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quarta-feira, 22 de abril de 2015

2834 - reflexões do usuário sistemático


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5084                                   Data:  11  de abril de 2015

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199ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

 

Depois de um algum tempo, peguei o táxi do Albino.

Já reproduzi, neste periódico, o apreço que o Albino nutre pelo Paizão, pela experiência de vida a que ele chegou, aos 80 anos e que devemos, insiste o Albino, reverenciar e aproveitar. Por ela, desentendeu-se com colegas do ponto do táxi que pretendiam passar para trás o respeitável senhor.

Mesmo daqueles que estão ainda longe dessa idade, o meu caso, Albino procura colher conhecimentos da experiência acumulada e por isso, ele, que só se locomove de carro, seja o do trabalho, seja o do lazer, quer saber tudo sobre o metrô e, sempre que me recebe no seu táxi,  na saída da estação Maria da Graça, faz-me a pergunta:

-Como está o metrô?

-Melhorou.

-Eu imagino como era o metrô antes da privatização... ou melhor, antes da concessão. -disse-me.

-O Consórcio Opportrans ganhou o direito de explorar o serviço metroviário durante 20 anos. - lembrei.

-Isso foi antes do ano 2000, não foi?- indagou.

-Sim, 1997.

-Daqui a 2 anos se encerra a concessão.- calculou rapidamente e acrescentou:

-Certamente, será renovada.

-Quando os operadores do metrô eram os funcionários do estado, nós, os passageiros, sofremos muito.

-Vocês faziam duas baldeações para ir ao Centro: Maria da Graça e Estácio, não era isso?

Sem responder a sua pergunta, exemplifiquei com um transtorno.

-Eu sou funcionário público e posso falar de cadeira; quando havia eleições com coletas de votos de papel urna a urna, meus colegas mexiam os pauzinhos para trabalhar na apuração.

-Por que eles teriam direito a alguns dias de folga no trabalho. - viu logo o motivo.

-Os funcionários do estado, no caso, do metrô, não eram diferentes. Assim, quando havia apuração de votos, várias estações eram desativadas por causa dos muitos funcionários do metrô que estavam de folga.

-Os passageiros do metrô que se danassem. - criticou.

-Certa vez, a estação de Del Castilho, onde eu saltaria, estava ativada, mas o condutor se esqueceu e passou direto, tive de esticar meu caminho até Inhaúma.

-Mas como você disse, melhorou com a concessão à Opportrans.

-Melhorou no que diz respeito à expansão do metrô que, no governo do Marcelo Alencar, chegou à Pavuna e à estação Arcoverde, em Copacabana, mas o sofrimento dos passageiros não amainou, pelo contrário.

-Sim, agora era muito mais gente demandando o metrô. - disse ele.

-Para você ter uma ideia, o trem do metrô, ao chegar a uma estação, as portas se abrem para a entrada e saída dos passageiros. O toque da sirene significa a sua partida. O que fazia sistematicamente o condutor? Mal as portas se abriam, ele acionava a sirene, então, os cidadãos que iriam embarcar se apavoravam e o mesmo acontecia com os que pretendiam desembarcar. Resultado: uma balbúrdia dos diabos nas portas.

-Mas isso é tratar os passageiros como gado humano.

-Essa comparação expressa a pura realidade. - concordei com ele.

-Esse desrespeito ao ser humano ainda existe?

-Não; acredito que a estação da Cidade Nova, um tempo depois de inaugurada, foi um divisor de águas.

-Isso foi há pouco, não foi?

-A inauguração foi em 2010.

-Mas por que você disse que foi um divisor de águas? - demonstrou curiosidade.

-No início, ninguém se entendia, passageiros e funcionários do metrô. Todos estavam erráticos.

-Mas os funcionários do metrô têm obrigação de se entender, ou então, devolvam a concessão ao estado. - afirmou o Albino.

-A minha primeira viagem sem baldeação no Estácio, com parada na Cidade Nova, aconteceu sem que soubéssemos eu, os demais passageiros e, não duvido, o próprio condutor.

-Foi assim?

-O trem do metrô estava superlotado. Logo depois que partiu de São Cristóvão parou e nada de sair do lugar. Eu me achava espremido no vagão dianteiro na agonia da espera. Um sujeito perdeu a paciência e esmurrou a lataria do trem na parte em que ficava a cabine do condutor. Nada, nenhuma reação, permanecemos parados. Quando o trem, finalmente, saiu do lugar, para a surpresa e alegria geral, não rumou para a estação do Estácio e sim para a da Cidade Nova. Nada de baldeação; o caminho para o Centro e Zona Sul ficava, para nós, mais curto.

-Tudo se acertou, então? - manifestou-se o Albino.

-Que nada! A desinformação ainda imperava. Muitos passageiros, vindos da zona sul ou do Centro, que pretendiam ir à Tijuca, se viram na estação da Cidade Nova, rumo à Pavuna e tiveram de desembarcar para pegar a composição do outro lado da plataforma e voltar para a estação da Central do Brasil.

-Que transtorno! Não havia nenhum som nos alto-falantes para orientar os passageiros?

-Não.

-Há uma agência, a Agetransp, para intervir e colocar as coisas nos eixos. Ah, sim: a mulher do ex-governador era advogada do metrô. - comentou o Albino.

-O próprio metrô se autopuniu, já que a Agetransp era um zero à esquerda e distribuiu bilhetes gratuitamente. Mas eles mereciam, mesmo, era uma multa de valor bem elevado.    

-Depois disso tudo, o metrô melhorou, como você disse antes, foi um divisor de águas?

-Melhorou, sim. Mas, por vias das dúvidas, vou e volto do trabalho fora da hora da correria. Pego o metrô, às 5h 40min da manhã e antes da 4h da tarde.

-Não pensa em pegar na hora do rush?

-Um amigo meu, o Dieckmann, certa vez, postou, através do celular, no facebook, instantâneos dele e de demais passageiros numa composição do metrô enguiçada na hora do rush. Caramba, a expressão de desalento do Dieckmann!...

-Postou no facebook, vêm logo os comentários. - disse-me.

-Ah, sim. Um deles dizia: “Saia daí logo que vão te acochar”.

-Os engraçadinhos sempre aparecem e o facebook está cheio deles. - observou com um sorriso.

-O facebook está cheio de tudo, principalmente de narcisos, gente que só falta fotografar o próprio umbigo e postar para todos verem, o que não é o caso do meu amigo. Descobri até que ele é reservado comparado com essa gente,

-Dieckmann, esse nome não me é estranho.

-Deve ser pela locução dele, não fica nada a dever aos locutores que há por aí, Ele já esteve em programas de rádio e de televisão falando de carros.

-Mas viaja de metrô?... Eu não.

-Viaja, mas não sistematicamente (*) como eu.

-Chegamos. - disse-me ele parando o seu táxi.

 

(*) Consultado, Dieckmann informou a este Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO que o redator entende muito de motorista de táxi e nada de usuários de metrô. E confirma que usa o metrô de segunda a sábado, o que o torna usuário sistemático.

É dura a vida de Distribuidor.

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

2833 - Anarriê


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5083                                 Data:  09  de abril de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXX

 

FESTA JUNINA - Eu estava na primeira infância e não posso, portanto, afirmar que o meu pai herdou do dele, o paiol de fogos de artifício, quando meu avô se mudou para o Jardim Botânico e nós ocupamos o apartamento que deixara vazio, o 103, da rua Cachambi; mas me parece que sim.

Numa noite junina, toda a família se reuniu no quintal e meu pai abriu o paiol que, na verdade, se resumia a uma caixa. Não havia morteiros, nenhum explosivo que nos ferisse os ouvidos e nos assustasse, e sim, buscapés. A alegria dos astrônomos, imprimindo os seus nomes na história da Astronomia ao descobrirem um cometa no céu, ficava longe da nossa com os buscapés, pois o contentamento das crianças é incomparável.

 Depois que todos os buscapés riscaram os ares, a atenção do meu pai convergiu para uma rodinha. Colocou-a no chão e acendeu o pavio.  Deus do céu, foi uma loucura! Girando, enquanto soltava fagulhas, ela veio atrás de mim e da minha irmã, nós dois corremos gritando alucinadamente. Com quase toda a sua energia queimada, a rodinha bateu numa reentrância do chão e pendeu para o lado, soltando as suas últimas fagulhas até apagar.  Tranquilos, agora, eu e minha irmã retornamos revigorados para a farra.

Então, vieram os balões japoneses. Meu pai acendia a pequena bucha branca e o nosso maior sonho naquele momento era que o balão iluminado ficasse pousado nas nossas mãozinhas adquirindo força para ganhar o céu. Não subia muito, mas isso não nos frustrava, pois a sua queda nas redondezas era outra razão de júbilo.

Quando a caixa se esvaziou, o que poderia significar o fim da festa, nosso pai nos surpreendeu: pegou folhas de jornal, amassou-as e uniu as suas pontas, enquanto olhávamos cheios de curiosidade. Isto é galinha preta. - disse para nós, que o rodeávamos. Aquele papel amarrotado ganhou, de fato, o formato de um frango depenado. Em seguida, ele colocou fogo numa das pontas e a subida da galinha preta sobre nossas cabeças reacendeu a nossa alegria.

Vieram outras festas juninas, a mais remota, depois dessa, foi na casa da minha avó na Rua General Padilha. O quintal era enorme, aliás, essa casa e a vizinha, a do Seu Teixeira, proprietário das duas, viriam a ser, depois de uma reforma radical, a primeira sede, em 1976, do SBT, canal 11.

No dia de um dos três santos, não me lembro qual, enfeitaram tudo com bandeirinhas e armaram mais ao fundo, longe do pé de jaca, uma fogueira que me pareceu de tamanho descomunal. Havia muita gente, muitos parentes, mas não senti a mesma felicidade daquela noite junina promovida pelo meu pai. Ficaram-me na memória apenas as bandeirinhas e as batatas doces retiradas das brasas das fogueiras e esfriadas pela minha mãe para eu comer.

Seguiram-se as festas juninas no colégio. As professoras do Colégio Manoel Bomfim, com a proximidade do mês de junho, já nos preparavam para o evento. Elas juntavam os grupos de alunos e alunas que dançariam a quadrilha e nos levavam até o pátio para o ensaio. No comando da marcação da dança, partiam as suas ordens num francês estropiado, mas ninguém, ali, estava interessado em saber que se tratava de uma tradição da nobreza da França do século XVII, que nos chegou através de Portugal. “Anarriê” (en arrière).  Os casais vão para trás – dizia a professora em bom português. “Alavantú” (en avant tous) – outra ordem, outro desentendimento. Todos os casais, agora, vão para frente – voltava a falar ela em português claro. “Olha o Túnel” - esta parte todos entendiam e gostavam de fazer. “Changê” (era o momento de os pares serem trocados). “Cumprimentos vis-à-vis” e os casais, frente a frente, se cumprimentavam. “Otrefoá” (autre fois”). A professora traduzia: “Outra vez”, e nós repetíamos o passo.

No dia da festa, não haveria traduções – deixavam as professoras isto definido – elas fariam as marcações em francês, apenas, porque era muito mais chique e impressionava mais.

A festa junina do ano em que eu cursava a Admissão foi o mais marcante; ensaiamos bastante no pátio, enquanto víamos e ouvíamos a barulhada vinda dos trabalhadores que armavam as arquibancadas que receberiam os espectadores: pais, parentes e vizinhos dos componentes da quadrilha, além da direção da escola.

Eu e minha irmã estávamos entre os dançantes e, para o nosso agrado, não formávamos um casal, nem no momento da troca, o nosso contato maior seria no “Olha o túnel”.

A festa duraria horas e o grande momento, a dança, estava marcada  para a tarde, às três ou às quatro horas, não me recordo bem. O que não me saiu da cabeça foi que, por volta das duas horas, escutei um estranho rangido e vi o rosto de pavor de uma professora. Meu Deus! - exclamou. Uma parte da arquibancada caiu. Ambulâncias com médicos, enfermeiros e macas não ocuparam os espaços exteriores da escola, nem corpos de mortos e feridos foram estendidos no lugar da dança da quadrilha, fora apenas um susto. Naquela hora, um número um pouco menor do que o de uma partida entre Canto do Rio x Portuguesa se achava ali, ou seja, seis ou sete pessoas, e elas não se machucaram. Isolada essa parte da arquibancada, a festa seguiu seu rumo.

Entendendo bem o francês arrevesado da nossa professora, a quadrilha fez bonito e mereceu aplausos, muitos aplausos, embora ninguém pedisse bis. Ainda bem.

Recordo-me de outra festa junina, num arraial armado em São Cristóvão, a que compareci por insistência de primos que moravam na Rua General Almério de Moura. Ela aconteceu no dia 14 de junho de 1970. Por que sei da data? Porque nesse dia houve o jogo Inglaterra x Alemanha, e as bandeirinhas, os balões, os quitutes, as barracas com seus desafios e brindes, não arrancavam o meu pensamento sobre o que acontecia no estádio de León no México.

Na Rua Chaves Pinheiro, diferentemente das duas onde morei; a tradição das festas juninas foi mantida pelo Lar de Júlia e pela casa da Dona Zita, uma vizinha. Eu comparecia às duas esporadicamente. Quanto à festa do Lar de Júlia, parece que acabou, enquanto a da Dona Zita, que faleceu há alguns anos, seus descendentes levam a festa junina adiante, sem ano para acabar.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

2836 - a crítica


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5086                                    Data:  14  de abril de 2015

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O RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DO HUMORISTA

PARTE II

 

O Rádio Memória se iniciou com uma informação do Sérgio Fortes, não era o Peter e sim o maestro Marcus Ribas que estava nas carrapetas. Em seguida, ele se referiu ao frenesi que Marcus Ribas provoca em Portugal, onde é mais esperado do que o Cristiano Ronaldo e, naturalmente, do que o Rei Dom Sebastião que, desde o século XVI, não volta das cruzadas para salvar o seu país.

Jonas Vieira aproveitou a oportunidade para cutucar (à distância) o Simon Khoury, que explora o Marcus Ribas, que, atualmente, participa de uma peça de muito sucesso.

-Qual é o nome da peça?

Com o rádio nos ouvidos, nunca escutamos a voz do Peter, mas a do Marcus Ribas, sim:

-Trezentas.

-Simon Khoury pediu três ingressos. - alcaguetou o Jonas Vieira.

Sérgio Fortes explicou o porquê desse pedido:

-Se a peça se chamasse Quatrocentas, ele pediria quatro ingressos; se se chamasse Quinhentas, cinco ingressos e assim, sucessivamente.

No país dos 30%, Simon Khoury se contenta com 1% apenas.

Veio o calendário e, logo depois, a primeira atração musical do dia escolhida pelo titular do programa: Nicolas de Souza Barros executando “Confidências”, de Ernesto Nazareth.

-Jonas, que beleza! Tocar violão de seis cordas já é difícil, sete, só aqueles expoentes, que nós sempre ressaltamos aqui, mas oito cordas... Eu não me aventuro.

-E você, Sérgio?

-Jonas, eu vou escolher uma opereta que é um sucesso eterno: “A Viúva Alegre”. Meu pai me contava uma história sobre as companhias líricas que vinham, com grandes cantores, cantar no Teatro Municipal logo depois da Segunda Grande Guerra.  Tudo muito empobrecido, mil problemas com o clima pós-guerra; mostravam grandes óperas, grandes títulos, mas não resultava... Um belo dia, tiveram a ideia de colocar em cartaz “A Viúva Alegre”, aí, o negócio bombou.

Depois dessa deliciosa (como diria o Dieckmann) introdução, anunciou o dueto “Die Lustige Witwe”, com Placido Domingo e Kathleen Battle.

Na vez do Jonas Vieira, ele retornou à música popular brasileira e escolheu “Farrula”, de Anacleto De Medeiros, com a pianista Fernanda Canaud e o bandolinista Joel Nascimento.

-Fernanda Canaud que já nos deu o prazer de sua presença aqui. - acentuou o Sérgio Fortes.

Depois, ele reabriu a “Sessão Cole Porter”, como costuma dizer todos os domingos praticamente. A canção era “I concentrated on you”, com o grande barítono Thomas Hampson.

Jonas Vieira ficou enlevado com a poesia e com a música.

-A letra diz que quando as coisas estão ruins, enevoadas, parecendo que tudo está desabando, ele se concentra nela, no sorriso dela e tudo muda. Maravilha!

-Arranjo sensacional, e Thomas Hampson é um barítono do primeiro time.- frisou o Sérgio Fortes.

Com o Jonas Vieira informando que vinha a “Pausa para Meditação”, do cronista Fernando Milfont, na locução do José Maurício”, encerrava-se a primeira parte do programa Rádio Memória.

“Depois de “A História e Seus Mistérios”, com alusões à Pedra de Roseta e aos seus hieróglifos decifrados (eu queria ver o Champollion decifrando o dilmês), Jonas Vieira reiniciou o programa como começou, ou seja, com Anacleto de Medeiros. Agora, com a Banda Filarmônica do Rio de Janeiro tocando “Jubileu”.

Como o Rádio Memória não deixa ao largo os acontecimentos mais prementes da atualidade, Jonas Vieira comentou a discussão que agita o Brasil sobre a maioridade penal aos 16 anos de idade.

-Em outros países não tem conversa. E como ficam as vítimas?... Você acha que tem alguém ingênuo hoje?... Essa garotada já sabe de tudo. Há inúmeros exemplos de gente que nasceu pobre e se tornou grandes homens (grandes mulheres, também). E há esses vagabundos que matam e roubam. - foram algumas das palavras que pinçamos da sua indignação.

Voltando à descontração, nesse Dia do Humorista, Sérgio Fortes se voltou para outra opereta, “O Morcego”, de Johann Strauss II. Antes mais uma introdução sua.

-Ele só compunha valsas, então, arranjou uma mulher nova que era cantora de ópera e se viu motivado a compor operetas.

Strauss estava casado com a cantora Henrietta Strauss, quando compôs, em 1874, “O Morcego”. Quatro anos depois, ela morria e ele se casou com uma atriz bem mais jovem. Este casamento foi um desastre para ele, porque ela, segundo a minha mãe, era uma “piranha”.

Para pronunciar o dueto que ouviríamos com o barítono Thomas Hampson e o tenor Jerry Hadley, Sérgio Fortes fez a confissão que treinara durante horas:

Komm Mit Mir Zum Souper”.

-E sobreviveu?

Depois de pegar a língua no chão e recolocar no local exato, respondeu ao Jonas Vieira:

-Tive de colocar própolis na garganta e fazer bochechos.

Depois do duo, Jonas Vieira trouxe de volta os acontecimentos atuais, ao “enxugamento de gelo”, que é a discussão da reforma política, sobrando bordoadas até para o ex-presidente Juscelino Kubitschek que, aqui entre nós, merece.

-Juscelino Kubitschek é considerado um grande estadista, eu não acho. Ele acabou com o parque ferroviário brasileiro que era dos melhores, da melhor categoria, implantado pelos ingleses. Eu viajei muito de trem. Ele construiu Brasília, onde tudo de ruim começou; não era assim quando o Rio de Janeiro era a Capital Federal.

Sérgio Fortes interveio:

-Eu li um artigo sobre o “custo Brasília”... O que motivou a criação de Brasília falhou, que era a interiorização, nada disso aconteceu. Uma capital que foi inaugurada há 55 anos em que você paga verbas para os deputados se deslocarem para lá, paga custo de moradia...

-O povo, felizmente, está despertando. - reagiu o Jonas Vieira com otimismo.

Com o retorno das atrações musicais, Jonas Vieira pediu ao Marcus Ribas “Coração Que Sente”, obra-prima de Ernesto Nazareth no violão de oito cordas de Nicolas de Souza Barros.

-Mais belo do que isso só no céu. - vibrou.

Sérgio apresentava, agora, aquele que ele considera o grande baixo-barítono da atualidade, Bryn Terfel. Ele interpretaria, do musical “My Fair Lady”, “The Street Where You Leave”.

Depois dos louvores à peça escolhida e com a proximidade do término do programa, Jonas Vieira se dirigiu ao seu parceiro:

-Sérgio, o que aconteceu de tão grave nessa sexta-feira?

-O falecimento da grande crítica, estudiosa de Shakespeare, conhecedora de teatro: Bárbara Heliodora.

-Devo a ela um elogio que me deixou orgulhoso: elogiou a parte histórica, que me tocava, de uma peça do Tuca Andrade.

Em seguida a esse aparte, Sérgio Fortes prosseguiu:

-Ela gostava muito de óperas e era fã do meu pai. Estava sempre presente no Teatro Municipal. A crítica teatral, como é feita hoje, veio de Bárbara Heliodora, que a aprofundou com análises.

Bem, a hora urgia e rugia, e Jonas Vieira encerrou o Rádio Memória com o seu costumeiro “demorado abraço”.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

2832 - As damas desbotadas


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5082                                  Data:  08  de abril de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXIX

 

JOGO DE DAMAS – Éramos miúdos, como dizem os portugueses, quando o nosso pai apareceu com um tabuleiro de jogo de damas. Era de madeira, com uma tampa fina que, fechada, guardava as 24 pedras: 12 amarelas e 12 roxas. Nessa tampa, havia o desenho de outro jogo, mas que não nos interessou; na parte mais consolidada da madeira estavam as 64 casas quadriculadas em que se travariam as disputas.

Antes de começarmos, meu pai citou as regras: a diagonal escura tinha de ficar sempre a esquerda do jogador, e o objetivo do jogo era “comer” o máximo possível de pedras do adversário para vencer. Meu irmão Lopo era muito novo para combater sobre o tabuleiro e minha irmã não se sentiu atraída por aquilo; jogávamos, então, eu, Claudio, meu pai e, às vezes, minha mãe.

Com os jogos, fomos apresentados a outras regras, como o “porquinho”, caso em que um dos disputantes fica sem casa alguma para movimentar uma das suas peças. Certamente, por causa do nome, tínhamos eu e meu irmão pavor de perder de perder por “porquinho”. Era preferível oferecer logo uma pedra para o adversário deglutir do que levar “porquinho”. Mas houve dois ou três casos em que a partida ficou tão amarrada, como no futebol em que os técnicos são retranqueiros, que as 24 peças ocuparam todas as casas, ou seja, não havia como ocupar uma delas. No futebol, o resultado seria 0x0, mas, no jogo de damas, aquele que tinha a vez de jogar sofria uma vexaminosa derrota de “porquinho” de 12 peças.

Aprendemos também que havia a obrigatoriedade de se “comer” a peça adversária, o que era lógico, pois um jogador sagaz oferece uma ou duas pedras ao seu antagonista com o objetivo de obter uma troca vantajosa para si, destruindo a defesa inimiga.

Havia alguns coleguinhas do nosso prédio da Rua Cachambi que também se interessavam pelo jogo de damas, mas com regras que iam de encontro àquelas ensinadas pelo nosso pai, como “soprar” a pedra que o adversário não moveu para “comer”. Ela era retirada do tabuleiro pelo oponente, soprada e ia juntar-se às outras vítimas daquele combate. Aquele sopro só servia para firmar em nosso espírito o ridículo dessa “regra”.

Às vezes, o Seu Santos, irmão da Dona Maria e tio do Fernando, nossos vizinhos espanhóis do 203, chamava a mim ou ao meu irmão Claudio para disputar partidas de dama contra ele. Um dia, a sua irmã contou à minha irmã, que ele se envolveu com o comunismo na Espanha e teve de se exilar no Brasil para não ser preso pelo regime do Generalíssimo Franco. Passou a morar, então, com a irmã, o cunhado, Seu Eduardo e o sobrinho, mas não era um agregado, ajudava financeiramente na casa; ele e o cunhado, aliás, trabalhavam numa fábrica da Rua José Bonifácio, quase esquina com a Suburbana.

Eu e meu irmão já havíamos adquirido algum traquejo com o jogo de damas, enquanto aquilo, para o Seu Santos, era apenas uma distração, uma das poucas distrações a que se permitia, pois nos parecia um homem muito sofrido. Quanto ao Seu Eduardo, bem mais extrovertido, não se importava muito com o jogo de damas, preferia me mostrar, transbordando de orgulho, revistas espanholas fartas em fotografias com os títulos obtidos pelo Real Madrid na Europa com aquela equipe estelar de Di Stefano, Puskas, Del Sol, Santamaria, etc, embora fosse originário de Santander – Dona Maria me esclareceu que se tratava de Santo André – e torcesse pelo clube da sua cidade.

Quando nos mudamos para a Rua São Gabriel, os competidores do jogo de damas aumentaram em quantidade e em qualidade. No puxado que fizeram na parte de trás da sua casa, Seu Dilmar reunia os amigos para conversar, ouvir corridas de cavalo, jogar sueca e também damas. Ele não tinha muita paciência com a movimentação de peças num tabuleiro, por isso, jogou poucas vezes e mal. Frequentava assiduamente a casa do Seu Dilmar um amigo que morava numa casa de madeira da Rua Americana, cujo nome, infelizmente, escapou da minha memória. Um dia, nós nos vimos diante de um tabuleiro de damas na mesa daquela varanda improvisada.

-Eu só sei jogar com as pedras avançando, nunca recuando para ganhar a do adversário. - disse-me.

Joguei segundo os seus ditames e perdi.

-Só sei jogar “comendo” pra frente e pra trás.” - devolvi.

Jogamos do meu jeito e venci.

Despontava, na Rua Americana, como um exímio jogador de damas, o Zé Luís. Ele era sambista, desfilava como passista na Unidos de Cabuçu e também cantava sambas nos ensaios do Inferno Verde, depois Unidos do Cachambi, que pertencia ao grupo mais baixo dos desfiles das escolas de samba no carnaval.

Os garotos, eu e Claudio, não éramos páreo para ele, os adultos também, não. Meu irmão, que já se mostrava mais apto do que eu na movimentação das pedras no tabuleiro, ainda lhe dava trabalho.

Uma noite, Zé Luís me viu e me chamou para acompanhá-lo. Disputaria uma partida de jogo de damas com um mestre, segundo suas palavras. Subimos a Rua São Gabriel e entramos numa casa onde, numa varanda iluminada, um senhor, com um tabuleiro de damas e as 24 peças nas suas posições, sobre uma mesa de vidro, o aguardava. Foi uma partida e tanto, mas o senhor correspondeu às expectativas: derrotou o Zé Luís.

Em seguida, ele demonstrou interesse em jogar uma partida contra mim. Apesar dos arroubos da juventude, titubeei, mas, incentivado pelo Zé Luís, aceitei.

Não, não venci. Neste minidicionário autobiográfico, a ficção só entra se a minha memória desvirtuar a realidade. Perdi a partida, mas ela terminou com poucas peças do lado do meu adversário. O mestre me elogiou, disse que, praticando mais, eu seria um ótimo jogador. Penso, ainda hoje, que ele fora muito gentil, que não quis mostrar todo o seu engenho e arte na partida em que nos enfrentamos.

Quanto ao seu aconselhamento, não segui; começava a ser magnetizado pelo jogo de xadrez.

Voltando ao nosso primeiro tabuleiro de damas, ele foi dos anos 50 aos 80; depois que as marcas da tinta na madeira se mostraram gastas pelo tempo, foi guardado como recordação até os anos 90.

 

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2015

2835 - Fortes emoções


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5085                                   Data:  12  de abril de 2015

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O RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DO HUMORISTA

 

-Serginho, o que aconteceu de bom hoje?

Como nada acontece de bom hoje, Sérgio Fortes se voltou para o passado para atender ao pedido do titular do programa Rádio Memória.

-Dia 12 de abril. Galileu Galilei é condenado por heresia em 1633.

-E Galileu estava certo. - observou o Jonas Vieira.

A pior política é você estar certo quando gente poderosa está errada – escreveu o economista canadense Kenneth Galbraith sobre as contundentes críticas de Keynes aos estadistas americano, inglês e francês que impuseram, em 1918, o Tratado de Versalhes à Alemanha, que viria a ser a semente da Segunda Grande Guerra Mundial.

-Jonas – prosseguiu o Sérgio Fortes – isso nada tem a ver com você, que é carioca das Laranjeiras (só não é tricolor), mas, em 1726, foi fundada a cidade de Fortaleza.

-Não diga!... E eu não estava lá.

Se Martins Soares Moreno, a paixão da Iracema – a virgem de lábios de mel do romance de José de Alencar – soubesse que surgiriam por lá os irmãos Gomes, Ciro e Cid, teria desistido de fundar o Ceará.

-Em 1861, inicia a Guerra Civil nos Estados Unidos. - continuou o Homem-Calendário.

-Morreu muita gente; por isso, os Estados Unidos se chamam Estados Unidos. Aqui, nada acontece. - comentou o Jonas Vieira.

Trata-se da primeira guerra moderna, porque a produção industrial abasteceu os beligerantes.

-Em 1961, primeira viagem do homem, Yuri Gagarin, ao espaço. Foi uma comoção. Lembra-se bem, Jonas?

-Demais; abalou o mundo.

Nesse voo, Yuri Gagarin disse que a Terra é azul. Não viu, evidentemente, o Brasil, onde as coisas estavam pretas com o Jânio Quadros na presidência da República.

Sérgio Fortes continuou no espaço sideral:

-Em 1981, aconteceu o primeiro voo espacial Columbia. Eu acho que depois veio o Challenger... Eu não sei se o Columbia foi um dos acidentados...

-Eu não me lembro. - disse o Jonas Vieira.

-Challenger, eu sei que foi.

O meu irmão Claudio também, Sérgio Fortes. Vou dizer porque:  ele ouvia o programa do Simon Khoury, na Rádio Jornal do Brasil, em 1986, logo depois da explosão do ônibus espacial, quando este apresentou uma charada sobre uma gravação aos ouvintes com promessa de prêmio aos que acertassem.   Meu irmão acertou, mas a sua alegria murchou quando o Simon Khoury anunciou o prêmio: uma viagem no Challenger.

 Sérgio Fortes ainda estava dubitativo:

-Acho que foi o Challenger e o Discovery.

Bem, Discovery virou canal de TV a cabo.

-Nascimentos. - impostou a voz.

-Em 1827, Francisco de Paula Victor, o primeiro negro a ser ordenado padre no Brasil.

-Olha só. - surpreendeu-se o Jonas Vieira.

-No Brasil, já vivia – 1767 a 1830, o grande compositor negro José Maurício Nunes Garcia.

-Em 1863, o escritor Raul Pompeia.

-Raul Pompeia. - repetiu o Jonas Vieira com admiração.

O autor da obra-prima “O Ateneu” se suicidou no Natal como Werther, personagem de Goethe e da ópera de Massenet. Raul Pompeia construía seus personagens com extraordinário talento; o diretor do Visconde de Cairu, onde estudamos, nos lembrava muito o Aristarco do Ateneu. Na época da ditadura do Marechal Floriano Peixoto, Raul Pompeia foi um dos pouquíssimos intelectuais que ficou ao lado dele, gerando inimizades figadais entre seus pares. Discursou à beira do túmulo do ditador e teve de engolir o artigo de Luís Murat “Um louco no cemitério” em que é chamado de covarde e doente. A hipersensibilidade do escritor, que deveria se dedicar bem mais à literatura do que à política,  levou-o ao suicídio.

-Em 1919, nascia Oswaldo Louzada, ator brasileiro.

Se o Simon Khoury lá estivesse, provavelmente teria um causo para contar envolvendo o Oswaldo Louzada.

-Em 1931, nascia um gênio, Chico Anísio.

-Ele foi demais. Fantástico! - concordou o Jonas Vieira.

Morreu em 23 de março de 2012. Foi-se o Chico Anísio, mas ficaram os 200 personagens que criou, como bem desenhou o chargista Chico Caruso.

-Em 1933, nascia a soprano Montserrat Caballé. Espanhola, muito importante.

Que voz!... Mas por que era tão gorda sendo vegetariana?

-Em 1940, outro gênio nascia: o pianista norte-americano Herbie Hancock.

E prosseguiu o Homem-Calendário distribuindo títulos de gênios a granel.

-Em 1941, outro gênio, Bobby Moore da seleção inglesa. Grande zagueiro, grande jogador.

Campeão do mundo em 1966 e temido adversário do Brasil na Copa de 1970, só era superado em talento, na seleção da Inglaterra, pelo Bobby Charlton.

-1942 – disse o Sérgio Fortes – nascia o piloto argentino Carlos Reutemann, o último argentino que chegou à Fórmula 1. Depois disso, acabou.

Para piorar a situação dos argentinos, Carlos Reutemann teria dito, depois de perder o título de 1981 para o Nélson Piquet, que este rapaz até pouco tempo atrás varria o box da sua escuderia.

-Em 1956, nascia o ator...

Interrompeu-se e se voltou para o Jonas Vieira:

-Você sabe quem foi Andrés Arturo Garcia Menéndez?

-Não estou ligando o nome à pessoa. - titubeou o Jonas Vieira.

-Jonas, é o Andy Garcia, ator cubano. A família dele foi para os Estados Unidos em 1961.

De Havana para Hollywood.

-Falecimentos. - entoou o Sérgio Fortes a voz em ré menor, a mesma do Réquiem de Mozart.

No entanto, logo se mostrou allegro ma non troppo.

-Jonas, isso aqui é para você me dizer se conhece. Você conhece Euclides Pinto Martins?

-Pinto Martins é de Fortaleza. Dá nome ao aeroporto de lá. - não hesitou na resposta.

-Ele foi um aviador natural de Camocim. - adicionou o Sérgio Fortes.

-Camocim, no Ceará. É isso mesmo.

-Eu nunca ouvi falar. - foi sincero o Sérgio Fortes.

-O aeroporto tem, exatamente, o nome dele: Pinto Martins.

-Em 1945, falecia Franklin Delano Roosevelt; ou seja, 12 de abril de 1945, quase no final da guerra na Europa, mais uns dias...

-Ele tinha chegado lá. - completou o Jonas Vieira.

-Em 1975, Josephine Baker. Fez um sucesso danado; apresentou-se no Copacabana Palace.

-Não só no Copacabana Palace, Sérgio, como nos terreiros de macumba.

-Também?... surpreendeu-se o Homem-Calendário.

Depois das gargalhadas, Sérgio Fortes informou que 12 de abril era o Dia do Humorista (tinham, portanto, de caprichar nas piadas), o Dia do Obstetra e o Dia do Cosmonauta.

-Falando em Dia do Obstetra, Jonas, deixa-me registrar o nascimento do meu neto.

-Como se chama.

-Tom Fortes Clein. É um misto da família Fortes com inglês. Ele é ruivo. Estou imaginando o dia em que eu passear com ele, ruivo, de olhos azuis, e alguém perguntar: Quando é que ele foi adotado?

Aqui vai a sugestão do Biscoito Molhado: americanizar o bebê e chamá-lo de Tom Strongs Clein.

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

2831 - pelo telefone


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5081                                  Data:  07  de abril de 2015

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SABADOIDO DE ALELUIA

 

-O Luca não esperou o sábado de aleluia e malhou o Judas. - puxei o assunto com o Claudio.

-Quem foi o Judas dele?- quis saber.

-O Zuenir Ventura. Luca estava indignado com a crônica em que narra a apoteose do concerto do Nélson Freire, no Teatro Municipal e o jantar, depois, com o pianista.

-Li a crônica. - disse meu irmão.

-O Zuenir Ventura ia tão bem no seu texto, mas no final desafinou vergonhosamente. - disse e acrescentei:

-Ele comparou as mãos do Nélson Freire com os pés do Neymar. - lembrou meu irmão com um sorriso maroto.

-Luca, ao ler essa comparação, subiu nas tamancas e com toda a razão. Ele estava possesso no telefone: “Nélson Freire com três anos de idade já tocava piano. O que esse Neymar com três anos fazia com os pés? E mais: o pianista também usa os pés, pois o piano tem 3 pedais”. Como o Zuenir Ventura faz uma comparação dessas?!...”

-Sim, mas quando o Nélson Freire começou a tocar, não alcançava os pedais.

-Sim, Claudio, mais uma razão para louvar o talento das suas mãozinhas nas teclas do piano.

-Sabe o que é Carlinhos, esses escritores temem parecer elitistas, querem se mostrar integrados ao povão, por isso sai uma comparação dessas de um concertista com um jogador de futebol.

-Eu contei para o Luca uma passagem do Zuenir Ventura na cadeia, narrada pelo próprio.

-Qual?

-O Nélson Rodrigues, que tinha trânsito entre os militares, durante a ditadura, foi ao presídio para tirar o amigo Hélio Pellegrino de lá, este disse que só sairia se libertassem o Zuenir Ventura também. Então, o Nélson perguntou se o Zuenir era de explodir bombas por aí, o Hélio Pellegrino garantiu que não, e os dois saíram da cadeia. Sabe o que o Luca me disse?... “Se era para fazer essa comparação das mãos do Nélson Freire com os pés do Neymar, deveria continuar preso.”

-Ele malhou o Judas com vontade. - concluiu.

Nesse instante, o Daniel e a Gina apareceram na cozinha vestidos para sair.

-Vão almoçar às 9h da manhã? - não perdi a piada.

-O Daniel vai fazer exame médico para poder ingressar na academia de ginástica. - esclareceu a Gina.

-Eu estou gordo, Carlão.

Apertou as carnes do abdômen e acrescentou:

-Antes que isto se transforme em pneus de Fórmula 1, eu tenho de agir.

-O Daniel começa empolgado e depois desiste. - demonstrou a Gina o seu ceticismo.

-Já estou quase tão gordo quanto o Válter do Fluminense; assim, nós dois não podemos mostrar todo o nosso talento nos campos de futebol.

Claudio interveio na conversa:

-O Daniel, depois que passou a trabalhar na Casa da Moeda, vai ao portão e o ônibus o leva para o serviço, na volta, o ônibus o traz até a porta de casa. Na hora do almoço, lá, não precisa se preocupar, porque tudo está perto. Resultado: engordou.

-Quando eu trabalhei nos Correios, eu estava magro e o meu bolso também. - observou.

-Carlinhos, é provável que nós voltemos a tempo para lhe dar uma carona até em casa. - disse-me a Gina, enquanto os dois saíam.

-Claudio, tem levado em um ou dois canais da HBO a série documental “Hoje é Dia de Música”, que é excelente.

-Carlinhos, eu não vejo, praticamente, nada na HBO.

-Então, trate de ver; são dez documentários, de 50 minutos cada, abordando a história da música popular brasileira. Assisti a três e todos muito bons. Acredito que eles se inspiraram na série documental de outro canal americano sobre a história do Jazz, e eu gravei todos: 20 CDs.  

Para que ele se interessasse mais, persisti com o tema.

-O episódio com Pixinguinha, Donga e João da Baiana foi muito bom. Havia música nas grandes casas do início do século XX; na sala, tocava-se choro; na cozinha e no quintal, samba. Pixinguinha, que começou a aprender teoria musical com o pai, tocava na sala, mas, atraído também pelo samba, ficava um tempo na cozinha e no quintal.

-”Batuque na cozinha, sinhá não quer.” - citou meu irmão o sucesso do João da Baiana revivido pelo sambista Martinho da Vila.

-Referem-se, no programa, ao “Pelo Telefone” do Donga, que teve o mérito de fazer o primeiro registro em disco da palavra samba.

-É um samba que tem quase tudo de maxixe.

-Sim, Claudio, eles disseram que muitos, entre eles o China, irmão do Pixinguinha, já faziam sambas antes do “Pelo Telefone”, e que o ritmo definitivo do samba veio mesmo dos sambistas do Estácio, na década de 30, mas acentuaram a importância do Sinhô, para essa travessia, com os seus sambas na década de 20.

-Quem conhece bem a origem do samba é o Nei Lopes.

-Há um depoimento do Nei Lopes, nesse episódio, que diz que o  samba foi concebido na  África, nasceu na Bahia e se desenvolveu no Rio de Janeiro.

-Falaram dos “Oito Batutas”, da viagem que fizeram a Paris?

-Claro. Como o grupo durou de 1919 a 1923, por aí, não difundiu ainda o samba autêntico, na Europa, e sim o maxixe, cateretê, batuque e, evidentemente, o choro.

-Eles fizeram sucesso no exterior, pois ficaram  meses tocando numa boate parisiense. - acentuou.

 -Nesse episódio, tratam do ostracismo a que foi relegado o samba com a ascensão da bossa nova na virada dos anos 50 para os 60, e que o Chico Buarque surgiu como o novo Noel Rosa trazendo o passado de volta.

-Na época, houve compositores que o criticaram por levar toda a música para trás.

-Eles pensam que nós temos memória curta, Claudio, mas havia rivalidade entre aqueles artistas que surgiram na década de 60. Mas deixe-me prosseguir.

-Prossiga.

-Então, a Hebe Camargo, sempre antenada, no programa dela, uniu João da Baiana, Donga, Pixinguinha e Chico Buarque.

-Chico Buarque era novinho.

-Parecia o Michael Corleone dançando com a Apollonia no Poderoso Chefão III. - comparei.

-Reprisam, de vez em quando, esse encontro no programa dela. O Chico canta com o Donga “Pelo Telefone”. - disse ele.

-No depoimento do Chico Buarque, Claudio, ele diz que aprendeu a letra com o pai, mas a errada, a da paródia.

-”Pelo telefone, chefe da polícia manda me avisar, que na Carioca tem uma roleta para se jogar...”- entoou meu irmão a paródia.

-O Donga, então, o corrige - disse. No filme, não se nota isso, o Donga está empolgadíssimo, cantando e dançando, enquanto o Chico Buarque ri muito e repete as palavras cantadas pelo Donga.

-Quando vai ser o próximo “Hoje é Dia de Música”?

-Claudio, soube, agora, que entrou no ar em outubro do ano passado, espero que a reprise persista por mais alguns meses.

Passamos a falar de outros assuntos, até que a Gina e o Daniel voltaram do exame médico.

 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

2830 - Economizado Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5080                                   Data:  06 de abril de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXVIII

 

DINHEIRO – Não foi no curso primário, comendo pão e banana, enquanto observava os que merendavam pão e ovo, com a baba bovina e elástica escorrendo pelos cantos da boca, como escreveu Nélson Rodrigues que passara pela mesma experiência quando menino, que senti a falta de dinheiro. Não foram também os meus presentes de Natal, comparados com os dos demais amiguinhos, que me fizeram sofrer com as poucas posses do meu pai. Naquela época, a mídia televisiva não nos bombardeava, a partir do momento em que largávamos a mamadeira, com bens de consumo. Assistíamos aos episódios do “Tom & Jerry” sem sucessivas interrupções com reclames dos últimos lançamentos dos fabricantes de brinquedo.

O que me fez sofrer com a falta de dinheiro foram as mudanças de endereço, a saída, com a minha família, de uma casa para outra.

Morávamos na Rua Cachambi, num prédio de seis apartamentos desde 1955, talvez um pouco antes, não posso precisar. No último trimestre de 1961, veio a notícia que o senhorio resolvera vender tudo, sem ferir o direito do inquilino de preferência na compra. Uma ironia amarga, pois ninguém ali tinha condições financeiras de exercer esse direito. Os vizinhos espanhóis eram, para mim, como meus familiares mais próximos, pois os parentes distantes não me abalavam emocionalmente.

Então, os locadores daquele prédio se viram obrigados a receber os interessados e a mostrar os seus lares. Se não quisessem se submeter a isso, deviam entregar as chaves ou os pontos. Ficamos o máximo possível; assim, duas ou três estranhas criaturas foram recebidas pelo meu pai. Uma delas se manteve na minha memória; era um moço, de uns 30 anos de idade, que sempre aparecia de terno e, sentado na poltrona da nossa sala, diante do meu pai, usava vocábulos rebuscados que deveria ter pinçado de alguma obra do Camilo Castelo Branco.

Não saímos sem luta; a minha mãe pediu à Dona Maria, a vizinha espanhola, que vedasse uma peça da urdidura dos canos d' água, o que provocava vazamentos nas paredes do nosso apartamento. Quando o potencial comprador se deparou com enormes manchas úmidas nas paredes da sala e da cozinha, reagiu com naturalidade, era esperto, não foi enganado.

No dia da nossa mudança, a minha mãe chorou, justificava as suas lágrimas com a perda da convivência com tão bons vizinhos. Na realidade, aquela vizinhança era problemática; a Dona Iolanda do 101, por exemplo, conseguiu brigar com todos, menos com a minha mãe. Numa das brigas dela com a Dona Salete, por exemplo, do 202, voou até faca. Num desses embates, Dona Salete bateu à nossa porta e, depois de entrar, chorou copiosamente, enquanto era consolada pela minha mãe. Em outra briga, foi a vez da Dona Iolanda procurar a minha mãe, como era por demais irascível para se debulhar em lágrimas, execrava a Dona Salete, enquanto a minha mãe a ouvia sem emitir opinião.

Comportando-se politicamente, ela se orgulhava, na despedida, de nunca ter brigado com um só daqueles vizinhos.

Fomos para a Rua São Gabriel e os espanhóis, que ainda não se tinham mudado, vieram nos visitar. Depois, eles partiram para Jacarepaguá, onde o meu irmão Claudio foi vê-los uma vez. De lá, o Fernando, filho da Dona Maria, também apareceu para nos ver, até que a distância impôs a separação definitiva.

Tudo por causa do pouco dinheiro e ficou essa cicatriz em mim.

Na Rua São Gabriel, também na Americana, pois um beco na nossa vila nos ligava a esta rua, morei dos 13 aos 16 anos, ou seja, vivi lá a minha adolescência. Logo, os vizinhos da Rua Cachambi ficaram esquecidos, mesmo os espanhóis e as peripécias da Escola Manoel Bomfim se desfizeram diante do mundo novo que se descortinava no curso ginasial do Colégio Visconde de Caqiru. Eu vivi, nas ruas São Gabriel/Americana, os anos descompromissados que antecedem a vida adulta.

Então, na passagem do ano 1964 para 1965, passamos por experiência traumática idêntica à anterior: o senhor das vinte e quatro casas da vila colocou todas à venda. Alguns inquilinos tinham bala na agulha, como se diz belicamente e se tornaram proprietários das casas que ocupavam; mas não era o nosso caso. 

Fomos todos para o casarão da minha avó na Rua General Padilha, em São Cristóvão, com exceção da minha irmã, que foi hospedada pela família de amigas suas da casa 18. Ficamos fora um mês, dois, até o meu pai se equilibrar financeiramente.

A minha mãe chorou, de novo, na despedida, lamentando perder a convivência com vizinhos com que ela se dava tão bem. E eu, mais do que antes, senti a falta que o dinheiro fazia.

Quando as coisas começaram a se ajeitar, ou seja, os jornais deixaram de pagar seus empregados com vales e, algumas vezes, com aparelhos eletrônicos, passando a pagar em metal sonante, o meu pai alugou uma casa na Rua Chaves Pinheiro e para lá fomos, desafogando o casarão da minha avó, que já acolhia a família da sua filha mais velha.

Com pouco tempo de Chaves Pinheiro, um influente amigo do meu pai lhe indicou um trabalho de revisor na gráfica do D.N.E.R., mas ele titubeou. A intervenção incisiva da minha mãe o fez assumir esse cargo público. Pouco depois, eu ouvia as seguintes palavras do meu pai:

-Sempre fui getulista, mas não ganhei nada com isso; com os militares, eu melhorei de vida.

Agora, eu recebia mesadas. Só gastava um centavo em último caso, acumulei mesadas sobre mesadas. Depois que elas cresceram, tratei de multiplicá-las – foi a minha maneira de seguiu, em sua totalidade, o preceito bíblico.

Nas décadas de 80 e 90, dedicava as minhas horas de almoço, depois de comer, é claro, a acompanhar os preços das minhas ações numa corretora da Bolsa de Valores.

Alguns conhecidos falavam do meu amor ao dinheiro, nada mais irreal. Eu não reverenciava o dinheiro, ele não merecia a minha devoção pelo mal que fizera, pela sua falta nas horas em que tanto precisamos dele.

A questão é toda essa: ter o dinheiro suficiente para não ficar sujeito à sua vontade. Das criações humanas, o dinheiro é o menos confiável.

Perdi a fama de Tio Patinhas. De uns anos para cá, passei a gastá-lo, mas na medida certa, pois, como sabemos, é necessário cautela para lidar com ele.