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sexta-feira, 20 de março de 2015

2814 - Atrapalhadíssimo Dicionário Biográfico, revisado.


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5064                               Data:  11 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XVIII

 

MONTORITE – Não sei se este verbete já foi incluído no Aurélio ou no Houaiss, mas entra neste microdicionário. Quem acompanha a história recente da política brasileira conhece, sobejamente, o seu significado. O ex-governador de São Paulo, André Franco Montoro, trocava tanto os nomes das pessoas – o jornalista Jânio de Freitas, por exemplo, foi chamado por ele de Jânio Quadros – que cunharam a palavra “montorite”.

Não sei se os leitores já perceberam que eu sofro de montorite. Como o Biscoito Molhado passa pela minha revisão (nem sempre, às vezes esqueço) e, durante um bom tempo, pela revisão do Elio Fischberg, as minhas crises de montorite eram limadas a tempo, mas, numa conversação, numa fala de improviso, não há como evitá-las.

É um mal hereditário?... Bem, minha mãe, algumas vezes, quando me chamava, só acertava o meu nome na terceira tentativa, ou seja, depois de dizer os nomes dos outros dois filhos dela. Minha irmã era, ainda é, bem pior: chama-me de Luciana e Verônica, suas filhas, até chegar ao Carlinhos, quando estamos conversando. Mas não chega a se configurar um caso de montorite, pois são essas trocas apenas; ou seja, convivendo diuturnamente com as filhas, seus nomes vêm à sua boca automaticamente. Não é o meu caso.

A minha montorite não surgiu quando eu era estudante, nunca chamei, por exemplo, o Felipe Camarão de Felipe Macarrão, ou o Frei Caneca de Frei Careca, mas sim quando eu já estava com 30 anos de idade. O meu primeiro sintoma, se a memória não me atraiçoa, aconteceu quando eu estava em São Paulo a trabalho. Lá, eu falava com uma colega de serviço, aqui, no Rio, pelo telefone, quando me avisaram que o doutor Jobim, um funcionário do Ministério do Planejamento, precisava fazer uma ligação. “Vou desligar porque o Danton Jobim, precisa do telefone.” Horas depois, ela ralhava comigo, relembrando seu tempo de professora: “Que diabo de Danton Jobim é este?” Expliquei-lhe que ele fora senador do MDB pelo Rio de Janeiro e que morrera anos atrás, que falei o seu nome sem perceber. Depois, ela se acostumou com as minhas montorites.

Outra colega minha de trabalho reportou-se aos desenhos animados da Warner Brothers, a que assistia  quando menina, para me nomear, em vez de “Hortelino Troca-Letras” de  “Hortelino Troca-Nomes”. Era bem mais simpático. Caso alguém esboçasse alguma irritação comigo ao ver seu nome alterado, julgando-me um engraçadinho, eu logo o acalmava: “Desculpe-me, eu sou o Hortelino Troca-Nomes”. Se eu me desculpasse citando a minha montorite, eu não seria tão eficaz, pois poucos sabem quem foi André Franco Montoro, apesar de ele ter sido uma das grandes personalidades da política deste país.

Escrevi, parágrafos acima que, neste periódico, este meu mal não aparece, devido às revisões, mas um dia as revisões falharam: chamei o Jonas Vieira, o apresentador do Rádio Memória, programa dominical da Rádio Roquette Pinto, de Jonas Rezende, o pastor.  Jonas Vieira se irritou, ao contrário do Danton Jobim do meu trabalho e me parece que não metabolizou até hoje essa minha troca.

Quantas vezes, nessas revisões do Biscoito Molhado, mudei o nome do Sérgio Fortes para Sérgio Britto e tive de corrigir. Mas não seria um erro muito grande, garante o Dieckmann, porque os dois guardam muitas semelhanças.

 

PIPA- Minha mãe não ficava um domingo sem visitar a sua genitora em São Cristóvão. Quando não era a minha irmã que ela carregava consigo, era eu, o que acontecia muitas vezes, pois a minha avó era a minha madrinha.

Naquele domingo, a sua acompanhante foi a minha irmã. Quando as duas retornaram da Rua General Padilha, ao cair da tarde, traziam uma pipa de tamanho maior do que as que eu costumava cobiçar nas lojas. Uma pipa de papel fino de cor azul, rabiola e muita linha cordonet, que era mais forte do que a linha 10 - a preferida dos soltadores de pipa experientes - e ainda mais potente do que a linha 24.

As duas contaram que, passando por uma rua de São Cristóvão, toparam com essa pipa voada (assim denominavam a pipa cuja linha tinha sido cortada por outra) na calçada, sem que tivesse aparecido um só moleque correndo atrás dela, o que era um fato inteiramente anormal, impossível de acontecer, por exemplo, no Cachambi.

Minha mãe pegou a pipa e minha irmã puxou a linha infindável, enquanto a enrolava num pedaço de madeira.

Entrando lá em casa com o achado, ganhei-o, como primogênito, de presente.

Eu, que até então nunca soltara pipa, coloquei-a no alto, provavelmente com uma providencial ajuda do vento.

Pipa nas alturas, solto a plenos pulmões, o grito provocativo de todo moleque:

“Tá com medo, tabaréu,

É de linha de carretel”.

Muito tempo depois vim saber que tabaréu é caipira ou soldado que, por pouca experiência, não faz as coisas corretamente.

Em poucos minutos, uma pipa se aproximou da minha com más intenções. Não fugi da briga, aliás, eu nem tinha o traquejo de soltador de pipa para evitar o ataque inimigo. Eu era pipeiro de primeira viagem.

As duas pipas se embolaram uma na outra. Apesar dos meus bracinhos de garoto de menos de 10 anos de idade, com uma intensidade incomum, eu “bracei” (verbo do mundo da pipa que quer dizer puxar repetidamente, alternando os braços, uma linha). Então, deu-se o impasse: as linhas das duas pipas se esticaram sobre o terreno baldio que ladeava o muro da minha casa e de um posto de gasolina. Um puxão resolveria aquilo e foi o que aconteceu. Puxei, a linha adversária se rompeu, e as duas pipas vieram para a minha mão. Enlouqueci de alegria e o berro de todo soltador bem sucedido irrompeu da minha garganta por diversas vezes: “Eeeeera nego”. Ou a expressão era “Cheira, nego”? Nós nos limitávamos a repetir os bordões ancestrais sem nos importar com a sua exatidão.

Logo, apareceu o Paulinho Cauby, filho do dono de um armarinho de tecido, localizado nas proximidades, pedindo a sua pipa, a que eu cortara, argumentando que ele estava com linha 10 pura, sem cerol, que não pretendia que a sua pipa cruzasse com a minha. Pediu com tanta educação, que a minha mãe se juntou a ele no pedido.

De noite, reproduzi o meu feito épico para o meu pai e lhe disse que só devolvi a pipa do garoto porque ele me pediu chorando.

 

 

 

quinta-feira, 19 de março de 2015

2815 - Felideano Dicionário Biográfico


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5065                                   Data:  12 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XIX

 

GATOS – Não foram só os cachorros que povoaram a nossa casa, os gatos também, mas em número bem menor, na verdade, foram três, todos machos.

Nosso primeiro gato foi o Chiminho, não sei o porquê desse nome, se foi adotado pela minha mãe ou se a Dona Iolanda, moradora do apt. 102, que tinha uma gataria em casa, o doou.

Chiminho era extremamente pacífico, incapaz de nos mostrar as garras e isso o fez sofrer muito nas minhas mãos, não por que eu fosse mau com os animais, nunca fui, mas, com 5 ou 6 anos de idade, exagerava nos meus carinhos. Só faltou eu transformar o Chiminho no meu travesseiro.

Uma manhã, meu pai veio com as garrafas de leite e com uma má notícia: Chiminho estava morto no corredor do prédio que conduzia à portaria e terminava na cerca do nosso quintal. Ele imaginou que o nosso bichano recebera uma pancada de algum veículo e caminhou até morrer.

Ficamos alguns anos só com o Big e Veludo em casa até que surgiu um gato, o Fluminense, em 1960.

Meu irmão Claudio havia trazido um filhotinho para casa, meu pai viu e ordenou, com brados homéricos, que ele tratasse de pôr aquilo onde o achara.

No dia seguinte, minha mãe me levou com ela para visitar nossos parentes que residiam na Rua José Bonifácio, na altura do que seria, 30 anos depois, o Norte Shopping – meu hipocondríaco tio previa que o lugar seria ocupado por um hospital. Fomos a pé, era uma boa caminhada. Na volta, o meu irmão Claudio informou que pegara de volta, no terreno baldio, o filhotinho e o colocara num caixote pequeno. Minha mãe esbravejou com ele, disse-lhe que não queria saber de bicho, que o colocasse onde o apanhara. Quando ela viu aquele minúsculo bichano, recém-nascido, de orelhas e olhos fechados, o seu amor pelos animais a transformou completamente. O meu pai, por outro lado, concordou, dizendo que ele, sem a mãe para amamentar, morreria logo.

Para que o gatinho sobrevivesse, a minha mãe passou a alimentá-lo com leite misturado em água através de um conta-gotas. Assim, ele chegou aos alimentos mais sólidos e vingou. Recebeu o nome de Fluminense, o clube de coração que quase todo o mundo lá em casa.

Parecia que o Chiminho reencarnara para se vingar dos carinhos exagerados que recebeu e tanto o machucou: Fluminense era irascível, só aceitava cafunés daquela que o aleitara. Eu e Claudio tivemos a primeira prova do seu mau gênio quando nós, simulando uma briga, no saguão do primeiro andar do prédio, fomos atacados por ele. Aquilo era maneira de um gato separar uma briga entre irmãos – simulada, repito? Arranhou-nos de tirar sangue.

Mesmo as brincadeiras do Fluminense eram estúpidas. Escondia-se felinamente nos tufos de capim do corredor de entrada do prédio, dividido longitudinalmente de concreto e de terra, e atacava as pernas do Luiz Alberto –  garoto, como nós, que morava no 202 – quando por ali passava. “Dona Vivi, Dona Vivi, o Fluminense...” - buscava o socorro da minha mãe sempre que vislumbrava um corpo de pelo preto de branco à espreita no meio do verde do capim.

Quando nos mudamos da Rua Cachambi para a São Gabriel, nos últimos meses de 1961, não houve problemas com ele, ao contrário do nosso cachorro Big. Fluminense logo se enturmou na nova casa, onde, aliás, encontrou um ambiente melhor para as suas escapadas atrás das fêmeas no cio e para as suas brigas, pois agora a rua de trânsito pesado, a Rua Cachambi, ficava bem mais distante. 

Desse período, recordo-me que pisei inadvertidamente no seu prato com leite, que se espatifou sob os meus pés, cortando-me. No SAMDU - somente no ano seguinte, 1963, seria inaugurado o Hospital Salgado Filho - recebi alguns pontos no corte e relutei em tomar o soro antitetânico, porque era alérgico. Mas voltemos ao Fluminense, que é o protagonista dessa história.

Quando nos mudamos para a Rua Chaves Pinheiro, vieram os problemas com ele. Não quis saber de política de boa vizinhança, mal chegou e se atracou com um gato. Os dois rolaram para baixo de um carro que estava estacionado e o meu irmão Claudio, tentando separar a luta com um comprido bambu de pegar pipa, cutucou, sem querer, o nosso gato. Logo depois, o Fluminense sumiu. Minha mãe ficou abalada, ele, que sempre retornava para casa, depois de cair na esbórnia, desaparecera. E assim, passou uma semana, duas semanas e nada. Depois de 17 dias, Dona Gildete, vizinha da casa nº 18 da vila de onde nos mudamos, comunicou à minha mãe que vira um gato parecido com o Fluminense. Ela se bateu para lá e, horas depois, retornava com o Fluminense nos braços embrulhado num lençol. Estava irreconhecível: esquelético, sem brilho nos olhos e no pelo.

Em poucos dias, a minha mãe colocava o Fluminense de novo na primeira divisão; ficou com o mesmo vigor de antes do seu desaparecimento. Voltou a mesma têmpera irascível e partiu para as brigas. Numa delas, seu adversário estava hidrófobo e lá se foi a minha mãe tomar a vacina.

Esses contratempos não esmoreciam o amor da minha mãe pelos animais e ela adotou outro gato, trazido filhote também pelo Claudio. Era de cor ruça e, suspeitávamos, míope; antítese do Fluminense, tão tranquilo que lhe demos o nome de Peçanha. Explico: havia um quadro de programa humorístico na TV cujo bordão, dito pela atriz Consuelo Leandro era: “Aceita um croquete, Seu Jacinto”, em que o personagem Peçanha, o único que não se envolvia nas discussões de um grupo que terminavam em briga, levava a culpa de tudo.

Fluminense não o hostilizou, respeitava a minha mãe. Na semana em que o Silveira desapareceu, a trégua acabou: os dois se atracaram e, para surpresa geral, o Fluminense perdeu a briga. Minha mãe suspeitava que algum morador da vila enfiara o Silveira no porta-malas do carro e  sumiu com ele. Soube, depois, que o Tatu, morador de um cortiço da Rua Americana, baixo e atarracado, que ganhara essa alcunha por beber copos e mais copos de “Tatuzinho”, era comedor de gatos. Minha mãe foi até o barraco dele e o advertiu, mesmo não tendo certeza de nada.

Mas o Fluminense envelhecia; perdeu a agilidade dos velhos tempos, a derrota para o Peçanha já fora um sintoma, ele não era, também, tão assíduo das farras.  Talvez porque o considerasse frágil para lutar com os gatos de rua, a minha mãe resolveu fechá-lo em casa. O máximo que lhe permitia era tomar banho de sol, sob a sua vigilância, na frente da nossa casa na Chaves Pinheiro, que ele assumiu como território seu, hostilizando o Veludo e a Manon caso se aproximassem.

Quando houve uma festa de aniversário, com presença de parentes e vizinhos da rua Chaves Pinheiro, o Fluminense já vivia enclausurado, dormindo sobre os móveis. Nessa ocasião, um dos meus primos estourou uma garrafa de champanhe desastradamente; a rolha foi projetada sobre uma convidada, enquanto o Fluminense irritado com a estampido e pelo líquido borrifado em cima dele partiu, quase voou, em direção ao meu primo, sendo impedido pelo Claudio no meio do caminho.

Foi, podemos dizer, a última façanha do Fluminense dos velhos tempos. Envelhecido, a presença do veterinário passou a ser constante lá em casa.

Com 10 anos de idade, estava mal de saúde. Na última visita do veterinário, ele lhe aplicou uma injeção de Benzetacil e, segundo a minha mãe, o matou com a medicação errada. Fluminense estrebuchou nos braços do Claudio e, quando a sua língua enrolou, e meu irmão fez menção de puxá-la, minha mãe o deteve; não havia mais nada a fazer.

Meu irmão chorou, mas isso é segredo.

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 18 de março de 2015

2813 - Excursionando com o Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5063                                Data:  10 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XVII

 

BRINQUEDOS – O primeiro brinquedo de que me lembro foram os soldadinhos. Mas a minha memória afetiva, neste caso, é tão vaga que mesmo que eu degustasse toda a quantidade de bolo madeleine de uma padaria francesa, ela não melhoraria. Na verdade, eu nem me recordo dos soldadinhos propriamente dito e sim da queixa que fizeram de mim: “Carlinhos, está jogando os soldadinhos pela janela.” somente a acusação me marcou, não o fato de eu defenestrar os bonequinhos.

A minha única lembrança, além dessa, é que eu os arremessei do segundo andar do nosso apartamento da Rua Cachambi, ou seja, não morávamos ainda no 103, onde até quintal havia, como já foi narrado anteriormente.

Consultada, a minha mãe me informou que, antes, residimos por um curto período no apartamento 201, depois, nos mudamos para o 103, onde residiu o meu avô paterno. Ou seja, eu teria uns 4 anos de idade quando brinquei, de maneira desastrada, de soldadinho.

Depois, ou antes, não sei precisar, ganhei um caminhãozinho. Também não me recordo do presente e sim de a minha mãe incumbir um dos seus primos da Paraíba, que vivia no Rio de Janeiro, de construir um caminhão para o Carlinhos. Seria um mimo de aniversário de Natal?... Eu sei lá.

Agora sim, eu já estava mais crescidinho, morava no 103 e retive bem na minha mente as espadas que o meu pai deu a mim e ao Claudio – o meu irmão Lopo era ainda pequerrucho para brincar de mosqueteiro.

A lâmina da espada era de plástico emborrachado ou de outro material semelhante, só sei que eu e meu irmão saíamos com o corpo lanhado depois dos nossos duelos. Porthos, Athos, Aramis e D´Artagnan fariam mais estragos nas hostes inimigas com essas espadas. Foi um brinquedo marcante, e como.

Outro brinquedo da minha meninice foi o jogo de corrida de cavalos – Tirolesa, Mossoró, Six Avril, Gualicho, Sargento, Albatroz e Adil – a de que já tratamos no verbete turfe.

O mais representativo de todos os brinquedos da minha infância foi o revólver de espoleta. Armado, eu podia agora me sentir o Buck Jones, o Tom Mix, o Roy Rogers, o Cavaleiro Negro, ou outro herói de gibi. Não só eu como muitos garotos, pois era numeroso o bando de mocinhos e de bandidos trocando tiros.

Com as espoletas que espocavam a cada disparo, nós sentíamos, literalmente, o cheiro da pólvora.

O nosso quintal se tornara pequeno demais para o combate aos assaltantes de trem e, assim, expandimos a nossa ação para o terreno baldio, que se tornou o nosso Monument Valley dos filmes de John Ford. Ele ficava separado da nossa casa por um muro. Em luta contra os criminosos nesse terreno baldio, quebrei a cabeça, mas isso eu contarei em outra oportunidade.

 

 EXCURSÃO – Ficarei restrito às excursões escolares. No meu curso primário, não houve excursão para lugar algum. Íamos da casa para o colégio e deste para casa e, caso algum aluno se desviasse dessa rota, certamente, não estava sendo conduzido por uma professora. Por pouco não nos enquadrávamos naquela inspirada quadrinha do Carlos Drummond de Andrade: “Vida, vidinha/ de cabotagem/ roda no quarto/foi a viagem.”

No ginásio, vieram as excursões, poucas, é verdade, mas que não caíram no esquecimento.

A primeira delas ocorreu em 1961, na fábrica da Coca-Cola, que, por um decreto de 1951, publicado no Diário Oficial da União, recebeu a autorização para se localizar na Rua Menezes Vieira. Esta era a terceira rua paralela à Cachambi, onde eu morava. A proximidade tiraria a graça do passeio, não fossem os 40 colegas da escola para quebrar a rotina.

Em primeiro lugar, não peguei o bonde Cachambi, a professora determinou que fôssemos do Visconde de Cairu à Coca-Cola no bonde Pilares, que nos deixaria mais perto do nosso destino. O bonde, evidentemente, lotou, como se uma greve de ônibus e lotações tivesse sido deflagrada pela CGT.

Lá, um funcionário da empresa foi destacado para ladear a nossa professora (ou seria professor?) e servir de guia.

Eu nada ouvia o que eles falavam, pois uns vinte alunos, pelo menos, também falavam. Detive a minha atenção naquela maquinaria, nas garrafas transportadas por tentáculos de um polvo fordiano até serem vedadas por chapinhas. Ficavam, assim, prontas para serem engradadas.

Ganhamos todos de brinde miniaturas da garrafa confeccionada em material plástico que, hoje, têm algum valor para os colecionadores.

Encerrado o passeio, bastava-me caminhar pouco mais de meio quilômetro para chegar à minha casa, mas preferi voltar para o colégio no bonde Piedade com a turma. Quando se tem 13 anos de idade, bagunça não é coisa que se perca.

No ano seguinte, o professor de Geografia – este não se apaga da minha retentiva por razões já expostas neste minidicionário – levou toda a classe para o Observatório Nacional em São Cristóvão.

Confesso que me lembro bem mais do firmamento da cena do filme “Juventude Transviada”, do que daquele que vi com a minha turma de  escola.

Quando o professor falou da Constelação de Touro, ninguém mugiu como o James Dean; talvez, por isso, pelo fato de a turma ter sido muito disciplinada, ficou esse buraco na minha memória.

Quanto à nossa excursão à Exposição Norte Americana na Quinta da Boa Vista, em julho de 1963, não há como esquecê-la. Fomos do colégio até lá de trem; no vagão em que viajávamos, notei que uma conhecida da Rua Americana, uma morena muito bonitinha e simpática, mais ou menos da minha idade, estava nele. Naquele tempo, usávamos uma gíria horrorosa que, felizmente, sumiu: “amarrar uma garota”, ou seja, conquistá-la. Indiquei-a aos meus colegas e lhes disse que iria “amarrá-la”. Fui até ela, conversamos por alguns minutos e, depois, retornei. “Já está amarrada”. - garanti aos meus companheiros que se mordiam de inveja.

Na exposição, foi um deslumbramento, eu via, pela primeira vez uma televisão em cores e estaquei, diante dela, para assistir a um trecho de um desenho dos Flinstones. As cozinhas também grudaram a minha atenção; quando eu soube de jogadores campeões do mundo em 1994 que trouxeram, praticamente, todos os utensílios de uma cozinha, eu entendi o porquê reportando a essa excursão de décadas atrás.

Havia lá muita coisa que lembrava a era espacial, até mesmo a réplica da cápsula do astronauta John Glenn que, há pouco, realizara o primeiro voo orbital norte-americano.

Em cada stand havia moças, que não ultrapassavam os 20 anos de idade, explicando, em bom português, a praticidade daqueles objetos e respondendo às perguntas dos visitantes. Um garoto, não sei se do SENAI ou do Pedro II, resolveu bagunçar o trabalho de uma delas, que logo chamou um “mister” que colocou as coisas em ordem.

Eram muitos os estudantes na Quinta da Boa Vista numa época em que as brigas entre os colégios eram deflagradas a todo instante. Testemunhei um plano dos alunos do meu colégio, Visconde de Cairu, com os do Pedro II para atacarem os estudantes do SENAI, mas a presença ostensiva da polícia murchou o ímpeto bélico de todos.

Foram perto de 800 mil pessoas que visitaram essa exposição, na Quinta da Boa Vista, logo, amigos meus da Rua Americana, que há anos deixaram a escola, também foram lá. Um deles, com fumaça de comunista, afirmou que a Exposição Comercial e Industrial da União Soviética, no Pavilhão de São Cristóvão, que acontecera um ano antes, em 1962, fora bem melhor. Duvidei, mas ficou o desapontamento de não ter havido uma excursão da minha turma do Visconde de Cairu até lá. Quando eu soube que correu rumores de bomba  terrorista lá, o desapontamento se foi.

   

 

terça-feira, 17 de março de 2015

2816 - troca tudo por dinheiro


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5066                                   Data:  15 de março de 2015

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A DUPLA DINÂMICA DE VOLTA

 

Substituir dois titulares de uma só vez, nem o Pelé, só o Simon Khoury. Mas nesse domingo, 15 de março, Jonas Vieira e Sérgio Fortes não se ausentaram, entraram em campo para mais um Rádio Memória e o Simon Khoury ficou com a missão de substituir os dois no Posto 5 de Copacabana às 9h 30min da manhã.

-Jonas, vamos ao calendário?

E foram ao calendário.

-Em 1493, Cristóvão Colombo retornou à Espanha depois de sua primeira viagem às Américas.

-Sérgio, ele foi depositar o dinheiro que recebeu dos reis espanhóis num paraíso fiscal do Caribe.

-Veja, Jonas: ele partiu em 3 de agosto de 1492 e retornou em 15 de março de 1493, mais de 7 meses.

Mais 2 meses e seria uma gestação.

-Jonas, eu vou citar dois eventos, mas repare na similitude entre eles apesar de uns 150 anos de distância no tempo.

-Você falando similitude me deixa acachapado.

-Em 1610, batismo, em Pernambuco, de Domingo Fernandes Calabar; em 1789, Joaquim Silvério dos Reis entregou ao Visconde de Barbacena sua carta-denúncia contra a Inconfidência Mineira. Dois traidores.

-Quanto ao Silvério dos Reis, não existem dúvidas, mas no que diz respeito ao Calabar, há controvérsias.

-Controvérsias levantadas pelo Dieckmann, Jonas, que tem sangue batavo.

-Em 1916, o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, envia 12 mil soldados para o outro lado da fronteira mexicana em busca do rebelde e líder guerrilheiro Pancho Villa. Ele andou aprontando contra os americanos.

-Sérgio, depois das lutas pela independência contra os ingleses...

-Sei... sei... sei...

-O Pancho Villa foi o único estrangeiro que invadiu os Estados Unidos da América.

-Que folgado!

-Em 1917, o Czar Nicolau II da Rússia abdica em seu nome e de sua descendência ao trono da Rússia e seu irmão, o grão-duque, torna-se o novo Czar.

-Passou o abacaxi para o irmão.

-Eu diria, Jonas, que ele passou o Ovo Fabergé... igual ao do Eike Batista, falsificado.

-Em 1939, Segunda Guerra Mundial: tropas nazistas ocupam o que restava da Boêmia e da Morávia. A Checoslováquia deixava de existir. Lembra, Jonas, que o primeiro-ministro da Inglaterra, Chamberlain, voltou de Londres todo sorridente brandindo o papel em que entregou a Checoslováquia a Hitler imaginando que, assim, evitava a Segunda Guerra Mundial?

-Tolinho.

-Em 1943, os invasores alemães retomam a cidade de Cracóvia do exército vermelho, depois de um combate rua a rua.

 O exército vermelho também era invasor. Era invasor lutando contra invasor. Pobre Polônia!

-Em 1956, o musical da Broadway “My Fair Lady”, estreia em Nova Iorque. Data importante. Um supermusical.

-Em 1967, a “República dos Estados Unidos do Brasil” passa a ser denominada “República Federativa do Brasil”.

O Sérgio Porto dizia que era a “República do Brasil dos Estados Unidos”.

-Em 1972, o filme “O Poderoso Chefão”, “The Godfather”, estreia nos cinemas. Um marco na arte cinematográfica.

-Sem dúvida, Sérgio.

-Em 1975, ocorre a fusão dos estados brasileiros do Rio de Janeiro e da Guanabara.

-Para a infelicidade da Cidade do Rio de Janeiro. - lamentou o titular do programa.

-Mas o carioca não perdeu o humor com isso e disse que logo surgiria o Piranhão, o Piauí fundido com o Maranhão.

-Em 1990, toma posse na presidência do Brasil, Fernando Collor de Mello.

Data tão funesta quanto 1º de janeiro de 2003, 2007, 2011 e 2015.

-Em 1991, a Alemanha reunificada, formalmente, recupera plenamente a sua soberania nos termos do Tratado Dois Mais Quatro. Você sabe o que é isso, Jonas?

-Dois mais quatro: seis, a cotação do dólar daqui a alguns dias.

-Dois Mais Quatro são as quatro forças de ocupação do pós-guerra – França, Reino-Unido, Estados Unidos e União Soviética; e Dois: Alemanha Ocidental e Oriental.

-Muito bem.

-Uma data desagradável... Em 1993, saía do ar a TV Manchete.

-Lamentavelmente. - lastimou o Jonas Vieira.

-Nascimentos – avolumou-se a voz o Homem-Calendário.

-Em 1738, Cesare Beccaria, jurisfilósofo italiano. Nome obrigatório nos estudos de Direito.

-Em 1906, Henrique Alves de Mesquita, músico brasileiro.

Importante nome da música popular brasileira, criador da expressão “tango brasileiro”.

-Em 1835, nasceu Eduard Strauss, irmão de Johann Strauss II das valsas, irmão de outro compositor de valsas, Josef Strauss e filho de Johann Strauss I. Ele foi esperto, diante das obras do pai e dos irmãos, resolveu não fazer valsas e compôs, então, polcas que fizeram sucesso.

Em seguida, o Homem-Calendário confundiu os Júlios, mas se corrigiu a tempo com a ajuda do Jonas.

-Em 1882, nascia Júlio Prestes, político brasileiro.

-Ah, achei estranho quando você disse Júlio Mesquita. - manifestou-se o Jonas Vieira.

O redator do Biscoito Molhado, que também é chamado de Hortelino Troca-Nome, só tem uma coisa a dizer ao Sérgio Fortes: “Bem-vindo ao clube”.

Júlio Prestes foi, sem nunca ter sido; indicado presidente da República pela mesma força que conduziu Washington Luiz à presidência, não chegou a tomar posse. A política era Café com Leite, mas os paulistas queriam café puro, nada de pingado, sem atentarem que a cotação da rubiácea despencou com a Grande Depressão. Veio a Revolução de 30 e Getúlio Vargas tomou o poder.

-Júlio Prestes foi o primeiro brasileiro a ser capa da revista “Times”. - ressaltou o Homem-Calendário.

-Em 1900, Gilberto Freyre, grande sociólogo.

-Ele pediu para esqueceram o que escreveu?

A Sociologia não é ciência exata; as ideias são mutáveis como a sociedade. Não há cláusulas pétreas.

-Em 1925, Sérgio Cardoso. Formidável ator brasileiro; seu Hamlet fez história no teatro.

-Também atuou na televisão, Sérgio, eu o vi, numa novela, em que fez três papéis, um deles, o Pai Thomas.

Os atores negros não gostaram com toda razão.

-Em 1940, Caçulinha, multiinstrumentista e compositor brasileiro.

-Falecimentos. - alteou a voz.

-Quem morreu, Sérgio?

-Em 44 a.C.  morre Júlio César, general e estadista romano. Ele foi assassinado por Brutus e outros senadores, eram tantos que até parecia a Lista do Janot.

-O Renan Calheiros também apunhalou?

-Dessa vez, ele é inocente.

-Em 1673, Salvador Rosa, pintor, poeta, ator e músico italiano. Salvador Rosa é o título de uma ópera de Carlos Gomes, que o tomou como personagem.

-Em 1902, Custódio de Melo, militar e político brasileiro.

-Agora sim: em 1927, Júlio de Mesquita, jornalista brasileiro.

-Em 1929, Raimundo Pontes de Miranda.

Até os economistas estudaram no livro “Tratado de Direito Privado” escrito por ele.

-Em 1959, Lester Young, músico americano.

Grande Jazzista.

-Em 1975, Aristóteles Onassis; aquele cara que vivia pedindo esmolas. O Peter matou a fome dele diversas vezes.

 -Pedia esmolas na esquina, Sérgio?

-Exatamente, ele era bancado pelo Peter.

-Em 1979, Leonide Massine, grande bailarino e coreógrafo russo.

-Em 1998, Tim Maia.

-Nesse ano, também nascia Benjamin Spock, médico americano, um dos benfeitores da humanidade.

E passou para a parte final do calendário.

-Hoje é o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor. Dia de São João Clemente Maria Hofbauer.

-Esse santo é da terceira divisão.

-Dia de Santa Luísa Marillac.

-Essa já é conhecida. - asseverou o Jonas.

-É o Dia de São Longino. - escandiu bem as sílabas.

Voltou-se para o Jonas Vieira, para o Peter e os ouvintes em geral:

-Sabe quem é São Longino? Quando você perde alguma coisa, ele é evocado: “São Longuinho... São Longuinho...” Peter, São Longuinho é São Longino. Ele ajuda as pessoas a acharem os objetos perdidos.

E relembrou seus tempos de aluno do Santo Inácio:

-São Longino foi aquele soldado que perfurou Jesus com uma lança.

-Olha só!... - abismou-se o Jonas Vieira.

-E todo o mundo dizendo “São Longuinho, São Longuinho e dando três pulinhos. É por isso que não acham nada. O certo é São Longino.

Pois é, Sérgio, não somos apenas nós os Hortelinos Troca-Nomes. 

 

sexta-feira, 13 de março de 2015

2810 - Tabaquiano Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5060                                Data:  05 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XVI

 

VIBRAÇÃO – Era a glória para mim: a aula de Educação Física seria uma partida de futebol de salão na quadra do Visconde de Cairu. Eu ainda morava na Rua Cachambi, portanto só havia, até o momento, jogado no quintalzinho do nosso apartamento; então, aquele ginásio, para mim, tomava proporções de um Maracanã. Além disso, o público das minhas peladas caseiras eram os vizinhos espanhóis do 203, isso quando eles se debruçavam no parapeito da varanda, o que nem sempre acontecia. Assim, aqueles 30 ou quarenta alunos que ficavam em volta da quadra, esperando a vez deles de jogar – eram duas partidas de 30 minutos cada uma – se tornaram, na minha imaginação, um público de Vasco e Flamengo.

O professor apitou e deu início ao jogo. Fui para frente, não quis saber de jogar na defesa. Não sei se consegui desarmar algum adversário, dar um passe, o que não se apagou da minha memória foi a bola que sobrou na minha frente, perto do traçado da área. Chutei com toda a força que existia na minha perna direita; a bola entrou entre o goleiro e a trave. Deus do céu, vibrei alucinadamente, eu gritava como um possesso.

Isso foi em 1961, antes de agosto (tenho como referência mnemônica a data de renúncia do Jânio Quadros, quando recebi a notícia da minha mãe na saída do colégio). Nos últimos meses desse ano, fui morar na Rua São Gabriel numa vila que se comunicava, por um beco, com a Rua Americana. Lá, revi o Sílvio, um garoto comprido, que era da primeira série do Visconde de Cairu, mas não da minha turma, e que participara daquela partida.

Um dia, quando formávamos um grupinho na Rua Americana, ele se referiu ao meu exagero na comemoração daquele gol de meses atrás. A minha vibração havia sido infinitamente mais marcante do que o gol, um mero chute de bico que contou com a incompetência do goleiro, mas eu, até então, pensava que o gol é que tinha sido histórico.

 

PROLIXO – Como eu sofria com aquelas redações, no curso primário, que vinham com uma exigência da professora entre parênteses: mínimo de 20 linhas. Muitas vezes, eu só tinha ideia para desenvolver o tema proposto em 10 linhas e me torturava; se não escrevesse mais, a minha nota seria baixa. Tentava ter mais ideias, mas aquela imposição das vinte linhas me travava. Pensei em recorrer aos garranchos, em encompridar as palavras, mas era tarde, se eu passasse a borracha nas que havia escrito, para dobrar a sua extensão, corria o risco de esquecê-las.

O Professor Alcyr, aquele que dava estalos na cabeça dos alunos, no curso de preparação para concursos de admissão ao curso ginasial, declarou, certa vez, para nós, que aqueles que escrevem ótimas redações são os que sabem mentir. Quanto mais mentiras, melhor a redação – enfatizava. Mas eu só vim a estudar com ele dois, três anos depois, além disso, ele era professor de matemática, do Pedro II, precisamente e a língua portuguesa não era o seu forte. Mesmo que já aprendesse com ele, não me ajudaria muito a vencer a barreira das 20 linhas.

Ser prolixo?... Era outra tentativa. Mesmo Jeová foi prolixo. A maçã no paraíso, era apenas um símbolo: Adão e Eva tiveram relações sexuais, assim, quando Deus lhes disse, expulsando-os do Éden: “Crescei e multiplicai-vos”, estava sendo prolixo.

Como eu pretendo ser o mais fiel possível aos fatos que vivi, não direi aqui que repetia as dez linhas redigidas com outras palavras para alcançar as vinte linhas, mas que eu me escorava na prolixidade não tenho dúvidas.

Com a leitura de romances, melhorei muito, meu problema passava a ser, agora, a verborragia e o sofrimento de cortar o que havia escrito, de tornar o texto enxuto.

 

DECEPÇÃO – Seu Dilmar morava na casa 23 e nós, na casa 20, na vila da Rua São Gabriel. Ele e Dona Luci, sua esposa, tinham apenas uma filha, Vera. Ela, o extremo oposto do pai, era introvertida, mas  para nós, pessoas injustas, uma antipática.

Seu Dilmar nunca o disse, mas saltava aos olhos, sentia falta de filhos do sexo masculino e, tacitamente, adotou a mim, Claudio e Lopo, os três garotinhos, como éramos conhecidos na Rua Chaves Pinheiro no tempo em que residíamos na Cachambi. Assim, se o carro do Seu Antônio, compadre dele da casa 22, um Austin, ficava à sua disposição, saía com ele pelas ruas, chamando-nos, sempre que possível, para ocuparmos todos os bancos. Era uma festa, além das gozações que ele fazia com os transeuntes de todas as idades, homens e mulheres, parava em alguma padaria para o lanche: refrigerante com empada.

Por eu ser o mais velho dos três, identificava-se mais comigo. Era a época do televizinho e assisti a muitos programas na sua casa com ele e Dona Luci, que também gostava muito de mim. O TV Rio Ring, do Luiz Mendes e Léo Batista, que eu via na casarão da minha avó, no final da década de 50, passava, nesse início da década de 60, a ser visto por mim na casa do Seu Dilmar.

Com o seu inseparável charuto Suerdieck na boca, Seu Dilmar, sob a varanda, um puxado nos fundos da sua casa, reunia os amigos para jogar damas, dominó, ou sueca e ouvir as transmissões radiofônicas do turfe. Eram eles Seu Jorge, um dos nossos vizinhos, motorista de ônibus, e um senhor que morava numa casa de madeira, na Rua Americana, cujo nome me foge. Eu me juntava a eles - os meus 15 anos não se constituíam em obstáculo; meu irmão Claudio era, às vezes, requisitado a se reunir com o grupo, por ser um bom jogador de damas e sueca.

Esse relacionamento com Seu Dilmar, a identificação de gostos, levou-me a colocá-lo no patamar dos amigos imprescindíveis.

Então, veio o dia em que nos encontrávamos no meio da vila e ouvíamos uma gritaria estranha. Um sujeito de pernas compridas e finas, alto, magricela correu para perto de nós com uma turma engrossada por moleques que gostam de ver o circo incendiado atrás dele gritando pega ladrão. Ele foi agarrado sem muita dificuldade e, nesse momento gritou umas palavras incompreensíveis. Era um pobre coitado.

Seu Dilmar afastou algumas pessoas que o agarraram, não porque teve misericórdia e sim porque também queria bater, e bateu com vontade enquanto xingava aquele pobre ladrão de galinhas.

Foi uma decepção para mim. Continuei seu amigo, mas não era mais a mesma coisa.

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de março de 2015

2809 - até enterro acaba em pizza


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5059                                  Data:  04 de março de 2015

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CARTAS DOS LEITORES

 

-Lendo sobre os seus cachorros, lembrei-me muito bem de todos, principalmente do Silveira. Luca

BM: Sim, Luca, nós lhe pedimos ajuda para enterrá-lo. Do lado do corpo do Silveira, eu fiquei abismado com o número de pulgas que saltavam fora dele; elas sentiram logo que o sangue esfriou. Foi quando você apareceu, chamado pelo meu pai, com um saco de plástico cheio de cubos de gelo sobre uma das vistas – a dor de cabeça o torturava. Era a época em que você se identificava com o poema “Num monumento à aspirina”, de João Cabral de Melo Neto, outro sofredor crônico de dores de cabeça, embora, ao que me parece, você procurasse outros remédios como, no caso, o frio excessivo para mitigá-las.

Mesmo combalido, você saiu a campo com meu pai para tratar do féretro do nosso último cachorro de estimação. Juntou-se a vocês o meu irmão Claudio, que logo recorreu ao Pernambuco, um amigo dele que morava num casarão com várias pessoas, na Rua Itamaracá, onde havia um trecho de terra razoável. E, numa cova “de bom tamanho nem largo nem fundo” - retornando ao poeta – descansou o nosso inesquecível Silveira.

 

 

-No programa Rádio Memória do dia dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, o Biscoito Molhado não aludiu ao projeto do Jonas Vieira, meu inimigo de infância. Simon Khoury.

BM: Jonas Vieira é admirável, não se envolve com o modernoso, mantendo-se fiel aos seus amigos dos bons tempos, lutando denodadamente para que as suas memórias não se apaguem. Também é, na medida do possível, pois os obstáculos são terríveis para quem não tem Lei Rouanet, um animador cultural.

Ele está, agora, com um projeto, idealizado no ano passado e que a FIRJAN aprovou, de contar a história do Rio de Janeiro, sobretudo a história musical, nos seus 450 anos. O projeto se chamará “Rio: Cidade da Alegria” e será encerrado com as criações mais significativas sobre ela, como “Alegria”, de Assis Valente, “Cidade Brinquedo”, de Silvino Neto e Plínio Bretas e “Cidade Mulher”, de Noel Rosa. Será ressaltado o fato de o Rio de Janeiro, no Brasil, ter sido o berço da indústria, do comércio, da arte musical e da literatura, onde surgiu o primeiro teatro, as primeiras ruas, as primeiras grandes empresas.

A concretização dessa ideia está agendada para o mês de junho, e o Jonas Vieira convida a todos os ouvintes do Rádio Memória, mesmo os que não acordam antes das 8 da manhã, no domingo, a comparecerem.

 

-A edição do Biscoito Molhado sobre o nosso programa, meu e do Jonas Vieira, em que foi celebrada a valsa, o redator citou uma ária da ópera “O Trovador”, de Verdi, mas não registrou o seu nome. Sérgio Fortes.

BM: Trata-se da ária do segundo ato da cigana Azucena “Stride la vampa” (Queima a fogueira).  É a dramaticidade que não se perde, pelo contrário, se acentua no ritmo da valsa, feito só obtido por um gênio como Giuseppe Verdi.

No programa a que o Sérgio Fortes alude, só ouvimos o ritmo da valsa como a celebração da alegria, mas nem sempre foi assim. Sibelius compôs “Valsa Triste”. O segundo movimento da Sinfonia nº 6, de Tchaikovsky, alegro con grazia, é uma valsa, que alguns musicólogos dizem retratar a agitação psicológica do compositor, com 5 tempos por compasso, não convencionais,  2+3 seguido de 3+2. Outros afirmam que se trata de uma valsa fantasmagórica. O 3º movimento da sua Quinta Sinfonia é também uma valsa, porém com luminosidade.

Em resumo: nem todas as valsas são a celebração da vida.

 

-Você sabe qual é o dia do meu aniversário? Rosa Grieco

BM: O Dieckmann declara que decorar data de aniversário é coisa de mulher. Mesmo que tivesse razão, eu colocaria a minha virilidade em risco para dizer: 4 de março é o dia do aniversário da Rosa.

Por outro lado, Sérgio Fortes, como o Homem-Calendário do Rádio Memória, bradaria altissonante: “No dia 4 de março de 1461, o rei Henrique VI é deposto pelo seu primo, que se torna o rei Eduardo IV.” Tudo bem Shakespeariano, como você gosta e desentendimento na família, que você tão bem conhece.

Nos nascimentos, ele citaria o do Tancredo Neves, em 1910 e o seu, sem citar o ano, porque o Sérgio Fortes é um homem gentil, apesar das controvérsias que o Dieckmann levanta.

Parabéns, Rosa, e muitos livros de vida.

 

-Apesar de o Simon Khoury ter aparecido no Rádio Memória com um CD do Henry Mancini justamente no dia dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, eu consegui celebrar a efeméride. E o Biscoito Molhado? Jonas Vieira

BM: Meu caro Jonas, eu sei que você, ao contrário do seu xará bíblico, não foge das missões a que o designaram.

Confesso que, nos 450 anos da cidade, eu ocupei mais o meu tempo com as reminiscências do Rio de Janeiro 50 anos mais novo, embora fosse um adolescente na época.

Só se falava no Rio Quatrocentão. Havia uma música que dizia “Rio que ficou quatrocentão”, que logo o meu pai parodiou para “Rio que ficou quase sem pão”. Houve “Rio Quatrocentão” do Jackson do Pandeiro, que você deve conhecer profundamente, como estudioso da música popular brasileira, enquanto eu conheci agora, pesquisando na internet.

Recordo-me do logotipo, que eram dois quatros em cima e dois embaixo virados de cabeça para baixo, o desenho de quatro quatros designando o quarto centenário. Tal logotipo se via em todo lugar até nos sorvetes. Por que fui lembrar justamente o sorvete? Porque minha tia, a irmã mais velha da minha mãe, resolveu competir no concurso de fantasias do Teatro Municipal, na categoria originalidade, homenageando o aniversário da nossa cidade. Então, nós todos, chegados a ela, fomos recrutados para pegar no chão tudo que era caixinha de sorvete, parecíamos os catadores de latinhas de hoje.

Depois, minha tia recortava o logotipo com a tesoura, precisa como uma cirurgiã e, quanto havia uma quantidade espantosa de recortes, ela os costurava num tecido. Havia um chapéu, não me recordo bem dele, sei apenas que não tinha aba, era do formato de uma torre com vários logotipos, é evidente, pregados nele.

Fantasiada, não entrava em carro algum; foi alugado um pequeno caminhão e ela foi de São Cristóvão ao Teatro Municipal, na parte em que é alocada a carga, de pé, atenta para não cair numa freada brusca.

Mesmo não sendo classificada entre os cinco primeiros, no concurso, achou que valeu a pena. Eu discordei: perdi muitas horas pelas ruas catando caixinhas de sorvete.

 

Por que no seu minidicionário biográfico, no vocábulo “Pizza”, você não citou o Gagau? Dieckmann

BM: Omissão minha imperdoável.  Quando provei a pizza feita pelos seus filhos, Gagau e Fred, no aniversário de uma colega de trabalho nossa, na sua casa, em 2003, senti o sabor da minha primeira pizza, aquela de meados dos anos 60.

2807 - Higiênico Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5057                              Data:  27 de fevereiro de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XV

 

MEMORIZAÇÃO – Eu deveria estar com 7 anos de idade, e uma das minhas primas, 5; nós nos achávamos no casarão da minha avó da rua General Padilha, São Cristóvão. No momento em que todos se encontravam juntos, na sala de jantar, minha tia começou a perguntar a capital dos estados brasileiros à menina, sua filha. A cada resposta certa da garota, ela arreganhava os dentes, prenhe de orgulho.

Não escreverei aqui que ela exibiu a filha como uma circense que busca os aplausos da plateia exibindo, por exemplo, um chimpanzé equilibrista. Não senti inveja, apenas curiosidade por aquela sabatina, novidade para mim, e a certeza de que não queria estar nunca no lugar da minha priminha performática naquela hora.

Foi com 7 anos de idade que entrei para a escola, naquela época, o ingresso na vida escolar era tardio, diferentemente dos padrões atuais quando, com 4 anos, se não me engano, se inicia a alfabetização.

Nos meus primeiros anos no colégio, eu ainda me atrapalhava com o polegar opositor que me permitiria o movimento de pinça com os dedos– aquilo que desenvolveu exponencialmente o cérebro humano e nos elevou sobre os demais primatas. Eu segurava o lápis como um cozinheiro segura a colher de pau para misturar a farinha de trigo com o leite na panela.

Ultrapassadas as primeiras dificuldades em aprender, comprovadas nas minhas notas altas, porém nunca supersônicas, percebi que possuía uma boa memória. Essa percepção foi confirmada no terceiro ou quarto ano do curso primário, quando minha professora, Dona Arlete ou Dona Eunice, inovou: tirava um dia da semana para convocar seus alunos, em grupo de cinco, para sabatinas. Ela ficava sentada à sua mesa, e nós nos colocávamos de pé, com o quadro negro, que era verde, atrás de nós, e nos bombardeava de perguntas sobre Conhecimentos Gerais, matéria esta que englobava Geografia, História e Ciência.

Eu acertava tudo, até os afluentes do lado esquerdo e do lado direito do Rio Amazonas. Respondia sem questionar se era o lado de quem subia ou descia o Rio. Eu lia sem filtrar a leitura, simplesmente decorava.

Numa dessas sabatinas, eu não me sentia bem, meu estado era febril. Depois, em casa, deixei-me cair sobre a cama sentindo-me um herói: acertara tudo.

Na intermediação do curso primário para o ginasial, tive um professor que dava “estalos” nos alunos - tapas na nuca. Como as vítimas eram os malcomportados, eu não me abalava, embora não me agradasse assistir a um colega ser agredido. Um dia, o agressor abriu um livro e nos disse que existiam dezessete preposições na língua portuguesa (ele dava aula de matemática no Pedro II), ordenou que olhássemos bem para cada uma delas. E veio o pior: na aula do dia seguinte, cada aluno deveria citar de cor todas as dezessete, cada omissão representaria um estalo. Estava implantado o terror. Eu confiava na minha memória, mas nos meus nervos, não. Faltei a essa aula, ninguém foi, com exceção de um garoto que se vangloriou, durante muito tempo, diante de nós,de ter sido o único que tivera peito de enfrentar aquele desafio. Na verdade, as porradas que levaria do pai, caso não aparecesse na aula, eram bem piores do que os estalos.

Como se ainda sofresse o risco de receber taponas na nuca, cito até hoje, de cor, todas as preposições.

No ginásio, cheguei – agora sim – às notas supersônicas com História do Brasil, na primeira série; História da América, na segunda; e História Geral na terceira e quarta séries.

Esse dom não me prejudicou em matemática, matéria que requer raciocínio ( tabuada á parte que tem, obrigatoriamente, de ser memorizada), mas em geografia, sim; isso no segundo ano. Apareceu um professor com um método inteiramente inusitado para nós; ele pretendia que seus alunos alcançassem as respostas certas por dedução. Como eu só tinha 14 anos de idade, não posso afirmar que ele usava a maiêutica, o método socrático de ensino.

Nas provas, ele pedia a turma que consultasse o caderno. Abrir caderno no meio da prova, para mim, era a mais desavergonhada das colas, e vendo meus colegas com a folha de papel almaço do exame com o caderno aberto do lado, eu sentia tudo estranho. Não me adaptava àquela didática, e advieram as notas baixas.

Houve uma vez que, antes de entregar as provas corrigidas a cada aluno, o professor disse que era coisa de analfabeto colocar em ordem crescente  o que ele pedira em ordem decrescente. Não indicou o analfabeto, que era eu, teve, pelo menos, essa delicadeza. Na verdade, aquela aprendizagem de Geografia já me deixava perturbado.

Um dia, ele quis saber das minhas notas em outras matérias. “O que há de errado?” - perguntou depois de ouvir notas acima de 7.

Os exames de setembro e outubro foram decoreba pura; cada aluno recebeu folhas em que estavam desenhados mapas dos cinco continentes. Nós tínhamos de localizar e nomear os acidentes geográficos destacados: rios, ilhas, lagos, mares, penínsulas, etc. Não perdi essas duas oportunidades que me foram dadas e, assim, consegui média para evitar sobressaltos e passar para o ano seguinte.

Com o transcorrer dos anos, vieram os lapsos de memória, nada que me assuste, pois o que esqueço agora me vem à mente depois; o único inconveniente é a perda da fluência numa conversação. Como sou de pouca fala, não há muito a lamentar.

A troca de nomes sim, deixa-me em situação constrangedora, algumas vezes, mas falarei disso mais tarde no verbete “Montorite”.

   

 

VERDADE - “Professora, posso ir ao banheiro?” A resposta da professora ao meu pedido com entonação de pergunta, foi um ríspido “Não”.

Havia uns garotos da minha turma que, depois de dada a permissão para irem ao banheiro, ficavam mais de uma hora sumidos da sala de aula; não há dor de barriga, ou constipação, que exija tanto tempo de uma pessoa na privada. Esses garotos eram os bagunceiros da classe, qualquer pessoa que privasse daquele ambiente os identificaria sem muito esforço. Eu fazia parte do grupo dos quietinhos, dos alunos que recebiam 100 no boletim (as notas da Escola Manoel Bomfim iam de 0 a 100) em comportamento.

Recordo-me do nome de quatro professoras do curso primário – Dona Tereza, Dona Arlete, Dona Eunice e Dona Dulce – já o nome dessa, que enfiava arruaceiros e comportados no mesmo saco) se apagou na minha mente (nesse caso, a minha memória foi seletiva).

Se a minha vontade fosse de urinar, o erro dessa professora intolerante seria menor.

Meu cérebro deu a ordem para que as fezes fossem eliminadas, e eu, me via obrigado a desobedecê-lo. Um pirralho de pouco mais de 8 anos estava sendo torturado em plena sala de aula.

Ao apanhar-me na saída da escola, logo a minha mãe sentiu o cheiro que penetrou nas narinas de Jean Valjean quando ele carregou o republicano Mário nos ombros pelo esgoto de Paris. A primeira reação da minha mãe foi repreender-me, mas, depois, que esclareci o porquê dessa crueldade a que fui submetido, ela disse que a professora deveria me limpar.

Não, que ela ficasse o mais longe possível de mim, principalmente das minhas nádegas.

Meu pai, assoberbado de tanto trabalho em mais de um jornal, não soube desse caso, se soubesse, provavelmente me aconselharia a levar para a sala de aula um penico e o deixasse sobre a mesa, debaixo do nariz da professora.