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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

2954 - As viúvas do Orlando


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5204                                      Data:  06  de outubro  de 2015

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4 DE OUTUBRO NO RÁDIO MEMÓRIA

 

O dia era 4 de outubro, mas o Jonas Vieira estava inteiramente voltado para o dia anterior, 3 de outubro de 2015, quando Orlando Silva faria 100 anos de idade. Um ano antes, no Rádio Memória, depois de criticar duramente, mas com justiça, a mídia, por deixar em brancas nuvens os centenários de grandes artistas do passado, declarou, com veemência, que os 100 anos do Orlando Silva não seriam esquecidos. “Eu não vou deixar.” Nem esperou 2015 chegar, arregaçou as mangas e promoveu um evento, na ABI, se a memória não me trai, sobre o cantor da sua predileção e de todos aqueles que têm os ouvidos apurados para o canto.

Nada mais compreensível, agora, que ele transformasse o dia 4 em dia 3, o domingo em sábado, embora a sua apreensão, que citamos, não se confirmasse. José Serra, Ancelmo Góis, João Máximo, Ruy Castro, Ricardo Cravo Albim, José Ramos Tinhorão - este, como o Jonas Vieira, considera Orlando Silva o maior cantor do mundo de todos os tempos – foram alguns dos orlandófilos que trombetearam as façanhas do seu ídolo e impediram que a data passasse em brancas nuvens.

Mas houve um momento, nesse programa do último domingo, na segunda parte, que Jonas Vieira não pôs mais uma gravação do Orlando Silva para o deleite dos ouvintes porque atendeu o telefone. Era o Sérgio Fortes. Desaparecido desde que o titular do Rádio Memória anunciou a sua mudança, Sérgio Fortes tratou de se pronunciar para que dúvidas não pairassem no ar.

-Jonas, você disse aos ouvintes que estou de mudança... no mundo em que vivemos, eu fico preocupado. Quero deixar claro que não há nenhuma conotação sexual...

Depois dos risos, ele prosseguiu:

-O meu abraço a todos os ouvintes do Rádio Memória. Eu confirmo que continuo muito enrolado com a minha mudança. Eu acho que mudança tem limite de idade; deve ser feita até os 29 anos, depois de velho é terrível.

-Pior do que mudança, só uma mala. - observou o Jonas Vieira com sutileza.

-É mesmo. - concordou o Sérgio Fortes e, com ele, 90% dos brasileiros.

Sérgio expressou preocupação pela sua ausência física em dois programas seguidos e pediu para dar as coordenadas no calendário.

-O que você acha?

-Eu acho ótimo, Sérgio. Vamos lá.

Como se ouvisse um diapasão imaginário, Sérgio Fortes aprimorou a voz.

-Dia 4 de outubro.

Em seguida, baixou uma oitava:

-Em 1942, o Cruzeiro é instituído como a moeda oficial do Brasil por Getúlio Vargas.

-Exatamente, Sérgio.

-Depois disso, houve grandes transformações. Esse negócio de mudança de moeda... Eu, uma vez, fiz uma aplicação num plano de capitalização de 10 anos. Eu apliquei, na época, uma quantia em torno de 3 salários mínimos, quando fui resgatar, tinha direito a um Eskibon. Olha, eu cuspi maribondos...

Gargalhadas sádicas do Jonas Vieira foram captadas,

 -Em 1957, é lançado ao espaço o primeiro satélite artificial, o Sputnik 1.Foi uma comoção, Jonas. Muita gente pensou que íamos ser atacados a qualquer momento. Lembra isso?

-Eu lembro demais.

-Em 1970, uma overdose de heroína mata a cantora Janis Joplin aos 27 anos.

-Quantos artistas se envolveram com drogas?... Eu acho – comentário meu – que carregar o andor divino, que é a arte, é muito difícil.

-É mesmo, Jonas.

Jonas prosseguiu com o seu raciocínio.

-Vamos pegar o Orlando Silva, que também se envolveu com drogas, mas, felizmente a Lourdes (sua esposa) o salvou. O que acontece?... Você tem de cantar praticamente as mesmas coisas, enquanto é assediado por compositores, por fãs, etc. Mesmo dormindo mal, você tem de estar sorrindo.

-É verdade.

-E o peso da música que você carrega... Rapaz, tem de ser muito forte para isso.

Mais uma vez o Sérgio Fortes concordou com o seu parceiro.

-Ainda em 1970, Émerson Fittipaldi, correndo pela Lotus, vence sua primeira corrida como piloto de Fórmula 1, no circuito de Waltkins Glen, nos Estados Unidos. Foi a primeira vitória brasileira na categoria. Foi uma comoção.

-Certamente, Sérgio, para o Brasil.

Também para a Suécia, pois, com essa vitória, Jochen Rindt se tornaria campeão mundial póstumo da Fórmula 1 de 1970.

Dos eventos históricos, Sérgio Fortes passou para os nascimentos.

-Em 1841, nascia Prudente de Morais, que viria a ser o primeiro presidente civil do Brasil.

-Em 1959, Clóvis Beviláqua, autor do Código Civil Brasileiro de 1916.

-Em 1891, nascia uma figuraça: Assis Chateaubriand.

-Esse foi mesmo uma figura. Eu o conheci pessoalmente. - manifestou-se o Jonas Vieira.

-Jonas, ele fechava a gaveta e deixava a chave dentro. Dava nó em pingo d’ água.

Jonas Vieira retomou a palavra para contar uma história que ilustrava bem a “figura”, antes, porém, fez uma pequena introdução.

 -Ele dava presentes para muitas mulheres, dava presentes para reis, rainhas... pensando mais em se promover; enquanto isso, os salários das suas várias empresas estavam sempre em atraso. Na rádio Tupi, por exemplo, ele perguntava ao tesoureiro quanto dinheiro havia. “Tem tanto”. “Me dá”. Não ficava nada.

-Caramba! – abismou-se o Sérgio Fortes.

-Certa vez, na Rádio Tupi, ele chegou lá uma hora da manhã com vários convidados. Ele pretendia entrar e mostrar a rádio a todos. Foi barrado pelo porteiro. “Eu sou Assis Chateaubriand”. “Eu não conheço o senhor pessoalmente”. “Eu garanto que sou”. “Não, senhor, não pode entrar”. “A ordem é que só pode entrar quem se identificar”. Ele foi barrado e, no dia seguinte, o porteiro foi demitido.

-É claro. - disse o Sérgio pensando na ordem natural das coisas.

Mas a história não terminava aí.

-Pois o Assis Chateaubriand chamou o porteiro e lhe disse: “Parabéns”.

Era, agora, a vez do Sérgio Fortes.

-Também conheço umas histórias. Meu avô conviveu com ele, no Recife. Contou que o Assis Chateaubriand era um garoto, tinha acabado a faculdade de Direito, ainda inexperiente e se meteu a concorrer a uma cátedra da Faculdade de Direito de Recife com um luminar, um sujeito qualificadíssimo. Chance zero. Como esse garoto tem essa petulância?... Para se ter uma ideia, Jonas: ele ganhou.

E completou:

-Imagina, Jonas, o que ele fez por baixo dos panos. Mas ganhou.

O calendário seguiu adiante.

-Jonas, em 1895, nascia Buster Keaton, ator, realizador, roteirista e produtor do cinema americano.

-Grande ator! vibrou o Jonas.

-Em 1948, nasce uma atriz brasileira que eu coloquei aqui porque conheci o seu pai, um pintor muito competente, muito talentoso, Lúcia Alves. Ela anda sumida.

-Realmente.

-Eu não sei quais são os regulamentos, principalmente da Rede Globo... É um tal de determinarem quem some, quem aparece. Deve haver, Jonas, muita coisa que a nossa vã filosofia não alcança.

-Só o futuro dirá.

-Jonas, em 1956, nasceu um ator austríaco... não sei se você viu algum filme dele, o cara é inacreditável: Christoph Waltz. Ele fez os filmes “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”. Guardem o seu nome, embora muitos já o conheçam: Christoph Waltz.  Que ator! (*)

Agora, o Homem-Calendário passava para os falecimentos.

-Em 1669, Rembrandt, pintor neerlandês.

-Em 1904, Frédéric Auguste Bartholdi, escultor francês. A importância dele é ter esculpido a Estátua da Liberdade.

-Nossa! – exclamou o Jonas Vieira.

-Em 1947, morria Max Planck, físico alemão, considerado o pai da Teoria Quântica. Eu imagino que ele sabia tudo sobre Teoria Quântica.

-Imagina, rapaz... moderníssimo.

-Jonas, em 1982, morre um pianista incrível, bem doido, mas, ainda assim, incrível: Glenn Gould.

-Esse era fantástico, Sérgio.

-Você sabe, Jonas, que era uma dificuldade louca fazer gravações com Glenn Gould?... Sabe por quê? Ele tinha o hábito irremovível de ir tocando e cantarolando. Estragava as gravações todas.

-Exatamente.

-Em 2009, morre Mercedes Sosa, cantora argentina.

-Em 2014, um ator brasileiro importante: Hugo Carvana, também cineasta.

E prosseguiu:

-Hoje é o Dia Mundial dos Animais; é o Dia da Natureza.

-Olha só.

-Nós falamos, Jonas, tanto de santos do segundo time, mas hoje é dia de um santo importante: São Francisco de Assis.

-Este é santo mesmo.

-Vale a pena se agarrar com ele.

-Sem dúvida, Sérgio.

-Nos dias atuais, Jonas, ele deve estar com a agenda carregada. Um assessor está distribuindo senhas de atendimento.

Assim, o Sérgio Fortes deu por encerrado o calendário e a voz do Orlando Silva voltou a imperar.

 

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO concorda e avisa: ele será o vilão Franz Oberhauser, chefe máximo da Spectre, que ameaçará o mundo tal como o conhecemos, no próximo James Bond. E, se não bastasse, continuará vilão no próximo Tarzan que virá por aí.

 

 

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

2955 - Radiografado Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5205                                      Data:  07  de outubro  de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XLIX

 

ATROPELAMENTO (03) – Depois de as pessoas constatarem que eu estava vivo, conversavam durante algum tempo e saíam para dar tratar dos seus afazeres. Eu estava vivo e com fome. Havia almoçado, nesse dia 5 de março de 1986 no Rick, lanchonete do empresário Ricardo Amaral, da Praça Monte Castelo. Faltaram arroz e feijão naquele prato – o cereal e a leguminosa que me deixavam satisfeito – e eu pretendia compensar esse vazio enchendo o meu prato na janta. Mas os acontecimentos dramáticos impediram que se cozinhasse alguma coisa para o jantar, em casa e eu tive de devorar um saco de biscoito, que estava pele metade. Nem erguendo esse saco, como se um copo fosse, para beber o farelo, adiantou. Maldisse o meu almoço frugal, sem pensar que ser atropelado com a barriga vazia provoca menos danos ao organismo.

Meu irmão Claudio se escalou, ou foi escalado, não me recordo bem, para dormir no meu quarto. Era aconselhável que eu não passasse a noite sem ninguém junto de mim. Na manhã seguinte, ele afirmava que viu uma das maiores armas anatômicas da vida dele; referia-se a um vizinho, morador do prédio da cooperativa da Aeronáutica, localizado na Rua Cachambi, em que alguns apartamentos ficavam devassados para o meu quarto. Será que ele viu mesmo, ou era mais uma das suas brincadeiras? Eu nunca havia visto nada, embora, ao contrário dele, tinha pouco a ver com aquele personagem vivido pelo James Stewart no filme de Alfred Hitchcock.

Mas a fita de cinema que eu sentia na carne era, infelizmente, outro, lançado pouco tempo atrás: “O Dia Seguinte”. Minha Nossa Senhora! Parecia que eu havia subido no ringue para enfrentar Roberto Duran Mano de Piedra; doía-me todo o corpo. Ficou estabelecido, então, que o meu cunhado me levaria, no seu táxi, ao Hospital dos Italianos, no Grajaú, que tinha convênio com o meu plano de saúde. Desci o único lanço de escada do prédio amparado por ele; cada movimento que eu fazia era uma tortura. Finalmente, fui colocado no seu carro e conduzido para a Rua Marechal Jofre.

Aquela pessoa que, horas antes, segundo o meu atropelador, entrara andando normalmente no Hospital Salgado Filho, não podia, agora, andar. A dor cruciante me deixava bem consciente de tudo o que ocorria ao meu redor. Um enfermeiro me trouxe uma cadeira de roda e eu fui conduzido até um médico. O doutor, ao me ver, declarou que eu ficaria internado, mas, antes, eu tinha de passar por uma bateria de radiografias. E lá fui eu ser radiografado mais uma vez.

Depois de examinar as chapas, o médico me disse que eu não sofrera fratura alguma. Citei a fratura do meu ísquio, conforme informação do Salgado Filho. Não, não havia fratura alguma – assegurou. Escreveu duas ou três receitas com garranchos que só os profissionais da sua classe e os farmacêuticos entendem e não tocou no assunto internação. Apesar da dor, senti um grande alívio.

Não me recordo de ter sofrido a mesma agonia na viagem de volta para casa, talvez porque algum remédio que me foi ministrado lá já fizesse efeito, além do fato de ser bem melhor para o emocional sair do hospital do que ir para ele.

No entanto, a dor na coxa da perna direita não cessava. A pancada do carro se deu nela e o padecimento persistiu por dezesseis dias contados pelos dedos.

Claudio foi tratar do meu pedido de licença no trabalho, para isso, teve de tratar do boletim de ocorrência na delegacia. Arnaldo, Glória e Ana Luísa, três colegas de trabalho, vieram me visitar. Disseram elas que o Arnaldo fizera tantas papagaiadas no metrô, que eu lamentei não estar entre eles.

O atropelador era um visitante assíduo; contou-me a sua odisseia: o para-brisa do Passat se espatifara, com o choque, que ele teve de ser atendido, depois, no Salgado Filho, pois a sua cabeça estava tomada de caquinhos de vidro que foram retirados com uma pinça na enfermaria.

De noite, minha irmã veio com as duas filhas, de Niterói, para mais uma visita. Em dado momento, pegaram os binóculos do meu pai e eu tive de dividir as atenções com o Cometa de Halley, mesmo com a decepção que foi essa sua passagem, bem diferente da que ocorrera em 1910, quando o poeta Carlos Drummond de Andrade lembrou, nas suas crônicas, que se falou até no fim do mundo. O Cometa de Halley de 1986 era apenas um ponto luminoso o que não impediu a minha sobrinha Verônica de pedir, ansiosa, os binóculos para ver a cauda do cometa. Com 5 anos de idade, ela estava sugestionada pelo “Lindo Balão Azul” da Turma do Balão Mágico.

Luca e Vagner pareceram, também numa noite, para me ver. Luca me pediu o número da placa, pois seria um promissor palpite para o jogo do bicho.  Mas o meu encontro com o Passat foi tão rápido que nem a sua cor eu vi, só conhecia a marca porque assim foi dito.

Além do dolorido nos quadríceps, a minha virilha direita, se não me engano, se distendera. Com as informações colhidas, eu deduzi o que acontecera comigo segundos antes e depois do meu apagão. No momento em que eu corri para a calçada, o Méier-Maria da Graça, seguiu para a Rua Chaves Pinheiro e os motoristas dos veículos daquela pista da Suburbana que tiveram a visão prejudicada, pela sua posição enviesada, seguiram adiante, foi quando, repentinamente, eu surgi diante do Passat. Com a trombada na minha perna, eu subi, abri o compasso (como dizia o locutor de futebol Oduvaldo Cozzi, daí a distensão na virilha) fui de encontro ao para-brisa, rolei pelo capô do carro e caí no asfalto desacordado. Uma moça, que buscara o filho da escola, ao se deparar com essa cena, a poucos metros dela, saltou um grito de horror. Talvez, ela e o filho pensem, até hoje, que eu não escapei com vida.

Os curativos das minhas feridas, durante os primeiros dias eram diários, e a Gina, minha cunhada, com a acurácia de uma enfermeira, resolvia esse assunto, sempre sob os olhares curiosos do Daniel, na época, com 3 anos de idade.

Eu costumava comprar ovos de páscoa para os meus sobrinhos, por isso, cismei de, na terceira semana desse mês de março, ir até meu trabalho e de lá. às Lojas Americanas da Rua Uruguaiana fazer as compras. Claudio foi comigo. A espera, a viagem de ônibus, a multidão, a barulheira, tudo mexia com os meus nervos em frangalhos, eu não estava em condições, ainda, de retornar ao trabalho. Revi os amigos, comprei os presentes achocolatados e retornei para casa. Meu prazo de licença teve de ser prorrogado por mais 15 dias.

Fui obrigado a ir ao 23º DP prestar depoimento sobre o meu atropelamento. Lá, topei com inspetor apressado, que não queria deixar nada pendente no seu último dia antes das férias, como me revelou.  Depois de olhar com desdém o polícia, carente de pensamento sadio, que aventou a hipótese de eu ter pulado do ônibus andando para não pagar a passagem, voltei-me para o inspetor e narrei tudo o que acontecera, isentando o motorista do Passat de qualquer culpa. Eu falava e ele datilografava. Depois, entregou-me o papel para eu assinar. Como os muitos erros não comprometiam ninguém, assinei.

O atropelador desapareceu após o meu depoimento, nunca mais soube dele. Nem quis saber da missa pela minha segunda vida, pretendida pela minha mãe, que, por sinal, não aconteceu.

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

2953 - Alavancado Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5203                                      Data:  05  de outubro  de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XLVIII

 

ATROPELAMENTO (02) – Quando o motorista que me atropelou pôde falar comigo, ele disse que me colocou no seu carro, um Passat, com o amigo, que ainda estava com ele ali, no hospital, e mais duas moças que se prontificaram para serem suas testemunhas. O que mais me surpreendeu foi quando ele me informou que acordei no meio do trajeto para o Salgado Filho e, mais surpreendente ainda para mim, caminhei com os dois, normalmente, até a emergência. Como assinalei, anteriormente, eu recobrei a consciência no meio de um questionário a que fui submetido por um funcionário do hospital na presença de um policial. Eu não falei antes do policial?... Ele tem de ser mencionado, pois deixou o rapaz que me atropelou assustado.

-Eu e meu amigo – indicou-o com a cabeça – estávamos indo para o Rei do Bacalhau, no Encantado, quando você surgiu, em um segundo, na minha frente, afundei o pé no freio, mas...

Olhei para o meu Seiko, que estava arranhado e com o ponteiro saltando, depois da pancada, de dois em dois segundos, mas sem perder a precisão suíça, embora fosse japonês.

Havia cheiro de éter e as lâmpadas estavam acesas; já anoitecera na estação em que o sol demora mais a ir embora, sinal que  era muito tarde. Como estavam reagindo os meus pais, que já roem as unhas de preocupação com 30 minutos de atraso dos filhos?  Soube mais tarde.

Meu pai telefonou para o meu irmão Claudio expressando a sua aflição com a minha demora; meu irmão, que nunca admitiu esse excesso de zelo paterno com ele, pilheriou, disse-lhe que eu arrumara uma mulher no caminho. Outro telefonema foi dado pelo meu pai, agora para o meu trabalho, e o meu colega e amigo Arnaldo lhe disse que eu voltara para a casa há muito tempo. Contagiado pela agonia do meu pai, ele comunicou a outros colegas do meu sumiço (embora os sequestros estivessem na moda, ninguém aventou essa hipótese).

Houvera um atropelamento, que o sogro do meu irmão, sentado na varanda da casa viu, ou melhor, ouviu o som lúgubre e prolongado da freada e os comentários dos que passavam em frente à sua casa: “este morreu”. O que ele viu, isso sim, foi um amontoado de curiosos, no local do acidente, que logo se desfez.

Como a minha demora se tornava mais angustiante, o humor do meu irmão se apagou e ele foi até o posto de gasolina, defronte à sua casa, colher informações sobre o tal atropelamento. Lá, os frentistas guardaram os meus sapatos e o envelope que eu levava; nele estava uma edição da revista “Afinal”, de que eu era assinante, com a reportagem de capa sobre a censura ao filme de Godard “Je Vous Salue, Marie”. Quando o Claudio pegou a revista, leu o meu nome, suou frio e correu para o Salgado Filho, hospital para onde me levaram, segundo os frentistas.

A minha irmã, em Santa Rosa, Niterói, quando soube do meu atropelamento, soltou um grito que levou a minha sobrinha, Verônica, com 5 anos de idade, a comentar com a irmã: “Mamãe está assim porque o papai não deu dinheiro para ela.”

As coisas, agora, no hospital, aconteciam rapidamente. Apareceu, em primeiro lugar, meu irmão, que respirou aliviado quando me viu e constatou que as previsões macabras sobre mim não se confirmaram. Depois, veio a Glória, uma colega de trabalho, com o marido, deu-me um beijo na testa e voltou para o seu apartamento no Leblon.

Meu cunhado e minha irmã surgiram por último; a expressão de desafogo da minha irmã; ao me verem bem, não durou muito, porque gritos desesperados de uma paciente feriram os seus ouvidos.

Quando fui liberado pelo médico de plantão do Salgado Filho, vim para casa no táxi do meu cunhado, eu e todo mundo, menos o atropelador, que foi à minha casa no seu Passat, sem o seu amigo, que tinha outros afazeres. Eu estragara os bolinhos de bacalhau dos dois.

Logo que soube, pelo meu irmão, que eu havia sido atropelado, meu pai arremessou o primeiro objeto que estava à mão contra um quadro em que aparece Jesus Cristo de corpo inteiro e o xingou por diversas vezes. Com a minha chegada, houve uma transformação religiosa; a minha mãe falava que eu nasci outra vez e que encomendaria uma missa pelo milagre que me salvou a vida. O motorista do Passat, que sentara num sofá, pediu, em seguida, que lhe informassem sobre a igreja, o dia e a hora, pois ele fazia questão de estar presente na cerimônia.

O humor voltou ao meu irmão que, junto do filho Daniel, com 3 anos de idade, e da Gina, minha cunhada, disse que eu buscara esse empurrão do carro para ficar mais perto da White Martins, que tinha uma fábrica no final da rua Cachambi. Ele sabia que as ações da White Martins alavancavam o meu minguado salário, principalmente naqueles primeiros dias ilusórios do Plano Cruzado.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

2952 - Atropelado Dicionário Biográfico


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5202                                       Data:  04  de outubro  de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XLVII

 

ATROPELAMENTO (01) – Foi no dia 5 de março de 1986; o dia, mês e ano ficaram na minha memória e só se apagarão se ela for junto.(*)

  Eu costumava sair do trabalho às quatro e meia da tarde. No mais tardar, às cinco e meia, eu já estava correndo pelas ruas de calção, camiseta, tênis e meias. Nessa data, porém, eu me atrasei porque me pediram para elaborar um gráfico... sei lá se era de linha, barra, torta, não me recordo, sei que era baseado em dados estatísticos sobre navegação marítima (só podia ser) e para piorar, alertaram-me que havia uma certa urgência. Como nós não utilizávamos computadores, nos anos 80, os gráficos tinham de ser feitos com papel milimetrado, o que nos exige o máximo de concentração e vista de lince. Ainda assim, eu me apressei e poucos minutos antes das cinco horas aprontei tudo e parti para o metrô.

Na estação do Estácio, onde era feita a baldeação, disparei escadaria abaixo, rezando que já houvesse um trem à espera dos passageiros que não seguiriam para Saens Peña; o meu desejo maior, diferentemente dos demais apressados, não era sentar num banco e sim chegar logo à minha casa, que, naquele tempo, ficava na Avenida Suburbana, mais próximo da Rua Cachambi do que da Itamaracá.

 A estação do metrô de Del Castilho havia sido inaugurada três anos antes, mas demandaria mais tempo para eu aparecer em casa; saltei, então, em Maria da Graça para pegar o ônibus. Dentro do ônibus, Méier-Maria da Graça, chamou a atenção de todos os passageiros o comportamento neurastênico do motorista quando foi ultrapassado por outro ônibus da mesma linha; ele grasnou impropérios, gesticulou, enquanto imprimia mais velocidade no veículo que estava sob a sua responsabilidade.

Perto do portão da histórica Casa do Capão do Bispo, não havia ponto de ônibus, mas os motoristas do Méier-Maria da Graça, carinhosamente chamado de cata-mendigos, paravam por camaradagem se alguém puxasse o fio da campainha do sinal. Para mim, era ótimo, pois bastava eu atravessar as duas pistas, andar poucos passos, que já estava no prédio em que morava. Mas, nesse dia 5 de março de 1986, não houve camaradagem, o motorista não admitia que o outro chegasse ao ponto final, no Méier, à sua frente. Seguiu em frente, mas, ao fazer a curva em direção à Rua Chaves Pinheiro, deu uma ligeira parada; eu e um rapaz saltamos, ele foi para o canteiro que dividia as duas pistas da Avenida Suburbana, para isso deu uns dois passos, enquanto eu, sem conter a minha pressa, corri para alcançar a calçada. Foi quando tudo se apagou.

Recobrei a consciência no meio de um questionário que eu respondia a uma pessoa desconhecida, sentada como eu, com uma pequena mesa entre nós. Como respondi as perguntas sobre mim, mesmo nocauteado, não sei, e, pelo jeito, sem errar, pois ele seguia em frente com o interrogatório, enquanto eu tentava me localizar. Vieram-me à mente o metrô, o ônibus que peguei em Maria da Graça, a viagem, a irritação do motorista e tudo parava aí.

Notei que estava sujo e em andrajos como um mendigo. A minha camisa social branca estava rasgada na altura do ombro, a minha calça de terno se rasgou quase de cima abaixo numa perna, e os meus sapatos não estavam nos pés.

Feita a minha ficha, entregaram-me um pedaço de sabão em barra, apontaram para uma porta e disseram para eu me lavar. Abri a porta e entrei num lavatório onde havia uma pia e um chuveiro. Fiz o possível, naquelas condições, para tirar do corpo manchas de sangue coagulado, pedrinhas e resquícios do negrume do asfalto.

Quando saí do lavatório, levaram-me para tirar radiografia. Em seguida, o médico radiologista me informou que eu fraturara o ísquio e se pôs a falar, didaticamente, sobre esse osso, de que eu já ouvira falar numa aula de Ciências Naturais no curso ginasial.

Conduziram-me, depois, para uma mocinha, médica-residente, que se pôs a limpar minhas feridas, que não eram muitas, com água boricada. Ela atentava para a minha cabeça, onde havia um corte superficial e mais ainda, para o meu ombro esfolado.

Um rapaz, mais ou menos da minha idade, acompanhava aflito, como um amigo meu de infância, todo o tratamento a que eu era submetido. Ele mesmo se identificou quando lhe deram a oportunidade de se acercar de mim: era o motorista que me atropelou.

 

(*) Um coincidência marca a vida do Sr. Redator e do Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, ambos fomos atropelados e sobrevivemos. Pelo menos achamos isso.

Entretanto, o Distribuidor não tem ideia da data do acontecimento, sabendo apenas que foi no início de 1958, porque estava na 3ª série do Primário. De maneira análoga, fomos ambos socorridos pelo atropelador, como se pode deduzir pela presença do atropelador do Redator nesta edição.

 

 

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

2951 - Blockbuster


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5201                                       Data:  02 de outubro  de 2015

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CARTAS DOS LEITORES

 

-O redator escreveu sobre a visita que a rainha Maria I, a Louca, fez a casa dele, mas dedicou apenas dois parágrafos, se tanto, ao tempo em que ela esteve no Brasil. Identificou as outras que derem origem à expressão popular “Maria vai com as outras”, Gleisi, Jandira, Ideli, Maria do Rosário, mas esqueceu a Erenice. Eu gostaria de saber como as perturbações mentais da Maria I, a Louca, foram tratadas no Brasil. Nada disso foi dito. Aqui vai esta crítica construtiva. Oduvaldo

 BM: Com críticas construtivas como essa, o Biscoito Molhado chegará, um dia, a New York Times, diria Maria I.

A falta de tempo nos impediu de relatar a estada da rainha no Brasil, como desejávamos, porém, algumas pesquisas foram feitas pela nossa equipe sobre o final da sua vida, no Brasil, que escaparam dos historiadores, e descobrimos algumas coisas. Por exemplo: no desembarque da Corte Real, no Rio de Janeiro, a rainha teceu os maiores elogios ao vice-rei e capitão geral do Brasil, Dom Marcos de Noronha e Brito dizendo que ele era um “vice-rei das galáxias e não é da via láctea, é de uma galáxia especial.”

  Dom João, que trouxera muitos cruzados do Tesouro de Portugal para cá, procurou bons médicos para a rainha. Estes aconselharam que a paciente se libertasse, por momentos, da velha e pesada cultura lusitana e arejasse a mente com vistas às manifestações festivas dos índios; acreditavam eles que essa ligação dela com o novo, com a natureza em sua exuberância, só lhe faria bem. Então, numa dessas festas indígenas, Maria I, a Louca, saudou a mandioca, e afirmou que não só ela, como todas as índias, eram mulheres sapiens.

Quando a missão francesa, com grandes artistas, entre eles Debret, aportou no Rio de Janeiro, em 26 de março de 1816, ainda presenciou um deslumbrante foguetório com os populares gritando vivas pelas ruas. Maria I, a Louca, fazia seis dias, não era mais reverenciada, não porque renunciara ou sofrera impeachment, simplesmente porque falecera. O príncipe-regente Dom João se tornava rei.

Na monarquia era assim: morreu o rei?... viva o rei! (o sucessor, evidentemente). 

 

-O Globo, anos atrás, creio que no início do ano 2000, apresentou uma lista dos cem maiores brasileiros vivos. O redator do BM soube dessa lista? Pretende, também, apresentar a sua lista? Waldir

BM: Sim, passamos a vista por essa pretensiosa intenção do Globo de nomear os melhores, não vimos o nome do Millor Fernandes que, na época, estava bem vivo e passamos a ler assuntos sérios.

Millor disse uma frase que, infelizmente, não perde a sua atualidade ululante, no Brasil: “Desconfio de quem lucra com a sua ideologia.” Quando os “idealistas” brasileiros – políticos, artistas, escritores, cineastas, intelectuais em geral – deixarão de lucrar?... Afinal, nós, como contribuintes, pagamos essa conta.

 

-“Quantos leitores têm o Biscoito Molhado?”-  Doalcei.

BM: Não sei; só garanto que o Dieckmann, distribuidor do Biscoito Molhado, está mais atento do que eu a esse ponto. Dois anos atrás, imaginando que aumentaria exponencialmente o nosso número de leitores, lançou o Biscoito Molhado no Facebook. Foi um fracasso. Cachorros, bichanos, crianças fazendo gracinhas, exibições da própria privacidade fazem sucesso na rede social, às vezes, estrondoso; textos, não, a não ser que se limitem a cinco linhas no máximo.  Dieckmann percebeu isso e desistiu.

No entanto, dois anos atrás, redigimos uma edição formada por perguntas em que cobrávamos, de algumas celebridades, suas atitudes em situações específicas. No seu aguardado asterisco, Dieckmann se colocou na pele dessas personalidades e respondeu, com talento, é inegável, a todos os questionamentos. Não se conteve e postou tudo no Facebook. Mesmo contando com inúmeros amigos, poucos curtiram; se tive postado a fotografia de um Gordini dos anos 60 obteria (obteríamos, afinal as perguntas eram minhas) mais repercussão. (*)

Esteve (não sei se ainda está), no Brasil, o escritor francês Christian Pringent, epígono do escritor, sociólogo, semiólogo, filósofo Roland Barthes (1915-1980). Ao ser inquirido sobre o pequeno número de leitores no Brasil, disse que isso é alarmismo, não só no Brasil, como na França e nos demais países. Assinalou que imaginam que. nas outras épocas, lia-se muito, mas a verdade não é bem essa. Citou, então, Rimbaud, que teve 20 leitores, Baudelaire, 100. Palavras textuais suas: “No século XIX, de Balzac e Zola, o número era infinitamente menor, pois as pessoas não sabiam ler.”

Lembramos que Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira custearam do próprio bolso as edições das suas primeiras obras, que mal chegavam a 200. O Brasil, naquele tempo, tinha mais de 80% de analfabetos.

Voltando ao escritor francês Christian Pringent e ao século XIX, chamamos a atenção que muitos livros saíam, nos jornais, sob a forma de capítulos seriados. A leitura de um capítulo por dia não cansava o leitor no século XIX, no XX, também, foi o caso de “Giselle, a espiã nua que abalou Paris” (não discutimos aqui a qualidade dos escritos), cujos 53 capítulos saíram 1 por 1 nas edições do jornal Diário da Noite do Assis Chateaubriand. (**)

O serviço de rede social fundado por Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin e outros, lançado em 2004, veio mostrar o que já se desconfiava: Cachorros, bichanos, crianças fazendo gracinhas, atraem a atenção de mais pessoas do que os livros.

 

-Falta ao Biscoito Molhado um consultor de atividades físicas para esclarecer dúvidas dos leitores e zelar pela boa saúde deles. Eu, por exemplo, tenho uma dúvida: subir e descer escadas é bom para o condicionamento cardiovascular? José Carlos

BM: Com a atual crise econômica, estamos impossibilitados de contratar um articulista dessa matéria, mas recorremos ao nosso distribuidor que, atualmente, se obriga a dar pelo menos 10 mil passos por dia, consultando o seu celular, com pedômetro, como um crente consulta a sua Bíblia. Disse-nos ele que, ao subir os degraus de uma escadaria, os músculos posteriores das pernas, dos quadris e os glúteos são fortalecidos, além de ser benéfico para o sistema cardiovascular; porém, o mesmo proveito não ocorre na descida, pelo contrário, porque as articulações dos joelhos são exigidas demais.

Isso me faz lembrar as palavras do meu pai num dia em que desceu um trecho da Rua Honório: “Quem disse que para baixo todos os santos ajudam? Eles nos empurram, metem o pé na nossa bunda e, se bobearmos, nos jogam no chão.”

É só, por hoje.

 

(*) A Distribuição do seu O BISCOITO MOLHADO informa que já atingimos a marca de 24 mil acessos. É normal haver 20 acessos diários, o que equipara o redator a Rimbaud, mas a contagem diária de leitores, às vezes dá saltos de 200 ou mais acessos, o que deve significar que os leitores diários devem ser mais de 20. Pode-se afirmar, com absolutas segurança e isenção, que O BISCOITO MOLHADO é o maior sucesso literário do século 19.

 


(**) Gisele, a espiã nua foi uma aventura criada por David Nasser, de modo que o sucesso atingido pode ter relação com o talento.
Um fato curioso sobre a relação de Nasser com Chateaubriand sobre a série, foi que o jornalista, contrariado por um salário adicional que lhe havia sido prometido se a história fosse um sucesso não ter sido ainda pago, avisou ao chefe que ia matar Giselle num pelotão de fuzilamento e que já tinha escrito o final. Chateaubriand ficou apavorado com o possível fim da série que estava fazendo do Diário o mais vendido jornal vespertino carioca no segundo semestre de 1948,[3] e rapidamente deu a Nasser o dinheiro que desejava. O jornalista, porém, disposto a acabar logo com a história, disse a Chateaubriand que não via mais jeito de continuar, pois o último capítulo escrito por ele, que estava na edição do dia do jornal, terminava com a espiã na frente do pelotão de fuzilamento e o grito final do oficial nazista comandante do pelotão de "Fogo!". O capítulo seguinte seria apenas a finalização da história. Chateaubriand lhe deu então um ultimato: "Se Giselle aparecer morta amanhã, o senhor acorda desempregado depois de amanhã. O senhor trate de avisar a este oficial nazista que acaba de chegar uma ordem de Goering desde Berlim mandando suspender o fuzilamento!" [2] :427
E assim Giselle acabou vivendo mais algumas semanas, durou 59 capítulos e em 1952 ganhou uma segunda edição em livro.


 

    

  

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

2950 - Amante do prefeito


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5200                                       Data:  01 de outubro  de 2015

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210ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

 

O taxista desse dia era o Bob Esponja.

-Hoje, subindo a Vlaminck, rumo ao trabalho, passa por mim um táxi, para na esquina dessa rua com a Van Gogh e dele salta uma cracuda.

-Você viu se era da cooperativa?... O número?... – perguntou-me num vórtice de curiosidade.

-A minha preocupação com assaltantes é tamanha, no meu caminho até a estação do metrô de Del Castilho, que fico alheio aos detalhes, como nome da cooperativa e número, garanto, apenas, que era um táxi.

-Há colegas, aqui da cooperativa, que pegam essas cracudas que vagam pela madrugada.

-Você me disse isso uns dois anos atrás.

-Continuam pegando. - falou com um sorriso mordaz.

-Ela, então, desceu a pé os 200 metros, mais ou menos, da Van Gogh ao mesmo tempo do que eu numa sincronia constrangedora.

-Grudou em você, toda a descida da rua, pedindo dinheiro?

-O meu temor foi esse, por isso, guardei uma distância segura; ela, numa calçada e eu na outra. Na verdade, ela caminhava pelo meio da rua e eu não podia andar sempre pela calçada, porque são muitas as armadilhas para nos derrubarem, muitas as rachaduras.

-Se a cracuda não lhe pediu dinheiro, é sinal que tinha o suficiente para a pedrinha. Aquele taxista não deve ter sido o primeiro, porque os caras são sovinas.

-Como era descarnada... com pouca carne.

-Pode falar difícil, amigo, estudei Ciências Contábeis na faculdade.

-Desculpe-me. Creio que, mesmo envelhecida pela miséria e o vício, ela não chegava aos 18 anos de idade. Como estava imunda!

-Se você pega uma dessas meninas e coloca numa banheira de água limpa, em dez minutos, vira um lamaçal. - exagerou.

-Uma pena. - lastimei.

-Modigliani. - anunciou.

 

No dia subsequente, peguei o táxi do Paizão. Antes de me entender com o cinto de segurança, puxei conversa.

-O que senhor acha de ter o Eduardo Paes como colega de profissão?

-Isso que ele está fazendo, de passar por taxista e pegar pessoas na rua, o Gugu já fazia. - reportou-se ao animador de televisão.

-Sim, mas o Gugu atuava para um quadro do programa dele, enquanto o Eduardo Paes está em plena campanha à presidência da República pelo PMDB.

-Você acha que aquelas raposas do PMDB vão deixar um político jovem se candidatar a presidente da República?... Porque ele é jovem, deve ter uns quarenta e poucos anos.

-Não há uma raposa velha do PMDB que não tenha um esqueleto no armário, que não tenha um malfeito no seu currículo. Muitos deles, na realidade, têm folha corrida.

-O Eduardo Paes, não?

-Contra ele, o que se sabe, até agora, são pecados que o eleitor engole.

-Eleitor brasileiro tem estômago de avestruz; engole tudo.

-Acredito que a bandalheira dos políticos foi tamanha, nesses últimos anos, que o eleitor, de um modo geral, se enjoou dos corruptos cascudos.

-O Eduardo Paes não é um deles? - mostrou-se cético com a moral do nosso alcaide.

-Lembra-se das construções dos estádios da Copa do Mundo? Houve superfaturamento em quase todos eles; até o preço da grama do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, foi superfaturado.

-Lá em Brasília, está o covil. - interveio.

-Compare, agora, as obras da Copa do Mundo com as Olimpíadas de 2016? Não houve, até o momento, nenhuma denúncia de falcatrua.

-Até o momento... insistiu na sua desilusão com a honestidade dos políticos.

-Até o fim das obras, provavelmente, porque o Eduardo Paes não quer dar munição aos seus opositores quando alçar voo para cargos mais elevados.

-Não vou negar que a zona portuária está ficando bonita, a duplicação do elevado do Joá, também.

-A Fernanda Torres, filha da Fernanda Montenegro, escreveu uma crônica, na Veja, em que se disse maravilhada com a Praça Mauá e escreveu, no parágrafo final, que o Eduardo Paes iria deixar saudades. Na semana seguinte, uma leitora, depois de elogiar os textos da Fernanda Torres, a criticou por não comentar a situação dos hospitais do município, que estão largados.

-As escolas também... as professoras ganham uma merreca.

-Sei disso; as minhas sobrinhas são professoras do município e descem a ripa no Eduardo Paes sempre que eu falo dele.

Riu com minhas palavras, e prossegui:

-O Joãozinho Trinta acertou em cheio quando disse que povo gosta é de luxo. Numa campanha eleitoral, com as obras de embelezamento do Rio de Janeiro, o eleitor vai se esquecer do mau atendimento hospitalar, do ensino municipal precário, como a Fernanda Torres esqueceu, e vai votar nele.

-Ele quer fazer pelo Rio o que o Carlos Lacerda fez. - observou e eu logo discordei.

-O Eduardo Paes está a anos-luz do Carlos Lacerda, que criou milhares de escolas, hospitais...

-O Hospital Salgado Filho foi inaugurado por ele. - lembrou.

-Sei, antes, minha mãe me carregava para o SAMDU, mas quando o prato de leite do gato se espatifou sob os meus pés, ela me levou para o Salgado Filho. Foi em 1963, recordo-me porque estava no 3º ano ginasial do Visconde de Cairu.

-Então, o hospital estava estalando de novo.

Na Rua Modigliani, despedi-me dele com um até amanhã.

Mas o táxi que peguei, no dia seguinte, foi, novamente, o do Bob Esponja.

-Hoje, é o dia da sua pelada? – perguntei após uma longa pausa.

-Não; o dia é quarta-feira. A pelada, amigo, é um pretexto para a cerveja que vem depois.

-Correm atrás da bola e ficam com mais sede.

-Eu sei que a cerveja não é o hidratante ideal, mas não quero nem saber.

-Você ainda tem o problema da diabetes.

-Evito os refrigerantes e já está de bom tamanho. Um conhecido meu, com diabetes tipo 1, bebia um litro de Coca-Cola, ficou cego. Não viveu muito.

-Um contínuo do meu trabalho, lá pelos anos 80, dizia que essa doença, a começar pelo nome, tinha parte com o diabo.

-O 081 perdeu um dedo do pé devido a diabetes.

-Ele tem uns 80 anos, cheio de garoupas no bolso, mais de 20 imóveis, diabetes (acentuou bem) e ainda trabalha!... Só para atrapalhar a nossa vida, pois não precisa.

-Garoupas?- estranhei.

-Os peixes das notas de 100 reais.- esclareceu.

-O 081 me disse que tem se cuidado; caminha trinta minutos quase todos os dias. Na última corrida, no táxi dele, disse-me que até a mulher tem caminhado.

-Qual delas: a oficial ou oficiosa? - maldou.

-Parece que a oficial.

-Não dá conta de uma, quer ter duas. - expressou sua intolerância com o 081.

-A amante é jovem?

-Nada. Ele é esperto, sabe que uma amante nova suga mais dinheiro.

-É verdade.

-Modigliani. – anunciou.

-Modigliani. - informou.    

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

2949 - longevos e cheirevos


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5199                                   Data:  29 de setembro de 2015

 

 

SABADOIDO

 

 

Meu irmão não ficou mais do que quinze minutos cortando a roseira.

-Fica pra depois, fiz bicicleta, quando amanhecia e estou, agora, cansado. - disse, enquanto guardava a tesoura.

-Conseguiu tirar a barulheira da bicicleta?

-Nada; cada pedalada é um rangido.

-E os vizinhos?

-Está escutando?...

Apurei os ouvidos e percebi o que me parecia uma briga de casal vindo do prédio de dois andares do lado.

-Com as pedaladas, eu baixei o ácido úrico do sangue e minhas inchações sumiram.

-Vários colegas meus de trabalho, que tiveram gota, foram obrigados a maneirar na ingesta alcoólica, como dizem os médicos.

-Os médicos dizem isso mesmo? - estranhou.

-Sabe o meu amigo da Sunamam que trabalhou no filme “A Rainha Diaba”, Arnaldo Muniz Freire de Lima Lages?...

-Lembra-se do nome dele todo?

-Lembro-me porque é um nome parnasiano; um verso hendecassílabo com as tônicas na quinta e na décima-primeira sílabas.

Entusiasmado, acrescentei:

-Mas Olavo Bilac era imbatível; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, verso em alexandrino perfeito. Nome que veio a calhar para o nosso melhor poeta parnasiano.

-O pai da Rosa criticou o Olavo Bilac? - indagou.

-O Agripino Grieco considerava Castro Alves o maior poeta brasileiro, mas respeitava o Bilac.

-Se Castro Alves não tivesse morrido com 24 anos de idade, seria mesmo. – imaginou.

-Como eu dizia, o Arnaldo me mostrou uma receita em que o médico lhe dizia para forçar a ingesta líquida, ou seja, que bebesse muita água.

Uma vez, o Antonio Houaiss escreveu ninfa potável no lugar de água.

-Nem toda água é potável.

-Claudio, estou relendo “Crime e Castigo”, de Dostoiévsky.

-Rapaz, eu li esse livro há tanto tempo.

-Eu li há uns 40 anos e, há 20, mais ou menos, topei com um texto do Paulo Francis em que ele diz que, até a primeira metade, “Crime e Castigo” é uma obra-prima, mas, que na segunda metade, se transforma numa novela da Janet Clair.

-O Paulo Francis escreveu muita bobagem. - reagiu meu irmão com desdém.

-Eu já reli as 120 primeiras páginas e não conheço autor algum que tenha explorado literariamente tão bem a alma de um criminoso.

-Mas o livro não é só isso.

-Claro. Victor Hugo retratou os miseráveis dentro dos parâmetros do romantismo, mas Dostoievsky retrata os miseráveis como eles são, na realidade, e estabelece uma diferenciação com os pobres, pois nestes ainda restam a dignidade, a vergonha.

-O miserável já perdeu tudo. - atalhou.

-Claudio, esse livro do Dostoievsky é de uma atualidade gritante. A única diferença que constato dos miseráveis de Dostoievsky com os que esbarro, hoje, é que estes fumam craque e os do escritor se incham de vodca.

-O problema dos livros dele são os nomes dos personagens, Carlinhos.

-Até os russos tinham problemas; o Raskólnikov, por exemplo, é chamado, às vezes, de Ródia. Ainda não cheguei ao Zózimo, mas é um nome que me acompanha desde garoto por causa do futebol.

-Zózimo não é de outro romance do Dostoievsky?

-Deve ser, Claudio, eu faço confusão... Tenho, por isso, de reler todo o Dostoievsky.

-Mesmo menos complicado, ninguém fala Ródia, e sim Raskólnikov.- afirmou.

-Uma das grandes vantagens do livro que leio é a tradução direta do russo para o português; até então, tínhamos traduções de segunda mão; os autores russos eram traduzidos, geralmente, do francês para o nosso idioma.

-Como dizem que tradutor é traidor, havia uma traição dupla. - deduziu.

-Antônio Feliciano de Castilho, poeta romântico português do século XIX, que estudamos no ginásio, traduziu o Fausto de Goethe partindo de uma tradução francesa, pois não conhecia a língua alemã.

-Eu ganhei o “Crime e Castigo” da Roberta (professora do município, sobrinha da Gina). Ela me disse que precisava de espaço no apartamento em que mora e me perguntou se eu queria o livro.

-Eu ganhei do Lopo (nosso irmão) que, por sua vez, o recebera da Ângela (ex-companheira, também professora municipal).

-Então, é a mesma edição distribuída pela Prefeitura. - concluiu, enquanto pegava o livro na estante, próxima à cozinha e me mostrava.

-Vale reler, Claudio; não só pelo que eu disse, mas pelos esclarecimentos no rodapé sobre medidas, por exemplo, pois os russos não usavam o sistema métrico decimal.

-Vamos ver. - disse.

Passei da literatura para o cinema.

-A NET tem o NOW, em que ficam à nossa disposição dezenas de filmes para ser vistos.

-Vez ou outra, a Gina ou o Daniel acessam esse canal.

-Semana passada, querendo assistir a um filme, entrei no NOW, e escolhi “O Jardineiro Fiel”, por causa do Fernando Meirelles, o diretor.

-Sei; é um filme que se passa, na sua maior parte, na África.

-Gosto muito do Fernando Meirelles. A minissérie “Os Maias”, que ele dirigiu, foi antológica. Considero “Cidade de Deus” um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Ele dirige, agora, no Theatro da Paz, em Belém, a ópera “Os Pescadores de Pérolas”, de Bizet, e, pelo pouco que vi, deve ser um deslumbramento.

-Ele dirigiu, em “O Jardineiro Fiel”, um dos maiores atores da atualidade, Ralph Fiennes. - lembrou.

-A atriz, que não é muito conhecida por mim, Rachel alguma coisa, também foi premiada pela sua atuação nessa fita. - acrescentei.

-Eu li sobre esse filme quando foi lançado nos cinemas, Carlinhos. Ele investiga a morte da esposa que contrariou interesses de laboratórios farmacêuticos que usavam os africanos como cobaias.

-Há uma cena do filme em que um carro persegue o dele. Nesse instante, eu me senti decepcionado com o Fernando Meirelles por ter caído nesse clichê, mas não era nada disso; o diretor fazia uma sátira à Hollywood, o motorista que perseguia o carro do personagem do Ralph Fiennes era um gozador de piadas de mau gosto.

-Há um toque brasileiro do filme? - quis saber.

-Bem, em uma cena o Ralph Fiennes usa uma bermuda igualzinha a minha, parece até que comprou numa loja do Nova América.

-Aquela que a Gina lhe deu de presente?

-Isso, ela me presenteou com duas, todas de cor bege, como as do Daniel.

-Falando em Daniel, ele só foi ao “Rock in Rio”, no dia da apresentação do “Queen”?

-Ele foi com a Roberta e com o Valtencir a outro show. 

-O Ruy Castro escreveu, na Folha de São Paulo, que nenhuma outra música envelheceu tão bem como o rock, porque o seu publico não abandona seus artistas mesmos quando passam dos 70 anos. Diferentemente com o que aconteceu com os cantores dos anos 60 que, mal chegavam aos 50 anos, eram abandonados pelos empresários e pela mídia. Grosso modo, foi isso que ele disse.

-Carlinhos, não concordo muito não. Frank Sinatra, longe da sua bela voz, cantou até perto dos 80 com plateias enormes. O que dizer do Tony Bennett ainda canta aos 89 anos, a idade da mamãe?...

-E o Tony Bennett já cheirou cocaína.

-Cheirou como os cantores de Rock, Carlinhos.

-Vá ver que a cocaína é o segredo da longevidade deles. - concluímos.