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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

3152 - Guerra Relâmpago D


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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição D                        Data: 19 de Fevereiro de 2024 

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BLITZKRIEG.


Os leitores vão estranhar, pois o redator resolveu se aprofundar nos mistérios que envolveram o início da Segunda Guerra Mundial, com a derrota de inúmeros exércitos nacionais perante uma técnica inovadora, a blitzkrieg.

Ressalto que foi muito mais a derrota de vários exércitos do que uma vitória do exército alemão e muito mais o despreparo das forças armadas nacionais, advindo da luta política entre armamentistas e pacifistas; em outras palavras, a guerra poderia ter sido muito menor (e nem mundial) se houvesse mais equilíbrio entre as posições daqueles que defendiam os orçamentos das nações, pois estava à mostra de todos, e a tempo suficiente, o desenrolar da política de conquistas da Alemanha.

Para dar profundidade ao tema, procuramos conhecer teses do século XXI, abaixo nomeadas e, dessa leitura, resumimos ao maior grau possível, nos restringindo apenas às causas e efeitos mais claramente identificados com a blitzkrieg. Gostamos muito do que lemos, pois são teses que buscaram convencer suas bancas examinadoras da exatidão de suas pesquisas e conclusões.

As teses de:

ATHAYR ARAUJO PEREIRA JUNIOR

A BLITZKRIEG ALEMÃ E A EVOLUÇÃO DA ARTE DA GUERRA - UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA

LUANA ISABELLE BEAL

A BLITZKRIEG E A TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL


I) Evolução Histórica

O que é blitzkrieg?

A estratégia da blitzkrieg, termo criado por um jornalista e que traduzido significa guerra-relâmpago, foi aperfeiçoada pelo general alemão Heinz Guderian no final de década de 1930. O efeito desejado pela guerra-relâmpago só pode ser obtido pela utilização coordenada da infantaria, dos blindados e da aviação, que agem conjuntamente para "perfurar" as linhas inimigas em um ponto de ruptura. Todo "atrito" com as forças inimigas deveria ser evitado. Se um foco de resistência era encontrado, era imediatamente cercado, suas comunicações interrompidas (o que dificultava a tomada de decisões e a transmissão de ordens) e o resto das tropas de ataque continuava seu avanço ao interior do campo inimigo, o mais rapidamente possível. O foco de resistência ultrapassado seria destruído mais tarde, pelas forças de infantaria que seguiam o ataque surpresa.

Detalhando um pouco, ela concentrava os tanques das divisões blindadas (panzer) numa falange ofensiva, apoiada por esquadrões de caças de mergulho agindo como "artilharia voadora" de muita precisão, que era direcionada para um ponto fraco de uma linha de defesa. Assim, a falange rompia o ponto fraco e prosseguia espalhando confusão em sua esteira. 

Mas é preciso voltar um pouquinho na História. Começando já com  uma supresa, pois essa técnica era a mesma introduzida por Epaminondas em Leuta, usada por Alexandre contra Dario em Gaugamelos e, bem mais recentemente, empregada por Napoleão em Marengo (1800), Austerlitz (1805) e Wagran (1809).

Na I Guerra Mundial, em meados de 1918, os exércitos aliados, reforçados pelos Estados Unidos, foram gradativamente passando para a ofensiva até empurrar os alemães de volta para suas fronteiras. Este acontecimento, somado com a falta de alimentos para a população e o perigo de um avanço comunista no país levou os políticos alemães a destituírem o Kaiser e procurarem a paz com os aliados, assinando um armistício.

O Exército alemão não se considerou derrotado e voltou para casa em desfiles militares com suas bandeiras ao vento e com a certeza de que podiam vencer os aliados. (Esta confiança dos alemães era resultado das vitórias na Guerra Franco-Prussiana de 1870, que impôs uma grande derrota aos franceses e rendeu a anexação dos territórios ricos da Alsacia-Lorena à Alemanha.) 

Os Aliados vencedores tinham o intento de desmobilizar a maior parte do Exército Alemão e impuseram aos alemães o Tratado de Versalhes, elaborado pelos aliados ingleses (Lloyd George), franceses (Clemenceau) e americanos (Wilson), que gravou com perdas enormes o povo alemão e determinou limitações severas às Forças Armadas. Outro fato humilhante (uma vingança especial da França) para os alemães foi terem que assinar o tratado no famoso Palácio de Versalhes, antiga sede dos monarcas franceses, onde 48 anos antes, eles tinham assinado o tratado de paz com os franceses no final da Guerra de 1870. 

Os aliados vencedores tinham o intento de desmobilizar a maior parte do Exército Alemão e acabar com o famoso Estado-Maior, de maneira que este não ressurgisse mais. Segundo eles, o Estado-Maior era o cérebro do militarismo alemão e, suprimindo-o, introduziriam uma grande fraqueza nos alemães, deixando-os sem comando.

Pelo tratado, os alemães teriam o seu exército reduzido para 100.000 homens (eram 13 milhões), sendo que somente 4.000 poderiam ser oficiais e 96.000 praças. O Exército deveria ser responsável somente para a defesa interna e era vetada a formação de reservistas. No tocante ao armamento e ao equipamento, os alemães não poderiam possuir veículos blindados, artilharia pesada, aeronaves de combate e navios de guerra, como os grandes cruzadores e couraçados, reduzindo a marinha alemã a uma guarda costeira.

Os militares alemães consideraram o Tratado de Versalhes uma afronta, como o General Heinz Guderian escreve, em seu livro Actung, Panzer!

“Os parágrafos da parte V do vergonhoso Tratado de Versalhes foram concebidos no ódio. Não estamos mais sujeitos a eles (seu livro é de 1937), mas é bom relembrá-los agora e sempre. O Exército alemão, pelo que eles estabeleceram, ficou pequeno e incapaz de se desenvolver. Entretanto, a medida mais restritiva não foi a diminuição numérica ou a obrigação de serviço por 12 anos. Foi a proibição de não ter nenhuma arma moderna”.

Mas, após o Tratado de Versalhes, começou alguma reestruturação no Exército Alemão e o homem responsável por esta tarefa foi o General Hans von Seeckt, que colocou em prática a idéia de reconstruir o Exército Alemão com um exército constituído de soldados profissionais, engajados por um longo período e, se possível, de voluntários. Então, Seeckt procurou motivar seu exército de 100.000 homens e fez daquela força um grupo de instrutores que fosse capaz de servir de núcleo para uma rápida expansão do exército. 

Cabe ressaltar que ele, durante a I Guerra Mundial, na batalha de Gorlice contra os russos, introduziu um método de ataque que seria o germe da moderna tática de infiltração, ou seja, atacando os pontos fracos do inimigo e penetrando o mais profundamente possível. Não havia blindados então, mas pode-se dizer que este método foi o germe das Tropas de Assalto desenvolvidas posteriormente pelo General Guderian.

A origem da Blitzkrieg está diretamente ligada ao surgimento das Tropas de Assalto Alemãs, à introdução do carro de combate no campo de batalha na I Guerra Mundial e às experiências que os próprios alemães tiveram tanto com os traumas da guerra de trincheiras, como na luta contra os blindados.

Mas como Guderian teve a oportunidade de juntar os mencionados pensadores, com sua experiência e tudo isso sob o Tratado de Versalhes?

O General Guderian era de família de origem militar. Formou-se em 1907 e foi servir na unidade comandada por seu pai, o 10º Batalhão Jaeger de Hanover, uma unidade formada por soldados que eram ensinados a pensar por si, moverem-se rapidamente e encorajados a inovar. Durante este tempo, Guderian completou um Curso de Telegrafia Sem Fio, o que foi um aprendizado fundamental para o seu futuro. Durante a guerra estudou as doutrinas de Estado-Maior, tendo sido aprovado pouco antes do fim da guerra.  

Por tais qualidades, foi designado pelo General von Seeckt para fazer parte do grupo que secretamente formou um novo Estado-Maior Geral, proscrito pelo Tratado de Versalhes, sendo sua missão a modernização do Exército. Guderian passou a estudar tudo o que foi escrito sobre blindados e seu emprego, principalmente os trabalhos dos teóricos britânicos como Fuller, Liddell Hart, Martel e do coronel francês de Gaulle. Com determinação e perspicácia, contou com sua experiência com as comunicações e seu espírito inovador, e desenvolveu uma filosofia de emprego de Forças Mecanizadas que estava à frente das experiências dos outros países. Em seus estudos, ele se convenceu que os blindados, empregados isoladamente ou em conjunto com a infantaria, nunca poderiam adquirir importância decisiva. Mas estava certo de que as formações de todas as armas, apoiadas pelo poder aéreo e com adequado suprimento logístico, seriam capazes de desfechar golpes estratégicos de longo alcance capazes de paralisar nações inteiras. À frente desse tipo das equipes de todas as armas, imaginava comandantes altamente agressivos, que liderariam diretamente na frente de combate e não na retaguarda, e fariam a coordenação pelo rádio que alcançava todos os veículos de combate.

Em 1930, Guderian assumiu o comando de um batalhão motorizado, onde pode reorganizar uma de suas subunidades, conforme sua concepção de guerra de movimento. Depois, em 1931, foi nomeado Chefe de gabinete da Inspetoria Geral das tropas motorizadas, dirigida pelo General Lutz, que também era simpatizante da doutrina desenvolvida por Guderian e, como seu chefe imediato, poderia angariar simpatizantes para a teoria da mecanização e com isso, permitir a maior alocação de recursos para a formação das Divisões Panzer.

A nova organização, entretanto, não era aceita pela maioria dos oficiais mais antigos do Exército Alemão, que não acreditavam nas teorias de Guderian e preferiam idéias mais ortodoxas.

O mesmo fato aconteceu na França e na Inglaterra porque os políticos achavam que o tratado de Versalhes garantiria a paz; como ainda tinham na lembrança as grandes perdas da guerra, adotaram um discurso pacifista e assim reduziram os recursos para as suas Forças Armadas, o que prejudicou o desenvolvimento da mecanização e a formação de suas unidades blindadas. Ainda pior, a França apostou em uma organização defensiva construindo uma rede de fortificações na fronteira com a Alemanha chamada Linha Maginot, imaginando que esta Linha impediria qualquer nova tentativa alemã de invadir a França pela fronteira entre os dois países. 

Pausa: imagine-se o coronel de Gaulle, estudioso da guerra de movimento, assistindo imobilizado a construção das fortificações, mas, neste meio tempo...

A influência do Tratado de Versalhes, com suas condições de reparação de guerra aos aliados, somada aos acontecimentos da crise econômica gerada pela quebra da Bolsa de New York, resultou em uma hiperinflação na Alemanha, o que foi determinante para que Hitler subisse ao poder em 1933.

Então as idéias da guerra mecanizada e das Divisões Panzer saíram do papel e partiram para a prática. Hitler assistiu as manobras de 1934 em Kummersdorf e ficou muito impressionado com aquilo que viu, proclamando aos seus interlocutores “É o que eu preciso! É isto que eu preciso ter.”

Após a formação das Divisões Panzer, o próximo passo era organizar a coordenação dos blindados com Força Aérea, Infantaria e Logística. A estratégia alemã combinou dois conceitos tradicionais: “a Manobra Decisiva”, desenvolvida pelo general prussiano von Moltke em 1850, e “o conceito Guerra de movimento”, proposto por Guderian no final da década de 20. 

Os resultados de comandantes anteriores, cuja habilidade de explorar o sucesso no ponto de assalto estava limitada pela resistência e velocidade do cavalo, tanto como um instrumento de deslocamento, como meio de levar mensagens e relatórios. 

Já o tanque não somente deixava para trás a infantaria, como podia manter um ritmo de avanço de cinqüenta quilômetros por hora, desde que suprido de combustível e peças sobressalentes, ao mesmo tempo que seu aparelho rádio permitia ao Quartel-General receber e transmitir ordens com a mesma velocidade em que as operações aconteciam, um desdobramento que veio a ser conhecido como “tempo real”.

Foi com este conceito de forças mecanizadas de alta mobilidade, apoiados pela aviação, realizando apoio aéreo aproximado, com comandantes conduzindo seus homens na linha de frente, a comunicação rádio em todos os níveis de comando, liderança agressiva em todos os níveis, que os alemães, mesmo que em inferioridade numérica e tecnológica, mudassem no começo da II Guerra Mundial o curso da História Mundial e Militar.

Toda a nova teoria de combate sempre tem óbices quando é colocada em prática e com a Blitzkrieg não foi diferente. Uma pela novidade e outra pelo descrédito de alguns comandantes alemães mais antigos.

Ficou claro durante a invasão da Polônia que as necessidades de adaptação das novas técnicas da Guerra em Movimento com as coordenações necessárias entre as diversas armas e entre a Força Blindada e a Força Aérea. As perdas materiais levaram os alemães a reestruturar suas forças e através das lições apreendidas durante a esta campanha, tornar mais eficiente o emprego das divisões panzer nas operações, bem como solucionar os problemas apresentados durante a campanha. 

II) A Transição Tecnológica:

Qual a relação entre a doutrina da Blitzkrieg e a transição tecnológica? A hipótese é de que existe uma conexão importante entre ambas evidenciada em dois aspectos: 

(a) A Segunda Revolução Industrial e o advento do motor de combustão interna, que permitiram o surgimento do caminhão, do aeroplano e do tanque (motorização e mecanização de guerra); 

(b) O rádio que, ao realizar a comunicação sem fio, permitiu a operação conjunta de Forças (Exército e Aeronáutica), permitindo coordenação em tempo real.

Assim, a novidade era o emprego associado da Força Aérea com a Força Terrestre. No caso da atuação da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, a Luftwaffe (Força Aérea alemã) destruía as linhas de comunicação, os postos de comando e controle e os depósitos de munição realizando, deste modo, a interdição aérea do teatro de operações terrestre. Esta ação era efetivada através dos bombardeiros de mergulho Junkers Ju-87, que precediam o avanço dos tanques e da Infantaria na fronteira do adversário. 

Em resumo, apesar da “guerra relâmpago” não possuir um conceito integralmente definido, seus componentes permitem inferir que esta foi uma forma de conduzir as operações militares que surgiu a partir das possibilidades suscitadas pelo motor de combustão interna (avião e tanque) e da comunicação sem fio (rádio). Como critério de manobra, adotava o envolvimento e a penetração profunda, visando fragmentar o teatro de operações ou o próprio país-alvo. A penetração em grande escala pretendia, também, destruir a infraestrutura do oponente. Além disso, baseava-se na velocidade para ataques rápidos, sempre que possível de surpresa, visando dividir e isolar as Forças inimigas no teatro de operações. Assim, em uma escala menor, o alvo era cortar as linhas de suprimentos adversárias para desestruturar as Forças Armadas inimigas, diminuindo a capacidade de combate das mesmas.

Ao qualificar a Blitzkrieg como tendo provocado uma alteração na guerra habitual, podemos atribuir grande parte deste efeito ao progresso tecnológico alemão. Durante a Segunda Guerra Mundial, os sistemas de armamentos utilizados em todas as Forças deviam-se à acentuada aplicação da recente ciência e tecnologia para fins militares. As modificações nas comunicações elétricas, o aperfeiçoamento de instrumentos de navegação e a melhora do equipamento do rádio afetavam fortemente estes sistemas. Para a melhoria da comunicação e, portanto, para tornar possível uma troca de informações rápida e eficiente, o uso do rádio foi elemento essencial. 

 A Alemanha obteve uma maior efetividade de suas Forças Armadas nas operações pois “o exército estava preparado para concentrar as forças de tanques e, em seguida, dar-lhes a iniciativa no campo de batalha, mantendo contato pelo rádio; a força aérea, apesar das tendências para missões ‘estratégicas’, era treinada para prestar assistência aos avanços”

Ao longo de toda a guerra, os rádios foram utilizados tanto na Força Aérea quanto na Força Terrestre já que a coordenação entre ambos era crucial no nível tático do combate, tanto para incrementar as Forças conjuntas e as Armas combinadas, quanto para concentrar o poder de fogo. Como principais exemplos utilizados na “guerra relâmpago” podemos citar o FuG1018 no sistema de aeronaves e os conjuntos de VHF19 implantados em comunicações de tanques. Mecanicamente, os aparelhos alemães foram muito bem produzidos e, em relação a eletricidade, eram bons e eficazes, apesar de não tão modernos quanto os britânicos. 

Um rádio de aeronave  tinha como propósito permitir que tripulantes de bombardeiros se comunicassem. Composto por dois transmissores e dois receptores, dos quais um par operava de 300 a 600 quilo-hertz (kHz) – ondas longas de frequência média com alcance de 500 a 1.000 metros – e o segundo operava de 3 a 6 mega-hertz (MHz) – ondas curtas de frequência alta com alcance de 50 a 100 metros.  

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O redator se esmerou na adaptação livre e suave das teses acima e entendeu que a transição tecnológica foi essencial ao sucesso encontrado pelos alemães até a rendição da França. Guerras aconteciam na Europa e todos os exércitos tinham organização, pessoal e armamento semelhantes, mas a rapidez das conquistas que batizou esta edição foi decorrente da coordenação possível pelo uso do rádio nas comunicações, o que era inédito.
Enquanto os aviões e blindados alemães se entendiam a cada instante, todas as demais nações dependiam do uso de telefone para qualquer providência. A Polônia resistiu 36 dias - de 01/09/39 a 07/10/39, a Bélgica, 18 dias, a Holanda, 7 dias e a França, 46 dias. Estas 3 campanhas tiveram início simultâneo, em 10/05/40, o que contribuiu para mais desorganização entre os países atacados.

No caso da França, apesar da ideia defensiva da Linha Maginot não ter funcionado como desejado, o Exército francês era o maior do mundo, tinha organização exemplar e divisões blindadas comparáveis às alemãs. Além disso, foi reforçado por uma Força Expedicionária Britânica de 320 mil homens, mas foi superado pela coordenação de combate. Parece pouco, mas é a única explicação razoável para o caos que dominou o exército francês, que tinha quase o dobro de canhões e tanques, embora tivesse menos aviões. 

Há, entretanto, quem diga que existem outros motivos... e acha-se de tudo no Google:

O papel dos estimulantes na Blitzkrieg

Segundo alguns autores, um dos fatores do sucesso da blitzkrieg, em particular durante as invasões da Polônia em 1939 e da França em 1940, foi a utilização de Pervitin, uma metanfetamina, para melhorar o desempenho e a capacidade de concentração das tropas.

Primeiro testada na Polônia — onde a sua distribuição ficou ao critério de comandantes, oficiais médicos ou iniciativas individuais — foi depois já oficialmente distribuída às tropas antes da invasão da França.De abril a junho de 1940, a Wehrmacht recebeu mais de 35 milhões de tabletes de Pervitin. A droga reduzia a sensibilidade à dor e fome. Isto possibilitou o avanço rápido e constante dos alemães, que já não sentiam necessidade de descansar e dormir.

Após cruzar o Rio Meuse, as tropas alemãs avançaram ininterruptamente entre 11 e 20 de maio até alcançarem o Canal da Mancha. É uma semana de avanço quase ininterrupto.

Parece incontestável, porém logo chegam argumentos diferentes.

Você sabe o que acontece se você usar metanfetamina por uma semana? Porque, como mencionado acima, a metanfetamina não elimina a fadiga. No momento em que os efeitos terminam, a combinação da queda das drogas com a fadiga acumulada atingiriam os soldados como uma marreta e eles teriam que repousar vários dias.

Se os blindados de Guderian estivessem tão cheios de Pervitin quanto se costuma afirmar, as tropas estariam tendo ataques cardíacos, ou caindo em sonolência de zumbi antes mesmo de verem a cor do Atlântico. Como se sabe, nada disso aconteceu.

Levando isso em conta, chega-se à conclusão que seria melhor não levar tais hipóteses em conta, o que sugere uma boa hora para encerrar esta edição.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

3151 - Um pouco de passado.


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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1854                         Data: 13 de Junho de 2003 

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NO ALVORADA...


-“Pretendia receber o Kirchner com a mulher no palácio do Planalto, mas os manifestantes contra as reformas eram tantos, que tive de receber aqui.” – reclamou o presidente que, sentado na sua poltrona preferida, esticava um dos braços, observando os dedos entreabertos.

 -“É assim que eu vejo se estou nervoso.”

-“E o senhor está calmo, não é presidente?” – preocupou-se o assessor sabujo.

 -“Calmo, nada.”

-“Quer que eu chame o Gilberto Carvalho?”

Todos, principalmente o assessor sabujo, já conheciam  o chefe de gabinete como o fio terra por onde era descarregada a ira presidencial.

-“Não; dia desses passei uma descompostura no companheiro Gilberto que.., depois a Marisa me aconselhou a pedir-lhe desculpas.

-“Ora, presidente, não foi nada comparável àquelas descomposturas da Maria da Conceição Tavares.” – mostrou-se o assessor sabujo paciente com a dor de dente alheia.

-“Mas eu disse pro Gilberto “não vou te pedir desculpas, apesar da Marisa mandar.”

O assessor de jornal na mão interveio:

-“Acabo de ler que a CUT afirma que não será correia de transmissão do PT.”

-“Nem no próprio PT a correia de transmissão está bem azeitada.” – suspirou o presidente, de desalento.

-“Logo, aprenderão...”

Excitado, Lula ergueu-se da poltrona:

-“Meu governo está chegando no sexto mês. Esses dissidentes julgam a criança no ventre. Esperem a criança nascer para então julgar. Ora bolas!”

-“O seu governo ainda não fez nem o teste do pezinho...” – murmurou um assessor com um livro nas mãos.

-“O quê?” – não entendera o assessor sabujo.

-“Nada. Uma coisa que lia sobre  Lei de Terras.”

Lula, ainda sem sentar-se, prosseguia indignado:

-“Parece que não entenderam o meu discurso na CUT.”

E tentou relembrá-lo:

-“Há gente que se afoga, não por não saber nadar, mas porque se agita; bate por demais as mãos, mexe em demasia as pernas; falam demais, e falando demais bebem muita água, e afundam.”

-“A metáfora  era bem cristalina.” – aprovou o assessor sabujo.

-“O debate, porém, está aceso.” – observou o assessor de jornal na mão, enquanto o presidente refestelava-se de novo na poltrona.

-“São aquelas discussões que provocam muito calor, e pouquíssima luz.”- prosseguiu esse assessor.

-“Gostei da metáfora.” – disse o presidente.

-“A sua com o afogamento e com o bebê é bem melhor. É uma metáfora mais bem resolvida, literariamente falando.” – comparou o sabujo.

-“Quem  citava muito essa frase sobre as discussões que provocam  muito calor e pouca luz era o Roberto Campos.”

-“Não fale em Roberto Campos que me dá arrepio.” – reclamou do assessor com o jornal o assessor sabujo.

-“Há muita gente que odeia as idéias do Roberto Campos, mas adora embolsar o Fundo de Garantia que surgiu com ele, quando ministro do Planejamento do Castelo Branco. Injustiças...” – lembrou o assessor com um livro.

-“Vamos tratar das injustiças com o nosso presidente.” – solicitou o sabujo.

-“Essa reforma da previdência...” – torturou-se o Lula.

-“O companheiro Brizola é um dos seus mais empedernidos adversários, principalmente no que se refere à aposentadoria por idade.” – queixaram-se.

-“O Lula já disse: ele pisaria no pescoço da mãe para ser presidente. Como ele não foi presidente, atrapalha quem é.”

Era mais uma vez o sabujo que intervinha. E prosseguia:

-“Ele, que assumiria a presidência da República até com cem anos; atacar a idade avançada para se aposentar.”

-“E Brizola chegará aos cem.” – sorriu o presidente, com algum sadismo.

O assessor com o livro nas mãos interveio:

-“Ele sempre garantiu que os Brizolas chegam aos noventa. É bem capaz de ele chegar. Brizola, às vezes, me lembra o doge de Veneza, Enrico Dandolo. Com 95 anos, comandou a Quarta Cruzada, em 1202. Eram 20 mil homens  e quase 500 navios sob as  ordens de um ancião quase cego.”

-“Quantos anos?” – pediram para repetir.

-“No-ven-ta-e-seis- a-nos.” – escandiu bem as sílabas. E continuou:

-“Derrotou o exército bizantino e tomou Constantinopla. E temos de saber que Enrico Dandolo se tornou doge com 85 anos.”

-“E há gente que quer se aposentar com pouco mais de 50 anos...” – lastimou o assessor sabujo.

-“Psiu! O nosso presidente se aposentou com 42.” – soprou-lhe no ouvido o  chefe da Segurança.

-“É verdade que Enrico Dandolo cometeu muitas maldades na sua longa existência?” 

Aproveitando a oportunidade, o assessor de jornal na mão, que conhecia algum emaranhado de história geral,  tirou uma dúvida com o assessor do livro:

-“Não foi Dandolo o idealizador da chamada Cruzada das Crianças, quando milhares de rapazes e raparigas se dirigiram para Alexandria e lá foram vendidos como escravos?”

-“Não; isso foi em 1212, e Dandolo teria 106 anos, se vivo fosse. Além disso, a Cruzada das Crianças, em nome do papa, embarcou em Marselha, não em Veneza.”

Lula, até então calado, manifestou-se:

-“Eu não quero intervir porque o meu forte é a biografia de Napoleão Bonaparte. Suas viagens à China...”

-“Vamos falar de coisas atuais.” – repreendeu o assessor sabujo os outros dois colegas.

-“Os sem-terra daqui a pouco...” – parou no meio o chefe de Segurança, primeiramente porque o seu discurso não era articulado, e também porque julgou que essa parada brusca comunicava melhor a intensidade do problema dos sem-terras.

Lula estendeu de novo o braço para examinar a tremedeira dos quatro dedos daquela mão.

-“Os sem-terra...” – tentou o chefe de Segurança prosseguir.

O assessor do livro assenhoreou-se, então, da palavra:

-“Todo o problema começou com a Lei de Terras de 1850. Como nesse mesmo ano de 1850 a Lei Euzébio de Queirós proibia o tráfico dos navios negreiros, os proprietários de terra se prepararam para a inevitável abolição futura da escravidão. Assim, os saquaremas, membros do Partido Conservador, trataram de aprovar a Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, a Lei de Terras, que deixava bem claro, e bem separados,  os proprietários das terras daqueles que trabalharam nelas. Com a Lei de Terras, só se tornava proprietário de terras quem as comprasse.  Os imigrantes europeus tinham também de encontrar dificuldades à propriedade da terra no Brasil. Como diziam os saquaremas “a luta pela terra é um germe fecundíssimo de desordens e de crimes.”

-“Esse problema dos sem-terra tem mais de 150 anos.” – suspirou o assessor sabujo.

-“Enquanto, no Brasil,  os lafundiários cercavam os seus domínios, nos Estados Unidos do presidente Lincoln, doze anos depois, 1862, era aprovada o “Homestead Act”: os colonos que chegavam no oeste bravio e trabalhavam na terra tornavam-se seus proprietários. O filme “Os brutos também amam” retrata magnificamente essa   época.” – assinalou o assessor com o livro. 

-“Esse discurso todo me deu vontade enorme de jogar bola.” – ergue-se Lula da poltrona.

-“O Palocci já retirou o gesso.” – informou o chefe da Segurança.

-“Vai jogar no seu time, não no meu.” – garantiu o presidente da República.








quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

3150 - Saindo Mesmo




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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1862                          Data: 25 de Junho de 2003 

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A FREIRA NA ANTAQ



-“Será que a freira veio rezar pela sorte da ANTA?” – houve quem dissesse.


-“Como uma freira aparece na Agência..?” – indagam alguns assinantes do Biscoito Molhado, bizarrice essa que só ocorre nos filmes de Fellini, como a freira anã do “Amarcord”.


Apareceu,  porque não liberaram a carga da religiosa. Fosse cocaína e não haveria nenhum problema: a carga passaria, e os consumidores fungariam na paz do Senhor. Mas a carga da freira era remédio para caridade. Ora, nossos burocratas quando souberam de tal petulância, retiveram a carga no porto, e falaram grosso:


-“Documentos e mais documentos na mesa.”


A  freira não se atemorizou e, com o crucifixo em punho, exigiu a presença do manda-chuva. Como este se achava, ou se perdia, em Brasília, ela foi mais além, falou com quem manda no manda-chuva.  Assim, nós terminamos a última edição do Biscoito Molhado, assinalando que a Digníssima Amantíssima não confessara os seus pecados.


Enquanto isso, Dieckmann ainda arrumava as malas. Chegou às oito e meia da manhã, e já encontrou o seu computador desativado.


-“Isso é o que se chama de eficiência.” – comentou, sem perder a esportiva.


-“Isso é o que se chama de ódio.” – diríamos mais preocupados com a palavra justa do que com o “aplomb”.


Pouco depois, o Ronaldinho da Informática ativava o seu computador e o Dieckmann pode, assim,  copiar para  disquetes os arquivos do seu interesse e algumas das suas correspondências eletrônicas. Tudo com muita pressa, temendo o risco de tirarem de vez o seu computador do ar.


-“Daqui a pouco vão salgar a sua sala para não nascer mais nada.” – imaginamos.  


-“E a exoneração?... Quando será publicada?” – indagaram.


-“Isso demora.” – respondeu  ele, que soubera da sua saída pelo telefone no dia anterior às cinco horas da tarde.


-“Isso é o que se chama de eficiência.” – repetiria, sem nunca perder a esportiva, ao saber, horas depois, que a sua exoneração já estava no Diário Oficial. 


No meio da arrumação, especulou-se sobre  nomes cotados para ocupar o seu cargo de gerente. 


-“Se não houver injunção política do PT, Luís Exílio...”


Houve muitos arrepios ao som desse nome, mas, inegavelmente, ele tem todo o perfil  dos que hoje dão as cartas na Agência. Se não, vejamos retrocedendo na história: a Super, quando era Sub e vendia jóias... Quantas colegas suas hoje não ostentam pulseiras vendidas pela Super, quando ela era pobre!... Fujo do assunto.  A Super, quando era Sub, e trabalhava na Seção de Estatística, como funcionária da Ana Luiza, nada saiu desse setor em termos de estatística para o anuário da marinha mercante. 


Quando o Djalma criou um programa com computadores para reiniciar o que fora interrompido por quatro anos – o denominado “Buraco do Collor nos Anuários da SUNAMAM” – 2° semestre de 1993 - ela já se encontrava na Divisão de Acordos, como funcionária do Mílton Barello. Diria ela mais tarde que até o seu filho de dez anos realizaria  o trabalho da Estatística.  A sua intenção óbvia era de se desfazer dos bits e bytes do Djalma. Ela foi tomada pela soberba dos ignorantes e, como o seu tiro no Djalma resvalou em nós, o Biscoito Molhado lhe desceu o pau (a Aloísia, no caso, agiu como leva-e-traz – “olha o que saiu sobre você no Biscoito...”.


Um pouco antes disso, o antecessor do Dieckmann como coordenador,  Paulo Octávio, argumentando que pretendia “oxigenar o órgão”, trocou as chefias: Djalma foi mandar onde o Luís Exílio mandava e este, por sua vez, foi mandar onde o Djalma mandava. Com isso, a Seção de Estatística, com toda a sua programação computadorizada, passava para o Luís Exílio. Este, no seu discurso de apresentação, olhou com cara de nojo para os meninos do Djalma (Djalma assim chamava os computadores da digitação de manifestos de carga), e disse:


-“Não conheço isso e nem quero conhecer.”


Era a mesma soberba dos ignorantes.


Visto isso, nesse deserto de idéias e talentos do comando desta nossa agência, ele é um nome a ser considerado para o lugar do Dieckmann.   


Haja freiras para rezar por nós!















segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

3149 - Saindo

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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1862                          Data: 25 de Junho de 2003 

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O DIA DE ONTEM


No dia 20 de abril de 1998, foi enterrado o Sérgio Mota e, no dia seguinte, morreu o Luís Eduardo Magalhães. Os humoristas dos jornais – recordo-me bem – queixaram-se aos céus:

- “Assim, não podemos trabalhar!...”

É mais ou menos isso o que ocorre por aqui, na ANTA. Pedem humor no Biscoito Molhado – “de séria já basta a vida, etc”  – mas como?... Abri o meu correio eletrônico às sete e meia da manhã e me deparei com a despedida do Dieckmann da ANTA. Sem nenhum Simão Cirineu para me ajudar a carregar a cruz dessa notícia, telefonei para o Rio Grande do Sul. Quando atenderam, estranhei, pois esperava  ouvir a Alba:

-“A Alba, por gentileza.”

Uma voz que ainda se espreguiçava, respondeu:

-“É ela.”

Percebi, então, que a Alba saindo dos braços de Morfeu é outra mulher, principalmente com outra voz. Dada a notícia, ela me perguntou se o Dieckmann não caiu pra cima. Que nada! A turma aqui, quando derruba, amarra antes um pedregulho de toneladas no nosso pescoço. Volto, então, ao sentido da nossa pergunta: como fazer humor assim? Digamos que o redator-chefe do Biscoito Molhado descarte de vez a hilariedade e descreva a ANTA como ela é. Caso eu assim proceda, dirão que plagio o poeta Dante no Canto XXIX da sua obra-prima, onde descreve a décima vala do oitavo círculo do Inferno.  Ah, sim: quem se acha na décima vala do oitavo círculo do Inferno? Os falsários. Vamos, então, de qualquer maneira.  

-“Cheiro de churrasco já?...”

E pensar que já as oito horas da manhã dos últimos dias nos queixávamos dos camelôs que colocavam os churrascos na brasa. O cheiro – agora sabemos – era da fritura do Dieckmann. Ontem, na sua sala, recolhendo os seus pertences em três malas e um baby-container, comentava:

-“Eu não ia mais a Brasília... Havia assuntos importantíssimos subordinados à minha gerência, em Brasília, e eu não era escalado para viajar.”

-“Mas o cheiro de fritura prossegue.” – farejamos.

-“Prossegue, mas não é mais para mim.” – declarou.

E, assim, se encontrava ele, na sua sala que, à primeira vista, nos pareceu uma barricada, tantas eram os seus colegas. Para distraí-lo, contei o que me acontecera às sete horas da manhã, e que não deixou de ser um mau presságio: o trinco do banheiro, que estava quebrado, trancou a  porta e me prendeu. Para eu escapar, tive de tirar os sapatos, apoiar o pé na privada, e escalar o espaço de uns setenta centímetros que uma divisória deixa até o teto.

-“Rapaz, e não saiu com merda no femural, não?” – indagou o Dieckmann.

-“Não.” – garanti.

Porém, Dieckmann que, como eu, pretende sair por cima, escalando a cabeça daqueles que o derrubaram, não escapará da merda no femural.

-“Qual o motivo da saída, Dieckmann?...”

Bem, o motivo era o fato de o Dieckmann, desde que apareceu no Departamento de Marinha Mercante, ser alegre, comunicativo,  aglutinador, animador cultural e – pecado mortal – conhecer o serviço. A pergunta mais pertinente seria: 

-“Qual foi o pezinho para decapitá-lo de vez, Dieckmann?”

Ele acredita  que foram os seus apartes, numa palestra da Shell, com a presença da alta cópula da ANTA, contra as empresas de papel. Nem cheguei, naquele momento, a imaginar uma manchete para o Biscoito Molhado como: DIECKMANN ENFRENTA O POLVO ANGLO-HOLANDÊS, E CAI.  Mais tarde, no almoço no Jirau, onde estivemos eu, ele, Alberto, Djalma, Cláudia, Lourdinha e Vera, um telefonema ao doutor Barreiros apontava para uma outra versão para a sua  queda:

-“Críticas à diretoria.”

-“Como, doutor Marreiros?”

-“Críticas à diretoria.”

Dieckmann era, agora, a Heloísa Helena da ANTA. Outra versão - o que explica a expressão alta cópula – é que cada demissão representa um orgasmo. Se o Djalma, o Dieckmann, o Alberto e a Cláudia, por exemplo, fossem demitidos numa só canetada, teríamos um orgasmo múltiplo na alta cópula.

Para espairecer um pouco no almoço, falamos sobre algumas autoridades marítimas... Minha Nossa Senhora dos Navegantes!... O problema do Mílton Barella é o cerceamento: lê uma frase, e fica inteiramente atado a ela, não criando nada, absolutamente. Quanto à Belinha, lê a frase, esquece, lê a frase de novo e esquece de novo. Passa, então, a tomar remédio para a memória, e esquece de tomar o remédio para a memória. Quanta a Aloísia... “Que frase?... Está na hora da minha ginástica!”

No final do expediente de ontem, cruzei com a Digníssima Amantíssima acompanhada de uma freira, que se vestia como tal. Juro que é verdade.  Reparei, então, nas orelhas da religiosa: como não estavam com o tamanho das orelhas do Dumbo, deduzi que  a D.A. não fizera a sua confissão.


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

3148 - Restaurantes do Tempo Perdido

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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1856                          Data: 16 de Junho de 2003 

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O FIM DO BAREBOAT


O espírito não se abre logo ao entendimento, quando o fato é marcante. Uma sabedoria instintiva prepara, como no teatro, os artistas e o cenário antes que a boca de cena abra, e se dê o espetáculo.  O  saber popular recorreu a uma metáfora telefônica, mais diretamente ligada aos orelhões, e cunhou a expressão “cair a ficha”. Na terça-feira passada, quando o Vergasta me garantiu que a minha pretensão de almoçar no Bareboat não se realizaria, porque o mesmo acabara, a “ficha não caiu”. De volta à ANTAQ, comentei com um e outro colega o fim do restaurante do Zé Luiz, e retornei à minha faina de separar por estados os portos, barrancos e terminais do Brasil, cadastrados no sistema Mercante.

Dois dias depois, assistindo a um canal de TV a cabo e ouvindo nas cordas de uma orquestra as plangentes notas do tango “Por una cabeza”, caía finalmente a ficha. Ou, saindo do popular para a esfera mais erudita, ecos proustianos, através da memória afetiva, me fizeram ver e sentir o espetáculo que foi vivido no Bareboat.  Em uma das centenas de vezes em que lá almocei, tocou “Por una cabeza”, pois uma das características da casa era a música ambiente. Antes de sair, comentei com o Zé Luiz:

-“É um tango do Carlos Gardel. E ele era adepto do turfe; como perdera a amada por uma besteira, lamenta a perda recorrendo à imagem de um cavalo em que apostara e que deixou de ganhar por uma cabeça.”

-“Eu também adoro tango, Carlos. Cheguei a estudar para cantor de óperas.”

Daí, a nossa conversa seguiu pelo passionalismo dos tangos e óperas, da predileção que Gardel nutria por Caruso, até terminar num freguês que se apresentava para pagar a conta.

Em decorrência do modo tão poético com que o meu espírito se abrira ao entendimento sobre o fim do Bareboat, naquela noite de quinta-feira, o meu primeiro impulso foi escrever um poema “Elegia a um resataurante”. Músico não sou, senão eu correria para um piano, e comporia “Pavana para um restaurante defunto”, com a pretensão que ela fosse tão melodiosa quanto a “Pavana para uma princesa morta” de Ravel, que até no enterro do presidente Tancredo Neves foi tocada (se tocassem a minha “Pavana para um restaurante defunto” apenas no enterro do Fernando Collor, eu já me daria por satisfeito). Descartado esse meu delírio musical, cuidei da elegia. Necessitaria, para isso, de rimas. Rimaria Zé Luiz com o quê?... “Chegou no Bareboat e comeu o que quis?...” E o Nil?... Com o quê eu rimaria o nome do mestre-cuca premiado da Bahia, o dengoso Nil?... “Cozinhava para mais de mil?...” Não; nada de composições poéticas consagradas ao luto e à tristeza. Lembraremos o restaurante Bareboat numa crônica hoje, outra amanhã; servindo os leitores como os garçons servem os comensais: um prato de cada vez, apesar de a característica do nosso restaurante extinto ser o “self service”.

Nessa retrospectiva gustativa, em primeiro lugar, ou como entrada, por que Bareboat, que diz respeito ao afretamento a casco nu? Porque era um restaurante performático. José Luiz, que pertencera à Aliança e a representava na Conferência Brasil/Europa/Brasil, não quis desatar de vez a sua ligação com a navegação, mesmo caindo para 3% a participação da bandeira brasileira no nosso comércio com as outras nações. Por ele, no restaurante, entraríamos pelo portaló e almoçaríamos no camarote do armador.

Há muito o que lembrar do Bareboat, apesar da sua passagem meteórica (pouco mais de dois anos). Houve, por exemplo, o garçom que sumiu no carnaval de 2002 e obrigou o Zé Luiz, com a família do dito cujo, que viera do Espírito Santos, a procurá-lo até no necrotério. Dias depois, o Zé Luiz saberia que o sujeito levara alguns cheques seus. Era um meliante. Substitui-o o Paulo. Paulo era o garçom que mais me perguntava pela “dona Glória”, apesar de ela o considerar amaneirado em demasia, com ou sem bandeja na mão. Outro que me abordava com perguntas era o Nil; a este preocupava mais o destino do estômago da Amelinha na hora do almoço:

-“Cadê a Amelinha, Carlos?”

Evidentemente, que não eram só as duas que mexiam com esses dois funcionários da Casa. Paulo também me perguntava sobe “aquela moça que às vezes vem almoçar com o senhor”...

-“A Lourdinha?...”

-“Isso mesmo. A dona Lourdinha não vem?”

Em poucos dias, já decorara o seu nome:

-“A dona Lourdinha não vem, seu Carlos?”

Quanto ao Nil, com uma memória mais cultivada, ao ver-me (esse era o problema de eu chegar cedo para almoçar), desfiava quase toda a lotação feminina da ANTAQ:

-“Cadê Amelinha?... Inês?... Nanci?... Cláudia?... Lourdinha?... Glorinha?... “

Glorinha... Com a sua afetuosidade baiana, chegara aonde o Paulo não ousara: Glorinha. Percebo agora que foi, no Bareboat, os últimos dias em que se podia almoçar com a Glória sem a desagradável presença da mosca que voeja ao seu redor. Continuasse o Bareboat vivo e hoje as perguntas seriam outras:

-“Cadê a Glorinha ?”

-“Está no banheiro.”

-“E a mosca que voeja ao seu redor?” 

-“Está lhe passando o papel.”




sábado, 18 de novembro de 2023

3147 - Trotes e Raparigas


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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1855                          Data: 13 de Junho de 2003 

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TROTE NA SUNAMAM


Alguma coisa até que acontece por aqui. Temos, por exemplo, desde que o Talma deixou de ser o gerente da Fiscalização,  um “reality show”, onde todos os ocupantes dos espaços apartados por vidro tornaram-se uma platéia compulsória.  E o espetáculo não cai no agrado do público; talvez porque os apreciadores desses espetáculos prefiram casais mais perfumados pela flor da idade; embora intelectualmente insuficientes, como Sabrina e Dhomini,  como outros  casais de TV dos quinze minutos de sucesso do Andy Warhol, que, por já transcorrerem  esse espaço de tempo, eu já esqueci os seus nomes. Talvez esse descontentamento da platéia seja pela falta de um animador como Pedro Biau, para incentivar a dupla de artistas.  A platéia compulsória reage... ou melhor, não reage:  são muitos os bocejos e o tédio é interminável, como observa a reportagem do Biscoito Molhado nas suas idas ao banheiro.

Mas alguma coisa acontece, como afirmamos acima;  não com a mesma intensidade do Departamento de Marinha Mercante que, ao que parece, agora é Departamento do Fundo da Marinha Mercante. Explica-se:  o DMM é inflamado pelo calor tropical, ainda mais inflamado  com o “Fundo” que ganhou no nome, enquanto na ANTAQ, somos desanimados pelo frio glacial. Nessa terça-feira, por exemplo, quando atravessamos a geografia e a avenida Presidente Vargas, e lá estivemos, deparamo-nos com o Adelino que, beijocando as moças e apertando as mãos dos homens, como se esses fossem portadores da pneumonia asiática,  declarava:

-“De homem quero distância. Quanto às mulheres, podem subir sobre mim, me montar, fazer o que desejarem...”

Pretende o Adelino colar dois adesivos no corpo: um no tórax e outro nas costas com os mesmos dizeres: “Mantenha a distância, se você for homem”. A diferença é que as letras do adesivo nas costas serão garrafais. Não sei se enxergarão...

Poucas horas depois, quando já nos achávamos  na ANTAQ, Dieckmann que desancava os anões de jardins (para ele um gosto kitch dos novos ricos da Barra da Tijuca)  ao saber da aversão do Adelino, garantiu que o seu problema com os anões de jardins nada tem de pessoal com o ex-diretor do DMM.

Falando no Dieckmann, ele viera, nessa oportunidade, à Seção de Estatística, para pegar gazeteiros na sala de relax Cíntia Martins e, ao perceber que a Cíntia se molhara, quis saber o porquê.

Nós, que antes da chegada do nosso amigo, já ouvíramos a reclamação dela, porque o frasco com o corretivo à base d'água esparramara-se sobre ela, examinamos a reação do Dieckmann com a  resposta da Cíntia.     

-“Tomei um banho de corretivo.” 

-“Ninguém,  Cíntia, pode dizer, agora,  que você não é uma mulher correta.”

Ali estava o mesmo Dieckmann que, nas aulas do curso da Fundação Getúlio Vargas, ora agia como um jogador de vôlei (se a bola subia, ele cortava), ora agia como um jogador de futebol (se a bola quicava, ele chutava), ora agia como um jogador de basquete (se a bola vinha no rebote, ele encestava). Nunca, porém, Dieckmann agia como um jogador de beisebol – se arremessam a bola, mete-se o porrete. Nada de piadas grosseiras, nada de mau gosto, nada de anões de jardim. Dieckmann é gentil, embora confesse que, às vezes, controla a vontade de calçar os borzeguins do seu tempo de Colégio Militar, que dona Jurema o obrigava a lustrar diariamente, e chutar algumas bundas e bundões. 

-“Mulher correta...” – falou o Dieckmann, nesse meio de tanta incorreção.  Recordo-me de uma mulher que estava correta, apesar da sua atividade para ganhar dinheiro. Não!... A sua atividade para ganhar dinheiro era menos sutil. Tratava-se de uma profissional do sexo que apareceu na SUNAMAM no tempo da avenida Rio Branco 115.

-“Lá vai o redator-chefe do Biscoito Molhado descambar  outra vez pelo passado.” – reclamará um e outro assinantes, já prevejo.

Fazer o quê? Pouca coisa acontece por aqui; o máximo que pode sair do nosso “reality show” talvez sejam uns ensaios de nus para a revista Portos e Navios ou Fairplay. Voltemos, então, no tempo. Todos devem reconhecer que tento ser mais historiador do que passadista.

O diabo é que solicitaram os serviços da profissional do sexo dando o telefone da Ana Luiza.      

-“Nunca um funcionário meu faria  uma molecagem dessa.” – insurgiu-se a Ana Luiza.

Era um trote, sem dúvida. A moça, a princípio, ficou  emburrada, mas  depois  reagiu com preocupação, pois teria de se apresentar ao seu patrão sem a  parte dele do michê. Ana Luiza, menos nervosa, explicou ao cafetão, no telefone, a situação deplorável da sua funcionária. Ele teria que compreender.  Em seguida, neurastênica de novo, pois correra a notícia que o boy Zé Grandão da diretoria de Cabotagem fora o autor do trote, Ana Luiza rumou para a sala do doutor Pacheco:

-“Ela, com  uns óculos enormes, estava mais assustadora do que nunca.” – lembra-se ainda hoje o Lampier do arrepio que lhe percorreu a espinha com a súbita aparição da chefe do Bureau de Fretes no lugar onde trabalhava.

-“O comandante Pacheco tinha verdadeiro horror à voz da Ana Luiza.” – diz ainda hoje a Regina, também funcionária do comandante.

Lá, na Diretoria de Cabotagem, Ana Luiza queixou-se mais da  canalhice que foi darem o número do telefone da sua sala para uma chamada dessas, do que da covardia que fizeram com a moça.

De volta ao Bureau de Fretes, esculhambava agora o comandante Pacheco, porque sempre passou a mão pela cabeça desse “compridão ordinário” (o Zé Grandão).

-“Funcionário meu não faz isso!” – berrou com toda a estridência da sua voz.

Nesse tempo, ainda não haviam aparecido o Nilo e o Volto Já na SUNAMAM, mas já trabalhava o Marcos. Ele, funcionário da Cabotagem, sem histerias e correrias, e com seu profundo conhecimento da natureza humana, tirou do bolso o provento da profissional (ela ganhava por hora),  entregou-lhe e o caso foi resolvido. Isto é correção de rumo.