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quarta-feira, 19 de junho de 2013

2400 - O passado condena



O BISCOITO MOLHADO
Edição 4200                               Data:  02  de Junho  de 2013


MENSAGENS ELETRÔNICAS ENVIADAS E COMENTADAS

Enviaram-me um e-mail, intitulado Ricardão, com um vídeo em que o dito cujo desce por uma “teresa” do segundo andar de um prédio em São Paulo, onde, na varanda, marido enganado de mulher infiel discute e o Corpo de Bombeiros espera para agir. Uma pequena multidão a tudo assiste com gritos e apupos.
A mocidade de hoje, em sua grande maioria, aponta alguém como Ricardão, mas não sabe que o nome surgiu de um programa humorístico, “Balança, mas não cai”, criado por Haroldo Barbosa e Max Nunes. Ricardão era o consolo do “Primo Pobre” pois, enquanto sua mulher, “Fomizelda”, era fiel, a do “Primo Rico” aprontava mil peripécias com o “Ricardão”, sob o nariz do marido ingênuo.
“Teresa” é um amarrado de lençóis, que substitui a corda na falta da mesma, é uma gíria criada nos presídios, o calão dos presos. O Ricardão do vídeo foi, provavelmente, trancado no quarto pelo marido traído e, por isso, o jeito que encontrou para sair dali foi amarrar os lençóis, que alguém dado a literatices diria, “ainda quentes do pecado” e descer por essa corda improvisada  até a rua. Desceu de cuecas, pois se vê o traído atirando as suas roupas pela varanda. Para tornar a cena ainda mais grotesca, o fugitivo vestia apenas uma cueca samba-canção, mas fosse zorbinha e a bufonaria da cena não seria menor.
Para Nélson Rodrigues, não bastaria o marido atirar as roupas do seu rival pela janela e gritar com a infiel, o desfecho teria de ser como nas óperas veristas italianas, com um ou dois corpos ensaguentados. A própria plateia, que também tinha atuação marcante, contribuía para o clima de pornochanchada ou de comédias do Lando Buzzanca.
-Corno. - gritaram.
-Tarado.
A mulher, pelo que vi e ouvi, foi poupada dos gritos da multidão.
Houve um coro de “Pula”, quando não havia mais metros de tereza para ele descer e puser o pé no chão. Escutam-se, então, gritinhos femininos do público, pois, se ele seguisse o sádico pedido, se arrebentaria no chão. Foi a vez, então, dos bombeiros agirem, pegaram a cama elástica, colocaram-na de modo que a queda do sujeito fosse aparada. 
A operação resgate alcançou pleno êxito. Houve aplausos, uns para os bombeiros, outros para o Ricardão. Este, já no meio da plateia, também foi apupado. Exibindo uma barriga de quem esvazia garrafas de cerveja, gesticulou pleno de razão contra o rival, que ainda discutia com a mulher, e contra aqueles que o vaiavam.
-Será que algum gaiato levou-lhe as calças? O vídeo não mostra isso, contudo o local da traição está por demais evidente. Os dois, mesmo que permaneçam juntos, devem estar, a esta hora, procurando novo apartamento.

Há alguns anos, recebi uma mensagem eletrônica em que aparece a TV Excelsior. Ela desapareceu no meio dos milhares de arquivos que estão no meu computador e nunca mais a encontrei. Eis que nessa semana, com o nome de “Presente do Passado”, Dieckmann me envia uma série de fotografias de tempos idos e lá estava o prédio da TV Excelsior.  Eu não podia perder essa oportunidade, tinha de mostrá-la ao meu irmão que, quando jovem, lá trabalhou. Como ele é avesso ao computador, eu teria de atraí-lo para frente de um, no caso, o do seu filho, Daniel.
Assim, no feriado de Corpus Christi, disse-lhe que tinha algo que ele não poderia deixar de ver, enviado por um amigo. Não foi apenas ele que ficou diante do monitor de vídeo, a Gina também. Quando acessei o “Presente do Passado” e as fotografias começaram a surgir, as reminiscências dos dois afloraram, a minha também.
-Eis o Lido I – indiquei.
-Lembra-se Claudio, quando namorávamos, que você achou um guarda-chuva quando as luzes do cinema se acenderam?
-A chuva lá fora fez a dona se lembrar, mas já era tarde, eu não queria me molhar.
-Você disse, na época, que não queria que eu me molhasse.
-Eu não recordo dessa parte. - afirmou.
-Este aqui é o Metro Copacabana.
-Fui muito a esse cinema com o Dudu, que morou desde pequeno na Rua Prado Júnior. - referiu-se ele ao nosso primo predileto, já falecido.
-O Filme em cartaz é “A Violentada”, que eu não assisti, mas você, sim.
-E prossegui:
-Mesmo não tendo assistido, lembrava-me da Margaux Hemingway.
-Outra neta do Hemingway também trabalha...
-Bem, Claudio, só aparecem os nomes no cartaz da Margaux, da Ann Bancroft e da Chris Sarandon.
Passei para outra foto.
-A Sears. - manifestou-se a Gina.
-Gostava de ir lá fazer compras, pena que o dinheiro na bolsa era pouco.
-Não sei se a Sears era shopping, mesmo que fosse, o primeiro do Brasil foi o Shopping do Méier. - falou mais alto o bairrismo do meu irmão.
-Agora, o Cine Paissandu.
-Nunca fui lá, eu não sofria de afetação intelectual.
-Nem eu. - corroborou a Gina as palavras do marido.
-O mais perto que cheguei do Paissandu foi em 1979, quando fiz um curso de Comércio Exterior no Instituto Bennett, e esperava o ônibus para ir ao Centro na frente do cinema. 
Enfim, chegamos ao prédio da TV Excelsior.
-Era, antes, o Cinema Astória. - observou meu irmão.
-Quantas vezes frequentei a TV Excelsior!... Vi Chacrinha, Os Trapalhões, Dercy Beaucoup, Eliana...
-Que Eliana era essa?- interrompi a Gina.
-A Eliana Pittman. - respondeu-me.
-Os Trapalhões começaram com Renato Aragão, Ted Boy Marino, Vanusa e...
-Ivon Curi. - refrescou-me o Claudio a memória.
-Papai não gostava desse programa porque você levava pés no peito do Ted Boy Marino.
-Ele só acertava um de nós e todos caíam como no dominó.
-Lembra-se do Isaque (irmão do nosso cunhado), que trabalhava na novela “A Ilha do Tesouro”, baseada no romance infanto-juvenil do Robert Louis Stevenson?
-O que tem?...
-Ele era um dos que cavavam a terra ,quando entrou o comercial Na hora em que a câmera voltou a mostrar a cena, estavam todos descansando, alguém deve ter acenado porque eles voltaram correndo para a  pá.
-Era tudo feito ao vivo. - disse a Gina.
E surgiu no monitor de vídeo a TV Globo.
-Ficava na General San Martin, muitos de nós da Excelsior, trabalhávamos na Globo. O humorístico “Bairro Feliz” era feito por atores da Excelsior.
-Até que houve o acordo com o grupo Time-Life e a TV Globo se tornou uma potência. - aparteei meu irmão.
-A ditadura militar ajudou a TV do Roberto Marinho, enquanto acabava com o Panair do Brasil e, consequentemente, com a TV Excelsior. - esbravejou indignado.
-Há uma foto de um avião da Panair do Brasil.
-Mario Wallace Simonsen não agradava os militares, por isso acabaram com tudo o que lhe pertencia.
Compreendi inteiramente a indignação do Cláudio e completei:
-Anos de chumbo, mas que não apagaram as boas lembranças.

terça-feira, 18 de junho de 2013

2399 - a serviço da janela




O BISCOITO MOLHADO
Edição 4199                                 Data:  01  de Junho  de 2013


FRASES E COMENTÁRIOS

A televisão matou a janela.
Não é à toa que a criatividade do Nélson Rodrigues era espantosa; quando todos falam na morte do cinema, ele lembra a janela. É verdade que Fellini mostra a televisão matando o cinema, mas fugindo dos clichês. No seu filme “Entrevista”, as antenas surgem como lanças indígenas que desafiam mortalmente a sétima arte.
Havia mais gente contemplativa, mais gente na janela, de fato. Não vou me reportar aos trovadores medievais que atraíam as suas musas à janela, não voltarei tanto no tempo. Em 1938, a marchinha de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti, “Abre a janela formosa mulher” alcançava estrondoso sucesso na voz de Orlando Silva, No fim da década de 60, Chico Buarque compunha “Januária”, musa que ficava na janela e era homenageada, é verdade que, nessa década, a televisão já hipnotizava multidões, mas como o compositor citado recebera a “pecha” de saudosista dos que se consideravam conectados com os tempos atuais, é possível que a sua Januária desfrutasse a sua juventude na década de 30.
Sei que há mais janelas na música popular brasileira do que no Palácio de Versailles, mas paro nessas duas composições e passo para as artes plásticas.
Uma célebre pintura de Salvador Dali é “Muchacha em la ventana” (Menina na janela). A tela nada de surrealista, uma mulher olha para fora, enquanto o pintor, a alguns metros atrás dela a retrata. Menina?... Não traduziram erradamente?... Depois de consultar o dicionário espanhol-português, verifico que não, que moça é “chica”. Quem conhece esse óleo de 1925 concordará comigo: não é uma “muchacha”, é uma “chica”. Uma moça calipígia, de corpo bem torneado. Soube, depois, que a irmã de Salvador Dali, sua irmã Ana Maria Dali serviu-lhe de modelo. As meninas custam a envelhecer aos olhos dos pais e, nesse caso, também aos olhos do irmão
Ela foi modelo de Salvador Dali até ser substituída por ele pela esposa Gala.
No que me diz, troquei muitas vezes a televisão pela janela quando morava na Rua Chaves Pinheiro, na década de 70. Havia o que se ver, como a passagem da Vitória, por exemplo, indo ou voltando não se sabe de onde. Alguém dava o alarme e todos corriam para os portões, para as janelas ou fazia, como Seu Eugênio, pai dos gêmeos Cosme e Damião, que, disfarçadamente, arrastava uma casca de banana na calçada para obter melhor visão da Vitória.
Parecíamos todos personagens fellinianos. Hoje, que impera a magreza, e, mais recentemente, os músculos das academias de ginástica, a indústria da beleza a desqualificaria, Vitória tinha o corpo de violão, que era o que mais alimentava as fantasias masculinas na época.
Também era possível ver, da janela, disputas esportivas, como vôlei, peladas, etc, mais atraentes do que o programa que passava na mesma hora na televisão, mas o trânsito de veículos se intensificou, e a Chaves Pinheiro deixou de ser cena de acontecimentos lúdicos. Assim foi, em quase todo lugar, com a chegada do progresso.
Vale, ainda assim, deixar por momentos a televisão para trás e ir dar uma olhadinha na janela.

Se você vir um banqueiro suíço pulando pela janela, é bom pular atrás.
Voltaire, que viveu na Suíça, ou na fronteira com esse país, não me recordo bem, disse a frase acima. Observou que todas as atitudes de um banqueiro, mormente, suíço, resultavam em lucro.
Quando o Chanceler de Estado da Áustria de 1821 a 1848 Metternich, foi informado da morte de Talleyrand disse que se o seu colega francês morreu é porque tiraria alguma vantagem. Razões não lhe faltavam para dizer isso. Talleyrand, mesmo expulso do seminário, por não seguir a regra do celibato, conseguiu ser nomeado abade e, em seguida, vigário geral. Nove anos depois, era consagrado bispo de Autun. Excomungado pele papa, participou de negociações internacionais como representante do rei Luís XVI e teve de se exilar nos Estados Unidos quando estourou a Revolução Francesa e ele, o rei, foi guilhotinado. Com a queda de Robespierre e o fim do Terror, retornou a França e, já no ano seguinte, era ministro das Relações Exteriores. Acusado de corrupção, perdeu o cargo, mas voltou a ser ministro com Napoleão, quando este obteve êxito no golpe de estado que comandara. Com extraordinário faro para antever para onde o vento político sopraria, demitiu-se, discordando, da avidez de Napoleão por conquistas e se aliou ao czar Alexandre I para organizar a oposição contra o Imperador e preparar a restauração dos Bourbon ao trono da França. Luís XVIII se tornou rei antes e, depois da derrota definitiva de Bonaparte em Waterloo, Talleyrand, mais uma vez, se tornou ministro das Relações Exteriores. Representou a França, uma nação derrotada na guerra, no Congresso de Viena de 1815, com a participação de Metternich e conseguiu tirar água de pedra: a França saiu do Congresso sem ceder territórios, como potência. Mais tarde, aliou-se aos liberais e participou afetivamente na ascensão ao trono, em 1830, do Rei-Cidadão, Luís Felipe. Nomeado embaixador da França em Londres, atuou na criação do reino da Bélgica e na criação da aliança entre a França, Reino Unido, Espanha e Inglaterra, em 1837.  Morreu no ano seguinte, com 84 anos e idade.
Talleyrand sempre obteve êxito (para seus opositores, vantagens) nos seus empreendimentos. Morreu, porque obteria alguma vantagem da morte, disse ironicamente, em outras palavras, o chanceler que não tinha como não reconhecer o seu talento.
Para Voltaire, mestre da ironia, os banqueiros sempre lucram nas suas atitudes, mesmo quando saltam pela janela. 
Voltaire morreu antes de Talleyrand surgir com o fulgor da sua inteligência, na vida política europeia, mas, certamente, não lhe dedicaria um poema épico como fez com o Rei Henrique IV.

Na declaração dos Direitos do Homem, esqueceram de incluir o direito a contradizer-se.
Assim disse o grande poeta Baudelaire, com carradas de razão.
Eu suspeito logo das pessoas que afirmam que não se arrependem de nada. Ora, até os deuses fizeram coisas erradas, como não se arrepender?... Como não se contradizer?...
Há outra frase, bem lúcida, que diz que não muda de ideia quem não tem ideia para mudar. Coisa de fanático não ter ideia para mudar.
Falando nos fanáticos, neste caso os esquerdistas, chegaram a deturpar as palavras do presidente Fernando Henrique, quando ele reviu alguns posicionamentos políticos e sociológicos seus que os agradavam. Ora, a Economia, a Política, a Sociologia não são ciências exatas., são ciências sociais, e se amoldam às mudanças da sociedade.
Mesmo vivendo no mundo da poesia, Baudelaire foi de uma lucidez ímpar quando escreveu sobre o direito do ser humano se contradizer.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

2398 - quem parte, leva 2


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4198                                  Data:  31 de  Maio de 2013
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89ª VISITA À MINHA CASA
2ª PARTE

-Antes de você se tornar a Hedy Lamarr, já tinha feito outros filmes em língua alemã além do famosíssimo “Êxtase” de que falamos?
-Ah, sim; iniciei a minha carreira de atriz com 17 anos de idade, com Das Geld liegt auf der Strasse que, nos Estados Unidos, se chamou Money on the Street.
-Com o seu aparecimento nas telas, os diretores a disputaram a tapa, imagino.
-Por isso, talvez, no ano seguinte, 1931, foram quatro os filmes em que atuei: Die Frau von Lindenau, Die Abenteuer des Herrn O.F., Man braucht kein Geld...
-Que nome este último filme recebeu na América? - interrompi, aproveitando uma pausa.
-We need no money,
-Ainda falta um... - puxou pela memória.
Em seguida, seu rosto se iluminou com essa pequena vitória sobre o esquecimento:
-Im Sturm Wasserglas, este foi dirigido por Georg Jacoby Na verdade, dois desses filmes que citei entraram em cartaz em 1932.
-Veio, então, o escandaloso “Êxtase”...
-Ekstase ou Symphonie der Liebe também foi chamado de Eva. O diretor foi Gustav Machaty, como esquecê-lo?... Ele queria que a cena do orgasmo parecesse verdadeira, para tanto, atrás das câmeras alisava-se com um objeto afiado, sei lá o que era aquilo.
E riu mais uma vez com essa reminiscência.
-Você era, então, a Hedwig Eva Maria Kiesler.
-Fiz por merecer o nome Eva. - brincou.
-Seus pais, já falamos sobre isso, eram judeus.
-Sim; minha mãe, Gertrud, nasceu em Lichtwitz. Ela pertencia a uma família burguesa e foi pianista em Budapeste.
-E o seu pai?
-Meu pai, Emil Kiesler era diretor de banco.
-Com o seu cérebro privilegiado, você procurou logo os livros?
-Eu tinha a vocação artística nas veias; estudei balé e piano até os dez anos de idade.
-Na adolescência, conheceu o legendário diretor de teatro, Max Reinhardt, que a considerou a mulher mais bela da Europa. Mais tarde, Walt Disney se inspiraria em você para desenhar Branca de Neve.
-Max Reinhardt era austríaco, como eu, de Baden. Já era um artista consagrado quando me apresentei a ele em Berlim. Fez coisas incríveis, como transformar um teatro em catedral ao encenar “O Milagre”. Também foi prodigioso na montagem de “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare, que, anos depois, transformou em filme. Como era lúcido, saiu do caldeirão fervente em que foi transformada a Europa pelos nazistas e se estabeleceu nos Estados Unidos.
-Bem, você já tinha atraído a atenção dos magnatas de Hollywood, como Hedwig Eva Maria Kiesler, então, quando fugiu do seu marido e do fanatismo dos seus patrícios, não lhe foi difícil conseguir emprego.
-Apareceu o Louis B. Mayer, como já disse, com uma boa proposta, e lá fui eu para Hollywood com o nome de Hedy Lamarr.
-As telas dos cinemas não esperaram muito por você, pois em 1938, você já estreava com destaque no filme “Argélia”, o parceiro era Charles Boyer.
-Era uma refilmagem do clássico francês “Demônio da Argélia” protagonizado pelo Jean Gabin. - esclareceu.
-Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, você filmava com Robert Taylor “A Flor dos Trópicos”?
-Fiz mais de um filme em 1939 e não posso, por isso, precisar em qual deles eu trabalhava quando a Alemanha invadiu a Polônia.
-Tudo bem que esses filmes e os demais em que você participou eram agradáveis, bons entretenimentos, mas você não se sentia incomodada em estar trabalhado em algo muito aquém da sua capacidade intelectual?
-De forma alguma, eu gostava de sentir a minha beleza sendo apreciada, isto é, gostava de parecer estúpida.
-Depois que os Estados Unidos entraram na guerra contra o nazismo, você se sentiu motivada a mostrar a sua criatividade no ramo tecnológico?
-Nos almoços do meu primeiro marido com a elite nazista, quando julgavam que eu era uma peça decorativa, eu absorvia as conversas que envolviam mísseis e torpedos rádio-controlados. Percebi, então, que as armas wireless, sem fio, ofereciam uma precisão bem mais eficiente que as controladas, que eram as que prevaleciam na época.
-Falando nesse seu marido, judeu que vendia armas a Hitler, o que aconteceu com ele depois que a Áustria foi anexada? - interrompia-a com a minha curiosidade.
-Ele fugiu para o Brasil. Depois, se estabeleceu na Argentina como conselheiro do presidente populista Juan Perón.
-Desculpe-me a interrupção.
Sorriu generosamente e prosseguiu:
-Em 1942, desenvolvi uma nova espécie de sistema de comunicação em que mensagens codificadas não poderiam ser capturadas pelo inimigo. Era um sistema que permitia que bombas e torpedos teleguiados atingissem com pleno êxito o alvo.
Enquanto falava, eu me encantava ainda mais com sua inteligência.
-O problema com que eu me deparava era como sincronizar as mudanças de frequência entre transmissor e receptor de maneira que inviabilizasse a sua descoberta pelo inimigo. Uma maneira de uma mensagem codificada atravessar uma larga área de espectro sem fio.
-E, assim, despistar os radares nazistas. Como você conseguiu?
-Quando conheci o primeiro tecno-instrumentista do mundo, George Anthiel. A ideia surgiu quando ele tocava piano e eu cantava.
-Como assim?
-Ele criava músicas complicadas. Numa delas, ele sincronizou suas melodias através de doze pianos, produzindo um som estereofônico jamais ouvido. Usei, então, a tecnologia de George Anthiel de sincronização de pianos; assim, fui capaz de sincronizar as mudanças de frequência entre o receptor das armas e seu transmissor.
-Não entendi muito bem...
-Era como se duas pessoas pudessem conversar entre si mudando frequentemente o canal de comunicação, desde que o fizessem simultaneamente,
-E depois desse invento?
-Eu e ele submetemos a ideia ao Departamento de Guerra norte-americano, que o recusou em junho de 1941.
-Os Estados Unidos não estavam ainda em guerra. - intervim.
-Em 1942, nós patenteamos o invento, quando usei meu nome verdadeiro.
-Eles acharam muito complicado... - deduzi.
-A sua concretização ocorreu em 1962, quando passou a ser utilizados pelos militares americanos em Cuba, mas a validade da patente já estava vencida.
-Você não ganhou, então, dinheiro com isso?
-Não, ganhei com o cinema; 30 milhões de dólares, que tratei de gastar enquanto viva.
-Bem, o cinema soube reconhecê-la. Você foi para a Calçada da Fama.
-Fiquei grata com isso.
-Falamos do seu primeiro marido, mas eles foram seis.
-Pule essa parte, por favor.
-Seu invento serviu de base para a moderna tecnologia de comunicação. Você é considerada a mãe da tecnologia celular.
-A beleza é temporária e a ciência é para sempre.
Disse isso, esboçou um sorriso e se desfez no ar.



sexta-feira, 14 de junho de 2013

2397 - quem parte, leva


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4197                                  Data:  30 de  Maio de 2013
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89ª VISITA À MINHA CASA
1ª PARTE

-Hedy Lamarr, a minha musa! - não me contive quando, subitamente, ela surgiu à minha frente.
-Sua musa por causa da minha beleza?
-Quando assisti ao “Êxtase”, imaginei que sim, mas depois que soube que você tinha um cérebro (e que cérebro!), a minha admiração se tornou eterna.
-Você conseguiu ver “Êxtase”?... Meu primeiro marido, muito ciumento, ordenou que todas as cópias do filme fossem recolhidas e, se possível, queimadas.
-Não no cinema infelizmente. A TV Educativa anunciou o filme com uma tênue ideia do estardalhaço que ele provocou em 1933. Você nua, correndo entre as árvores de uma floresta, nadando num lago, simulando um orgasmo... Caramba, não consigo imaginar o quanto você inflamou a fantasia de milhões naquela época em que era um atentado ao pudor a mulher exibir a barriga e as panturrilhas em algumas cidades europeias e americanas.
Hedy Lamarr soltou uma gostosa gargalhada.
-E mesmo que você estivesse coberta dos tornozelos ao pescoço, de espartilho, os seus lábios...
-No mundo do cinema, em 1933, com a minha nudez, eu quase superei a popularidade do King Kong. - disse entremeando suas palavras com risos.
-Em Hollywood, todos, por um momento, se esqueceram do King Kong para falar de um filme escandaloso da Europa em que aparecia uma estonteante jovem austríaca nuazinha em pelo.
-Era um filme tcheco, de Gustav Machaty, que muitos pensam que era minha estreia como atriz na tela.
-Nesse mesmo ano, você se casou com um vienense fabricante de armas, Friedrich Mandl, 13 anos mais velho.
-Foram 4 anos de casamento. – disse, como se fossem 40.
-Era milionário; ciumento, gastou uma fortuna para recolher as cópias do “Êxtase” e queimá-las.
-Muitos países proibiram a exibição da película, o que facilitou as coisas para ele. - observei.
-Uma obra, que pouco tinha de artística, tomou proporções de uma pintura da Renascença. - comentou bem-humorada.
-Dizem que Mussolini teria se recusado a vender a sua cópia do filme por qualquer preço.
Mais uma vez, a alegre Hedy Lamarr gargalhou.
-Mas você ainda estava longe de se tornar a Hedy Lamarr, você era a Hedwig Kiesler.
-Hedwig Eva Maria Kiesler, nascida em Viena, em 1913. - completou.
-Seu marido, empresário de armas, usou a sua beleza para lucrar ainda mais.
-Ele percebeu que chefões nazistas, cujo partido ascendia politicamente na Alemanha, babavam, quando me viam. Assim, meu marido me carregava, como um troféu ideal, para jantares de negócio com essa gente, até mesmo com Hitler.
-E esses babões imaginavam que você era apenas uma bela mulher com um corpo escultural, enfim, a mais bela decoração em carne e osso que eles já viram.
-Enquanto eles conversavam sobre armas, com olhares furtivos para mim, às vezes até indiscretos, eu calculava a possibilidade de um inimigo bloquear o sinal contínuo usado para o controle dos mísseis em caso de guerra.
-E nada disse para eles.
-Evidentemente que não, além do mais eu era judia, e sabia do ódio deles pelos judeus.
-Seu marido, que herdou a fábrica de armamentos fundado pelo pai, também era descendente de judeus, no entanto, foi adepto do nazismo e do fascismo.
-Ele era adepto do bolso cheio de dinheiro. - retorquiu.
-Mesmo ele não notava a sua inteligência extraordinária?
-Eu me fazia de estúpida, ou seja, de bonita. O segredo da minha beleza está em ficar parada e parecer estúpida.
-Já, quando criança, você, na escola, se destacou sobre todos em matemática e ciência.
-E fui crescendo e notando que também ficava fisicamente mais atraente para os homens...
-E julgou que seria melhor esconder a sua genialidade com a beleza. - interrompi.
-Você não acha que fiz bem?
-Evidentemente que sim.
E, tomado pela curiosidade, fui adiante:
-E esse marido ciumento, que, mesmo sabendo do ódio pelos judeus, simpatizava com o nazismo?
-Você não leu o meu livro autobiográfico “Êxtase e Eu”?
-Infelizmente, não lançaram mais edições, por isso não o encontrei nem nos sebões.
-Nele, eu escrevi que Friedrich Mandl era um homem extremamente controlador, que tentava me manter trancada em sua mansão.
-Você era aprisionada? ... reagi com espanto.
Depois de menear afirmativamente a cabeça, disse:
-Em 1937, eu persuadi meu marido a me levar a um jantar...
-O que não foi difícil.
Apesar de eu a ter interrompido intempestivamente, ela não perdeu o humor e foi adiante nas suas reminiscências:
-Disse-lhe que eu iria a esse jantar com a maioria das minhas joias, assim, eu deslumbraria a todos não só com o meu corpo, mas também a minha riqueza, tornando o seu troféu mais desejável ainda e ele a criatura mais invejada da Áustria.
-Imagino que não foi difícil você conseguir o seu intento.
-Fomos à festa e, ao voltarmos para a mansão, droguei-o com a ajuda da empregada. Depois, peguei mais algumas joias, pois precisaria de muito dinheiro e escapei, fugindo da Áustria.
-Uns anos depois, a Alemanha anexava política e militarmente a Áustria, era a Anschluss. Você, Hedwig Eva Maria Kisler, fugiu no momento exato.
-O meu país se tornou uma província do Reich Alemão e os eleitores austríacos aprovaram essa degradação, num referendo, com 99% dos votos. Fui poupada de ver tropas de Hitler marchando em Viena e de ficar perto de tanta gente sem lucidez.
-Compreendo.
-Fui para Paris, primeiramente, em seguida, parti para Londres, com 24 anos de idade, onde encontrei um dos magnatas mais poderosos de Hollywood, Louis B. Mayer.
-Não foi ele que disse, depois de vê-la em “Êxtase”, que você era a mulher mais bonita do mundo?... ou teria sido Cecil B. De Mille?... Foram, provavelmente, os dois.
Divertiu-se, vendo-me dubitativo e retomou a palavra:
-Chamou-me para trabalhar em Hollywood, mas com um nome que ajustasse melhor ao mundo cinematográfico. Nasceu, assim, Hedy Lamarr. Hedy vinha de Hedwig, o Lamarr era uma homenagem a uma estrela do cinema mudo que morreu muito jovem, Barbara La Mar, que Louis B. Mayer idolatrava. O meu batismo aconteceu enquanto o navio singrava o Atlântico rumo aos Estados Unidos.
-E o seu primeiro marido, que tanto negociou armas com a ascendente elite nazista?
-Com a anexação da Áustria, sendo ele judeu, teve a fábrica de armamentos que herdara do pai confiscada.
-Pois é, nessas reuniões de negócios, você ficou parada, parecendo estúpida, enquanto ele ficava agitado, procedendo estupidamente. - concluí.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

2407 - Os Tamoios tomam o poder 2


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4207                            Data:  12  de Junho  de 2013
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A TAMOIO NA ROQUETTE PINTO
PARTE II

Ainda sobre a pausa para meditação, Dieckmann afirmou que, como engenheiro, tudo se encaixava, ou seja, as explicações sobre a Teoria da Relatividade estavam bem postas.
-Foi bom. Uma contribuição tecnológica...
-E terminou na bomba atômica. - aparteou o José Maurício.
Foi nesse instante que o Dieckmann se referiu a piadinha (sic) do Sérgio Fortes com a bomba atômica.
-Quem tem medo da bomba atômica? - parodiou o dramaturgo norte-americano Edward Albee, que escreveu “Quem tem medo de Virgínia Woolf que, por sua vez, parodiou o desenho do Walt Disney. (*)
Inesperadamente, brotou na lembrança dos dois a  Mireille Mathieu.
-Eu a vi pela primeira no Festival Internacional da Canção, cantando no Maracanãzinho. A música?... Minha cabecinha não está com essa bola toda...
-Não seria “Fenêtre ouverte”?...- tentou o Dieckmann socorrer a sua memória.
Não, não era janela aberta nem fechada.
-Falam que era a sucessora de Edith Piaf, não sei... Mas eu gosto muito dela.
-Eu também, José Maurício, e no último programa nós ouvimos com ela La Dernière Valse.
-The Last Waltz.- traduziu o interlocutor do Dieckmann para o idioma da Barra da Tijuca.
Mas o mote do Rádio Memória desse domingo era a Rádio Tamoio dos tempos idos e ouvidos, por isso, José Maurício se reportou ao programa “Minha Música Por Favor”, que ia ao ar das 12 às 13h e retornava das 15 às 16h. O prefixo era a gravação de Petite com a orquestra de Perth Faith.
Mal soou a última nota, e se ouviu:
-Amigos ouvintes, vocês ouviram... - era o Dieckmann que, depois de treinar o seu francês, treinava a sua locução radiofônica.
-Esta é a Rádio Tamoio, peça a música e nós atendemos.
-Peça agora a música que você ouvirá amanhã neste horário.
Em seguida, José Maurício, demonstrando que a sua memória estava tinindo, citou os números dos telefones (para aqueles que tinham um, pois eles eram raros) fazerem seus pedidos.
-Ah, os telefones com seis números! Exclamou o Dieckmann com laivos de saudosismo.
Sim, era tudo mais fácil; com telefone de seis números, o personagem do Anselmo Duarte, do filme “Absolutamente Certo”, conseguiu decorar a lista telefônica.
Dieckmann lembrou (**), então, o “Disco Estrelinha”, que ficava entre um programa e outro.
-“Disco Estrelinha”, o disco que começava a brilhar. -acrescentou aquele que foi um dos locutores da extinta emissora.
A título de curiosidade, aqui vai um curto trecho de uma entrevista do cantor Ronnie Von:
“Um dia eu estava voltando do escritório, ouvindo o programa “Disco Estrelinha”, na rádio Tamoio e, de repente, ouço “disco estrelinha, o disco que começa a brilhar” e era eu cantando. Encostei o carro, pois não tinha condição para continuar dirigindo. Ouvi a música até o fim.
Agora, cabia ao Dieckmann tirar, por minutos, o foco da Rádio Tamoio e escolher uma música. E a empolgação quase o levou à tagarelice, mas justificável, como se verá.
-Eu vou pedir “Tiro ao Álvaro”, do Adoniran Barbosa. Eu adoro essa música. O nome real do Adoniran Barbosa era João Rubinato. Ele, que também foi humorista, apresentava um programa de rádio com diversos personagens, entre eles, o Adoniran Barbosa. Então, a criatura engoliu o criador.
Sou testemunha dessa fixação do Dieckmann pelo “Tiro ao Álvaro”. Há uns dez anos, num restaurante, creio que era o Bareboat, com colegas de trabalho, ele sacou um papel do bolso com a letra e a mostrou com um sorriso. Para espicaçar, critiquei o “álvaro” por ter tomado o lugar do alvo.
Na biografia que Ronaldo Costa Couto redigiu sobre o magnata Francesco Matarazzo, ele se refere ao talentoso compositor, humorista e ator, como um artista, filho de imigrantes de Treviso, que tentava repercutir, na sua criação, a fala dos italianos apaulistados.
O disco solicitado foi com a interpretação sapeca da Elis Regina e intervenções do compositor.
Depois dessa audição lúdica, José Maurício trouxe de novo a Rádio Memória para os trilhos da Tamoio.
-Programa que ia ao ar às 13 horas, uma da tarde, era “Pick-Up Sabido”.
Depois de o Peter colocar nas carrapetas (ou deslizantes) o prefixo desse programa, Humoresque Boogie, com a orquestra de Lawrence Welk, Dieckmann interveio para um esclarecimento à mocidade; não se tratava do veículo pick up e sim de um aparelho para tocar discos. Havia os toca-discos, as vitrolas e os ultra-avançados, na época, pick-ups, que foram utilizados pelos disk-jockeys nas danceterias dos anos 80.
José Maurício se entusiasmou, e se deteve mais nos pick-ups.
-Tinham agulhas que eram trocadas de vez em quando. Tudo era feito com muito cuidado para não sair da linha. Passava-se o dedo... Conferia-se linha por linha. O som da Rádio Tamoio chegava a Juiz de Fora e lá, o José Mauro, ficava atento.
Depois de uma intervenção do seu interlocutor, José Maurício elogiou aquele que deveria ser o chefe da emissora, e foi adiante.
-A gravação era feita em acetato, ali na Avenida Venezuela, no Estúdio Santa Anita. Lá iam o Humberto Reis, o Nélson Jabour para a gravação de determinados prefixos. O contra-regra conferia faixa por faixa.
E essas reminiscências cessaram quando o Peter, segundo ele, sinalizou que faltavam dez minutos.
Falou-se, então, das “Músicas na Passarela” o programa que eu, particularmente, mais ouvia, de carona, é verdade, porque o meu irmão Claudio não deixava de sintonizar a Rádio Tamoio às 16 horas. Minha fixação, que vai de 1963 até hoje, era a Rádio MEC, também minha escola,  que, diga-se de passagem, também conta com o Sérgio Fortes na sua programação.
A hora das “Músicas na Passarela” era quatro da tarde.
O que se ouvia agora no Rádio Memória era Day by Day na orquestra de Ray Anthony.
Passaram, em seguida, para “Distração Musical” com a música Un Amour Vient de Naître com Guy Luppaert, que tinha três horários por dia: 8, 18 e 23h.
Dieckmann, antes de adjetivar a gravação como arrebatadora, citou este periódico, “um jornal do submundo”, que implica com a insistência com que ele usa “arrebatador”.
Veio, então, “Encontro Musical às 10 Com o Mais Belo da Discoteca”.
Antes de José Maurício pedir o prefixo Fim de Noite, com o Coral de Ouro Preto, Dieckmann relacionou as cores que correspondiam a cada gravação.
“Eram nessa ordem – disse ele: rosa, verde, lilás, amarela, cinza, grená, marrom, hortênsia, branca, havana, turquesa, vermelha, violeta, pérola, bege, escarlate e ciclâmen.
Ao citar ciclâmen, José Maurício confessou que só agora, acessando o Google, descobriu que era uma cor com nuances de roxo.
Não havia a fúcsia, cor citada por Caetano Veloso na sua canção “Errática”: “... Se desenha entre as galáxias em fúcsia...”.
Soaram 9h da manhã. Falou-se, em final apoteótico, arrebatador também. E ficou a promessa que o próximo Rádio Memória será apresentado pelo Jonas Vieira e Sérgio Fortes.
Será?...

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO imagina que seja “... quem tem medo do Lobo Mau?”.
(**) “... nada disso. Quem lembrou, durante a gravação de uma música, do Disco Estrelinha foi o José Maurício. Eu só fiz a escada para ele abordar o assunto.” reportou o Dieckmann a este Distribuidor, com suas manias por transparência e exatidão.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

2406 - os Tamoios tomam o poder 1


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O BISCOITO MOLHADO
                          Edição 4206                             Data:  11  de Junho  de 2013
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A TAMOIO NA ROQUETTE PINTO
PARTE I

“Bom dia, senhores ouvintes...”
Ao ouvir a voz do Dieckmann anunciando o início do Rádio Memória desse domingo, não tive dúvidas: deu uma espécie de golpe de estado e tomou o governo. Não estava sozinho, contou com a ajuda do José Maurício que, até então, se limitava a ler as crônicas do Fernando Milfont, na pausa para meditação. O Sérgio Fortes até previra a intenção do Dieckmann quando disse que ele, já na primeira vez que lá fora como convidado, tentou assumir o programa.
Os dois golpistas tentaram enganar os ouvintes, informando que o Sérgio Fortes viajara para Porto Alegre atrás de cerveja e que o Jonas Vieira estava com problemas de intestino. Eles, na certa, se encontram presos, incomunicáveis e o Estúdio Jonas Vieira se chama, agora, Estúdio Dieckmann, com candelas e tudo.
Para mostrar que tudo passaria a ser diferente, transformaram a Rádio Roquette Pinto em Rádio Tamoio, com o mérito de não deixarem de incorporar o passado no presente. Cabia ao José Maurício discorrer sobre os programas da extinta rádio, em que trabalhou e ao Dieckmann  falar como ouvinte assíduo dessa emissora. Evidentemente que ele não se reteve só nisso.
-A Tamoio quebrou um paradigma, arejou sobejamente a rádio musical.
Às palavras do Dieckmann, José Maurício informou que o Peter, encarregado de pôr no ar as gravações, estava nas carrapetas.
-Carrapetas, hoje é deslizante ou outro nome... - acrescentou.
Em seguida, entrou no assunto Rádio Tamoio, com mais objetividade, anunciando o programa de domingo à noite, 19 horas, “Boa Noite, Mister Long Playing.” O prefixo era a gravação com a orquestra de Ray Conniff, The Way you Look Tonight, que nós escutamos, naquela manhã dominical, depois que o Peter acionou as carrapetas ou deslizantes, não sabemos.
-Não havia adolescente que não sintonizasse a Rádio Tamoio. - vibrava o Dieckmann.
-Sérgio Fortes – prosseguiu – viajou para Porto Alegre, seguindo a minha indicação; foi para o Ponto da Cerveja, onde fica a Sala Dieckmann.
Sala, estúdio... No seu tempo de Departamento de Marinha Mercante, criou o Fumódromo Dieckmann, embora só tivesse fumado lá apenas uma vez, um charuto cubano, quando o seu primeiro neto nasceu.
José Maurício anunciava agora o programa “Músicas na Berlinda”. E o prefixo Wedding in Monaco, com a orquestra de Ray Block, foi ao ar.
-É uma verdadeira operação resgate que nós estamos fazendo.
Eis uma palavra que o Sérgio Fortes já frisou que não gosta, quando é usado no sentido de recordação, por considerá-la inexata, um clichê tão usado atualmente, mas quem mandava agora era o Dieckmann.
E a operação resgate continuou:
-A Rádio Tamoio, a Rádio Tupi e a TV Tupi, muitos não sabem, pertenceram aos Diários Associados.
-Isso.
-No mesmo prédio...
Nesse momento, José Maurício interveio:
-As Rádios Tamoio e Tupi sim, ficavam no mesmo prédio, já a TV Tupi ficava na Urca. Futuramente, a imensa discoteca da Tamoio foi para o local da TV Tupi. Aquilo era um Maracanã cheinho (sic) de discos de 10 polegadas de 78 e 33 rotações por minuto, de 11 polegadas... Não podia haver um arranhão neles, se houvesse, voltavam ao fabricante.
Para que tudo não ficasse voltado para a extinta estação de rádio, foi combinado que Dieckmann solicitaria uma e outra música, e ele pediu, primeiramente, uma marcha do carnaval de 1940: “Aurora”, de Mário Lago recomendada pelo amigo César Campello.
-A gravação que eu trouxe é com a dupla Joel e Gaúcho.
E não perdeu a piada:
-Essa dupla é parecida com a outra, Jonas Vieira e Sérgio Fortes; fazem tudo juntos, até faltam juntos...
Depois, eles traçaram o perfil psicológico da Aurora.
-Ela poderia ter “madame” antes do nome... Ar refrigerado!... - ressaltou o Dieckmann as mordomias que Aurora desprezou para não ser sincera.
-Ar refrigerado em 1940?!...- mostrou-se dubitativo o José Maurício.
Bem, o calor de janeiro deste ano foi tão chamuscante, que procurei saber o nome daquele que merecia meus agradecimentos efusivos e descobri: Willis Carrier, ele inventou o ar condicionado em 1902.  Como o modelo econômico do Brasil foi retrógrado por décadas e mais décadas, foram poucas as importações e, por isso, 38 anos depois, o ar condicionado era ainda artigo de luxo por aqui.
E a programação da Rádio Tamoio voltou, agora com “Revista Norte-Americana”, programa vespertino de 2ª a 6ª feira. O prefixo era Música Pan Americana, com a orquestra de Charlie Burnie.
Em seguida, outro programa, “Bom Mesmo é Música”. Ouvimos, assim, o prefixo The Strings of my Heart, com o trompetista Les Elgart e a sua orquestra dançante, Zing Went que, numa tradução livre do alemão para o português, significa “Fui eletrizado!”. José Maurício perguntou se a Branca dançou muito com The Strings of my Heart.
-O balanço é tanto, que ela deve ter rebolado muito. - respondeu.
Depois desse comentário, Dieckmann se recuperou com o pedido que, para mim, foi o melhor desse domingo sem os titulares do Rádio Memória: “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim, com o sexteto BR6, que canta a capela.
-Pertence à Bossa Nova, mas, eu diria que não é bem Bossa Nova.
De fato, é a composição de Antônio Carlos Jobim em que ele está mais impregnado da influência de Claude Debussy. Uma jóia elaborada por notas musicais e palavras.
O sexteto foi tão competente na difícil missão de interpretá-la, sem ajuda de instrumentos, que Dieckmann nomeou um por um: Crismarie Hackenberg, Deco Fiori, Marcelo Caldi, Auguste Ordine, Simô e Naife Simões.
Chegou, então, a “Pausa para Meditação”, crônica de Fernando Milfond na empostada voz do José Maurício.
-Pausa para meditação como sói acontecer, diz sempre o Sérgio Fortes. - gracejou o Dieckmann.
O tema a ser meditado era a Teoria da Relatividade. O próprio Einstein dissera que depois de os matemáticos explicarem a sua teoria, ele não entendeu mais a sua descoberta.  Se Einstein considerou as fórmulas mirabolantes, imaginem eu. No entanto, na crônica de Fernando Milfont, tudo parecia simples; era uma espécie de “Tudo o que você gostaria de saber sobre a Teoria da Relatividade e tinha vergonha de perguntar.”
E o término da crônica, e de qualquer outra coisa, foi a bomba atômica, porque Einstein demonstrou que a energia é igual à massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado: E=MC².
-Sérgio Fortes tem uma excelente piada com a bomba atômica. Ele contará, quando voltar.
Certamente era humor negro.


terça-feira, 11 de junho de 2013

2396 - inspiração popular, a burrice


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4196                                  Data:  28 de  Maio de 2013
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FRASES E COMENTÁRIOS

Senti que estava sintonizado com o infinito e não existe emoção comparável.
A frase é de Brahms sobre a inspiração. Quando o mundo musical julgava que a sinfonia chegara ao nível máximo da criação humana com Beethoven, eis que surge Brahms que, se não igualou o mestre de Bonn, nessa forma de composição, chegou perto, tanto que a sua primeira sinfonia foi chamada de “a décima de Beethoven. Portanto, ninguém mais habilitado para falar sobre a inspiração do que ele.
Handel, quando compôs o oratório Messias, julgou ver o céu aberto diante de si e o próprio Deus. Possuído, transformou a epifania em notas musicais de uma só vez, em apenas um dia. Creio que, nesse caso, publicaram a lenda.
Puccini referiu-se a uma das suas óperas como se tivesse sido ditada por Deus.
Eu acolho com muita atenção e respeito as manifestações desses gênios aqui citados, mas dou mais importância ao trabalho duro para que as grandes obras de arte brotem.
Lembro-me, quando adolescente, que muitas horas da programação eram dedicadas a Villa Lobos, na Rádio Ministério da Educação e Cultura. E ouvi, na voz do próprio Villa Lobos, ele dizer que não havia essa história de deixar o cabelo crescer para esperar a inspiração, que arregaçava as mangas e punha mãos à obra.
Na mesma Rádio MEC, agora num programa mais recente, aludiu-se à visita da inspiração. Nessa toada, Mozart, Beethoven, Bach, entre outros, eram constantemente visitados pelas musas (eu diria que elas moravam com eles), e falaram também dos compositores que receberam poucas visitas das musas. Exemplificaram com Paul Dukas, que foi visitado apenas uma vez e compôs o poema sinfônico “O Aprendiz de Feiticeiro”, baseado numa balada de Goethe, que se tornaria mundialmente popular com Mickey Mouse no filme Fantasia de Walt Disney.  Paul Dukas, vale assinalar, sofria de uma autocrítica feroz, que o fazia rasgar várias das suas composições, além de dedicar muito do seu tempo ao ensino de composição e à crítica musical.
Robert Jourdain, no seu instigante livro que me foi presenteado pela Rosa Grieco, “Música, Cérebro e Êxtase”, transcreveu o seguinte comentário de Igor Stravinsky:
“As ideias habitualmente me ocorrem quando estou compondo... Os não iniciados imaginam que se deve esperar a inspiração para criar. Mas se enganam. Longe de mim dizer que não existe isso que é chamado de inspiração; pelo contrário. Nós a encontramos como força propulsora em todo tipo de atividade humana, não sendo, de forma alguma, peculiar aos artistas. Mas essa força só é colocada em ação através de um esforço e o esforço é o trabalho... O sentido musical não pode ser adquirido ou desenvolvido sem exercício. Em música, como em qualquer outra coisa, a inatividade conduz, aos poucos, à paralisia, à atrofia das  faculdades.”
Se sairmos da música para entrarmos nas outras áreas da criação humana, como o teatro, veremos Shakespeare, que escreveu mais de vinte peças em apenas 51 anos de idade, sem falar nos seus 154 sonetos de antologia.
Balzac, que também viveu 51 anos, trabalhou nos seus romances como se estivesse nas galés.  Deixou um monumento literário.
Para mim é isso: a inspiração vem com o trabalho.


A vantagem de ser inteligente é podemos fingir que somos imbecis, enquanto o contrário é completamente impossível.
Foi o que observou o profícuo cineasta Woody Allen.
Para não sairmos do mundo do cinema, lembro a Hedy Lamarr que, explicando o segredo da sua estonteante beleza, disse que era ficar parada e parecer estúpida “to stand there and look stupid.“
A sua inteligência beirava a genialidade; criou um sistema de comunicações para as Forças Armadas dos Estados Unidos e seu invento foi usado na criação da telefonia celular.
Austríaca, casada pela primeira vez com um fabricante de armas, era carregada pelo marido, que tirava partido da sua beleza, para reuniões com Hitler e outros dirigentes nazistas. E ela se fazia de estúpida, pois se exibisse a sua inteligência faria os demais se sentirem imbecis e perderia seu encanto. Enquanto os nazistas babavam com a beleza da “estúpida”, ela imaginava a possibilidade de se bloquear o sinal contínuo usado para o controle dos mísseis.
Ela fugiu para a América, em 1938, e, em Hollywood, durante décadas, participou de incontáveis filmes, digamos, pouco inteligentes com a sua insuperável beleza.
Morreu em 2000 com 86 anos de idade. Hedwig Eva Maria Kiester, a Hedy Lamarr do cinema, me deve uma visita. Vamos aguardar.

Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder.
Carlos Drummond de Andrade, que simpatizou com o comunismo, quando mais jovem, disse a frase acima. O poeta, na verdade, era um humanista e, no cargo de Chefe de Gabinete de um dos mais importantes ministros, Gustavo Capanema, na época em que os comunistas eram perseguidos pelo governo Getúlio Vargas, os ajudou, como, ao meu ver, auxiliaria as pessoas  de outra ideologia.
Sobre o povo no poder, as observações do anarquista russo, Bakunin, no século XIX, são definitivas.
"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo.  Quem duvida disso, não conhece a natureza humana."
Aqui, no Brasil, quando o Partido dos Trabalhados chegou ao poder, muitos românticos, que desconhecem a natureza humana, pensaram que finalmente as malfadas elites perderiam os seus privilégios e o povo teria quem os representasse.
Bem, os exemplos de que nada disso aconteceu são inúmeros. Citaremos um exemplo mais recente que se deu numa entrevista com uma das mais poderosas ministras, a da Casa Civil, a Gleisi Hoffmann.
O jornalista Alexandre Garcia lhe perguntou por que a Construtora Camargo Correia edificava obras no exterior merecedoras de elogios de todos, enquanto, no Brasil, muito das suas obras não alcançaram o mesmo padrão de qualidade.
A beleza da ministra não mitigou a sua arrogância quando mandou o jornalista fazer essa pergunta à própria Camargo Correia.
-”Não cabe ao governo fiscalizar essas obras? - devolveu.
Cabe, mas as empreiteiras não são contrariadas, o próprio ícone do Partido dos trabalhadores, Lula, transformou-se em lobista delas.
Povo no poder?... Só rindo.