Total de visualizações de página

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

3168 - esse trem não volta mais para a estação (4)

5. VAPOROSA






Com tantas viagens e mais a quarta-feira ocupada, Volumosa perdiaquase um quilo por mês, merecendo em um ano a qualificação de vaporosa, a falsaVolumosa. Não havia como deixar de notar e Volumosa atraía os maisdistraídos olhares, ela era alta, costas e ancas largas, atitude imponente.

 

Como viajava para os mesmos lugares, Volumosa para sempre Volumosa nuncadespachava bagagens, conservando em sua frasqueira tudo o que precisava, àsvezes ocupando uma maleta de mão com algum presente. Saía sempre direto doavião para um táxi, ou para um carro que a estivesse esperando.


Nessa rota de rápida passagem pelo saguão do aeroporto, trocava cumprimentoscom a tripulação igualmente expedita no desembaraço de seus afazeres finais. Asaeromoças ficavam a pensar que sucesso ela não faria em qualquer primeira classe,os pilotos e comandantes acenavam e sorriam com um "se esse broto fosse meu",

ou "Ah! esse violão na minha mão". Daí só pra pior… Volumosa tinha borogodó!


Depois do acaso de Volumosa descartar o Gercino de uma vez por todas, estavana hora de haver compensação e fazer aparecer Robert "Ace" Sardinha em sua  vida. Mas como se despedir de Gercino, conhecer Ace Sardinha e deixar o acaso ao léu,  sem as notícias do sorveteiro-pistoleiro?


Quarto acompanhava diariamente pelos jornais uma nota, simples que fosse, sobreGercino. Dois, três dias e nada, nem uma nota de rodapé, que coisa angustiante.Seria o caso de ir na Polícia e procurar informações, mas e o revólver? Seria melhor

deixar o barco correr e fazer chegar aos parentes um aviso e algum dinheiro? Orevólver, ai, o revólver, nem pensar, ir na Polícia, não.


Na terça-feira, finalmente sai em O Dia: foi atropelado e morto Gercino dos Santos,

na Rua Estrela, por motorista não identificado, no dia 9 do corrente. A Políciaencontrou documentos na pensão em que morava e o corpo está à disposição dosfamiliares no Instituto Médico Legal, na Avenida Mem de Sá, 152, nesta Capital.Entre seus bens encontra-se um revólver Smith & Wesson, com munição de festim.


Era o bastante, Quarto fez o resto e Gercino dos Santos foi devidamente honradocom funeral apropriado.


Entrou então em cena Robert "Ace" Sardinha, americano das comunidades debaleeiros portugueses, que conheceu o Brasil como co-piloto da Força Aérea doExército Americano, durante as operações do Trampolim da Vitória, iniciadas nofinal de 1942. Sabia falar razoavelmente a língua, e apesar de alguma dificuldadecom expressões regionais e os sotaques, de parte a parte, ele era imprescindívelpara o sucesso potiguar dos colegas americanos enquanto estava na base,Parnamirim Field. 


Tinha menos de 20 anos em 1943 e fazia parte da tripulação  de Jim "Roscoe"Brown, apelido semi-equino atribuído à sua diplomacia no trato com mecânicos,superiores e colegas. Por um mínimo sinal de falha, abortava a missão e retornavataxiando seu avião até um ponto de manutenção, com um extenso relatório deavarias. Atrapalhava a logística da guerra mundial - só isso, mas nenhum voo seuteve contratempos, ou como era comum com os quadrimotores, nenhum avião sobseu comando chegou ao destino com um ou dois motores em pane.


Essa foi a escola do Robert Sardinha, que tornou-se comandante de aeronave aindaem 1943. Pegou os macetes de busca de falhas usados pelo Roscoe, acelerava ummotor ao máximo, cortava e reacelerava. E ia repetindo a manobra, motor pormotor. Quando girava na cabeceira da pista já tinha plena segurança, ou abortavao voo. Era o método Roscoe... agora Roscoe-Ace


Como essa atitude não era lá muito prova de habilidade, ou de virilidade, virou"Ace" um tanto pejorativamente. No entanto, sua tripulação o adorava, poisninguém suava frio e os mecânicos confirmavam sempre que havia alguma pane,ninguém vira um "Ace" de graça. Para os americanos pronunciarem seu nome,entretanto, era um horror, saía sardinn-rra, sardin-rei e outras dissonâncias menores.Chamá-lo de Bob era redundante, cinquenta bobs atenderiam, aí ACE pegou.


Depois do Trampolim da Vitória, Ace permaneceu na recém criada Força Aérea,sempre nas rotas de carga, jamais nas frentes de combate. Era o único Ace,ás-piloto de carga. Foi ficando, graças ao seu jeito seguro e ausente de falhas e, em1949, quando os russos fecharam as fronteiras da Alemanha Oriental e a ponteaérea de Berlim foi estabelecida, não foi surpresa saber quem mais fez voos sempane.


Os anos 50 chegaram e foi a década do desenvolvimento da aviação comercial emtodo o mundo e no Brasil não foi diferente. Distâncias continentais foramencurtadas de dias de estrada para horas de voo. Aviões militares excedentes deguerra foram convertidos aos milhares e necessitavam de duas e, às vezes, trêstripulações por avião. E a Panair do Brasil, ainda fortemente ligada à Pan American

Airways recrutava muitos pilotos nos Estados Unidos para as recém criadas linhasinternacionais brasileiras.


Definitivamente Ace Sardinha era o homem certo no lugar certo, na hora certa.





6. UM ESBARRÃO 






Saguão do Aeroporto dos Guararapes, seis e meia da manhã, Volumosa nãoencontrou o carro que deveria lhe esperar e voltou para a cafeteria, que malcomeçava a fazer seus vapores. Pediu um café e procurava um lugar para sentarquando um jovem esbaforido e uniformizado de cáqui entra aos pulos, olhandopara cima, enquanto clamava aos berros: Telegrama para Senhor Barretto!


Não chegou a repetir o chamamento e já arremessava Volumosa então vaporosasobre o balcão, que girou pela borda arredondada até que uma mão forte travou omovimento da moça: - Moça, acho que o salvei!


Ace Sardinha falava bem o português, mas esbarrava nas concordâncias,principalmente em emergências. Ficava evidente que não era do lugar. Volumosa,num suspiro e ainda sem ver a cena direito, mas sentindo-se bem amparada,proferiu uma frase um tanto inédita: 


- Obrigada! Mas você não é daqui, não é?


Ace assentiu e notou com a proximidade dos corpos e o balanço da travada, queVolumosa trazia no colo um cordão de ouro com um Santo Antônio igual ao seu.Mostrou-lhe o seu  santo igual, como se isso lhes proporcionasse uma irmandadeimediata e começou uma conversa que só parou com a chegada do Hudson quelevaria Volumosa ao centro da cidade.


Sentada no sedâ azul, refletia sobre o inesperado, um tombo e uma mão do destinoa evitar uma queda espalhafatosa, a queda da Volumosa, quase vaporosa. E decomo essa mão, em conversa de oito, dez minutos, tinha lhe feito dizer tanta coisa,incluindo o endereço da mãe na Itamaracá do Espinheiro; e pior, que já iria esperara visita de Ace, na segunda-feira. Precisava tratar de adiar o retorno no domingo...Êta, que confusão.


“Ainda mando um telegrama hoje para o Quarto”, pensou, ao mesmo tempo emque comparava as ações simples, diretas e eficientes de Ace com as mil conjecturas,

hipóteses e cenários que Quarto desfilaria ante uma simples mensagem. Claro, eleera o Deputado Issi?, onde a interrogação faz parte do nome próprio, e se a mãeestivesse necessitando de cuidados, e se ela pegou uma gripe, e se o ex-namoradoda Marquês do Paraná - que nem era tão longe assim da Barão de Itamaracá eambas amparadas por rima rica e por heráldica imperial, houvesse reaparecido?Claro, Quarto, o deputado Issi?, iria passar a manhã botando e tirando os óculos,para descobrir sob as tirinhas impressas pelo teletipo uma explicação subliminarpara:  PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM, não, era melhor:QUERIDO, PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM. 


É, ficou muito melhor.


E Labskaus? Ora Labskaus entenderia que não era dia e à praia iria sem uma rugano dedão do pé. E ria enquanto pensava como Labskaus se encaixava em qualquersituação de maneira estável, Labskaus se fosse jogado no canto, formaria quina, oumelhor, para falar cientificamente, um vértice e três arestas. Se for jogado numatigela, formaria uma semiesfera, ou meia bola, para falar no coloquial. Labskausera gostoso, mas não era preocupação.


Puxou o cordão do pescoço e deu dois beijinhos no santo, antevendo a dupladespedida. Volumosa Vaporosa iria evaporar de verdade, que fosse para sempre e,ora, ora, ora, por que não um viva para Volumosa Vaporosa?


Viva Volumosa Vaporosa!


 














Nenhum comentário:

Postar um comentário