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segunda-feira, 10 de junho de 2013

2395 - cartas atualizadas


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4195                                  Data:  26 de  Maio de 2013
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CARTAS DOS LEITORES

-“Olá, acabei de ler o Biscoito Molhado com a “resenha” sobre o programa de domingo. Fiquei feliz com seus comentários e mais feliz ainda em fazer o programa – na verdade, participar dele. Sentar àquela mesa de gente tão entendida foi um desafio, mas uma oportunidade imperdível, além do prazer de ouvir a seleção de músicas. Um abraço amigo.” Branca Euler
BM: Branca, a sua participação no Rádio Memória foi ótima, mormente quando você solicitou a gravação “Boogie Woogie Bugle Boy” com “The Andrews Sisters”. Eu, que desconhecia tudo, fiquei tão impressionado que comentei a sua solicitação com uma colega de trabalho, a mais culta entre todas, a Lourdes. Ao ouvir o nome da canção, a impressão que sentiu, pelo que percebi, só pode ser narrada por Marcel Proust quando comeu o bolo Madeleine. O sentido era outro, audição em vez do paladar, mas o afloramento da memória involuntária foi parecido.
Disse ela.
-Essa música ouvi num filme que passou na televisão... Eu assistia a muitos filmes, principalmente cômicos, ao lado do meu avô.
Como ainda estivesse dubitativa, pediu que eu cantarolasse “Boogie Woogie Bugle Boy”. Não o fiz, pois seria um desastre. Procuramos, então, escutá-la no computador. Tentamos três ou quatro sites, mas estavam bloqueados. Mas os censores da informática da ANTAQ cochilaram e nós conseguimos o que tanto queríamos. Seu rosto se iluminou:
-É essa mesma. E o filme a que assisti com meu avô era com a dupla Abbot & Costello.
Como você disse que ficou feliz, concluímos que houve uma felicidade geral.

-“O preclaro “mitron” exagerou no Luiz Felipe que disse “I”. O Rei Cidadão não era numerado, foi único. Se houvesse outro este seria o “II”, o que sucede com o Papa Francisco, ainda não se cogita de um segundo. O Polonês mereceu a numeração adequadamente. Há trezentos anos li uma biografia da Rainha Elizabeth, sei lá o nome do autor, e escrita no início do século XX, não lhe dava o número, o.k.?”
“Sobre o Vespasiano, muito aprecio a criação de mictórios públicos que até hoje, pelo menos na Europa, recebem o seu nome. Quando o Tito reclamou da ideia que reputou malcheirosa, ele esfregou uma moeda no nariz do filho, sabiamente declarando: Pecunia non olet. É vero.”
“Vi um documentário na TV 2 (aliás, todas que exibiram eram ótimas) em que Michael Palin (do Monty Python) refez “A volta ao mundo em 80 dias”, achando que os trens e barcos mais velozes lhe dariam vantagem. Ledo engano. Esbarrou com a modernidade das greves. Releve-me a letra, estou disputando a mesa com o Calígula.”
“Além do Miojo, fabrico uma aberração que lembra uma sogra.”
“P.S. Na página 138, a dama do cerimonial fala do Rei Juan Carlos I. Agora estou intrigada para valer. Estou errada? Não tenho como apresentar provas do que digo.”Rosa

BM: Vamos por parte, iniciando com o post scriptum. A dama do cerimonial é Claudia Matarazzo, irmã de Andrea Matarazzo, que foi embaixador do Brasil na Itália no governo Fernando Henrique Cardoso. Ela, por sua vez, foi Chefe do Cerimonial do Governo do Estado de São Paulo e escreveu o livro “No Palácio” em que conta as suas experiências – presente que a nossa missivista me deu através do Luca.
Alude ela ao jantar que o governador Mário Covas ofereceu a Sua Alteza Real, Felipe, Príncipe das Astúrias, filho do Rei Juan Carlos I da Espanha no Palácio Bandeirantes. Narra que, no momento da sobremesa – hora em que se fala de amenidades – o governador, que era de origem espanhola, estranhou que o Príncipe comia o sorvete com o garfo e, não podendo conter a sua curiosidade, perguntou-lhe se isso era um costume do norte.
“Na verdade não é, governador, mas não encontrei a colher de sobremesa entre os talheres, de modo que estou usando o garfo.”
Bem, a Rosa que foi tão severa ao me chamar a atenção que não cabia o “primeiro” no Rei-Cidadão, deixou passar o “I” do Juan Carlos. Mas não quero que ela deixe de criticar os meus textos. Como diz o Dieckmann, “nada de jornal chapa branca, pau na administração.”
Rosa me chama de “mitron”, aprendiz de padeiro em francês, não sei se à vera ou de brincadeirinha, de qualquer maneira aceito o epíteto com o meu avental sujo de farinha de trigo.
Ela se reporta à reportagem sobre o meu encontro e o do Elio Fischberg com Balzac, às vésperas da encenação da segunda peça teatral do autor de “A Comédia Humana”.
Rosa, a nossa polimata, trata com muita intimidade Sua Santidade João Paulo II. Falando nisso, numa das suas epístolas, disse que polimata é a minha avó. Como não adjetivou avó com um “torta”, não me senti ofendido.
Em seguida, ela fala das Elizabeth rainhas da Inglaterra e de um livro do início do século XX. Certo, a filha do rei do filme oscarizado, assumiu o trono em 1952 e, no ano passado, comemorou o seu Jubileu de Ouro.
Agora, Rosa se refere à edição deste periódico sobre o Coliseu. A frase do Imperador Vespasiano, citada em latim, virou nos dias de hoje um princípio do Direito Tributário, aquele em que o Estado diz que o dinheiro não tem cheiro.
O sanguinário Nero virou um prosaico nome de cachorro, dizia Nélson Rodrigues. Digo isso para esclarecer que Calígula é um dos gatos da Rosa, que lhe atrapalhou a redação da sua missiva.



  “Dessa vez, não há dúvida, imaginou o Dieckmann a este distribuidor, era mesmo eu! Dia sem nuvens na capital do fog, só comigo a bordo.” Dieckmann
BM: Os leitores não se espantam mais, sabem que o Dieckmann é porta-voz de si mesmo. Ele se reporta à viagem que fizemos pelo tempo, ano 1943, em plena Segunda Grande Guerra Mundial, precisamente sobre essa frase que escrevi sob o efeito do medo dos aviões da Luftwaffe:
Olhei para o céu e nada vi que assustasse, nem mesmo nuvens negras anunciando chuva.
Bem, nunca estive realmente em Londres, mas, pelos livros que li e filmes que vi, não tenho dúvidas que lá chove. Pensei também em citar a corrida de Fórmula 1, que passa na televisão, quando uma as maiores preocupações dos profissionais envolvidos nela é a previsão meteorológica; mas me corrigi a tempo: na Inglaterra, a Fórmula 1 é disputada na cidade de Silverstone(*).
Voltando ao Dieckmann, o que depreendi do seu texto é que o fog impede a entrada do cumulus nimbus em Londres. Ou não entendi o Dieckmann? Bem, ele diz que não me entende, estamos quites, então.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO acompanha a Formula 1 e desconfiou da afirmativa biscoital, pois achava que haveria alternância entre duas pistas. Mas o redator está certo, Silverstone é exclusiva desde 1987. Segue um resumo da Wikipédia, que explica a desconfiança do Distribuidor:
Prova automobilística realizada no Reino Unido, disputada pela primeira vez no ano de 1948. No Brasil, é denominada erroneamente de Grande Prêmio da Inglaterra, quando a designação correta deve ser Grande Prêmio da Grã-Bretanha, versão em português para a expressão British Grand Prix, nome oficial da corrida.
O Grande Prêmio da Grã-Bretanha é hoje uma prova válida pelo calendário do Campeonato Mundial de Fórmula 1 da FIA, sendo atualmente disputado no Circuito de Silverstone, perto da cidade de Silverstone, em Northamptonshire. O Grande Prêmio britânico, ao lado do GP italiano, são as duas únicas corridas a figurar, ininterruptamente, em todas as temporadas do Campeonato Mundial de Fórmula 1, desde 1950.
Há uma divergência quanto ao ano de surgimento do Grande Prêmio da Grã-Bretanha. Alguns apontam o ano de 1926, quando foi disputada, em Brooklands, a primeira corrida denominada "British Grand Prix", criada graças às vitórias obtidas pelo piloto britânico Henry Segrave, que havia triunfado no Grande Prêmio da França, em 1923, e no Grande Prêmio da Espanha, no ano seguinte, despertando o interesse de seus compatriotas pelo esporte a motor. Essa primeira corrida foi vencida pela equipe francesa de Louis Wagner e Robert Sénéchal, pilotando um Delage 155B. Em 1927, houve uma segunda e última edição dessa corrida de Brooklands, vencida pelo francês Robert Benoist, igualmente a bordo de um Delage 155B.
Desde então, não mais ocorreu, no Reino Unido, nenhuma outra corrida automobilística sob a denominação de "British Grand Prix", salvo após o fim da II Guerra Mundial, quando foi disputada, em Silverstone, no dia 2 de outubro de 1948, o chamado "I RAC British Grand Prix", considerado por outros como a verdadeira origem do Grande Prêmio britânico.
A partir de 1950, o GP da Grã-Bretanha passou a integrar o calendário da Fórmula 1, tendo sido a primeira corrida válida pelo Campeonato Mundial daquele ano. Entre 1955 e 1886, outras duas pistas alternaram com Silverstone o privilégio de sediar o GP britânico, sendo elas Aintree (mais conhecida pela disputa hípica) e Brands Hatch. A partir de 1987, Silverstone passou a abrigar a corrida com exclusividade.
Antes de ter passado por modificações, em 1991, a pista de Silverstone era uma das mais rápidas do calendário da Fórmula Um.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

2394 - paciência de Jó


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4194                                  Data:  25 de  Maio de 2013
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SABADOIDO FECHADO PARA BALANÇO

Sim, há leitores que gostam de saber das peripécias do Sabadoido, poucos, mas há, como a Rosa Grieco. Por isso, cartas chegam à redação com a pergunta sobre o que aconteceu; um leitor até especulou que o Biscoito Molhado trocou o sábado pelo domingo, que desprezou o Sabadoido pelo Memorioldominical (Rádio Memória da Roquette Pinto). Calma, pessoal: este periódico, por não ter anunciantes, fica com espaço para falar de todos os dias da semana.
Acontece que o local onde se reúnem os frequentadores do Sabadoido está fechado para obras; a garagem que acolhia o fusquinha da Gina terá condições de receber, futuramente, até carro importado do ano, mas não veremos isso. Ainda bem...
Com a Gina que, além de colocar a mão na massa (de concreto), ser a mestre de obra e, principalmente, cuidar do orçamento, a obra do Sabadoido terminará no tempo determinado e sem superfaturamento. Aguardem.
Tentando matar as saudades desses poucos leitores, formaremos uma espécie de patchwork, que no idioma de Machado de Assis, significa algo parecido com colcha de retalhos. Para isso, cerziremos as conversas (verídicas ou prováveis, é bom frisar) que foram travadas com os membros  das reuniões, nestes dias da obra, e juntaremos tudo numa manhã de sábado, teremos, espero, um Sabadoido com cheiro de tinta além de,  não posso perder o trocadilho, bem concreto.
Vamos lá.
-Claudiomiro, eu telefonei no dia do seu aniversário, e ninguém atendeu.
-Agradeço, embora eu saiba que foi a Glória que lembrou a data exata.
-A Glória, Claudiomiro, lembrou-se até do dia do aniversário do Elio Fischberg. Mesmo o Carlinhos, que foi um dos vinte participantes do nababesco almoço que ele patrocinou, quando completou 60 anos de idade, se esqueceu.
-A Jurinha também tem uma memória de elefante para essas datas. - interveio o Vagner, aludindo à irmã da Gina.
Se a memória delas é de elefante, a de muitos homens, nessa questão, é de peixe. - pensei sem me manifestar.
-E, com toda certeza, a Glória dirá qual o dia do seu aniversário. Eu sei que é por esses dias. - disse o Claudio.
-Dia 24 de maio, e espero presentes. - manifestou-se  com um sorriso travesso.
-O Gordo...
-Já sei, Luca, você o esquartejou na mesa de pingue-pongue. - interrompeu-o meu irmão com conotação irônica na voz.
-Não, ele me inscreveu, à minha revelia, num torneio importante. Disse para ele que já estou com 68 anos de idade (faltam 7 meses), que jogo depois de me besuntar com pomadas de anti-inflamatórios mais o spray, que coloco flexores nos joelhos, nas canelas...
-O que não o impede de derrotar o Gordo. - interveio o Claudio de novo.
-Tenho ganhado dele, algumas vezes, mas ele joga mais do que eu. Quando o Gordo está mal das partidas, começa a se cobrar: “braço preso... estou com o braço preso.”.
-Ele enfia a raquete com vontade?
-É só porrada, Carlinhos, embora ele coloque muito efeito nas raquetadas. Vou agora para Ourinhos, visitar o Zé da Luz e trazer raquetes de boa madeira e o acolchoado importados, isso é de vital importância. Tenho jogado com um acolchoado que já está sem textura. Quanto à madeira... 
E eu aprendi que, para o mesatenista, a madeira das raquetes tem quase a mesma importância que Stradivarius dedicava aos violinos quando os fabricava.
-O Gordo já tem isso tudo? - indagaram.
-Tem, mas repito que ele é melhor, no tênis, do que eu.
-Luca, o e-mail enviado por você, “Quem são esses jovens?” repercutiu bastante entre os internautas.
-Carlinhos, eu não identifiquei quase ninguém...
-O Dieckmann me escreveu revelando que só conseguiu descobrir o casal Clinton quando eram hippies.
-E você?
-A minha maior surpresa foi o Stalin, mais pela mudança na sua fisionomia com o correr do tempo do que pelo fato de ele ter sido ladrão de bancos, quando jovem.
Cláudio se movimentou para trazer os copos de bebida da cozinha.
-Como a Rosa Grieco disse: eu inundo.
Com essas palavras, levantei-me da cadeira, mas o Luca me fez testar meu esfíncter uretral.
-Carlinhos antes que me esqueça... A Rosa mandou  que eu lhe entregasse   um livro sobre cerimonial. Como você sabe, ela foi do Itamaraty...
-Fico agradecido a ela e depois eu me detenho sobre o presente.
Saindo do banheiro, esbarrei com meu sobrinho.
Daniel, há meses que a minha impressora emperra. São os cartuchos. Com isso, sou obrigado a imprimir páginas de assuntos particulares  no trabalho.
-Isso é peculato, Carlão.
-Sei disso; eu até repunha as folhas A4 que tenho em casa, porque lá não tem serventia alguma. Um colega,quando viu isso, disse que eu não me preocupasse, pois já viu gente lá dentro imprimindo o Vade Mecum...
-Por que você não compra uma impressora a laser?... É um toner  em vez de cartucho, que reproduz milhares de páginas até você precisar de outro toner. Dura à beça a não ser que você pretenda imprimir o Vade Mecum.
-Não sou advogado. –frisei.
Dei dois ou três passos rumo à assembléia do Sabadoido e lhe dirigi   uma pergunta que eu mesmo responderia.
 -Sabe o que quer dizer Vade Mecum em Latim?...Vem comigo.
-Não vou, não, mas foi.
Ao retomar o meu assento, a palavra estava com o Luca.
-São nove horas daqui a Ourinhos. Não tenho pique para dirigir esse tempo todo, Pedro (seu filho) vai revezando comigo no volante.
-Vai quando e retorna quando? - quis saber o Vagner.
-A Kiara tem Conselho de Classe, vou aproveitar e partir nesse dia, e pretendo voltar no domingo. Vamos, eu, Glória, Kiara e Pedro.
-Com todo o equipamento do pingue-pongue importado, você vai ficar mais ainda endiabraaaaaaado.
-Você se cuida, garoto. - fingiu o Luca que o alertava seriamente.
-E o carro, Daniel?
Claudio não deu tempo de o Daniel satisfazer a curiosidade do Vagner, e disse exaltadamente.
-Ele só dirige por aqui. Eu, logo que tirei carteira, fui pela Avenida Brasil pegar o Augustinho (seu sogro) no trabalho,
-O Daniel, desde menino, nos jogos de fliperama, demonstrava um reflexo de piloto de Fórmula 1. Isso é virtual, mas é um indicativo. - frisei.
-Fala com a Gina. - grunhiu o Claudio voltado para mim.
-Eu aprendi muito com o Seu Amaury (Amaury F. de Almeida, autor de vários livros sobre marcas de carros). Sempre que eu cometia o menor deslize, ele dizia que sentia a dor na própria carne. - recordou o Luca.
-A Gina teme as barbeiragens dos outros motoristas, não as do Daniel. - tentaram justificar a sua apreensão.
-Pensando assim, ninguém sai de casa. - bradou o Claudio,
Daniel, com a paciência bíblica que o caracteriza, ouviu tudo silenciosamente e voltou para o seu quarto. Minutos depois, vinham até nossos ouvidos as notas do seu teclado.
  

quinta-feira, 6 de junho de 2013

2402 - Hortelino foi à guerra


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4202                            Data:  05  de Junho  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA
ANTES TARDE DO QUE NUNCA
2ª PARTE

Jonas Vieira fez uma menção aos convidados ausentes e Sérgio Fortes nomeou um deles, Luzer, e justificou sua ausência: participaria  com a Orquestra Sinfônica Brasileira do projeto Concerto para a Juventude no Teatro Municipal. A hora – informou - 11h da manhã e o preço era simbólico, 1 real. Esperava que todos comparecessem.
Em se tratando de concertos domingueiros matinais, descobri no you tube uma exibição do Beniamino Gigli no Teatro João Caetano, às 10 horas e 30 minutos, com transmissão  da PRF 4 - Rádio Jornal do Brasil. Correspondendo ao imenso amor que o povo brasileiro lhe dedicava, o tenor com  a voz mais bela do século XX encontrou uma brecha na sua agenda nesse horário. Pelos aplausos que recebia a cada ária que cantava, notava-se que o teatro estava à cunha, como escrevia Camilo Castelo Branco e outros autores do século XIX.
Jonas Vieira aludiu às obras primas da música popular brasileira e exemplificou com a composição de Ernesto Nazareth, “Bambino.”
-Catulo da Paixão Cearense, muito sabido, colocou letra. - comentou.
Sabido até de mais - acentuamos nós.  Tentou pôr em prática o que dissera Heitor dos Prazeres: “Música é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro”. Assim, tentou se apossar da música de João Pernambuco, violonista admirado por Villa Lobos, em que pôs os versos do “Luar do Sertão.”
Conta Medeiros de Albuquerque que Catulo da Paixão Cearense, ao ver Alberto de Oliveira, considerado um dos três maiores poetas parnasianos, juntamente com Olavo Bilac e Raimundo de Oliveira, apresentou-se como colega.
-Colega?... Você também é farmacêutico?- devolveu Alberto de Oliveira.
Apesar desses deslizes, escreveu letras inspiradas e a que fez para “Bambino” foi adjetivada pelo Jonas Vieira de “pomposa”.
O cantor era mais um daqueles que o titular do programa ressuscita, pelo menos para mim e que surpreendem pela bela voz: Zé Carlos.
Depois de ouvida a gravação, Sérgio Fortes enalteceu a participação de Dino Sete Cordas, ídolo de virtuoses do violão como Rafael Rabelo.
É um engano julgar que tudo é pretérito no Rádio Memória, há momentos em que se fala do presente com o objetivo de se preparar o futuro. Aliás, sem incorporar o passado ao presente não se chega a um bom futuro. Temos de aprender a conjugar os verbos em todos os tempos.
Isso posto, que mais parece uma segunda pausa para meditação, vamos adiante. O tema atual, que é sempre comentado nesse horário, foi a maioridade penal.
Mas voltemos às músicas.  Com o ânimo de quem já esquecera a derrota do Fluminense para o Olímpia, Sérgio Fortes se reportou a uma canção do filme “Candelabro Italiano”. Recordou o extraordinário sucesso que esse filme alcançou com Troy Donahue, Suzanne Pleshette, Angie Dickinson e Rossano Brazzi. Sem sair dos bons tempos, afirmou que foi o primeiro filme a que assistiu com 18 anos de idade, legalmente, pois os que vira, até então, não o foram (no meu caso, o único filme proibido em que me impediram de entrar no cinema, quando “dimenor”,  foi “E deus criou a mulher”).
Para tanto, recordou o tricolor, rumou para o Cine Rian, de calça Lee branca, sapatos do Moreira da (*) Silva (se fosse do André Victor Correia certamente escorregaria) e camisa da moda.  Imaginou – disse – que conquistaria todas as mulheres com que se deparasse, mas nada fora da rotina aconteceu.
Para o consolo do nosso amigo, confesso que, além dos meios que ele usou para conquistar as mulheres, cultivei topetes dos maiores galãs do cinema, até mesmo do Troy Donahue e também não consegui fazer carreira de Casanova.
Quanto ao filme, de fato, o sucesso foi tamanho, que até inspirou um dos mais infames trocadilhos já perpetrados: cão de lábio italiano.
A música era “Al Di La” e ele pediu a gravação com o trompetista Al Hirt, sem deixar de citar que Connie Francis a cantou. Essa alusão à Connie Francis reportou-me ao Pasquim, em que um gaiato (não me lembro qual) referindo-se ao estupro que Connie Francis sofrera, disse que ela cantava tão mal, que o estuprador fez justiça.
Depois do trompete de Al Hirt, soou uma voz que não nos era desconhecida. Era a voz do Dieckmann. Com apenas 45 minutos de atraso, para um programa de 60 minutos, ele chegou. (**)
Antes tarde do que nunca.
E pensar que o Dieckmann, como chefe, no Departamento de Marinha Mercante, instituiu reuniões todas as segundas-feiras, às 8h 30min da manhã, com vaias para quem chegasse atrasado.
Sem constrangimento, pelo contrário, pimpão como o Sérgio Fortes quando assistiu “Candelabro Italiano”, comentou o triângulo amoroso do filme e concluiu com uma risada:
-O Rossano Brazzi dançou.
No clima de alegria, Jonas Vieira me surpreendeu com outro bom cantor que eu desconhecia, Luís Cláudio. Conhecido seu, vive em Guaratinguetá, depois de largar a vida artística e seguir a arquitetura, ou seja, fez o caminho inverso de Tom Jobim, Chico Buarque e outros menos votados.
A gravação, segundo o Jonas Vieira (tomo o máximo cuidado para não trocar o seu sobrenome), é de 1955. Era uma valsa intitulada “Folhas Soltas”.
Encerrada a música, sobressaiu a voz do Dieckmann que, como dizia a Marilyn Monroe sobre os atrasos dela: “Erro a hora, mas não erro o dia”
-A música que ouvimos, pelo seu andamento, pelo som de acordeon, lembra as músicas de Mon Oncle (Meu Tio), de Jacques Tati.
E prosseguiu:
-Trata-se de uma valsinha...
E logo se corrigiu:
-Valsinha é coisa do Vinícius. Valsa.
Por incrível que pareça, na composição “Valsinha”, Chico Buarque ficou encarregado das palavras e Vinícius de Moraes das notas musicais.
-E você Dieckmann? - passou-lhe a bola o titular do programa.
-Eu trouxe...
Dieckmann colocou tanta ênfase nessas duas palavras que os ouvintes, como eu, esperaram um samba inédito do Noel Rosa ou uma raridade do Pixinguinha, ou mesmo a décima sinfonia de Beethoven completa. Mas não foi uma má escolha: Madalena do Ivan Lins.
Disse que o compositor não lhe agrada muito, mas que estava inspirado nessa canção. O nome da cantora deixou para depois, como surpresa.
Timbre, swing, sotaque deixaram claro quem era a intérprete.
-Queridos ouvintes, vocês ouviram “Madalena”, com Ella Fitzgerald. Quero que todos saibam que tomei contato com essa gravação no fabuloso bar “O Ponto da Cerveja”, em Porto Alegre.
Caramba, mesmo atrasado, o Dieckmann quer se apossar do programa.
Para encerrar o Rádio Memória, Jonas Vieira recorreu a um sucesso do carnaval de 1948, de Aníbal Silva, Éden Silva e Noel Rosa de Oliveira, regravado pela Elza Soares: “Falam de mim.”.
-Se eu soubesse, teria trazido a minha fantasia de Arlequim. - não perdeu a piada o Dieckmann.
Por que não a fantasia de Pierrô?... Porque ele, diferentemente do Rossano Brazzi, não samba nos triângulos amorosos. (***)
Quanto a Noel Rosa de Oliveira, com o samba “Chica da Silva”, de 1963, transformou-me em Salgueirense.
Num clima de confraternização, encerrou-se mais um Rádio Memória.

(*) Moreira da Silva foi um cantor. O sapato sob medida do Sergio Fortes era do Moreira.

(**) O Dieckmann ficou uma arara com essa afirmação. Disse que até processaria o redator, o jornal e este modesto Distribuidor, por divulgarmos notícias sem verificação. A versão da irada ex-Autoridade Marítima é que o Sergio Fortes o convocou para a gravação às 13 horas e que ele chegou no estúdio 20 minutos antes, como lhe é peculiar comparecer antes de hora marcada,  quando ainda estava rolando o Al Di La.

(***) Nessa, não deu para segurar o Dieckmann, vai dar processo de difamação.



quarta-feira, 5 de junho de 2013

2401 - Hortelino vai à guerra


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4201                             Data:  04  de Junho  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA
ANTES TARDE DO QUE NUNCA
1ª PARTE

O início do Rádio Memória desse primeiro domingo de junho deu a impressão que trocaria a música pelo futebol, isso porque o Sérgio Fores, na sua primeira intervenção, confessou que estava combalido por causa da derrota do Fluminense para um time paraguaio (provavelmente falsificado)  há quatro dias. Disse que o futebol brasileiro não anda bem das pernas, e quando se referiu à derrota recente do Vasco da Gama por cinco gols, Jonas Vieira, como bom vascaíno interrompeu o tema futebolístico.
Ora, o titular do programa tinha carradas de razão, pois, sendo o espírito do programa incorporar as coisas boas do passado no presente, Sérgio Fortes teria de citar o Expresso e Expressinho do Vasco, que no treino jogava e no jogo treinava, e de falar em Barbosa, Augusto e Rafanelli, Eli, Danilo e Jorge, Tesourinha, Lelé, Ademir, Ypojucan e Chico. Mas não, seu companheiro de programa lembrou o Vasco de Pedro Ken, Abuda, Tenório e quejandos. Citasse o Botafogo de Nílton Santos, Garrinha, Didi, Amarildo e Zagalo e até eu aceitaria de bom grado a troca da música pelo futebol durante aquela hora de domingo.
-O que vamos ouvir, Sérgio?
Enquanto o Jonas Vieira fazia essa pergunta, eu me surpreendia com o fato de ali não estar um convidado, fosse ele o Dieckmann, o Luzer, a Branca, o Fernando Borer ou outra pessoa, pois os repórteres do Biscoito Molhado colheram a informação que o novo formato do Rádio Memória seria com uma terceira pessoa, ou seja, um ouvinte escolhendo a gravação a ser tocada.
Antes de responder, Sérgio Fortes aludiu ao CD com 150 músicas que recebeu de presente daquele que dá nome ao estúdio da Rádio Roquette Pinto com suas candelas. Seria, certamente, uma caixa de CDs ou um caixote. A música era At Last do filme Orchestra Wives, de George Montgomery...
Nesse momento, Sérgio Fortes pediu para que tudo fosse deletado. A derrota do Fluminense embaralhara os seus pensamentos e ele trocara o protagonista do filme pelo autor da canção. Refeito, prosseguiu:
-Música de Mack Gordon e Harry Warren, os atores de  Orchestra Wives são George Montgomery e Anne Ruthford. A orquestra é de Ray Anthony.
Ao nome de Ray Anthony, todos ficaram encantados, e ele prosseguiu:
-Ray Anthony foi trompetista da orquestra de Glenn Miller, depois, organizou a sua própria.
Como o tempo era escasso, a gravação foi ao ar.  Dispusesse de mais minutos, nosso amigo falaria, provavelmente, que Ray Anthony tocou com Glenn Miller entre 1940 e 1941, quando se alistou na Marinha para lutar contra as forças do eixo. Glenn Miller também participou da guerra com a sua orquestra militar, e tudo acabou tragicamente; o avião em que se encontrava com os seus músicos foi abatido, talvez pelo fogo amigo, sobre o Canal da Mancha.
-Parece que ouvimos Glenn Miller. - manifestou-se o Jonas Vieira depois que soou a última nota de At Last.
Sérgio Fortes concordou e enalteceu os metais, a perícia dos instrumentistas que lidam com os instrumentos de sopro.
Era a vez agora do titular do programa indicar a  próxima atração. Tratava-se de uma parceria do Vinícius de Moraes com o Pixinguinha.  Bem, se nem Bach escapou das letras do Vinícius, não seria o Pixinguinha, por maior que fosse a sua genialidade, que escaparia.
Os dois se uniram para criar a trilha sonora do filme de Alex Viana, “Sol sobre a lama”. A canção solicitada pelo Jonas Vieira era “Mundo Melhor”. Ficamos sabendo, então, (eu, pelo menos) que a primeira a gravá-la foi Elizeth Cardoso. Tratando-se da Elizeth, como foi acentuado, parece que a gravação é definitiva, mas, garantiu o Jonas Vieira, a Elza Soares não ficou atrás, ainda mais que a acompanhava a Orquestra Sinfônica da Petrobras.
-Notem como combinam bem a voz roufenha da Elza Soares com a sinfônica.
E estava ele coberto de razão. 
A bola voltou ao tricolor que me surpreendeu com Mozart. Pode música clássica?- perguntei-me. Em seguida, veio-me à mente o prelúdio da ópera Traviata, de Verdi, pedida pelo Fernando Borer, semanas antes.  O filho do Paulo Fortes (não posso esquecer o grande barítono) queria que se tocasse o minueto do Divertimento K.334.  Altamiro Carrilho gravou essa joia no CD “Clássicos Em Choro”, mas ele pediu outro flautista, um norte irlandês.
-Para não escolher o Altamiro Carrilho, o flautista tem de ser excepcional. - pensei.
E era; pois a gravação foi feita com James Galway que, não foi à toa, recebeu o título de “O Homem da Flauta de Ouro.”
Na vez do Jonas Vieira, foi lembrada a Mireille Mathieu na interpretação de “La Dernière Valse”. Excelente pedida.
Ele, então, enveredou pela biografia daquela que foi considerada a sucessora de Edith Piaf e até recebeu condecoração com a Legion d' Honneur.
-Era filha de um operário que teve 14 filhos.
-Ele faltava muito ao trabalho. - deduziu o Sérgio Fortes maliciosamente.
-Estava sempre comparecendo...
Não ao trabalho, como já foi dito. - acrescentei sem nenhum interlocutor para rir da minha piada.
Jonas Vieira, depois de ser interrompido, prosseguiu com a  biografia da baixinha (sua altura era 1,53 cm).
-Ela nasceu em 1947.
-É uma menina.
Com as palavras do Sérgio, eu me considerei um menino, pois também nasci nesse ano.
Depois do encantamento trazido pelo timbre raro da Mireille Mathieu, Sérgio Fortes, sem sair do ambiente franco-brasileiro, aludiu a um amigo, sumidade em pneus, chamado Claude Fondeville. Em seguida, penitenciou-se publicamente de apelidá-lo, com a sua turma, de Cláudio Fundo de Quintal.
Jonas Vieira, aproveitando esse gancho, trouxe-se à baila “O Peru Molhado” e os comentários sobre o programa. Sérgio Fortes aparteou prontamente:
-Não! É o Biscoito Molhado!...
Bem que o apresentador do Rádio Memória sabia diferenciar nosso periódico, que é vegetal (trigo) do outro, que é animal, mas pretendia se vingar porque o chamei de Jonas Resende. No parágrafo que se segue, vai a minha defesa:
Jonas, meu apelido, junto às pessoas mais íntimas, é Hortelino Troca-Nomes, uma paródia do famoso personagem de gibi Hortelino Troca-Letras. Para que o amigo tenha uma ideia dessa minha deficiência, chamei um chefe que atendia pelo nome de Danton das Couves de Danton Jobim, o senador do Rio de Janeiro na época. Meu consolo era o governador de São Paulo, Franco Montoro, que chamava o jornalista Jânio de Freitas de Jânio Quadros.
Caso eu me torne reincidente, prometo escrever mil vezes Jonas VIEIRA, creio que neste texto, já escrevi umas cem vezes.
Sem sair da riqueza musical francesa, Sérgio Fortes solicitou a música de Michel Legrand para o filme “Houve uma vez um verão” ou “Verão de 42.”
Caramba!... Antes de lançarem esse filme no Brasil, eu li o livro. Tudo estava em inglês e o meu conhecimento do idioma, na época,  não ia além do book on the table, mas a história me prendeu de tal maneira que, com inúmeras consultas ao dicionário, cheguei até a última página.
O filme é ainda mais emocionante devido às notas musicais pungentes e belíssimas de Michel Legrand. No momento em que a melodia que ouvimos nesse domingo foi tocada no filme, precisamente na cena em que a moça recebe a carta lhe informando da morte do marido na guerra e dança com o adolescente que a amava, toda a equipe de filmagem chorou. É o que dizem, e eu acredito, enquanto enxugo uma furtiva lágrima.
Jonas Vieira pediu, então, uma pausa para uma choradinha... digo, para meditação. Era o intermezzo para a segunda parte.

terça-feira, 4 de junho de 2013

2293 - na garupa da lambreta dos belgicanos


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4193                                  Data:  23 de  Maio de 2013
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FRASES E COMENTÁRIOS

“Existem, sem dúvida, certas coisas à disposição do operário moderno que até mesmo Luís XIV teria se deleitado em possuir, caso pudesse obtê-las, como por exemplo, os produtos modernos de higiene dentária.
A frase acima foi dita por Joseph Schumpeter, economista austríaco que viveu de 1883 a 1950.
Enquanto Karl Marx viu, na sua bola de cristal, a destruição do capitalismo pelas suas contradições internas, Joseph Schumpeter se mostrou mais realista, quando formulou a teoria da “Criação Destrutiva” do capitalismo. Marx tinha a atenuante de ter vivido na época do capitalismo selvagem, enquanto Schumpeter já pôde observar os fatos que demonstravam que esse regime econômico sempre sobrevivia aos piores momentos.
O processo de destruição criadora, como a viu Schumpeter, é básico para se entender o capitalismo. Isto porque o impulso fundamental que põe e mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção em transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa. Há, então, um processo de mutação, o antigo é destruído e são criados elementos novos.
Debruçando-nos sobre a sua frase, que alude à falta de higiene na época do reinado de Luís XIV, vale lembrar que o Palácio de Versalhes, construído por ele, com 2153 janelas, 67 escadas, 352 chaminés, 700 quartos, 1250 lareiras e 7000 hectares de parque, não tinha um só vaso sanitário.
Schumpeter não queria, com isso, realçar apena a falta de higiene dos poderosos da antiga monarquia, e sim o progresso econômico, através do tempo, que trouxe bens e serviços até mesmo para as pessoas mais humildes.
Sempre que leio, ou alguém me diz, que Dom Pedro I, quando viajou nove dias do Rio de Janeiro a Santos e  bradou pela Independência do Brasil, transporto logo essa viagem para os dias de hoje e constato que qualquer pessoa  faz essa viagem em cerca de cinco horas num ônibus de rodoviária (*). De 1822 até agora, muitas “destruições criativas”, como observou Schumpeter, ocorreram.
Viva o capitalismo, mas não nos esqueçamos do que disse Winston Churchill:
“A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias.” Winston Churchill também disse que o pior regime econômico que existe é o capitalismo, excetuando-se os outros.

Boas memórias não têm preço, porque nada custam ao nosso bolso, ninguém as pode roubar, e nada no mundo poderia pagar por elas.
Está com a inteira razão a escritora Lya Luft quando escreveu a frase acima. Devemos cultivar as boas reminiscências e deletar as más. Sempre procurar cultivar as lembranças, seja conversando, como no Sabadoido; seja ouvindo, como no Rádio Memória da Rádio Roquette Pinto, seja lendo, como na leitura do Globo “Há 50 anos”, para citar alguns exemplos.
Se o computador representa o grande avanço na área tecnológico, nós, como seres humanos, não devemos ficar ultrapassados e mostrar que temos um excelente “disco rígido”, ou seja, memória de longo prazo. Sem descuidar da memória RAM,  a de curto prazo.
Citei o Globo “Há 50anos”, agora, porque tenho acompanhado com grande interesse a fracassada excursão brasileira de 1963 pelo exterior. Os acontecimentos que entesourei na mente afloram de tal maneira que parece que leio as notícias mais atuais.
O selecionado brasileiro pisa o solo europeu e, na primeira partida, é derrotado pelo escrete português por 1 a 0. Estavam frescas ainda as piadas do José Vasconcellos sobre o futebol lusitano em que Portugal fazia um gol “sem querer”, depois de levar uma enxurrada da seleção da Áustria, e em que o goleiro jogava de costas: “Era o Costa Pereira.” E ainda havia o Mateus: “Matateus matatou a bola e já perdeu...”
Mas o fiasco maior nos aguardava no jogo seguinte: os bicampeões do mundo apanharam de 5 a 1 da Bélgica, menos mal pois, no primeiro tempo, já perdíamos de 4 a 0. Mendonça Falcão, o folclórico presidente da Federação Paulista de Futebol, disse que os “belgicanos” jogaram muito. Otelo Caçador, que era responsável pela coluna humorística “Penalty”, em O Globo, instituiu o “Caneco Boa Vista” e afirmou que o nosso escrete merecia ganhá-lo. Meu pai, na ocasião, concordou plenamente. Foi meu pai, aliás, que me chamara a atenção para o Boa Vista, um time do interior do Brasil que, no início da década de 60, patrocinado por um empresário para excursionar fora do país, levou goleadas homéricas.
Da Bélgica, a seleção foi a França e conseguiu sua primeira vitória, 3 a 2. Em seguida, fomos para a Holanda nos reencontrarmos com a derrota, 1 a 0. Contra a Alemanha, o Brasil parecia ter se recuperado, ao vencê-la na cidade em que ela estava invicta há anos, por 2 a 1.
-“Não adianta, por pior que esteja o Brasil, a Alemanha é  freguesa de barba, cabelo, bigode.”  - comentou meu pai.
Por que se dizia naquele tempo “freguês de barba, cabelo e bigode”? Talvez o Jonas Vieira ou o Sérgio Fortes expliquem no programa Rádio Memória.
Voltando ao escrete canarinho, a vitória em campos alemães acendeu a esperança nos patrioteiros que o Brasil se vingaria da derrota de 4 a 2 para a Inglaterra, em 1956, no estádio de Wembley. Nada, conseguimos, com muito sacrifício, um empate de 1 a 1.
Depois, veio outra derrota vexatória, agora para a Itália, 3 a 0.
Não aprendemos com as derrotas e a derrocada veio na Copa do Mundo de 1966.
 O tempo transformou essas más memórias em boas e, como escreveu Lya Luft, elas não têm preço.

Há um exagero no Facebook (não fujo das boas lembranças apesar de essa rede social ser a coqueluche de hoje em quase todo o mundo). Lá, encontro amigos meus a quem nunca fui apresentado e que nunca vi mais gordo ou magro. Mas não era disso de que pretendia falar e sim dos retratos antigos que lá estão postados por parentes, isto é, de um desses retratos. Trata-se de uma fotografia nas areias da praia de Copacabana, do início da década de 60, com a irmã mais velha da minha mãe ladeada por dois dos seus filhos, Brasílio e Fernando. Como essa rede social permite incontáveis comentários, muitos se lembraram dessa terrível, em matéria de travessuras, dupla. Minha irmã escreveu que o pai deles, o Tio Eduardo, tentava discipliná-los com surras de correia que ele chamava de “fio mágico”, mas em vão, não havia mágica que os tornassem meninos bem comportados.
Em seguida, escrevi meu comentário. Citei outra dupla que não ficava muito atrás na arte de “enlouquecer” os adultos, meus irmãos Cláudio e Lopo. O que os dois aprontaram!... Lembrei que eles, no casarão da minha avó, em 1959, longe dos olhos da minha mãe, que lutava pela vida no hospital, ficaram mais endiabrados do que eram. Entre outras coisas, deram banho no gato, e, quando um dos meus tios foi impedir, a dupla o recebeu com uma chuva de água de borracha. Meus irmãos gostavam do som metálico da folha de zinco que separava um casarão do outro e, assim, várias foram as pedradas e os pontapés que desferiram nela. A vizinha reclamava em altos brados naturalmente e a minha avó levava as mãos à cabeça em desespero:
-Há vinte anos que conheço a Otília e, até hoje, nunca briguei com ela.
E não brigou, pois meus irmãos foram exilados numa casa de outros parentes, na Urca, onde para desespero da minha mãe, que soube quando já estava recuperada, andaram até em garupa de lambreta.

(*) Disse o Dieckmann ao Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO: “Obviamente esse seu redator nunca foi a Santos, partindo da rodoviária do Rio de Janeiro. É viagem de 7 a 8 horas, porque a travessia pela banlieue de São Paulo é morosa, cheia de esquinas e congestionamentos. E cai na Anchieta, que ainda poderá acrescentar incontáveis horas à viagem”. Bom, tirado o galicismo dispensável – que serviu para evitar a menção a Suzano, Mogi das Cruzes e adjacências – não há porque duvidar da palavra desse santista-carioca, que ainda acrescentou: “ e nem pensar em ir pela Rio-Santos, é quebra-molas que não acaba mais”. Como não existem quebra-molas em nenhum lugar do mundo a não ser no Brasil, ficamos livres de mais um estrangeirismo do Dieckmann.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

2391 - memória da gatinha

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4191                                   Data:  19 de  Maio de 2013
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BISCOITO ESFARELADO

Quem escuta a Rádio Memória, nesse período em que o Sérgio Fortes desfruta suas férias na Europa e o Dieckmann o substitui, logo repara, desde o primeiro programa em que apresentou as canções que o marcaram pela vida (principalmente nesse), que ele sempre recorre aos adjetivos para expressar sua admiração. Tudo bem: Eça de Queirós adjetivava muito; Nélson Rodrigues, admirador do grande mestre lusitano, o seguiu, e, agora, Dieckmann segue os dois.
Nós, que sintonizamos a Rádio Memória aos domingos, 8h da manhã, ouvimos, então: “interpretação magnífica”, “cantora espetacular”, “ritmo delicioso” e por aí vai. No entanto, o adjetivo da predileção do Dieckmann é “arrebatadora”. A própria Branca, sua companheira, quando foi uma das convidadas do Jonas Vieira, no programa dos Dia das Mães, assinalou com uma ponta de ironia, quando escolheu uma gravação para ser tocada:
-Como diria o Dieckmann, a voz da cantora é arrebatadora.
Dieckmann, recordo-me bem, já fez variações sobre esse adjetivo. Quando eu não o conhecia muito bem, isto é, poucos meses depois de surgir no meu trabalho para assumir a chefia de uma coordenação, escreveu uma carta para o cinéfilo Artur Xexéo sobre uma atriz, que atuara no filme “Cassino Royale”, que andava desaparecida das telas há anos (*). Nessa carta, ou e-mail – tenho dúvidas, pois isso aconteceu em 1999/2000, ele afirmou que a beleza dessa atriz era “inarrebatável”. Artur Xexéo apôs uma interrogação depois do adjetivo, enquanto dissertava sobre as observações do nosso amigo sobre o sumiço da bela atriz cujo nome também sumiu da minha cabeça.
Agora, no programa do Jonas Vieira, em que o Dieckmann tem tantas oportunidades de usar o “inarrebatável”, não passa do “arrebatadora”.

Pego o metrô na estação de Del Castilho, na ida ao trabalho, poucos minutos antes das 6h da manhã. Vejo sempre, em qualquer vagão que eu entre, muitos alunos do Colégio Militar, que pegaram o trem entre as estações de Pavuna e Inhaúma.
Como senta ao meu lado, no serviço, uma concursada que estudou sete anos nesse tradicional educandário, contei-lhe esse fato. Disse-me ela que há aulas que se iniciam às 6h 30min da manhã.
Entendi, então, por que o Dieckmann, ex-aluno do Colégio Militar, impôs, quando chefe no Departamento de Marinha Mercante, reuniões 8h da manhã, às segundas-feiras, com os seus subordinados.
Mas voltemos à minha colega. Disse-me ela que o Colégio passou a aceitar alunas em 1989 e que ela pertenceu ao segundo ano das meninas militarizadas, uma minoria que não passava de 10% em cada turma. Deduzi que, com essa experiência, ela se adaptou bem à nossa sala, onde é a única mulher, e a linguagem de caserna dos seus colegas jorram aos borbotões.
Como conheço muitos ex-alunos do Colégio Militar, cheguei a corrigi-la, uma vez, quando ela disse que o Costinha estudou lá.
-Castrinho, e foi colega de turma de um primo meu.
Curioso, perguntei-lhe se ainda permanecia aquela divisão que, antes, era clássico e científico, ou seja, se aqueles que não pretendiam seguir a área que enfatizava as ciências exatas e sim humanas, iam para a turma de Corte e Costura.
-Sim; mas eu não fui para a turma de Corte e Costura. - disse-me ela.
O Elio Fischberg foi, pensei sem me manifestar, por ela não o conhecer.

Bons tempos os da faculdade. Às vezes, mesmo não havendo necessidade de eu ir, eu lá comparecia. Isso aconteceu na prova oral de Geografia Econômica, em que já obtivera nota maior do que 7; apareci para animar os colegas. Eles sabiam que eu ali estava para dirimir alguma dúvida sobre a matéria, se fosse possível, assim ninguém me lançava um olhar inamistoso; vendo-me como aquele que se livrou do incêndio do circo e quer desfrutar a cena dos que tentam escapar. Por causa dessa camaradagem, escrevi a frase inicial que inicia esta reminiscência.
O professor de Geografia Econômica era o Camões. Quando, no primeiro dia de aula, nos são apresentadas as matérias com seus respectivos professores, fiquei pasmo quando li o nome Camões. As perguntas, sem um interlocutor para respondê-las, me vieram logo. Será que era um descendente do autor de “Os Lusíadas”?  Desejavam tanto os seus pais que ele fosse um poeta?... Ou queriam apenas que ele conhecesse bem o idioma português?...
Como sou tímido, reconheço, em todo o ano letivo, não lhe fiz uma só pergunta sobre a razão do seu nome/sobrenome tão festejado em terras lusas. E os demais alunos da turma, bem mais arrojados do que eu, não estavam nem um pouco interessados no poeta do maior poema épico das letras lusitanas.
Na prova oral, um aluno era chamado à mesa do professor de cada vez e três perguntas lhe eram feitas. E assim foi até que convocaram o Osvaldo para enfrentar o Camões. Pelo fato de trabalhar e as nossas aulas serem matutinas, ele deixava vários buracos na lista de presença. Nas proximidades das provas, pedia-me o caderno emprestado e tirava xerox de praticamente todas as folhas.
Bem, lá foi o Osvaldo que, estranhamente, não ficou mais de dez minutos diante do Camões. Quando retornou para o grupinho de amigos, explicou a razão da pouca demora do exame oral.
-Ele me pediu para dizer os nomes dos ministérios que eu conhecia. Respondi prontamente: Marinha, Exército e Aeronáutica, e fiquei quieto. Então, o Camões me indagou se era só isso.  Eu respondi que sim.
Deste ponto, Osvaldo intercalava as suas falas com a do professor, que tentava imitar.
-Existem dezesseis ministérios, e você só se lembra de três? Só me lembro desses três, professor... Você trabalha em quê? Eu trabalho numa empresa de comércio. Se dependesse da sua memória, a empresa iria à falência? Iria, professor.
E concluiu o Osvaldo:
-O Camões me mandou decorar mais nomes de ministérios e, depois, voltar para a prova.
Transportando para os dias de hoje, em que o Brasil está com trinta e nove ministérios, aquele exame de 1977, penso se, assim, a vida do Osvaldo ficaria facilitada. Não, não ficaria, pois tantos ministérios são tão insignificantes, representando apenas conchavos eleitoreiros, que mesmo as pessoas bem informadas se esquecem deles. Pelo contrário, a vida do meu amigo ainda pioraria, pois os Ministérios da Marinha, Exército e Aeronáutica foram condensados num só: Ministério da Defesa.

(*) Todos que conhecem essa história sabem que se tratava da Paula Prentiss, musa dos anos 60, que não atuou em “Cassino Royale”, mas sim em “Que  é que há, gatinha?”