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terça-feira, 7 de novembro de 2023

3146 - Traduções



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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1815                          Data: 15 de Abril de 2003

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 TRADUZINDO E TRAINDO




“Tradutor, traidor” – reclamam os críticos das traduções, traduzindo a célebre máxima italiana “tradutore, traditore”.

O acadêmco Raimundo Magalhães Júnior – nome hoje lembrado porque era o pai da carnavalesca Rosa Magalhães – traduziu a peça de Tennessee Wiliams, Cat on a hot tin roof, como Gata em teto de zinco quente. Millor Fernandes não perdeu tempo ao saber dessa tradução,  representou numa charge uma gata (ou seria um gato?) de cabeça para baixo, andando sobre um teto, desafiando a lei da gravidade. Teto esse que nem quente era, pelo  menos na charge. Passaram trinta anos, e quando a peça é encenada no Brasil, permanece o título:   Gata em teto de zinco quente. Se ainda fosse uma peça surrealista...

Outro erro de tradução – esse mais escondido dentro da obra – ocorreu num livro sobre guerra vertido do inglês para o português. O editor do mesmo, ao ler os originais, intrigou-se com os encontros que Hitler mantinha com um tal de General Staff; em certo momento, mandou chamar o tradutor, o famoso escritor Marques Rabelo.

-“Você não sabe que General Staff é Estado-Maior?”

-“Eu nem sei inglês.”- respondeu Marques Rabelo.

Há, contudo, as traduções praticamente impossíveis. Dia desses, pelo telefone, Léozinho enveredou pela infância de Napoleão Bonaparte:

-“Ele era chamado pelos seus colegas de escola de Napadonez.”

Como traduzir esse trocadilho para a nossa língua sem perder o nariz (nez, em francês)? Impossível.

O próprio Léozinho, agora no restaurante Tarantino, tratou das traduções indiretas; obras redigidas em alemão, por exemplo, e que conhecemos em português através de traduções do francês.

-“O Feliciano de Castilho fez uma boa tradução do Fausto de Goethe, mas do francês.”

Sem nada falar, para não interromper o Léozinho, lembramos que essa obra máxima da literatura alemã inspirou algumas óperas, entre elas a Danação de Fausto de Berlioz. A Canção do Rato, recitada por Mefistófoles, que comprara a alma de Fausto, ganhou na ópera de Berlioz um formidável acompanhamento orquestral;  não fez, porem, sucesso, o que levou o compositor Rossini a comentar:

-“A Canção do Rato não fez sucesso porque não havia um só gato pingado na platéia.”

Bem, prossigamos com a peroração do Léozinho sobre as traduções, naquele nosso erudito almoço no Tarantino:

-“A tradução, Carlinhos, tem de ser também uma obra de arte, e não uma simples mudança de um idioma para o outro. Veja as obras de Dostoievsky: sempre nos chegaram através de traduções indiretas,  principalmente do francês. Agora, há um tradutor que tem familaridade com a cultura, a língua e a literatura russa, e que nos indica muitas contrafações que houve ao passarem as obras de Dostoievsky para o português.”

Sem tomar fôlego, prosseguiu:

-“O conto do Dostoievsky, Noites Brancas, por exemplo; trata-se do branco que se vai tornando mais transparente no fenômeno típico de São Petersburgo entre 21 de junho e 1° de julho.”

Outra questão que o Léozinho chamou a atenção, baseado nesse profundo conhecedor da língua russa e de Dostoievsky, é a relação muita profunda entre o estado de espírito das personagens e a sua linguagem. Esse ponto é interessante, como os assinantes do Biscoito Molhado poderão constatar, e até mesmo identificar exemplos próximos, como veremos:

“...Mas, na medida em que as personagens vão entrando em conflito com seu universo social e consigo mesmos, a linguagem fica mais complexa. Há momentos em que a personagem se torna quase que incompreensível...”

Não parece o Sílvio Carello?... Só falta mesmo o farol de milha... Alguém, talvez, resmungue:

-“Sílvio, um personagem de Dostoievsky?!...”

Ora, o autor russo foi o primeiro grande escritor a trazer o povo miserável para o primeiro plano, para o proscênio da literatura, e o Sílvio Carello, mesmo hoje, não apaga da nossa memória a sua choradeira pelo seu escasso salário no passado recente.

Como o assunto é vasto, e mais vasta ainda é a erudição do Léozinho, não tivemos tempo, na nossa conversa, de tratar das traduções faladas, ou seja, das dublagens. Como sempre encontramos lugar no Biscoito Molhado para qualquer assunto perdido, aí vai um trecho, ou melhor, uma frase de um dublador do Robert Mitchum, num filme que assistíamos na TVA.

-“Me dá um chopis.”

Mudei de canal sem esperar que ele pedisse dois pastel.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

3145D - Queima de arquivo

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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1                           Data: 06 de Outubro de 1948

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 O MIMEÓGRAFO


Existem máquinas que adquirem o nome de seu mais importante usuário. Assim, o telescópio mais famoso é o de Hubble (Edwin Hubble, astrônomo que descobriu a existência de galáxias fora da Via Láctea) e, outro exemplo, chama-se um acelerômetro por Hobbes (Thomas Hobbes, autor de obras que abrangem conceitos de política, física e matemática. Escreveu Leviatã, um tratado político que lhe valeu algumas perseguições e muitos discípulos...), a lâmina de barbear é gilete (King Camp Gillette) e aí, descendo muito, descendo bem, a ladeira dos chiques e famosos, chegamos ao Mimeógrafo de Dieckmann. 

Contou-me este nosso amigo que em 1971, sua então namorada Maira estudava na Santa Úrsula e fazia parte de... não, não prosseguirei como contador de história de terceiros. Muito melhor fazer bom uso de aspas e itálico, e passar para o papel as impressões em sua verdadeira grandeza, ainda que inclinadas:

"Em 1971, a Maira estudava na Santa Úrsula e fazia parte de um diretório que publicava apostilas. O ano letivo começava e, como as apostilas não estavam prontas, ela pegou o mimeógrafo da escola para imprimir no fim de semana. Ajudei como pude, o serviço terminou, mas o mimeógrafo ficou na casa dela; talvez tenha ficado duas, três semanas, algo assim e eu olhando aquela impressora do século passado e ela olhando pra mim."

Interrompo a narrativa para instigar o leitor, nunca dê tempo para o Dieckmann pensar no que falar, ou no que fazer. É certeza de que uma maquinação, às vezes diabólica, às vezes divertida, jamais melancólica, mas também jamais santificável, está por vir. Prossigamos com ele.

"Eu começava o 4º ano de engenharia naval, os "bichos" estavam de chegada no 3º ano, pensei que uma boa orientação profissional seria cabível e necessária para aqueles jovens alunos. E eu olhando o mimeógrafo e ele olhando pra mim... bem que podia fazer uma apostila para os nossos calouros.

Quem já usou mimeógrafo sabe que antes de imprimir, você precisa datilografar no estêncil (que é uma espécie de carbono) o texto desejado, em 3, 4... 10 folhas e depois, sim, rodar o mimeógrafo para obter as cópias de cada folha. Avaliei a tarefa e encerrei a questão, mas não desisti dos calouros. Em vez de uma apostila desencaminhadora, por que não uma palestra? Uma palestra falsa, um trote, uma enganação... e apenas um estêncil seria necessário. E apenas umas dez cópias, que seriam  coladas nas pilastras do Fundão."

É assim que as ideias se formam na cabeça do nosso amigo, vão devagar e são simplificadas em processo contínuo, sempre na direção da Lei do Menor Esforço. Vi acontecer nas vésperas do nosso primeiro Natal, no último ano do século XX, no amigável Departamento de Marinha Mercante. Eu estava na sala dele, quando a Inesinha perguntou seu endereço de casa; ele deu, mas perguntou o motivo. "Ah, os armadores estão pedindo para mandar algum brinde, normalmente cestas de Natal, como é praxe, todo ano".

Aí ele pediu para ela não repassar o endereço e uns cinco minutos depois, completamente desatento do assunto que discutíamos, Dieckmann ordenou suas prioridades e disse para Inesinha avisar os armadores para mandarem o que desejassem para o nosso endereço de trabalho. Um escândalo! Um olho arregalado fez parte das nossas caras, da minha, da Inesinha, do DJ e até do Dudu, do lado de fora da sala, para o escândalo que se avizinhava!

Largo o mimeógrafo pra lá e vou terminar a história do escândalo, ou choverão cartas de repúdio, ou pior, de cancelamento de assinaturas em nossa redação, por tentativa de interrupção no melhor ponto; portanto, nada disso, a cena volta ao DMM e começaram a chegar as cestas, do Lidador, da Casa Colombo, era só o que havia de melhor.

Foram todas para a sala de reuniões, onde havia uma mesa imperial, forte e larga (adjetivos cabíveis no nosso Coordenador) o suficiente para acomodar aquele novo empreendimento comercial; dois dias antes do Natal, nosso chefe magnânimo chamou os chefes de divisão e disse: "peçam aos colegas que tragam bolsas amanhã, farei uma fila de todos os servidores e cada um pegará o que desejar, uma coisa em cada mão e retornarão ao final da fila, até que acabem todos os presentes - e, como dei a ideia, eu serei o primeiro da fila e já vou avisando, pegarei a melhor champanhe!" Em vez de escândalo, foi um sucesso do Espírito de Natal, mas voltemos ao mimeógrafo...

"Palestra... tema Engenharia Naval, e mais o quê..? perspectivas, certamente, uma noção de futuro, mas que tal adicionar um pouco de solidez..? E assim, aos solavancos, nasceu ENGENHARIA NAVAL - PERSPECTIVAS E BASES - A PALESTRA. Junte-se a isso, um palestrante, ora, nosso colega Bento Moreira da Silva era quase homônimo do Almirante Paulo Moreira da Silva, um cientista exponencial e renomado, com seu Projeto Cabo Frio, uma iniciativa notável no campo da Oceanografia.

Mas ainda sobrava espaço no estêncil e decidi incluir uma visitação a um estaleiro de verdade, mas não um estaleiro qualquer, aqui da Baía da Guanabara. O escolhido só poderia ser o Verolme, por sua localização paradisíaca em Angra dos Reis e, a época só podia ser a Semana Santa, em abril próximo, com vagas limitadas, claro... Outro colega, o Christian Hoyer, tinha um nome que abalizava qualquer excursão a ser patrocinada por alienígenas, mesmo que fosse falsa."

Tenho que interromper de novo, porque o Paulo Moreira da Silva merece muito mais destaque nesta história do que essa palestra esvoaçante. Um pouco antes do Projeto Cabo Frio e após a Guerra da Lagosta, quando os franceses argumentavam que podiam pescar lagosta aqui porque ela é peixe e os brasileiros reagiam, dizendo que ela vive entocada na plataforma continental, o nosso almirante fechou a questão... "se a lagosta é um peixe, porque se desloca dando saltos, então o canguru deveria ser considerado uma ave” e foi o bastante para a França tirar o time de campo. Volta a palestra:

"Estêncil pronto, rodamos dez cópias e executamos, eu e o Joel, o planejamento da divulgação. No dia estipulado, a 'palestra' se daria às 13:00 e nós teríamos aula às 13:30 no mesmo local, um anfiteatro com uns cem lugares. Eu e Joel morávamos em Santa Teresa e viajávamos para o Fundão de jipe e, nesse dia, achamos que, em respeito ao programado, deveríamos chegar a tempo da 'nossa' palestra, talvez uns dez minutos antes. Chegamos e já encontramos o anfiteatro lotado. Duas filas de cadeiras, de praxe, as primeiras, estavam semi vazias, com alguns professores sentados, conversando animadamente. Nós ficamos no final, na escada traseira, apenas olhando, pois era certo de que aquilo não acabaria bem."

Como não lembrar da Maira, em um de nossos almoços, contando a história do envenenamento, que é um exemplo bem acabado de um episódio, onde o pivô é o nosso amigo? Conto rápido para não cortar mais uma vez o arrepio do leitor, mas o nosso Dieckmann tinha em casa um sabão desengraxante, vindo de uma firma sua, a CONGERAL, de Macaé. A empresa foi desfeita e ele herdou aquele sabão, que acomodou em muitas caixinhas de leite longa vida. Muito bem, seus filhos menores, liderados pela Carolina, então considerada no colégio uma "líder negativa", provaram o tal sabão, que provocou uma espuma. Apavorada, a Maira catou a criançada e os levou para a Urgil; passado um exame e o susto, ela retornava para casa, quando irrompeu uma choradeira no banco traseiro. Estupefata, ela ouviu que "papai vai matar quem sobreviver..." Dito isso, ela respondeu que deixassem isso com ela, suspirou e tudo acabou bem. Volta o suspense.

"Treze horas e ...nada, mais quinze minutos, a sala superlotada e aparece o seu Lima, para apagar o quadro negro, conforme sua rotina. Viu o movimento, mas seguiu no seu trabalho. Então, um dos professores foi até ele saber da programação. Ato contínuo, foram bater na Coordenação do Curso de Engenharia Naval. Neste momento, eu e o Joel saímos da cena.

Todos surpresos, foram achar em uma pilastra a mimeografada conclamação. Nós éramos poucos, o coordenador Selasco e seu imediato, o Benzecry, conheciam o nome de cada aluno; leram a folha e, instantaneamente, perceberam o trote. Como isso se deu, eu não sei, mas antes da aula começar, o Selasco apareceu no anfiteatro e pediu desculpas a todos, e disse que a palestra era um trote. A turba saiu frustrada, bufante e reclamante, mas aqueles alunos tinham aprendido algo para o resto de suas vidas.

Sai a turba e, como numa peça de Shakespeare, entra o Professor Boleckis, nosso futuro paraninfo, para dar sua aula; com dez minutos, mais personagens, o Selasco reaparece, com um Benzecry em segundo plano, mal se aguentando de tanto rir. Selasco dá uma bronca geral, que ele não entendia o que passava na cabeça do 4º ano, embora ressaltando que a última turma do 4º ano incendiara as cortinas, o que revelou pouca criatividade e muito vandalismo.  Em outras palavras, muito barulho por nada.

Apesar dessa compreensão toda, soubemos 40 anos depois, que o Selasco queria expulsar, senão todos, pelo menos os alunos mencionados. Ao que o Reitor, sabiamente, perguntou: 'O nome dos alunos é o que está no panfleto?' Dito que sim, o Reitor encerrou o papo: 'Então não há mentira, foi na palestra quem quis, não vamos expulsar ninguém!'. 

E eu também aprendi que se deve retirar o panfleto depois do efeito." A velha e popular queima de arquivo.



sexta-feira, 13 de outubro de 2023

3144 - INSS do Bismarck (R)



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O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1827                           Data: 07 de Maio de 2003

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AINDA O DESENCAIXE ATUARIAL


Iniciemos com a frase de uma escritora inglesa com sobrenome italiano, Maria Corelli:

-“Nunca me casei porque nunca precisei. Tenho três bichinhos em casa que, juntos, perfazem um marido: um cachorro que rosna de manhã, um papagaio que fala palavrões o dia todo e um gato que volta de madrugada para casa.”

Se vou falar de déficit da Previdência, até com o eufemismo desencaixe atuarial, por que iniciei dessa maneira? Ah, sim: maridos como os da frase da Maria Corelli, foram provavelmente aqueles que levaram sofrimento à Cynthia quando, trabalhando na Delegacia do Ministério dos Transportes, teve de cortar pensões de velhinhas porque os falecidos tiveram outras companheiras e, muitas vezes, filhos em relações extraconjugais.

Criado em 1923... no Brasil, evidentemente, pois a previdência social veio com Bismarck, o chanceler prussiano que falsificou um telegrama para provocar a guerra contra a França em 1870 e que, antes, em 1866, já fizera a guerra contra a Áustria... Fujo do assunto, talvez porque o assunto guerra é mais ameno.   Criado em 1923, no Brasil, o sistema oficial de previdência andou direitinho até o Juscelino Kubitschek resolver levar a fortuna de 6 bilhões dos seus cofres para a construção de Brasília. 

-“Sua avó, que sempre recebeu certinha a pensão do pai, teve de voltar com as mãos abanando das filas, na época do Juscelino.” – lembrava-me disso meu pai quase todas as vezes que eu falava em Brasília.

-“Não, pai, eu não quero elogiar Brasília, eu quero dizer que o trabalhador brasileiro, quando exigido, corresponde. Resolve-se construir uma capital federal em três anos, e o povão constrói. O Barão de Mauá teve todas aquelas idéias e, graças aos trabalhadores daqui, elas saíram do papel, e até incomodaram o poderio dos Rothchild,”

É isso aí: os políticos brasileiros é que arrastam o país para trás. E, assim, raspou-se mais ainda os cofres da Previdência Social para a construção da ponte Rio-Niterói, Transamazônica. Transamazônica, meu Deus!... Eugênio Gudin escrevia que, ao ouvir o Mário Andreazza, parecia que via ali o Juscelino. 

Hoje, contudo, Juscelino Kubitschek está reabilitado, a ditadura militar que tanto o perseguiu, conseguiu essa proeza. Vimos agora, por ocasião da campanha eleitoral de 2002, os quatro candidatos viajarem até Brasília para as homenagens do seu centenário. Todos estavam lá: Lula, José Serra, Ciro Gomes e Garotinho. Juscelino, que Nélson Rodrigues denominara o “canalha dionisíaco”, passara a ser cabo eleitoral com o seu "formidável" governo e nenhum candidato a presidente da República deixaria de aproveitar.

Samuel Wainer, quando escreveu o seu livro de memórias, insurgiu-se contra a calúnia de corrupção que lançaram sobre o presidente Getúlio Vargas, lembrando que até de bonde os seus filhos andavam. Quanto ao Juscelino, todas as vezes que a Última Hora necessitava de recursos, lhe indicavam um empreiteiro que era conhecido como “o empreiteiro do Juscelino”. Mais um argumento que nos leva a crer que, com Brasília, além da inflação, surgia a corrupção em larga escala, aliás, uma vem conjugada à outra.

-“A história fez justiça ao Juscelino.” – bradam hoje os seus admiradores.  

Cabe, então, citar essa frase de Napoleão Bonaparte:

-“A história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo.”

Falando em Napoleão, em conversa com o Leozinho por telefone anteontem, não deixamos de comentar as confusões que o Lula comete com o imperador.

-“Carlinhos, você viu: o Lula mais uma vez falou do Napoleão na China.”

-“Pois é, Léo; já foi aquele desacerto todo a invasão de Napoleão a Moscou, já imaginou ele invadindo Pequim? ”

Leozinho riu; afinal Napoleão não iria perder tempo na China para apenas visitar as Muralhas.

-“Léozinho, o Lula não estaria confundindo Napoleão com Gengis Khan? Ele, sim, invadiu a China lá por 1215.”

-“Ou Tamerlão, Carlinhos. Este pretendia invadir a China quando morreu  com cerca de 70 anos. Dizia-se descendente de Gengis Khan, mas era filho de turcos. Teve o seu valor no segundo império mongol. Não possuiu a China e a Mongólia como Gengis Khan, mas conquistou a Síria, a Índia e a Anatólia.”

-“Tamerlão...Napoleão... Creio, Leozinho, que dá para o Lula confundir.”

O diabo é que o Lula, alimentando mais o corpo do que o espírito, não deve conhecer o Tamerlão, e sim o Requeijão.

Falamos de o Napoleão descer numa sessão espírita, reclamando dessas incongruências do presidente brasileiro e desligamos. Retornei, então, os meus pensamentos à previdência.

Numa Veja de 1988, lemos que só o Brasil paga aposentadorias milionárias. O teto no Reino Unido é 1 060,00 reais, e o da França 1 350,00. Ora, esses não são países ricos como o Brasil que ainda pode dar-se ao luxo de ter 2 contribuintes por aposentado. Mas com toda essa “riqueza” do Brasil, quem deve a previdência tem que pagar, a começar pelos bancos.

 Ufa!... Como é difícil arrancar algum humor desse assunto. Paro aqui, e vou ordenhar pedra que é uma tarefa mais aprazível.  


quarta-feira, 27 de setembro de 2023

3143D - Placa de Descanso


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O BISCOITO MOLHADO

Fundador: Carlos Eduardo Nascimento                        3 de outubro de 2023
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MORGADÃO


Preguiça, substantivo feminino com origem no termo em latim pigritia, é uma característica ou atitude que demonstra pouca disposição para o trabalho, ou aversão ao trabalho. Está também relacionada com negligência, indolência, mandriice, demora ou lentidão em praticar qualquer ação.

Preguiçoso - eu.

São tantas as sonolências que este título desperta, que pensei em escrever boa parte no modo copia e cola. Fosse usando o Tio Google, a wikipedia, ou que talvez até estas letras viessem do ChatGPT... Mas, antes que os leitores se acomodem em suas poltronas e durmam, sem serem levados a acompanhar o texto, explico que é uma história real, com sabores e odores que remontam aos decalques da vida de adolescente.

Decalque é um plástico, tecido, papel ou substrato cerâmico que tem impresso nele um padrão ou imagem que pode ser movido para outra superfície em contato, geralmente com o auxílio de calor ou água. A palavra é abreviação de decalcomania, que é a versão da palavra francesa décalcomanie. E lá vou eu para os anos 60; eu só falava decalcomania, um termo, agora percebo, galicista e elegante, e eu refutava usar o nome decalque. E depois, quando me chamavam de nariz em pé, eu queria saber o por quê.

Daí vêm os cheiros da Hobbylândia, uma sobreloja apertada na Avenida Almirante Barroso, 2, em pleno Tabuleiro da Baiana, que hoje seria uma séria ameaça à saúde pública, pois cheirava a plástico, tinta, combustível, dope, uma série de elementos inflamáveis que caçariam qualquer alvará pós-moderno.

Mas também dali vinha a diversão de um garoto de 12 anos, com a vantagem de ser muito próxima à Estação dos Bondes de Santa Teresa. Havia praticamente uma visita diária à caverna dos Morimoto, a família japonesa que vivia entre os pequenos trens das vitrines, com passageiros minúsculos habilmente pintados com gravatas e bigodes, e os aviões dependurados pelo teto do salão - uma profusão de aeromodelos, a motor e a elástico, amarelos, asas vermelhas, lemes azuis, Paulistinhas, Tamanco A e B, T-6, Vespa, Abelha, estes eram para combate - não seria exagero contar 30 aviões no ar.

Para chegar no livro das decalcomanias, eu caio neste instante em cima da mesa de jantar da minha casa, com a planta da asa de um avião esticada, onde você ia fixando as ripas e as nervuras, primeiro com alfinetes e depois com cola-tudo. 

Cola-tudo - 
produto ou substância adesiva com grande poder aglutinante, que se usa para colar fragmentos dos mais diversos materiais. Cola-tudo DUCO, uma bisnaga amarela com tampa vermelha, vejo no Google uma reprodução de propaganda na revista O Pato Donald, de julho de 1961, e deduzo que crianças e adolescentes quebravam muitas coisas.

Era incrível que, daquele monte de madeirinhas ali espalhadas, mais cola e paciência, você terminasse com uma linda estrutura de asa de avião, bastante rígida. Tinha que fazer entre a hora do almoço e do jantar, de preferência sem testemunhas, porque alguns alfinetes "precisavam" furar de leve a mesa. Depois você entelava - aqui o dicionário não ajuda, mas trata-se de esticar um papel de seda sobre as nervuras e ripas molhadas de cola - grudou, tá pronto! Ao cheiro da cola e das madeiras adiciona-se então o cheiro do dope misturado com talco.

Hoje, o dicionário trata dope como narcótico; talvez fosse, pois era agradável, mas tinha uma função: uma vez dopado, o papel de seda se encolhia, esticando sobre a estrutura e pegava um belo brilho esbranquiçado e já apropriado para receber tinta; neste momento, eu já tinha os dedos também grudentos, sua pele endurecida e cheirando a dope, mas nada que não passasse em uns dois dias.

Montado e pintado, o avião ganhava sua forma e você voltava na Hobbylândia. Pedia o livro das decalcomanias e escolhia entre cores e tamanhos, as letras e símbolos que ornariam a sua obra de arte.

Metade - Cada uma das duas partes iguais, em peso, número ou extensão de um todo (ex.:  Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado. Provérbio chinês)

O tempo passa e depressa, passam dias e o que tanto apreciamos também muda; isso é tão real que há definições do tempo da democracia original, aquela verdadeira, a grega.

Enquanto Khrónos é a personificação do tempo calculado, aquele subordinado ao relógio e do qual não conseguimos fugir, Kairós é a qualidade do tempo vivido. Kairós é o tempo oportuno, que faz um acontecimento ser especial, memorável, não em seus números, mas em sua significância. Ou seja, você tem algum poder de estender o prazer - que é o que me interessa e é aí que a preguiça acaba - desde que você faça um fato exceder a sua significância.

Em 1971, o jornal mais lido era o JB, podia não o ser em distribuição, mas era em número de leitores alfabetizados funcionalmente; do Jornal do Brasil, o caderno B era o queridinho dos acadêmicos, era bom mesmo e tocava uma diversidade de assuntos bem ampla e o interesse do leitor era quase sempre alcançado.

Como todo impresso, as capas são sempre lidas antes do miolo, muitas vezes desprezado como se fosse um pão de segunda classe. Num sábado do fim do ano, a contracapa aludia aos alunos do 4º ano de Engenharia Naval e Kairós se incumbiu de me fazer ler com toda a atenção, pois eu era um dos 14 alunos em tamanho destaque.

Dizia o entrevistado que os alunos jogavam futebol a tarde toda, no espaço entre os estacionamentos; dizendo assim e sendo 14 o total de alunos, pouco faltou para dar a escalação nominal de cada time. Isso dito, justamente no final do ano e próximo do vestibular, certamente incentivaria os candidatos a evitar o nosso Fundão, tão querido a ponto de apararmos o mato entre os estacionamentos, para podermos jogar bola durante os imensos intervalos da grade de aulas. E note, caro leitor, que todos nós ainda estagiávamos, pois faltavam braços e cérebros na indústria naval de então e não iria ser uma peladinha vespertina que nos traria um rótulo desabonador. 

Todos nós lemos a contracapa com a entrevista e fomos para as férias do verão aprovados, mas com um travo amargo da injustiça nas bocas. Entretanto, nada de útil poderia ser feito. 

Voltam as aulas e aparamos a grama-mato do estacionamento, como de hábito. Com o aparato formal de inauguração, cravamos uma placa de madeira em frente aos imensos corredores abertos, coberta com um pano de chão imundo; na hora do intervalo, mais ou menos comum a todo mundo e quando os pipoqueiros e sanduicheiros vendiam seus produtos a um mundaréu de gente, espocamos um foguetório digno de copa do mundo.

Foguetório na universidade, pouco depois de 1968, não era entendido como um fato corriqueiro e todo mundo correu para olhar. Estávamos, se não os 14, pelo menos dez de nós, perfilados junto à placa e ainda envoltos pela fumaça dos morteiros, em nosso uniforme atlético, calça sem camisa. Sem maiores delongas descerramos o pano de chão e lia-se em letras decalcadas da Hobbylândia, vermelhas e amarelas, e de bom tamanho: 

ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO 
MORGADÃO

Creio que muita gente entendeu a sutileza da nossa deferência ao entrevistado professor Augusto Morgado, que lecionava no térreo do mesmo nosso bloco C. E até que essa gente riu bastante, mas nós não ligamos. Batemos o par-ou-ímpar, escolhemos os times e partimos pro jogo em nosso novo estádio. Como se fosse um dia qualquer. 

Mas não era. Nossa placa, o foguetório e a cerimônia fizeram o fato exceder a sua significância e até hoje render muita risada. Da mureta do segundo piso, ouvindo Penny Lane no cassete, um debruçado Kairós parecia dizer, coçando a barba branca plena de sabedoria: "bem feito!"


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

3142 - Memória de Elefante

   

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 2129                                Data: 03 de Agosto de 2004       

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LEMBRANDO O QUE SE DEVE ESQUECER...


Não era permitido a ninguém entrar na Capela Sistina com qualquer material de anotação, porque era terminantemente proibida a divulgação do Miserere da missa de Allegri; pois Mozart, com quatorze anos, dirigiu-se a tal igreja, ouviu a missa e, chegando no seu quarto, em Roma, reproduziu a missa nota por nota. Possuía ele a chamada memória de elefante. 

Falando em elefante, vem-me à mente a Belinha que, na época do espelho no banheiro das mulheres do Departamento de Marinha Mercante, cismara que o dito cujo, por poderes mágicos imponderáveis, a engordava. Belinha, no entanto, longe estava da silhueta ou do talhe de um elefante; e estava, principalmente, ainda muito mais longe da sua memória. Depois de muito reclamar dos seus esquecimentos, comunicou a seus colegas de trabalho, incluindo nós, que passara a tomar remédios para a memória. Passaram duas, três semanas, e soubemos que ela, depois de  esquecer por diversas vezes de tomar o tal remédio para a memória, abandonara o tratamento. Isso aconteceu antes do curso de Regulação Econômica da Fundação Getúlio Vargas que se iniciara em novembro de 2001 e se estendeu até julho de 2002.

Num dos módulos mais interessantes desse curso, o professor mal olhou para a Belinha e deteve-se nela, que, sob o seu olhar de verruma, mostrou-se constrangida e desnudada. O professor revelou-lhe, então, que ela fora sua aluna, e ainda lhe disse em que ano e em que matéria. Fora o primeiro e único caso, dentro de uma sala de aula, que eu testemunhara na vida,  de um professor que se lembrara do aluno, e não o inverso. É verdade que o professor era o Fernando Pinto, o lembrudo, e a aluna a Belinha, a Esquecidinha. 

Ele possuía um método mnemônico que deixava os seus alunos estarrecidos e, com a nossa turma de 25 alunos, não foi diferente. Colocou o seu método mnemônico em prática logo depois de ministrar uma prova de Orçamento Público de um outro professor – esse fora o seu primeiro contacto conosco. Antes de dar início à sua primeira aula, propriamente dita, dirigiu-se a um por um dos vinte e cinco alunos citando sem um erro o nome de cada um; decorou os nomes  depois de receber as provas de Orçamento Público encerradas em tempos distintos, olhar para nós, e nos pedir para confirmar o nome escrito no cabeçalho. Do estarrecimento, todos passaram ao entusiasmo e daí à admiração. Belinha, que vibrava, quase lhe pediu o nome do remédio que tomava. Ele, porém, não se alongou em explicações; declarou apenas isso:

- “Eu trabalhei desde os quatorze anos com o meu pai, e ele me aconselhava a não anotar nada.”

Muitos anos antes do curso de Regulação Econômica, mais precisamente em 1981, no curso de inglês do Brasas, na avenida Graça Aranha, encontrei um aluno que se lembrara de mim da escola primária; além de guardar a minha fisionomia, eu tinha onze anos de idade, ainda citou o nome dos meus dois irmãos, da mesma escola, que tinham dez e oito anos. Sem dar-me tempo para felicitá-lo, acrescentou:

- “Para umas coisas, a minha memória é muito boa, mas para os estudos é uma merda.”

Na celebração dos oitenta anos do crítico literário Agripino Grieco, ele declarou numa entrevista: “infelizmente a minha memória é tão boa que eu até me lembro dos versos do Osvaldo Orico”.  O problema da boa memória é que ela não é seletiva; ainda assim é fundamental para quem escreve lembrar-se até do que se deve esquecer. 

O biscoito molhado, não o nosso, mas o de Marcel Proust, é o exemplo mais significativo na literatura universal da memória involuntária. Ao contrário da memória voluntária, que obedece ao comando da consciência, Proust distinguia a memória involuntária como o despertar prodigioso e cheio de significados de incidentes passados da  vida tão logo a nossa sensibilidade seja atingida. Ao degustar, já adulto, um biscoito madeleine molhado numa xícara de chá – o que costumava fazer quando criança -  a memória afetiva de Proust se aguçou, e foi a razão principal de ele sair em busca do tempo perdido. 

Hemingway, que era de caçadas na África, touradas na Espanha, pescarias em  Cuba, ou seja, um Proust às avessas, sabia da  importância da memória para escrever e parece que um dos motivos do seu suicídio foi senti-la terrivelmente prejudicada com a doença mental que o atacou.

Já ia terminar a edição de hoje do Biscoito Molhado por aqui quando me lembrei que, há algum tempo, Hemingway foi citado como exemplo do uso exagerado de vírgulas. Victor Hugo, uma instituição francesa, teve brigas homéricas com o seu editor belga, que cismava de acrescentar vírgulas aos seus textos. Quanto a Voltaire, considerava as vírgulas, também pela aparência, uns vermes.  A história da pontuação está caindo no esquecimento e, por isso, não vamos colocar ainda o ponto final. Antigamente, a leitura em voz alta era essencial para entender-se o que estava escrito, e além disso, eram poucos, também, os que sabiam ler. 

No século II A.C, Aristófanes de Bizâncio consolidou o alfabeto grego e introduziu o primeiro sistema de pontuação. A igreja católica representou um grande avanço para a pontuação e os copistas da Bíblia inventaram marcas sendo a mais comum a maiúscula em vermelho, de onde se originou a palavra rubrica – ruber (vermelho) em latim. No século VIII D.C, quando as palavras foram separadas por um espaço em branco, a pontuação adquirir mais importância sintática e semântica. Mas foram os editores, depois do surgimento da imprensa, que passaram a exigir a padronização das marcas da pontuação, enfrentando algumas relutâncias, como a de Voltaire que dizia não se preocupar “esses sinais pequenos que parecem vermes.” Como  voltamos a Voltaire, é hora de colocarmos o ponto final em toda esta falta de memória.

  











sexta-feira, 8 de setembro de 2023

3141 D - Dia dos Papais

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O BISCOITO MOLHADO

Edição M2         Data: 9 de agosto de 2023

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MEU IRMÃO DE COVENTRY  


Era para ser uma produção destinada ao Dia dos Pais; em uma conversa dois meses antes com o Jason Vogel, delineamos um passeio por Santa Teresa, com a Carolina dirigindo o meu carro. 

Uma interessante transposição, pois em vez de eu degustar alguma maravilha mecânica, como seria de se esperar para um pai no Dia dos Pais, eu é que ofertaria a minha maravilha de 50 anos de companhia.

Apesar do sabor estranho, topei na hora, afinal faço semanalmente um passeio curto em Santa Teresa, com a finalidade de não deixar as peças se acostumarem com a imobilidade, pois carro antigo preguiçoso é melhor não ter. Nesse dia mudaríamos o motorista, estava de bom tamanho.

O próximo passo era acertar a agenda com a Carola, que estava em final de gravação de uma novela, o que costuma complicar. Mas a novela acabou e antes da data limite em que o Jason deveria dar como finalizada a produção.

Jason é meticuloso, sabe muita coisa de automóvel antigo, mas, longe de pretender saber tudo, percebe que todo dono sabe daquele modelo, daquela marca, coisas que os livros não ensinam. E era de se esperar que, tendo comprado o carro em 1972, eu teria que saber muita coisa, ainda mais tendo levado o carro até Manaus e o trazido de volta; eu tinha que ter história pra contar. Mas eu falei carro?

Chamei o XK de carro? Claro que é, mas é algo mais, virou um irmão, ligeiramente mais moço do que eu em 9 meses e meio; e, dos setenta e poucos anos de cada um, já ultrapassamos os cinquenta juntos, um jubileu de ouro frequentemente comemorado. Como irmãos, já brigamos e fizemos as pazes, negócios de família.

Numa história dessas, em algum lugar tem que aparecer o começo. Eu já ganhava como engenheiro em 72, quase formado e meu salário era 5000 dinheiros da época. O XK (prometo falar dele como carro já-já) era de um sócio do Veteran, Edson, super simpático e atencioso com a nossa então "ala jovem" e me contou um dia suas dificuldades com o carro. Contou pra mim porque eu já tinha tido dois Jaguar e, certamente, saberia entender suas agruras.

De agrura em agrura, ele acabou se aborrecendo seriamente, deu um chute no carro e me ofereceu por 7000; topei desde que o motor tivesse solto. Fui, com meu amigo de jardim-de-infância Francis, que depois virou Tom Murray, no estacionamento da Rua Camerino, onde o XK, vermelho e sujo, estava em repouso; eu levava gasolina e bateria, e em cinco minutos o felino estava ronronando. Fechei o negócio, só faltava levar pra casa.

Mas fala-se em XK, Jaguar e não se conta duas palavras sobre esse felino enigma? Antes da 2ª Guerra Mundial, em Coventry, havia uma fábrica de automóveis chamada SS; em 1935, fizeram um novo modelo e, à cata de um nome interessante, o batizaram de SS Jaguar. Logo logo, o nome SS ficou ligado demais aos inimigos dos ingleses e rapidamente cortaram o SS, ficando só Jaguar. Durante as hostilidades só se fabricava munição, avião, mas nada de automóvel e os técnicos principais da Jaguar, com tempo de sobra, desenvolveram um motor com tudo o que pudesse haver de mais moderno, entre um bombardeio ou outro.

Terminada a guerra, a Jaguar retomou a produção do sedã anterior à paralisação, como
 fizeram todas as fábricas do mundo e desenvolveu seriamente o tal motor moderno. Entretanto, como faziam sucesso com as vendas desse sedã, acharam que seria muito arriscado oferecer o novo motor e perder o mercado, caso não desse certo. Fizeram então um carro de dois lugares, um carro esporte com produção limitada, que poderia ser interrompida sem maiores sequelas. Ou seja, não faziam muita fé no projeto.

Mesmo assim, capricharam no desenho e, no Salão de Londres de 1948, foi apresentado como XK-120, onde o X era de experimental, o K substituia o número sequencial do projeto e o 120 correspondia à velocidade máxima, de 120 milhas por hora, um nome sem maiores apelos, portanto. Diz-se que houve uma histeria coletiva em torno do recém nascido, o que encorajou a fábrica a correr com a produção, sem tempo para rebuscar um nome. Era um tempo em que sobrava alumínio (das sucatas de aviões) e faltava aço, as fábricas precisavam racionar seu uso, pois só teria aço quem exportasse. Por tais motivos, toda a carroceria dos primeiros XK era de madeira e alumínio. Uma panela sem cabo.

O XK-120 foi justamente um sucesso na exportação para os Estados Unidos, muitos foram vendidos para os ex-combatentes americanos que, enquanto estavam aquartelados na Inglaterra, se maravilharam com os carros esporte ingleses, como o MG. Logo a fábrica pode ter todo o aço que quisesse e aumentou a produção, atingindo números de venda jamais esperados para um modelo esportivo.

Mas chega de papo técnico, que é chato pra quem não entende e superficial para os iniciados.

Volto ao "levar para casa". Mais uma vez com a ajuda do Tom Francis Murray. Sem muita dificuldade, alimentamos os carburadores por gravidade, o Tom segurando um botijão de 5 litros sobre o painel, o carro pegou e chegamos tranquilamente em casa antes de acabar a gasolina e o ano de 1972, embora eu não tenha dados mais precisos. Encontrei o defeito, que, de tão simples, me obriguei a esconder do amigo Edson...

Usei o XK, fui tomar sorvete no Moraes, andei no Sumaré meio na terra, meio no asfalto, retirei umas "melhorias" estéticas no capô e nas saias traseiras, achei um estofamento de couro vermelho debaixo do plástico preto - essa é embatucante, pois o carro nasceu verde, com estofamento verde - vai ver um dono anterior trocou de estofamento com outro dono de XK, porque era um estofamento original. Como saber?

Casei, saímos da Igreja nele, depois mandei o carro de navio para Manaus e fui várias vezes ao Estaleiro com ele, onde o pessoal chamava carinhosamente de carro do Batman; não sei se a semelhança era com o Batmóvel, ou se a coisa era comigo.

A volta de Manaus foi épica: com Maurício Piquet, meu chefe e amigo, arranjamos três vagas com um armador que gostava de nós e que levava carretas sobre suas chatas entre Belém e Manaus. Cada chata era amarrada a contrabordo de um navio e lá fomos nós, eu e Maurício, a bordo do navio e o XK, mais o meu 2CV e o Chevette do Maurício bem travados no convés liso da chata.

O navio chamava-se Almirante Alexandrino, que foi um importante oficial da Marinha do Brasil, tendo sido responsável pela modernização da frota na primeira década de 1900. Na internet acha-se tudo e o Alexandrino de Alencar foi revoltoso na Revolta da Armada em 1893, contra o Floriano Peixoto. Como tudo passa por aqui, os sucessores do Floriano empastelaram seu passado e reabilitaram o nosso Alexandrino que virou o Ministro da Marinha mais longevo da História do Brasil ( 4 presidências) e também a mais longa rua de Santa Teresa, onde residia o almirante.

É necessário dizer que o navio foi construído em 1900, de casco todo rebitado, já tinha motor diesel e não mais a máquina a vapor original. Era o Cap Roca da Hamburg Süd até 1922, quando foi oferecido ao Brasil como reparação da Grande Guerra, a primeira mundial que então se chamava assim, pois ninguém sabia que haveria a Segunda.

Após alguns anos sem maiores melhorias, reformei o carro, voltando ao verde por fora e verde por dentro dos seus dias de 1950. O verde original da pintura não era muito interessante e havia boatos de que desbotava bastante, de modo que adotei o verde-inglês de competição, um verde garrafa muito bonito. Era um tempo em que carro de corrida defendia a Pátria e os alemães eram prateados, os franceses azuis e os italianos, vermelhos. Nós, brasileiros usávamos o amarelo, mas como não sou piloto, optei pelo verdão.

O motor, que era meia boca, foi refeito na lendária Rio-Londres da Rua Assunção, então a meca dos carros ingleses e, fora uma troca de cabeçote feita nos anos 2000, é ele que ainda puxa o XK com boa disposição.

Marcamos o dia, o Jason chegou com a equipe bem cedo para discutirmos o trajeto e onde posicionar as câmeras. Na hora justa, chegou a Carolina, que entrou em casa para pegar uma tangerina; ali, na rua mesmo, enquanto se preparavam os microfones e a sempre presente GoPro, entre um copo d' água e outro, bateu-se um papo gostoso, onde a risada prevalecia, quase sempre em torno da minha ultra-super-avaliada severidade e de como todos os filhos burlavam regras, leis, regulamentos e pulavam muros, o típico papo normal do Dia dos Pais, quando eu sou o pai.

Severidade derrubada pelos mesmos muros, ali quietos, mas testemunhas caladas de um tempo sem câmeras de sgurança de alta definição, bem que eu queria ver isso agora...

Partimos então de acordo com o script, saí dirigindo até o Curvelo e eu havia combinado com o cinegrafista uma arrancada logo após o Pimenta. Deu tudo certo, cabelos esvoaçaram e, como a Carola de nada sabia, passou para a câmera uma impressão real de surpresa, que alguns interpretaram como pânico. Eu conheço cada uma das muitas cicatrizes da nossa atriz e sei bem que é difícil apavorar a figura; na segunda arrancada, combinando o vento e o som do motor, mereci da gentil senhora comentários sobre torque e carro de corrida... acho mesmo que eu é que fiquei surpreso.

Aí cedi o assento para a motorista que saiu como se sempre dirigisse um Jaguar... nenhum tremelique, nem insegurança, fazendo sinal com o braço como se estivesse em 1952 e viemos batendo papo como se fosse a coisa mais natural do mundo... sucesso total, diria o Rasta!

Na chegada, mais conversa sobre o bonde que apareceu de papagaio de pirata e 
sobre a experiência, um papo 
entremeado de frases antológicas como: "Não tem como eu não achar bonito, eu vejo este carro desde que eu nasci!". Saiu assim mesmo, com a naturalidade da verdade rara, sem acréscimo, sem retoque, sem maquiagem.

E eu, de boca aberta.




sábado, 26 de agosto de 2023

259 - A RUA DO MURO




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O BISCOITO MOLHADO

Edição 2133.         Data: 9 de agosto de 2004

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FACADAS  EM  NOVA YORK



Vi o ator Daniel Day-Lewis pela primeira vez representando um pintor que nascera com paralisia cerebral e apenas movimentava o pé esquerdo.

- “Se atuando só com o pé esquerdo é essa maravilha, imagina com os dois...”

E saí maravilhado do cinema. 

No filme “Gangues de Nova York”, Daniel Day-Lewis, além de chutar com os dois pés (o verbo é chutar mesmo, porque o filme é violento), corta como poucos (é açougueiro), e atira facas com a mira de um artista de circo.

- “Além de ele, como trabalhador de açougue, cortar com perícia o gado bovino, caprino, ovino, suíno e, principalmente, o gado humano que chegava a Nova York nos navios de imigrantes, precisava atirar facas com essa perícia de profissional circense?...” - indagava-me no meio do filme.

O diretor desse filme é o Martin Scorcese, que despontou no “Taxi Driver”, quando permitiu que Robert De Niro, que também despontava, improvisasse na cena do espelho, permissão que só era dada a atores do calibre do Marlon Brando e que se tornou uma das referências do filme.

Gangues de Nova York tem ainda Leonardo DiCaprio que, num papel inteiramente oposto àquele romântico do Titanic – não podia, agora, colocar-se na proa e bradar que era o dono do mundo, pois uma faca voaria até o seu fígado. Afinal, Bill, the Butcher, o personagem do Daniel Day-Lewis era quem mandava no pedaço.

Também temos no filme a “Cameron Diaz”, que se chamava “Jenny” antes de esse nome se tornar corriqueiro entre as prostitutas. Era, além de prostituta, trombadinha e a cada trombada que provocava, ela acrescentava ao seu orçamento um cordão, um relógio, uma carteira, etc.

As primeiras imagens do filme são tão marcantes que trechos delas retornam durante os dezessete anos do desenrolar da história, 1846 a 1863, como se fossem “leitmotif” wagnerianos (as passagens musicais das óperas de Wagner que retornavam). Já conceituaram o cinema como a música das luzes e, assim, tivemos um Martin Scorcese quase operístico. As imagens recorrentes do filme acentuavam as personalidades, os comportamentos e explicavam as futuras facadas.

A história se inicia no bairro de Five Points com uma briga sanguinolenta entre duas gangues de Nova York: uma, os “Dead Rabbits”, de imigrantes chefiada por um padre irlandês (Liam Neeson), e outra, os “Bowery Boys”, de nativistas, cujo líder era William Cutting, o açougueiro, que se orgulhava de o pai ter morrido na luta contra os ingleses na Segunda Guerra da Independência (1812-1814).

O filho do padre, com cerca de dez anos, que acompanha o pai desde os preparativos da briga, quando ele mancha a lâmina da navalha ao barbear-se (uma das imagens que retornam como “leitmotif”) foge, mas não escapole, e é enviado para um reformatório.

Sai ele de lá dezesseis anos depois como Amsterdam Vallon, personificado por Leonardo DiCaprio, e a primeira coisa que faz é jogar no rio a Bíblia que o padre do reformatório lhe dera, porque está tomado pela idéia do olho por olho, dente por dente, e facada por facada (também tenta manejar a faca com destreza). Está ele tomado pelo desejo de vingança e, para isso, incorpora-se ao bando do açougueiro, e até alia-se a ele, convivendo com uma máfia que corrompia, roubava, promovia perseguições preconceituosas e se divertia com os irlandeses que chegavam nos navios-caixões chamando-os de comedores de batatas. William Cutting ou Bill, the Butcher, afeiçoando-se ao seu pupilo, cuja identidade desconhece, ensina-lhe até a esfaquear, usando como modelo um porco, “a carne mais parecida com a humana”, mostrando-lhe os lugares para ferir, para doer, para matar, e onde a lâmina encontra a costela e quebra-se.

O próprio rapaz se deixa envolver pela sua personalidade, esquece por momentos a vingança, e salva o assassino do seu pai de um atentado no teatro. Um antigo guerreiro da gangue do seu pai, “Os coelhos mortos”, o faz retornar à trilha da vingança além do triângulo amoroso que se formou com a trombadinha Cameron Diaz.

Talvez dois ou três leitores do Biscoito Molhado, caso se achassem neste momento na redação do Biscoito Molhado, questionassem o fato de nos determos num filme do passado, já vencido na entrega do Oscar de 2003; ocorre, no entanto, que, com a disputa eleitoral americana entre George Bush e John Kerry, ele se atualiza, segundo alguns comentaristas. As discussões políticas, os posicionamentos dos componentes do Partido Republicano e do Partido Democrata que hoje se vê “à dorée” nos noticiários, no filme “Gangues de Nova York” são vistos “en su tinta”, segundo eles. As coisas no filme não são, contudo, tão simples quanto algumas resenhas que lemos na internet que afirmam que os antagonismos crescem, ultrapassam a briga entre as gangues e se transformam no nascedouro das disputas entre Republicanos e Democratas, sendo o Republicano, os nativistas, os xenófobos e os assassinos, como o personagem de Daniel Day-Lewis, e os Democratas, os imigrantes e “progressistas” como o personagem de Leonardo DiCaprio. 

Ora, não existem, ao que parece, essas divisões tão simples assim no filme e na história dos Estados Unidos da América: as coisas são bem mais complexas. A tendência bipartidária surgiu desde a disputa eleitoral entre Thomas Jeffereson e John Adams, onde o grupo democrata de Thomas Jefferson pregava a supremacia dos estados-membros, enquanto o grupo federalista de John Adams pregava a supremacia do poder central. 

Abraham Lincoln, que governava os Estados Unidos na época em que se desenrola a maior parte do enredo do filme Gangues de Nova York, pertencia ao Partido Republicano e impediu o desmembramento dos Estados Unidos da América com uma guerra.

Não foi só essa a grande obra do presidente republicano: libertou os escravos, incentivou a política de imigração e de povoação do oeste, assinando o Homestead Act (a reforma agrária), que concedia a propriedade de terras a quem as colonizasse. Décadas depois, o presidente Theodore Roosevel, também do Partido Republicano, executou as medidas de caráter sociais mais profundas até então.

As gangues de Nova York, naqueles efervescentes anos, mesmo aquela que foi vista por alguns espectadores como “republicanas”, insurgiram-se violentamente contra o alistamento obrigatório do presidente Lincoln para a Guerra da Secessão.

O filme que começou com a sanguinolenta briga entre as duas gangues, em 1846, encaminha-se para o mesmo final, em 1863, com Amsterdam Vallon no lugar do pai, na liderança dos “Dead Rabbits”. Porém, os acontecimentos políticos atropelam aquela disputa, a princípio, particular - e os bairros de Nova York se rebelaram contra o alistamento obrigatório, que só abria exceção para as famílias ricas que pagavam. 

Um político corrupto dissera, no filme, que sempre se pode contratar a metade pobre para matar a outra metade, mas eles resolveram também matar os ricos. Não bastasse essa sublevação, com casas aristocráticas invadidas pela turba enfurecida, Martin Scorcese fundiu outras explosões populares num mesmo cenário: a revolta antiabolicionista de 1834 (negros perseguidos e assassinados), os “election acts”, brigas entre adversários políticos, e os “flour acts”, mais conhecidos aqui no Brasil como saques aos supermercados.

Quando o filho do padre enfrenta o assassino do seu pai, mal se vê a faca na mão de um e de outro, pois a Marinha dera início ao bombardeio de Nova York com o objetivo de dar fim a revolta popular que punha em risco as instituições. Quando a poeira baixa, e a fumaça se torna maia rarefeita, vemos Bill, the Butcher, de joelhos, com uma faca cravada no abdomen. Amsterdam Vallon lhe dá a estocada de misericórdia.

Os historiadores garantem que a cenografia do filme é de uma precisão de ourivesaria, que foi baseada nas fotografias de “Five Points”, a parte baixa de Manhattan que hoje abriga Chinatown e prédios de repartições públicas. Era, na época do filme, uma paisagem urbana composta quase inteiramente por favelas. Tudo, então, era muito pobre, o que dá para entender o “muro” do nome Wall Street, que era um tapume de madeira que substituíra a cerca de pau a pique que impedia as cabras e e os porcos de se perderem naquela terra desconhecida que é hoje o East Side. Wall Street, aliás, é citada na revolta popular do fim desse filme épico; foi lá que posicionaram as canhoneiras que atiraram nos revoltosos.


COTAÇÃO DO FILME: bonequinho esfaqueado, mas aplaudindo.