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terça-feira, 15 de março de 2016

3022 - o filho fura a fila


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5271SX                               Data: 16 de março de 2016

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIII

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Finalmente Florença!

Muitos anos se passaram até que eu refizesse o roteiro que meu pai, o barítono Paulo Fortes, cumpriu em 1954. Em 2013, eu e Beth visitamos, enfim, a Florença sempre mencionada em suas conversas.


O relógio marcava 6 horas da manhã quando nosso trem parou na plataforma da estação de Florença. Doze horas de viagem, desde Viena.  Cansativa e desconfortável, por nossa culpa, devo dizer. Beth e eu conseguimos transformar uma cabine ampla (e caríssima!) , planejada para propiciar aos seus ocupantes uma noite de sono repousante, num mafuá de malas e sacolas de compras. Lembro a expressão do oficial encarregado do nosso vagão, quando se prontificou a montar a cama gigante que ocupava nosso latifúndio. "Impossibile!" foi a primeira palavra que proferi na língua italiana. Nossa bagagem ocupava toda a cabine. Permanecemos a noite inteira sentados, lamentando os exageros que havíamos cometido em Londres, Berlim, Praga, Salzburgo e Viena.
A tarefa, agora, era conseguir um táxi. Tentando disfarçar que o certo, mesmo, seria contratar um caminhão. Nossa vítima não demorou a aparecer:
" Hotel Paris ! Via dei Banchi 2 ! ". Bingo ! eu havia
proferido minha segunda expressão em italiano. O motorista não disfarçou achar uma idiotice eu fornecer o endereço do hotel. Até porque a distância percorrida entre a estação ferroviária e a portaria do mesmo não passava de uns cinco quarteirões. Isso, com juros e correção monetária. Nas andanças dos dias posteriores descobrimos que, descontada a sagacidade do motorista, essa distância era ainda menor.


Seis e meia da manhã do dia 10 de maio de 2013. Atrapalhamos o sono do recepcionista do Hotel Paris, que se vingou informando que, por uma deferência muito especial, poderíamos ter acesso ao nosso apartamento a partir das 10 horas.
Muito antigo o tal Hotel Paris. Para chegar ao nosso quarto a prescrição era tomar o elevador, apertar o quarto andar e descer meio lance de escadas. Para chegar ao café da manhã, pressionar o térreo e subir outro meio lance de escadas. Leonardo da Vinci não participou daquele projeto.


O recepcionista ficou de saco cheio de ver aquele casal de brasileiros ocupando a recepção do hotel e decidiu liberar nosso quarto às 9:30.
Quarto antiguinho, meio barro, meio tijolo. Muito grande, o que causava um tremendo problema. Para se assistir sua mínima televisão, instalada numa das extremidades do recinto, impunha-se ficar de pé diante dela. Era o que eu fazia. Uma profusão de importantes jogos decisivos de vários torneios europeus, sempre transmitidos à noite, levavam a Beth ao desespero.


Chegamos ao tal quarto mortos de cansaço, merecedores de um sono reconfortante. Mas eu levara décadas para conhecer, finalmente, a Florença que tanto encantava meu pai. Não havia um minuto a perder, até porque eu estava informado de que nosso hotel estava "colado" a grandes atrações do centro histórico de Florença.
Dito e feito. Uma caminhada de não mais do que três quarteirões e estamos diante do "Duomo". Da "Porta do Paraíso". Do "Campanille de Geotto". Lembrei-me das cartas de meu pai, que guardo há quarenta anos, onde ele descrevia essas maravilhas.
A praça fervilhava de gente. Os bares e restaurantes estavam super-lotados. De repente, num bar muito simpático, fica vaga uma mesa bem em frente ao "Duomo". Poucas vezes tomei uma cerveja com tamanha sensação de merecê-la até a última gota.


Dia 11 de maio de 2013. Chegamos ao ponto culminante de nossa viagem. Dia em que eu e Beth combinamos refazer os roteiros de Paulo Fortes. Em especial conhecer a " Pensione Argentina ", onde ele se hospedou durante todo o período em que cantou em Florença. E conhecer o Teatro Comunale, palco de suas apresentações na cidade.
Consultamos o mapa. A conclusão foi a de que a "Pensione" não ficava muito perto. Decidimos ir a pé. Tomando como referência o rio Arno.
Foi, realmente, uma boa caminhada. Deixamos para trás a agitação do centro histórico e, à medida em que caminhávamos, encontramos uma cidade progressivamente mais calma, mais deserta. Pergunta daqui, pergunta dali, chegamos finalmente à Via Curtatone 12.
A "Pensione Argentina" havia sido promovida a Hotel Argentina". Dos papéis amarelados das cartas de Paulo Fortes consta o telefone 25-408. Não me animei a fazer essa ligação.
O prédio, externamente, até que é bacana, imponente. No interior o que se vê é um hotel simples, aparentemente decorado com objetos comprados na feira de antiguidades da Praça XV. A promoção de "Pensione" a "Hotel", tudo indica, não resultou em "up grade" nas instalações do estabelecimento. Olhando em volta, descubro uma placa que atesta ser o Hotel Argentina um três estrelas. Mesma pontuação do nosso  Hotel Paris. Fica claro que rola um "pixuleco" na Secretaria de Turismo de Florença.
O recepcionista do hotel tinha alguma coisa a ver com o Jim Carey. Pareceu-me tão aloprado quanto. No meu italiano de quinta categoria tentei explicar o motivo de minha visita: "Meu pai, um barítono brasiliano, cantou várias óperas em Florença, no século passado. Durante esse período, aqui permaneceu hospedado...". Jim Carey, aflito, explicou que o hotel havia mudado de dono, cerca de oito anos atrás, Achei que seria didático mostrar para o sujeito algumas cartas de meu pai, em papel timbrado da "Pensione". Junto a esse dossiê, uma foto de Paulo Fortes, com a vestimenta de "Il Cadi Inganato", de Gluck, distribuída em 1954 pelo Teatro Comunale. Jim Carey examinou a foto com atenção e comentou: "Esse senhor não tem aparecido por aqui ultimamente...
Beth não gostou do que eu disse para o sujeito:
"Graças a Deus..."


Cumprida a etapa de conhecer a "Pensione Argentina", nosso destino seguinte era o Teatro Comunale de Florença. Sua inauguração aconteceu em 17 de maio de 1862. Era conhecido como Politeama Fiorentino Vittorio Emanuele. Nele se acomodavam 6 mil pessoas sentadas (!). O teatro pegou fogo, tendo sido reaberto em 1864. Ganhou um teto em 1882. Em 1911 nele foram instalados aquecimento e eletricidade. Em 1930 foi estatizado e passou a se chamar " Comunale ". Nos dias de hoje é mais conhecido como "Teatro del Maggio Musicale Fiorentino". Esse festival confere ao Comunale posição de destaque entre os palcos mundiais da música clássica.


A distância que separa a "Pensione Argentina" do Teatro Comunale me fez entender a opção de meu pai por um hotel meia-bomba. Dois quarteirões, se tanto. Esperto esse tal de Paulo Fortes... Sempre lembrando, além disso, que ele não cogitava gastar sua escassa verba de viagem com luxos ou futilidades.
Chegamos ao Comunale pela porta dos fundos. E nos deparamos com uma tremenda agitação. Dezenas de pessoas empunhavam faixas e cartazes, protestando contra a administração do teatro. Reclamavam da falta de verbas para a cultura, dos baixos salários, da programação incipiente do teatro. Nada diferente do que sempre ouvi meu pai comentar a respeito do Municipal do Rio, ao longo de meio século de carreira. Tracei imediatamente um paralelo entre aquela agitação e as mazelas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Eu estava completando quatro anos na Direção Executiva da Orquestra. repletos de tensões e grandes aborrecimentos.
Rapidamente cheguei à conclusão de que em Florença ou em Pindorama tudo deve ser muito parecido. Aqui é grande a quantidade de empresários, financistas, gente ligada a governos ou coisa que o valha, dispostos a assumir cargos em instituições culturais. dispostos a salvá-las da morte certa. Do caos administrativo. Da bancarrota inexorável. Farão isso concedendo-lhes minutos do seu preciosíssimo tempo. Prontos a contribuir com sugestões geniais que, no dia a dia do mundo dos negócios, são avaliadas a peso de ouro.  
Seu desprendimento é comovente. Agarram-se a esses cargos durante anos a fio. Não entendem de arte, muito menos de música ou de músicos. Mas querem colaborar com essas causas nobres a custo zero. Comove poder contar com tanta sabedoria, com tanta proficiência.
Injusto lembrar sua capacidade de cometer as maiores lambanças, arrumar terríveis confusões. Tudo em nome da cultura. Em nome da arte.


Contornamos o grupo de manifestantes à procura de uma porta que desse acesso ao Comunale. A portinha dos fundos, a entrada dos artistas, que deve existir em todos os teatros do mundo. Seja no Colon de Buenos Aires, no Metropolitan de Nova Iorque, no Comunale... Certamente, todas são muito parecidas. Pela do Municipal do Rio devo ter passado mais de mil vezes...
Na recepção do Comunale está sentado um cidadão que não é exatamente um campeão de simpatia. Conto minha historinha, no meu italiano impublicável: "Mio padre... un barítono brasiliano... ha cantato in questo teatro..."
Com falta de saco total, o tal sujeito pelo menos me deixou falar. Mas deu a conversa por encerrada com a informação : "daqui a pouco vai começar o ensaio geral da orquestra. A entrada não é permitida. Impossível visitar o teatro nesse momento "
Saímos desanimados cruzando com nossos manifestantes. Decidi tentar uma última cartada. Dirigi-me a um grupo que me pareceu simpático, indagando se haveria uma hora própria para visitar o teatro. Afinal, "Mio padre... Barítono brasiliano..." Deu certo! Meus agitadores eram músicos da orquestra do Teatro Comunale. Braziliani? Estivemos no Rio de Janeiro no ano passado e tocamos naquele belíssimo teatro que fica perto do mar...Teatro Municipal? ... É esse mesmo!..." "Seu pai cantou aqui no Comunale? Ele era do coro?"
Eu havia chegado perto do gol. E o goleiro saíra para lanchar. "Meu pai cantou primeiros papéis! Cantou óperas muito especiais, entre as quais tal, tal e tal... Foi regido pelos Maestros Franco Ghione, Bruno Bartoletti, Vittorio Gui... Finalmente, corri para a torcida sacando do meu envelope as fotos publicitárias do Comunale, com Paolo Fortes (das fotos consta Paolo, e não Paulo) devidamente paramentado para cantar "Il Conte Ory", "La Fata Malerba", "La Granceola" e por aí vai.
Gelo quebrado, os músicos indagam: "Mas o que vocês querem ? Conhecer o teatro ? Isso não é problema. É só entrar com a gente. Daqui a minutos temos ensaio com o Maestro Zubin Mehta para o concerto de domingo. Vamos abrir um camarote para vocês.”
O antipático da portaria viu-se na contingência de fornecer ao grupo a chave do camarote. Assistimos, emocionados, o grande Zubin Mehta ensaiar a orquestra do Comunale na "Sagração da Primavera". Cinquenta e nove anos depois da estreia de meu pai em Florença, eu conhecia o teatro em que ele alcançara marcos importantes de sua trajetória artística.



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