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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

3169 - esse trem não volta mais para a estação (5)


7. A VISITA






Antes de Ace chegar naquela casa de Recife, um filme antigo e desbotado de tanto ser visto, mas ainda colorido, passava pelas pupilas de Volumosa. 


Em uma casa de azulejos gastos no sopé das ladeiras de Olinda, vivia MariaThereza, a Tetei, uma menina de nove anos, olhos e cabelos claros de holandesaquase quatrocentona. O ano era 1935 e desde a Intentona Comunista, o mundodela nunca mais seria o mesmo.


Seu pai, o tenente Joaquim Andrade, tombou durante o levante de novembro,o primeiro morto em confronto com os revoltosos. A dor era calada em casa — amãe chorava pouco, os vizinhos cochichavam e ela apenas ouvia, aprendendocedo que a morte também podia ser política.


Diziam, nas vielas próximas ao Forte de Olinda, um nome sussurrado quecausava calafrios: Gregório Bezerra. Sargento do Exército, comunistadeclarado, liderou um grupo armado que dominou Olinda e tentou instaurarum novo regime. Para muitos, um heroi do povo. Para outros, um traidor da pátria.


Maria Thereza, a Tetei, não entendia de ideologias, mas sabia que o talGregório era o homem que seu pai tentara deter. Certa manhã, enquantoajudava a mãe nas compras da feira do Carmo, viu um grupo de soldadoscercando uma casa. Alguém gritou: “É ele! É Gregório Bezerra!” Amultidão se agitou e a menina, como que movida por um instinto maiorque a infância, aproximou-se.


De dentro da casa saiu um homem algemado, ferido, mas ereto e pançudo.Tinha os olhos endurecidos de quem muito já apanhara davida e dos homens. Pequena diante do tumulto,Tetei gritou com a força de quem já conhecia perdas:

— Foi por tua culpa que meu pai morreu!


Gregório parou por um instante. Olhou alheiamente para a menina e nadadisse. Talvez visse nela a filha que não tivera.  O silêncio entre os doisdurou apenas segundos, mas ficou gravado na memória da cidade.


Ela cresceu ouvindo histórias sobre aquele levante, sobre a prisãode Gregório, sobre a ditadura. Nunca esqueceu o dia em que,aos nove anos, enfrentou um símbolo da rebelião — não porpolítica, mas por amor ao pai. Da casa azulejada frente de rua,saíram mãe e filha de Olinda para virar uma página da vida evieram para Recife, na casa pequena de tamanho e recordações.


Quando a segunda-feira amanheceu, o filme já tinha acabado,sem remorsos, ficara só a certeza de que não se podedepender dos outros, a vida é só sua e o futuro é vocêquem faz. Decidida a fazer a própria história,Volumosa lembrou-se de que não haviam combinado hora,só o dia, mas não seria isso que a faria trepidar. Pensou que antes dasdez horas seria cedo em demasia e às onze e meia, um auto-convitepara um almoço não cogitado, portanto, ele chegaria entredez horas e onze e meia. Um minuto antes das dez e cinco, Ace chegou.


Determinar ligações espirituais e terrenas depois de acertoscronológicos dessa ordem seria chover em lençol matrimonialmolhado. Minúscula Salomé, a mãe de Volumosa, mulher pequenaque odiava seu nome de batismo, mas de tanta sagacidade quantosua homônima bíblica, logo percebeu a sonoridade da dupla;naquela manhã, Ace se despediu antes do almoço e eladeclarou para a Volumosa radiante, esfogueada e até suada,de tantos vapores recebidos e transferidos:


- Esse Eisse é o certo, esse Eisse é o certo! Minúscula não paravade repetir. Nada sabia de Labskaus, nem desconfiava da santinhaque criara, mas, de verdade, detestava o deputado Quarto.


E Volumosa, entusiasmada com o encontro e meio temerosada enfática aprovação materna, decidiu: Acho melhoreu casar logo com o Ace, ou é mamãe quem casará...


Filha de Salomé sempre sabe.











8. A CONTRAVENÇÃO






Volumosa se casou com Ace em 1953, passaporte de solteirana viagem para Tânger, então Zona de Estatuto Internacional,administrada pela ONU, um status pós-II Guerra de cidadeinternacional, repartido com Xangai e Trieste.


Em Tânger conviviam todas as nacionalidades e religiões.Os relacionamentos interreligiosos - o que era rigorosamentedo que se tratava, ou aqueles em situação de fragilidadedocumental, que ninguém dizia, mas também eraexatamente o caso do casal - adquiriam solidez com

as certidões tangerinas.


A Igreja Anglicana de Santo André os acolheu, um tabeliãoregistrou e, em frente à Eglisse des Sables de Sainte-Jeanne-d'Arc,ainda em acabamento, Maria Thereza Sardinha tirouuma fotografia, com a ideia de mandar para os católicosda família, mas Ace a dissuadiu, pois a foto poderiaacabar sob as vistas de Quarto.


Ace tinha noções de contrainteligência e, de Tânger voarampara Dacar, permanecendo 3 meses na Ilha de Gorée,de onde partiram quase todos os escravos senegaleses,uma mancha na reputação do lugar, mas uma sombraótima para encobrir um lugar onde não ser achado.


Entretanto, as preocupações cabíveis do piloto nãoencontravam eco no dia-a-dia de Quarto, totalmenteenvolvido com a campanha política para o Legislativoque se aproximava, em outubro de 1954. Quarto nãoera getulista, mas seu partido era base do governodo ex-ditador, agora presidente eleito desde 1950, opai dos pobres. A eleição de presidente só ocorreriaem 55 e estava claro que o presidente não se envolveriaem 54, pois era imensa a força da oposição e nãohavia mais o conjunto de sistemas silenciadores doEstado Novo; estava evidente para a classe políticaque Getúlio não nadava bem na piscina da democracia ecada um que se virasse por si. Uma péssima época parauma reeleição. Muito menos para pensar no sonhadosalto para o Senado Federal, não iria ser desta vezque as mil hipóteses de Quarto encontrariam algumasolidez, o jeito era se desvencilhar do jeitão getulista eposar de meia oposição.


Mas as informações que Ace dispunha não eramtão detalhadas assim e o casal resolveu estacionarem Gorée por esses três meses. A ilha era circundadapor águas calmas e transparentes, com abundantesformações de corais, era um paraíso para o mergulho e apesca. A fauna marinha local incluía uma variedadeformidável de enguias e moreias e a genética piscosade Ace fez com que ele lembrasse que, nos arredoresde Dacar, em Adjacent Field, ficaram alguns restosde três bombardeiros B-24 Liberator acidentados,do tempo do Trampolim da Vitória. Vislumbroua cena de um aquário construído com cinco ou seis

belas torres de metralhadoras. 


Arranjou um caminhão e foi verificar, eram seisas aproveitáveis; as armas não estavam mais, maso plexiglass das torres estava em bom estado detransparência e ele bem sabia como fazer delasseis aquários, pois trazia da infância a memóriados tanques de água salgada que serviam parapreservar bem vivas as lagostas pescadas.


Instaladas nas paredes da casa de um aviador francês,incapacitado para voar devido à perda do olho direitonas batalhas da Indochina, as torres cheias deágua do mar ficaram lindas com seu interior coloridoe vibrante, com as espécies devidamente separadas,para evitar a predação entre elas. Duas das torreseram ligadas por um largo canal elíptico transparentee as enguias e moreias eram useiras e vezeiras detrocar seus respectivos aquários, em vai e veminexplicável. Igualmente cativante era ver a aproximaçãodelas da curvatura do plexiglass, que amplificava aimagem para o exterior e funcionava como umalente côncava para os peixes. Dava a impressão queas enguias entendiam de ótica e que afastariampredadores com a boca oticamente imensa, cheia de

dentes desfigurados.


As enguias viraram um sucesso entre os poucoshabitantes da ilha, era o Aquário do Caolho - L'Aquarium deQu'un-oeil. Daí, a curiosidade entre os habitantescontinentais, estrangeiros e nacionais, fez aumentar,em poucas semanas, a frequência dos barcos deligação entre Dacar e Gorée. Essa inesperadadescoberta do potencial turístico da esquecidailha fez Ace perceber que era hora de abandonaro paraíso, o Aquário, o Caolho, enguias e moreias. 


Dali a recomendação era seguir para a África doSul, mais quatro semanas na Cidade do Cabo.Volumosa gostou de entrar no cinema Metroigualzinho ao de Copacabana, da beleza àbeira-mar, embora sem o jeitão descontraídodo Rio de Janeiro. Formavam o casal maisanônimo do mundo sem registro em nenhumhotel, eram hóspedes de aviadores da SegundaGuerra, ex-combatentes ao lado de Ace, umatropa solidária e disponível em todas as partes domundo. Depois desse último mês de esconderijo,partiriam para a França, um desejo que Ace acalentava

desde o fim da guerra.

3168 - esse trem não volta mais para a estação (4)

5. VAPOROSA






Com tantas viagens e mais a quarta-feira ocupada, Volumosa perdiaquase um quilo por mês, merecendo em um ano a qualificação de vaporosa, a falsaVolumosa. Não havia como deixar de notar e Volumosa atraía os maisdistraídos olhares, ela era alta, costas e ancas largas, atitude imponente.

 

Como viajava para os mesmos lugares, Volumosa para sempre Volumosa nuncadespachava bagagens, conservando em sua frasqueira tudo o que precisava, àsvezes ocupando uma maleta de mão com algum presente. Saía sempre direto doavião para um táxi, ou para um carro que a estivesse esperando.


Nessa rota de rápida passagem pelo saguão do aeroporto, trocava cumprimentoscom a tripulação igualmente expedita no desembaraço de seus afazeres finais. Asaeromoças ficavam a pensar que sucesso ela não faria em qualquer primeira classe,os pilotos e comandantes acenavam e sorriam com um "se esse broto fosse meu",

ou "Ah! esse violão na minha mão". Daí só pra pior… Volumosa tinha borogodó!


Depois do acaso de Volumosa descartar o Gercino de uma vez por todas, estavana hora de haver compensação e fazer aparecer Robert "Ace" Sardinha em sua  vida. Mas como se despedir de Gercino, conhecer Ace Sardinha e deixar o acaso ao léu,  sem as notícias do sorveteiro-pistoleiro?


Quarto acompanhava diariamente pelos jornais uma nota, simples que fosse, sobreGercino. Dois, três dias e nada, nem uma nota de rodapé, que coisa angustiante.Seria o caso de ir na Polícia e procurar informações, mas e o revólver? Seria melhor

deixar o barco correr e fazer chegar aos parentes um aviso e algum dinheiro? Orevólver, ai, o revólver, nem pensar, ir na Polícia, não.


Na terça-feira, finalmente sai em O Dia: foi atropelado e morto Gercino dos Santos,

na Rua Estrela, por motorista não identificado, no dia 9 do corrente. A Políciaencontrou documentos na pensão em que morava e o corpo está à disposição dosfamiliares no Instituto Médico Legal, na Avenida Mem de Sá, 152, nesta Capital.Entre seus bens encontra-se um revólver Smith & Wesson, com munição de festim.


Era o bastante, Quarto fez o resto e Gercino dos Santos foi devidamente honradocom funeral apropriado.


Entrou então em cena Robert "Ace" Sardinha, americano das comunidades debaleeiros portugueses, que conheceu o Brasil como co-piloto da Força Aérea doExército Americano, durante as operações do Trampolim da Vitória, iniciadas nofinal de 1942. Sabia falar razoavelmente a língua, e apesar de alguma dificuldadecom expressões regionais e os sotaques, de parte a parte, ele era imprescindívelpara o sucesso potiguar dos colegas americanos enquanto estava na base,Parnamirim Field. 


Tinha menos de 20 anos em 1943 e fazia parte da tripulação  de Jim "Roscoe"Brown, apelido semi-equino atribuído à sua diplomacia no trato com mecânicos,superiores e colegas. Por um mínimo sinal de falha, abortava a missão e retornavataxiando seu avião até um ponto de manutenção, com um extenso relatório deavarias. Atrapalhava a logística da guerra mundial - só isso, mas nenhum voo seuteve contratempos, ou como era comum com os quadrimotores, nenhum avião sobseu comando chegou ao destino com um ou dois motores em pane.


Essa foi a escola do Robert Sardinha, que tornou-se comandante de aeronave aindaem 1943. Pegou os macetes de busca de falhas usados pelo Roscoe, acelerava ummotor ao máximo, cortava e reacelerava. E ia repetindo a manobra, motor pormotor. Quando girava na cabeceira da pista já tinha plena segurança, ou abortavao voo. Era o método Roscoe... agora Roscoe-Ace


Como essa atitude não era lá muito prova de habilidade, ou de virilidade, virou"Ace" um tanto pejorativamente. No entanto, sua tripulação o adorava, poisninguém suava frio e os mecânicos confirmavam sempre que havia alguma pane,ninguém vira um "Ace" de graça. Para os americanos pronunciarem seu nome,entretanto, era um horror, saía sardinn-rra, sardin-rei e outras dissonâncias menores.Chamá-lo de Bob era redundante, cinquenta bobs atenderiam, aí ACE pegou.


Depois do Trampolim da Vitória, Ace permaneceu na recém criada Força Aérea,sempre nas rotas de carga, jamais nas frentes de combate. Era o único Ace,ás-piloto de carga. Foi ficando, graças ao seu jeito seguro e ausente de falhas e, em1949, quando os russos fecharam as fronteiras da Alemanha Oriental e a ponteaérea de Berlim foi estabelecida, não foi surpresa saber quem mais fez voos sempane.


Os anos 50 chegaram e foi a década do desenvolvimento da aviação comercial emtodo o mundo e no Brasil não foi diferente. Distâncias continentais foramencurtadas de dias de estrada para horas de voo. Aviões militares excedentes deguerra foram convertidos aos milhares e necessitavam de duas e, às vezes, trêstripulações por avião. E a Panair do Brasil, ainda fortemente ligada à Pan American

Airways recrutava muitos pilotos nos Estados Unidos para as recém criadas linhasinternacionais brasileiras.


Definitivamente Ace Sardinha era o homem certo no lugar certo, na hora certa.





6. UM ESBARRÃO 






Saguão do Aeroporto dos Guararapes, seis e meia da manhã, Volumosa nãoencontrou o carro que deveria lhe esperar e voltou para a cafeteria, que malcomeçava a fazer seus vapores. Pediu um café e procurava um lugar para sentarquando um jovem esbaforido e uniformizado de cáqui entra aos pulos, olhandopara cima, enquanto clamava aos berros: Telegrama para Senhor Barretto!


Não chegou a repetir o chamamento e já arremessava Volumosa então vaporosasobre o balcão, que girou pela borda arredondada até que uma mão forte travou omovimento da moça: - Moça, acho que o salvei!


Ace Sardinha falava bem o português, mas esbarrava nas concordâncias,principalmente em emergências. Ficava evidente que não era do lugar. Volumosa,num suspiro e ainda sem ver a cena direito, mas sentindo-se bem amparada,proferiu uma frase um tanto inédita: 


- Obrigada! Mas você não é daqui, não é?


Ace assentiu e notou com a proximidade dos corpos e o balanço da travada, queVolumosa trazia no colo um cordão de ouro com um Santo Antônio igual ao seu.Mostrou-lhe o seu  santo igual, como se isso lhes proporcionasse uma irmandadeimediata e começou uma conversa que só parou com a chegada do Hudson quelevaria Volumosa ao centro da cidade.


Sentada no sedâ azul, refletia sobre o inesperado, um tombo e uma mão do destinoa evitar uma queda espalhafatosa, a queda da Volumosa, quase vaporosa. E decomo essa mão, em conversa de oito, dez minutos, tinha lhe feito dizer tanta coisa,incluindo o endereço da mãe na Itamaracá do Espinheiro; e pior, que já iria esperara visita de Ace, na segunda-feira. Precisava tratar de adiar o retorno no domingo...Êta, que confusão.


“Ainda mando um telegrama hoje para o Quarto”, pensou, ao mesmo tempo emque comparava as ações simples, diretas e eficientes de Ace com as mil conjecturas,

hipóteses e cenários que Quarto desfilaria ante uma simples mensagem. Claro, eleera o Deputado Issi?, onde a interrogação faz parte do nome próprio, e se a mãeestivesse necessitando de cuidados, e se ela pegou uma gripe, e se o ex-namoradoda Marquês do Paraná - que nem era tão longe assim da Barão de Itamaracá eambas amparadas por rima rica e por heráldica imperial, houvesse reaparecido?Claro, Quarto, o deputado Issi?, iria passar a manhã botando e tirando os óculos,para descobrir sob as tirinhas impressas pelo teletipo uma explicação subliminarpara:  PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM, não, era melhor:QUERIDO, PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM. 


É, ficou muito melhor.


E Labskaus? Ora Labskaus entenderia que não era dia e à praia iria sem uma rugano dedão do pé. E ria enquanto pensava como Labskaus se encaixava em qualquersituação de maneira estável, Labskaus se fosse jogado no canto, formaria quina, oumelhor, para falar cientificamente, um vértice e três arestas. Se for jogado numatigela, formaria uma semiesfera, ou meia bola, para falar no coloquial. Labskausera gostoso, mas não era preocupação.


Puxou o cordão do pescoço e deu dois beijinhos no santo, antevendo a dupladespedida. Volumosa Vaporosa iria evaporar de verdade, que fosse para sempre e,ora, ora, ora, por que não um viva para Volumosa Vaporosa?


Viva Volumosa Vaporosa!


 














terça-feira, 4 de agosto de 2026

3167 - esse trem não volta mais para a estação (3)


4. ACASOS






Quarto assistiu horripilado a aparição do acaso e voltou para a padaria,

onde só estava Edvaldo e a caixa, pois todos, clientes e atendentes,

correram para ver o acidente. Sua camisa já havia secado.


Chamou Edvaldo para um canto e perguntou se Gercino já tinha pago

e quanto era a promessa. Quarto sabia as respostas, mas queria

aproveitar para saber quanto o padeiro era confiável.

- Ele ainda não pagou e o combinado era um conto.


A frase conferia perfeitamente e Quarto respondeu:

-E nem vai pagar, mas eu vou quitar a conta dele. E sacou da carteira

uma nota de 500 cruzeiros e cinco de 100, todas estalando de novas,

saídas da caixa do Banco do Brasil na Assembleia.


Compromissos honrados, era hora de trabalhar, pegou um carro de

praça e indicou a Avenida Rio Branco com Ouvidor como destino.

Melhor andar um pouco e ficar anônimo do que bancar o chique

como deputado e saltar na Câmara.


No amplo banco traseiro do Chevrolet, Quarto lembrou dos

formidáveis acasos que tanto lhe ajudaram a subir na política.

Houve uma ou outra interferência do Gercino, mas o acaso,

ou a sorte, há muito lhe bafejava bons arrancos na carreira.


Mas, e os acasos de Volumosa, como seriam? Afinal ela era a

vítima principal e essencial, aquele atropelamento de Gercino

bem podia ser obra do acaso particular de Volumosa a escapar

da morte certa e envenenada... isso precisava ser levado em

consideração.


Seria o acaso dela melhor que o meu? Na cabeça de Quarto

não só as alternativas iam se consolidando, mas logo uma

ponta de superstição apareceu, pois baiano que se preza dá

um alô para um santo e outro alô para outro.


Nada de exclusividades.


Sim, mas vamos botar cada coisa em seu lugar, nisso o táxi

já cruzava a Central do Brasil, então havia uma situação

pendente, pois a essa hora a Volumosa, como não estaria,

fogosa ou radiosa? Não quero nem pensar no que está no

presente, mas quero dar um fim que seja definitivo no

permanente. 


Estaríamos no limiar de uma batalha celestial entre o Senhor

do Bonfim e Padim Ciço? Com inesperada frieza, Quarto

deixou de lado essa questão supraterrena, enquanto dobravam

na Rio Branco e decidiu que seria melhor nada fazer contra

a moça, pelo menos diretamente; ora, por que ele iria se arriscar

nessa disputa de acasos, vamos é juntar os santos e tudo vai ficar

a favor. Saltou na Rua do Ouvidor, leve como um passarinho

na primavera e seco como a caatinga em outubro.


Que viesse o acaso e que viessem todos os acasos!


Dia 10, quinta-feira, Quarto levou Volumosa ao Galeão. Um

vôo direto da Panair do Brasil à meia-noite, Recife era a

primeira escala do trajeto até Dakar-Lisboa-Paris-Londres,

cinco horas e meia a bordo de um Constellation. Não era nada

comum uma passagem doméstica dentro do circuito

internacional, mas deputado é deputado. E lá se foi Volumosa

ver a mãezinha.


Para ir até Salvador, entretanto, a situação era mais demorada,

o jeito era um lento DC-3, passar por Vitória e, depois de 8

horas, alcançar a base aérea de Salvador. Mas isso seria só na

semana seguinte. E, de semana em semana, nossa Volumosa

virou uma viajante frequente nas linhas aéreas nacionais.

Que viesse o acaso e que viessem todos os acasos!

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

3166 - esse trem não volta mais para a estação (2)




O BISCOITO MOLHADO


Volume SV                    Data: 03 de setembro de 2025


CODINOMES (parte2)

uma história do assassinato que não 

houve porque houve um assassinato



1 - para se abraçarem no topo do mundo…


2. O FLAGRANTE


Tudo combinado, chegou a sexta-feira, mas a caravana do Getúlio superlotou de senadores e o deputado Quarto sobrou. Sem ter o que fazer na Câmara, sem ser o dia de Violeta, resolveu voltar para casa e viu com os próprios olhos, pelo canto do parabrisa, o belo chifre que, em cores vivas, lhe aprontava Volumosa, contrastando com todo o branco e preto da cena.

Sem escândalos, Quarto anotou a placa e gravou a cara do rapaz que fechava cerimoniosamente a porta. E se abaixou para não ser visto, escafedeu-se debaixo do painel, desapareceu, sumiu.

Báá!! diria como gaúcho, se não fosse Quarto baiano, de menino capitão de areia a homem deputado - tudo bem, fui ajudado por duas providenciais quedas de avião - não vou passar para a história democrática da Bahia como um dos maridos vivos dessa Dona Volumosa, ah, isso não! Filha de Maria duma figa!

A palavra vingança não sai da boca dos vingativos, que simplesmente a executam friamente. Quarto tinha costas queimadas e açoitadas pelas agruras da política do interior. Vereador, deputado do estado, agora federal, não era um Quarto de brincadeiras, era uma fortaleza do sertão. Não ia ficar barato. 

Como não ficara para o Xexente, subtenente.

Mas teria  Quarto sofrido a infelicidade de se ver traído, por ele mesmo, sem ninguém lhe contar, ou seria isso melhor do que alguém ter visto e contado? Seria, quem sabe, azar ficar com um ativo podre nas mãos, segurando a traição calado, ou seria a sorte de se ver livre de uma sociedade fracassada em que ele, Quarto, passou a ter a minoria das ações? Ele sempre avaliava os acontecimentos por dois pontos de vista, ou quatro, ou oito, mesmo quando era difícil alcançar o segundo. Aquela situação flagrante merecia uma avaliação criteriosa, silenciosa, como o salto da onça em cima do jacaré, se errar, ou perde a comida, ou vira almoço. 

E ele queria se ver senador, que sabe governador, meu rei sem trono? Mas, como, governador, se era de fato, corno..? Ninguém ia votar e divorciar, nem pensar, era o mesmo que suicidar, mas, ora, quem sabe, enviuvar? Com tantos infinitivos girando à frente dos olhos, só uma ação viria a calhar, Volumosa não podia ficar.

Enquanto pensava, teve a ideia de fazer Volumosa passear de avião. Ora, para Recife, ora para Salvador, ela levava documentos ou dinheiro vivo, uma responsabilidade que Volumosa aceitava de bom grado, pois só decolava na quinta-feira e voltava no domingo. Assim, Quarto não via a mulher por meia semana e Volumosa não perdia a quarta-feira; era mesmo para lhe ser irrecusável, ora ver a mãe querida, ora se empanturrar de vatapá, que é uma espécie de labskaus de baiano. O gosto é diferente, varia, mas não cai do prato e nem na terceira garfada esfria.

E quem sabe o avião não caía?

Entretanto, para não contar apenas com o acaso, por que não queimar acidentalmente Labskaus, Volumosa e o Oldsmobile, de preferência em preto e branco, ou melhor, bem preto, carbonizado, sem uma sombra de vapor. Mandou vir de Santo Amaro de Ipitanga o Gercino, seu cabo eleitoral de prestígio, se bem que mais cabo do que eleitoral, ele já tinha práticas em sumiços encomendados, sem deixar vestígios.

Chegado o jagunço, deu as diretivas para a tocaia das quartas-feiras. Gercino era rápido no gatilho e nem tinha chegado o fim do mês de março de 1952, quando o plano - incrivelmente - deixou de ser incendiário, para ser oposto em tudo.

A observação demonstrou que o Oldsmobile se deslocava em percursos movimentados, pela Zona Sul do Rio de Janeiro, depois da hora do almoço; seria impossível explodir o automóvel sem provocar um atentado contra muitos inocentes, o que sempre deixa rastro. Mas, invariavelmente, o casal parava na mureta do canal da Visconde de Albuquerque para ver o mar, perambulando no final do Leblon sem a concorrência de muitos pedestres, às vezes parando na subida da Niemeyer para assistir a uma ressaca. Depois de um tempo andavam até o sorveteiro da pracinha, para deleite de Volumosa, que era fã de Chica-bon.

Passaria a ser Gercino um sorveteiro ambulante, levando um caixote térmico com sorvetes e revólver carregado com projéteis de gelo, com uma sofisticada adição de ricina de mamona. O plano estava pronto e definido para ser colocado em movimento. Quarto estabeleceu o dia 2 de abril, aniversário de Volumosa, para o letal e gelado acontecimento.

Era quarta-feira e aniversário, mas choveu durante a manhã e a tarde toda. Naturalmente, ninguém saiu de casa, nem o casal e nem o sorveteiro Gercino, bastante incomodado com aquele súbito esfriamento do clima, que era péssimo para os negócios. O serviço teria que ser adiado para a quarta-feira seguinte, dia 9. E que não chovesse!

Na tarde do dia 8, entretanto, começou a cobertura jornalística do Crime do Sacopã, que virou coqueluche por terem  encontrado o bancário morto dentro de seu Citroën negro na Ladeira do Sacopã. Era fantástico como notícia, crime passional, mistério, automóvel, Zona Sul, um conjunto de vários ingredientes  consumíveis por um público acostumado à monotonia.

Na Câmara dos Deputados, o assunto já palpitava em todas as bancadas, a toda hora chegava uma notícia, ora dos envolvidos, ora da moça - e a semelhança com o projeto de Quarto era avassaladora. Quarto correu para travar a ação de Gercino.


3. A PADARIA MAIA


Isso era complicado. Gercino estava numa pensão no Rio Comprido que não tinha telefone, mas a Padaria Maia, na esquina do Largo do Rio Comprido com a Rua Estrela, quase em frente, tinha. Era só passar um recado para o Seu Edvaldo e assim que Gercino passasse por lá, o recado seria dado. Quarto dispensou seu assessor de telefonemas e falou direto com Edvaldo, mas não disse que era caso de vida ou morte - o que era a mais pura verdade - e que deveria ser omitido, para não levantar suspeitas. Desligou e começou a espera.

As notícias sobre o crime não paravam de chegar, rádio, jornal, policiais que serviam na Câmara e todas iam bater no Quarto, sabe-se lá por que o motivo de tanto magnetismo. Metabolicamente, a sua velha sudorese abdominal, há anos desaparecida, fez surgir uma gota que escorreu até o umbigo.

Cada ligação que era recebida, uma gota escorrida. No final da tarde, a barra da camisa estava ensopada e nada de Gercino. Os funcionários foram indo embora, com suas consciências tranquilas e seus até logos leves, saltitantes, encontravam em Quarto um nada comum baiano angustiado, logo ele, falador e contador de casos, será que estava doente..? Quarto decidiu ficar na Câmara então esvaziada, quase sozinho e quase oito da noite, um ou outro gabinete ainda iluminado e uma camisa suada.

Dia 9 em casa, Volumosa dormia sossegada, seminua, e às sete horas, Quarto já estava arrumado, e logo a passos rápidos, atravessava a rua. No jornaleiro deu de cara com todos os matutinos, fotos e mais fotos de Citroën, da erma Ladeira do Sacopã, estava tudo no Diário de Notícias e no Correio da Manhã, no O Dia do Chagas Freitas - este usou a página toda - e até mesmo o sisudo Jornal do Brasil espremeria sua coluna de classificados da primeira página, para tratar do assunto em manchete estrondosa, embora sem fotografias. Mal atravessara a rua e a camisa novinha já molhara o cinto, ainda bem que trazia duas camisas passadas, dobradas e devidamente empacotadas, ia ser um longo dia e cadê Gercino?

O volume de investigações sobre o assassinato coberto minuciosamente pela imprensa mostrou a Quarto que, no caso dele, poderia ser ainda maior, fosse pela repetição em tão curto período de tempo, fosse pela política envolvida, afinal, tratava-se da mulher de um deputado, na Capital Federal. Só uma manchete estrondosa, ah, nada disso, seria muito mais, se fosse o caso da morte  da Volumosa.

Quarto decidiu sentar praça na Padaria, mais precisamente no Largo e não dentro da padaria. Na pracinha dificilmente seria notado, uma vez que seu traje estava mais para Avenida Rio Branco do que adequado a uma padaria de bairro. Menos adequado ainda seria ficar nas imediações da pensão, na Rua Estrela. Pois que o Largo tinha ponto de bonde, crianças indo para a Escola Pereira Passos, ponto de motoristas de praça, jornaleiro, era bem mais fácil não ser percebido, mesmo com paletó na mão e camisa molhada.

Dia 9, nove e meia, Quarto entrou na padaria, viu Edvaldo que muxoxou um "não o vi até agora", tomou uma média e sentiu o imediato porejar, a camisa já estava molhada até os mamilos. A situação estava se encaminhando para um drama sem fim, Gercino ia liquidar a dupla em questão de duas, três horas, ia ser preso, baiano da mesma cidade do viúvo, iam chegar nele como mandante em questão de minutos, teria que renunciar ao mandato de deputado e seria sentenciado sem perdão. Ou seria possível que ninguém visse o crime, insolúvel como a ricina de mamona no sangue que leva a paralisia em segundos, e amanhã ele estaria no velório da Volumosa, de terno preto e condoído?

Quarto ainda perscrutou a mente em busca de mais alternativas, porque nenhuma estava encaixando bem; a melhor situação era persistir calmo na busca por Gercino, cobrir-lhe do dobro da quantia combinada e interromper a chacina. Mas, como ficar calmo com aquela camisa encharcada?

Não era recomendável aparecer na pensão, fora Gercino quem armara a ligação apenas via Edvaldo, que era quieto, sisudo e com quem já tinha tido um arranjo de sócio no passado, portanto de confiança total. Mas quem estava com a camisa molhada era ele, Quarto, não era Edvaldo e nem Gercino. Ô tensão braba de passar...

Dia 9, dez e meia, esse Gercino não come não? 

Dia 9, onze horas, Quarto decide reexaminar todas as alternativas, calculadamente, para se mexer com certa urgência e achar um caminho, em parte pelo correr das horas fatais, em parte para não se afogar em suor, que já beirava o colarinho. Era abril, mas estava bem quente e a lama que descera pela Santa Alexandrina na semana anterior secara e exalava o cheiro característico de bactérias em decomposição, aquele cheiro de mangue seco, que lhe trazia memórias olfativas da agora longínqua Santo Amaro de Ipitanga. Longe em distância e longe nos anos. Não, essas lembranças não o ajudariam em nada.

Ação era o que faltava, afinal desde nove horas naquela pasmaceira, ele era homem de ação, ou será que não era? Olhou mais uma vez para si próprio, sem ir longe demais no passado lamacento e, meio no desespero, começa a perceber que o acaso era parte importante em sua biografia. Será que dava para deixar o acaso resolver mais esta?

Dia 9, quinze para meio-dia, ação, finalmente, Quarto sai da padaria em direção à pensão que ele não sabia exatamente onde era, mas que era naquela calçada. Quando Gercino saísse, ele se veriam e pronto. Neste momento, ouve-se a sirene de uma rádio-patrulha, um camburão preto e branco, que sobe exatamente na mesma calçada para onde se dirigia Quarto e o som agudo da sirene vai se tornando grave, indicando a sua parada. Um sinal claro, para larápios e meliantes, de que a lei chega para todos. 

O que mais faltava, pensou Quarto em um segundo, pois no segundo seguinte, um esbaforido sorveteiro todo de branco surgiu na escada, com uma caixa amarela dependurada em bandoleira. Em dois saltos estava na calçada e correu para pegar o bonde que arrancava da imobilidade. Uma acrobacia de execução simples não fosse o desvio de um automóvel, que não contava com a estancada repentina da viatura policial e se espremeu entre o bonde e ela, sem espaço para Gercino. A acrobacia de execução simples virou um salto mortal.

Gercino foi pelos ares em voo direto para o beleléu, enquanto o automóvel sumia, levantando a poeira fedida. Os policiais saltaram da camionete e foram acudir o sorveteiro, ou o que restava do sorveteiro. Com o impacto, a correia da caixa amarela desprendeu-se e duas dúzias de sorvetes espalharam-se pela Rua Estrela. O bonde estancou.

Na mesma calçada estavam umas dez crianças, que saíam da escola e sem se preocuparem com o abalo da cena, viram nos sorvetes esparramados uma sorte grande de loteria gorda, desde que não derretessem. Não derreteram.

Além da sorvetada espalhada, o Smith & Wesson .32 sem cão, niquelado, também voou e, bem mais pesado do que um Chica-bon, foi parar lá debaixo do bonde. Os policiais detiveram o bonde por uns dez minutos, mas as reclamações dos viajantes, justas, pois o bonde nada influíra no triste desenlace e também a próxima chegada do bonde seguinte, determinaram que o motorneiro seguisse viagem. Foi quando encontraram o revólver, na sujeira da rua, ligeiramente umedecido.