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O BISCOITO MOLHADO
Edição 5167 Data: 11 de
agosto de 2015
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O DIA 9 DE AGOSTO NO RÁDIO MEMÓRIA
3ª PARTE
-Maravilha! - vibrou o Jonas Vieira com
“Maria Bonita” na voz do Gregorio Barrios.
Recuperado da emoção, disse:
-Canção dedicada à Maria Felix, uma
mulher lindíssima.
-Dizem que era a mulher mais bonita da época.
- acentuou o Sérgio Fortes.
-Ela foi amante e casada com Agustin
Lara.
-E ele era famoso pela feiura, Jonas.
-Agustin Lara tinha um corte no rosto
de uma navalhada que levou numa briga. Um cara navalhou o rosto dele, e a marca
ficou pelo resto da vida. Ele já era feio...
-Com a navalhada, piorou. - Sérgio
Fortes completou.
-Casado com aquela mulher lindíssima...
- expressou o Jonas a sua inveja retrospectiva.
-Agustin Lara namorou duzentas mulheres
bonitas. Ele era um ás do volante.
Nesse instante, nós, do Biscoito
Molhado, nos recordamos do Tinoco, amigo do Dieckmann, cujo maior ídolo é o
playboy Porfírio Rubirosa pelas suas façanhas sexuais.
-Segundo as más línguas, ele era mais
feio do que desastre de trem, no entanto, meu filho... - mexericou o Jonas.
-Não obstante, Jonas...
-Quem vê cara, não vê coração.
E outras coisas. - acrescentamos nós.
Bem, fofocaram com a feiura do Marechal
Dutra, do Agustin Lara, mas, agora, era o momento musical.
-Voltamos ao Mário Reis, cantando o
grande Ary Barroso, que deu para ele gravar “Vamos Deixar de Intimidade”.
E prosseguiu o Jonas Vieira depois de
soarem as notas musicais.
-O arranjo é de Lindolfo Gaya, grande
maestro, grande arranjador, com quem joguei xadrez.
-Ganhou ou perdeu, Jonas?
-Não me lembro.
-Esse negócio de xadrez, Jonas, tem uma
coisa interessante: há um razoável número de músicos sinfônicos que jogam
xadrez.
-Mas o xadrez é um jogo cerebral que
desenvolve demais o raciocínio. Para quem trabalha com música, então, é uma
beleza.
-E defende a minha tese que música tem
uma implicação matemática.
-Sim, matemática, Sérgio. O xadrez não
é um jogo de sorte; a única sorte do xadrez é o opositor passar mal. Só.
-Vou lhe dar um exemplo, Jonas: Michel
Bessler, spalla da OSB é fascinado por xadrez.
-Eu, modéstia à parte, já fui um bom
jogador de xadrez. O jogo desenvolve as imagens, o raciocínio.
Vide Machado de Assis, um enxadrista,
para ficarmos com um exemplo da nossa literatura.
-O jogo de xadrez tinha de ser ensinado
em todas as escolas. O meu neto já está jogando, porque é importantíssimo ver
um neto, um filho praticando.
Depois, o Jonas Vieira fez a comparação
com o jogo de carta em que entra o fator sorte, apesar de alguns jogos, como o
Bridge, requerer muita mais do que os lances fortuitos do acaso, e também o
pôquer.
-Eu e o Marco Ribas ainda não nos
aventuramos pelo xadrez, Jonas, por enquanto, nós nos matriculamos num curso
para ensinar Jogo da Velha. Eu estou com dificuldades, Marco Ribas está todo
embananado.
-E agora, Sérgio?
-Agora, Jonas, com Paulo Fortes, um
cantor que eu conheci bem, muito bem, que cantava direitinho, vamos ouvir
“Quase Que Eu Disse”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa.
Era uma homenagem discreta, sem nada
mencionar, que o Sérgio Fortes fazia no Dia dos Pais, e nós, ouvintes,
desfrutamos essa homenagem.
Depois de ouvirmos os versos em
redondilhas do Orestes Barbosa musicados pelo Sílvio Caldas, vieram os
comentários.
-Isto é do tempo em que se contava uma
história.
-Tem começo, meio e fim, Sérgio.
-Bons tempos.
Entram os reclames da Rádio Roquette
Pinto com o destaque do evento “De Bach às Bachianas”, na Sala Cecília
Meireles, com textos de Mário de Andrade, anunciado pela grande cravista Rozana
Lanzelotti, que ocorrerá no dia 20 de agosto.
De novo, o titular do Rádio Memória.
-Agora, com a dupla genial Bide e
Marçal que compôs maravilhas... Como dois sambistas, com pouca escolaridade,
conseguem fazer coisas geniais como a que vamos escutar. Eles são autores de
“Pela Primeira Vez”... desculpem-me, “A Primeira Vez”. Entre outras coisas
maravilhosas que estavam no meu show chamado “Rio, Cidade da Alegria”, que
esteve em cartaz no Teatro da FIRJAN... Quem perdeu não pode imaginar. Foi
sensacional; não porque eu fiz o roteiro, e sim porque os cantores são muito
bons, os músicos são muito bons, o repertório, então, é excelente. Entre outras
coisas, tivemos lá “A Primeira Vez”.
Entusiasmado com o sucesso da sua
empreitada, prosseguiu:
-Olha: pretendemos fazer esse show em
outros lugares, etc e tal. Se você tiver oportunidade, não perca, não por mim,
mas porque o repertório musical é da maior categoria, mostrando que o Rio de
Janeiro é o centro do Brasil. Aqui começou praticamente tudo.
-Tudo. - ratificou o seu parceiro.
-Indústria, comércio, literatura,
teatro, artes... A música, então... Pois muito bem, nós vamos aqui com a dupla
Bide e Marçal na genial “Agora é Cinzas”, com Mário Reis.
Depois de o Marco Ribas ter acionado as
carrapetas, Jonas Vieira foi mais minucioso:
-Gravação original de 1934. O nosso
querido Mário Reis regravou em 61, 62 com arranjo do Lindolfo Gaya.
-Jonas, agora uma trilha sonora de “O
Poderoso Chefão”, parte III, composta por Nino Rota, que é um valor novo que
promete muito. Nós vamos ouvir uma valsa, “The Godfather Waltz”. É uma beleza!
Após a sua ótima escolha, confessou que
perdeu o ânimo para assistir aos filmes de hoje.
-Baixou o nível de uma maneira geral. -
diagnosticou o Jonas Vieira.
-Também. - concordou.
-O brasileiro ou é herói ou é bandido, não
existe meio termo.
Ou é Sérgio Moro ou é José Dirceu.
-Bem, ouvintes, o Newton Bastos também
pertenceu ao grupo que fundou a primeira escola de samba do Rio de Janeiro com
Ismael Silva, Bide e outros. Newton Bastos nos deixou cedo, lamentavelmente.
E anunciou o Jonas Vieira a próxima
gravação:
-”O Destino é Deus Quem Dá”, só do
Newton Bastos.
Depois, vieram mais detalhes:
-Voz de Mário Reis com arranjo precioso
do grande Lindolfo Gaya. Eu tive o orgulho de ter privado da sua amizade.
Lindolfo Gaya era uma pessoa inteligentíssima. Um grande músico!
-O que mais falamos aqui é: “bons
tempos”. - observou o Sérgio Fortes.
E continuou:
-Vamos, agora, com muito boa música,
esta, bem atual, afinal, o autor é o imenso Astor Piazzolla. Daniel Barenboim,
o genial pianista, nasceu na Argentina, daí essa raiz tangueira, depois, virou
o fantástico pianista de música clássica. Ele passou três dias na Argentina
gravando um CD que é precioso. Ele formou um trio com Rodolfo Mederos, no
bandoneon, e Hector Console, no baixo. Vamos ouvir “El Dia Que Me Quieras”.
?
Há um capítulo do “Memória Póstumas de
Brás Cuba” que consiste apenas de uma linha tracejada abaixo do título “De como
não fui ministro d'Estado”, nós, aqui, ficamos apenas com um ponto de
interrogação numa só linha após as palavras do nosso amigo Sérgio.
Depois da música, voltou o Sérgio
Fortes envergonhadíssimo, embora a beleza da sua escolha o absolvesse.
-Jonas, que mico eu paguei! “El Dia Que
Me Quieras”, não é de Astor Piazzolla. Se eu disser isto num restaurante da
Recoleta em Buenos Aires...
-Você é trucidado. - previu o seu
parceiro.
-Eu sou um homem morto. “El Dia Que Me
Quieras” é do francês Carlos Gardel e do paulista, santista, se não me engano,
Alfredo Le Pera.
-Ele era santista.- foi incisivo o Jonas
Vieira.
Em seguinte, fez a seguinte proposta:
-Ouvintes, fica a experiência: você
pega essa música para ser ouvida por uma planta; vai ver o que acontece. Você
vai sentir a vibração dessa planta. Depois, você pega uma dessas músicas que
tocam por aí para a mesma planta ouvir: ela morre na hora.
-É de derrubar coqueiros.
-Tem mais, Sérgio: a mente humana é que
controla o corpo, então, se você pega a mesma música (“El Dia Que Me Quieras”)
e coloca para uma pessoa enferma ouvir, ela fica boazinha; se puser uma dessas
músicas que tocam por aí, ela morre.
Depois dos risos, continuou:
-Com esta aqui, você não morre porque é
do Noel Rosa. Vamos ouvir “Quando o Samba Acabou” com o Mário Reis.
A próxima escolha estava a cargo do
Sérgio Fortes.
-Jonas, eu fiquei tão envergonhado, que
resolvi colocar alguma coisa do Piazzolla para tentar me redimir antes que o
Luzer me telefone com aquele seu jeito (voz em surdina): “Sérgio, houve um
pequeno engano... Não me leve a mal...”
E voltou com a sua voz tonitruante em
comparação com a do Luzer:
-Uma música maravilhosa com o mesmo
trio liderado por Daniel Barenboim: “Adios Nonino”.
-Dedicado ao pai.
-Dedicado ao dai dele. Piazzolla
recebeu a notícia da morte do pai e compôs essa encantadora música.
Música que homenageava os pais
falecidos, que todos os filhos de gosto refinado gostariam de compor.
Era o fecho da parte musical daquele
Rádio Memória do Dias dos Pais.
O programa se encerrou com duras, mais
merecidas críticas às cacofonias propagadas pela mídia, ao número exagerado de
programas culinários na televisão. Mas não terminou sem o Jonas Vieira renovar
a sua proposta de se matar as plantas com a mesma eficiência de uma motosserra.
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