7. A VISITA
Antes de Ace chegar naquela casa de Recife, um filme antigo e desbotado de tanto ser visto, mas ainda colorido, passava pelas pupilas de Volumosa.
Em uma casa de azulejos gastos no sopé das ladeiras de Olinda, vivia MariaThereza, a Tetei, uma menina de nove anos, olhos e cabelos claros de holandesaquase quatrocentona. O ano era 1935 e desde a Intentona Comunista, o mundodela nunca mais seria o mesmo.
Seu pai, o tenente Joaquim Andrade, tombou durante o levante de novembro,o primeiro morto em confronto com os revoltosos. A dor era calada em casa — amãe chorava pouco, os vizinhos cochichavam e ela apenas ouvia, aprendendocedo que a morte também podia ser política.
Diziam, nas vielas próximas ao Forte de Olinda, um nome sussurrado quecausava calafrios: Gregório Bezerra. Sargento do Exército, comunistadeclarado, liderou um grupo armado que dominou Olinda e tentou instaurarum novo regime. Para muitos, um heroi do povo. Para outros, um traidor da pátria.
Maria Thereza, a Tetei, não entendia de ideologias, mas sabia que o talGregório era o homem que seu pai tentara deter. Certa manhã, enquantoajudava a mãe nas compras da feira do Carmo, viu um grupo de soldadoscercando uma casa. Alguém gritou: “É ele! É Gregório Bezerra!” Amultidão se agitou e a menina, como que movida por um instinto maiorque a infância, aproximou-se.
De dentro da casa saiu um homem algemado, ferido, mas ereto e pançudo.Tinha os olhos endurecidos de quem muito já apanhara davida e dos homens. Pequena diante do tumulto,Tetei gritou com a força de quem já conhecia perdas:
— Foi por tua culpa que meu pai morreu!
Gregório parou por um instante. Olhou alheiamente para a menina e nadadisse. Talvez visse nela a filha que não tivera. O silêncio entre os doisdurou apenas segundos, mas ficou gravado na memória da cidade.
Ela cresceu ouvindo histórias sobre aquele levante, sobre a prisãode Gregório, sobre a ditadura. Nunca esqueceu o dia em que,aos nove anos, enfrentou um símbolo da rebelião — não porpolítica, mas por amor ao pai. Da casa azulejada frente de rua,saíram mãe e filha de Olinda para virar uma página da vida evieram para Recife, na casa pequena de tamanho e recordações.
Quando a segunda-feira amanheceu, o filme já tinha acabado,sem remorsos, ficara só a certeza de que não se podedepender dos outros, a vida é só sua e o futuro é vocêquem faz. Decidida a fazer a própria história,Volumosa lembrou-se de que não haviam combinado hora,só o dia, mas não seria isso que a faria trepidar. Pensou que antes dasdez horas seria cedo em demasia e às onze e meia, um auto-convitepara um almoço não cogitado, portanto, ele chegaria entredez horas e onze e meia. Um minuto antes das dez e cinco, Ace chegou.
Determinar ligações espirituais e terrenas depois de acertoscronológicos dessa ordem seria chover em lençol matrimonialmolhado. Minúscula Salomé, a mãe de Volumosa, mulher pequenaque odiava seu nome de batismo, mas de tanta sagacidade quantosua homônima bíblica, logo percebeu a sonoridade da dupla;naquela manhã, Ace se despediu antes do almoço e eladeclarou para a Volumosa radiante, esfogueada e até suada,de tantos vapores recebidos e transferidos:
- Esse Eisse é o certo, esse Eisse é o certo! Minúscula não paravade repetir. Nada sabia de Labskaus, nem desconfiava da santinhaque criara, mas, de verdade, detestava o deputado Quarto.
E Volumosa, entusiasmada com o encontro e meio temerosada enfática aprovação materna, decidiu: Acho melhoreu casar logo com o Ace, ou é mamãe quem casará...
Filha de Salomé sempre sabe.
8. A CONTRAVENÇÃO
Volumosa se casou com Ace em 1953, passaporte de solteirana viagem para Tânger, então Zona de Estatuto Internacional,administrada pela ONU, um status pós-II Guerra de cidadeinternacional, repartido com Xangai e Trieste.
Em Tânger conviviam todas as nacionalidades e religiões.Os relacionamentos interreligiosos - o que era rigorosamentedo que se tratava, ou aqueles em situação de fragilidadedocumental, que ninguém dizia, mas também eraexatamente o caso do casal - adquiriam solidez com
as certidões tangerinas.
A Igreja Anglicana de Santo André os acolheu, um tabeliãoregistrou e, em frente à Eglisse des Sables de Sainte-Jeanne-d'Arc,ainda em acabamento, Maria Thereza Sardinha tirouuma fotografia, com a ideia de mandar para os católicosda família, mas Ace a dissuadiu, pois a foto poderiaacabar sob as vistas de Quarto.
Ace tinha noções de contrainteligência e, de Tânger voarampara Dacar, permanecendo 3 meses na Ilha de Gorée,de onde partiram quase todos os escravos senegaleses,uma mancha na reputação do lugar, mas uma sombraótima para encobrir um lugar onde não ser achado.
Entretanto, as preocupações cabíveis do piloto nãoencontravam eco no dia-a-dia de Quarto, totalmenteenvolvido com a campanha política para o Legislativoque se aproximava, em outubro de 1954. Quarto nãoera getulista, mas seu partido era base do governodo ex-ditador, agora presidente eleito desde 1950, opai dos pobres. A eleição de presidente só ocorreriaem 55 e estava claro que o presidente não se envolveriaem 54, pois era imensa a força da oposição e nãohavia mais o conjunto de sistemas silenciadores doEstado Novo; estava evidente para a classe políticaque Getúlio não nadava bem na piscina da democracia ecada um que se virasse por si. Uma péssima época parauma reeleição. Muito menos para pensar no sonhadosalto para o Senado Federal, não iria ser desta vezque as mil hipóteses de Quarto encontrariam algumasolidez, o jeito era se desvencilhar do jeitão getulista eposar de meia oposição.
Mas as informações que Ace dispunha não eramtão detalhadas assim e o casal resolveu estacionarem Gorée por esses três meses. A ilha era circundadapor águas calmas e transparentes, com abundantesformações de corais, era um paraíso para o mergulho e apesca. A fauna marinha local incluía uma variedadeformidável de enguias e moreias e a genética piscosade Ace fez com que ele lembrasse que, nos arredoresde Dacar, em Adjacent Field, ficaram alguns restosde três bombardeiros B-24 Liberator acidentados,do tempo do Trampolim da Vitória. Vislumbroua cena de um aquário construído com cinco ou seis
belas torres de metralhadoras.
Arranjou um caminhão e foi verificar, eram seisas aproveitáveis; as armas não estavam mais, maso plexiglass das torres estava em bom estado detransparência e ele bem sabia como fazer delasseis aquários, pois trazia da infância a memóriados tanques de água salgada que serviam parapreservar bem vivas as lagostas pescadas.
Instaladas nas paredes da casa de um aviador francês,incapacitado para voar devido à perda do olho direitonas batalhas da Indochina, as torres cheias deágua do mar ficaram lindas com seu interior coloridoe vibrante, com as espécies devidamente separadas,para evitar a predação entre elas. Duas das torreseram ligadas por um largo canal elíptico transparentee as enguias e moreias eram useiras e vezeiras detrocar seus respectivos aquários, em vai e veminexplicável. Igualmente cativante era ver a aproximaçãodelas da curvatura do plexiglass, que amplificava aimagem para o exterior e funcionava como umalente côncava para os peixes. Dava a impressão queas enguias entendiam de ótica e que afastariampredadores com a boca oticamente imensa, cheia de
dentes desfigurados.
As enguias viraram um sucesso entre os poucoshabitantes da ilha, era o Aquário do Caolho - L'Aquarium deQu'un-oeil. Daí, a curiosidade entre os habitantescontinentais, estrangeiros e nacionais, fez aumentar,em poucas semanas, a frequência dos barcos deligação entre Dacar e Gorée. Essa inesperadadescoberta do potencial turístico da esquecidailha fez Ace perceber que era hora de abandonaro paraíso, o Aquário, o Caolho, enguias e moreias.
Dali a recomendação era seguir para a África doSul, mais quatro semanas na Cidade do Cabo.Volumosa gostou de entrar no cinema Metroigualzinho ao de Copacabana, da beleza àbeira-mar, embora sem o jeitão descontraídodo Rio de Janeiro. Formavam o casal maisanônimo do mundo sem registro em nenhumhotel, eram hóspedes de aviadores da SegundaGuerra, ex-combatentes ao lado de Ace, umatropa solidária e disponível em todas as partes domundo. Depois desse último mês de esconderijo,partiriam para a França, um desejo que Ace acalentava
desde o fim da guerra.