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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

3170 - Longevidade

 COLECIONADORES


Somos longevos e colecionadores. No mínimo, colecionamos dias, meses e anos, mas também as emoções, as experiências profissionais e amadoras, os casos que vivemos contando entre amigos, e, portanto, somos também colecionadores de amigos e por que não, também de inimigos.

O tempo passa e a coleção só aumenta e mesmo que eu não fosse um acumulador compulsivo de coisas, seja um álbum de figurinhas dos anos 60, ou oito barbeadores elétricos - um de corda, soviético, para ser usado na Sibéria, penso eu - a lista é sempre crescente. Quando me desapego de um parafuso velho, tenho sempre a certeza de que logo ele me seria necessário.


Mas entre as coleções que mais prezo e que me motiva a escrever sobre a longevidade, é a que reúne casos longevos. Sim, você pode contar um caso, uma piada, eles têm uma duração no tempo. Mesmo que seja um tombo de bicicleta quando você aprendia a andar nelas, aos dez anos, o tombo se resume à queda, um joelho arranhado, um sofrimento à custa de Merthiolate vermelho. Você pode contar para os seus netos, 40 anos depois, mas a duração daquela experiência não muda, do tombo até a soprada para amenizar a ardência do Merthiolate se passou um tempo fixo, por exemplo, 40 minutos.



O caso longevo não é assim.


O caso longevo parece que durou meia hora, mas ele te iludiu.


É isso! Casos longevos são mestres na arte de iludir, na procrastinação, na escorregadela sucessiva das suposições infundadas, o caso longevo desafia o tempo, a justiça e a lógica.


Coleciono casos longevos. Estimo que um caso merece essa qualificação quando ele te engana, digamos, por mais de 30 anos. Se você tem 40 anos de idade, é praticamente impossível que você possa colecionar, qual colecionar? É impossível que você tenha sequer um caso longevo.


É  um privilégio da longevidade. Como a resposta do jardineiro inglês ante o olhar admirado do turista americano, a respeito da perfeição do gramado... é só regar dia sim, dia não, durante 700 anos. Como a América tem 500 e poucos anos, não é longeva o bastante para ter um gramado  perfeito. A longevidade começa assim.


O caso longevo tem personagens, presentes e futuros, eles têm carisma, são interessantes, sempre há alguém contando uma parte de um caso que será longevo. E de conto em conto, em uma hora, ou em um século e uma hora, alguém fala e esbarra bem na porta do destino. É matemático, é preciso, é cataclísmico.


É o destino que é o dono da laçada final, aquela que encerra o caso longevo e fecha o embrulho de toda uma situação que vale colecionar. É o destino quem arremata, mirando no fundo dos teus olhos: vê como você é feliz?


1958, Rua Teresina, em Santa Teresa. A rua tinha acabado de ser pavimentada com paralelepípedos. Eles eram lisos e perfeitos, nivelados e rejuntados com piche e pedrinhas britadas, uma alquimia que era cozida ali mesmo na rua, com uma fogueirinha de lenha sob um regador de ferro, cheio de piche. Ao contrário do pé-de-moleque, sempre ávido por encontrar peles e carnes para arranhar, o paralelepípedo era civilizado, quase doce e, nos dias de verão, você ainda podia cutucar o rejunte desse piche e formar uma bolota que se levava para a escola e disputava em tamanho na hora do recreio. Uma covardia com os colegas que moravam em rua asfaltada...


Naquela manhã, a Rua soava diferente, longe daquela pachorrenta calmície de sempre. Pessoas se dirigiam com passos firmes em direção à única esquina genuína da Rua Teresina, aquele cotovelo de que ela é dona sozinha, sem repartir com qualquer outra rua.


Eu também fui, porque em 1958 tudo era permitido e o que poderia acontecer com um garoto de 8 anos? Cheguei na esquina, estava lá um mundaréu de gente, alguns policiais e uma Rádio Patrulha, preta e branca, sinal evidente de que o assunto era sério de verdade.


Sem maiores cuidados, cordões ou fitas de isolamento, estava estacionado um carro preto, Mercedes, meio cansado, meio batidinho, aqui e ali. Mas no meio do porta-malas redondo, o sinal gritante da violência perpetrada, a causa do alvoroço matinal: três buracos de bala, redondinhos, escuros e foscos, que faziam contraste contra algum brilho da pintura.


Um caso simples, não havia vestígios de sangue, corpos espalhados cobertos com jornal e também não havia ninguém supondo, ou explicando; apenas o murmurar e o gesticular de quem nada sabia o que acrescentar.


Seria um caso simples, daqueles que você quase esquece, apesar de haver certamente uma causa para o fato? Que destino seria capaz de tecer a teia que encobriria um embrulho desses, de quase nada a reportar?


Em 2004, faltando pouco para as bodas de ouro deste caso, então enevoado nas esquinas da minha memória, ouço a história de dois garotos de 15 anos, pegando o carro do pai de um deles, às escondidas. Saíram do Flamengo e passaram pela Praça Paris, com seus chafarizes coloridos brilhantes, o que possivelmente os maravilhou, ou ofuscou, não sei.



O fato é que o brilho fez um descuido, que fez um acidente. Coisa boba, bateram de leve na porta de um táxi, mas o pavor de serem descobertos e levados à delegacia, meninos sem carteira de motorista, o pai, ou os pais, serem chamados e retirados de seus pijamas, esse aglomerado de situações prováveis bastou para que fugissem do flagrante delito.


Vamos para Santa Teresa! bradou o não-motorista, uma solução lógica, pois era perto e os taxistas não teriam a mesma intimidade que este não-motorista achava ter com exclusividade. O taxista reuniu mais dois colegas de profissão e a perseguição começou.


O fato é que a distância ora aumentava, ora diminuía. Não ia dar certo. O narrador de 2004 era o não-motorista e ao ver a Teresina sempre escura, desligaram as luzes e pararam o carro na esquina genuína, junto a uma casa de cômodos de péssima reputação. Ele sabia que pela casa de cômodos havia uma passagem para uma pessoa a pé, pelo barro escorregadio do morro.


A manobra evasiva foi bem sucedida, ou pelo menos, até certo ponto. Os taxistas custaram a achar o carro, os meninos subiram a pinguela e ficaram bem de longe vendo a cena. Os farois dos carros de repente iluminaram o Mercedes e não o largaram mais, até todos chegarem junto a ele; os homens então 
saltaram e notaram a moradia lúgubre que circundava a situação. Dali não sairia nem um pio, quanto mais uma informação.


Lá de cima, os meninos viam, nada ouviam e se encolheram trêmulos quando um dos motoristas sacou um revólver e deu três tiros no porta-malas, fazendo buracos 
redondinhos, escuros e foscos.

.....


Eu tinha treze anos e estudava de manhã. Após almoçar, minha mãe me convencia a fazer os trabalhos de escola e, caso houvesse qualquer argumentação difusa, que eu fizesse uma redação.


Antes de abrir qualquer caderno, entretanto, eu abria a janela do quarto e dava três tecos com a espingarda de ar comprimido na clarabóia do vizinho, que ficava a boa distância. O chumbinho não quebrava o vidro, mas produzia um estalo seco, que eu ouvia perfeitamente de casa. Só após a confirmação da minha boa pontaria, eu iniciava o trabalho escolar.


Nessa casa morava meu amigo Nelson, o Juquinha, companheiro de peladas e bicicleta, mas, por algum motivo, eu não contei a ele.


Eram sempre três tiros e nunca abri a janela nos dias de chuva, era o meu regulamento. Mas realizei esta atividade durante seis meses, talvez mais.


Seria um caso simples, uma brincadeira de adolescente, se eu não encontrasse o Juca, um senhor de cabeleira branca, mas igual ao Juquinha de 1963. Nos encontramos no Largo da Carioca e esse encontro foi antes da Covid, portanto neste caso, decorridos mais de 50 anos, qualquer acusação não prosperaria em função de prescrição por tempo.


Foi quando contei para o Juca, que prestou muita atenção ao meu depoimento e, quando terminei, ele deu um sorriso e saiu-se com esta: Ah, então era isso...


Juquinha morava com sua tia-avó, Dona Ondina, que ouvia diariamente e à mesma hora, os meus estalos na claraboia. Certamente não passou pela cabeça dela e nem na cabeça de mais alguém, que tais estalos pudessem ser artificiais. Ao contrário, sua suposição era de que a estrutura estava avisando os moradores de que algo não ia bem.


Dona Ondina era mãe de um arquiteto da Prefeitura do então Estado da Guanabara e tanto fez pressão sobre o filho, que ele convidou uma comitiva de engenheiros do serviço para avaliarem a situação. Juquinha acompanhava de perto todo o desenrolar daquela atividade, pois era morador e também curioso; e uma comissão de especialistas não se vê toda hora.


No dia em que todos estavam sob a claraboia, não houve estalo algum. Claro, disse para o Juca no Largo da Carioca, nesse dia choveu e eu não abri a janela.


Juca agora já ria largamente e completou: a comissão se retirou, dando total descrédito à Dona Ondina, mas, antes de saírem, subiram na estrutura do telhado e constataram que não havia qualquer sinal visível de apodrecimento, ou infestação por cupins.



Dei um abraço no Juca e nos despedimos, ambos agradecidos ao destino pela laçada no embrulho; nós dois tínhamos nas vidas um caso longevo.

.....


Turquia, 1962. Nunca estive na Turquia e este caso longevo já me veio pronto e acabado. E ele tem todas as características que me permitem enquadrá-lo na minha coleção de casos longevos.


Tia e sobrinha viajavam pela Turquia, quando souberam da existência de uma aldeia praieira de beleza incomparável, junto ao Mar Negro. De maneira alguma elas poderiam deixar de conhecer a localidade, pois não se vai à Turquia toda hora e ao Mar Negro, menos ainda. O problema é que por ser um local rústico e ainda não ocupado turisticamente - o que a qualquer turista acende um aviso luminoso de não perder a oportunidade - não havia uma ligação rodoviária direta entre Ancara e a tal praia.


Só havia uma solução para atingir aquele objetivo, pegar um ônibus para Istambul, saltar em uma encruzilhada de estradas no meio do nada - mas, atenção, senhoras, não há qualquer perigo, a encruzilhada é guardada por um acampamento militar - e aguardar alguma condução que se dirija a Zonguidak, dali é fácil se chegar à aldeia.

Elas titubearam ante a escala na encruzilhada, mas eram tantas as garantias que partiram. E realmente a encruzilhada existia, com o acampamento militar, no meio do deserto, tudo de acordo com a descrição recebida.


Saltaram do ônibus e se colocaram junto à seta que indicava o caminho; perceberam que houve um movimento no acampamento, com braços apontando, mas nada que fosse agressivo. Em dado momento, um graduado fez um aceno, elas responderam e ficou tudo por isso mesmo. Sentiam-se, tia e sobrinha, amparadas pelo Exército Turco.


E não demorou muito a aparecer um velho táxi preto, fizeram sinal e se entenderam razoavelmente com o motorista, que entendia um pouco de inglês. O turco acomodou a sobrinha no banco dianteiro, um sinal de que era um motorista de bom gosto e encaminhou a tia para o banco traseiro.

Nestas situações, não se pode apresentar muitas exigências, o motorista era muito bem educado e sorridente, como a maioria dos turcos e antes de permitir a entrada da tia no banco traseiro passou a arrumar umas caixas de papelão que estavam ali, fazendo uma espécie de troninho para bem acomodar a tia.


A tia embarcou nas caixinhas de papelão, que tinham estampado o logotipo bem conhecido da Shell. A viagem foi agradável, gratificaram o solícito motorista, seguiram para a praia, que era mesmo sensacional, comeram peixe fresco preparado pela mulher do pescador e passaram a contar esta aventura a quem lhes cruzasse o caminho.


Tanto contaram e recontaram e a tantas plateias pelo mundo, que em uma hora esbarraram socialmente com um engenheiro da Shell, habituado à prospecção de petróleo. Este engenheiro ouviu a história e em baixa voz, meio que foi repetindo para si ...caixas de papelão, ...táxi pelo deserto, ...Turquia, e como a lógica precisa dos engenheiros permite, ora, ora, declarou, eram só caixas de dinamite.


Todos sabemos que caixas de dinamite são absolutamente seguras e que uma eventual explosão só acontece se houver um dispositivo detonador e, portanto, não havia mesmo qualquer perigo, como bem advertiram os amigos que recomendaram a viagem.

....


A longevidade traz a ausência das cartilagens que amortecem os trancos da vida, tudo dói, do pescoço ao tendão de Aquiles, mas pode oferecer um mocotó de sabor exclusivo a quem mora nela.








segunda-feira, 14 de setembro de 2026

3169 - esse trem não volta mais para a estação (5)


7. A VISITA






Antes de Ace chegar naquela casa de Recife, um filme antigo e desbotado de tanto ser visto, mas ainda colorido, passava pelas pupilas de Volumosa. 


Em uma casa de azulejos gastos no sopé das ladeiras de Olinda, vivia MariaThereza, a Tetei, uma menina de nove anos, olhos e cabelos claros de holandesaquase quatrocentona. O ano era 1935 e desde a Intentona Comunista, o mundodela nunca mais seria o mesmo.


Seu pai, o tenente Joaquim Andrade, tombou durante o levante de novembro,o primeiro morto em confronto com os revoltosos. A dor era calada em casa — amãe chorava pouco, os vizinhos cochichavam e ela apenas ouvia, aprendendocedo que a morte também podia ser política.


Diziam, nas vielas próximas ao Forte de Olinda, um nome sussurrado quecausava calafrios: Gregório Bezerra. Sargento do Exército, comunistadeclarado, liderou um grupo armado que dominou Olinda e tentou instaurarum novo regime. Para muitos, um heroi do povo. Para outros, um traidor da pátria.


Maria Thereza, a Tetei, não entendia de ideologias, mas sabia que o talGregório era o homem que seu pai tentara deter. Certa manhã, enquantoajudava a mãe nas compras da feira do Carmo, viu um grupo de soldadoscercando uma casa. Alguém gritou: “É ele! É Gregório Bezerra!” Amultidão se agitou e a menina, como que movida por um instinto maiorque a infância, aproximou-se.


De dentro da casa saiu um homem algemado, ferido, mas ereto e pançudo.Tinha os olhos endurecidos de quem muito já apanhara davida e dos homens. Pequena diante do tumulto,Tetei gritou com a força de quem já conhecia perdas:

— Foi por tua culpa que meu pai morreu!


Gregório parou por um instante. Olhou alheiamente para a menina e nadadisse. Talvez visse nela a filha que não tivera.  O silêncio entre os doisdurou apenas segundos, mas ficou gravado na memória da cidade.


Ela cresceu ouvindo histórias sobre aquele levante, sobre a prisãode Gregório, sobre a ditadura. Nunca esqueceu o dia em que,aos nove anos, enfrentou um símbolo da rebelião — não porpolítica, mas por amor ao pai. Da casa azulejada frente de rua,saíram mãe e filha de Olinda para virar uma página da vida evieram para Recife, na casa pequena de tamanho e recordações.


Quando a segunda-feira amanheceu, o filme já tinha acabado,sem remorsos, ficara só a certeza de que não se podedepender dos outros, a vida é só sua e o futuro é vocêquem faz. Decidida a fazer a própria história,Volumosa lembrou-se de que não haviam combinado hora,só o dia, mas não seria isso que a faria trepidar. Pensou que antes dasdez horas seria cedo em demasia e às onze e meia, um auto-convitepara um almoço não cogitado, portanto, ele chegaria entredez horas e onze e meia. Um minuto antes das dez e cinco, Ace chegou.


Determinar ligações espirituais e terrenas depois de acertoscronológicos dessa ordem seria chover em lençol matrimonialmolhado. Minúscula Salomé, a mãe de Volumosa, mulher pequenaque odiava seu nome de batismo, mas de tanta sagacidade quantosua homônima bíblica, logo percebeu a sonoridade da dupla;naquela manhã, Ace se despediu antes do almoço e eladeclarou para a Volumosa radiante, esfogueada e até suada,de tantos vapores recebidos e transferidos:


- Esse Eisse é o certo, esse Eisse é o certo! Minúscula não paravade repetir. Nada sabia de Labskaus, nem desconfiava da santinhaque criara, mas, de verdade, detestava o deputado Quarto.


E Volumosa, entusiasmada com o encontro e meio temerosada enfática aprovação materna, decidiu: Acho melhoreu casar logo com o Ace, ou é mamãe quem casará...


Filha de Salomé sempre sabe.











8. A CONTRAVENÇÃO






Volumosa se casou com Ace em 1953, passaporte de solteirana viagem para Tânger, então Zona de Estatuto Internacional,administrada pela ONU, um status pós-II Guerra de cidadeinternacional, repartido com Xangai e Trieste.


Em Tânger conviviam todas as nacionalidades e religiões.Os relacionamentos interreligiosos - o que era rigorosamentedo que se tratava, ou aqueles em situação de fragilidadedocumental, que ninguém dizia, mas também eraexatamente o caso do casal - adquiriam solidez com

as certidões tangerinas.


A Igreja Anglicana de Santo André os acolheu, um tabeliãoregistrou e, em frente à Eglisse des Sables de Sainte-Jeanne-d'Arc,ainda em acabamento, Maria Thereza Sardinha tirouuma fotografia, com a ideia de mandar para os católicosda família, mas Ace a dissuadiu, pois a foto poderiaacabar sob as vistas de Quarto.


Ace tinha noções de contrainteligência e, de Tânger voarampara Dacar, permanecendo 3 meses na Ilha de Gorée,de onde partiram quase todos os escravos senegaleses,uma mancha na reputação do lugar, mas uma sombraótima para encobrir um lugar onde não ser achado.


Entretanto, as preocupações cabíveis do piloto nãoencontravam eco no dia-a-dia de Quarto, totalmenteenvolvido com a campanha política para o Legislativoque se aproximava, em outubro de 1954. Quarto nãoera getulista, mas seu partido era base do governodo ex-ditador, agora presidente eleito desde 1950, opai dos pobres. A eleição de presidente só ocorreriaem 55 e estava claro que o presidente não se envolveriaem 54, pois era imensa a força da oposição e nãohavia mais o conjunto de sistemas silenciadores doEstado Novo; estava evidente para a classe políticaque Getúlio não nadava bem na piscina da democracia ecada um que se virasse por si. Uma péssima época parauma reeleição. Muito menos para pensar no sonhadosalto para o Senado Federal, não iria ser desta vezque as mil hipóteses de Quarto encontrariam algumasolidez, o jeito era se desvencilhar do jeitão getulista eposar de meia oposição.


Mas as informações que Ace dispunha não eramtão detalhadas assim e o casal resolveu estacionarem Gorée por esses três meses. A ilha era circundadapor águas calmas e transparentes, com abundantesformações de corais, era um paraíso para o mergulho e apesca. A fauna marinha local incluía uma variedadeformidável de enguias e moreias e a genética piscosade Ace fez com que ele lembrasse que, nos arredoresde Dacar, em Adjacent Field, ficaram alguns restosde três bombardeiros B-24 Liberator acidentados,do tempo do Trampolim da Vitória. Vislumbroua cena de um aquário construído com cinco ou seis

belas torres de metralhadoras. 


Arranjou um caminhão e foi verificar, eram seisas aproveitáveis; as armas não estavam mais, maso plexiglass das torres estava em bom estado detransparência e ele bem sabia como fazer delasseis aquários, pois trazia da infância a memóriados tanques de água salgada que serviam parapreservar bem vivas as lagostas pescadas.


Instaladas nas paredes da casa de um aviador francês,incapacitado para voar devido à perda do olho direitonas batalhas da Indochina, as torres cheias deágua do mar ficaram lindas com seu interior coloridoe vibrante, com as espécies devidamente separadas,para evitar a predação entre elas. Duas das torreseram ligadas por um largo canal elíptico transparentee as enguias e moreias eram useiras e vezeiras detrocar seus respectivos aquários, em vai e veminexplicável. Igualmente cativante era ver a aproximaçãodelas da curvatura do plexiglass, que amplificava aimagem para o exterior e funcionava como umalente côncava para os peixes. Dava a impressão queas enguias entendiam de ótica e que afastariampredadores com a boca oticamente imensa, cheia de

dentes desfigurados.


As enguias viraram um sucesso entre os poucoshabitantes da ilha, era o Aquário do Caolho - L'Aquarium deQu'un-oeil. Daí, a curiosidade entre os habitantescontinentais, estrangeiros e nacionais, fez aumentar,em poucas semanas, a frequência dos barcos deligação entre Dacar e Gorée. Essa inesperadadescoberta do potencial turístico da esquecidailha fez Ace perceber que era hora de abandonaro paraíso, o Aquário, o Caolho, enguias e moreias. 


Dali a recomendação era seguir para a África doSul, mais quatro semanas na Cidade do Cabo.Volumosa gostou de entrar no cinema Metroigualzinho ao de Copacabana, da beleza àbeira-mar, embora sem o jeitão descontraídodo Rio de Janeiro. Formavam o casal maisanônimo do mundo sem registro em nenhumhotel, eram hóspedes de aviadores da SegundaGuerra, ex-combatentes ao lado de Ace, umatropa solidária e disponível em todas as partes domundo. Depois desse último mês de esconderijo,partiriam para a França, um desejo que Ace acalentava

desde o fim da guerra.

3168 - esse trem não volta mais para a estação (4)

5. VAPOROSA






Com tantas viagens e mais a quarta-feira ocupada, Volumosa perdiaquase um quilo por mês, merecendo em um ano a qualificação de vaporosa, a falsaVolumosa. Não havia como deixar de notar e Volumosa atraía os maisdistraídos olhares, ela era alta, costas e ancas largas, atitude imponente.

 

Como viajava para os mesmos lugares, Volumosa para sempre Volumosa nuncadespachava bagagens, conservando em sua frasqueira tudo o que precisava, àsvezes ocupando uma maleta de mão com algum presente. Saía sempre direto doavião para um táxi, ou para um carro que a estivesse esperando.


Nessa rota de rápida passagem pelo saguão do aeroporto, trocava cumprimentoscom a tripulação igualmente expedita no desembaraço de seus afazeres finais. Asaeromoças ficavam a pensar que sucesso ela não faria em qualquer primeira classe,os pilotos e comandantes acenavam e sorriam com um "se esse broto fosse meu",

ou "Ah! esse violão na minha mão". Daí só pra pior… Volumosa tinha borogodó!


Depois do acaso de Volumosa descartar o Gercino de uma vez por todas, estavana hora de haver compensação e fazer aparecer Robert "Ace" Sardinha em sua  vida. Mas como se despedir de Gercino, conhecer Ace Sardinha e deixar o acaso ao léu,  sem as notícias do sorveteiro-pistoleiro?


Quarto acompanhava diariamente pelos jornais uma nota, simples que fosse, sobreGercino. Dois, três dias e nada, nem uma nota de rodapé, que coisa angustiante.Seria o caso de ir na Polícia e procurar informações, mas e o revólver? Seria melhor

deixar o barco correr e fazer chegar aos parentes um aviso e algum dinheiro? Orevólver, ai, o revólver, nem pensar, ir na Polícia, não.


Na terça-feira, finalmente sai em O Dia: foi atropelado e morto Gercino dos Santos,

na Rua Estrela, por motorista não identificado, no dia 9 do corrente. A Políciaencontrou documentos na pensão em que morava e o corpo está à disposição dosfamiliares no Instituto Médico Legal, na Avenida Mem de Sá, 152, nesta Capital.Entre seus bens encontra-se um revólver Smith & Wesson, com munição de festim.


Era o bastante, Quarto fez o resto e Gercino dos Santos foi devidamente honradocom funeral apropriado.


Entrou então em cena Robert "Ace" Sardinha, americano das comunidades debaleeiros portugueses, que conheceu o Brasil como co-piloto da Força Aérea doExército Americano, durante as operações do Trampolim da Vitória, iniciadas nofinal de 1942. Sabia falar razoavelmente a língua, e apesar de alguma dificuldadecom expressões regionais e os sotaques, de parte a parte, ele era imprescindívelpara o sucesso potiguar dos colegas americanos enquanto estava na base,Parnamirim Field. 


Tinha menos de 20 anos em 1943 e fazia parte da tripulação  de Jim "Roscoe"Brown, apelido semi-equino atribuído à sua diplomacia no trato com mecânicos,superiores e colegas. Por um mínimo sinal de falha, abortava a missão e retornavataxiando seu avião até um ponto de manutenção, com um extenso relatório deavarias. Atrapalhava a logística da guerra mundial - só isso, mas nenhum voo seuteve contratempos, ou como era comum com os quadrimotores, nenhum avião sobseu comando chegou ao destino com um ou dois motores em pane.


Essa foi a escola do Robert Sardinha, que tornou-se comandante de aeronave aindaem 1943. Pegou os macetes de busca de falhas usados pelo Roscoe, acelerava ummotor ao máximo, cortava e reacelerava. E ia repetindo a manobra, motor pormotor. Quando girava na cabeceira da pista já tinha plena segurança, ou abortavao voo. Era o método Roscoe... agora Roscoe-Ace


Como essa atitude não era lá muito prova de habilidade, ou de virilidade, virou"Ace" um tanto pejorativamente. No entanto, sua tripulação o adorava, poisninguém suava frio e os mecânicos confirmavam sempre que havia alguma pane,ninguém vira um "Ace" de graça. Para os americanos pronunciarem seu nome,entretanto, era um horror, saía sardinn-rra, sardin-rei e outras dissonâncias menores.Chamá-lo de Bob era redundante, cinquenta bobs atenderiam, aí ACE pegou.


Depois do Trampolim da Vitória, Ace permaneceu na recém criada Força Aérea,sempre nas rotas de carga, jamais nas frentes de combate. Era o único Ace,ás-piloto de carga. Foi ficando, graças ao seu jeito seguro e ausente de falhas e, em1949, quando os russos fecharam as fronteiras da Alemanha Oriental e a ponteaérea de Berlim foi estabelecida, não foi surpresa saber quem mais fez voos sempane.


Os anos 50 chegaram e foi a década do desenvolvimento da aviação comercial emtodo o mundo e no Brasil não foi diferente. Distâncias continentais foramencurtadas de dias de estrada para horas de voo. Aviões militares excedentes deguerra foram convertidos aos milhares e necessitavam de duas e, às vezes, trêstripulações por avião. E a Panair do Brasil, ainda fortemente ligada à Pan American

Airways recrutava muitos pilotos nos Estados Unidos para as recém criadas linhasinternacionais brasileiras.


Definitivamente Ace Sardinha era o homem certo no lugar certo, na hora certa.





6. UM ESBARRÃO 






Saguão do Aeroporto dos Guararapes, seis e meia da manhã, Volumosa nãoencontrou o carro que deveria lhe esperar e voltou para a cafeteria, que malcomeçava a fazer seus vapores. Pediu um café e procurava um lugar para sentarquando um jovem esbaforido e uniformizado de cáqui entra aos pulos, olhandopara cima, enquanto clamava aos berros: Telegrama para Senhor Barretto!


Não chegou a repetir o chamamento e já arremessava Volumosa então vaporosasobre o balcão, que girou pela borda arredondada até que uma mão forte travou omovimento da moça: - Moça, acho que o salvei!


Ace Sardinha falava bem o português, mas esbarrava nas concordâncias,principalmente em emergências. Ficava evidente que não era do lugar. Volumosa,num suspiro e ainda sem ver a cena direito, mas sentindo-se bem amparada,proferiu uma frase um tanto inédita: 


- Obrigada! Mas você não é daqui, não é?


Ace assentiu e notou com a proximidade dos corpos e o balanço da travada, queVolumosa trazia no colo um cordão de ouro com um Santo Antônio igual ao seu.Mostrou-lhe o seu  santo igual, como se isso lhes proporcionasse uma irmandadeimediata e começou uma conversa que só parou com a chegada do Hudson quelevaria Volumosa ao centro da cidade.


Sentada no sedâ azul, refletia sobre o inesperado, um tombo e uma mão do destinoa evitar uma queda espalhafatosa, a queda da Volumosa, quase vaporosa. E decomo essa mão, em conversa de oito, dez minutos, tinha lhe feito dizer tanta coisa,incluindo o endereço da mãe na Itamaracá do Espinheiro; e pior, que já iria esperara visita de Ace, na segunda-feira. Precisava tratar de adiar o retorno no domingo...Êta, que confusão.


“Ainda mando um telegrama hoje para o Quarto”, pensou, ao mesmo tempo emque comparava as ações simples, diretas e eficientes de Ace com as mil conjecturas,

hipóteses e cenários que Quarto desfilaria ante uma simples mensagem. Claro, eleera o Deputado Issi?, onde a interrogação faz parte do nome próprio, e se a mãeestivesse necessitando de cuidados, e se ela pegou uma gripe, e se o ex-namoradoda Marquês do Paraná - que nem era tão longe assim da Barão de Itamaracá eambas amparadas por rima rica e por heráldica imperial, houvesse reaparecido?Claro, Quarto, o deputado Issi?, iria passar a manhã botando e tirando os óculos,para descobrir sob as tirinhas impressas pelo teletipo uma explicação subliminarpara:  PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM, não, era melhor:QUERIDO, PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM. 


É, ficou muito melhor.


E Labskaus? Ora Labskaus entenderia que não era dia e à praia iria sem uma rugano dedão do pé. E ria enquanto pensava como Labskaus se encaixava em qualquersituação de maneira estável, Labskaus se fosse jogado no canto, formaria quina, oumelhor, para falar cientificamente, um vértice e três arestas. Se for jogado numatigela, formaria uma semiesfera, ou meia bola, para falar no coloquial. Labskausera gostoso, mas não era preocupação.


Puxou o cordão do pescoço e deu dois beijinhos no santo, antevendo a dupladespedida. Volumosa Vaporosa iria evaporar de verdade, que fosse para sempre e,ora, ora, ora, por que não um viva para Volumosa Vaporosa?


Viva Volumosa Vaporosa!


 














terça-feira, 4 de agosto de 2026

3167 - esse trem não volta mais para a estação (3)


4. ACASOS






Quarto assistiu horripilado a aparição do acaso e voltou para a padaria,

onde só estava Edvaldo e a caixa, pois todos, clientes e atendentes,

correram para ver o acidente. Sua camisa já havia secado.


Chamou Edvaldo para um canto e perguntou se Gercino já tinha pago

e quanto era a promessa. Quarto sabia as respostas, mas queria

aproveitar para saber quanto o padeiro era confiável.

- Ele ainda não pagou e o combinado era um conto.


A frase conferia perfeitamente e Quarto respondeu:

-E nem vai pagar, mas eu vou quitar a conta dele. E sacou da carteira

uma nota de 500 cruzeiros e cinco de 100, todas estalando de novas,

saídas da caixa do Banco do Brasil na Assembleia.


Compromissos honrados, era hora de trabalhar, pegou um carro de

praça e indicou a Avenida Rio Branco com Ouvidor como destino.

Melhor andar um pouco e ficar anônimo do que bancar o chique

como deputado e saltar na Câmara.


No amplo banco traseiro do Chevrolet, Quarto lembrou dos

formidáveis acasos que tanto lhe ajudaram a subir na política.

Houve uma ou outra interferência do Gercino, mas o acaso,

ou a sorte, há muito lhe bafejava bons arrancos na carreira.


Mas, e os acasos de Volumosa, como seriam? Afinal ela era a

vítima principal e essencial, aquele atropelamento de Gercino

bem podia ser obra do acaso particular de Volumosa a escapar

da morte certa e envenenada... isso precisava ser levado em

consideração.


Seria o acaso dela melhor que o meu? Na cabeça de Quarto

não só as alternativas iam se consolidando, mas logo uma

ponta de superstição apareceu, pois baiano que se preza dá

um alô para um santo e outro alô para outro.


Nada de exclusividades.


Sim, mas vamos botar cada coisa em seu lugar, nisso o táxi

já cruzava a Central do Brasil, então havia uma situação

pendente, pois a essa hora a Volumosa, como não estaria,

fogosa ou radiosa? Não quero nem pensar no que está no

presente, mas quero dar um fim que seja definitivo no

permanente. 


Estaríamos no limiar de uma batalha celestial entre o Senhor

do Bonfim e Padim Ciço? Com inesperada frieza, Quarto

deixou de lado essa questão supraterrena, enquanto dobravam

na Rio Branco e decidiu que seria melhor nada fazer contra

a moça, pelo menos diretamente; ora, por que ele iria se arriscar

nessa disputa de acasos, vamos é juntar os santos e tudo vai ficar

a favor. Saltou na Rua do Ouvidor, leve como um passarinho

na primavera e seco como a caatinga em outubro.


Que viesse o acaso e que viessem todos os acasos!


Dia 10, quinta-feira, Quarto levou Volumosa ao Galeão. Um

vôo direto da Panair do Brasil à meia-noite, Recife era a

primeira escala do trajeto até Dakar-Lisboa-Paris-Londres,

cinco horas e meia a bordo de um Constellation. Não era nada

comum uma passagem doméstica dentro do circuito

internacional, mas deputado é deputado. E lá se foi Volumosa

ver a mãezinha.


Para ir até Salvador, entretanto, a situação era mais demorada,

o jeito era um lento DC-3, passar por Vitória e, depois de 8

horas, alcançar a base aérea de Salvador. Mas isso seria só na

semana seguinte. E, de semana em semana, nossa Volumosa

virou uma viajante frequente nas linhas aéreas nacionais.

Que viesse o acaso e que viessem todos os acasos!