Total de visualizações de página

quarta-feira, 2 de março de 2016

3019 - a caravana ladra enquanto os cães passam



----------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5268D                                Data: 02 de março de 2016

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIII

------------------------------------------


Das lendas cariocas, poucos falam; é como se lenda fosse coisa exclusiva do Neguinho do Pastoreio, ou das histórias do Velho Oeste. A lenda tem por missão dar veracidade histórica a uma mentira das boas e é por isso que são contadas. E recontadas.

Da minha infância, guardo as referências à Turma dos Cafajestes. Mal falados, abusados e abusadores das boas tradições da família tradicional, eu também pensava assim até que conheci um cafajeste. Aliás, Cafajeste. Pessoa de caráter inabalável, ainda que não tenha trabalhado sequer por quinze minutos ao longo de quase 90 anos. E comecei a perceber que as minhas referências eram devidas aos jornais e revistas, onde se tratava era de contar lendas, passadas na mídia carioca de fofocas, sempre à cata de uma novidade bombástica.

Vendo “O Homem do Sputnik”, chanchada da Atlântida de 1959, pude avaliar a dificuldade que um repórter de fofoca tinha para se passar para o lado sério da mídia, um reino de competição, traição e trapaças, onde raramente o bom caráter poderá sobreviver. Páginas sedosas como o seu O BISCOITO MOLHADO não sobreviveriam minutos se incluídas em jornal.

Mas estas páginas sedosas podem receber uma lenda, a lenda do Caju Amigo, escrita por quem sabia muito do assunto. (*)

A expressão, segundo me contou Sérgio Porto acompanhava os velhos boêmios do Rio. A turma que frequentava a Lapa, o Café Nice e o Brahma tinha o hábito de, depois de muito beber, chupar um caju. O caju tirava o cheiro da bebida e assim chegavam em casa com o habeas corpus já providenciado. E esse caju passou a ser chamado pela turma do copo de Caju Amigo.
Quando faleceu o comandante Edu, um amigo querido e fundador do Clube dos Cafajestes, resolvemos fazer a Festa do Adeus dos Cafajestes, como última homenagem. Foi no antigo Cassino Atlântico, onde hoje está o Hotel Rio Palace, com muita bebida, muita mulher bonita, muita saudade e muitas lágrimas, principalmente quando tocava a música que Paulo Soledade fizera para Edu: "Zum, Zum, Zum, tá faltando um". Dois anos depois, em 1954, Carlos Peixoto ofereceu um almoço para algumas celebridades de Hollywood que estavam aqui trazidas pelo Harry Stone. Entre elas, Ginger Rogers. Fizemos uma bebida para dar porre em gringo e misturamos suco de caju com gim. Acrescentamos um pouco de limão para cortar a cica do caju e açúcar. Eis a receita que foi batizada por João Pacheco Chaves de Caju Amigo.
No final daquela semana resolvemos refazer a festa do Edu, transformando-a num baile pré-carnavalesco – o baile do Caju Amigo – e usando como base etílica a bebida que surgira no almoço. A festa foi no Vogue e terminou com um desfile pelo quarteirão, com a banda tocando, o trânsito parado, uma loucura. O mais divertido é que estava em grande moda a leitura das colunas sociais, principalmente a do Ibrahim Sued. Era a época do café society.
Fizemos gozação dos personagens mais importantes e me vesti de "A Dama de Preto". Carlos Peixoto foi de Lourdes Catão, Toddy, de Thereza de Souza Campos, Mariozinho, de Didu. Terminada a festa, fui para o Marimbás, onde, sem tirar minha fantasia, continuei bebendo.
Nesta mesma noite, o barão Von Stuckart deu na sua boate — onde realizamos o nosso Caju — uma festa black-tie e compareceram todas as figuras do café society, inclusive as homenageadas à tarde. Às onze da noite adentrei o Vogue com meu vestido preto, bolsa, chapéu e tamancos. Foi o maior sucesso e, por isso, o Caju Amigo pegou. E todo ano passamos a promover o nosso pré-carnavalesco.
A especulação imobiliária ia destruindo Copacabana e nós dávamos a nossa festa sempre em uma casa espaçosa que estivesse para ser demolida. Era a festa de despedida de mansões tradicionais, com muita mulher bonita, muita animação, muita lança-perfume, alguns escândalos notáveis e Caju Amigo até não poder mais.
Em 1956, fizemos uma festa em pleno mês de junho, Carnaval no meio do ano para Jane Mansfield, conhecida como "O Busto". Ela encheu a cara; quanto mais Caju Amigo entrava, mais seus peitos pulavam para fora do vestido e o marido, um massa bruta descomunal, tentava tapar os seios saltitantes.
Outra linda festa foi dada num palacete na Rua Toneleros. Atendendo a inúmeros pedidos, permitimos que os fotógrafos tivessem acesso, desde que nós fizéssemos a seleção das fotos que poderiam ser publicadas. Santa ingenuidade. Depois do carnaval, a revista Manchete publicou uma reportagem do Darwin Brandão, intitulada "Vício no Carnaval Carioca", onde a maioria das fotografias era exatamente as proibidas do Caju, fotos de mulheres lindas com homens casados, deputados, senadores, todos sob o efeito devastador do nosso Caju Amigo. Foi uma grita geral. Foi impossível explicar o inexplicável.
Anos depois, por sugestão de Alberto Sued, promovemos um Caju sofisticado, na boate Sucata, com obrigatoriedade de fantasia ou rigor. Era fantástico ver o pessoal de smoking no meio da tarde, mulheres fantasiadas, gente que deveria estar em São Paulo, mas se encontrava na Lagoa, marido dando de cara com esposa, a disputa pelos convites, tudo criando o folclore do Caju Amigo.
O último ocorreu em 1972, no Marimbás. Mas o clima mudara, não havia mais a amizade de outrora. As mulheres continuavam lindas, mas surgiu uma nova geração que não tinha o mesmo espírito, gostava de brigar, de criar confusão. E a nossa festa tinha como objetivo principal a diversão, a alegria e a descontração. Os tempos eram outros.
Ainda nos bons tempos da nossa festa, ocorreu um fato sensacional. Um amigo nosso estava brigado com a namorada, também nossa amiga, que era um mulherão. Foram ambos à festa e uma mulher daquela dando sopa, ia muita gente dar em cima. Foi o que aconteceu. O resultado é que o pau comeu. Fernando Ferreira, que assistiu a briga entre os dois, declarou com muito humor: "De amigo, aqui, só resta o caju".

(*) Carlinhos Niemeyer explicou a origem da expressão Caju Amigo. Se alguém pesquisar a origem da bebida na internet, vai achar que foi criada por barman paulista na década de 70. Mas isso não é verdade.

5 comentários:

  1. Boa, muito boa. Gostei das páginas sedosas , gostei de trazer Carlinhos Niemeyer e do caju salvo conduto.
    Mas no âmago, no cerne da lenda, eu fico com os seios da Jane Mansfield.

    ResponderExcluir
  2. Prezado leitor, a distribuição do seu O BISCOITO MOLHADO tem por norma agradecer elogios e boas referências, ainda que eivadas de suspeição.

    ResponderExcluir
  3. Não sei se é só eu, mas nas edições do BM-D sempre me dá uma sensação de "quero mais" e/ou "faltou dizer", no sentido de que o melhor* dos "causos" não foi dito...
    (*) jack Deus e o diabo moram nos detalhes, eventualmente "os mais sórdidos"

    ResponderExcluir
  4. "Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos."
    (Nelson Rodrigues)

    ResponderExcluir