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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

2995 - Dicionário Biográfico Eleitoral


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5245                              Data:  03 de dezembro de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO - PARTE IL

 

ELEIÇÃO – Eu contava 12 anos de idade quando vivi a minha primeira eleição. A mídia não era tão massacrante como é hoje (havia mais televizinhos do que televisão), mas, a proximidade das eleições de outubro não deixava ninguém indiferente, mesmo as crianças.

Na Rua Rocha Pita, na casa do Seu Alcyr, o professor que preparava uma turma de adolescentes para os concursos de admissão aos colégios públicos, destacava-se, colado na porta de entrada, um cartaz com três nomes em letras garrafais abaixo de três figuras imponentes: Jânio Quadros, Milton Campos e Carlos Lacerda; o primeiro era candidato ao cargo do Juscelino Kubitschek, o segundo, a permanecer onde estava, e o terceiro, a Governador do Estado da Guanabara.

O meu interesse foi despertado quando, na pequena televisão de 14 polegadas lá de casa, meu pai sintonizou a TV Tupi e nós assistimos a convenção da UDN, quando o Carlos Lacerda discursou defendendo a candidatura do Jânio, como candidato do partido, pondo por terra a pretensão do Juracy Magalhães.

-O desgraçado matou o Getúlio, mas é muito inteligente. – foi o comentário do meu pai sobre o Lacerda, que não se apagou da minha retentiva.

No meio dos livros e cadernos, meus colegas, ecoando as palavras que ouviam dos pais, falavam em Jânio, Jânio e Jânio para presidente. A minha mãe dizia que votaria até num chimpanzé, caso o PTB o lançasse como candidato, enquanto o meu pai só falava no Getúlio, como se ele ainda não tivesse entrado na história.

Minha mãe dizia que o seu candidato era o Marechal Lott, amor platônico da sua irmã mais velha, enquanto o meu tio, acostumado com as maluquices da mulher, não expressava resquício algum de ciúme, pelo contrário. Que o Lott a levasse. Quanto a mim, impressionado com o tal cartaz e contagiado pelos colegas de livros e cadernos, fiz-me adepto da candidatura Jânio Quadros e, com isso, até uma vassoura em forma de broche, que me foi dada, espetei na lapela da minha camisa.

A minha tia, apareceu lá em casa, uma vez e distribuiu espadas, que eram broches que se antepunham às vassouras. Gostei da espada que ela me deu, pensei até em usar os dois símbolos, um em cada lapela das minhas camisas, mas não combinavam como não combinam as cores de uma peça de roupa, então, optei pela vassoura.

“Varre, varre vassourinha,

Varre, varre a bandalheira.”

Sim, eu ouvia meu pai comentar que, com a construção de Brasília, a Judite (sua sogra), quando foi receber a pensão do meu bisavô, que lutara na Guerra do Paraguai, voltara com as mãos vazias – o Juscelino já havia raspado o tacho.

-Isso nunca aconteceu com presidente algum! – bradou meu pai que, ainda assim, não dizia que o Jânio Quadros arrumaria a casa.

Eu, com o entusiasmo dos pré-adolescentes, gritava pelos quatro quantos cantos da casa, que todos deveriam usar o crânio e votar no Jânio.

Porém, vendo pela televisão os discursos no palanque do PTB, na reta final para a eleição, fiquei dubitativo. Aquela multidão avassaladora gritando “É Lott, É Jango, É Sérgio Magalhães” anulou, por momentos, a minha personalidade e me amoldou a ela. Passada a embriaguez, no dia seguinte, retornei à vassoura, ao meu proselitismo de janista.

No dia 3 de outubro de 1960, deu-se a eleição. Meu pai votou na Escola 9-10 Manoel Bomfim, que eu deixara no ano anterior, depois de lá estudar desde 1955. Eram 4 horas da tarde, faltavam apenas 60 minutos para o fechamento das urnas, quando o meu pai resolveu exercer o seu direito de cidadão e me carregou com ele. Da nossa casa da Rua Cachambi até a Rua Braque, em Del Castilho, perfaziam uns 500 metros de distância mais ou menos.  Eu estaria fabulando se dissesse que lhe pedi para votar no “varre, varre, vassourinha” durante o percurso. Talvez não, talvez sim, não me recordo.

Naquela hora, a maioria dos eleitores já havia votado, o que não quer dizer que a seção eleitoral estivesse tranquila, como a da crônica de Machado de Assis em que ele atuou como mesário.  Não aparecendo os eleitores – conta Machado de Assis – os membros da mesa, para gastar o tempo, passaram a falar dos mais diversos assuntos, até mesmo do enigma “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”. Há quem garanta, baseado no evolucionismo de Charles Darwin, que foi o ovo, pois os dinossauros, que eram ovíparos, surgiram neste planeta antes das galinhas. Mas quem disse que o ovo do enigma é de outro animal?- diria um polemista feroz.

Bem, naquela seção eleitoral do Manoel Bomfim, enfrentamos uma fila pequena. Do lado do meu pai, estranhei a presença agitada de uma pessoa com uma braçadeira da UDN e pedi explicações ao meu pai; ele me disse que se tratava de um fiscal do partido, que o PTB tinha também o seu.

Diferentemente dos pais que levam os filhos com ele para dentro da cabine, meu pai me pediu para esperar e seguiu com a cédula de votação até ela.

No retorno para casa – isso eu lembro perfeitamente – perguntei por diversas vezes se ele votou no Jânio Quadros. Não me respondeu, nem mesmo o seu voto para vice-presidente e governador ele me revelou. Com o passar dos anos, tentei descobrir. Bem, 4 anos depois, quando morávamos numa vila da rua São Gabriel, descobri, depois de vê-lo xingar os vizinhos lacerdistas que comemoravam a Revolução Militar, que votara no João Goulart e no Sérgio Magalhães para Governador, sim no Sérgio Magalhães, pois o Tenório Cavalcanti, apesar de ser jornalista como ele, nunca lhe fez a cabeça com aquela capa preta e a metralhadora Lurdinha, cognome que os pracinhas deram à MG 42.

E para presidente da República em quem o meu pai votou? Não descobri. Será que ele votou no Jânio Quadros, como eu pedi, mas, envergonhado com o fiasco, nada revelou? Se assim, fosse, por que ficou silencioso de outubro de 1960 a agosto de1961? Ou votou no Lott, candidato do Juscelino Kubitschek que raspou o Tesouro para fazer, como meu pai dizia, uma cidade no meio do mato?

Nunca descobri; foi um segredo mais bem guardado por ele do que o de Fátima pela Igreja.

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

2944 - tricolores e tricolotices


 

 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5244                             Data:  01 de dezembro de 2015

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SABADOIDO

2ª PARTE

 

-Daniel, você vem do dentista ou de um baile de carnaval?

-De um baile de carnaval. - respondeu a Gina por ele.

-Carlão, o dentista disse que ia usar a broca na minha boca, sem anestesia, eu tremi nas bases como costumo tremer quando sai a escalação do Fluminense com o Gum e não doeu nada.

-Há vezes é o Gum quem decide, com um gol de cabeça, a vitória do Fluminense.

-Essa, no consultório do dentista, Carlão, foi uma das vezes. Gol do Gum.

Gina saiu da cozinha, mas o Daniel permaneceu comigo e com o Claudio.

-Eu imaginei, quando aqui cheguei e não ouvi sua voz, que era um daqueles sábados que você tem de ir à Casa da Moeda fazer a manutenção dos computadores, mas o Claudio me disse que não.

-Mas, daqui a pouco, telefonam de lá pedindo instruções ao Daniel. - manifestou-se o Claudio.

-Espero ficar muitos sábados e domingos sem ir lá, Carlão.

-Como eu chego ao meu trabalho muito cedo, costumo ligar o computador de uma colega, assim, quando ela chega, basta bater o ponto sem perda de tempo.

-Computador é como jogador de futebol: precisa de aquecimento antes de entrar em atividade. Aliás, Carlão, a seleção húngara de 54 entrava em campo arrasadora, fazendo dois, três gols nos primeiros minutos, porque foi a primeira equipe de futebol a se aquecer nos vestiários.

-Por que você não bate o ponto dessa colega? - voltou-se o Claudio para mim. 

-Quem bate o ponto do outro, se descoberto, é denunciado à Corregedoria, em Brasília, e corre o risco de sofrer um Processo Administrativo Disciplinar.

-O Sérgio Porto dizia: “Ou nos locupletemos todos ou restauremos a moralidade”. - lembrou meu irmão.

-No Facebook, algumas pessoas que eu conheço bem, convivi um tempo com elas, bradam insistentemente pela restauração da moralidade porque não estão se locupletando.

-O Facebook é uma nojeira. - gritou a Gina, que ouviu a minha voz, sem aparecer fisicamente.

-Dizem que essa frase não é bem do Sérgio Porto. - falou meu irmão.

-Li, há muito tempo, Claudio, uma crônica do Otto Lara Rezende em que ele escreveu que o Sérgio Porto se baseou no “Serafim Ponte Grande” do Oswald de Andrade.

-A Gininha esculhamba o Facebook, mas sempre navega nela.

-Fala baixo, Daniel, se não, ela escuta.

-Eu estou falando, velho.

-Como eu dizia, chego e ligo o computador dessa minha colega, mas, nesta semana, veio a mensagem de atualização. Passaram uns quarenta minutos e o diabo do computador ainda atualizava não sei o quê. Pensei comigo: ela vai chegar e perder minutos preciosos no ponto eletrônico.

-Essa sua colega chega tarde.

-Não, Claudio, eu é que chego muito cedo.

E prossegui:

-Aproveitei que o maior conhecedor de informática do recinto chegara e lhe pedi ajuda. Ele premiu o botão de desligar um tempo e soltou, assim tudo se acertou e o ponto eletrônico apareceu na tela.

-Ele deu o boot. - explicou o Daniel.

-Então, no dia seguinte, o computador voltou a se atualizar. O tempo passando e ele se atualizando.

-Ele estava lendo o Extra, a Hora do Povo, o New York Times, o Washington Post... - pilheriou meu irmão.

-O que fiz eu? Em vez de recorrer de novo ao tal colega, resolvi dar o boot de que falou o Daniel. Resultado: a tela enegreceu completamente, depois congelou com uns dizeres.

-Fez a maior lambança, Carlão.

-Agi como aprendiz de feiticeiro. Você viu esse desenho, Daniel, do filme “Fantasia” em que o Mickey é o aprendiz de feiticeiro?

-Muitos consideram o maior desenho de todos os tempos. - interveio o Claudio antes de o Daniel responder.

-Claro que vi, Carlão, o Mickey coloca as vassouras para carregar os baldes d' água por ele, depois de ter visto o feiticeiro usar os seus sortilégios. Mickey perdeu o controle das vassouras e o lugar estava virando um mar.

-Corri até o feiticeiro, esse colega especialista em informática e ele colocou tudo em ordem.

-Ele, Carlão, lhe deu, depois, uma vassourada na bunda?

Em vez da resposta ao meu sobrinho, disse outra coisa.

-Vocês sabiam que “O Aprendiz de Feiticeiro” é um poema do Goethe. Vou falar em alemão, se a minha língua cair, devolvam-me, por favor.

-Fala, Carlão.

-Der Zauberlehrling.

-Já ouvi pronúncias melhores. - brincou meu irmão.

-A letra da “Sabiá”, do Chico Buarque, é inspirada na “Canção do Exílio”, do Gonçalves Dias que, por sua vez, se inspirou na balada de Mignon, um romance de Goethe.

-Goethe está em todas.

-Ele é um dos maiores portentos da literatura universal, Daniel.

-Vou tocar teclado para relaxar depois dessa hora no dentista. - soergueu-se da cadeira e foi para o seu quarto.

-Claudio, você viu essa última listagem com os melhores filmes brasileiros de todos os tempos?

-São todos uma porcaria. - gritou mais uma vez a minha cunhada

-Eu sei que “Limite” foi o primeiro, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o segundo. - disse ele.

-”Limite”, eu vi numa fita VHS que me foi emprestada. O Mário Peixoto, o diretor, forjou uma carta em que o Eisenstein enaltecia o filme.

-Pelo visto, não precisava forjar.

-De alguns filmes desse rol eu me lembro.

-”Vidas Secas” está?

-Se não estivesse, Claudio, essa relação não poderia ser levada a sério.

E prossegui:

“Cidade de Deus”, de que eu gosto muito, está, mas não na colocação em que puseram, eu colocaria entre os três primeiros. “Terra em Transe” está também.

-Carlinhos, eu achei esse filme tão chato.

-Lá estava também “Rio, Zona Norte”. Lembro-me quando assisti a esse filme no Cine Cachambi com a mamãe e a Dona Maria, a nossa vizinha espanhola. Na volta para casa, as duas falaram mal do filme o tempo todo. Nunca tinham visto nada pior.

-Nesse filme, o Grande Otelo cai do trem e morre quando batucava um samba, se não me engano, do Zé Keti.

-Eu me recordo dessa cena, Claudio, não do samba que ele batucava.

-O Orson Welles considerava o Grande Otelo o maior ator brasileiro.

-Você falou nisso, Claudio e me veio à mente uma crônica do Ruy Castro. Ele escreveu que o Grande Otelo se queixava de o Orson Welles nunca o chamar para um filme seu depois de tal elogio. O Ruy Castro, então, faz umas especulações sobre os filmes dirigidos pelo Orson Welles que poderiam ter o Grande Otelo como ator. Disse que o Grande Otelo poderia ser uma das bruxas do “Macbeth”...

-Para quem fez Macunaíma... - interferiu meu irmão.

-Depois, o Ruy Castro veio com uma ideia doida: o Grande Otelo poderia atuar como “Otello”, mas, devido à sua megalomania, Orson Welles preferiu ser pintado de preto e atuar como protagonista.

-Acho errado um branco fazer o papel de um negro.

-Concordo, Claudio, mas o Grande Otelo era muito baixinho para atuar como o mouro de Veneza, o vencedor de grandes batalhas contra os muçulmanos, casado com bela e loura Desdêmona.

-Carlão, prepara-te para sair que eu vou pegar o carro. - era o Daniel, que parara de tocar há algum tempo, com a Gina, que reaparecia na cozinha.

 

 

 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

2993 - fumando pra dedéu


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5243                           Data:  30 de novembro  de 2015

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SABADOIDO

 

-Claudio, sonhei com a Dilma.

-Erótico?...

-Eu falei sonho, não pesadelo.

-Como foi esse sonho.

-Havia várias pessoas sentadas, ao céu aberto, num local gramado e ela ia falar.

-Isso acontece muito nos Estados Unidos; é o que se vê nos filmes. - disse ele.

-Havia muita lama...

-A lama da Samarco. - interrompeu-me.

-Depois de eu contar, você procure decifrar.

E prossegui:

-Os sapatos dela estavam imundos, pareciam os do Mujica do Uruguai, mas só os sapatos. Eu, então, lhe ofereci o meu tênis para ela calçar. Ela segurou o meu tênis pelos cadarços, enquanto me olhava com uma expressão de repugnância. O mais marcante, desse meu sonho, foi a sua cara de asco, de desprezo, sei lá de quê mais?

-Isso é verdade, Carlinhos?

-Claudio, se eu fizesse análise, contaria, com essas mesmas palavras, este sonho ao psicanalista.

-Bem, Carlinhos, Freud faria uma relação do seu tênis com o pênis.

-Sem brincadeiras, Claudio; ele era austríaco e na língua alemã as palavras pênis e tênis não soam parecidas, julgo eu, pois nunca estudei essa língua.

-Carlinhos, você assistiu a “Um Método Perigoso” no Telecine Cult?

-Vi há oito meses, mais ou menos; na semana passada, aproveitei uma reprise e revi.

-O Jung, quando se encontrava com o Freud, narrava os seus sonhos e ele analisava, e vice-versa.

-Sim, Claudio, mas houve um sonho do Freud que ele só insinuou para o Jung, não contou “porque isso acabaria com a minha autoridade” - foi a desculpa dele. Eles já estavam à beira da ruptura.

-Como você disse que reviu, na semana passada, pode me contar do que se tratava mesmo o filme? Nem me lembro mais.

-Jung cuida de uma neurótica russa, filha de um milionário judeu, que a espancava, quando criança. O problema dela é que sentia prazer nesses espancamentos e cresceu com esse problema. Jung a cura, com o método de Freud e ela se tornaria também psicanalista.

-Lembro-me bem, Carlinhos, que o Jung faz sexo com ela sempre dando-lhe umas bordoadas para ela chegar ao orgasmo.

Sem tomar fôlego, continuou:

-Lembra o Valter, aquele vizinho que morava naquela casa entre a nossa e a das três irmãs piranhas?

-Claro; ele era o Lando Buzanca da Chaves Pinheiro.

-Ele tinha uma namorada em que batia com vontade. Ela berrava tanto que, certa vez, o motorista do Méier-Maria da Graça parou no ponto, em frente à casa do Adalberto, para ouvir, com os passageiros, a gritaria da mulher.

-E esse ônibus, Claudio, estava a uns cinquenta metros do local do “crime”.

-Com uma boa acústica, quem estivesse a cem metros, escutava. - observou.

-Por volta das 7h 30min da manhã, eu varria e lavava a varanda e o quintal da nossa casa. Sempre, Claudio, nos dias seguintes a esses espancamentos, os dois saíam para trabalhar de mãos dadas como dois pombinhos.

-Essa mulher, Carlinhos, devia ser igual àquela do Jung.

-Não era não; essa da Chaves Pinheiro era muito mais neurótica. Jung era sofisticado, dava umas taponas nas ancas da “paciente” e não passava disso. A namorada do Valter pedia porrada mesmo, aquelas de deixar as mãos ardendo.

-O Nélson Rodrigues dizia que mulher gosta de apanhar, Carlinhos.

-Em meados dos anos 60, numa entrevista, perguntaram ao Nélson Rodrigues se era verdade que mulher gosta de apanhar, ele confirmou. “Só as neuróticas reagem” - acrescentou.

-É o contrário. - observou meu irmão.

-A mulher do Pedro Paulo, candidato do Eduardo Paes a prefeito em 2016, reagiu.

-E perdeu um dente. - disse ele.

-Agora, Claudio, ela vir de São Paulo até o Rio de Janeiro, com o atual marido, para dar uma entrevista junto ao espancador e dizer que a imprensa está fazendo da vida dela um inferno... Eu não diria que ela gostou de apanhar, tanto que, na ocasião, fez queixa na polícia. Não há sexo por trás disso, é outra coisa.

-Freud e Jung passam longe dessa história.

-Passam. - concordei.

-Essa paciente do Jung escreve para o Freud tratar dela, não foi?

-Jung discordava que o sexo fosse o motor do nosso comportamento, por isso, rompeu com o seu mestre, mas Freud, ao contrário do Jung, nem tocou nela.

-Não deixa de ser irônico.

-Ela se tornou psicanalista, dizem até que a pulsão da morte atribuída a Freud foi concebida por ela e morreu, anos depois, fuzilada pelos nazistas.

-O filme diz isso no texto que corre pela tela no final.

-Mudando de assunto, Claudio, mas não totalmente, dando uma olhada no calendário que o Sérgio Fortes lê, aos domingos, no Rádio Memória, vi que a segunda esposa do escritor Norman Mailer, Adele Morales, que era artista plástica, morreu no dia 22 de novembro deste ano com 90 anos de idade.

-Mudou inteiramente de assunto. - criticou.

-Não mudei, porque, numa festa, o Norman Mailer não só bateu na mulher como a esfaqueou.

-Quantas histórias para a redação deste ano do ENEM: “Violência contra a mulher”. - comentou.

-Sabe por que ele enfiou a faca na mulher, Claudio? Porque ela disse que Dostoievski era mais escritor do que ele.

-Ele, então, vai esfaquear todas as mulheres do mundo. - ironizou.

-Norman Mailer andava empolgado com o sucesso alcançado pelo seu livro “Os Nus e os Mortos”, que escreveu com 25 anos de idade. Mais do que isso, ele já havia bebido alguns litros de uísque, a sua mulher também...

-Mas ela estava bem mais sóbria do que ele. - acentuou.

-Claro. - concordei.

E prossegui:

-Era um casal de festas e porres homéricos, e acabou mal.

-Veja: o Norman Mailer morreu, se não me engano, com 85 anos, e ela, você disse, agora, chegou aos 90. Então, essa história de viver comedidamente, com dietas ... muita gente, vive assim, e morre jovem.

-Sim, Claudio, mas você argumenta com a exceção, não com a regra.

-O Zanela (ele sempre cita o colega de trabalho do seu sogro nessa hora) fumava como uma chaminé e bebia como um gambá, e chegou aos 90 anos de idade como essa dona de que você falou.

Ouvimos ruídos: eram o Daniel e a Gina voltando do consultório do dentista.

 

 

 

 

 

  

 

 

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

2992 - A fuga de Dom João


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5242                           Data:  29 de novembro  de 2015

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ACONTECEU NO DIA 29 DE NOVEMBRO

 

Antes do calendário, Sérgio Fortes serviu chá musicalmente falando. Explico: pediu “Tea For Two”. Pediu para dois, mas os ouvintes do Rádio Memória são em número sideral, por isso, faltou chá para todos. Mas nos resta o consolo de ainda não vivermos a crise de desabastecimento da Venezuela.

“Tea For Two” foi ouvido até a última gota, depois, veio o calendário. Não, ainda não, porque os apresentadores do programa fizeram uma alusão ao charuto fumado pelo maestro Marco Ribas do tamanho de uma batuta.

-Jonas, em 1807, Dom João, com a corte portuguesa, fugiu para o Brasil. Havia muito francês no pedaço... a coisa estava ficando perigosa, e ele veio para o Brasil.

-O que foi ótimo para nós; a partir de então, o Brasil começou a surgiu como país. - comentou o Jonas Vieira como brasileiro, não como partidário de Napoleão Bonaparte.

-Em 1877, Thomas Edison demonstra seu fonógrafo pela primeira vez. Jonas, de lá para cá como evoluiu o mundo da gravação.

-Nem fala, Sérgio.

Pesquisadores revelaram que foram, em um armário do laboratório de Thomas Edison, encontrados cilindros de cera com gravações da voz do poderoso chanceler Otto von Bismarck, recitando trechos de Goethe e Skakespeare.

-Em 1899, é fundado o Futebol Clube Barcelona. Jonas, o Barcelona é bem espanhol ou catalão, como queiram e foi fundado por um suíço.

-Para você ver como são as coisas, Sérgio.

-Em 1929, o almirante norte-americano Richard Byrd se torna a primeira pessoa a sobrevoar o Polo Sul. Que aventureiro!

-Isso é que é uma aventura.

-Eu espero, Jonas, que ele estivesse usando um casaco.

-Ele estava em mangas de camisa. - contribuiu, também, o Jonas Vieira, com a sua piada.

-Em 1963, o presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johson cria a Comissão Warren para investigar o assassinato de John Kennedy. Jonas, escreveram um relatório do tamanho de uma lista telefônica multiplicada por dois e não se chegou a lugar algum, ninguém ficou convencido.

-Até hoje a coisa é misteriosa.

Nós, do Biscoito Molhado, acreditamos que os nomes de todos os envolvidos no crime se acham lá pela página 5000, mas ninguém teve paciência de ler além da página 3000. A nossa presidente, por exemplo, nem teve a pachorra de olhar o relatório e disse que o culpado foi o Fernando Henrique Cardoso.

-Em 1967, Guerra do Vietnã: o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara anuncia sua renúncia. Jonas, essa renúncia já era um prenúncio do insucesso dos Estados Unidos no Vietnã.

Robert McNamara que, depois da Segunda Grande Guerra Mundial, ajudou a Ford a se soerguer, como seu presidente. Ele se arrependeu, certamente, largar os carros e se tornar Secretário de Defesa.

-Nascimentos. - impostou a voz o Homem-Calendário do Rádio Memória.

-Em 1797, nascia um compositor de óperas maravilhoso, de grande talento, Gaetano Donizetti.

-Grande compositor. - reforçou o Jonas Vieira a ênfase do Sérgio Fortes.

-Em 1911, nasce um comediante de que eu sou fã de carteirinha: Walter D’ Ávila.

-A irmã dele ainda está viva?

-Não, Jonas, ela morreu há algum tempo, bem antes dele.

-Dois grandes comediantes. - frisou o Jonas Vieira.

-Eles eram do Rio Grande do Sul. - informou-nos o Sérgio Fortes.

Walter D’ Ávila, mais conhecido pelo seu personagem “Seu Obturado”, que só entendia as coisas com muito atraso (parecia os eleitores do PT) encerrou a sua carreira trabalhando na “Escolinha do Professor Raimundo”. E foi nesse programa que ele contou o caso que se segue:

-“Eu arrumei uma namorada economista. Quando estávamos olho no olho, corpo com corpo, pele com pele, eu senti algo estranho, de travesti, e perguntei: “O que é isto?” E ela: “É valor agregado”.

-Falecimentos. Anunciou.

-Em 1643, falecia outro compositor maravilhoso: Claudio Monteverdi.

Um dos grandes autores operísticos de todos os tempos.

-Em 1924, falecia o estupendo compositor italiano Giacomo Puccini.

-O grande Puccini.

-Jonas, ele morreu quando compunha a parte final da ópera “Turandot”. Na estreia da ópera, com o Scala de Milão repleto de gente, em determinado momento, Arturo Toscanini para de reger, volta-se para a plateia e diz: “Aqui, morreu o maestro”, depois prosseguiu com a regência. O Aluno de Puccini, Franco Alfano, aproveitou trechos do mestre, acrescentou uma coisa aqui, outra ali, fez o dueto final e terminou a ópera. Parece que Toscanini não gostou do que ele fez.

-Em 1960, morria Otávio Mangabeira, engenheiro e político brasileiro.

-Sérgio, não se vê políticos, hoje, como os do passado.

-Realmente, Jonas. Hoje, o nosso cenário político é desolador.

Políticos de reputação ilibada, de moral sem jaça, verdadeiros “Varões de Plutarco” sumiram, lamentavelmente, de cena no Brasil.

-Em 1975, morre Graham Hill automobilista inglês. Jonas, foi um ótimo corredor de Fórmula 1. Era bigodudo, com um bigode sempre bem aparado. Deixou o seu nome nas corridas da Fórmula 1.

-Em 1981, morre Natalie Wood, atriz americana. Morreu muito jovem, com pouco mais de 40 anos.  Morte trágica, Jonas, afogada.

-Uma morte suspeita, Sérgio.

-Suspeita. - concordou ele.

-Ela era muito bonita.

-Belíssima, Jonas.

Os dois ficaram tão abalados com a morte da Natalie Wood que, no transcorrer do programa, o Jonas Vieira trocaria o nome de um clássico do repertório norte-americano e o Sérgio Fortes esqueceria um nome importante do mundo artístico.

Filha de russos emigrados, reza a lenda que uma cigana disse à mãe da Natalie Wood que a sua filha deveria fugir da água escura, o que fez a atriz ter medo de morrer afogada, porém, um dia, ela exagerou na bebida, e ...

-Em 2012, morre o jornalista e sociólogo brasileiro, detentor de um talento poliédrico, Joelmir Beting.

-Sim, o grande Joelmir.

-Jonas, eu nunca me esqueço de um encontro que tive com ele na Feira de Hannover. Nós conversamos sobre futebol, ele era palmeirense roxo, ou melhor, verde. Quando o Joelmir Beting soube que eu conheci Oscar Nascimento, grande goleiro do passado do Palmeiras, ele enlouqueceu.

Depois desse caso, Sérgio Fortes chegou ao Santo do Dia.

-29 de novembro é o Dia de São Saturnino de Tolosa.

-O santo padroeiro do Marco Ribas. - disse o Jonas Vieira.

-Por que o Marco Ribas está sempre fumando esses charutos de Havana? Porque vive agarrado a São Saturnino de Tolosa. – disse o Sérgio.

Encerrado o calendário, passaram para as atrações musicais, de extremo bom gosto, principalmente porque o Jonas Vieira atacou de Jessye Norman uma das vozes mais diferenciadas da história do canto.

 

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

2991 - passando fome 2


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5241                             Data:  28 de novembro  de 2015

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129ª VISITA À MINHA CASA

2ª PARTE

 

Haydn esboçou um sorriso bonachão e eu lhe perguntei:

-Não era só a música, e as mulheres?...

-Apaixonei-me por um das minhas alunas, mas ela estava destinada ao convento. Casei-me, então, com a sua irmã mais velha, Maria Anna Keller.

-Foi um desastre?

-Se eu não ficasse atento, ela faria papelotes com as minhas partituras. Mais tarde, arrumei uma amante, Luigia Polzelli, que era cantora. Quando enviuvei, senti-me livre.

-Você ficou também preso à família Eszterházy por 29 anos. Como foi isso?

-O conde Morzin, com problemas financeiros, dissolveu o seu estabelecimento musical, e eu fiquei desempregado, mas não por muito tempo. A família dos príncipes de Eszterházy, uma das mais proeminentes da nobreza húngara, me contratou como mestre de capela assistente.

-Os termos do contrato eram duros: você vestiria a libré e as suas criações seriam destinadas ao seu patrão.

-Na prática, não o foi, porque o príncipe Paul II Eszterházy se encantava com a arte musical; não me tratou como criado e não impediu que as minhas obras fossem divulgadas fora do círculo familiar.

-Mas  Paul II Eszterházy não viveu muito.

-Veio, depois dele, o seu irmão Nikolaus I Eszterházy, que gostava ainda mais de música; deu-me todas as condições precisas para eu desenvolver o meu dom criativo. Quando o mestre de capela titular morreu, eu assumi o seu posto.

-Você tinha inteira liberdade para lidar com a orquestra privativa do príncipe Nikolaus I Eszterházy?

-Inteira – acentuou. Eu compunha para ela, eu a regia; assim, cheguei a criar uma centena de sinfonias.

-Como mestre de capela da família Eszterházy, o que mais você fazia?

-Eram muitas as tarefas: execuções de música de câmara, de óperas que eu compunha para o teatro do palácio da família, etc.

-Mesmo com o seu quase confinamento no palácio dos Eszterházy, localizado a 80 quilômetros de Viena, as suas criações chegaram a Paris.

-Eu podia reger minhas obras em Viena. Quando chegou um convite da rainha Maria Antonieta para eu me apresentar diante da corte francesa, o príncipe não opôs objeção, e viajei até lá.

-Foi quando você, compositor profícuo que era, compôs as seis sinfonias de Paris.

-A Sinfonia nº 85 ficou conhecida como “La Reine”, porque era a favorita da rainha Maria Antonieta. – acrescentou.

-Quando você conheceu Mozart?

-Em 1781; ele estava com 25 anos de idade, e eu com 49 anos.

-Você, que foi o maior influenciador do estilo de música, durante um grande período de tempo, também influenciou Mozart.

-Ele me chamava de Papá, mas o seu gênio era tão divino que não pude deixar de sofrer também influências suas.

-Mozart compôs e lhe dedicou seis quartetos de cordas, denominados “Seis Quartetos de Haydn”, uma homenagem a quem criou essa formação.

-Eram obras-primas. Quando ouvi as óperas compostas por Mozart, deixei-as de lado no meu trabalho de compositor. Como eu poderia escrever óperas que chegassem perto da magnitude das dele?

-Ninguém conseguiu, Haydn?  

-Certa vez, eu disse a seu pai, Leopold Mozart: “Digo-o perante Deus e como homem honesto, que vosso filho é o maior compositor que eu conheço em pessoa ou em nome, porque tem o gosto e a maior das ciências de composição”.

-Certo, você admirava o divino Mozart, mas era recíproco. Contam que um desses compositores catava com lupa uma nota errada nas partituras das suas obras e corria, satisfeito da vida, para mostra-la a Mozart. Este, um dia, se enfureceu com essa mesquinhez, e lhe disse mais ou menos isto: “Se juntarem eu e você não se fará meio Haydn”.

-Ele estava muito irritado mesmo. – comentou com um sorriso.

-Não bastassem os quartetos de corda e as sinfonias, você criou a forma sonata de composição, que é dividida em três grandes partes: exposição, desenvolvimento e reexposição com subdivisões em cada uma dessas partes. Digo isso grosso modo, pois, em matéria de música, sou apenas um diletante.

-A ideia da forma sonata de composição foi de Carl Philipp Emanuel Bach.

-Sim, Haydn, mas esse esquema de composição que dominou o pensamento da música erudita é devido quase que exclusivamente a você, que a desenvolveu na sua extensa obra. – salientei.

Ele se limitou a sorrir generosamente.

-Mozart, que era maçom, o levou para a maçonaria?

-Eu era católico, mas Mozart me convenceu. Ele não precisava falar muito, bastava me mostrar uma nova criação sua que eu já ficava convencido de qualquer coisa vinda dele.

-E o seu contrato com os Eszterházy?

Em 1790, o príncipe Nikolaus I Eszterházy faleceu. Quem o sucedeu tinha um espírito de pedra, não gostava de música, desfez-se de todo o arcabouço musical da família e me liberou.

-Depois de 30 anos praticamente.

-A seu favor, diga-se, pagou-me uma pensão pelos bons serviços prestados aos Eszterházy.

-Bem, Haydn, seu contrato foi rompido, você estava viúvo de uma mulher que embrulhava carne com as suas partituras... Sentia-se, enfim, livre como um passarinho.

-Fui chamado, logo em seguida, para trabalhar na Inglaterra em ótimas condições financeiras. Ao me despedir de Mozart, ele me disse que estava com um mau pressentimento. "Sinto-me muito bem, ainda pretendo viver bastante.” E ele: “Não é a você que me refiro, Papá”. Ordenei-lhe que arrancasse essas nuvens negras do espírito e que tratasse de compor bastante.

-No ano seguinte, ele morreria com 35 anos. Foi a maior tragédia da história da música ele partir tão jovem.

-Lá, na Inglaterra, compus as minhas doze últimas sinfonias.

-O seu triunfo foi tal que os ingleses queriam que você se estabelecesse lá como Handel o fizera alguns anos antes.

-Eu já estava numa idade avançada, beirava os 70. Dinheiro não era mais problema para mim. Voltei para a minha terra com a motivação de não deixar nunca de compor.

-E compôs obras de grande fôlego: “A Criação”, “As Estações”, o “Te Deum”.

-Compus ainda nove quartetos de cordas, seis missas que dediquei a um Esztereházy que gostava tanto de música como aqueles com que trabalhei.

-Você só parou quando morreu?

-Era a minha intenção, mas uns sete anos antes da minha morte, a debilidade física me impossibilitou de pôr no papel as ideias que ainda jorravam da minha mente.

-Você deixou esta vida em 1809, na sua casa, em Viena com 77 anos de idade.

-Morri ouvindo um bombardeio infernal que contrastava inteiramente com as harmonias que eu procurei por toda a minha vida.

-Era o exército de Napoleão bombardeando Viena.

Não ouviu as minhas últimas palavras, pois já havia partido para bem longe.

  

 

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

2990 - passando fome


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5240                            Data:  27 de novembro  de 2015

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129ª VISITA À MINHA CASA

 

-Haydn!... Parece que, distraído, fui trazido de volta à realidade, ao vê-lo, como acontece na sua Sinfonia “A Surpresa”.

-A de número 94?... Eu expliquei que aquelas súbitas notas fortíssimas da orquestra eram para acordar as pessoas da plateia que dormiam.

-Mais uma das suas piadas, pois as frases melódicas que antecedem aquelas repentinas notas fortíssimas dos instrumentos de percussão nos encantam pela beleza.

-Não gosto de perder uma piada ainda mais compondo.

-Uma das suas melhores brincadeiras se dá na Sinfonia nº 45, “A Despedida”. Paulatinamente os músicos fecham a partitura, param de tocar e se retiram da sala, até restarem apenas dois, na orquestra.

-Aquilo não foi brincadeira; era uma maneira sutil de mostrar ao príncipe...

-Seu patrão. - cortei o fluxo da sua frase.

-Uma maneira de mostrar a ele que os músicos não mereciam ser tratados como meros serviçais.

-Ele entendeu, Haydn?

-Era perspicaz, tratou-nos como artistas que éramos.

-Mas você, um dos maiores compositores da história da música, vestia libré, a farda de lacaios e cocheiros quando foi trabalhar para a família Eszterházy, como mestre de capela.

-Sim; meu querido amigo Mozart, lá em Salzburg, se rebelou e partiu para Viena. Eu fui mais conformado.

-Apesar da sua vida difícil, desde a idade mais tenra, você não perdeu, como se viu, o senso de humor.

-Sim; vivi com meus pais até os seis anos e idade, apenas.

-Por que isso?

-Eu nasci numa vila austríaca perto da fronteira com a Hungria; meus pais não eram ligados à musica, mas eu me entusiasmava com os serões de canto que havia nas proximidades. Eles, percebendo a minha vocação, me enviaram para Hainburg, onde um nosso parente, chamado Johann Matthias Franck, que era mestre de capela, se propôs a me dar aulas.

E como foi?

-Se muitas vezes os pais não tratam bem os filhos, imagine aqueles que não o são; fui humilhado, fiquei algumas vezes sem comer, mas não vou cuspir no prato em que não comi...

Parou para rir, junto comigo, e prosseguiu:

-Mas aprendi, com ele, a tocar cravo e violino; Tio Franck descortinou um novo mundo para mim.

-Tocar cravo e piano não era o seu único talento quando menino.

-Eu possuía uma voz que arrancava muitos elogios. Meu mentor, então, me levou para cantar na seção dos sopranos no coro da igreja.

-Isso foi quando, Haydn?

-Em 1740; eu contava oito anos de idade.

E continuou:

-Georg von Reutter, diretor de música na catedral de Santo Estêvão, corria, pela Áustria, recrutando meninos com dons canoros; impressionou-se com a minha voz e com a do meu irmão mais novo, Michael, e nós fomos para Viena.

-”Os Meninos Cantores de Viena” são lendários, o coro existe até hoje, e surgiu antes de 1500.- comentei.

-Com 17 anos, expulsaram-me do coro.

-Por que?

-Porque eu recusei a castração, ora essa! Preferi perder a minha voz de soprano do que a minha anatomia mais íntima.

-Concordo, mas como você enfrentou a vida depois que a sua voz engrossou?

-Fiquei sem trabalho e caí na pobreza; até nas ruas eu dormi.

-Foram sete anos de vacas magras?

-Dez, mas não foi uma década perdida, como vocês dizem no Brasil. Lancei-me na boemia vienense, como músico ambulante, e me introduzi nos meios intelectuais;  aprimorei-me, assim, em várias atividades relacionadas à música.

-Uma delas?-  pedi.

-Fui secretário do Nicola Porpora, excelente compositor napolitano; ele, sozinho, valia por toda uma escola. Com ele, aprendi o verdadeiro fundamento da composição.

-Ele dava, também, aulas de canto?

-Sim, o requisitado Farinelli, porque se submeteu à castração, foi seu aluno.

E voltou ao seu mestre:

-Com o passar dos anos, o estilo floreado do Nicola Porpora deixou de agradar as plateias e ele, injustamente, morreu na pobreza.

-Muita coisa você aprendeu sozinho, foi um autodidata.

-Estudei, sozinho, exaustivamente, o tratado de contraponto Gradus ad Parnassum do compositor da corte, na época, Johann Fux. Sem o domínio completo do contraponto não se é um grande compositor.

-Quem mais o influenciou na sua formação musical, Haydn?

-Carl Philipp Emanuel Bach, o segundo filho de Johann Sebastian Bach. - respondeu-me.

-Este teve, além do sangue, o maior de todos os mestres da história da música. - salientei.

-Mas ele não falava muito do pai; não me mostrava nada dele. - lastimou.

-Os filhos de Bach foram extremamente ingratos com o pai, um deles o chamou de “A Velha Peruca”.

-Ele disse isso porque Bach gostava das músicas antigas.

-Mas a grande  música é atemporal.- completou.

-Depois de tantos estudos, Haydn, quando você compôs as suas primeiras obras?

-Em 1750; eu estava com 18 anos. Eu escrevi missas e uma ópera.

-Sete anos depois, o barão von Fürnberg me chamou para participar dos serões de música de câmera em Weinzer.

-Foi lá que você concebeu a formação do quarteto de cordas, dois violinos, uma viola e um violoncelo, que foi explorado pelos grandes compositores principalmente Beethoven. - manifestei-me.

-Eu tive uma boa ideia e muitos a puseram em prática, além de mim, é claro.

-Mas a sua vida profissional de músico era ainda incerta.

-Só me firmei em 1759 quando me tornei mestre de capela do conde Karl von Morzin. Nesse cargo, escrevi as minhas primeiras sinfonias; a orquestra, na época, era formada por dezesseis músicos.

-Você viria a ser o Pai da Sinfonia. Como se não bastasse o quarteto de cordas, você concebia, agora, a sinfonia. Você era extremamente inovador.

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