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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

2528 - Rodrigues agradou e bateu na mulher



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4328                        Data: 14 de dezembro  de 2013
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CARTAS DOS LEITORES

-Bom texto, muito bom, bem rodriguiano mesmo. Elio
BM: Elio, alude, generosamente, ao momento em que o Biscoito Molhado tentou ser parecido com “A Última Hora”, de Samuel Wainer na coluna “A Vida Como Ela É”; e, acima de tudo, homenagear Nélson Rodrigues.
Ele é lido por nós desde quando nos encontrávamos na flor da idade. Aqui, pedimos licença ao escritor José de Alencar para utilizarmos uma expressão da sua preferência. Aliás, os primeiros romances que lemos  foram dele, influência da minha mãe: “O Guarany”, “Til”, “O Tronco do Ipê”, “Senhora”, “Iracema” e “A Pata da Gazela”.
O vocabulário do escritor cearense não era tão rebuscado quando o do português Camilo Castelo Branco, mas requeria um dicionário por perto. O meu pai tinha apenas um vocabulário com milhares de páginas, ou seja, as palavras lá estavam, mas não os seus significados. Contudo, as tramas elaboradas do José de Alencar me prendiam de tal forma que, mesmo não entendendo o que diziam certos verbetes, eu seguia a leitura até o ponto final.
Concomitantemente, meu pai me trazia livros do Alexandre Dumas, e fui devorando todos um por um. Pouco depois, me veio com outros, de capa e espada, do Michel Zevaco, um escritor que nasceu na mesma cidade de Napoleão Bonaparte, Ajaccio e seguiu a trilha do seu mestre misturando ficção com a história da França desde a era medieval, (o protagonista de várias histórias suas era Pardaillan, homenagem ao herói de “Os Três Mosqueteiros”.  
No meio de todos esses livros, eu nunca deixei de lado as crônicas esportivas do Nélson Rodrigues. Não cheguei a ler, nessa época, “A Vida Como Ela É”, apesar de ela ser publicada até 1961, no Diário da Noite de Assis Chateaubriand, porque meu pai só trazia para casa O Globo, que ele dizia ser sua cachaça, e o Diário de Notícias, onde trabalhava. Foi em 1962 que eu travei conhecimento com os textos sobre futebol do Nélson Rodrigues, ano do seu retorno ao jornal do Roberto Marinho, e os acompanhei, com as posteriores “Confissões”, diariamente até sua morte em 1980.
“A Vida Como Ela É” me chegou através de um livro de um sebão, no Centro da cidade, que reunia algumas dezenas dos mais de mil contos que criou. Saí à cata de outros livros, mas encontrei apenas um.
Certa vez, vi, numa entrevista, o Nélson Rodrigues Filho revelar que seus colegas do Colégio Militar, que liam o seu pai na Última Hora, lhe perguntavam se ele batia mesmo na mulher.
Como não poderia deixar de ser, o grande escândalo que ele provocou foi escrever que mulher gosta de apanhar e declarar isso em alto e bom som na televisão, TV Rio e TV Globo. Os estudiosos da mente humana, Freud e Jung lidaram, desde o início do século XX com mulheres que gostavam de apanhar. Uma das primeiras psicanalistas, talvez a primeira, a russa Sabina Spielrein, que foi paciente dos dois, sentia prazer em levar umas porradas. Freud explicou o porquê, mas não vamos no deter nisso.
Nélson Rodrigues trouxe, simplesmente, para o subúrbio esses casos que não ficavam restritos à Europa da Belle Époque.
Na Rua Chaves Pinheiro, nos anos 70, tínhamos um vizinho que sabia agradar as mulheres, haja vista o grande número de namoradas que levava para a sua casa de solteiro. Uma delas era brutalmente espancada pelos gritos que dava, de acordar qualquer um. Certa vez, a pancadaria foi tal que (não exagero) o motorista do Méier-Maria da Graça parou o ônibus no ponto, que havia na rua, para saber o que estava acontecendo.
No dia seguinte a esse caso, eu estava lavando a varanda, lá pelas 8h da manhã, quando agressor e agredida saíram de casa e passaram por mim de mãos dadas, parecendo dois pombinhos.
“Era a Vida Como Ela É”, que Nélson Rodrigues retratou tão bem.

-Se vai ser assim, daqui por diante precisaremos de uma Distribuidora que aja, e não de uma terceira pessoa.  Roberto Dieckmann.
BM: A reação do Dieckmann, diante do BM que homenageou o Nélson Rodrigues, pelo que vemos, foi inteiramente oposta à do Elio (*).  Foi bom sabermos disso, pois, com a proximidade do Natal, não sabíamos que presente dar ao Distribuidor do Biscoito Molhado, agora sabemos: a coletânea de 100 contos de “A Vida Como Ela É” lançada pela editora Nova Fronteira pela efeméride do centenário de nascimento do Nélson Rodrigues.

-Fiquei estupefato ou acachapado, como diz o Jonas Vieira, quando soube por ele que o grande compositor Ary Barroso vendeu os direitos de “O Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro” ao Andre Kostelanetz, depois arrependeu-se amargamente devido ao sucesso que essas duas composições obtiveram. Pelo menos, Ary Barroso não vendeu os direitos de autor. Graças a Deus. Fã do Ary
BM: Meu caro leitor e ouvinte do Rádio Memória, acreditamos que não devemos fazer uma leitura superficial sobre isso, é forçoso refletir.
O êxito obtido por “Na Baixa do Sapateiro” e “O Tabuleiro da Bahiana” levaram o compositor brasileiro a se arrepender da venda dos direitos sobre essa música, eis um fato. No entanto, essas músicas conseguiriam o sucesso que alcançaram porque Andre Kostelanetz as divulgou com sua orquestra, pois ele tinha admiradores em quase todo o mundo, entre eles o próprio Jonas Vieira. Ele tinha um público cativo.
Ary Barroso obteve grande sucesso internacional com “Aquarela do Brasil”, o que não significava igual êxito com outras composições suas, ainda que fossem mais inspiradas.
Guardei na retentiva uma crônica de uns vinte anos atrás do José Ramos Tinhorão sobre a ida de Ary Barroso a Hollywood e a proposta dos estúdios Disney de ele ficar por lá compondo. Segundo o polêmico estudioso da música popular brasileira, a sua recusa se deu, na realidade, pelo fato de ele não saber ler partituras o que era imprescindível. E acrescentou o José Ramos Tinhorão que o grande sucesso da “Aquarela do Brasil” se deve, em grande parte, ao arranjo elaborado por Radamés Gnatalli.
Nesse ponto, eu tendo a concordar com José Ramos Tinhorão, há arranjadores que também deveriam ser denominados de parceiros de tanto que enriquecem o que os compositores lhe entregam como matéria bruta.
Sintetizando: sem Andre Kostelanetz, cremos que “Na Baixa do Sapateiro” e “O Tabuleiro da Bahiana” não alcançariam a mesma repercussão internacional.

-A sua cunhada Gina recebeu o livro que lhe dei de presente de Natal? Rosa
BM: Ela já está lendo, Rosa.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO afirma que a reação não é oposta e sim síncrona, por mais estranho que isso possa parecer, em se tratando de uma opinião do Elio. E agradece, desde já, o presente que vier, mesmo que seja recebido pelo Dieckmann.




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

2530 - o besteirol farináceo



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4330                        Data: 17 de dezembro  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA SEM VISITA DE MÉDICO
PARTE II

Jonas Vieira verbalizou sua revolta com o Brasil de hoje.
-País sem memória; adora um besteirol.
E foi adiante:
-Nos anos 50, o que era importante, era bem tratado respeitado. Exemplo: Maysa, uma grande cantora que também compunha. Ela é uma das minhas saudades. A TV Globo dedicou uma minissérie a ela com erros gravíssimos. A minissérie que realizaram sobre a Dalva de Oliveira e Herivelto Martins foi ainda pior. Para vocês terem uma ideia, o Vicente Paiva apareceu branco.
-Era o Michael Jackson.
Um dos charmes do Rádio Memória é a descontração e Sérgio Fortes sacou logo a piada sobre o branqueamento do pianista, cantor, compositor e maestro feito pela TV Globo.
Descontração e música; e o titular do programa anunciou, da própria Maysa, “Meu Mundo Caiu”.
Músicas pungentes desagradam o nosso amigo Dieckmann, assim como as do Chico Buarque dão urticária no Lobão, como ele revelou em recente entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura. Eu ouvia o sofrimento melódico da Maysa e me recordava de outra música triste: “Ninguém me ama”, de Antonio Maria; ao mesmo tempo me vinham  à mente as reuniões do Sabadoido, antes de endoidecer de vez. Numa delas, o Luca citou uma pergunta que o Oswaldo Sargentelli fez à Sandra Cavalcanti, no seu programa televisivo de perguntas contundentes “Advogado do Diabo.” Era esta a pergunta:
-Antonio Maria a coloca entre as mal amadas do Lacerda; o que você tem a dizer?
-Mas quem compôs “Ninguém me ama” foi ele... - respondeu a Sandra Cavalcanti com uma língua ferina digna do seu mestre.
Mas voltemos ao Rádio Memória.
Depois que o mundo da Maysa caiu, Jonas Vieira frisou que o programa desse dia 15 de dezembro de 2013 era dedicado a Nélson Mandela. E ele, mais o Sérgio Fortes e o Fernando Borer lembraram passagens do grande ser humano.
Em seguida, veio a Pausa da Meditação com a ressalva que foi redigida pelo Fernando Milfond antes do passamento do Mandela, se não o tema seria o estadista.
Bem, pela sonora locução do José Maurício, que não se desgasta com o tempo, escutamos uma espécie de “Tudo o que você gostaria de saber sobre a maconha e tinha vergonha de perguntar.”
A segunda parte do Rádio Memória se iniciou com um comentário do Jonas Vieira sobre a crônica do Fernando Milfond.
-É a erva maldita. Não... a erva maldita é o dinheiro.
E se voltou para o seu parceiro.
-Agora, você, Sérgio Mandela.
-Não, eu sou o papa. - protestou.
Quando Freud criou a associação com nomes como uma das bases da técnica psicanalítica sabia o que estava fazendo: Sérgio Mandela puxou o Papa Sérgio I que, por sua vez, trouxe à tona o Papa Francisco, que foi enaltecido mais uma vez pela sua atuação no pontificado.
Era a vez da escolha musical do Fernando Borer e ele não voltou muito no tempo:
“Senza Fine”, de 1963, de Gino Paoli com a participação também de Ornella Vanoni.
E enveredou pelo conflituoso caso amoroso que uniu neuroticamente o casal redundando na tentativa de suicídio de Gino Paoli.
-Até hoje ele tem a bala no pericárdio. - informou.
Veio-me logo à mente a paixão avassaladora do Frank Sinatra pela Ava Gardner, que o levou ao fundo do poço e também à tentativa de suicídio.
Fernando Borer trouxe a gravação de ”Senza Fine”, de 1980, com Zizi Possi.
-Bela voz. - concordaram todos depois que soou a última nota.
-A gravação é de 1980? - expressou espanto na pergunta o Sérgio Fortes.
Depois de o doutor confirmar, Sérgio Fortes continuou assombrado:
-Já se passaram 33 anos!...
Jonas Vieira, mais preocupado com os minutos que faltavam para o fim do programa, o apressou:
-E agora, Sérgio?
-Eu trouxe uma cantora extraordinária: Jessye Norman.
-A minha preferida.
É verdade que o Jonas Vieira diz isso para todas, mas no caso da Jessye Norman, nós acreditamos. Se o legendário tenor Giacomo Lauri-Volpi fosse do tempo dela, colocaria Jessye Norman no seu livro “Vozes Paralelas” entre aquelas que foram incomparáveis.
A composição era de Richard Rodgers  e Lorenz Hart, “With a song in my heart”, do musical “Spring is here”, de 1929.
-Orquestra de Boston Pops, regida por John Williams.
E concluiu o Sérgio Fortes:
-Melhor do que isso só no céu.
As exclamações de encantamento de todos se encerraram com a vez de o Jonas Vieira fazer a sua escolha musical.
-Sou fã do Andre Kostelanetz.
O que ouviríamos com a orquestra do seu ídolo? - perguntamo-nos todos, enquanto ele prosseguia:
-Chopin só compôs para o piano. Entre as coisas maravilhosas do Chopin está a “Fantasia Improviso”. É sobrenatural o arranjo que o Andre Kostelanetz fez. Vejam.
Bem, nós do Biscoito Molhado consideramos um sacrilégio o fato de o Vinícius de Moraes ter pego a Cantata 147, de Bach, “Jesus, alegria dos homens”, e ter transformado na marcha “Rancho das Flores”, mas temos de admitir que o  arranjador e maestro  Andre Kostelanetz foi bastante criativo na leitura que fez de uma das mais populares peças do gênio polonês.
Com o Fernando Borer, veio a canção de 1957 do filme “The Joker is Wild” (“Chorei por você”):
-”All The Way”, que Frank Sinatra tornou definitiva. A orquestra que o acompanha é de Nelson Riddle.”
O filme é alusivo à vida do comediante e cantor, atração das casas noturnas, Joe E. Lewis.  Na biografia do Frank Sinatra, que foi o protagonista do filme e exigiu que todas as cenas musicais fossem ao vivo, ele escreveu:
-”Quando eu apresento um número e alguém tosse, eu gosto. Gosto do barulho do arrastar das cadeiras. Você pega o sentimento que envolve a atmosfera do lugar. Eu sempre achei que Lewis era um dos quatro ou cinco maiores artistas deste século, outro deles era Al Jolson...”
Cabia agora ao Sérgio Fortes apresentar a próxima atração.
-Vamos ouvir o baixo-barítono galês Bryn Terfel no “Camelot”, de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, musical de 1967.
Outra voz privilegiada, presença frequente no seu programa de dez anos atrás, “As Melhores Vozes do Mundo.”
Foi lembrado por Fernando Borer a citar maestro e orquestra:
-Regente Paul Daniel, English Northern Phylharmonia.
Depois, Jonas Vieira nomeou mais uma das suas saudades: Dolores Duran. A música interpretada por ela foi composta por João do Vale e Luiz Vieira, “Na Asa do Vento”.
O “demorado abraço” de todos os domingos do Jonas Vieira encerrou mais um Rádio Memória.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

2529 - locomoção vertical



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4329                        Data: 15 de dezembro  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA SEM VISITA DE MÉDICO

-Muitíssimo bom-dia.
Com a sua costumeira saudação, o titular do programa deu início aos trabalhos.
 E, em seguida, anunciou a presença do doutor Fernando Borer. Não se tratava da duração de uma visita de médico que, atualmente, se tornou padrão nos consultórios, ou seja, o doutor dedica quinze, no máximo, vinte minutos a um paciente e a anamnese, tão importante no diagnóstico das doenças, fica descartada com essa medicina de alta rotatividade. O doutor Borer estaria nesse Rádio Memória do dia 15 de dezembro durante uma hora, tempo, que acreditamos, ele permanecia com um doente no seu consultório quando clinicava.
Lamentei que esse programa não tivesse acontecido no sábado, Dia Nacional da Ópera.  Sérgio Fortes teria, assim, a oportunidade de celebrá-lo com trechos das criações de Carlos Gomes, interpretados por Paulo Fortes, Ida Miccolis, Assis Pacheco, Lourival Braga, Fernando Teixeira, Glória Queirós e outros artistas da nossa cena lírica.
Como faltavam dezesseis dias, não dezessete, para o fim do ano, Sérgio Fortes informou que era o Dia da Mulher Operadora de Direito.
-Não seria mais simples dizer advogada?
Pois é Sérgio, num órgão público, para justificarem o substancioso salário dos ascensoristas, eles foram enquadrados como “técnicos de locomoção vertical”.
E prosseguiu no papel de homem-calendário, como gosta de ser chamado:
-No dia 15 de dezembro de 687, foi eleito o papa Sérgio I.
Jonas Vieira, em vez de tomar a benção daquele que é xará de tão insigne figura, fez uma piada e o Fernando Borer gostou.
Da igreja, Sérgio Fortes passou para o campo de futebol.
-No dia 15 de dezembro de 1963, um Fla x Flu decidiu o  campeonato carioca de futebol e o Maracanã recebeu um público de 194 603 pessoas, com 177 mil pagantes.  Eu estava lá.
-Eu também, mas saí campeão, você não. - manifestou-se o Jonas Vieira.
-O Fluminense teve a vitória nos pés do Escurinho, no final do jogo, e ele deu um piparote na bola, como dizia o Ary Barroso e o Marcial agarrou.
O choro regressivo, que de tantos tricolores ouvi, principalmente do meu pai, eu ouvia agora do Sérgio Fortes.
-Nesse dia – tomou a palavra o flamenguista do Rádio Memória - aconteceu uma coisa inédita para mim; era tanta gente que tive de assistir à partida da geral.
-O que houve com o Maracanã de hoje, onde não cabem mais de 70 mil torcedores. Tornou-se “pocket”?
Perfeita a comparação do Sérgio Fortes, embora tivesse recorrido à língua inglesa. Depois dos livros de bolso, veio a FIFA e impingiu os estádios de bolso.
Nós, do Biscoito Molhado, também lá estivemos, na geral, no meio de tantos torcedores apaixonados, porém ordeiros. Creio que todos aqueles que tinham mais de 14 anos na época, se achavam no Maracanã nesse dia. Ah, sim: havia um garoto de uns 10 anos que, pelo tamanho, não conseguia ver nada além do fosso do Maracanã.  Seu pai  o ergueu e enganchou suas pernas no pescoço, sustentando-o nos ombros. Os que estavam atrás não concordaram com esse apreço paternal, pois eles, agora, é que não conseguiam ver o jogo. E sobre o menino choveram tantos copos amassados de mate, tantos pauzinhos de picolé, que o guri teve de voltar a pisar o chão. Como o técnico Osvaldo de Oliveira disse que foi ao Fla xFlu da final do campeonato de 1963, vamos pesquisar se não era ele esse garoto, pois sempre foi muito hostilizado pelas torcidas,  diga-se de passagem, injustamente.
Da geral, via-se muito bem 5% do campo, quanto aos outros 95%, tínhamos de recorrer à imaginação ou ao radinho de pilha.  O lance em que o Escurinho, de cara com o gol, atrasou, praticamente, a bola para o goleiro do Flamengo, ocorreu nesses 5% que estavam à minha vista.  Que coisa, Escurinho!...
Informou o homem-calendário também que, no dia 15 de dezembro de 1970, ocorreu a última transmissão da TV Excelsior. Não entrou em detalhes, o que exigiria todo o horário do Rádio Memória, como aludir ao fato de o empresário Mário Wallace Simonsen desagradar aos militares da ditadura, o que levou ao fechamento da TV Excelsior e da Panair do Brasil, entre outras barbaridades.
Mas o objetivo do Rádio Memória é deflagrar as boas reminiscências através da música, e a palavra foi passada para o Fernando Borer. E ele optou por “Sweet and Lovely”, de Gus Arnheim, Harry Tobias e Neil Moret, disco lançado em 1934. Preferiu a leitura de uns poucos instrumentistas de jazz, com destaque do baixo, de um CD que não foi identificado.
Foram uns quinze minutos do som do saxsoprano de Sonny Stitt, do piano de Duke Jordan, do baixo de Sam Jones e da percussão de Roy Brooks.  Eu ouvia e me perguntava se o Dieckmann, caso lá estivesse, conseguiria aguentar esse tempo todo sem falar.
No fim, Jonas Vieira cantarolou a parte da letra, mas sem o brilhantismo de outro programa, quando, em alemão, cantou “Lili Marlene”.
Sérgio Fortes anunciou que estava com um CD com arranjos de Henry Mancini das criações de Ennio Morricone e Nino Rota, o que provocou frêmitos de entusiasmo dentro e fora da Rádio Roquette Pinto.
-A música é de Nino Rota, “The Clowns”. Parece que estamos mesmo diante de um circo.
Com toda a razão estava o Sérgio Fortes; desde os primeiros acordes me veio a lembrança do Carequinha, do Fred, do Zumbi, do Meio-Quilo e do Arrelia. Noto, agora que digito estas palavras, que o Bozo, palhaço mais recente, ficou inteiramente esquecido por mim, ou seja, eu voltara unicamente à minha meninice.
 Num dos seus poemas, Manuel Bandeira escreveu que queria “... o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo pungente e difícil dos bêbados, o lirismo dos clowns de Shakespeare.” Não se ajustaria o poema de Manuel Bandeira ao lirismo esfuziante e ribombante dos clowns de Nino Rota no arranjo de Henry Mancini.
-Demais da conta! - expressou o Jonas Vieira a sua satisfação.
Imaginei que, na próxima escolha, o Sérgio Fortes preferiria a fúria dos clowns de Leoncavalo, pedindo a gravação da ária “Vesti La Giubba”, mas isso não aconteceria.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

2527 - Maria Manet



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4327                         Data: 12 de dezembro  de 2013
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171ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

Entrei no táxi do Albino sabendo que me faria a pergunta com que sempre me recebe:
-E o metrô?
Pensei nas TVs espalhadas pelos vagões que nos distraem da viagem, embora a programação seja a mesma durante algumas semanas.  Hoje, no entanto, eu assistira a algo interessante, que eu desconhecia. Primeiramente, houve uma referência a um famoso bordão, nos Estados Unidos, criado pelo ator Robert De Niro no filme “Taxi Driver”: “You talkin' to me?”. É dito, então, que o diretor Martin Scorsese dera a ele o direito de improvisar na cena em que se olha no espelho. Em seguida, afirma-se que Robert De Niro se inspirou em Marlon Brando na cena do filme “O Pecado de Todos Nós”, em que ele se vê, fardado, diante de um espelho.  Surge, então, na TV do metrô esse momento do filme de John Huston: o ator nada fala, porém muda as feições labiais.
Não, Albino não me parece um adepto dos clássicos do cinema, mas eu queria lhe dizer alguma coisa a que assistira na TV do metrô e me lembrei de algo que, talvez, fosse assunto para uma conversa:
-Eu vi, dia desses na câmera do metrô...
-É uma espécie de televisão? - cortou-me.
Confirmei e prossegui:
-Pelo que foi mostrado nela, o terceiro nome de mulher mais comum no Brasil é Francisca; o segundo, Ana; e o primeiro, Maria.
-Maria ficou em primeiro lugar disparado, aposto.
-Naquela estatística, são 13,5 milhões de Marias e 2,5 milhões de Anas.
-No meu tempo de escola primária, quando a professora fazia diariamente a chamada, ao chegar na letra “m”, nós ficávamos uns dez minutos ouvindo-a chamar: Maria das Dores, Maria da Glória, Maria Auxiliadora, Maria do Socorro, e por aí vai.
Retomei a palavra.
-Era isso mesmo, mas, dizem as professoras e professores de hoje, que eu conheço, que não há mais tantas Marias. Com as novelas da Globo, passaram a surgir nomes menos católicos como Jade, Iasmim...
-Mas pelo que você disse: existem mais de 13 milhões de Marias...
-Digamos que há 100 milhões de mulheres no Brasil, Maria são apenas 13%. Na lista de chamada do Manoel Bomfim, onde fiz o primário, calculo que 30% das alunas eram Maria acompanhada de outro nome, ou, simplesmente Maria. - comentei.
-É verdade. - concordou.
-Você se esqueceu de citar Maria de Fátima da lista de chamada.
Ele sorriu e acrescentou:
-Isso mesmo, nas minhas turmas, sempre havia uma Maria de Fátima.
-O paradoxal é que Fátima era o nome de uma das filhas de Maomé, o nome supremo da religião islâmica.
Fiz essa observação enquanto pagava os 8 reais da corrida.

Eu pensei em falar de como São Pedro tem espremido nuvens sobre Rio de Janeiro, pedindo, antes, licença a Machado de Assis por recorrer a uma imagem sua sobre a chuvarada, quando entrei no táxi do Gaguinho, o 009, mas ele se antecipou:
-O time do meu filho foi campeão.
-Que bom! Venceu a disputa final de handebol do time de Campinas?...
-Coitado! A emoção o levava a gaguejar bem mais do que o normal.
-Não era de Campinas, não. Era um time de Campos.
-De qualquer maneira, foi um campeonato interescolar bem concorrido. - procurei me corrigir.
-Foi; escolas de tudo quanto era lugar.
E o que eu já lhe dissera em corridas anteriores, eu repeti.
-As escolas daqui têm de investir no esporte como se faz nos Estados Unidos.
-Seria sopa no mel. - garantiu.
-Há um filme do Buster Keaton, “Amores de Estudantes”, que é todo feito com competições esportivas numa faculdade. Isso 90 anos atrás.  - eu tinha de falar em cinema.
-O Brasil ganharia mais medalhas nas olimpíadas com essa política. - disse.
-Aqui, o esporte que mais se sobressai é o vôlei, vem dando ao país mais títulos internacionais do que o futebol, porque houve investimentos, embora não fossem da Educação. - comentei.
-No passado, já surgiam bons jogadores como Bebeto de Freitas, Fernandão, William, Xandó...
-Badalhoca. - citei porque a sonoridade do nome ficou na minha retentiva.
-Badalhoca. - acrescentou ele na sua listagem.
-Pois é, bons jogadores de vôlei apareciam, quando veio o dinheiro, o Brasil se tornou campeão olímpico, mundial...
-E o vôlei feminino, então, ganha tudo. - afirmou, gaguejando menos.
-Mas você já viu o Centro de Desenvolvimento de Voleibol de Saquarema? - pus, na minha pergunta, uma ênfase de quem já foi lá, embora nunca tivesse ido.
-Dizem que é uma beleza.
-Até os japoneses, ao conhecê-lo, ficaram maravilhados. - prossegui com a minha ênfase.
-Chegamos. - informou.
Enquanto eu saltava, ele voltou a falar do filho campeão e a gaguejar mais.

Entrei no táxi afobadamente.
-Del Castilho, na altura da sede da Igreja Universal do bispo Macedo.
E sem esperar, acrescentei.
-Quando estivermos perto, eu lhe ensino o caminho.
-Que chuva! - foram as suas primeiras palavras.
-Eu estava no trabalho, quando uma colega me telefonou para avisar que a linha 2 do metrô foi interrompida. Não pensei duas vezes: desliguei o computador, peguei a minha mochila e rumei para o ponto de táxi da Rua da Assembleia. Ainda bem que não precisei andar até lá.
-E ainda vai chover. - previu.
-Essa colega, que mora em Campo Grande, me disse que, no caminho para o Centro, o trânsito deu um nó; nada saía do lugar, enquanto os bolsões d' água se transformavam em lagos com a chuva.
-E os bandidos saíram das tocas para assaltar. - disse ele.
-Ela me contou que apareceram marginais, mas que a polícia logo veio com fuzis nas mãos.
E emendei:
-O medo vinha de todos os lados e também de cima.
-Alguém conseguiu chegar ao seu trabalho vindo pela Avenida Brasil?
-Ninguém, nem o vigilante que sai de casa às 4h da manhã; a chave do cadeado para abrir a repartição fica com ele. Quem veio trabalhar, os colegas da zona sul, só conseguiu entrar às 9h 30min, porque a corrente do cadeado foi serrada.
-E como você chegou?
-Peguei o metrô às 5h 45mim da manhã. Até então, o metrô aguentava firme, mas quando soube, depois, que havia estações inundadas, tratei de voltar para casa mais cedo.
Quando nos aproximamos do viaduto de Del Castilho, eu o orientei a entrar numa das ruas do outro lado da Avenida Suburbana.
-Você mora no IAPC?
-Sim; onde há uma praça.
-Conheço, conheço. Já soltei muitos balões na Praça Mané.
Mais um que chama a Praça Manet de Mané. - pensei como um professor ranzinza que se decepciona com a prova de um aluno que não estudou muito.