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terça-feira, 21 de abril de 2020

3107 - D O Reformatório



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5366 D                           Data: 21 de abril de 2020

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXVII


                   TIAS-AVÓS, AVIÕES  E AEROMODELOS

As fotografias do Rio de Janeiro de tempos idos, que o blog “Saudades do Rio” publica, frequentemente trazem à tona eventos ocorridos com todos nós. Comigo se passa exatamente assim e comentei recentemente sobre uma fotografia do prédio da LBA – Legião Brasileira de Assistência, que fica na Avenida General Justo, em frente ao Aeroporto Santos Dumont:

Esta é a minha área, pois passei incontáveis dias na LBA, onde minhas tias-avós trabalhavam desde a fundação. Eu dava, possivelmente, algum distúrbio em casa e era encaminhado para o reformatório, que era a casa delas. Com dois andares e três platôs na Rua Oriente, em Santa Teresa, tinha tudo que uma criança podia pretender, espaço, espaço e espaço; cachorro, jardim para regar, frutas para pegar e ainda, uma mureta baixa rente à parede que podia ser tudo e qualquer coisa – trem para ser assaltado, corda bamba de circo, a mureta era um desafio estático à imaginação sempre acelerada.

Da casa, a gente descia a escadaria que sai da Oriente, esquina com Progresso e, em dois lances, estávamos no ponto final do 10 - Mauá-Fátima, no tempo daqueles micro-ônibus Chevrolet, amarelo e prata, e que usavam sutiã embaixo do parabrisa. Eram chamados de "caixotinho", mas só vim saber disso muito tempo depois...

O dia na LBA era uma janela de tempo integral, debruçada sobre o hangar da FAB, onde se testavam os motores dos aviões. Eu virei um quase especialista em motores Pratt&Whitney, de tanto que ouvi, pois aquilo era música para os ouvidos e eu ficava calminho. Eram C-47, T-6 e Beech, em sua maioria, mas os jatinhos Paris, brancos e lindos como um carro esporte, também eram guardados ali. Vez por outra, um C-82 fazia uma revisão lá. Mesmo quando reinava o silêncio, era só esperar que vinha um trator manobrar um avião, ou, ao longe, um avião decolava rumo ao Pão de Açúcar. Eram tardes deliciosas e só havia interrupção para um lanchinho – que eu não perdia. Pão e circo, duvido que eu desse trabalho, reformatório é para ser assim...

Entretanto, no blog havia outra fotografia, que não era da LBA e sim da atual Defensoria Pública, segundo o Google Maps. Não me lembro do que seria na época, mas o que esta fotografia detonou na minha memória vem agora.

Nos espaços vazios foram construindo prédios, mas restou uma praça ainda existente, exatamente atrás da Defensoria. Nesta praça havia uma árvore (hoje tem umas 10) e era um grande espaço asfaltado cercado de prédios de oito ou dez andares. Na praça não havia um pingo de vento, mesmo estando tão próxima à entrada da Baía da Guanabara. Era ali que os aeromodelistas da minha rua levavam seus U-control.

U-control é um aeromodelo que, acho, não existe mais, nestes tempos em que tudo é radiocontrolado. Do avião partem dois finos cabos de aço, que formam o U na mão do “piloto”. Estes cabos comandam a subida e descida e o avião gira em um círculo de uns 10 metros, seguro pelos mesmos cabos. No Aterro, próximo ao Monumento dos Pracinhas, há duas pistas dessas, mas ali o vento pode ser terrível e a fila de espera para decolar pode ser grande.

A nossa praça era um paraíso, íamos numa Rural-Willys, que ficava na sombra da árvore e nós desembarcávamos com 4 ou 5 aviões; o meu era um Tamanco A, o mais pobrinho a motor da Hobbylândia, lembra um Curtiss P-40, era tosco, sua fuselagem era um perfil de madeira recortada, motor de lado, não tinha flap e não dava loop – zero em sofisticação, mas eu troquei o tanque de combustível por um maior, para ficar mais tempo no ar. E ficava mesmo, mas como resultado de um acidente logo de cara com os fios de controle, adotei linha de pesca como substituto e nunca mais me aborreci. Claro que a elasticidade do nylon dava uma inércia na resposta do avião, mas uma vez acostumado, eu voava sem susto. E planava, eram umas cinco voltas sem motor, descidas devagarinho, o que enervava bastante os coleguinhas à espera, que já agonizavam devido ao meu tanque maior.


O acidente aeromodelístico mais sensacional se deu com um avião bem grande, azul turquesa, com flaps e o escambau a oito, mas o controle partiu antes de completar a primeira volta (é sempre assim, você tem que examinar cada centímetro do cabo, enrolar e desenrolar com o maior cuidado, qualquer dobrinha tem que trocar os cabos, que partem ao menor nozinho). Uma vez partindo um cabo, o segundo também parte e o avião sai em, alegre e solto, voo solo. 

Naquela tarde, com seu leme aberto para manter o avião puxando para fora, o avião fez uma elegante curva  para a direita e alcançou o prédio. Não penetrou na parede, ao contrário, esta foi recebendo o bicho, começando pelo motor, fuselagem, asas, como se fosse um abraço de tamanduá-bandeira. Quando chegou na parte do leme, a parede cuspiu fora os restos ainda fumegantes, que, tepopóf, caíram no asfalto. 

Espetacular.

E já ia ficando por aqui, mas a palavra espetacular me impediu de parar. 

Havia um terreno baldio na Rua Teresina, onde nós, os garotos da rua, amaciávamos os motores, uma tarefa impossível de ser realizada em casa devido à fumaça e ao barulho atordoante. Esse amaciamento levava horas - as mães achavam ótimo longe delas -  e um dia acabei sozinho e com o dedo doído de tanto bater na hélice. Juntei as minhas coisas e vi que os outros haviam deixado um pouco de combustível glow - que não me servia - numa garrafinha de vidro. Pouca coisa, mas brotou a ideia!

Fiz um coquetel molotov e, com razoável temor, ou pavor, preparei um pavio. Acendi - acho que eu fumava.. - e  joguei na muralha que havia no fim do terreno. 

Eu morri de medo daquilo explodir na minha mão, ou de alguém reclamar, mas que nada! Deu tudo certo e certamente ninguém viu; e foi lindo ver, sozinho, as chamas avermelhadas que brotavam das pedras cinzentas daquele fim de tarde. 

Espetacular de novo, criança alguma deste século vai fazer parecido.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

3105 - FF Atas e desatas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5364FF          Data: 26 de dezembro de 2019

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A VIDA É UM CADARÇO   

Meu cadarço está invariavelmente desamarrado. Estou sempre abaixando para amarrá-lo e nesse curto intervalo de tempo em que dou o nó penso: minha vida é um cadarço desamarrado.

Por mais que eu tente, capriche, mude as técnicas, a postura, o jeito, ele vai desamarrar. Desamarrado ele me fará tropeçar; E assim caminho e tropeço, abaixo e penso, mas todo dia sei que terei de amarrar meu cadarço.

O cadarço é como a vida. Algumas pessoas, nas quais me incluo, estão sempre tentando dar o nó definitivo. Aquele que não desatará. Que não o fará mais abaixar, repensar e rememorar. Outras pessoas caminham longos períodos com os mesmos nós. Suas vidas são sem percalços, uma função linear com poucas curvaturas. Existem ainda as pessoas que nem cadarço tem. Não querem emoções, alegrias ou tristezas. Querem o óbvio. Não querem iguarias, surpresas ou imprevistos. Querem o gosto conhecido. Uma maneira de viver morrendo ou de morrer vivendo.

Olho para meu cadarço com rabo de olho. Feio, lambuzado, com marcas, nós mal dados e pedaços faltando. Estou sempre num abaixar e levantar. Até o dia em que não levantarei mais. Cansarei disso. Deixarei assim, como aquelas doenças que não tratamos. Um dia ela aumenta, evolui e nos mata. Farei assim, não mais o amarrarei. Chega de decepções e de tropeços. Meu nó nunca será perfeito, pois a vida é imperfeita demais. Se eu souber que está desamarrado, tudo será mais fácil. Acabarei com o imprevisível.

É ele que nos mata. Vou para a turma dos sem cadarço. Não mais me curvarei, pois abaixar pressupõe poder levantar.

Tomo essa decisão amarrando meu cadarço. Desvio meu olhar e meus olhos vão ao encontro de uma criança. Reparo em seus pequeninos tênis também desamarrados e no sorriso do seu rosto. Ela tenta amarrar de forma atabalhoada e sorri para mim. Eu retribuo, olho para o cadarço e penso. Ainda posso levantar mais vezes.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

3104 - FF Haraquiri em Porto Alegre



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5363 FF                           Data: 29 de julho de 2019

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXVI


O fruto não cai longe da árvore

Meu pai é um colecionador. Teve, hoje em muito menor número, carros e carrinhos (dinky toys), trens Lionel, relógios e até caixas de som de um tipo caro (não me recordo a marca) ele tinha umas 10. O que uma pessoa quer fazer com 10 caixas de som eu nunca entendi, mas alguns devem se perguntar por que eu estranho, se eu mesmo tenho umas 9 mesas de botão. Lembro que eu comprei um som e muito orgulhoso mostrei para ele perguntando o que ele achava e ele de bate pronto:
- Que merda de som!

Um dos hábitos que peguei do meu pai foi visitar leilões, antiquários, etc. Claro que procuro por botões. É muito raro de encontrar, primeiro, porque muita gente faz isso, segundo, porque o território para achar os que me interessam é o Rio e terceiro, é que botão é um negócio raro mesmo, a maior parte das pessoas joga fora.
Mas, há cerca de uns 6 meses apareceu um lote. Botões que chamo de lua cheia, com as cores do meu time (Fluminense) e com o lance inicial baixo. Pensei, vou pegar, coloco um lance automático meio alto e pronto, já que não sou bom nessas vigílias e acho fazer lance por telefone muito démodé. Desconfiava que os botões não seriam suprassumo, mas pensei, estão valendo por um preço baixo.

Ocorre que me ferrei. No dia eu não acompanhei o leilão, mas, quando fui ver, eu tinha ganho, contudo por um preço muito maior do que tinha imaginado. 400 reais!!! Pensei de imediato, algum idiota ficou mandando lance e elevou o preço dessa merda. Me ferrei!!!

Coloquei um lance automático alto sei lá por quê, um quê de compulsivo, e foi isso.
Exclamei mais alguns palavrões e aceitei a ferroada. Recentemente fiquei sabendo quem era meu adversário no lote.

Eu e meu pai ficamos estremecidos um certo tempo e quando retomamos o contato, conversávamos sobre amenidades quando ele puxa o assunto futebol de botão.
- Rapaz, você não sabe o que ocorreu! Eu vi um leilão outro dia daqueles botões antigos que gosto que eram vendidos na Pequenina, sabe, aqueles botões bem redondos.
- Sei pai, aqueles que você comprava no Catete, que eu chamo de lua cheia.
- Isso! Então, eu vi o leilão e pensei, cacilda, time do Fluminense, um monte deles de osso (para o meu pai todo botão é de osso) e mesmo nessa merda de bater palmas em que eu estou, decidi que iria ganhar essa merda. Só que você não imagina o que aconteceu!!!
- O que?
- Eu não sei usar essa droga de internet, então fiquei dando o lance por telefone. E aí foi a cem, duzentos, trezentos, um cara bancando as subidas e pensei, agora ele pára, mas o filho da puta ainda deu um lance de 400 e aí eu desisti. Ficou demais para mim. Mas você não sabe da maior.
- Qual?
- Neste mesmo leilão, eu ganhei um outro lote, umas revistas de trem, então fui pegar lá no Centro do Rio de Janeiro, um calor senegalês, mas, intrépido e com a curiosidade de olhar os botões, que pareciam ser a oitava maravilha do mundo, senão a sétima. Cheguei lá e perguntei à mulher que me atendeu: - Olha, por curiosidade, uns botões que vocês anunciaram, ainda os tem aí?
- Tenho sim, senhor, quer ver?
- Quero sim, por favor.
Depois de uns 15 minutos naquele calor ensurdecedor, me vem uma caixinha muito bunda mole e logo falei:
- Não pode ser, os botões são grandes, bonitos, não iriam caber nessa caixinha.
- Não senhor, são estes mesmos, olha aqui.
- Rapaz, eu rasguei minhas cuecas. Eram uns botões de merda, do tamanho da unha de um anão e pensei, de que merda que escapei, o otário que pegou essas coisinhas vai fazer um Haraquiri na hora. Graças a Deus escapei dessa.
- Amém, pai.


terça-feira, 19 de março de 2019

3103 - FF Botões e Lágrimas



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5362 FF                           Data: 19 de marco de 2019

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXVI

O JOÃOZINHO NÃO!!!

Eu quero o Joãozinho
Marcelo era um dos maiores colecionadores do Brasil. Tinha 5, 6, talvez 7 mil botões, dos mais comuns até os raríssimos. Um valor considerável em dinheiro.
Apenas um botão faltava em sua coleção: O Joãozinho.
Joãozinho pertence ao irmão dele, Rodolfo. Botão comum, olhinho, 3,5, mas o terror de sua infância. Nos embates com o irmão sempre era o Joãozinho que marcava o gol da vitória.
Sempre!
Joãozinho avançava pela esquerda, caía pelo meio e já pedia o chute.
Marcelo sentia o suor nas mãos trêmulas, as pernas bambeando, a ajeitada no goleiro era mera protocolo antevendo o grito inevitável que tanto o irritava.
Golllllllllllll!!!!!!!GOLAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E assim foi durante anos. Campeonatos, amistosos, sempre Joãozinho acabava com os sonhos do Marcelo e o grito estridente do irmão, um grito de insulto, uma provocação aos ouvidos de Marcelo ecoava pela casa.

Golllllllllllll!!!!!!!GOLAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A idade porém fez com que os campeonatos naquela sala ampla na Tijuca fossem rareando, o diário para semanal, e daí para mensal até que não jogaram mais.
Rodolfo, mais velho, começou a estudar na UERJ, a frequentar os bares das redondezas e descobriu os prazeres do sexo descompromissado com as beldades da faculdade.
Marcelo, no entanto, sempre foi mais tímido, introvertido. Mesmo quando também passou para a UERJ, alguns anos depois sua vida mudou pouco. Seus amigos eram os botões e sua coleção cada vez maior agora que não dependia mais da mesada modesta do pai e sim de um salário cada vez maior numa empresa de auditoria e consultoria.
O que unia os dois irmãos, a única afinidade na verdade, eram os botões e sem este elo o afastamento quase definitivo era uma questão de tempo.
Não tardou e aconteceu;
Rodolfo viveu bem a faculdade com mais alguns anos de farra depois dela, mas conheceu uma americana e enveredou pela área acadêmica, indo morar em Irvine, Califórnia. Levou o básico, incluindo sua caixinha de 20 botões, entre eles o Joãozinho.
Marcelo não, sempre focado, dedicou-se aos estudos, galgou cada vez mais posições na empresa e conseguiu o cargo de presidente. Casou e foi morar em São Paulo carregando seus 7 mil botões cuidadosamente embalados.
Os encontros entre eles eram apenas no Natal, na ampla sala do apartamento de seus pais, palco das lembranças da infância.
Nestes encontros escassos e com uma convivência cada vez mais distante na qual as palavras saem desajeitadas Marcelo ainda tentava.
- Rodolfo, você não joga há anos, não me venderia o Joãozinho?
- De jeito nenhum, a resposta era automática, incisiva e com um olhar cortante.
Foram feitas mais algumas tentativas, sempre no Natal, até que os pais faleceram e os encontros anuais acabaram.
Nem amigos no Facebook eram.
Perto dos 50, o destino não foi generoso com Marcelo. Numa consulta de rotina descobre um câncer terminal, 2 meses de vida.
Avisa aos amigos, alguns parentes próximos e faz um último pedido para esposa.
Rodolfo fica sabendo por terceiros, reluta em vir, há anos não o vejo diz para a esposa, mas o sangue do meu sangue fala mais alto e o avião pousa num domingo de sol em São Paulo.
Seu irmão já muito fraco, magro, longe dos seus mais de cem kilos que manteve por anos o vê entrando pela porta do quarto do hospital.
Um sorriso discreto, mas sincero permeia o ambiente e emociona a todos.
Primeiro falam amenidades, relembram os bons tempos naquela sala feliz na Tijuca, dias de sol, sem preocupação, apenas jogos de botão, coca cola e a fantasia da infância.
Marcelo percebe o irmão desarmado, naquele quarto de hospital em um estado terminal ele sente um calor que o envolve, como um abraço materno. Sente que é momento.
- Rodolfo, eu vou deixar a minha esposa Valéria e nossos filhos muito bem. Ganhei um bom dinheiro, nada de preocupações eles terão, inclusive fiz um pedido a ela. Meus botões, eu tenho um elo com eles, algo como se fossem uma família. Eles serão enterrados comigo, fiz este pedido a ela. Sim, sei que é estranho, mas ao meu lado sinto que eles estarão me abraçando em meu descanso. Porém, Rodolfo, falta um, somente um pro meu descanso ser completo. O Joãozinho. Você me daria o Joãozinho pra eu finalmente descansar em paz?
Rodolfo olha pro irmão, vê as olheiras, a cara de quem chegou ao final da luta. Pensa como poderiam ter sido mais unidos, como o tempo passou rápido, como dos 20 pros 40 foi um pulo. O que parecia eterno foi um sopro, um sopro de vida. Lágrimas começam a cair, pega na mão do seu irmão, olha bem fundo nos seus olhos e diz.,
- Não Marcelo. O Joãozinho não!!!



domingo, 5 de agosto de 2018

3102 - SX Psicografando, psicopintando



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5362 SX                           Data: 05 de agosto de 2018

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


SERGIO DELAUNAY

Com o passar dos anos vou me transformando, cada vez mais, num sujeito metódico. Percebo isso ao constatar que, pelo menos uma vez por semana, sou acometido por uma ideia de jerico.

A da semana passada foi recorrer a uma viagem de metrô para transportar duas grandes telas, que pintei, até a galeria de arte do meu amigo Jaime Vilaseca, na Rua Dona Mariana, em Botafogo. Agarrado a elas percorri quatro quarteirões do meu apartamento na Paula Freitas até a estação Siqueira Campos do metrô. A estação de Botafogo fica perto da praia. Carregando minhas obras-primas, caminhei por vários quarteirões ao longo da rua São Clemente, até chegar na Dona Mariana.

Causei espanto no vagão lotado do metrô. Otimista, imaginei inicialmente que os demais passageiros estavam embevecidos com a beleza dos meus quadros. Aos poucos, minha bola foi baixando e cheguei à conclusão de que, na verdade, estavam espantados com as proezas que eu cometia tentando me equilibrar no vagão, segurando minhas telas gigantescas.

Cheguei, finalmente, à galeria do Jaime. Numa sequência de bonitas casas situadas numa charmosa vila da Dona Mariana ele desenvolve suas múltiplas atividades. Produz molduras sensacionais e está ultimando providências para expandir em grande estilo sua galeria de arte.

Como eu, ele também é viciado em automóveis antigos. Proprietário de um lindo Triumph TR4, belíssimo carro esporte inglês, é alvo da inveja de toda a comunidade de colecionadores do Rio de Janeiro, que admira o destemor com que ele utiliza sua preciosidade, sempre envolvido em passeios nos fins de semana, ou até mesmo em viagens que contemplam longas distâncias, evitadas por esse escriba e pelos demais covardes do clube.

Como sempre, sou recebido com enorme simpatia pelo querido amigo. Minhas telas vão se juntar a duas outras que já estão devidamente emolduradas pelo Jaime, aguardando a inauguração de sua galeria. O evento vai envolver outros "colegas artistas", comes e bebes e apresentação de um grupo de jazz.

Dessa vez, Jaime me deu um susto: "Sergio, para expor seus quadros, preciso informar algo sobre sua trajetória artística. Como você descobriu essa vocação? De quem recebeu orientação? Gosto muito dos seus quadros, me lembram a obra de uma artista que admiro muitíssimo. Sonia Delaunay. Você se inspirou na Delaunay, não é verdade? Confesse!"

Vi-me, recorrendo a uma expressão recentemente criada, em palpos de aranha. Fui muito sincero. Nunca tive professor de pintura. Desenho mal. Sonia Delaunay? Nunca ouvi falar...

Pacientemente, Jaime Vilaseca me explicou que ela foi uma extraordinária pintora e cenógrafa, nascida na Ucrânia em 1885. Desenvolveu sua carreira em Paris, onde faleceu em 1979. Agraciada com a Legion D`Honneur, foi a primeira mulher a contar com uma retrospectiva no Louvre, o que aconteceu em 1964. Recorrendo à Internet, me apresentou à obra da grande pintora. E tinha razão. Meus quadros mostram formas geométricas e cores fortes bem ao estilo da Delaunay.

Permanecemos na estaca zero. O que Jaime poderá dizer aos milhares de clientes que vão se degladiar na ânsia de adquirir meus quadros?

Faço um esforço para transmitir algumas informações ao meu amigo. Explico que minha disposição de enfrentar a tela branca decorreu do fim do meu primeiro casamento. Saí de casa carregando apenas um travesseiro, deixando para trás quadros e tapetes que ornamentavam meu apartamento na avenida Rui Barbosa.

Não eram obras de pintores super renomados. Nem pensar em Portinaris, Pancettis ou Di Cavalcantis. Tinha em minha casa quadros de artistas que gostava muito, ainda que não tão valorizados: Henrique Cavalleiro, Manoel Santiago, Heitor de Pinho, Fernão Bracher, Haydéa Santiago, Mario Mendonça... Apreço especial eu tinha por um quadro pintado por Rui Campelo, primo distante, integrante do Núcleo Bernardelli. Sua obra não alcança preços altos. Mas é belíssima, sempre premiada nos salões de arte de que ele participou.

Expliquei ao Jaime que havia ficado incomodado com as paredes vazias de minhas novas moradias. Sem grana para refazer meu antigo acervo, desandei a pintar.

Meu pai foi também um incentivo importante que me atraiu para o mercado de arte. Comentei, numa antiga crônica que cometi para o "Biscoito Molhado", que Paulo Fortes era um talento multifacetado. O mais destacado barítono brasileiro desenhava como ninguém e produzia caricaturas extraordinárias. Adorava pintura e tornou-se amigo de muitos artistas importantes, frequentando suas casas. Euclides Santos, notável ilustrador da revista "O Cruzeiro", sempre o presenteava com pequenos quadros, por ocasião do Natal.

Recentemente "herdei" uma marinha maravilhosa, que ocupava lugar de destaque na sala de seu apartamento. A história da compra desse quadro é bastante peculiar...

Em 1954, Paulo Fortes cumpria uma temporada no Teatro Comunale de Florença. Durante seis meses cantou naquele grande teatro uma série de óperas desconhecidas no Brasil, que lhe demandavam ensaios exaustivos. Um jovem pintor expunha seus trabalhos nas proximidades da saída de artistas do Comunale. Era religioso. Todo dia o barítono parava para apreciar os quadros do tal pintor. Um deles chamava especialmente sua atenção. Um belo dia o sujeito não se conteve e disse: "Senhor, há meses o senhor pára na frente desse quadro e passa um tempo enorme apreciando meu trabalho. Por que não compra o quadro?" Paulo Fortes explicou: "É verdade. Não canso de admirá-lo. É maravilhoso! Mas não é barato... Vim do Brasil, meu país, para cantar nesse teatro. Estou super feliz, fazendo sucesso e ganhando um bom dinheiro. No entanto, meu contrato termina daqui a dois meses. Morro de saudades de minha família e não cogito renová-lo. Minha ideia é levar dinheiro para o Brasil. Não estou aqui para fazer compras..."

Mario Rinaldi, o pintor, declarou: "Entendo bem seu ponto de vista. Mas acho um absurdo o senhor deixar de comprar algo que tanto admira. Vamos fazer o seguinte. Vou lhe vender o quadro por uma fração do preço que peço normalmente. Na verdade, estou cobrando, basicamente, o custo da tela e das tintas. O que acha?"

Paulo Fortes não pensou duas vezes. Fechou negócio na hora. Poucos meses depois a marinha estava em seu apartamento, no Leblon. Hoje, para minha satisfação, enfeita meu apartamento em Copacabana.

Com o passar dos anos Mario Rinaldi ganhou fama na Itália. Hoje seus quadros podem ser encontrados em galerias e coleções de toda a Europa. Em certa ocasião, testemunhei uma conversa entre meu pai e Giuseppe Irlandini, italiano que era dono de uma grande galeria na Teixeira de Melo, em Ipanema. Papai falou sobre o quadro do Mario Rinaldi. Irlandini ficou tenso, não parava de perguntar: "O senhor vende? O senhor vende?".

Falei também com o Jaime sobre minha trajetória trabalhando com Ronaldo Cezar Coelho, proprietário de uma belíssima coleção de obras de arte. Especialmente sobre o espetacular Guignard que ele comprou em um leilão em Nova Iorque e não conseguia trazer de volta para o Brasil, por conta de tributos escorchantes que seriam cobrados. Difícil entender a lógica tupiniquim.

Falamos, também, sobre as belas obras que enfeitavam as paredes da Multiplic. Na sala do sócio Antonio José de Almeida Carneiro, conhecido no mercado financeiro como "Bode", havia um Marcier de rasgar as cuecas. Eu conversava muito com Antonio José sobre automóveis, tema que nos era muito caro. E não tirava os olhos do Marcier. Um belo dia o "Bode" me chamou para conversar sobre um Porsche espetacular, sua nova aquisição. Gelei. O Marcier não estava no lugar de sempre. No seu lugar, uma gigantesca tela branca, sobre a qual algum tarado derramou um balde de tinta Suvinil vermelha. Atônito, perguntei: "Bodão, cadê o Marcier?"  Resposta de Antonio José: "Descurti...". E apontando para o acidente ecológico acima de sua mesa, declarou: "Agora estou nessa...". A partir daí nossa amizade arrefeceu.

Muito mais falei com o Jaime na tentativa de justificar minhas veleidades artísticas. Imaginei, de certa forma, que o assunto poderia ser alvo de uma crônica para o "Biscoito Molhado".


Tomara que sim.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

3101 - SX Os tarados




O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5361 SX                           Data: 07 de maio de 2018

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV

AGILDINHO

Na década de 1960, então intrépido e corajoso, eu era um frequentador assíduo do Maracanã.

Na companhia de Nelson Goyanna de Carvalho, colega de Santo Inácio, também tricolor de coração, embarcava no 438 - Barão de Drummond - Leblon, a tempo de assistir à partida de aspirantes. Eu e meu amigo atentos à proficiência dos jovens que iriam envergar, num futuro próximo, a gloriosa camisa do time principal do Fluminense.

O mastro da bandeira tricolor empunhada pelo Goyanna era quase do tamanho do 438. Entrar no coletivo carregando o artefato, especialmente nas ocasiões em que o "busão" estava tomado por maioria esmagadora de torcedores do Flamengo, demandava doses monumentais de diplomacia. Disso ele se desincumbia com talento invulgar. E chegávamos vivos ao Maracanã, o que não aconteceria nos dias de hoje.

Reiterávamos nosso destemor bebendo uma impublicável laranjada que era vendida no portão principal do estádio. E testávamos nossa imortalidade consumindo, já acomodados na arquibancada, sacos de batata frita que pingavam gordura a ponto de molhar nossos sapatos.

Eram muitas as motivações que nos atraiam ao Maracanã. Entre elas, Victório Gutemberg, o locutor oficial do estádio. Suas informações, envolvendo escalações e substituições de jogadores, eram sempre precedidas pelo brado "SUDERJ informa!". Durante 42 anos, ele trabalhou no Maracanã, até falecer, em 2004. Não tenho certeza, penso que também trabalhava na Rádio Tupi. Morreu pobre, no pequeno apartamento de uma filha, no centro da cidade.

Volta e meia penso no Victório Gutemberg. Não mais no locutor que gritava a plenos pulmões "SUDERJ informa! No Fluminense, sai Evaldo e entra Ubiraci! No Flamengo, sai Airton e entra Paulo Chôco!" Hoje, imagino ouvir aquele vozeirão anunciando perdas que tornam nossa vida mais vazia e triste.

O que acaba de acontecer quando tomo conhecimento da morte de Agildo Ribeiro. No Brasil, medíocre e mal resolvido da atualidade, me vem à mente o Gutemberg gritando "SUDERJ informa! No time do bom humor e do talento, sai Agildo Ribeiro. E não entra ninguém!"

Agildo da Gama Barata Ribeiro Filho era meu primo. Primo distante. Neto de Atanagildo Barata Ribeiro, primeiro tenente da Armada Imperial e Engenheiro Construtor Naval. Tendo participado da Revolta da Armada, em 1893, escreveu na prisão o livro "Sonho do Cárcere". Atanagildo era irmão de meu tataravô Cândido Barata Ribeiro, o da rua, primeiro prefeito do Distrito Federal. Como mencionei em crônica recente, os dois irmãos, vindos da Bahia, foram acolhidos pelos monges do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro.

Atanagildo era pai de cinco filhos, quando enviuvou. Voltou a se casar e teve mais dois filhos. Um deles, o Capitão Agildo Barata, revolucionário de 30 e 32, um dos líderes da Intentona Comunista de 1935. Agildo Ribeiro, o genial comediante, foi seu único filho.

Não havia muita proximidade entre esses dois ramos dos Barata Ribeiro. Minha família era conservadora. Paulo Fortes, udenista ferrenho, admirava o Brigadeiro Eduardo Gomes, Juarez Távora, Carlos Lacerda e por aí vai. Pouco se falava em minha casa do primo Agildo Barata, comunista de carteirinha. Em seu favor, vale ressaltar, todos destacavam sua reconhecida valentia, honestidade e firmeza de propósitos.

Do primo Agildinho tinha notícias esparsas através de meu pai, que com ele cruzava com alguma frequência na Rede Globo. Somente em duas ocasiões tive oportunidade de encontrá-lo. Era muito garoto quando fui com meu pai assistir "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Agildo era a estrela maior do espetáculo e dava um verdadeiro show. Meu pai me conduziu ao camarim do astro, que foi muito carinhoso comigo.

Numa outra ocasião, anos mais tarde, diversos membros da família Barata Ribeiro compareceram a uma solenidade na Associação Brasileira de Imprensa, promovida em homenagem ao nosso antepassado Cipriano José Barata de Almeida. Cipriano foi médico, político e revolucionário combativo, que lutou pela independência do Brasil. Na ótica da ABI, foi acima de tudo um jornalista destemido, editor do sempre combativo jornal "A Sentinela da Liberdade", especializado na arte de atazanar a vida da côrte portuguesa.

Agildo compareceu à reunião. Sentou-se ao lado de meu pai, me viu e indagou: "Seu filho, não é, Paulo?" "Sim, meu filho, lembra-se dele?" "Lembro, do teatro. Mas nem precisava. Tem cara de tarado, como todo Barata Ribeiro..."

Anos mais tarde, tomei conhecimento de um fato que me surpreendeu. Agildo Ribeiro era muito amigo de Antonio Carreira, Presidente da Elevadores INDUCO, pai de meus amigos do Santo Inácio Sergio e Gustavo Carreira. Em 1949, o jovem Antonio, tenente do Exército, colaborava com seu sogro, Leopoldo Augusto da Silveira Franca, na administração de um teatro de sua propriedade, o "Follies", que estava instalado no térreo do Edifício Safira, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Ali, viria a conhecer Agildo Ribeiro, Daniel Filho e vários outros artistas de renome, uma amizade que perduraria por muitos e muitos anos.

Finalizo com uma história Agildiana que me fez morrer de rir. Agildo, convidado a se retirar do Colégio Militar, chegou à conclusão de que estava destinado à carreira artística. Sempre cercado de gente que morria de rir de suas piadas e, especialmente, de suas imitações. Não ganhava nada com isso. O objetivo a ser perseguido, então, deveria ser o de transformar aquela evidente vocação em dinheiro.

O começo não foi fácil. Durante algum tempo, atuou como "boy" em peças no teatro de revista. Rapazes que dançavam e faziam alguns salamaleques, sem grandes compromissos, no fundo do palco. O próprio Agildo reconhece que dançava muito mal. Por conta disso, era alvo de gracejos por parte da plateia. Ouvia, com frequência, observações maldosas do tipo: "Olha lá como aquele viado dança mal! Aquela bicha não leva o menor jeito!"

Isso perturbava nosso herói, que enfrentava, em casa, marcação cerrada do feroz Capitão Agildo Barata.  Resolveu, então, tomar uma providência. Deixou crescer um gigantesco bigode. Inquestionável acessório de um machão empedernido. 
Não deu certo. Aos berros, passou a ser saudado pela plateia com novas imprecações: "Olha lá como dança mal aquele viado bigodudo!"