Total de visualizações de página

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

2199 - O acordeom do Millor



-----------------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3 999                                            Data: 02 de agosto de 2012
----------------------------------------------------------------------------------------

A ÚLTIMA SESSÃO DO SABADOIDO... DO MÊS DE JULHO
2ª PARTE

Claudio trouxe o copo d' água que o Vagner pedira e o seu copo d' água que passarinho não bebe. Luca, alegando os remédios que tomara por causa das dores um palmo abaixo do umbigo, mostrou-se apto a enfrentar qualquer bafômetro.
O telefone tocou. Era a Gina, e o meu irmão o atendeu.
-O Daniel está agora dando um concerto. - pilheriou com o fato de o filho tocar teclado naquele momento.
Em seguida, comunicou a ela que o Daniel iria ao encontro dela na hora combinada.
-Se o Daniel for ao Méier, eu levo agora no meu carro. - prontificou-se o Luca.
-Isso é pra depois. - manteve-o o Claudio no Sabadoido.
-O entrevistado do Roda Viva foi o João Ubalbo Ribeiro.
-Desde o fim da TV Educativa que não assisto ao Roda Viva. Durmo cedo, também... - interrompi o Luca.
-O João Ubaldo, além de conhecer bem a língua portuguesa, domina amplamente o inglês, então, ele mesmo traduz os livros dele.
E o Luca prosseguiu citado os nomes de alguns dos seus livros, detendo-se em “A Casa dos Budas Ditosos”.
 -Ele escreveu esse livro, sobre luxúria, para aquela coleção dos sete pecados capitais.
-Eu li “Mal Secreto/ A Inveja” do Zuenir Ventura e não gostei.
E' daqueles romances que ficaria de bom tamanho se fossem retiradas umas 120 páginas e ficasse com a configuração de um conto, como disse o Jorge Luiz Borges, com outras palavras, sobre muitos romances. - pensei, sem me manifestar.
-Aqueles entrevistadores do Roda Viva são terríveis. - preparou o Luca o nosso espírito para a outra parte da sua narrativa.
-Eles leram aquele artigo agressivo do João Ubaldo Ribeiro, no Globo, contra o Fernando Henrique Cardoso.
-Aquele artigo foi grosseiro. - enfatizou o Claudio.
-João Ubaldo, na época, sofria com sérios problemas de alcoolismo.
-Sim, Carlinhos, mas ele escreveu os livros dele com problema de alcoolismo. - reagiu o Luca.
Não era uma boa ideia insistir nessa questão e o Luca ficou com o caminho livre para ir adiante:
-Ele ouviu os trechos que foram lidos daquele artigo, e disse que agiu de uma maneira juvenil.
Houve referências às críticas do escritor ao presidente Lula que, para o escritor, além de ser conivente com a inflação era um ignorante que pouco se importava com a educação, e o assunto passou para o desentendimento entre os intelectuais.
-Eu não entendo como o Millor Fernandes e o Chico Buarque brigaram... Eu julgava que fosse pelo fato de o Chico apoiar o Miro Teixeira, e o Millor, o Brizola, mas o Carlinhos disse que o Millor acusou o Chico Buarque de ganhar dinheiro com ideologia.
-Luca, isso foi dito na própria “Roda Viva”, quando o Millor Fernandes foi entrevistado.
-Aproveitei que a palavra estava comigo e segui em frente:
-Essa questão de lucrar com a ideologia... O Pasquim, em que o Millor escrevia, conseguiu tiragens espetaculares graças ao mercado da esquerda.
Luca concordou, mas o Cláudio interveio:
-O Chico Buarque cobrou para fazer a música do filme “Bye Bye Brasil”, também para fazer a música de um filme dos Trapalhões; ele cobrou para dar uma entrevista sobre o Fluminense... Eu não quis acreditar, pois ele é tricolor, mas a Gina confirmou.
-Eu não sei...  Lamento uma briga em que o Chico Buarque cuspiu no Millor e o Millor arremessou garrafas no Chico– disse o Luca.
-A baixaria é lamentável. – comentei.
-Gosto do Tom Jobim, do Chico Buarque... são os compositores com quem mais eu me identifico. Não quero saber se é o melhor.
-Luca, o Tom Jobim é um dos maiores compositores do mundo.
-Concordo, Claudiomiro, mas eu me importo com aqueles com quem eu mais me identifico e Tom Jobim está entre eles.
-Sim, devemos ver por esse prisma. Essa história de melhor e de pior é sempre discutível. - manifestei-me.
-Quais os grandes choristas...
Meu irmão sobrestou  a entonação de pergunta e voltou-se para mim.
-Choristas está certo?
-Chorões. - corrigi.
-Vai “chorista” mesmo. - disse com a expressão gozadora.
E concluiu a pergunta:
-Quais os grandes choristas da nossa música popular?
-Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Jacob do Bandolim...
As citações do Luca foram interrompidas pelo sabatinador.
-Ninguém fala de um compositor de primeira qualidade no choro: Luiz Gonzaga. Eu tenho um CD aqui, do Luiz Gonzaga, apenas de chorinho.
-Eu já ouvi choro tocado no violino por um músico francês, até, mas desconheço o acordeon nesse gênero musical. - manifestei-me.
-O Luís Gonzaga ficou conhecido pelo baião. - disse o Luca.
-Houve um preconceito contra o acordeom...
-O acordeom é o instrumento musical da música popular francesa. - interrompeu-me o meu irmão no momento em que eu pretendia citar uma frase do Millor Fernandes que demonstrava bem essa ideia pré-concebida contra o instrumento. Disse ele num momento infeliz. “Se todos os seres humanos tivessem ouvidos realmente apurados, nenhum idiota teria coragem de inventar o acordeom.”
-Foi isso mesmo; além de chamarem o acordeom de sanfona, há um nome pejorativo de que eu não me lembro agora. E o acordeom é um dos instrumentos mais difíceis de se tocar; lida-se com os botões, o fole... - falou o Luca.
-O Dominguinhos talvez seja mais virtuoso do que o Luís Gonzaga. Não discuto a importância para a música popular. - enfatizou o Claudio.
-Dominguinhos é excelente. - assinalou o Vagner.
-O pai do Luís Gonzaga tocava a sanfona de oito baixos, mas isso não o diminuía. Existe até aquela música: “Luís, respeita Januário...” - manifestei-me.
Ao citar essa composição, Luca entoou um trecho e meu irmão fez coro com ele.
-É evidente que Luís Gonzaga deve muito ao Januário, seu pai.
E mudei os compositores:
-Como o Cláudio se referiu aos chorões, não podemos deixar de citar o Paulinho da Viola.
-Ele é excelente. - entusiasmou-se o Luca.
-E ainda tem uma voz que agrada aos ouvidos. Eu, pelo menos, não consigo ficar desatento a uma canção cantada pelo Paulinho da Viola, mesmo sabendo que ele não possui a técnica do cantor.
-É sim, Carlinhos... a voz dele é muito bonita. - concordou o Vagner.
-Paulinho da Viola é filho de um violonista consagrado entre seus pares. - registrei.
-César Faria do conjunto Época de Ouro. Paulinho da Viola teve berço. - frisou meu irmão.
E o Sabadoido prosseguiu.  
 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

2198 - governos que passam e opiniões que ficam



--------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
                     Edição 3 998                                            Data: 30 de julho de 2012
-------------------------------------------------------------------------------

A ÚLTIMA SESSÃO DO SABADOIDO... DO MÊS DE JULHO

-Daniel, eu soube que você não trabalhou ontem porque era dia de Santana. Santa Cruz, que eu saiba é bairro, e não, cidade. - foram as minhas primeiras palavras dirigidas a ele naquele sábado.
-Carlão, Santana é padroeira da Casa da Moeda, por isso, não houve trabalho.
-Nunca soube de coisa parecida. - reagi com espanto.
-E você, Carlinhos, já voltou das férias?- perguntou-me a Gina.
-Cheguei ao trabalho, na quinta-feira, e estranhei que, no desenrolar do expediente, só apareceram uns gatos pingados.  Percebi, então, que quase todo o mundo aderiu a greve.
-E você não retornou para casa?...
-Gina, os próprios sindicalistas se tornaram cabos eleitorais da Dilma Rousseff na campanha eleitoral. Colegas meus, que frequentavam reuniões com sindicalistas, falavam que eles pediam para votar na Dilma porque não haveria aumento de salários com o José Serra na presidência.
-E eles? - quis saber minha cunhada.
-Gina, o próprio Lula disse, meses antes da eleição, para os pedintes aproveitarem aquele momento. Com a gastança que foi feita, a Dilma, como presidente da República, teria de segurar as despesas para a inflação não sair do controle.
E acrescentei:
-O Lula teve a vantagem de herdar a casa arrumada pelo Fernando Henrique Cardoso e a demanda absurda dos chineses que elevaram os preços da maioria dos produtos que exportamos. A Dilma, além de pegar a desarrumação do Lula, tem de enfrentar a demanda bem menor da China pelos nossos produtos, para não falar na crise – a marolinha do Lula - que cresceu ainda mais.
-Com isso, você se tornou um adepto da Dilma e está furando a greve?- ironizou ela.
-Gina, há tanta gente no meu trabalho, que não quer nada, embolsando um salário que 95% dos brasileiros não recebem e eu ainda vou exigir que os contribuintes ainda repassem mais dinheiro para eles... Mesmo eu sendo beneficiado, estou fora.
-É isso aí, Carlão. - aprovou meu sobrinho.
-Quando os sindicalistas das agências reguladoras iam ao nosso ambiente de trabalho e eu era obrigado a ouvi-los, eles criticavam o FHC e elogiavam o governo petista. A crítica recorrente era que o Fernando Henrique Cardoso não deu um aumento sequer ao funcionalismo público(*). Ora, com o Plano Real e o fim da hiperinflação, houve, de cara, ganho no poder aquisitivo. Lembra-se do frango a 1 real, a garrafa de vinho Gato Negro a 5 reais, latinhas de cerveja a 0,40 centavos...
-Mas não foi só a inflação que caiu. - interveio o Claudio.
-Sim, contribuiram outros fatores, principalmente o câmbio.
Gina aproveitou e citou os preços de vários produtos de primeira necessidade, em 1994/1995, valendo-se da sua prodigiosa memória e das suas 20 mil horas de supermercado.
Retomei a palavra:
-Nosso salário de servidores públicos dos últimos anos do governo Sarney até junho de 1994 se aviltou tanto que, já no governo Collor, nós passamos a trabalhar meio-expediente. As autoridades não tinham moral de nos obrigar a cumprir as 40 horas semanais. No governo FHC, veio a ordem de retornarmos ao horário integral e nós obedecemos porque não havia como negar a melhora indireta no nosso salário com esse ganho de poder aquisitivo com o Plano Real.
-Os sindicalistas só entendem quando veem mais dinheiro no bolso. - disse o Claudio.
-O lamentável é que até colegas meus que estudaram economia não sabem diferenciar aumento real de aumento nominal.
-Carlinhos, soube que o Daniel foi chamado para trabalhar na DATAPREV? - mudou a Gina de assunto.
-Foi?...
-Ele fez o concurso há algum tempo, passou e o chamaram agora.
-Vou permanecer na Casa da Moeda porque a DATAPREV não tem santa padroeira, e eu sou muito religioso.
Gina foi menos concisa na informação do que o meu galhofeiro sobrinho.
-Ele conversou com o Serginho (primo), que trabalhou lá, e não houve demonstração de entusiasmo. Além disso, a DATAPREV fica em Botafogo, e o Daniel teria de se espremer no metrô de Pavuna, enquanto na Casa da Moeda ele tem ônibus em casa e pega o fluxo maior do trânsito no sentido contrário.
-Daniel, eu entro no trabalho e saio uma hora antes para ser menos sufocado no metrô Pavuna-Botafogo. O mais importante, no entanto, para você é o melhor emprego monetariamente falando.
-A Casa da Moeda, Carlão.
-O nome já diz tudo. - brinquei.
-O Daniel fez um concurso em que acertou todas as questões e até hoje não foi chamado. Um dia, telefonei pra lá exigindo explicações, e me disseram que, para a região escolhida por ele, ninguém foi ainda convocado.
 -Escolheu o Senado Federal, onde os concursados não tem vez? - perguntei à Gina, porque o Daniel já havia se retirado da cozinha.
-Eu vou ao Carrefour comprar laranjas. - anunciou meu irmão.
Eu, que comprara na barraca da Rua Itamaracá, no caminho, bananas e mamões papaias, sugeri que comprasse as laranjas lá.
-As laranjas são para a mamãe, e você sabe como ela é... pode ser assim, assado, desde que comprada no Carrefour.
Dito isso, saiu, enquanto o Daniel reaparecia.
-Carlão, o computador é todo seu.
Enquanto a Gina se aprestava para sair com a irmã e o Daniel se informava pela televisão sobre as primeiras provas das Olimpíadas de Londres, eu, diante do ecrã do computador, saía de uma mensagem eletrônica para outra.  Uma hora passou rapidamente e eu já ouvia a presença do meu irmão, que vinha do Carrefour. Em seguida, soou a voz repetitiva do Vagner do portão da casa, chamando-o.
-Ele não pode esperar?- reclamou.
Tarde, lá pelas 10h 20min, o telefone chamou a atenção com a sua música eletroacústica, e o Daniel atendeu.
-O Luca já está na área. - apregoou.
Pouco depois, eu comparecia a última sessão do sabadoido do mês de julho. Luca narrava a dor que sentiu.
-Doía aqui, a um palmo abaixo do umbigo. Podia ser infecção urinária...
-Era dor de gemer? - interrompi.
-Eram dores fortes.
-Certa vez, levei um vizinho (o português Orlando) de carro para o Hospital Salgado Filho às 5 horas da manhã. Era infecção urinária e ele gemeu o tempo todo.
Luca reatou a sua narrativa:
-Telefonei para o meu sobrinho, o André, em São Paulo e ele me pediu para transcrever os sintomas, o local... Falou em infecção urinária e na possibilidade de hérnia. Fui para a emergência do Pasteur, examinaram-me...
-Foi quando?- interrompi de novo.
Depois de responder pacientemente que o fato ocorrera no dia anterior, prosseguiu:
-Examinaram-me, e fui para casa. A dor não passou, e a minha filha, a Carolina, me deu Dipirona e eu me senti melhor.
E concluiu:
-Claudiomiro, eu não posso beber hoje.

(*) Na Petrobras, o nome de FHC era palavrão, fosse por querer privatizar e mudar para PetrobraX (como se fosse do Eike), ou fosse porque muita mordomia foi pelo ralo. Hoje, já se ouvem severas (e bem informadas) críticas ao Lula e o que ele fez com a Petrobras, devido à aplicação de política industrial nacional e do controle da inflação da moeda à custa da empresa.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

2197 - o freio de Caxias


---------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3 997                                            Data: 29 de julho de 2012
----------------------------------------------------------------------------

EU  E  ELIO  FISCHBERG  NA  GUERRA  DO  PARAGUAI
De repente, eu e Elio nos vimos na Guerra do Paraguai.
-Carlos, foi um salto e tanto, saímos da descoberta do Brasil para a mais sangrenta guerra da história da América do Sul.
-Eu diria que foi uma tragada e tanto. (*)
-Pois é, Carlos... Na descoberta do Brasil, acrescida daquela viagem às Índias, nós nos envolvemos com comerciantes calejados, como os árabes, então, o ópio que eles nos forneceram era fortíssimo. Seria, comparando com a bebida, uma espécie de absinto.
Nós estávamos em um navio, no meio dos voluntários da pátria, que rumava para o teatro de operações bélicas. No meio de toda aquela cacofonia, um som de violão chegou aos nossos ouvidos. Logo, os soldados pararam o que faziam, e um silêncio de encantamento se impôs para que a música fosse ouvida.
-Carlos, é uma mulher que toca.
-Eu sei, Elio; é a Chiquinha Gonzaga.
Então, soou uma voz como um tiro de canhão.
-Chiquinha, eu não admito que você toque esse instrumento de vagabundos. Também não a quero ver no meio desta negralhada.
-Elio, estamos no navio do Jacinto Ribeiro do Amaral, o marido da Chiquinha Gonzaga.
-Adoro “Atraente”.
-Elio, não é apenas “Atraente”, Chiquinha Gonzaga compôs quase duas mil músicas. Na primeira oportunidade, falarei com ela, que é meu ídolo.
Não houve oportunidade, pois nessas viagens pelo tempo as horas correm vertiginosamente: os seis anos da guerra do Paraguai transcorreram em pouco mais de um dia. Assim, eu e Elio logo nos vimos metidos na Batalha do Riachuelo.
-Carlos, estamos nas proximidades da desembocadura de um afluente do rio Paraná.
-Elio, nós estamos num navio e vislumbro uma esquadra paraguaia pronta para nos atacar.
-Veja tudo com olhos otimistas; nós nos encontramos numa frota em que os navios são maiores.
-Mas os inimigos são mais numerosos e eu diviso daqui a artilharia terrestre deles.
A batalha se iniciou e no seu desenrolar se tornava cada vez mais sangrenta.
-Pela pintura do Victor Meirelles, eu julgava que não houvesse tanto desespero.  - disse um Elio menos tranquilo, que acrescentou:
-Desde a Batalha de Trafalgar, do Almirante Nelson, que não passo por momentos tão beligerantes no mar.(**)
-Elio, nós ainda não viajamos para as batalhas navais da era napoleônica.
Um tiro de canhão, que dobrou o mastro do nosso navio, trouxe-nos de volta à guerra caseira.
-Olha, Carlos, o Brasil está usando a tática do abalroamento, porque nossas embarcações são maiores e está dando certo. - animou-se.
-Quem é aquele marinheiro que mostra uma bravura extraordinária. - apontei.
-Marcílio Dias. - respondeu-me outro marinheiro.
-Pena que não sobreviverá. - lamentei comigo mesmo.
Perto de nós, um oficial de alta patente esfregava as mãos.
-Com a nossa vitória, Solano Lopes não receberá armas e outro tipo de ajuda do exterior, pois ficou bloqueado.
Passaram-se dez meses, mas para mim e o Elio, foram uma hora ou menos e já estávamos na Batalha do Tuiuti.
-Não se amofine, Carlos, a casa bancária Rothschild emprestou sete milhões de libras esterlinas ao Brasil.
-O meu bisavô materno fugiu de casa, ainda adolescente, para lutar contra os paraguaios, talvez eu o encontre aqui, pois creio que todos os soldados dos dois países estão no Tuiuti. - manifestei-me.
E foi a maior batalha da história latino-americana, mais de dez mil mortos deixavam poucos lugares para os sobreviventes pisarem.
Depois do espingardeamento da Batalha de Tuiuti, ocorreram outros confrontos, mas nada parecido com a Batalha de Curupaiti. (***)
-Elio, nossas tropas estão atacando as trincheiras paraguaias de peito aberto. Será uma carniçaria. - apavorei-me.
-Espero que o seu bisavô não esteja aqui, Carlos.
-Não se preocupe, Elio; ele escapou e, anos depois, contraiu núpcias com a minha bisavó.
-Você pode considerar-se, de uma maneira, oblíqua, sobrevivente da Batalha de Curupaiti.
-A vitória que obtivemos em Tuiuti estamos devolvendo aqui. - lamentei.
Com a derrota, Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, foi convocado para comandar as forças brasileiras de terra e mar. Pouco depois, o imperador D. Pedro II estabeleceu a liberdade gratuita aos escravos que prestassem serviço no exército.
Mato Grosso, que desde o início da guerra estava sob o poder do inimigo, tinha de voltar para as nossas mãos e, então, uma expedição brasileira partiu para lá. Eu e Elio testemunhamos tudo.
-Carlos, não vamos ficar juntos dos escravos de uniforme militar, pois nos tornaremos um alvo fácil.
-Elio, você, com essa cor de leite de vaca holandesa, fica ainda mais visível para os paraguaios do que eu. (****)
Depois de muitos tiros, gritos, arrepios, constatamos o nosso fracasso e o recuo se iniciou.
-Carlos, você deve escrever sobre este fracasso.
-O Visconde de Taunay já fez isso. Você não leu “A Retirada da Laguna”?
Porém, no mês seguinte, o Brasil retomou a cidade de Corumbá.
-Olha, Elio, o nosso comando militar colocou balões no ar. - apontei para o alto.
-Hoje, é dia 24 de junho de 1867, dia de São João. É uma maneira de relaxar os nervos no meio de tanta mortandade.
O comentário do meu amigo estava equivocado, porque logo se viu que se tratava de uma operação militar aérea.
Sob o comando de Caxias, as nossas vitórias se sucedem: Humaitá, Tuiuti (a segunda batalha), e a dezembrada, assim chamada porque a série de sucesso ocorreu nesse mês: Itororó, Avaí, Lomas Valentinas, Angostura.  Escapando do cerco de Lomas Valentinas, o ditador Solano Lopes rumou em direção da cordilheira a leste de Assunção.
No início de janeiro de 1969, Caxias, capitaneando os brasileiros, invadiu a capital do Paraguai que, onze meses antes, fora bombardeada pelos nossos navios.
-Carlos, eu prefiro aquela invasão brasileira a Assunção feita por camelôs.
-Elio, você está com a cabeça 100 anos na frente. Olhe para hoje, pois a coisa é tão séria que o Brasil está aliado à Argentina.
-E ao Uruguai também. - acrescentou, voltando à cruel realidade.
Com a vitória em Assunção, Caxias declarou que, para ele, a guerra findara, pois a partir dali se transformaria em carnificina. Veio, então, o Conde D' Eu, marido da Princesa Isabel, ocupar o cargo de Luís Alves de Lima e Silva.
E foi uma trucidação. Em Cerro Corá, o exército paraguaio estava reduzido, em grande parte, a velhos e crianças.
-Olha, Carlos, aquele é o Cabo Diabo, o homem que acertará o tiro fatal no ditador do Paraguai.
-Estudou bem essa parte da Guerra do Paraguai. - ironizei.
-Minha mãe, professora de História, me obrigou.
-Com 15 anos de idade, ele assassinou a facadas o patrão que o surrou, porque ele se descuidou e um cachorro comera a carne que estava sob a sua vigilância, em São Lourenço do Sul. Com 17 anos, juntou-se a um destacamento dos Voluntários da Pátria, que passava.
Um urro de alegria interrompeu as palavras do Elio: um balaço jogou por terra Solano Lopes. E todos cantaram:
“O Cabo Chico Diabo
Deu cabo do diabo.”

(*) Com certeza os dois poderão ser denunciados por apologia ao consumo de entorpecentes. E pensar que tudo isso começou com o pó-de-pirlimpimpim da líder do tráfico do CPPA, a Emília.

(**) A fobia que os farináceos sentem pelo meio aquoso talvez explique essa imprecisão, ao qualificar de mar o Riachuelo.

(***) da Wikipédia:

A 1ª Batalha de Tuiuti travou-se a 24 de maio de 1866 nos pântanos circundantes do lago Tuiuti, em território do Paraguai,[1] tendo envolvido mais de 50.000 homens de ambos os lados.[2]
É considerada pelos historiadores militares como uma das mais importantes batalhas da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), a maior e mais sangrenta travada na história da América do Sul, tendo confrontado efetivos do Exército paraguaio e forças da Tríplice Aliança. A batalha culminou com uma expressiva vitória dos aliados. As avaliações sobre as perdas variam de fonte para fonte, mas todas são acordes e enfáticas em apresentar Tuiuti como um túmulo para o Exército paraguaio. As suas perdas estimadas foram de seis mil homens, entre oficiais e soldados; os feridos e capturados ascenderam a mais seis mil homens. Algumas unidades, como o 40° Batalhão de Infantaria, foram aniquiladas.


A Batalha do Curupaiti foi travada entre as forças aliadas e paraguaias durante a Guerra da Tríplice Aliança em 22 de setembro de 1866.[1] Durante os combates por Curuzú e negociações diplomáticas posteriores, Curupaiti teve as suas defesas reforçadas com um entrincheiramento de cerca de dois quilômetros de extensão, complementado por um fosso de dois metros de profundidade por quatro de largura. A terra retirada do fosso foi apiloada em parapeitos defensivos de dois metros de altura, atrás dos quais se distribuíam noventa canhões, cobrindo o lado do rio e o lado de terra, bem como cinco mil soldados paraguaios.
O desastre aliado em Curupaiti, imobilizou a campanha, e teve importantes repercussões sobre os seus rumos. O general Venancio Flores retirou-se para Montevidéu após a derrota, e as forças Argentinas passam a ter uma participação menor. A partir de Curupaiti, coube sobretudo ao Império do Brasil continuar a luta do lado aliado, com pequena participação Argentina e apenas simbólica de forças Uruguaias. A derrota também causou repercussões na opinião pública brasileira, o que levou à nomeação do marechal-de-campo Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), então Marquês de Caxias, como comandante-em-chefe do Exército brasileiro no Paraguai (10 de Outubro de 1866).
Caxias adotou uma estratégia de cerco, isolando o entrincheiramento. Isso levou à sua evacuação pelos paraguaios e permitiu aos aliados ocupar a posição. Após dois anos impedindo o progresso das forças aliadas, estas, finalmente, entraram no entrincheiramento no dia 23 de Março de 1868.

(****) Por essa ninguém esperava. Um Elio branco? Terá sido o efeito do pó-de-pirlimpimpim? Ah, se o Michael Jackson soubesse disso.




sexta-feira, 3 de agosto de 2012

2196 - olimpitáxis

--------------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3 996                                            Data: 27 de julho de 2012
-------------------------------------------------------------------------------------

COMENTÁRIOS NO TÁXI

Reparando numa jovem de cabelo azul, entrei no carro do Flamenguista. Julguei que ele prestasse atenção no taxímetro, mas às suas primeiras palavras, constatei que estava errado.
-Quem vai dar emprego a uma pessoa com essa aparência?
-Ela é bonita.
-Mas de cabelo azul?!...
-Eu tenho visto mais mulheres de cabelo vermelho, sem falar nas louras, é claro. - falei.
Ele prosseguiu na sua crítica:
-Cabelos coloridos, unhas de bruxas, colares que dão mil voltas no pescoço, calças rasgadas...
-Piercings. - acrescentei.
-Piercings – repetiu para concluir:
-Quem vai dar emprego para uma pessoa que se apresenta assim?
Certamente quem se mostra de uma maneira tão exótica numa agência de empregos não está com intenção de trabalhar, mas eu não me manifestei, pois não queria impedir o seu fluxo de palavras.
-Brinquinhos... Onde já se viu um homem de brinquinhos?!... Eu nunca colocaria brinquinhos.
-Eu também não, mas nós somos de outra geração, por isso não nos sentiremos confortáveis de brincos.
-E ter ainda de furar a orelha... - parecia arrepiar-se com a espetadela imaginada.
-Essa questão de brinquinhos não chama a atenção como antes, pode-se dizer que hoje é natural. Recordo-me de uma viagem de metrô, lotado como sempre, em que um sujeito disse para outro altissonante: “Para mim, usou brinquinho, é viado.” Mas isso, ocorreu na década de 90, hoje, se um sujeito grita essas palavras, é agredido por umas dez pessoas de brinquinho.
-Eu critico, mas penso que cada um faz da sua vida o que quer. - declarou o Flamenguista.
-Essa moça de cabelo azul, talvez ela seja eficiente num trabalho sério. Tenho visto pessoas aparentemente apresentáveis que nada querem com o serviço. - comentei.
-Eu, se sou empresário, não emprego.
E arrematou, enquanto parava o carro na Rua Modigliani:
-Ela parece que saiu de um daqueles desenhos em três dimensões que a minha filha vê.
-Preparado para assistir às Olimpíadas de Londres, porque o nosso Botafogo, com todo o Seedorf, não anima? - indagou-me o Botafoguense antes de eu entrar no seu táxi.
-Com tantas notícias ruins, as olimpíadas, pelo menos, afastam as tragédias para o outro lado. - respondi.
-Mas que essa não seja igual aquela em que dependemos de um cavalo para ganhar uma medalhinha só de ouro no meio de uma penúria geral.
-O “Baloubet du Rouet”?... - lembrei-lhe.
-Ainda por cima o cavalo era estrangeiro; nós perdemos, é claro.
-Naquela olimpíada, em Sydney, em 2000, nós fomos pessimamente, ganhamos só medalhas de prata e bronze. - disse-lhe.
-Eu ouvi, antes de sair de casa para rodar com o táxi de tarde, que os organizadores já começaram a fazer besteiras.
-Trocaram a bandeira da Coreia do Norte pela da Coreia do Sul. - antecipei-me.
-Um comentarista disse que é como trocar a bandeira do Brasil pela da Argentina.
-Eles são rivais.
-O jogo da Coreia do Norte quase não acontece, atrasou por mais de uma hora porque os coreanos do norte protestaram.
-E a Colômbia recebeu o nome de Columbus. - citei outra batatada dos organizadores ingleses.
-Eles não dão importância para os países mais pobres. - diagnosticou o Botafoguense.
-Houve um jogo Brasil e Espanha, não me lembro em que olimpíada, em que tocaram o nosso Hino à Bandeira como se fosse o Hino Nacional.
-Veja só! - exclamou o Botafoguense, enquanto me deixava em casa.
-----------------------------------
Os comentários sobre os Jogos Olímpicos prosseguiram no táxi do Cunhado da Ivete.
-Você viu a nadadora mexicana? - surpreendeu-me, pois esperava que ele falasse do tempo.
-Aquela que os navegantes da internet consideram uma sereia?
-Eu vi nos jornais; apareceu de maiô cavado com a marca do biquini... - vibrou.
-Ela sabe que os jogos olímpicos estão na vitrine de toda a mídia e quer aproveitar a oportunidade. Você reparou que ela se colocou em lugares estratégicos, perto do Michael Phelps e do Rayan Lochte, dois recordistas de medalhas de ouro?- tagarelei.
-Os fotógrafos mostraram os dois como coadjuvantes.
-E ela não deve nadar grandes coisas.
-E precisa?!... - enfatizou
-Como a mexicana não atrairá as lentes de televisão e as câmeras dos fotógrafos pelas braçadas, tratou de recorrer aos atrativos eróticos, e ...
-Sabe o nome dela?
-Maria Fernándes Gonçales, nome fácil de decorar. Ela nada 100 e 200 metros, não sei a especialidade.
-Nado de peito. - não perdeu a piada infame, que o fez gargalhar.
-Na Copa do Mundo, aquela paraguaia...
Depois de patinar, veio-me à mente o nome:
-Larissa Riquelme! Ela dividiu a atenção de todos com os jogadores.
-Você se lembra do lugar em que ela colocava o celular enquanto torcia?
-No decote pra lá de generoso. - respondi ao Cunhado da Ivete.
-Terminada a Copa do Mundo, Larissa Riquelme ganhou rios de dinheiro como modelo de fotos da Playboy e outras revistas masculinas.
-Ela soube administrar a plasticidade do corpo, pois sua fama não durou apenas quinze minutos.
-Creio que a fama dessa nadadora mexicana também durará muito. - vaticinou o fauno do táxi, enquanto me largava na Rua Modigliani.
----------------------------------------
No táxi do Meu Nobre, o assunto não foi sobre as olimpíadas de Londres por causa da sua infância.
-Soltei muita pipa, quando garoto. - disse, quando uma pipa, empinada pelos lados de Maria da Graça, entrou no nosso campo visual.
-Minha mãe me chamando para estudar, e eu com a pipa no alto sem querer  trazê-la para o chão.
-Tenho esse tempo bem na memória; era uma febre, muitos preferiam a pipa à bola de futebol. - intervim.
-E quando eu derretia a cola de madeira para fazer o cerol?... Empesteava a casa e punha a minha mãe doida.
-O vidro moído vinha de cacos de garrafa colocados na linha do bonde?...
-Isso. - vibrou com a lembrança.
-Eu senti uma atração irresistível pelas pipas com uns oito anos de idade, depois de uns seis anos, não empinei mais pipa, mas meus dois irmãos mais novos prosseguiram por muito tempo desenrolando a linha dez com cerol pelos céus do Cachambi. - manifestei-me.
Meu Nobre retomou a palavra:
-Havia verdadeiros artistas da pipa; criavam morcego, arraia, o diabo... Faziam rabiola de pano...
-A pipa-morcego não levava rabiola. - aparteei, recordando-me de um vizinho da Rua Cachambi que era um mestre na confecção das pipas-morcego.
-Sei disso muito bem. Voltando à rabiola de pano, colocava-se pedações de lâminas de gillette nela...
-Oferecia-se a rabiola para a pipa adversária, quando ela vinha, puxava-se a linha e a lâmina entrava em ação. - antecipei-me.
-Chegamos, meu nobre. - anunciou, enquanto parava o seu táxi.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

2195 - Rindt, Emerson, Chapman, Seedorf e Allen - o que eles não têm em comum


---------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3 995                                            Data: 25 de julho de 2012
----------------------------------------------------------------------------------

SABADOIDO  ENTRE  A  FICÇÃO  E  A  REALIDADE
2ª PARTE

Daniel já havia saído para caminhar pelas ruas quando assumi minha cadeira na sessão do Sabadoido. Claudio e Vagner conversavam sobre Fórmula 1.
-O Émerson Fittipaldi foi o campeão com menos idade de vida.
-Depois, Vagner, o Fernando Alonso bateu o recorde do Émerson e, em seguida, o Vettel. - interveio o meu irmão.
-A primeira vitória do Émerson, na Fórmula 1, deu o título de campeão do mundo póstumo ao seu companheiro de equipe da Lotus, Jochen Rindt.
-Isso, Cláudio, vitória no Grande Prêmio dos Estados Unidos.
-Circuito de Watkins Glen - acrescentei.
-Havia, naquela época, um gênio, o Colin Chapman. - frisou o Vagner.
-Dizem, Vagner, que as inovações do Colin Chapman nos carros colocavam em risco a vida dos pilotos. Coincidência ou não, pilotavam para ele, quando morreram, Jim Clark, Jochen Rindt. - intervim.
-Você lembra, Cláudio, os anos em que o Émerson Fittipaldi foi campeão da Fórmula 1?
-1972 e 1974, Vagner, mas não tenho certeza. Se o Daniel estivesse aqui diria de cor os nomes de todos os campeões; ele decorou uma vez e não se esqueceu. – disse meu irmão.
-Tenho certeza que foi em 1972 e 1974. - afirmei.
Vagner insistiu em puxar pela memória de todos, inclusive a sua.
-Qual era a nacionalidade do Jochen Rindt?
-Não era sueco?... - a dúvida afrouxou  a minha afirmação.
-Ele não era sueco, não. - garantiu o Cláudio.
-Ronnie Petterson era sueco. Pena que morreu cedo, pois era um piloto de primeira linha. - assegurou o Vagner.
-Para mim, Jochen Rindt era alemão. - disse o Cláudio.
-Bem, o computador do Daniel permanece ligado, vou lá no google.
-Retornei em menos de cinco minutos.
-E, então, Carlinhos?
-É a tal coisa... Lá diz que Jochen Rindt nasceu em Mainz, na Alemanha, mas tinha a nacionalidade austríaca.
-Ele era austríaco. - bateu o Vagner o martelo.
Luca surgiu com a sua indefectível bermuda, portanto com muito menos proteção do que o Vagner para enfrentar o frio, ele, aliás, colocara meias de lã e, por pouco, eu diria, a friagem não o fez pôr luvas e gorro.
Olhamos para o envelope de tamanho graúdo que o Luca trouxe e previmos que muitos recortes de jornais e cartas da Rosa o recheavam.
-Luca, você se atrasou, veio na hora da distribuição das bebidas.
-Claudiomiro, eu terei de beber de tarde, por isso, vou me resguardar nesta manhã.
Enquanto meu irmão saía para explorar a sua adega sem vinhos, Luca anunciou a sua nova desavença com a Rosa: Carlos Drummond de Andrade.
-Com toda a mídia literária voltada para o poeta, por causa da FLIP, ela chegou a escrever drummondices. - indignou-se.
Luca, eu recebi e repassei um e-mail que mostra a beleza do corpo feminino acompanhada de frases de grandes artistas.
-Eu vi; uma beleza, Carlinhos!
-Há ali uma frase de “O Pantagruel” de Rabelais, que não consegui traduzir, pelas expressões idiomáticas, por mais que fuçasse os dicionários. A Rosa Grieco é a minha última esperança. Aqui vai: “Il n' y a qu' une antistrophe entre femme folle à la messe et femme molle à la fesse.”
Enquanto o Cláudio, que retornara, pousava um copo de conhaque na mesa e o Vagner nos observava, Luca sacou um papel de cor amarela do envelope. Era uma carta da Rosa e ele leu um trecho:
“... `A  noite , a cuca até que se recuperou, aquela sessão nostalgia do Canal 9, idem às 9 horas, exumaram “Till the clouds roll by”, xaroposa biografia do Jerome Kern (Robert Walker antes de ser chifrado pela Jennifer Jones), verdadeiro teste mnemônico, desfilando Van Heflin (gostava muito como ator) e maior conjunto do mausoléu da MGM, e eu bradando: Tony Martin, Van Johnson, Judy Garland, Dinah Shore, Cid Charisse, June Allyson, Kathryn Grayson e “last but not least” Frank Sinatra quase imberbe, pré-máfia, pré-Ava Garner, pré-Mia Farrow e pré- tutti quanti e tutti frutti.  Que espanto recordar que as moças eram puras e os mancebos respeitadores (pelo menos nos filmes). Lá, íamos eu, a Sylvia e a Cléa , foragidas normalistas, mostrar nossa beleza no Metro Tijuca...”
-Então, a Rosa matava aulas com as amigas no Metro Tijuca. - comentaram.
-Muitas alunas do Instituto de Educação namoravam os alunos do Colégio Militar. As estatísticas mostram que houve muitos casamentos, no Rio de Janeiro, naquela época, entre professoras e militares. - manifestei-me.
-A Rosa foi amiga de muitos anos da Sylvia, elas andavam sempre juntas e ainda tem uma terceira no grupo de gazeteiras, fica mais difícil para um homem abordar três mulheres. - disse o Luca.
-No filme “Mente Brilhante” sobre a vida do matemático John Nash, ele se inspira na abordagem de um grupo de rapazes a um grupo de moças para formular a Teoria dos Jogos, que lhe deu o Prêmio Nobel de Economia. - lembrei.
Luca sacou agora um recorte da Folha de São Paulo sobre a visita que Gay Talese fez a esse jornal, no fim de maio deste ano, e disse:
-Ele é considerado o pai do “new journalism”, cujo estilo combina as técnicas descritivas dos textos ficcionais, como a descrição pormenorizada, com o realismo da não ficção.
-Gay Talese está com quantos anos? - perguntei.
-80 anos; e a Rosa escreveu: “Velhinho delicioso”.
Quando estendi o pescoço para ler as palavras da Rosa, vi a fotografia de um senhor de chapéu (ele tem 80 anos), gravata e colete, paletó e os vincos das calças bem proeminentes. Pouco depois, o Luca lia:
-Chego na pessoa com boas maneiras, estou sempre de terno e gravata, não importa se é presidente ou lixeiro. Aqui, por exemplo, está todo o mundo mal vestido, mas não é meu problema (risos na redação).
Quando o Luca me passou o recorte do jornal, ainda tive tempo de ler mais esse trecho de Gay Talese:
-”Quero escrever sobre pessoas que não estão nas notícias. Elas refletem a sociedade e quero ser o cronista de suas vidas. No “New York Times”, fiz de tudo para ficar longe dos famosos. Sugeria um monte de desconhecidos, e o editor dizia: “Quem se interessa?”. Eu me interesso. (*)
Depois o assunto passou a ser a estreia do Seedorf, no dia seguinte, no time do Botafogo. E assim aquela sessão do Sabadoido foi chegando ao seu término.

(*) Quem viu o filme do Woody Allen em Roma – uma xaropada sem fim (**) – pode ter uma boa ideia do que é uma pessoa que está nas notícias.

(**) “Arrepia-me a alma pensar como será o filme do Woody Allen no Rio de Eduardo Paes”- dizia o Dieckmann, nosso cinéfilo de prontidão e crítico atroz do alcaide em pauta.




quarta-feira, 1 de agosto de 2012

2194 - a mãe, contra a vontade


----------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3 994                                            Data: 24 de julho de 2012
---------------------------------------------------------------------------------

SABADOIDO  ENTRE  A  FICÇÃO  E  A  REALIDADE

Lá fui eu, pela terceira vez, à casa do meu irmão com o mesmo pacote de Biscoitos Molhados para a Rosa, digo, envelope, em vez de pacote. No caminho, cumprimentei cinco pinguins. A temperatura neste mês de julho caiu tanto que o Ponto Frio se transformou no Ponto Gélido, dizem os engraçadinhos. Eu, que sou mais sério, acenava para as aves visitantes do Círculo Polar Antártico e pensava no desenho dos Simpsons em que o frio era tão congelante que eles, na igreja, sonharam com o quentinho do inferno quando o pastor falou do destino dos pecadores.
Meu irmão, quando atendeu ao meu chamado, no portão da sua casa, tremia tanto que olhei para os seus pés; julgava que calçasse sapatos de raquete. Ao ver-me com o envelope na mão, previu a minha intenção e disse:
-O Luca não virá.
Olhei para o meu irmão enquanto dizia comigo mesmo que o fato de o Luca não vir para o Sabadoido não significa que ele não aparecerá.  Reportei-me então ao dia em que Napoleão Bonaparte se coroou imperador da França. Letícia, sua mãe, nutria verdadeira ojeriza pela futura imperatriz, Josephine Bonaparte, e, por isso, não compareceu ao evento. Isso não impediu que o pintor David, primo de Debret, seguindo as ordens do imperador, a colocasse no quadro em que reproduziu a coroação.
Na cozinha, encontrei-me com o meu sobrinho que já havia devorado um pedaço de pão.
-Carlão, e o Seedorf?... Vai a estreia dele amanhã?
-Daniel, não gosto de estreias. Lembro-me da estreia do Campo Grande no Campeonato Carioca de 1962, quando pegou o Botafogo de 5 jogadores titulares da Copa do Mundo do Chile. Eles ganharam de 1 a 0.
-Li isso no “Há 50 Anos” do Globo. - interveio meu irmão.
-Eu ouvi esse jogo, numa noite de quarta ou quinta-feira, na Rua Americana, num rádio de pilha. - recordei.
-Não se apoquente, Carlão, pois o Botafogo ganhou o título daquele ano.
-Assisti à decisão contra o Flamengo, num sábado, no Maracanã. Ganhamos de 3 a 0, com dois gols do Garrincha.
-Eu também estava no grupo que saiu da Rua Americana para o Maracanã. - manifestou-se mais uma vez meu irmão que, embora lesse o jornal, prestava atenção no que dizíamos.
-Daniel, tenho de pagar um boleto bancário... Eu costumo fazer esses pagamentos no computador personalizado do meu trabalho, mas só volto quinta-feira das férias e a fatura vence antes, segunda-feira.
-Carlão, eu aconselho a não fazer esses pagamentos em que se tem de colocar senhas, no meu computador; fica tudo mais exposto.
-Você quer dizer que, caso seu computador vá para o conserto, alguém pode roubar meus dados?
-Isso.
-Você volta quinta-feira das férias ou da greve? - quis saber o Claudio.
-Volto das férias. No meu trabalho, entraram muitas pessoas jovens que imaginam que o serviço público foi feito para se encostar, e eu não vou entrar em greve para preguiçoso ganhar um salário maior neste país de tantos trabalhadores que ganham mal.
Meu sobrinho saiu da cozinha, enquanto eu deduzia, pela falta de uma voz feminina, que a sua mãe não se encontrava em casa.
-Claudio, a Rádio MEC está apresentando programas dominicais de uma hora de duração, ao meio-dia, com o Turíbio Santos.
-É interessante, certamente.
-Durante muito tempo, o Turíbio Santos foi o responsável pelo Museu Villa-Lobos. Ele conta que, certa vez, recebeu a visita do Antônio Carlos Jobim.
-Tom Jobim apreciava muito o Villa-Lobos. - aparteou-me.
-Turíbio Santos fala que, olhando as partituras do Villa-Lobos, ele lhe dizia: “Há tesouros por aqui”. Então, segundo o grande violonista, Tom Jobim se deteve na partitura do “Estudo nº 4 para violão” e falou mais enfaticamente sobre o tesouro que ali estava.
Notei a atenção do meu irmão e prossegui:
-Turíbio Santos disse que, tempos depois, notou que “O samba de uma nota só” fora tirado do “Estudo nº 4 para violão” de Villa Lobos.
-Carlão, o computador está ao seu inteiro dispor. - interrompeu-nos o Daniel com o seu jeito desenvolto.
Eu, que não desfivelara a pochete, onde se achavam dois pendrives, rumei para o meu cybercafé dos sábados.  Acessei vídeos interessantes e textos não menos curiosos, porém, o mais interessante deles eu leria no dia seguinte numa coluna do Elio Gaspari. Vale transcrevê-la aqui:
“Outro dia, um curioso foi ao lindo edifício do antigo Hotel Serrador, na Cinelândia, hoje ocupado por Eike Batista e suas empresas. Dirigiu-se a um elevador e foi informado de que ele servia apenas ao doutor Eike.”
“Esperou alguns minutos, embarcou noutro e teve um delírio. Achou que subia na companhia de Ângelo Calmon de Sá, dono do Banco Econômico; Theodoro Quartim Barbosa, do Comind; Edemar Cid Ferreira, do Santos; e Richard Fuld, do Lehman Brothers. Todos gostavam de elevadores exclusivos. Todos quebraram.”
Elio Gaspari poderia citar Paulo Ferraz, que não era banqueiro, e sim empresário, dono do Estaleiro Mauá, que quebrou e gostava de elevador privativo no prédio da Avenida Rio Branco, 103. Lá, em 1985, no sexto andar, onde localizava o seu escritório, ele não teve nervos para esperar a areia assentar e deu um tiro no peito quando estourou o chamado “Escândalo da Sunamam”.  Na época, o czar da economia brasileira, Delfim Neto, dizia que 500 milhões de dólares (em valor da época) não sumiam assim...
Minhas divagações tiveram um basta quando a voz grave do Vagner chamou pelo meu irmão.
-Vagner enfrentou o frio para comparecer ao Sabadoido. -  surpreendi-me.
Para desanuviar os meus pensamentos, resolvi rever o vídeo em que o ator Jerry Lewis faz mímica de uma banda de jazz. Mantive o texto do Elio Fischberg, o remetente do vídeo, que acertara em cheio ao dizer que apenas os grandes artistas são capazes de atuação tão espetacular como Charles Chaplin, Groucho Marx, Oscarito e Jacques Tati.  Acrescentei o cômico francês e creio que o Elio concorda, pois acredito não lhe veio à mente na hora em que escreveu.
Bem, o Vagner já chegou, daqui a pouco virá o Luca, era hora de eu me dirigir para o local da sessão do Sabadoido.