Total de visualizações de página

terça-feira, 22 de setembro de 2015

2942 - o ônibus errado


--------------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5192                                   Data:  18  de setembro de 2015

--------------------------------------------------

 

209ª  CONVERSA  COM OS TAXISTAS

 

Eu não sabia que o brocardo popular “muita esmola o santo desconfia” também se aplicava nos ônibus. Mas eu tenho uma atenuante, fiquei mais de dez anos sem ir ao Centro da cidade por esse meio de transporte; deslocava-me para o trabalho unicamente de metrô, com pouquíssimas caronas, táxis e Van como exceções. Assim, quando entrei, nessa última sexta-feira no 265 e pude escolher o lugar para me sentar, pois só havia quatro passageiros, bendisse a minha sorte e, em vez de saltar no ponto próximo à estação do metrô de Maria da Graça, resolvi seguir para a cidade e sair na proximidade da rua México como fizera dias atrás. Na verdade, foi essa viagem que reiniciou a minha ida de ônibus para o trabalho depois de mais de dez anos, como eu já disse. O estranho é que, daquela vez, existiam apenas três lugares vazios e o horário era o mesmo 5h 30min.  Agora, porém, eu não estranhava nada. Lembrei-me do Sérgio Britto, no seu programa televisivo “Arte”, dizendo que, quando visitou a Grécia e foi ao teatro, deparou-se com a Irene Pappás interpretando “Medeia”, de Eurípedes, presenciou tudo deslumbrado e concluiu: “Eu mereço”. Eu merecia me esparramar numa condução indo para o batente após décadas de aperto,

Saquei da minha mochila a revista de palavras cruzadas, porque a luminosidade não era das piores, porém, o ônibus sacolejava tanto devido à idade da lataria e pedal do acelerador premido pelo pé pesado do motorista, que julguei mais saudável recolocar a revista no lugar de onde eu a tirara. O General Golbery, no conforto do seu carro com motorista, sofreu um deslocamento de retina lendo. Eu não iria correr esse risco. Considerei mais seguro pegar um papel com testes de inteligência com questões que exigiriam, cada uma delas, mais ou menos um minuto para serem lidas, e minutos, talvez horas de reflexão para serem resolvidas, ou seja, a retina ficaria sossegada, apenas os neurônios seriam postos em ação. O primeiro problema a que me submeti foi esse: “Quando João estava passeando com seu cachorro, encontrou o filho do marido da filha única de sua sogra. Qual é o parentesco dele com João?”

Eu pensava naquela família complicada em que só o cão não tinha nada a ver com aquele imbróglio, quando notei que o ônibus virava todas as esquinas de São Cristóvão, fato que não ocorreu na minha viagem anterior no 265. Levantei-me, preocupado, fui até ao banco em que uma senhora dormitava e lhe indaguei se passaríamos pela Avenida Brasil, ela disse que sim. Respirei aliviado, mas por poucos segundos, pois passávamos agora, por uma rua por onde já estivemos, em cujo ponto entraram uns cinco passageiros.

-Estamos indo para o Centro? - perguntei a um deles.

-Não; para Marechal Hermes.

-Cacete! Nem o Botafogo, com a venda da sede, transferindo-se do Mourisco para esse bairro, me deixou mais abalado.

-Volte até Benfica e pegue um ônibus lá. - aconselhou-me o tal passageiro.

Eu não confiava mais em ônibus algum; saltei ali mesmo com a intenção de pegar um táxi. Todos passavam com passageiros e, para piorar, a rua (ou será avenida?) era muito larga, e muitos deles passavam por fora. Reparei, enquanto sinalizava, que, no posto de gasolina da esquina, um taxista espanava o seu carro; fui até ele e emendei duas perguntas, se ele ia sair e se podia me levar ao Centro. Depois de me informar que teria de apanhar a filha, apontou-me um táxi que estava parado no sinal. Corri até ele; disse-me que teria de dar um alô na oficina. Mal murchei pela segunda vez, ele me perguntou se eu poderia perder 10 minutos. Com a minha resposta afirmativa, franqueou a porta de trás do táxi, mas entrei pela frente.

Rapidamente, ele rumou para um rua empinada de São Cristóvão, no topo dela parou diante de uma oficina, me pediu para aguardar 5 minutos, mas reapareceu bem antes.

-Para onde vamos?

-Para a Rua da Assembleia quase esquina da Rio Branco saindo da Primeiro de Março.

Com as minhas informações, ele acessou o GPS.

-Ora viva! Já peguei táxi, ali por Maria da Graça, Cachambi, Meier em que tive de fazer o papel de GPS. – disse-lhe.

Depois da subida, o declive, até que entramos em uma rua que ladeava uma parte do estádio do Vasco.

Ele se revelou um flamenguista sem fanatismo (aquele dia estava sendo, mesmo, bem diferente para mim). Falei-lhe que via a estátua do almirante, quando ia, menino, à casa da minha avó na Rua General Padilha sem aludir a uma lenda da família, que o Ary Barroso, proibido de entrar no estádio de São Januário, transmitiu uma partida sobre o telhado do galinheiro da casa de uma das minhas tias-avós.

Agora, ele passava por dentro da Quinta da Boa Vista. Nos anos 70 e 80, eu vinha todos os sábados, com os amigos da Rua Chaves Pinheiro, jogar pelada, mas, ficou longe aquele frescor esverdeado do gramado, o que eu via era uma cor amarronzada de capim queimado. 

Eu estava entregue aos meus pensamentos, quando ele me apontou o GPS.

-Vou fazer uma pequena mudança na rota, por causa de uma retenção no trânsito mais adiante.

-Nessa hora, os carros estão todos na rua. – comentei.

-Eu trabalho mais da zona sul para o centro, lá, encontro mais passageiros.

E se pôs a matraquear sobre o Rio de Janeiro, que tem belezas naturais, apenas, que é feia, a arquitetura não é bonita.

Falei-lhe de algumas obras reconhecidas até internacionalmente.

-Eu quero dizer que, na parte urbana, não é bonita. O que o senhor acha?

-Bem, no início do século XX, o prefeito Pereira Passos criou a Avenida Rio Branco, influenciado pela Paris da Belle Époque.

-O senhor achou que foi bom?

-Sim; foram abaixo muitos cortiços que eram uma cultura de doenças, como a peste bubônica, para que a Rio Branco, na época, Avenida Central, saísse do papel.

-E a Avenida Presidente Vargas?

-Essa já foi no tempo do Getúlio Vargas, década de 40; até igrejas não escaparam da demolição.

-Mas não mexeram na Igreja da Candelária.

-Essa é do tempo em que o Brasil era colônia de Portugal, embora as outras devessem ser também.

-O que o senhor acha de os portugueses terem colonizado o Brasil? Sem esperar a minha resposta prosseguiu:

-Eu tenho um passageiro advogado, que afirma que a desgraça do Brasil foram os portugueses, que vieram para o Brasil só pelo ouro.

-Ora, em perigos e guerras esforçados, eles tinham de ter uma motivação para atravessar um oceano, arriscando a vida em toscas embarcações. Nos Estados Unidos não foi assim porque os puritanos fugiam das guerras religiosas na Inglaterra. Depois, foram para a América mais europeus com o objetivo de enriquecer. A natureza humana é esta.

-Mas você não acha, como esse advogado, que a nossa desgraça foram os portugueses.

-Não; falar mal deles é como falar mal dos nossos antepassados, que são os colonizadores que se estabeleceram no Brasil. Além do mais, eles levaram muito ouro, mas trouxeram, em troca, um idioma rico, uma bela arquitetura, as artes, enfim. Eles não pensaram duas vezes, e se misturaram com as índias, com as negras. Antes, de partirem para as grandes navegações, já havia sangue de árabes e judeus nas veias dos lusitanos.

-Por que, então, o Brasil não prospera, é por causa da corrupção?

-Corrupção existe em todos os países, embora tenham extrapolado, aqui, nos últimos anos. O Brasil não prospera por causa da impunidade.

-Mas estão punindo.

-Estão; é um grande avanço pôr os milionários na cadeia, mas faltam os políticos, aqueles que têm foro privilegiado.

 Percebi que ele parecia entusiasmado, até feliz; como se eu lhe tirasse o peso de pertencer a uma raça inferior que o tal advogado lhe pusera nas costas.

-São 34 reais, mas me dê 30. – disse-me quando chegamos.

-Dei-lhe os 30, afinal, quando saímos da rua da oficina, o taxímetro marcava 7 reais.

-Um ótimo dia.

-Um ótimo dia. - devolvi;

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

2941 - Ódio e Moléstia


 

---------------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5191                                  Data:  17  de setembro de 2015

---------------------------------------------

 

O GRANDE DITADOR

 

Durante uma fase da minha vida de leitor, eu era fascinado pelas crônicas de Pitigrilli. Meu pai trazia livros e mais livros, coletâneas de crônicas do escritor italiano, da biblioteca do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem e eu devorava tudo com os olhos, encantado com os temas abordados e a erudição com que ele os desenvolvia.

“Quem nasceu Pongetti nunca chega a Pitigrilli”, cantava Juca Chaves na canção em que diz “existe um só Beethoven pra mil Carlos Imperial”. Eu lia as crônicas do Pongetti, nas páginas do Globo e concordava inteiramente com o sarcástico menestrel, mais um admirador do cronista italiano.

Nas minhas visitas aos sebões, sempre que me deparava com uma obra sua, tratava de comprar e ler.

Um dia, soube que o ator Rodolfo Mayer, atuando no monólogo “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, em Buenos Aires, fala em psicanálise, e Pitigrilli, na plateia do teatro, contesta a ciência de Freud, transformando o monólogo em diálogo. O que fazia o italiano na capital da Argentina? Não me detive muito nessa questão, pensei mais no privilégio dos espectadores em assistir àquele espetáculo inesperado.

Então, veio o dia em que, lendo uma crônica sua, minha admiração ficou abalada; ele escrevia sobre o filme “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin. No seu texto, expressou a sua indignação com o gênio do cinema por ter caricaturado, ridicularizado, duas personalidades históricas que eram Hitler e Mussolini.  Que ducha de água fria! Como disseram, muito bem, o homem mais querido do mundo, Carlitos, em “O Grande Ditador”, representou o mais odiado, Hitler. Mas, para Pitigrilli, pseudônimo de Dino Segre, pelo que eu depreendia, o Carlitos não merecia tanto amor, nem Hitler, tanto ódio.

Mais tarde, veio-me a resposta da presença do escritor em Buenos Aires; ele lá se refugiou, depois de passar pela Suíça, quando os nazistas ocuparam a Itália; embora fosse católico, era tido como judeu, pelo lado paterno e casara como uma judia. Antes, Dino Segre foi informante da OVRA – Organizzazione  per la Vigilanza e la Repressione dell' Antifascismo – serviço secreto fascista – de onde foi demitido em 1939.

Meu irmão Claudio foi ainda mais admirador do que eu dos seus escritos literários e cita-o, muitas vezes; chegou a ler quase todos os seus romances, além dos seus “biscoitos” como Guimarães Rosa chamava as crônicas do Fernando Sabino, pedindo-lhe em troca pirâmides, obras de maior fôlego, ou seja, de mais páginas. Esses livros envelheceram – já não eram novos quando caíram nas nossas mãos – e não vêm sendo mais reeditados nesses últimos anos. Assim, meu irmão tem sofrido pressão da mulher para jogá-los fora, com outras velharias que “só ocupam espaço e acumulam cupins e bactérias”, mas ele se mantém ainda fiel ao autor, Quanto a mim, devolvi todos à biblioteca do DNER e os outros se perderam nas mudanças de residência.

Vida que segue com suas surpresas. Poucos dias atrás, eu me deparo com resenhas de livros sobre Hitler, no jornal “A Folha de São Paulo” e não há como eu não comentá-las.

No livro “História Bizarra da 2ª Guerra Mundial”, Otavio Cohen revela que Hitler assistiu a “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, no seu cinema particular (Stalin e outros governantes, ditadores ou não, tinham o seu cinema particular).  O assombroso é que ele viu o filme e gostou. O autor, para fazer essa afirmação, que nos deixa pasmos, se baseou em relatos de testemunhas e em registros revelados no Julgamento de Nuremberg.  Segundo eles, as cenas de que Hitler mais gostou foram aquelas referentes a Benzino Napoleoni (Benito Mussolini), principalmente quanto à sua baixa estatura.

E mais: Hitler viu o filme duas vezes, não mordeu o tapete – dizem que ele mordia o tapete, era um “teppichfresser” - quando tomado pela fúria. Riu ao ver Goebbels retratado como Garbitsch, Herring como Göring e ele mesmo como Hynkel.

Imaginamos que Hitler viu e reviu o filme no período da guerra em que os nazistas venciam todas as batalhas, quando tudo era um mar de rosas para ele e um mar de sangue para os seus inimigos.

Evidentemente que o gosto do ditador não impediu que Charles Chaplin fosse considerado inimigo da Alemanha e “O Grande Ditador” fosse terminantemente proibido de entrar em cartaz nos países ocupados pelos nazistas; aliás, em alguns estados americanos, onde o ódio ao comunismo era mais exacerbado, a fita de Charles Chaplin foi também proibida, sendo apenas permitida quando os Estados Unidos entraram na guerra depois do ataque a Pearl Harbor.

Conta o livro de Otavio Cohen que alguns soldados alemães, que ocupavam Belgrado, na antiga Iugoslávia, conseguiram assistir a “O Grande Ditador”, na clandestinidade - “um momento de lazer proporcionado por um jovem cabo iugoslavo que trabalhava uma distribuidora de filmes”.  Ele enviara a película para o setor de entretenimento do exército nazista sob um nome falso, e “se divertiu com a história quando soube que o seu plano tinha dado certo.” Todos, acreditamos, devem ter se divertido muito.

Hitler era fascinado pelo Mickey Mouse, isso não é de pasmar ninguém que conhece um pouco a história dessa tenebrosa figura. Algum leitor malicioso deste periódico pode lembrar que o Dieckmann também é, não deixando de publicar semanalmente, na sua página do Facebook, histórias do Mickey Mouse acompanhadas de suas análises. Mas a comparação entre os dois fãs do mais famoso personagem do Walt Disney não se sustenta, pois Dieckmann, menino, era de chorar copiosamente com a morte da mãe do Bambi, enquanto Hitler, menino, era de queimar a floresta para torrar não só a mãe do Bambi como todos os veadinhos que nela estivessem.

“Mein Kampf”, Minha Luta, apesar de eu ter frequentado quase diariamente, nas décadas de 80 e 90, os sebões do Centro da cidade, nunca me deparei com esse livro. Explicaram-me que tão logo um judeu vê esse livro exposto, trata de comprá-lo para que não circule entre as pessoas. Novas edições, nunca soube de nenhuma. Evidentemente que eu o leria, assim como todos que nutrem interesse pela história.

Sei de trechos de “Mein Kampf”, por caminhos oblíquos. Dessas resenhas da Folha de São Paulo a que me referi antes, soube que Hitler escreveu um capítulo sobre a sífilis.

Há referências ao diário do médico favorito do Fuhrer, o Dr. Theodor Morell, em que se diz que Hitler sofria dessa doença, contraída no bairro da luz vermelha, onde se localizavam os prostíbulos de Viena. A obsessão dos últimos anos do ditador era um sintoma da doença, além dos batimentos irregulares do coração proveniente de uma aortite sifilítica. Outros sintomas da sífilis são arrolados pelo médico: encefalites, tonturas, flatulências, pústulas no pescoço, dores no peito, dores no estômago e paralisias.

Com a saída do Dr. Theodor Morell da equipe, em 1944, entraram em cena outros médicos e ele queimou o seu diário. Capturado pelos aliados, ele não foi a julgamento. Morreu em 1948, mas narrou trechos do seu diário que guardara na memória.

Bem, já falamos de muita coisa ruim. O melhor, agora, é rever “O Grande Ditador” para espairecer.

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

2940 - consolo didático


--------------------------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5190                               Data:  15  de setembro de 2015

------------------------------------------

 

NA  ACADEMIA DA TERCEIRA IDADE

 

Talvez seja o nome... Se, no cartaz da Praça Manet, estivesse escrito Academia da Segunda Idade, ou mesmo Primeira, os idosos apareceriam para se exercitar. Já escrevemos duas vezes, neste periódico, que a nossa companhia, naqueles aparelhos de ginástica, foram crianças que, confundindo as coisas, fazem da academia um play-ground, um local para brincar.

Mas a partir de duas semanas para cá, apareceu um idoso; ou melhor, uma idosa de uns 80 anos, um pouco gorda, de estatura mediana. Eram 5h 30min da manhã de um dia de trabalho, eu passei por lá, em direção ao metrô, quando notei essa senhora.  Ela usava um chapéu de abas largas com florezinhas, que despertaria atenção até no Jockey Clube em dia de Grande Prêmio Brasil; vestia uma blusa larga de cores espalhafatosas enfiada numa calça escura com as bainhas cobertas por um meião branco; e calçava tênis de cor de rosa. Como se fosse às compras, carregava uma bolsa de tira.

De onde ela saiu?... Talvez de um filme de Fellini, pois o cineasta italiano costumava deter a sua câmera nos tipos bizarros que encontrava espalhados pela Itália.

Imaginei que ela fosse dessas pessoas que são iguais a cometas; aparecem uma vez e só voltam a surgir muito tempo depois, mas não. No dia seguinte, quando fui para o trabalho, lá estava ela de novo. Ela se meteu no simulador de caminhada e movia cada perna vagarosamente.

No sábado, dia das minhas caminhadas madrugadoras, eu só pensava em não ficar encharcado com a chuva, por isso, depois de vestir bermuda, camisa e pôr o tênis, tratei de me cobrir com uma capa de plástico, com capuz, que chegava às minhas canelas.

O relógio digital marcava 5h 30 min da manhã, a hora insistente como “A las cinco de la tarde” do poema de Frederico Garcia-Lorca. Abri a porta do prédio e saí encapuzado, pois chovia mais do que eu imaginara dentro de casa.

Não havia, naquelas circunstâncias, melhor lugar para se exercitar do que a quadra de vôlei e basquete, que recebeu uma cobertura em setembro do ano passado, ou seja, um mês antes das eleições. Rumei para lá, protegendo a lente dos meus olhos dos pingos d' água com o capuz, e quem encontro?...  Depois de tantas palavras escritas, a minha pergunta só pode ser retórica. Além de ela estar com a vestimenta dos dias anteriores, trazia um guarda-chuva, agora fechado, mas que impediu de ela se molhar no trajeto até lá. Reconheci que eu, vestido como estava, naquela hora, no meio daquele toró, também parecia uma das figuras bizarras dos filmes de Fellini.

A senhora evitou qualquer contato visual comigo, por isso, eu nada lhe disse; meu bom-dia ficaria perdido no ar. A minha presença a melindrou, pois pegou a sua bolsa, que estava pendurada no portão entreaberto da quadra, o seu guarda-chuva comprido e se afastou. Foi sentar-se à mesa de alvenaria ao lado do quiosque “A Fofoca da Madrugada”, onde estava, também, abrigada da chuvarada.

Fechei, então, o portão da quadra para não ter de me desviar a cada giro que eu completasse da minha caminhada. E assim, os minutos se passaram sem que ela, em momento algum, atentasse para mim, apesar da proximidade. A sua preocupação eram os pingos d' água; em alguns momentos, se levantava, esticava o braço para fora do abrigo e voltava para o seu lugar. Quando deu uma estiagem, ela apanhou a sua bolsa, o seu guarda-chuva fechado e foi até a Academia da Terceira Idade. Lá, meteu-se no simulador de caminhada e exercitou as pernas muito lentamente. Voltou a chuva e ela se abrigou novamente no lugar de antes.

Eu caminhava sem maldizer aquela capa por dificultar os meus movimentos, pois ela mitigava a friagem mais do que as minhas passadas, que não eram tão impetuosas como nos velhos tempos. Para quebrar a monotonia, os meus giros eram ora destrógeros (para a direita), ora sinistrógeros (para a esquerda).

Faltando quase 10 minutos para eu chegar ao tempo que eu estabeleci para essa atividade a chuva estancou. A senhora retornou ao simulador de caminhada, onde simulava tanto que quase não movia as pernas. Não ficou três minutos e passou para um aparelho elaborado para fortalecer os músculos posteriores da coxa que mal se mexiam com ela sentada nele. A rigor, a sua ginástica foi sair de casa a pé até a Praça Manet e voltar.

Parei a minha caminhada e fui até aqueles aparelhos para exercitar um pouco os braços. Mal pisei o chão da Academia da Terceira Idade, ela pegou o guarda-chuva, sobraçou a bolsa e se afastou.

Será que eu, com essa capa de plástico branca e encapuzado, estou, assim, tão assustador?

Dois dias depois, fui, pouco depois das 4 da tarde, para a academia com a pretensão de brigar, por 30 minutos, com o tempo, que, sem cansar debilita os meus músculos. Ela não estava lá, é madrugadora; aliás, não havia ninguém lá, quando cheguei.

Uma voz vinda atrás de mim, precisamente dos bancos de alvenaria da pracinha me saudou; era o Orlando, o meu vizinho estressado. Respondi sem me virar, pois movimentava o meu corpo em um negócio que chamam de simulador de esqui. Passaram uns 10 minutos, quando dois garotos, de uns 12 anos de idade, vindos da Escola Manoel Bomfim, correram até o simulador de caminhada e o transformaram em balanço de parque de diversão, fazendo um vaivém com as duas pernas unidas. Nada que trouxesse danos, mas o Orlando, que descansava o seu corpo pesado, não pensou assim e reclamou. Um dos garotos, sem parar o que fazia, criticou o seu colega do lado, dizendo que era desatencioso com os mais velhos, que desobedecia até os pais. Orlando percebeu o deboche e gritou que, com ele, não havia essa história de dimenor; enfiava a mão na cara.

Os pestinhas se afastaram, mas sem demonstrar temor; viram que o meu vizinho estressado era muito gordo e capengava muito por causa de um joelho estropiado.

Logo os dois retornaram para brincarem com outros aparelhos. Orlando voltou à carga:

-Não sabem ler?

Um deles, o debochado, respondeu que sim.

-O que está escrito naquele cartaz?

-Não sei.

-Academia da Terceira Idade. Isto aqui é só para idosos, para quem está com mais de 65 anos.

-Quantos anos você tem?- indagou o outro garoto.

-65.

-Eu pensei que tivesse 100.

Orlando se levantou furioso, com a mão espalmada e foi em direção deles, que correram. Era como a corrida entre Aquiles e a tartaruga, e não havia paradoxo grego que desse alguma chance à tartaruga.

-Você viu, Carlos, como são esses, moleques?

-Console-se com as professoras, Orlando, que os aturam de segunda à sexta por 4 horas diárias.·.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

2939 - o dia do FGTS


------------------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5189                                  Data:  14  de setembro de 2015

--------------------------------------------------

 

O DIA 13 DE SETEMBRO NO RÁDIO MEMÓRIA

 

Aproveitando que o cantor do repertório do Orlando Silva, José Guilherme, convidado do Rádio Memória, parou para respirar, Sérgio Fortes entrou com o calendário de 13 de setembro.

-Coloquei como primeiro evento de 13 de setembro o ano de 604. Pus aqui porque sei que estou diante de três autoridades nesse tema: Peter, José Guilherme e o Jonas, que já deve ter escrito a biografia dele. Falo da eleição do Papa Sabiniano em 604.

-Já li vários livros dele. - entrou o Jonas Vieira no espírito da coisa.

-Peter é ligadíssimo na obra do Papa Sabiniano. - insistiu o Sérgio Fortes em não dar sossego ao operador de áudio.

-Ai da igreja se não houvesse o Papa Sabiniano!- bradou o Jonas Vieira.

-No próximo programa, nós falaremos com mais vagar no Papa Sabiniano. Hoje não dá porque o nosso convidado vai mostrar o seu disco.

Falando sério, agora. Procurado pela nossa reportagem, Dieckmann, amigo de longa data do Sérgio Fortes, nos revelou que o sonho do Sérgio era se formar em Teologia, não em Economia e tirar o título do doutor com uma tese sobre o mencionado papa.

-Em 1500, a expedição de Pedro Álvares Cabral chega a Calecute, após descobrir o Brasil.

A intenção primordial era erigir uma feitoria para o comércio de especiarias em Calecute. Aproveitando a oportunidade, tomaram posse do Brasil.

-Em 1966... Isto é importante, Jonas: termina a estabilidade no emprego com dez anos e é criado o FGTS. Essas questões de emprego são danadas. Isso rola... Meus Deus!

Antes, com a estabilidade decenal, os trabalhadores eram demitidos antes de completarem o decênio, ou não recebiam a indenização que lhes era devida e eram obrigados a reclamar seu direito na justiça. Os socialistas brasileiros sentem urticária quando ouvem o nome do Roberto Campos, mas adoram o FGTS que foi criado na gestão dele, no Ministério do Planejamento, com a assessoria informal do Mário Henrique Simonsen, outro nome que provoca urticária nos “suspeitos de sempre”.

Dos eventos históricos, o Homem-Calendário saltou para os nascimentos no dia 13 de setembro.

-Em 1739, nascia Grigori Potemkin, estadista russo. Eu coloquei aqui pelo seguinte...

-Por causa do filme? - tentou o Jonas Vieira adivinhar.

-Porque além de encouraçado, ele também é estadista.

Encouraçado, estadista e, segundo os fofoqueiros da época, amante da Czarina Catarina II, a Grande.

-Em 1819, nascia Clara Schumann, pianista, mulher do grande Robert Schumann.

Segundo os fofoqueiros wagnerianos, ela foi amante de Brahms. Havia uma grande rivalidade entre os seguidores da música de Brahms e da de Wagner. Ao que tudo indica, eles foram amigos, apesar da paixão de Brahms por ela, nada além disso. Enquanto Clara Schumann viveu, sendo a pianista mais requisitada do mundo musical, divulgou a música do seu marido, que sofreu de uma doença nervosa.

-Em 1874, nasce um compositor que não é da minha enfermaria, mas é muito importante: Arnold Schoenberg, músico austríaco.

Falando em Brahms, Arnold Shoenberg, criador do dodecafonismo, mostrou o que havia de moderno nas obras do compositor que era tachado de fazer música ultrapassada. Depois disso, o crítico implacável, Bernard Shaw, reconheceu que um dos maiores erros da sua vida foi desdenhar as maravilhosas obras de Brahms.

-Em 1885... Essa é da enfermaria do José Guilherme (o convidado orlandófilo)... nascia Wilhelm Blaschke, o inventor da topologia diferencial.

-Caramba! - abismou-se o Jonas Vieira com o que lhe soava como parente do cálculo diferencial.

-A gente não vive sem a topologia diferencial. Eu, sem a topologia diferencial, não pego nem ônibus. - confessou o Sérgio Fortes.

-Em 1903, nascia Claudette Colbert, atriz norte-americana. (*)

Em seguida, voltou-se para o Jonas Vieira.

-Ela foi mulher do Charles Chaplin?

Jonas Vieira confundiu a Claudette Colbert com a Paulette Goddard e respondeu afirmativamente. Um dos maiores compositores da história americana, George Gershwin, era apaixonado pela Paulette Goddard, mas ela preferiu Charles Chaplin, cuja genialidade abrangia várias matérias, inclusive a música, mas sem o talento, é claro, do autor da ópera “Porgy and Bess”.

-Houve alguém na época que não foi mulher de Charles Chaplin? - indagou o Sérgio Fortes.

Ele foi casado com Mildred Harris de 1918 a 1920; com Lita Grey de 1924 a 1928; com Paulette Goddard de 1936 a 1942; e, finalmente, com Oona O' Neill de 1943 a 1977. De 1918 até a sua morte, Charles Chaplin viveu 12 anos sem ser casado.

No seu livro de memórias “Minha Vida”, Charles Chaplin escreveu que nada tinha de atleta sexual como muitos imaginavam.

-Jonas, eu vou falar no nome de uma cantora que nasceu em 1922, mas que ninguém sabe mais quem é, e ela foi importante. Na casa dos meus avós, havia discos e mais discos dela: Yma Sumac. Lembra, Jonas?

Depois da resposta afirmativa do titular do programa Rádio Memória, o Homem-Calendário prosseguiu:

-Em 1924, nascia Maurice Jarre, compositor francês.

-Em 1925, nascia um cantor que é o cantor dos cantores. Quem canta, adora, diz que, comparado com ele Frank Sinatra é fraquinho, Tony Bennett também.

Depois dessa fanfarra, concluiu:

-Mel Tormé, cantor norte-americano.

Sérgio Fortes citou Frank Sinatra, Tony Bennett, mas, temendo a reação do Jonas Vieira, não ousou citar o Orlando Silva.

-Mel Tormé foi um grande cantor, um belo cantor, sou fãzoco dele. - revelou o Jonas Vieira.

-Em 1927, Laura Cardoso, atriz brasileira.

-Em 1929, nascia outro imenso cantor, um baixo búlgaro: Nicolai Ghiaurov.

-Em 1939, o grande Richard Kiel, ator deslumbrante.

-Em 1940, o escritor Antonio Torres.

-Em 1944, Jacqueline Bisset, atriz... aqui está britânica. Eu não sabia, para mim era francesa.

Nós, do Biscoito Molhado, tínhamos o mesmo pensamento, mas soubemos agora, pelo Google, que a sua mãe era francesa, o que explica o sobrenome da atriz.

O Homem-Calendário não dedicou muito tempo aos falecimentos.

-Em 1977, morre o maestro Leopold Stokowski.

-Em 1998... Lembra-se, Jonas, daquele político americano muito controverso, George Wallace?

-George Wallace?... lembro-me.

-Ele se meteu em questões racistas, em confusões danadas.

Sérgio Fortes não se referiu ao atentado que ele, ex-governador do Alabama, candidato à presidência da República, sofreu, deixando-o paralítico.

-13 de setembro é uma data muito importante para todos os presentes aqui, no programa Rádio Memória: é o Dia Nacional da Cachaça.

Brindemos todos.

-Olha só! E você pensa que cachaça é água?- aproveitou o Jonas Vieira para cantarolar a marchinha de carnaval.

Depois de ser citado o santo do dia: São Crisóstomo, o calendário chegava ao fim.

 

(*) O Biscoito está certo. A moça nasceu na França, mas se criou em Nova Iorque. Mas que o Distribuidor desconfiou, desconfiou.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

2938 - de médico e louco, todo mundo tem um pouco


----------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5188                                  Data:  13  de setembro de 2015

-----------------------------------------

 

CARTAS DOS LEITORES

 

-Li palavra por palavra a entrevista que a primeira governante (ou será governanta?) do Brasil concedeu ao signatário do Biscoito Molhado, refiro-me a Rainha Maria I, a Louca. Ficou-me uma dúvida: Que fortuna foi essa que o médico do Rei George III da Inglaterra, que curou o monarca da loucura, pediu à corte portuguesa, para a “Doida” falar em aumentar os impostos? Pedro

BM: Constatada a loucura da rainha, Portugal enviou um ministro à Inglaterra para trazer o Doutor Francis Willis, cuja fama atravessou o Canal da Mancha depois que ele recuperou a saúde mental do rei, que retornou ao trono. O galeno cobrou dos portugueses 10 mil libras na mão, mais mil libras mensais, carruagem, viagem de ida e volta à Inglaterra gratuita e uma mesa farta. Ou seja, ele ia curar uma pessoa, mas enlouquecer uma multidão de contribuintes com o aumento nos impostos, com repercussão aqui, no Brasil, que já pagava o quinto dos infernos. Apesar de todas essas exigências de prima-dona de ópera, no passado, de rock, no presente, o ministro português aceitou. Ele embarcou no ano 1792, em Falmouth, com destino a Lisboa no paquete Hanover.  O Doutor Francis Willis ficou alojado no palácio das Necessidades. Ele chegou em março e partiu de volta para o seu país, indignado com os escrúpulos dos cortesãos portugueses que lhe impediam de pôr em prática o tratamento prescrito além de o impedirem de levar a rainha para a Inglaterra, onde ela se afastaria, pelo menos fisicamente, dos fantasmas que a rodeavam. 

 

-Pelo que sei, a Rainha Maria I teve de ser carregada à força para o navio que a levaria para o Brasil, quando as tropas de Napoleão invadiram Portugal. Sua reação não teria sido remorsos por ela ter ordenado o enforcamento de Tiradentes, posteriormente esquartejado e salgado? Miguel

BM: Se ela relutou em viajar para a Inglaterra, imagino o trabalho que deu para entrar na embarcação rumo ao Brasil. Quanto à sua ordem de executar Tiradentes... bem, ele foi enforcado em 1792 e ela aqui chegou em 1808, ou seja, 16 anos depois.

Disse o humorista Ivan Lessa: “A cada quinze anos, o brasileiro esquece os últimos quinze anos” e, como o Brasil está ficando mais velho, sua memória fraquejando, parece que de quatro em quatro anos ele já está esquecendo tudo.

Quanto à Maria I no Brasil, caso ela se candidatasse a presidenta, seria capaz de ser eleita. Mas essa hipótese é absurda, não porque fosse doida, mas porque a República seria implantada no Brasil quase um século depois.

 

-“O distribuidor do seu Biscoito Molhado custou a se recuperar, ao tomar conhecimento desta suposta ruptura equatoriana. É sabido que os vórtices do tipo ralo de banheira giram destrógiros em um hemisfério e sinistrógiros, no outro. Além disso, as constelações são outras, mas parece que não passa disso.” Dieckmann.

BM: O nosso querido Dieckmann custou a se recuperar porque nós escrevemos em português, ou tentamos e ele entendeu em dilmês.

Para que o leitor se situe dentro desse imbróglio todo, trata-se do Biscoito Molhado que aludiu ao calendário do dia 6 de setembro. Nele, é dito que no ano 1522, o navegador Sebastian Elcano, com outros dezesseis espanhóis, completou a volta ao globo no sentido contrário à rotação. Daí, foi feito o seguinte comentário em tom galhofeiro: “Não sou entendido em rotação, discos de vitrola à parte, mas, no hemisfério norte, a rotação é uma e, no sul, outra.”

Em momento algum, foi dito que a rotação da terra no hemisfério norte é para a esquerda, e a do hemisfério sul para a direita, ou vice-versa; coisa só possível de ser lida, ou ouvida, em dilmês, ou, possivelmente, em lulês.

Nós nos lembramos, na feitura desse comentário, de um desenho dos Simpsons a que assistimos alguns anos atrás.  Nele, Lisa, a menina inteligente da família, afirmou que a água do ralo, nos Estados Unidos, gira num sentido, enquanto na Austrália gira em sentido contrário. O seu irmão Bart duvidou e, depois de dar a descarga na privada e observar em que sentido girava a água, telefonou de Springfield para um garoto em Sidney e pediu para ele dar a descarga na privada e lhe dizer em que sentido a água girava. Enquanto o menino australiano fazia o que lhe foi pedido, Bart viu passando, pela janela, Milhouse, o seu melhor amigo e correu atrás dele, deixando o telefone ligado. Quando a conta telefônica chegou, Homer Simpson enlouqueceu e a família teve de viajar para a Austrália, mas isso é outra história.

Mas a carta do Dieckmann, em forma de asterisco, foi válida, porque nós não tínhamos a mínima ideia que, nesse desenho de “Os Simpsons”, estavam envolvidos os destrógeros e os sinistrógeros.

 

 

-“O von Braun era especialista, em foguetes, não em bombas, fossem atômicas, ou polvorentas. Não que isto seja uma atenuante, pois ao habitantes de Londres pouco interessaria saber se as V-1 ou V-2 eram devidas a especialistas em explosivos, ou em balística, trata-se apenas de colocar o pingo no i certo. Ou, como diria o próprio redator do Biscoito Molhado, a Pascal o que era de Pascal e a Voltaire o que era de Voltaire.”  Dieckmann

BM: Dieckmann se reporta aqui ao seguinte comentário feito numa das sessões do Sabadoido: “Ainda bem que os americanos chegaram à bomba atômica primeiro que os alemães, se não... Cientistas, os nazistas tinham, mas faltavam recursos, eles até escassearam para a fabricação das bombas do Werner von Braun.”

Bem, o redator deste periódico não é versado em bombas, nem mesmo cabeça de negro (cabeça afrodescendente, o politicamente correto exige) e muito menos em balística. Lemos em mil publicações e ouvimos em mil documentários os foguetes V1 e V2 sendo chamado de bombas voadoras, que nos limitamos a repetir.

Depois de leituras mais atentas, descobrimos que Werner von Braun criou o míssil e, levado para os Estados Unidos, foi um dos expoentes na criação de foguetes para viagens espaciais. Como escreveu o nosso missivista, o negócio dele era balística, não, bombas. Por outro lado, Oppenheimer, americano filho de alemães judeus, sim, dirigiu o Projeto Manhattan, que desenvolveu as primeiras bombas atômicas. Assim sendo, a Werner von Braun o que era de Werner von Braun, e a Robert Oppenheimer o que era de Robert Oppenheimer.

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

2937 - as loucuras de um biscoito real


 

------------------------------------------------------

O BISCOITO MOLHADO

Edição 5187                                  Data:  12  de setembro de 2015

---------------------------------------------------

 

123ª VISITA À MINHA CASA

 

-Maria I, a !... – por pouco não disse “Louca”, freei minha língua a tempo.

-De novo no Brasil.- disse sem entusiasmo algum.

-Quem não gostou muito de vir para cá foi a sua nora.

-A Carlota Joaquina?!... Por questões políticas, tive de aceitar seu casamento com o meu filho João. Eu não gostava daquela espanhola, que deveria ser temente a Deus.

-Aqui, um prefeito doi... de novo não falei o adjetivo, para não melindrá-la e voltei ao início:

-Aqui, um prefeito deu o nome dela a um túnel. Se era para homenagear uma rainha, por que não a senhora?

-Esqueceram que, antes de ser rainha, eu ostentava o título de Princesa do Brasil.

-A senhora foi a única rainha de Portugal que empunhou o cetro e governou por si própria.

-No meu país, não havia esse código inventado pelos franceses, a Lei Sálica, que impedia uma mulher de governar.

-O meu pai não teve um só filho homem; assim, vendo que eu o sucederia, pensou em um marido português para mim e escolheu seu irmão, dom Pedro.

-Você se casou com seu tio?... – não contive o meu estranhamento.

-Eu e o Príncipe Dom Pedro nos demos muito bem. Foram três os nossos filhos: José, o meu preferido, que morreu desgraçadamente; João, que vocês brasileiros também conhecem muito, e Mariana Vitória, que viria a se casar com o infante de Espanha, Dom Gabriel.

Com o seu pai, Dom José I, como rei, o Marquês de Pombal foi uma espécie de Cardeal Richelieu, de França: possuía um poder incomensurável.

-Eu e o meu marido o odiávamos. Como poderíamos gostar de uma criatura que lia Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Diderot, esses hereges todos? Mas meu querido pai não enxergava a maldade deste mundo.

-Tanto você como o príncipe Dom Pedro...

-Também príncipe do Brasil. – fez questão de ressaltar.

-Sim, vocês dois, os príncipes do Brasil, não engoliam o Marquês de Pombal. E ele percebia isso.

-Evidentemente que sim; o diabo o alertava de tudo. Ele, sabendo que, morrendo meu pai e eu subindo ao trono, acabaria com a influência do demônio em Portugal, tentou introduzir a Lei Sálica para que o neto do rei o sucedesse como Dom José II, colocando-me fora da sucessão.

-O seu filho primogênito, que morreu ainda novo?

Confirmou com um balançar brusco de cabeça.

-Sabendo dessa intenção, o Marquês de Pombal caiu em desgraça com a senhora.

-Não foi só isso; ele perseguiu os jesuítas...

-Sim; expulsou-os do Brasil.

-Não me interrompa. - mostrou o seu mau gênio.

Ouvi como um obediente súdito e ela prosseguiu:

-Ele foi um diabólico adversário da cúria romana, reformador dos conventos. Foi uma peste que provocou a ira de Deus e nos trouxe o terrível terremoto de Lisboa.

-O terremoto foi tão devastador que seu pai escreveu para a irmã, Bárbara de Bragança, que era um rei sem reino num país sem capital.

-Castigo dos céus! – bradou.

-Enquanto isso, o Marquês de Pombal dizia: “Sepultemos os mortos e cuidemos dos vivos.

-Frase típica de um herege, que falou como se tudo acabasse com a morte. Temos, sim, de cuidar também dos mortos.

-Dom José I faleceu em 1777 e a senhora o sucedeu. Acabava, assim, o poder do Marquês de Pombal.

-Ele não esperou mais do que uma semana para deixar de ser ministro e receber ordens para recolher-se à sua casa de Pombal.

-Voltou ao pombal. - não resisti à piada que a rainha, como o seu mau humor encruado, não percebeu.

-Devolvi, em seguida, a liberdade aos seus opositores, por ele encarcerados.

Certamente, o revanchismo não parou por aí. - pensei sem me manifestar.

-Parentes e amigos do Marquês tiveram de se explicar, de provar que não traziam o satanismo do mentor. O seu medalhão do monumento do Terreiro do Paço foi arrancado por ordem minha.

-Não pararam por aí.

-Ele teve de responder a um processo e dois desembargadores o submetiam a interrogatórios sem tréguas.

-Mas o Marquês de Pombal, um estadista, já era um senhor combalido. - penalizei-me.

-Ele quebrou Portugal por três vezes.

No momento, não entendi nada; a compreensão viria depois.

 -Frei Inácio de São Caetano, grande teólogo, arcebispo de Tessalónica, meu confessor, me convenceu que o Marquês de Pombal já pagara por seus pecados. O procurador da coroa, Pereira Ramos, afirmava o mesmo, mas muitas pessoas, chegadas a mim, diziam que não, que o Marquês ainda tinha muito a purgar. Eu fiquei indecisa, mas segui o pedido do Frei Inácio, embora não estivesse convencida. Eu sentia, ainda, que não levava até o fim a justiça de Deus contra ele.

-Mas a senhora mesmo disse que o seu confessor era um grande teólogo.

-Sim; mas eu não estava convencida. Se eu não o torturasse como a justiça divina exigia, eu não me perdoaria.

-Dona Maria I, apesar de eu não ter estudado muito a História de Portugal, sei que os dois, Pereira Ramos e o Arcebispo lhe deram bons conselhos para gerir bem o seu reino. Assim, viagens e explorações científicas às colônias foram bem sucedidas, que trabalhos geodésicos foram realizados, que a esquadra da Marinha Portuguesa se desenvolveu notavelmente.

-Para mim, o mais importante foi edificar a basílica do Coração de Jesus, que doei às freiras carmelitas e de ter fundado a Igreja da Memória, na Ajuda, onde os Távora atentaram contra a vida do meu pai no ano do terremoto de Lisboa.

-Os céus se acalmaram. - disse com o pensamento nas tragédias da natureza de que Portugal se livrara, mas ela não entendeu assim.

-Meu confessor morreu, pouco depois, a minha mãe Dona Mariana Vitória, depois, o meu querido marido Dom Pedro. O meu primogênito sofreu um ataque de bexigas, rezei diuturnamente, ele escapou da terrível doença, mas cinco anos depois, meu amado filho morria. O meu coração não aguentava tanto sofrimento.

 -E o seu novo confessor?

-O bispo de Algarves?... Ele não tranquilizava a minha alma como o bispo de Tessalónica, pelo contrário, sempre que ele me falava, eu me sentia ainda pior, mais atormentada. Ele queria que eu reabilitasse os Távora, a família que atentou contra a vida do rei, do meu pai. Eu não poderia fazer isso.

Depois de uma pausa, quando respirou fundo, prosseguiu:

Uma vez, pedi que levassem até as crianças, elas me acalmariam, pois é delas o reino dos céus como diz os evangelhos. Juntaram algumas delas e eu falei para que me ouvissem.

-Desculpe-me a curiosidade; o que disse para elas?

-O Dia das crianças é o dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, que é algo muito importante.

-O contato com a meninada a acalmou?

-Nada; eu era importunada pelos lusitanos que citavam “Os Lusíadas” e me pediam para levar Portugal à época da prosperidade das grandes navegações.

-O que a senhora lhes disse:

-Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.

-Entendo. - disse-lhe.

-Uma vez, saindo do teatro, senti-me mal; os médicos fizeram sangria. Escreveram para Londres pedindo os serviços do Dr. Willis, o médico que curou a loucura do Rei George III, da Inglaterra. Ele pediu uma fortuna para ser o meu médico, isso não seria problema: bastava-me aumentar os impostos. Que tratasse das minhas constipações, porque doida eu não estava.

-Certamente que não, rainha.

-Louca eu fiquei quando me obrigaram a entrar num navio e vir para o Brasil, porque um sujeito ateu da França ateia, de nome Napoleão Bonaparte, invadiu Portugal.

-E do que a senhora se recorda da sua estada no Brasil, rainha?

-De poucas coisas. Lembro que eu sempre saía à rua acompanhada de muitas aias, e o populacho nos apontavam dizendo: “Maria vai com as outras”.

-Recorda-se do nome de algumas dessas outras?

-Ideli, Gleisi, Jandira, Maria do Rosário...

Nesse instante, soaram as badaladas do relógio e Maria I, a Louca, partiu repentinamente.

 

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

2936 - enquanto isso, numa colônia portuguesa...



 


 


-------------------------------------------------------------


O BISCOITO MOLHADO


Edição 5186                                  Data:  10  de setembro de 2015


------------------------------------------------------


 


122ª VISITA À MINHA CASA


 


-Alexander Hamilton, os seus feitos de fundador dos Estados Unidos da América estão sendo lembrados com extraordinário sucesso na Broadway, mais de 200 mil ingressos vendidos por antecipação e você aparece aqui, em Del Castilho, na minha casa!...


-Bem, houve mais fundadores e não foram só eu. George Washington, Benjamin Franklin, John Adams...


-Sim, mas o fundador da economia dos Estados Unidos, quem deu a feição do capitalismo americano, foi você.


-Talvez. - evitou a autopromoção; havia muitos para fazê-la.


-Por que não está em Nova York, assistindo ao musical que conta a sua história?


-Lá estive por diversas vezes na plateia e nos bastidores; não perceberam a minha presença.


-A atriz brasileira, Fernanda Torres, escreveu uma crônica em que garantiu que, ao atuar no monólogo “A Casa dos Budas Ditosos”, o autor, já morto, João Ubaldo Ribeiro ocupava uma cadeira na coxia direita que, soube ela depois pela produtora da peça, seria o lugar dele.


-No meu caso, a música da Broadway me saturou, prefiro música erudita; assisti a duas apresentações e saí de lá.


-O musical foi visto pelo ex-presidente Bill Clinton e pelo presidente Barack Obama. E pensar que você tinha tudo para ser Presidente dos Estados Unidos se não fosse aquela tragédia...


-Sem falsa modéstia; creio que chegaria, mesmo, ao poder máximo nos Estados Unidos.


-Alexander Hamilton, você é um dos maiores casos de superação que se conhece na história; nasceu nas Antilhas, na Ilha de Nevis, criado na Ilha de São Cristóvão...


-Eu estava perto de onde chegou Cristóvão Colombo e longe de onde desembarcaram do Mayflower os pioneiros puritanos. - comentou com um sorriso.


-Você era filho... - titubeei.


-Filho de um mascate escocês com uma prostituta francesa, pode dizer que é a verdade. Eu não teria chance de subir na Europa aristocrática, mas no Novo Mundo sim, apesar dos preconceitos.


-Tinha chances porque trabalhou muito.


-Comecei pirralho, com 11 anos, eu era balconista de uma empresa de contabilidade. Eu não só trabalhava muito, como estudava, mesmo sozinho; estudei Matemática, História e Ciências Naturais.


-Você já havia partido da América Central?


-Em 1772, eu já vivia em Nova York, saindo da pequena ilha de Saint Cox, nas Ilhas Ocidentais inglesas. Lá, passei a escrever ensaios que difundiam ideias sobre a necessidade de a América deixar de ser colônia da Inglaterra.


 -Pelo que li, sobre essa peça da Broadway, você escreveu um poema que alcançou um sucesso inesperado, que atravessou fronteiras. Deram-lhe, então, uma bolsa de estudos e você não desiludiu seus benfeitores.


-Eu também escrevia poemas, mas o meu forte eram os textos em prosa. Com 17 anos de idade, eu escrevia panfletos e fazia comícios nos lugares públicos de Nova York açulando o povo contra o rei.


-Na América, você caiu no meio do caldeirão político?


-Entrei no meio da agitação revolucionária. Os colonos americanos estavam indignados com a metrópole. Homens de Boston, disfarçados de índios, invadiram três navios ingleses e jogaram ao mar cargas inteiras de chá de uma companhia inglesa, em repúdio à taxação. A cidade foi, por isso, punida pelo rei George III com uma quarentena.


-Isso em 1773?


-Sim; e eu havia chegado um ano antes.


-Você estudou Direito?


-Estudei Direito no King's College, que, depois, receberia o nome de Universidade de Columbia.


-Quando a guerra da independência estourou, você entrou, sem perda de tempo, para a vida militar?


-A guerra veio em 1775 e eu me apresentei como voluntário na milícia de Nova York para pôr-me frente à  frente com os soldados de George III.


-O líder dos revolucionários, George Washington, estava acampado em Nova York?


-Sim, eu era capitão de uma companhia de artilharia e atraí a atenção de George Washington, que me quis como ajudante de campo e seu secretário particular. Ele me promoveu ao posto de tenente-coronel.


-Encontrou tempo, ainda assim, para estudar?


-Sim, em 1782, quando a guerra de independência persistia, eu terminei o curso de Direito.


-Você atuou na histórica Convenção de Filadélfia, de 1787, que resultou na Constituição dos Estados Unidos?


-Representei o estado de Nova York na Convenção de Filadélfia, e publiquei uma séria de escritos em que defendi as ideias contidas na Constituição. James Madison e John Jay, dois grandes políticos e intelectuais, fizeram o mesmo.


-Os textos de vocês três foram reunidos e se tornaram um clássico da literatura política americana com o título “Ensaios Federalistas”.


-”Federalist Papers”. - disse o nome original.


 -Você foi um dos primeiros a predizer o futuro industrial dos Estados Unidos, quando o pensamento de uma nação americana agrária pairava acima de tudo, absoluto.


-Em 1778, eu visitei as Grandes Cataratas do Rio Passaic, no norte de Nova Jersey e vislumbrei que elas poderiam prover energia para um centro industrial no estado. Mas eu não via máquinas apenas lá e sim no país inteiro.


-George Washington, que o conhecia muito bem, eleito presidente, indicou-o, em 1789, para a Secretaria do Tesouro, com a espinhosa missão de pôr ordem no caos econômico em que as 13 ex-colônias, os primeiros estados da América, se achavam.


-Assumi, como Secretário do Tesouro, a bandeira dos federalistas, lutando para que o povo americano tivesse um governo central fortalecido com uma só constituição, uma só moeda, pois eram muitas as moedas que serviam de valor de troca.


-Surgiu, então, o inexpugnável dólar. - assinalei.


-No leste da Pensilvânia e da Virgínia, para dar um exemplo do caos econômico, o uísque muitas vezes tomava o lugar do dinheiro. Tínhamos de ter uma única moeda.


-E que moeda! - exclamei.


-Eu estudava muito os pensadores da ciência econômica, franceses e ingleses, acompanhava a prosperidade da Inglaterra com a indústria, para cumprir mais essa missão que me era dada pelo grande George Washington.


-Como secretário do Tesouro, você consolidou a dívida pública da União e dos estados, fundou o banco nacional, a Casa da Moeda e lançou os fundamentos da industrialização dos Estados Unidos.


-Em dois anos, eu submeti ao Congresso cinco relatórios que representariam uma revolução financeira na economia do país e sabia que encontraria uma resistência contrária titânica.


-O seu maior opositor, no terreno das ideias, foi um dos fundadores da nação americana, Thomas Jefferson.


-Thomas Jefferson achava uma loucura desviar a população americana do campo para as fábricas, argumentando com a abundância de terras dos Estados Unidos. Eu rebatia, afirmando que não haveria independência, nem segurança que perdurassem, se as oficinas estivessem apenas na Europa.


-Entre Alexander Hamilton e Thomas Jefferson, o Partido da Indústria e o Partido da Agricultura, entre o norte, industrializado, e o sul, agrário, oscilou os Estados Unidos durante algumas décadas. - comentei.


-Só o tempo diria quem estava certo, mas nem eu e nem ele viveríamos para saber.


-É verdade. Abraão Lincoln, quando presidente da República, adotou o seu programa, eclodiu a guerra civil do Norte contra o Sul, e as suas ideias, colocadas em prática, fizeram dos Estados Unidos o que eles são hoje.


-Thomas Jefferson estava errado, mas isso não tira o seu extraordinário valor. Nós dois nunca imaginaríamos que o nosso embate no terreno intelectual acabaria numa guerra civil.


-O mesmo não se pode dizer de Aaron Burr. - assinalei.


-Nós dois lutamos juntos pela independência, eu, que cheguei a coronel, e ele, a general do Exército Continental. Deixando a vida castrense, nós nos apartamos irremediavelmente.


-O controle político pelo estado de Nova York os tornou inimigos.


-Só um duelo de pistola, com um de nós morto, poria um termo àquela rivalidade. E eu levei a pior.


-Em 1804, quando você tinha menos de 50 anos de idade, morre tão estupidamente.


-Para um bastardo, eu fiz muito, enquanto vivi, não é verdade? - disse com um sorriso e partiu.