4. ACASOS
Quarto assistiu horripilado a aparição do acaso e voltou para a padaria,
onde só estava Edvaldo e a caixa, pois todos, clientes e atendentes,
correram para ver o acidente. Sua camisa já havia secado.
Chamou Edvaldo para um canto e perguntou se Gercino já tinha pago
e quanto era a promessa. Quarto sabia as respostas, mas queria
aproveitar para saber quanto o padeiro era confiável.
- Ele ainda não pagou e o combinado era um conto.
A frase conferia perfeitamente e Quarto respondeu:
-E nem vai pagar, mas eu vou quitar a conta dele. E sacou da carteira
uma nota de 500 cruzeiros e cinco de 100, todas estalando de novas,
saídas da caixa do Banco do Brasil na Assembleia.
Compromissos honrados, era hora de trabalhar, pegou um carro de
praça e indicou a Avenida Rio Branco com Ouvidor como destino.
Melhor andar um pouco e ficar anônimo do que bancar o chique
como deputado e saltar na Câmara.
No amplo banco traseiro do Chevrolet, Quarto lembrou dos
formidáveis acasos que tanto lhe ajudaram a subir na política.
Houve uma ou outra interferência do Gercino, mas o acaso,
ou a sorte, há muito lhe bafejava bons arrancos na carreira.
Mas, e os acasos de Volumosa, como seriam? Afinal ela era a
vítima principal e essencial, aquele atropelamento de Gercino
bem podia ser obra do acaso particular de Volumosa a escapar
da morte certa e envenenada... isso precisava ser levado em
consideração.
Seria o acaso dela melhor que o meu? Na cabeça de Quarto
não só as alternativas iam se consolidando, mas logo uma
ponta de superstição apareceu, pois baiano que se preza dá
um alô para um santo e outro alô para outro.
Nada de exclusividades.
Sim, mas vamos botar cada coisa em seu lugar, nisso o táxi
já cruzava a Central do Brasil, então havia uma situação
pendente, pois a essa hora a Volumosa, como não estaria,
fogosa ou radiosa? Não quero nem pensar no que está no
presente, mas quero dar um fim que seja definitivo no
permanente.
Estaríamos no limiar de uma batalha celestial entre o Senhor
do Bonfim e Padim Ciço? Com inesperada frieza, Quarto
deixou de lado essa questão supraterrena, enquanto dobravam
na Rio Branco e decidiu que seria melhor nada fazer contra
a moça, pelo menos diretamente; ora, por que ele iria se arriscar
nessa disputa de acasos, vamos é juntar os santos e tudo vai ficar
a favor. Saltou na Rua do Ouvidor, leve como um passarinho
na primavera e seco como a caatinga em outubro.
Que viesse o acaso e que viessem todos os acasos!
Dia 10, quinta-feira, Quarto levou Volumosa ao Galeão. Um
vôo direto da Panair do Brasil à meia-noite, Recife era a
primeira escala do trajeto até Dakar-Lisboa-Paris-Londres,
cinco horas e meia a bordo de um Constellation. Não era nada
comum uma passagem doméstica dentro do circuito
internacional, mas deputado é deputado. E lá se foi Volumosa
ver a mãezinha.
Para ir até Salvador, entretanto, a situação era mais demorada,
o jeito era um lento DC-3, passar por Vitória e, depois de 8
horas, alcançar a base aérea de Salvador. Mas isso seria só na
semana seguinte. E, de semana em semana, nossa Volumosa
virou uma viajante frequente nas linhas aéreas nacionais.