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quarta-feira, 8 de maio de 2013

2283 - Radio Memória com swing 1


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4183                                   Data:  07 de  Maio de 2013
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NA RÁDIO MEMÓRIA COM O JAZZ
Observação: a Edição 2 está a seguir desta.

Sintonizei a rádio Roquette Pinto, nesse primeiro domingo de maio, e logo me arrependi por não o ter feito uma hora antes, pois o programa Almanaque homenageou Altamiro Carrilho, a nossa flauta mágica. Rádio Memória, que se seguiria, tinha, portanto, uma responsabilidade maior de manter o nível.
-Mais uma vez sem o Sérgio Fortes, que está nas “Oropas”, mas com seu amigo Roberto Dieckmann, que nada lhe fica a dever. - foi a entrada do apresentador.
-Não devo nada a ninguém. - disse o Dieckmann brincando, pois sabe que o brasileiro já nasce com uma pesada dívida sobre os ombros; coisa para nenhuma figura mitológica, como Atlas, achar de pouca monta.
Citado o nome do Sérgio Fortes, Dieckmann se referiu ao alívio que ele deveria sentir pelo fato de o prefeito Eduardo Paes se arrepender de extirpar 8 milhões de reais da Fundação OSB. Jonas Vieira deu parabéns ao burgomestre porque, hoje em dia, é difícil alguém voltar atrás.
-Isso posto, como diria Machado de Assis...
Jonas Vieira foi interrompido pelo substituto do Sérgio Fortes.
-Começamos machadianamente...
Então, o Dieckmann me deixou extremamente radiante, pois, do nome do nosso maior escritor, lhe veio à mente o Biscoito Molhado, que criticou a Lady Gaga,  ouvida na última semana.
-Como se chama o redator do Biscoito Molhado? - quis saber o Jonas Vieira.
-Carlos Nascimento, o Capitão Nascimento. - respondeu o Dieckmann.
De Machado de Assis a Capitão Nascimento... Não se pode mesmo confiar nos elogios do Dieckmann; soprou e depois mordeu...
-Um jornal pequeno, porém decente.
Eis que o Jonas Vieira nos deu uma ideia para um bom slogan.
 -Eu trouxe uma raridade – afirmou o Dieckmann. Vicente Miranda, um ouvinte assíduo desse programa...
Não é do maternal da Petrobras. - deduzi logo.
-... Ele me pediu para tocar Jackson do Pandeiro. E falou, então, dos turbulentos anos 50, da separação dele da Almira, da Neusa... Bem, eu pensei no “Chiclete com Banana”. E ouvi as gravações do Gilberto Gil, do Lenine. Mas nada que se compara com Jackson do Pandeiro, cuja interpretação é arrebatadora.
-Ele tinha uma musicalidade fora do comum, um ritmo inigualável. - interferiu aquele que é nome de estúdio, na Rádio Roquette Pinto, com suas candelas.
-E a separação do Jackson do Pandeiro, que influenciou o João Gilberto. - acentuou o Dieckmann.
E acrescentou:
-A música de “Chiclete com Banana” é de Gordurinha...
-Outra figura extraordinária; temos de fazer um programa só com o Gordurinha.
-Um programa diet. - não perdeu o Dieckmann a piada.
Eu os ouvia, enquanto me reportava a um programa de uns dois anos atrás com o cantor Miltinho, nessa mesma emissora, que enfatizou a excelência insuperável do Jackson do Pandeiro com o seu instrumento, diferentemente de muitos que praticam verdadeiros números circenses com o pandeiro, mas que têm pouca musicalidade.
-Show! Show! - vibrou o titular do Rádio Memória depois que “Chiclete com Banana” foi ouvida.
Chegou, então, a vez do seu pedido.  Antes, falou da diferença entre orquestra e big band, disse que aquela integra instrumentos de corda, enquanto a big band se atém aos instrumentos de sopro e percussão. Certo, pois o piano é um instrumento de percussão.
Referiu-se, então, ao seu saudoso amigo Severino Araújo e à orquestra Tabajara, que ainda está em atividade. Seu interlocutor, não perdeu a deixa e associou a orquestra com as Organizações Tabajara do Casseta e Planeta.
-Vamos ouvir um choro que já foi muito popular, mas muito popular mesmo, “Paraquedista”, de José Leocádio.
Eu ouvia o buliçoso choro, sem deixar de pensar na “Dance in the Dark”, que escutamos no último domingo, com a Lady Gaga. Ora, essa popstar já ocupa um largo espaço na mídia nacional e internacional, ainda vai se intrometer no programa Rádio Memória, deixando menos tempo para ser preenchido por artistas de grande valor musical, que caíram injustamente no esquecimento?... Afinal, o lema do programa é ”Raridades, Curiosidades, Humor e Entrevista”.
-Delícia! - exclamou o Dieckmann, depois de o “Paraquedista” aterrissar são e salvo com a Orquestra Tabajara.
Bem, até agora, os dois tiveram uma precisão metronômica nas escolhas. - disse comigo mesmo.
Dieckmann, na vez da sua opção, criou uma expectativa hitchcockiana:
-Meu amigo, a surpresa que eu trouxe para os ouvintes...
E disse que gosta do jazz, mas que, às vezes, o jazz é hermético, porém, quando usa temas populares, é empolgante.
Ele se referia, imagino, ao Be Bop, (*) nova vertente desse gênero musical trazida por Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Antes, com o Swing de Louis Armstrong e Benny Goodman, entre outros, dançava-se, mas com o Be Bop, a coisa ficou intelectualizada, deixando as pessoas com os traseiros colados nas cadeiras com os ouvintes procurando entender aquilo.  Certa vez, ouvi “The Long and Winding Road”, dos Beatles, com a maior cantora do Be Bop, Sarah Vaughan e, no final, me perguntei: onde está “The Long and Winding Road”?  Anos depois, num programa didático sobre jazz, explicou-se como músicos, Charlie Parker e Dizzy Gillespie, do Be Bop, improvisavam e eu entendi um pouco. Na verdade, o próprio Louis Armstrong travou uma polêmica braba com o também trompetista Dizzy Gillespie, porque não aceitava o jazz sem Swing, mais tarde, depois de um caricaturar o outro em antológicas imitações, eles se reconciliaram.
Dieckmann anunciou que a música, conhecida por todos, era do filme Pinóquio, “When You Wish Upon a Star” e o jazzista que ele escolhera para interpretá-la era Dave Brubeck.
-Gosto muito de Dave Brubeck, que tem gravações muito compridas, mas eu escolhi uma mais curta.
Bem, depois de ouvir Dave Brubeck, eu não me perguntei: onde está “When You Wish Upon a Star”? O grande músico não elucubrou nos seus improvisos, seu piano despontou sem que os demais instrumentos deixassem de sobressair.
Dieckmann, depois dessa audição, se reportou a Paul Desmond, que serviu sob a liderança do maior general da 2ª Grande Guerra Mundial, George Patton, juntamente com Dave.
-Os dois lutaram na Batalha de Bulge. - reportou-se a um dos momentos mais cruciantes da guerra, que ocorreu em Ardennes, na Bélgica.
E prosseguiu:
-Conheceram-se e formaram o The Dave Brubeck Quartet.
Jonas Vieira se uniu ao entusiasmo do Dieckmann pelo quarteto de Dave Brubeck. 

(*) O Dieckmann quase ferveu com esse comentário. “Era só o redator do seu O BISCOITO MOLHADO ouvir mais um pouquinho do programa antes de sentenciar antecipadamente. O que eu quis dizer é que quando um conjunto de jazz toca uma música bem conhecida, popular, a performance pode ser muito melhor avaliada do que quando o mesmo conjunto   toca uma música pouco divulgada, o que é bem óbvio”. Ainda bem que o Distribuidor deste periódico está por perto para botar panos quentes.                           

2384 - Radio Memória com swing 2


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4184                                   Data:  08 de  Maio de 2013
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NA RÁDIO MEMÓRIA COM O JAZZ
2ª PARTE

A vez retornou ao titular do programa.
-Eu trouxe um grande nome da música norte-americana: Count Basie. Trata-se de um espetacular arranjo de Oliver Nelson.
-É uma gravação de  “Afrik”.
Depois que a solicitação do Jonas Vieira foi atendida, ele se voltou para o Dieckmann:
-E então?
-Senti-me como uma zebra tropeando pelas estepes africanas.
Estepes africanas?... Levei um susto. Será que o meu chefe do Departamento da Marinha Mercante cometeu um erro de proporções geográficas, transportando as estepes da Ásia para a África?  Eu estava, é verdade, sugestionado por uma música, considerada do repertório clássico, “Nas Estepes da Ásia Central”, de Alexander Borodin. Um russo, que deu mais atenção à química do que a música; algo parecido, guardadas as devidas proporções, com Paulo Vanzolini, que, apesar do seu talento para a música popular, foi um compositor bissexto, preferindo dedicar a maior parte do seu tempo à zoologia.
-Vi, depois, que a definição de estepe é esgarçada, podendo designar as pradarias estadunidenses e a caatinga brasileira.
-Eu me senti um antropófago. - disse o Jonas Vieira depois da zebra.
E acrescentou:
-Comendo os brancos.
Dieckmann riu, disse que não tinha nenhum branco ali, fez piadas e eu pensei que o Sérgio Fortes estava sendo engolido, pois não se falou mais dele, o que não aconteceu no domingo passado, quando era lembrado a toda hora.
-Agora uma pausa para meditação; a crônica de Fernando Milfont na voz de José Maurício. -anunciou.
E a crônica se iniciou com o título “Frases Históricas” e uma delas foi citada: “Tudo que é sólido se desmancha no ar.” Então, o colunista enveredou pelo Manifesto Comunista de Karl Marx e na exploração do homem pelo homem, na destruição do capitalismo pelas suas contradições internas e outras chorumelas que o tempo se encarregou de derrubar. Afinal, o filósofo alemão, que cunhou o termo capitalismo, estava limitado ao sistema econômico que adveio da Revolução Industrial na Inglaterra, quando as condições de trabalho eram realmente horrorosas. Mas o capitalismo se mostraria, com o correr dos anos, flexível: trabalho de oito horas diárias, férias de um mês, salários condignos, aposentadoria, com os próprios trabalhadores, em alguns casos, podendo se tornar sócios da empresa em que trabalhavam através de fundos de ação. Enfim, o capitalismo é um processo, enquanto o comunismo foi um processo que deu com os burros na água.
Quando a palavra retornou aos apresentadores da Rádio Memória, Jonas Vieira foi de encontro ao que dissera a sonora voz do José Maurício.
-Essa crônica está sujeita a chuvas e trovoadas.  Não concordo com isso não.  Todo o progresso vem do capitalismo americano: o rádio, a televisão, o automóvel...
-Isso (o texto da crônica) está estereotipado. Sem o capitalismo, não estaríamos aqui, fazendo este programa. - interveio o Dieckmann.
-Nem haveria nem rádio. - acrescentou o Jonas Vieira, que prosseguiu:
-A natureza é hierárquica; vem o gênio, depois o geniozinho, o inteligente, o inteligentezinho...
Entrou uma demanda comercial e os ouvintes deduziram que, nesse tempo, eles desceram até os burros. Quando retornaram, riam, mas só falaram que se referiam a um país de cabeça pra baixo, ou seja, onde a hierarquia se dá às avessas.
-Hoje, ouvi uma ótima. - animou-se a voz do Dieckmann.
-Os presidiários deveriam ir para os asilos e os velhinhos para os presídios, pois, assim, os velhinhos teriam cinco refeições por dia, direito a banhos de sol, auxílio reclusão...
Depois de o seu interlocutor aprovar a ideia, Dieckmann garantiu que a surpresa que trazia era belíssima: “Peggy and Benny”.
-Duke Ellington disse: “Se eu sou duque, a Peggy Lee é a rainha.” Por sua vez, Benny Goodman era filho de um alfaiate de Varsóvia. Não é qualquer um que é filho de alfaiate de Varsóvia.
-E qual é a música, Dieckmann?
-“On the sunny side of the street.”
Depois do deleite proporcionado a todos pelo clarinetista e a cantora, Dieckmann informou que essa indicação viera da sua mulher, Branca.
-Branca está de parabéns. - congratulou-se o Jonas Vieira.
-Eu estive em Nova Orleans, em 2001 e pedi aos músicos de rua que tocassem “On the sunny side of the street.”, mas eles diziam que tocavam “When the saints  go marching in” e não houve um que atendesse ao meu pedido. - registrou o Dieckmann. (*)
Como há no programa comentários sobre alguma notícia atual, Jonas Vieira investiu contra o desembargador Siro Darlan, que mandou soltar a bandidagem que invadiu um hotel. E completou com uma palavra que retirou do fundo do baú depois de espanar a poeira dela por algum tempo:
“Fiquei pebado”.
Estivesse o Sérgio Fortes presente e diria:
-Pebado, às 8h 40 min da manhã, pode.
Voltamos à música e àquele que dá nome ao estúdio da Roquette Pinto com suas candelas.
-Nos anos 60, uma orquestra de que eu gosto muito, fez um enorme sucesso na televisão, na TV Tupi, se não me engano. Trata-se da Orquestra Simonetti.
-Lembro- disse o Dieckmann.
-Enrico Simonetti veio para o Brasil e aqui se radicou.  A gravação que vou solicitar é “Love's Theme”, do Barry White. 
Atendido o pedido, a voz do Dieckmann se tornou enfática:
-Eu trago agora uma surpresa, mas uma surpresa mesmo.
-Qual? - despertou ele a curiosidade de todos.
-A dupla Slim & Slam.  Slim Gaillard & Slam Stewart.
-É uma surpresa mesmo. - ratificou o Jonas Vieira.
-É uma dupla dos anos 30, que eu ouvia na velha JB. Hoje, graças à internet, podemos capturar essas maravilhas.
Depois, coube ao Jonas Vieira a escolha da música derradeira do programa. Fez, antes, uma pequena introdução. Disse que a maior invenção do gênero humano é a orquestra, que a sua preferida é a de Andre Kostelanetz, o russo que escapou da revolução comunista fugindo para os Estados Unidos. No que concerne aos band leaders mais populares, citou Duke Ellinghton.
A música, para o deleite dos ouvintes, era “Hey Baby”, com a deslumbrante cantora – palavras retumbantes dele - Rosemary Clooney.
-A sua voz parece que sai de dentro da orquestra. - afirmou.
Escutamos, então, o piano de Duke Ellington e a voz de Rosemary Clooney, mas não foi só isso naqueles 3 minutos intensos, haja vista o talento dos músicos liderados por Duke Ellington.
-O programa termina com um gosto de quero mais.
E foi adiante:
-O BISCOITO MOLHADO não pode reclamar do programa de hoje.
Dieckmann acertou em cheio.

(*) “Anos depois, em Paris – conta o Dieckmann a este Distribuidor – também perambulando na Place des Vosges, encontrei um grupo de 4 ou 5 músicos tocando jazz, meio que desanimados. Quando pararam, fui e pedi “On the Sunny Side...”. O líder fez um doce, mas deixou perceber que sabia, o que foi remediado com 5 Euros na ocasião. E tocaram. E, entusiasmado com a grana do cachê, o bandleader ainda cantou. Foi um sucesso e com dois ou três passos que ensaiei, a praça toda se animou, a francesada toda sambou. Pensando bem, devia ter mais turistas que franceses e digamos então que, sendo assim, o mundo inteiro sambou...”
Cansado desta demonstração explícita de megalomania e perambulação, encerrei meu diálogo com o Dieckmann e tratei da Distribuição de mais um exemplar do seu O BISCOITO MOLHADO.



segunda-feira, 6 de maio de 2013

2372 - tarde demais para esquecer


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4172                                  Data:  14 de  Abril de 2013
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86ª VISITA À MINHA CASA

-Cary Grant, você chega no exato momento em que leio o Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia,  dizendo que as artistas Gal Costa e Maria Betânia deveriam assumir a homossexualidade.
Notei, então, que recebia o grande ator com um assunto inteiramente intempestivo.
-Perdão, minha surpresa com a sua presença é tamanha, que saí de órbita.
-Esqueça que morri em 1986 e que só me preocupava, quando vivo, em termos de Brasil, com o meu sucesso.  Prossiga, pois o tema me interessa.
E voltei à homossexualidade das cantoras.
-Os cidadãos que me parecem mais lúcidos, saíram em defesa das duas, argumentando que elas tem o direito de não expor a sua privacidade.
-É evidente que elas têm esse direito. - afirmou Cary Grant com veemência.
-Seu colega de Hollywood, David Niven, que foi, algumas vezes, indiscreto, no seu livro Bring On The Empty Horses, não agiu assim com você, descrevendo-o como seus admiradores o viam na tela.
-Éramos ingleses.
-Você não foi sempre Cary Grant?
-Não; fui batizado com o nome Archibald Alexander Leach, em Bristol, onde nasci em 18 de janeiro de 1904.
-Você foi muito ligado à sua mãe?
-Sim; ela me vestia de menina quando eu era criança.
-Sei que isso era comum na França, nessa época. Há quadros de Renoir com seus filhos, ainda pequerruchos, vestidos como se suas filhas fossem. Uma das crianças pintadas foi Jean Renoir, que viria a ser um dos maiores cineastas da sétima arte.
-Na América, quando souberam da minha meninice vestido de mulher, cresceram os boatos sobre as minhas preferências sexuais.
-E a sua atração pela carreira artística?
-Com seis anos de idade, meu pai me levou para assistir a um espetáculo de pantomima. Fiquei alucinado. Como o produtor necessitava de mais uma criança em cena, falou com meu pai que, então, assinou uma guarda provisória, colocando-me sob sua responsabilidade.
-Assim, você ficou atuando pela Inglaterra?
-Mais do que isso; segui com a trupe até a Alemanha. Lá, fomos vistos pelo empresário Jesse Lasky, que nos chamou para apresentações em Nova York. Fui para a Broadway com sete anos de idade.
-E a sua família em Bristol, na Inglaterra?
-Encerrada a temporada internacional, voltei para casa e fui matriculado na escola. Aos nove anos, passei a viver apenas com meu pai, pois minha mãe, disseram-me, foi cuidar da saúde no litoral.
-Esconderam-lhe que ela foi internada num hospital para doentes mentais.
-Eu era muito novo para encarar essas más notícias, mas não para seguir minha vocação.
-Pelo que David Niven escreveu, você, com doze anos de idade, fugiu do colégio e se juntou a uma trupe de acrobatas.
-Falsifiquei a assinatura do meu pai para conseguir entrar na trupe do comediante Bob Pender. Atuamos pelas mais diversas cidades inglesas, durante dois anos. Depois disso, fui escolhido para uma turnê pelos Estados Unidos por igual período. Decidi, então, não retornar mais para o meu país.
-Saiu em busca do sonho americano, Cary Grant?
-Sonhei enquanto trabalhava como lanterninha de cinema, vendedor de gravatas e artista de espetáculos mambembes de variedade. Então, um executivo da Paramount gostou da minha aparência e se dispôs a abrir o meu caminho até Hollywood desde que eu não me chamasse mais Archibald.
-Assim, nasceu Cary Grant. - bradei.
-Minha estreia na tela ocorreu em 1932, no musical “Esposa Improvisada”, que não fez sucesso. Todavia, nesse mesmo ano, o diretor Josef von Sternberg me escolheu como parceiro da Marlene Dietrich em “Vênus Loira”.
-No ano seguinte, num almoço na Paramount, você conheceu o ator Randolph Scott.
-Foi um grande amigo meu.
-Diziam que ele era um caso amoroso do megaempresário Howard Hughes. Estranhei, pois o milionário conquistou as maiores estrelas do cinema, com poucas exceções. Por que iria se envolver, então, com uma pessoa do seu sexo?... Como a vida, ao contrário das obras de ficção, é implausível...
-Sei que fui muito amigo de Randolph Scott.
-Dizem que o “cowboy” morou com você.  E que os produtores, com medo da sua imagem diante do público feminino, obrigaram-no a se afastar dele, se não sua carreira cinematográfica estava encerrada.
-Avisei minha esposa, quando já passava dos 80 anos de idade, que diriam coisas horríveis de mim depois que eu morresse, pois mortos não podem se defender.
-Eram tempos difíceis em que se intrometiam na privacidade alheia; hoje, as próprias pessoas expõem a sua privacidade. Não sei se isso representa um avanço.
-Depois desse meu comentário, prossegui:
-Em 1934, aconteceu o seu primeiro casamento?
-Falaram que os executivos da Paramount me forçaram a casar com a atriz Virginia Cherrill.
-Foi quando você tentou o suicídio com uma overdose de pílulas para dormir?
-Ainda bem que escapei com vida dessa crise de loucura.
-Imagino que fizeram a analogia com o caso de Tchaikovsky, que tentou o suicídio logo depois que casou com uma aluna.
-Casei-me cinco vezes: Virgínia Cherrill, Barbara Hutton, Betsy Drake, Dyan Cannon e Barbara Harris. - reagiu com veemência, depois de eu lhe lembrar que o compositor russo se casara uma só vez.
Veio-me à mente o escritor Marcel Proust que, através de malabarismos literários, transformou seus amantes, entre eles um motorista, em mulheres, na obra-prima “Em Busca do Tempo Perdido”, porém, não verbalizei meu pensamento.
-David Niven escreveu um livro, que sei que você leu, em que ele assinala que eu buscava a perfeição em todas as coisas, principalmente em três...
-Filmes, aptidão física e mulheres.
-Isso. - aprovou com um sorriso.
-Ele escreveu que, nos intervalos de um casamento para o outro, você se apaixonava pela maioria das artistas que atuavam nos seus filmes.
-Quando Sofia Loren veio estrelar uma fita na América, pela primeira vez, procurei ser o seu protetor. Naquela selva desconhecida da linda atriz italiana, eu a instruí como se conduzir da melhor maneira possível. Percebi, então, que estava apaixonadíssimo por ela.
-Mas ela se casou com o calvo e feioso Carlo Ponti. - intervim.
-David Niven dizia que não perdi tempo com esse tropeço: procurei uma edição mais recente da Sofia Loren e a encontrei na voluptuosa Luba, uma jogadora iugoslava de basquete, alta e vigorosa.
Um sorriso se esboçou na comissura dos lábios do grande ator, e eu prossegui:
-Você dedicou 70 anos, pelo menos, à vida artística, Cary Grant.
-Dei por encerrada a minha carreira no cinema em 1966 com o filme Walk, D'ont Run, pois estava velho para ser protagonista e não admitia que os meus admiradores me vissem como ator coadjuvante, embora eu respeitasse muito os comprimários.
-Mas o seu amor pela representação perdurava.
-E porque perdurava, voltei-me para o teatro. Quase morri no palco, durante um ensaio do espetáculo “Uma conversa com Cary”. Foi uma hemorragia cerebral; eu tinha 82 anos de idade.
-Acredito que você seja o primeiro galã a ser citado por todos os amantes do cinema.
Foi-se sem que eu soubesse se tinha me ouvido.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

2371 - um Henrietta chamado Brasil


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4171                                  Data:  13 de  Abril de 2013
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BISCOITOS SORTIDOS

Nesse dia, a corrida se deu no táxi do Bob Esponja.
-Só se vê cracudo. - disse ele, depois de quebrar o ritmo do seu carro para não atropelar um.
-Ainda mais com a favela Bandeira 2 por perto.- acrescentei.
-Sabe que tem colega da nossa cooperativa que pega cracuda?
-Como?!...
-Eles rodam de madrugada e pensam que não são vistos por gente conhecida...
-Mas essas cracudas são um poço de doenças.
-Apenas são. - enfatizou essas palavras e prosseguiu:
-Esquecem que alguns da nossa cooperativa começam a trabalhar quando eles ainda rodam na praça. Não adianta levar a cracuda para uma rua menos movimentada, na madrugada, que serão, mais cedo ou mais tarde, descobertos.
-Pagam o quê para uma dessas infelizes?... Cinco reais, que é o preço de uma pedra de craque?  - manifestei-me.
-As mulheres estão fáceis e, de tão carentes, você recebe mais delas do que dá; e essas são higiênicas.
E gabou-se, o que já demorava:
-Pelo menos, comigo é assim. Três já me telefonaram hoje, dispensei todas, pois vou dedicar a noite de hoje à minha noiva.
-As cracudas são anti-higiênicas, eles também. O pior desses seus colegas é passar AIDS para a esposa. - assinalei.
-E eles pensam nisso?
Apesar da sua garrulice, deixou-me no meu destino sem citar os nomes desses taxistas, o que me fez agradecer ao saltar do seu táxi, pois seria difícil entrar nos carros deles.

Li, algures, a edição do Biscoito Molhado sobre a visita que Jules Verne fez à redação deste periódico. Escrevo, por isso, que o economista da PUC, Rogério Furquim Werneck, num artigo para o Globo, comparou um episódio de “A volta ao mundo em oitenta dias” com a atual politica da presidente Dilma Rousseff para se reeleger. S.F.
BM: Tomamos conhecimento desse artigo, caro leitor. O economista, depois de dizer que era da época em que as crianças liam Júlio Verne (aportuguesando), fixa-se na necessidade premente do Sr. Phileas Fogg, um solteirão inglês rico e excêntrico de viajar de Nova York às Ilhas Britânicas e, assim, ainda poder nutrir esperanças de dar a volta ao mundo no tempo estipulado e vencer a aposta que fizera com os outros sócios do clube a que pertencia (problema que não aconteceria com Groucho Marx, considerando a sua celebrada frase).
Após seguir pela linha férrea de São Francisco a Nova York, o Senhor Fogg, ao chegar, constata, com desespero, que já havia zarpado o navio em que embarcaria.
Ele recorre então, então, a um cargueiro que ficara entre a transição da navegação a vela e a vapor, o Henrietta. Com exceção do casco, da caldeira e da máquina a vapor, o navio era de madeira. (*)
As emoções de uma boa aventura de Jules Verne começam a pulular: uma tempestade se forma, o que prejudica a travessia, além disso, o estoque de carvão foi previsto até Bordeaux (**), o destino da viagem, que seria alterado para a Inglaterra devido ao “poder de persuasão do excêntrico Sr Fogg.
Como alcançar terras britânicas com pouco carvão? Aqui, o economista da PUC cita o capítulo 33 do livro e nele se detém. O Sr. Fogg convence o capitão do Henrietta a lhe vender a embarcação e toma o comando. Ordena à marujada que a pressão da caldeira deve ser mantida a todo custo. Exige, em seguida, que todo o madeirame do navio tem de ser retirado e lançado na fornalha para que o seu objetivo fosse alcançado.
E foi, mas o Henrietta aporta nas Ilhas Britânicas como um monstrengo, restando-lhe apenas o casco, a caldeira e a máquina a vapor.
Esse episódio elaborado pelo grande escritor de Nantes é uma excelente metáfora e o economista da PUC, Rogério Furquim Werneck o aproveita exemplarmente para ilustrar a atual política posta em prática no Brasil.
Com as palavras que se seguem, ele apresenta o desfecho do seu lúcido artigo:
-“Não há espaço aqui para um balanço de tudo o que já foi desmantelado para avivar a fornalha da reeleição. Mas uma lista curta teria de incluir o controle da inflação, a credibilidade do Banco Central e previsibilidade da política fiscal. Num quadro em que o dispêndio público continua a mostrar rápida expansão, já não se tem mais ideia do que será o resultado fiscal de 2013, deixado agora ao sabor de pacotes de desoneração anunciados de improviso, a cada mês, em desesperada tentativa de mascarar a inflação com medidas que implicam inflação mais alta no futuro.”
“Merecem ainda destaque o abandono cada vez mais escancarado da ideia de realismo tarifário – como bem ilustra a insistência na política de preços de derivados de petróleo – e a decisão populista de não repassar, aos consumidores, o custo mais alto da energia elétrica proveniente das térmicas. E há, também, outras conquistas valiosas, como a solidez dos bancos federais, sendo consumidas na fornalha da reeleição. A inconsequência na gestão da Petrobras e do pré-sal não pode deixar de ser mencionada. Mas tem mais a ver com o vale-tudo anterior, que marcou a travessia do biênio eleitoral de 2009-2010.”
“Faltam hoje 560 dias para o segundo turno das eleições presidenciais. Uma travessia de 80 semanas. E ainda há muito o que queimar a bordo. Mas em que estado estará o nosso Henrietta no fim de outubro do ano que vem?”
É a versão macabra de “A volta do mundo em 80 dias”.

Recebi um e-mail que lista, em PDF, os dez piores alimentos em ordem alfabética. Os dois mais calamitosos, para a saúde, eu risquei do meu cardápio há mais de dois anos: o refrigerante (2º da lista) e o refrigerante light ou diet (o vencedor às avessas).
Confesso à minha tristeza com a inclusão da pizza (***). Já deixei registrado, em algum  BM, que a primeira vez que provei uma pizza, que era de mussarela, no início dos anos 60, na Confeitaria Méier, fez-me sentir  um deus do Olimpo que prova um manjar.  Isso ficou entesourado na minha memória, além do fato de a pizza cair inteira no meu colo devido à minha pouca experiência em cortar com a faca a elástica mussarela cozida; peguei-a, sem afetações, pela mão e a devolvi ao prato.
Foi amor à primeira mordida. Nunca abandonei a pizza e tive esperanças nos benefícios que ela trazia quando soube que os nutricionistas enalteciam a dieta mediterrânea. Afinal, os povos do Mediterrâneo se fartam de pizzas.
Estranhei a ausência do miojo nessa lista dos dez piores. Falando nele, quando leio as cartas da hipertensa Rosa Grieco, sempre me preocupo quando ela se refere ao seu miojo de cada dia.
-É puro sódio. Troca por macarrão natural, Rosa, que até eu sei cozinhar.
E, com esse apelo, encerro este BM.

(*) Não temos notícia de ser o casco de aço. O fato de não ter sido queimado deveu-se a ser o casco imprescindível à navegação. Lembramos ainda da figura de proa do Henrietta, em madeira requintadamente pintada e que o capitão não queria deixar queimar. Os navios de aço aboliram as figuras de proa, o que é mais uma evidência do casco ser de madeira.

(**) A questão não era a distância, visto que Bordeaux não fica mais longe de Nova Iorque do que a Inglaterra. A questão era a velocidade que Fogg necessitava e que exigia pressão máxima na caldeira, enquanto a viagem original previa o uso misto de vela e motor, com economia do carvão. Obviamente, o percurso a vela demanda cursos nem sempre otimizados e o tempo de percurso seria forçosamente maior e incompatível com a aposta de Fogg.

(***) Há pizzas e pizzas. De pacote, nenhuma presta. Pizza barata leva ingredientes idem, não pode ser boa para a saúde. Mas a boa pizza, com ingredientes de primeira qualidade, sem gordura em excesso só traz benefícios, especialmente se repartida em convívio (todo convívio é social, juntar as palavras apresenta pleonasmo).
Que o digam os sócios do Clube do Bondinho, que saboreiam a Pizza do Gagau, cuja permanência à mesa (da pizza) raramente ultrapassa a marca de 2 minutos após a saída do forno.
   




quinta-feira, 2 de maio de 2013

2380 - Os Três Mosqueteiros no Radio Memória

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4180                                    Data:  01 de  Maio de 2013
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NA RÁDIO MEMÓRIA, DIECKMANN SE LEMBRA DA LADY GAGA

Sérgio Fortes já dissera que o Dieckmann tentou se apoderar do programa Rádio Memória quando lá esteve no mês passado. Agora, que saiu de férias, Dieckmann faz nova tentativa; no entanto, o prevenido Jonas Vieira convidou também o violinista da OSB - Ópera e Repertório, que, além de médico aposentado, Luzer Machtynger, para repartir a apresentação do programa.
Eram, portanto três, como os mosqueteiros que, aliás, eram quatro, aqueles que escolheriam o repertório.
O programa se iniciou com piadas sobre a ida do Sérgio Fortes, de férias, a Europa. O que sei é que ele não pode sair do país que a casa cai, pois mal entrou no avião e o prefeito Eduardo Paes cortou 8 milhões de reais da verba da OSB. Covardia e imbecilidade.  E será que a casa também cairia na Roquete Pinto nesse último domingo do mês de abril sem o Sérgio Fortes? Era esperar para ver, ou melhor, ouvir.
Coube ao músico e médico escolher a primeira música do Rádio Memória.
-“Nada melhor do que George Gershwin para começar o dia” - disse. E anunciou a canção Love is Here to Stay, a última que ele compôs. Enalteceu o verso “for ever and a day”, sendo interrompido pelo Jonas Vieira: “Que poeta”. O poeta, no caso, era o irmão do compositor, Ira Gershwin.
A canção não era uma declaração de amor por uma mulher (George Gershwin foi apaixonado pela atriz Paulette Godard, musa do Charles Chaplin), e sim por um homem (*). Tudo bem, pois a sua melhor canção para mim é The Man I Love, que sensibilizou até o Caetano Veloso, que a gravou, mas prefiro mil vezes mais a Kiri Te Kanawa.
Love is Here to Stay foi ouvida na gravação de Michael Feinstell com a Orquestra Filarmônica de Israel.
-O programa foi aberto com chave de ouro. - concordaram todos.
Chegou, então, a vez do Dieckmann que, justiça se lhe faça, possui uma dicção que nos faz entender todas as letras de todas as palavras que pronuncia. Ele se reportou, surpreendentemente, aos diversos segmentos dos seus colegas da Petrobras, classificando-os como: universidade, científico, ginasial e maternal. E pediu para ouvir, atendendo ao desejo do “maternal”, Lady Gaga; e a música, que já teve  celebradas interpretações, foi Dancing in the Dark.(**)
  Na segunda-feira, contei isso para o “maternal” do meu trabalho, que já foi o do Dieckmann de outrora e me perguntaram? “Por que ele não pediu o original?... Por que não pediu a Madona?”
A clone da Madona é, de fato, afinadinha, mas o programa se chama Rádio Memória. Pedisse, então, uma canção da falecida Amy Winehouse, que possuía uma voz rara de contralto e talento para compor canções que eram uma mescla de jazz, soul e rhythm and blues.
Antes dessa escolha, vale lembrar, Dieckmann, para o desespero do apresentador do programa, revelou que o estúdio, “com suas candelas”, se chama Jonas Vieira.
-“Candelas às oito e vinte da manhã?” - imaginei o espanto e as palavras do Sérgio Fortes. (***)
Veio, então, a vez do anfitrião apresentar a sua música. E pediu bem: Dinorah, de Benedito Lacerda e Darci de Oliveira. Parecia composição do Pixinguinha, e talvez fosse... Jonas Vieira preferiu a gravação de um organista americano que divulgou muito a música brasileira cujo nome me escapou.
E a opção voltou para o Luzer.  Ele se referiu ao conjunto Rabo de Lagartixa e ao corte de cabelo muito curto da excelente clarinetista Daniela Spielman, que inspirou seu colega, Luís Felipe de Lima, a compor o buliçoso Joãozinho na Gafieira.
Dieckmann entremeou comentários maliciosos com risos sobre o rabo da lagartixa, enquanto eu imaginava a inveja que as mulheres dos traseiros de silicone teriam das lagartixas com o seu poder de regeneração do rabo.
Sérgio Fortes voltou a ser lembrado, agora com a mala cheia de merrecas, na Europa. Momentos de alegria antes do austero intervalo sobre a origem do trigo.
A segunda parte do Rádio Memória principiou com o Dieckmann, que enalteceu as interpretações engraçadas, descontraídas, malandras, no bom sentido, do Moreira da Silva.
-Na gravação que vou pedir, Conversa de Botequim, de Noel Rosa, até que ele está contido. - comentou.
Creio que Noel Rosa, pelo conjunto da sua formidável obra, impõe um pouco de veneração nos intérpretes, até mesmo no Moreira da Silva, que o conheceu pessoalmente.
E os comentários se sucederam, depois que escutamos Conversa de Botequim.
-O Moreira da Silva personifica o carioca típico.
-O carioca que não mais existe; também não existem mais os cafés.
-Você pode ir a Buenos Aires, Jonas. - sugeriu o Dieckmann.
-Há também cafés em Viena.
Com essas palavras, a memória afetiva do apresentador de novo despertou:
-A essa hora, Sérgio Fortes toma o seu café, na Europa e ri-se de nós.
A escolha cabia agora a ele, Jonas Vieira. Reportou-se, então, ao magnífico instrumentista que levou o acordeão para o jazz, Art Van Damme. Chegaram, então, aos nossos ouvidos, uma gravação dele com um quinteto jazzístico, o clássico Slaughter on Fifty Avenue, que, antes, o professor de inglês, que também é nome de estúdio com as suas candelas, traduziu para Assassinato na Quinta Avenida.
Depois de soada a última nota do Slaughter on Fifty Avenue, Dieckmann não perdeu a piada e relacionou Art Van Damme com Thriller.(4*)
Era a vez do Luzer e ele discorreu, com a sua bagagem de integrante da Orquestra Sinfônica Brasileira, sobre um grande compositor argentino, que muitos conhecem suas criações, mas não o seu nome: Lalo Schifrin.
Dieckmann e Jonas Vieira aprovaram imediatamente e ele prosseguiu:
Lalo Schifrin compôs muito para o cinema, para seriados de televisão, como “Missão Impossível (1966)” e muitos não sabem que ele é o autor.  E aconselhou aos ouvintes que pretendem se introduzir na música clássica a começar com as audições de Lalo Schifrin.
-Seria ótimo para o maternal do trabalho do Dieckmann. - imaginei logo. (5*)
A gravação que se ouviu, em seguida, foi The Wig (A Peruca).
Na hora do Dieckmann, ele pediu Hi-de-ho com Blood and Tears.
-Que, traduzido do japonês?... - brincou o Jonas Vieira.
-Sangue e Lágrimas. - respondeu o Dieckmann. (6*)
Faltou o suor. - disse comigo mesmo.
Como costuma acontecer, Jonas Vieira sempre comenta, juntamente com o Sérgio Fortes, um acontecimento atual. E a falta do seu parceiro não o impediu de falar do brutal assassinato de uma dentista, incendiada viva.
-Passe para a música. - falei, mesmo sem ser ouvido, naquela bonita manhã de domingo.
E o Jonas Vieira pediu, para finalizar o programa, o fox-canção de Posford e Estothart, versão de Osvaldo Santiago, Na Balalaica.
E a esplendorosa voz do Orlando Silva de 1940 encantou a todos.
-Orlando Silva frequentou a minha casa. - informou depois que a última nota musical foi emitida.
-Jonas Vieira pretendia ser cantor, mas, depois que conheceu o Orlando Silva, desistiu. - interveio jocosamente o Dieckmann.
Pensei no Sérgio Fortes e de um texto do livro de Rogério Barbosa Lima sobre o grande barítono Paulo Fortes. Ele, Sérgio, cismou, numa fase da sua vida, em cantar óperas também, no entanto, seu pai exigiu tanto da sua voz que, no dia seguinte, ele não conseguia nem falar, o que o fez desistir definitivamente de ser tenor lírico.
Perdemos um Caruso.
No Rádio Memória, voltaram a se lembrar do Sérgio Fortes, mas o assunto era diferente do meu, ainda era o seu périplo pela Europa.

(*) antes que espíritos maledicentes e apressados façam questões, trata-se de declaração de amor entre irmãos, parceiros de toda uma vida, um na música e o outro nas letras. Realmente a letra tocou a todos nós e Jonas Vieira é um fã declarado dos irmãos Gershwin, daí o arrebatamento.

(**) A música apresentada foi “Dance in the Dark” e não “Dancing in the Dark”. Consultamos o Dieckmann várias vezes nesta edição, para que o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO não caísse na eterna tentação farinácea de espicaçá-lo em definitivo, sem lhe dar o justo direito de réplica. Nada como ler as duas versões da mesma história, ainda mais que o redator ouviu o programa e o Dieckmann participou, foi testemunha, fez parte da História radiofônica. Ouçamos essa brilhante testemunha:
“Quando o maternal pediu a Lady GaGa, a música escolhida foi imediatamente suposta por mim como a “minha Dancing in the Dark”. Ledo engano, tratou-se de ignorância musical da minha parte. Não só a música não está no gerúndio e a Lady a compôs, como há outra “Dancing in the Dark”, de Bruce Springsteen.
Era minha intenção promover um pot-pourri de Dancings e Dances, mas ficaria longo demais e não mostraria as músicas em seu esplendor. Foi uma decisão dos três mosqueteiros apresentar somente a versão da Lady GaGa, que é musicalmente interessante, assim como a cantora. Só é preciso se abster do bateestaca de fundo.

(***) A esta altura, o leitor deste periódico já percebeu que se não é o Distribuidor, este Biscoito teria farinha de Dieckmann (integral, claro). Fique registrado que ninguém pediu a Madona, ou a Amy Winehouse, ambas igualmente respeitáveis e que terão a sua vez, agora que o Dieckmann já sabe dessas preferências. Diz o Dieckmann, já meio estupefato com a desmedida perseguição, a partir de consulta à Wikipedia:
“Uma candela é definida no Sistema Internacional (SI) como a intensidade luminosa emitida por uma fonte, em uma dada direção, de luz monocromática de frequência 540 x 1012 hertz e cuja intensidade de radiação em tal direção é de 1/683 watts por esferorradiano.
Ou seja, candela é uma unidade de intensidade de luz e faz parte do idioma português, podendo o termo ser usado a qualquer hora do dia.”

(4*) Foi preciso usar o maternal, primário e parte do ginasial para segurar a ira do Dieckmann. “Nem de longe eu me referi à música do Michael Jackson e sim ao thriller, gênero cinematográfico, teatral, literário, que quer dizer arrepiante, em tradução literal.”

(5*) Saberão disso!

(6*) Blood, Sweat and Tears é o nome do conjunto. Difícil o Dieckmann se esquecer de umas das palavras e impossível ter sido a dicção inaudível, como atesta o próprio redator. O que o Dieckmann cometeu foi um erro nas pronúncias de Blood e de Sweat, corrigidas no ar pelo impreterível Jonas Vieira, professor de Inglês. Prevaleceu a escrita do redator, questão de princípios deste Distribuidor.