COLECIONADORES
Somos longevos e colecionadores. No mínimo, colecionamos dias, meses e anos, mas também as emoções, as experiências profissionais e amadoras, os casos que vivemos contando entre amigos, e, portanto, somos também colecionadores de amigos e por que não, também de inimigos.
O tempo passa e a coleção só aumenta e mesmo que eu não fosse um acumulador compulsivo de coisas, seja um álbum de figurinhas dos anos 60, ou oito barbeadores elétricos - um de corda, soviético, para ser usado na Sibéria, penso eu - a lista é sempre crescente. Quando me desapego de um parafuso velho, tenho sempre a certeza de que logo ele me seria necessário.
Mas entre as coleções que mais prezo e que me motiva a escrever sobre a longevidade, é a que reúne casos longevos. Sim, você pode contar um caso, uma piada, eles têm uma duração no tempo. Mesmo que seja um tombo de bicicleta quando você aprendia a andar nelas, aos dez anos, o tombo se resume à queda, um joelho arranhado, um sofrimento à custa de Merthiolate vermelho. Você pode contar para os seus netos, 40 anos depois, mas a duração daquela experiência não muda, do tombo até a soprada para amenizar a ardência do Merthiolate se passou um tempo fixo, por exemplo, 40 minutos.
O caso longevo não é assim.
O caso longevo parece que durou meia hora, mas ele te iludiu.
É isso! Casos longevos são mestres na arte de iludir, na procrastinação, na escorregadela sucessiva das suposições infundadas, o caso longevo desafia o tempo, a justiça e a lógica.
Coleciono casos longevos. Estimo que um caso merece essa qualificação quando ele te engana, digamos, por mais de 30 anos. Se você tem 40 anos de idade, é praticamente impossível que você possa colecionar, qual colecionar? É impossível que você tenha sequer um caso longevo.
É um privilégio da longevidade. Como a resposta do jardineiro inglês ante o olhar admirado do turista americano, a respeito da perfeição do gramado... é só regar dia sim, dia não, durante 700 anos. Como a América tem 500 e poucos anos, não é longeva o bastante para ter um gramado perfeito. A longevidade começa assim.
O caso longevo tem personagens, presentes e futuros, eles têm carisma, são interessantes, sempre há alguém contando uma parte de um caso que será longevo. E de conto em conto, em uma hora, ou em um século e uma hora, alguém fala e esbarra bem na porta do destino. É matemático, é preciso, é cataclísmico.
É o destino que é o dono da laçada final, aquela que encerra o caso longevo e fecha o embrulho de toda uma situação que vale colecionar. É o destino quem arremata, mirando no fundo dos teus olhos: vê como você é feliz?
1958, Rua Teresina, em Santa Teresa. A rua tinha acabado de ser pavimentada com paralelepípedos. Eles eram lisos e perfeitos, nivelados e rejuntados com piche e pedrinhas britadas, uma alquimia que era cozida ali mesmo na rua, com uma fogueirinha de lenha sob um regador de ferro, cheio de piche. Ao contrário do pé-de-moleque, sempre ávido por encontrar peles e carnes para arranhar, o paralelepípedo era civilizado, quase doce e, nos dias de verão, você ainda podia cutucar o rejunte desse piche e formar uma bolota que se levava para a escola e disputava em tamanho na hora do recreio. Uma covardia com os colegas que moravam em rua asfaltada...
Naquela manhã, a Rua soava diferente, longe daquela pachorrenta calmície de sempre. Pessoas se dirigiam com passos firmes em direção à única esquina genuína da Rua Teresina, aquele cotovelo de que ela é dona sozinha, sem repartir com qualquer outra rua.
Eu também fui, porque em 1958 tudo era permitido e o que poderia acontecer com um garoto de 8 anos? Cheguei na esquina, estava lá um mundaréu de gente, alguns policiais e uma Rádio Patrulha, preta e branca, sinal evidente de que o assunto era sério de verdade.
Sem maiores cuidados, cordões ou fitas de isolamento, estava estacionado um carro preto, Mercedes, meio cansado, meio batidinho, aqui e ali. Mas no meio do porta-malas redondo, o sinal gritante da violência perpetrada, a causa do alvoroço matinal: três buracos de bala, redondinhos, escuros e foscos, que faziam contraste contra algum brilho da pintura.
Um caso simples, não havia vestígios de sangue, corpos espalhados cobertos com jornal e também não havia ninguém supondo, ou explicando; apenas o murmurar e o gesticular de quem nada sabia o que acrescentar.
Seria um caso simples, daqueles que você quase esquece, apesar de haver certamente uma causa para o fato? Que destino seria capaz de tecer a teia que encobriria um embrulho desses, de quase nada a reportar?
Em 2004, faltando pouco para as bodas de ouro deste caso, então enevoado nas esquinas da minha memória, ouço a história de dois garotos de 15 anos, pegando o carro do pai de um deles, às escondidas. Saíram do Flamengo e passaram pela Praça Paris, com seus chafarizes coloridos brilhantes, o que possivelmente os maravilhou, ou ofuscou, não sei.
O fato é que o brilho fez um descuido, que fez um acidente. Coisa boba, bateram de leve na porta de um táxi, mas o pavor de serem descobertos e levados à delegacia, meninos sem carteira de motorista, o pai, ou os pais, serem chamados e retirados de seus pijamas, esse aglomerado de situações prováveis bastou para que fugissem do flagrante delito.
Vamos para Santa Teresa! bradou o não-motorista, uma solução lógica, pois era perto e os taxistas não teriam a mesma intimidade que este não-motorista achava ter com exclusividade. O taxista reuniu mais dois colegas de profissão e a perseguição começou.
O fato é que a distância ora aumentava, ora diminuía. Não ia dar certo. O narrador de 2004 era o não-motorista e ao ver a Teresina sempre escura, desligaram as luzes e pararam o carro na esquina genuína, junto a uma casa de cômodos de péssima reputação. Ele sabia que pela casa de cômodos havia uma passagem para uma pessoa a pé, pelo barro escorregadio do morro.
A manobra evasiva foi bem sucedida, ou pelo menos, até certo ponto. Os taxistas custaram a achar o carro, os meninos subiram a pinguela e ficaram bem de longe vendo a cena. Os farois dos carros de repente iluminaram o Mercedes e não o largaram mais, até todos chegarem junto a ele; os homens então saltaram e notaram a moradia lúgubre que circundava a situação. Dali não sairia nem um pio, quanto mais uma informação.
Lá de cima, os meninos viam, nada ouviam e se encolheram trêmulos quando um dos motoristas sacou um revólver e deu três tiros no porta-malas, fazendo buracos redondinhos, escuros e foscos.
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Eu tinha treze anos e estudava de manhã. Após almoçar, minha mãe me convencia a fazer os trabalhos de escola e, caso houvesse qualquer argumentação difusa, que eu fizesse uma redação.
Antes de abrir qualquer caderno, entretanto, eu abria a janela do quarto e dava três tecos com a espingarda de ar comprimido na clarabóia do vizinho, que ficava a boa distância. O chumbinho não quebrava o vidro, mas produzia um estalo seco, que eu ouvia perfeitamente de casa. Só após a confirmação da minha boa pontaria, eu iniciava o trabalho escolar.
Nessa casa morava meu amigo Nelson, o Juquinha, companheiro de peladas e bicicleta, mas, por algum motivo, eu não contei a ele.
Eram sempre três tiros e nunca abri a janela nos dias de chuva, era o meu regulamento. Mas realizei esta atividade durante seis meses, talvez mais.
Seria um caso simples, uma brincadeira de adolescente, se eu não encontrasse o Juca, um senhor de cabeleira branca, mas igual ao Juquinha de 1963. Nos encontramos no Largo da Carioca e esse encontro foi antes da Covid, portanto neste caso, decorridos mais de 50 anos, qualquer acusação não prosperaria em função de prescrição por tempo.
Foi quando contei para o Juca, que prestou muita atenção ao meu depoimento e, quando terminei, ele deu um sorriso e saiu-se com esta: Ah, então era isso...
Juquinha morava com sua tia-avó, Dona Ondina, que ouvia diariamente e à mesma hora, os meus estalos na claraboia. Certamente não passou pela cabeça dela e nem na cabeça de mais alguém, que tais estalos pudessem ser artificiais. Ao contrário, sua suposição era de que a estrutura estava avisando os moradores de que algo não ia bem.
Dona Ondina era mãe de um arquiteto da Prefeitura do então Estado da Guanabara e tanto fez pressão sobre o filho, que ele convidou uma comitiva de engenheiros do serviço para avaliarem a situação. Juquinha acompanhava de perto todo o desenrolar daquela atividade, pois era morador e também curioso; e uma comissão de especialistas não se vê toda hora.
No dia em que todos estavam sob a claraboia, não houve estalo algum. Claro, disse para o Juca no Largo da Carioca, nesse dia choveu e eu não abri a janela.
Juca agora já ria largamente e completou: a comissão se retirou, dando total descrédito à Dona Ondina, mas, antes de saírem, subiram na estrutura do telhado e constataram que não havia qualquer sinal visível de apodrecimento, ou infestação por cupins.
Dei um abraço no Juca e nos despedimos, ambos agradecidos ao destino pela laçada no embrulho; nós dois tínhamos nas vidas um caso longevo.
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Turquia, 1962. Nunca estive na Turquia e este caso longevo já me veio pronto e acabado. E ele tem todas as características que me permitem enquadrá-lo na minha coleção de casos longevos.
Tia e sobrinha viajavam pela Turquia, quando souberam da existência de uma aldeia praieira de beleza incomparável, junto ao Mar Negro. De maneira alguma elas poderiam deixar de conhecer a localidade, pois não se vai à Turquia toda hora e ao Mar Negro, menos ainda. O problema é que por ser um local rústico e ainda não ocupado turisticamente - o que a qualquer turista acende um aviso luminoso de não perder a oportunidade - não havia uma ligação rodoviária direta entre Ancara e a tal praia.
Só havia uma solução para atingir aquele objetivo, pegar um ônibus para Istambul, saltar em uma encruzilhada de estradas no meio do nada - mas, atenção, senhoras, não há qualquer perigo, a encruzilhada é guardada por um acampamento militar - e aguardar alguma condução que se dirija a Zonguidak, dali é fácil se chegar à aldeia.
Elas titubearam ante a escala na encruzilhada, mas eram tantas as garantias que partiram. E realmente a encruzilhada existia, com o acampamento militar, no meio do deserto, tudo de acordo com a descrição recebida.
Saltaram do ônibus e se colocaram junto à seta que indicava o caminho; perceberam que houve um movimento no acampamento, com braços apontando, mas nada que fosse agressivo. Em dado momento, um graduado fez um aceno, elas responderam e ficou tudo por isso mesmo. Sentiam-se, tia e sobrinha, amparadas pelo Exército Turco.
E não demorou muito a aparecer um velho táxi preto, fizeram sinal e se entenderam razoavelmente com o motorista, que entendia um pouco de inglês. O turco acomodou a sobrinha no banco dianteiro, um sinal de que era um motorista de bom gosto e encaminhou a tia para o banco traseiro.
Nestas situações, não se pode apresentar muitas exigências, o motorista era muito bem educado e sorridente, como a maioria dos turcos e antes de permitir a entrada da tia no banco traseiro passou a arrumar umas caixas de papelão que estavam ali, fazendo uma espécie de troninho para bem acomodar a tia.
A tia embarcou nas caixinhas de papelão, que tinham estampado o logotipo bem conhecido da Shell. A viagem foi agradável, gratificaram o solícito motorista, seguiram para a praia, que era mesmo sensacional, comeram peixe fresco preparado pela mulher do pescador e passaram a contar esta aventura a quem lhes cruzasse o caminho.
Tanto contaram e recontaram e a tantas plateias pelo mundo, que em uma hora esbarraram socialmente com um engenheiro da Shell, habituado à prospecção de petróleo. Este engenheiro ouviu a história e em baixa voz, meio que foi repetindo para si ...caixas de papelão, ...táxi pelo deserto, ...Turquia, e como a lógica precisa dos engenheiros permite, ora, ora, declarou, eram só caixas de dinamite.
Todos sabemos que caixas de dinamite são absolutamente seguras e que uma eventual explosão só acontece se houver um dispositivo detonador e, portanto, não havia mesmo qualquer perigo, como bem advertiram os amigos que recomendaram a viagem.