árvores une todas aquelas figuras.
-Reproduzir a luz matizada com o sol se infiltrando entre as folhagens, formando sombras dançarinas, era uma das minhas obsessões.
-Você não desdenhou os burgueses como alguns colegas seus, pois não era tão extremado.
-Pintei “Madame Georges Charpentier e suas filhas”. Um delas era, na verdade, filho, pois se vestiam as crianças como meninas, na época.
-Madame Charpentier era rica e recebia os artistas, como o compositor Massenet. - acrescentou depois de uma pausa.
-Esse quadro levou Proust a compará-lo a Ticiano, pela exuberância.
-Exagero do grande escritor. - sorriu.
-Bem, você já conseguia um bom rendimento com o seu trabalho.
-Deixe-me falar de Aline Henriot. Ela era lavadeira e ganhava como modelo também; pintei-a com um amigo. Depois, ela se tornou minha amante, até que nós nos casamos.
-Eu sei; tiveram três filhos: Pierre, Jean e Claude. Jean Renoir viria a ser um grande cineasta, dirigiu “A Regra do Jogo” e “A Grande Ilusão” que muitos críticos colocam entre os dez maiores filmes de todos os tempos.
-Quando Claude nasceu, em 1901, eu estava com 60 anos. Pintei-o, em 1904, vestido de menina. Todos três filhos foram retratados por mim.
-Em meados dos anos 80, do século XIX, você entrou em crise com o impressionismo.
-Viajei a Itália e fiquei fascinado com os renascentistas, principalmente Rafael. Meus traçados ficaram mais marcantes, como se eu voltasse às porcelanas.
-E pintou muitos nus.
-As mulheres nuas nunca saíam da minha mente de artista. Tentei tornar-me um pintor em estilo renascentista.
-Nem os achaques da idade interromperam o seu ímpeto criativo.
-Pintei na cadeira de roda, pintei quando sofri de artrite. E quando piorava a crise, eu amarrava o pincel às mãos.
-Mesmo em idade avançada, a sua palheta irizada se fez presente quando você pintou “Banhista enxugando a perna direita”.
-Aline morreu em 1915 e eu sobrevivi por cinco anos. - interrompeu-me.
-Morreu dormindo, aos 78 anos de idade.
-Eu constatava, nessa época, que a arte, em volta, decaía por falta de ideal. - disse, enquanto desaparecia.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

2374 - a dívida de du Balzac


----------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4174                                      Data:  17 de  Abril de 2013
-----------------------------------------------------------

ENCONTRO  COM  BALZAC

-Elio, como é possível um rei burguês?
Como o Elio hesitou em responder, segui adiante.
-Acredito que a Dona Sarita lhe deu aulas sobre o reinado de Luís Felipe I, na França, de 1830 a 1848.
-Ensinou-me, Carlos, e agora, que viajamos por esse período histórico, arrependo-me de não ter prestado a devida atenção aos ensinamentos da minha mãe.
-Pensava nas costureiras, já sei.
Ao evocar as cerzidoras de tecidos, os olhos do Elio faiscaram de cupidez.
-Carlos, Fantine, a mãe de Cosette, de “Os Miseráveis”, era costureira e, se ela for tão bela quanto as atrizes que a personificaram nos filmes a que assisti... Vamos procurá-la.
Estávamos de fato no reinado de Luís Felipe I, em 1840, que ela nem chegou a ver e chamei o meu amigo à realidade.
-Nada disso; ela já se foi.
-E você sabe por que Luís Felipe I foi cognominado o Rei Burguês? - devolveu-me a pergunta.
-Bem, Elio, foi à Assembleia Nacional Francesa que o proclamou rei, ou seja, ele não usurpou a coroa, nem chegou ao trono por pertencer a uma dinastia real.
-Mas eu me recordo de a minha mãe dizer que ele era nobre.
-Sim, certamente que Dona Sarita lhe ensinou que ele era Duque de Orléans, além de muitas outras coisas que você não entesourou na memória.
-Mas conheço as artimanhas políticas, Carlos. Sei que a França, depois da era napoleônica, não seria mais a mesma, que a voz da burguesia não se calaria mais.
-Você conclui, então, Elio, que o Rei Luís Felipe I procurou conciliar o interesse da monarquia com o da burguesia? Isso é equilibrar-se perigosamente.
-Mas ele conseguiu se equilibrar durante 18 anos.
-É verdade, governou numa monarquia constitucional. Houve insurreições e muitas mortes.
-Não vamos mais falar em política. - pediu com a intensidade de uma exigência.
-Certo, vamos aproveitar a Paris de 1840.
-Vamos, então, a um concerto de Chopin.
-Chopin está em Nohant, Elio. Se estivesse, aqui, iríamos vê-lo, pois vai morrer com 39 anos de idade.
-Uma pena que os artistas desta época morram tão cedo. - lastimou.
Uma ideia que lhe veio à mente, como um lampejo, o animou:
-Victor Hugo... Este chegou aos 83 anos. Vamos visitá-lo.
-Elio, quando Victor Hugo está trabalhando, ele se isola completamente. Não recebeu nem o nosso imperador Dom Pedro II, quando foi visitá-lo.
-E acrescentei:
-Isso acontecerá daqui a alguns anos, pois o imperador está, hoje, com 14 anos de idade.
-E Victor Hugo está sempre trabalhado, quando não escreve prosa, escreve versos.
E disse depois de uma pausa:
-Quando não está trabalhando, persegue as atrizes nas coxias dos teatros. De qualquer maneira, ele não quer ser incomodado.
Toda a conversa acima reproduzida acontecia enquanto nós dois caminhávamos pelas ruas parisienses, desviando-nos de pobres e ricos, que perambulavam e passeavam.
Em dado momento, paramos numa taverna para beber um pouco de vinho.
-Carlos, veja ali. - indicou-me o Elio, com um sinal de cabeça, um homem gordo, sentado a uma mesa.
-Já o vi em gravuras, quadros, retratos... - balbuciei.
-É o Balzac. - disse-me em voz baixa, sem conter a emoção.
-Mas ele só bebe café. O que estará fazendo aqui? - manifestei-me.
-Talvez esteja em busca de personagens para o seu próximo romance. - cogitou o Elio.
-Há duas cadeiras vazias na mesa dele, vamos ocupá-las.
E fomos até o grande escritor.
-Podemos sentar, Monsieur Honoré du Balzac?
-Estejam à vontade.
-Vocês disseram corretamente: Honoré du Balzac.
Ao dizer o seu nome, enfatizou “du” como se fosse uma nota musical que o concertista toca para se sobressair sobre as demais.
-Falam os maledicentes que acrescentei o “du” porque tenho afetações de nobre. Quando Napoleão retirou o “u” do italianizado “Buonaparte, ele mostrou que seu o interesse maior era a França.
-Somos do Brasil. - informou-lhe o Elio.
-Meus romances retratam, por enquanto, a vida provinciana francesa e a cidade de Paris.
-Lemos todos os seus livros. - exageramos um pouco.
-Escreverei um dia sobre brasileiros, pois farei com a pena o que Napoleão não conseguiu com a espada: conquistar o mundo.
-Espero que esse dia chegue. - disse-lhe de modo que ele não percebesse a ironia amarga das minhas palavras, embora nada lhe escapasse.
-E como está o seu próximo romance?
-No momento, estou voltado para uma peça teatral.
-Sim, como Victor Hugo e Alexandre Dumas, seus pares, você também deu mostras de talento em peças de teatro.
-Escrevi a minha primeira peça no ano passado, “A escola dos casais”. Ela não caiu no gosto do diretor do Thêatre Français. Tentei, então, Thêatre de la Renaissance” e o resultado foi pior. Resumindo: “A escola dos casais” não foi encenada.
-Mas será encenada um dia. - animou-o o Elio.
-Estou endividado até o pescoço, mas jogo todas as minhas fichas na minha segunda peça, “Vautrin”.
-“Vautrin” não é personagem de vários romances seus?
Sem me responder, Balzac prosseguiu:
-O grande ator Frédérick Lemaître (*) atuará, o que aumenta consideravelmente as minhas esperanças de êxito.
-E quando “Vautrin” será encenado? - excitou-se o Elio.
-Hoje à noite. Tenho duas entradas para a claque.
Com essas palavras, estendeu o roliço braço e as entregou a nós,  para, em seguida, erguer-se da cadeira para sair.
-Obrigado, Balzac. - falamos em uníssono.
Poucas horas depois, a caminho do teatro, reportei-me ao Vautrin dos romances balzaquianos.
“Vautrin era chefe de uma gangue, o que nos faz pensar num homem truculento, mas Balzac insinua que ele gostava de homens, não o diz claramente por causa da época e também por ser um mestre nas entrelinhas.
-Certamente o personagem saiu do romance para pisar o palco.
Fomos assistir à peça. O teatro, como os escritores de antanho redigiam, estava à cunha. Eu e Elio nos esgueiramos no meio da plateia até conseguirmos dois lugares vazios.
-Silêncio, que vai começar. - gritou alguém.
Quando Frédérick Lemaître entrou em cena, como protagonista, um estudante observou em voz audível, para quem estivesse perto, que o topete de Vautrin lembrava alguém.
Alguém riu, pouco depois, outros riram a cada intervenção do grande ator.
-Riem até dos momentos sérios da peça. - queixou-se o Elio.
As risadas aumentavam num crescendo contagiante.
-Por que está rindo, Carlos?
-Soube agora que Frédérick Lemaître está imitando o Rei Luís Felipe I.
Ao ouvir-me, o Elio engrossou o coro das gargalhadas.
Não houve segunda representação, a peça de Balzac foi retirada de cartaz pela censura.
Mais dívidas para o grande escritor. - lamentei.
Pelo menos, Balzac viveu para assistir à deposição do Rei Burguês, também chamado de Rei Cidadão.

(*) Contou o Dieckmann a este Distribuidor que, perambulando em Paris, precisamente nos arredores da Place de la République, encontrou o Canal Saint-Martin, pequeno, mas muito sombreado e agradável. Só que o canal acaba numa praça – na verdade, ele fica subterrâneo, o que deve dar mais encantamento nos passeios fluviais – mas uma praça também extremamente agradável, com bancos, jardins e uma estátua de um homem corpulento, topetudo e com pose de teatro. É a estátua de Frédérick Lemaître e, entre muitos dados biográficos, está escrito que ele fora um grande comediante francês. “Deve ser a única estátua de comediante do mundo e só mesmo a França para fazer isto, neste mundo que privilegia o drama”, completou, com a dose habitual de sarcasmo.




quarta-feira, 8 de maio de 2013

2373 - Jajá de Garcenil, com bismuto


------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4173                                  Data:  15 de  Abril de 2013
---------------------------------------------------------

NOSTALGIAS DA RÁDIO MEMÓRIA

Arrolando coisas da  nossa meninice e da juventude do Jonas Vieira, Sérgio Fortes citou a operação de amígdalas.
-É verdade, Sérgio; não se fala mais em operação de amígdalas. - concordou o radialista.
Eu, minutos antes, me lembrava do Caporal Amarelinho, cigarro que um tio me pedia para comprar no meio de um jogo de víspora na casa da minha avó; eu pegava o dinheiro que vinha da sua mão estendida e, meio contrariado por sair no meio do jogo, ia adquirir o mata-rato. Aliás, não se fala mais em víspora. Mas voltemos à operação de amígdalas.
Em 1981, no meio do expediente, minha papada inchou repentinamente e eu me senti um sapo sem a poesia do Manuel Bandeira.
Meus colegas de trabalho, confirmando o velho ditado que de louco e médico cada um tem um pouco, diagnosticaram logo o meu problema: caxumba.
-Mas eu já tive caxumba. - retruquei.
Na verdade, eu fizera confusão com catapora que, segundo a minha mãe, eu pegara do meu pai.
Fui ao médico pelo meu plano de saúde da época, CASME. Atendeu-me o doutor Heráclito, não me esqueço do seu nome por vários motivos mnemônicos, o principal deles era a sua fixação no bisturi.
-O seu problema são as amígdalas e terei de lhe fazer uma pequena cirurgia.
Pequena cirurgia?... Minha Nossa Senhora, um jogador do Flamengo, dos melhores, por sinal, falecera numa operação de garganta, em 1976 e ninguém se esquecia disso, passados cinco anos. Mostrei-lhe a minha apreensão:
-Doutor, o Geraldo, que praticava um excelente futebol, era até da seleção brasileira, morreu com 22 anos na extração das amígdalas.
Com a tranquilidade dos que estão certos que lhe vão cortar a garganta, ele se pôs a explicar a causa da morte daquele que, pelo seu futebol moleque, era chamado de Geraldo Assoviador.
-Esse jogador era viciado em drogas e o anestesista não sabia. Ele, por isso, deu uma dosagem de Valium no paciente, que não fez efeito. Então, aumentou a dose...
-E isso matou o Geraldo?
-As drogas que o jogador consumira foi que provocou todo o problema que culminou na sua morte.
E, certo que me convencera, indicou-me os consultórios dos médicos em que eu deveria fazer os exames  pré-cirúrgicos.
 Geraldo morreu de médico. - escrevo agora, reportando a frase do Paulo Francis quando comentou, na televisão, a morte do Otto Lara Rezende: morreu de médico.
Larguei o otorrinolaringologista e procurei um médico, velho conhecido, formado desde 1954.
-Cirurgia?... Que cirurgia?!  Compre um vidro de Garcenil e faça gargarejos com água morna durante alguns dias.
Segui a prescrição médica e a papada nunca mais voltou, pois sempre que me sentia meio combalido, seguindo as suas recomendações, recorria  aos gargarejos.
Num dia, procurei o remédio numa drogaria e o vendedor me informou que não era mais fabricado. Levei a má notícia ao meu médico, que desancou a retirada desse produto do mercado.
-O Garcenil tem bismuto, que é ótimo. - salientou.
Sim, o bismuto é tão considerado pelos médicos que, mesmo atuando como escritor, Guimarães Rosa, que era formado em medicina, falou, no conto “O burrinho pedrês”, em olhos remelentos, cor de bismuto...
Sérgio Fortes, no Rádio Memória, pode citar o Garcenil, que muitos, como eu, o terão nas suas reminiscências.
Recordo que as pessoas que operavam a garganta tinham de tomar sorvete. Não sei se, por isso, o Sérgio Fortes, no Rádio Memória, evocou o Jajá de coco. 
Não tenho a pretensão de comparar o meu Jajá de coco com o bolo Madeleine de Proust, mas um passado de muitos anos foi convocado na minha mente.  Mal eu saía da escola primária, pedia à minha mãe um picolé de Jajá de coco. Esse pedido era tão certo quanto a presença do vendedor da Kibon, com sua carrocinha, no portão de saída do colégio.
Às vezes, a fábrica da Kibon recorria a promoções; se o palito coberto pelo sorvete estivesse marcado, tinha-se o direito de chupar outro de graça. Isso não me fazia ansioso, eu degustava o gelado com a placidez que uma mãe lambe a cria.
Com a formidável bagagem de lambidas que adquiri, eu estava em perfeitas condições em desconcordar do Luís Fernando Veríssimo quando, numa crônica dos anos 90, ele escreveu Jajá de maracujá. Para ser mais fiel aos fatos, era uma crônica que aludia a outra em que ele escrevera essa marca do picolé, que originou controvérsias. No texto que li, o escritor gaúcho argumentava, em sua defesa, que houve leitores que lhe deram razão: existiu o jajá de maracujá.
Levei o caso para alguns colegas de trabalho, mas, infelizmente, as marcas de sorvete já estavam derretidas nas suas memórias; só se lembraram do Chicabon, que persiste até hoje firme e gelado. Uma colega – diga-se a seu favor – não era do tempo em que proliferaram as carroças de Kibon, mas ficou de consultar a tia quando a visse, pois ela entesourava as boas coisas de outrora no cérebro.
Feita a consulta, a sobrinha reproduziu o que lhe foi dito: existiram o Jajá de coco, o Kalu de abacaxi, o Ton-bon de limão. O picolé de maracujá não tinha outro nome para reforçar seu sabor.
Como o brasileiro é criativo e gosta de rimas, talvez alguns pedissem um picolé de Jajá de maracujá.
É bom assinalar que tudo isso aconteceu antes do advento do Google.
Depois da operação de garganta, do Jajá de coco da Kibon, as lembranças do Sérgio Fortes chegaram aos revólveres de espoleta e cartucheira.
Hoje não, mas quando criança, eu gostava de sentir o cheiro da pólvora que vinha do revólver de espoleta. Brinquei até a última bala de bandido e mocinho. Para ser fidedigno à verdade, fui além da falta de munição; transformei, nos momentos críticos, o dedo em cano de revólver e, com ele, dei muitos tiros, pois eu não morria como nos desenhos animados.
Nos tiroteios que começavam no nosso edifício da Rua Cachambi e, às vezes, alcançavam o terreno baldio ao lado, para o desespero da minha mãe (fazer o quê, os bandidos não podiam escapar da lei), eu me sentia o John Wayne, o Gary Cooper, o Alan Ladd e tantos outros que me entusiasmavam na tela de cinema. Sem falar do Roy Rogers, cujo seriado na televisão, eu não perdia.
Matei mais índio que a cavalaria americana (Que o Dieckmann não distribua esta BM na FUNAI). (*)

(*) pedido do redator, o Distribuidor cumpre na marca. Nem pensar em mostrar pro Dieckmann