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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

2565 - Peçanha



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4365                        Data: 18 de fevereiro de 2014
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WILSON BATISTA NO RÁDIO MEMÓRIA
1ª PARTE

Jonas Vieira abriu os trabalhos alardeando dois convidados sem identificá-los de pronto. Sérgio Fortes não foi tão hitchcokiano e informou o que aconteceu no dia 16 de fevereiro no correr da história. Depois, assinalou que era o Dia de Santo Onésimo. Tal nome me conduziu não a uma igreja, mas a uma sala de um apartamento da Rua Cachambi onde ficava a vitrola, e junto a ela, meu pai ouvindo, embevecido, as serestas cantadas pelo Onésimo Gomes.
A voz do Jonas Vieira me tirou do início dos anos 60 para hoje ao anunciar seus dois convidados; um, presente espiritualmente, Wilson Batista, e o outro bem materializado ali, no estúdio da Rádio Roquette Pinto, Rodrigo Alzuguir. Este, biógrafo do grande compositor da música popular brasileira, que, durante mais de dez anos, arregaçou as mangas e conseguiu lançar o livro “Wilson Batista, o Samba Foi a Sua Glória,” no ano do centenário do sambista, ocorrido em 2013.
A locução do Rodrigo Alzuguir confirmava as palavras do titular do programa que o apresentou como cantor, ele, no entanto, também pianista e dançarino, limitou-se, na duração do Rádio Memória, a mostrar apenas a sua faceta de pesquisador (é verdade que trauteou um samba ou outro do seu biografado, mas isso veremos depois).
Houve alguns minutos dedicados à descontração, quando foi citado o nome do santo protetor do Ciro Monteiro, até que o convidado (o que estava lá em carne e osso) se referiu à seleção das músicas de Wilson Batista que fizera.
-Para ele, em cada samba tinha de haver uma tese. - acentuou.
E deu-se o início da parte musical do Rádio Memória. “Lealdade” foi o primeiro samba a ser escolhido; foi gravado pela primeira vez pelo Orlando Silva, o que deixou o Jonas Vieira ainda mais desvanecido.  E antes que fosse ao ar, o biógrafo teceu comentários com palavras próximas a estas:
-Nesse samba, Wilson Batista já pregava a igualdade de direitos entre homem e mulher. Vejam bem: isso nos anos 40. A tese é que o casal deve viver junto enquanto houver amor, se não, cada um deve seguir o seu caminho.
O próximo samba foi “Salgueiro”; com ele, veio uma novidade para mim, pelo menos, Araci de Almeida foi a cantora que mais gravou Wilson Batista, e também uma surpresa, pois foi também ela quem mais gravou Noel Rosa, que foi chamado por ele de Frankenstein num samba em que levava nítida desvantagem num duelo musical que travou com o “Poeta da Vila”.
A gravação era de 1943, e antes foi explicado que Wilson Batista explorava a “pegada feminina”, ou seja, também se colocava no lugar da mulher. No “Salgueiro”, percebia-se uma mulher liberada, com direito de escolha.
Soada a última nota do samba, Sérgio Fortes expressou a sua admiração pelo acompanhamento orquestral.
-Que clarinete! - destacou Rodrigo Alzuguir.
-Luiz Americano é o clarinetista. -interveio o Jonas Vieira.
O biógrafo se mostrou dubitativo, mas Jonas Vieira assegurou que era mesmo o Luiz Americano, incansável e virtuose do instrumento.
Em seguida, o biógrafo acentuou que Wilson Batista foi um dos mais profícuos compositores da sua época com mais de quinhentas obras.
-Ele e Haroldo Lobo.
Jonas Vieira lembrou Lamartine Babo, mas o seu convidado concordou que, metafisicamente, a criação de Lamartine Babo era enorme, mas não em quantidade.
E trataram das parcerias. Wilson Batista ora tirava, ora colocava parceiros nas suas composições. Foi lembrado que até o seu pai, J. Batista, apareceu como seu parceiro. Seu biógrafo chamou mais a atenção para Marina Batista, sua mulher, que surge como parceira de mais de vinte sambas.
Alguns entravam como autores porque divulgavam o samba, outro, um gerente de loja, comprava a parceria com eletrodomésticos. E também foi citado o bicheiro China, que até cavalos tinha no Jockey Clube. Rodrigo Alziguir comunicou que conta vários casos de inusitadas parcerias, na sua biografia, envolvendo, inclusiva, Nélson Cavaquinho.
-E a próxima música?
Antes de responder, Rodrigo Alzuguir fez uma pequena introdução. Falou da mania do compositor de fazer citações literárias, de mencionar filósofos.
-É curioso, pois ele não tinha educação formal, mas era fascinado pelo mundo dos intelectuais. No Café Nice, misturava-se com Orestes Barbosa, com jornalistas. Perguntava que livro estava lendo... Se alguém dissesse Dostoievsky, por exemplo, indagava qual era a tese do livro.
“Chico Brito” – respondeu, finalmente, ao Jonas Vieira e prosseguiu:
-Quem canta é a Dircinha Batista, a sua cantora preferida, que se sai muito bem nesse samba difícil de cantar.
E acrescentou:
-Esse samba termina com uma citação de Rousseau: “O homem nasceu bom e, se bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o transformou.”
-Paulinho da Viola regravou. - lembrou o Jonas Vieira.
O biógrafo afirmou que Chico Brito é o alter ego de Wilson Batista e, empolgado, trauteou o início do samba:
-”Lá vem o Chico Brito descendo o morro na mão do meganha...”.
E explicou que a censura do Estado Novo interveio, e Wilson Batista teve de mudar a letra, sob pena de o samba não ser gravado. Ele alterou, então, meganha para Peçanha.
Há quem diga sobre esse samba que Peçanha seja um nome perfeito para delegado, nós, do Biscoito Molhado, que já tivemos um gato com esse nome, concordamos com o biógrafo do Wilson Batista, que considerou a homofonia entre os nomes a razão da mudança feita pelo grande compositor popular.





terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

2564 - fé de menos ou fede mais?



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4364                         Data: 16 de fevereiro de 2014
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NO GRANDE FEDOR LONDRINO

Eu e Elio estávamos literalmente na merda.
-Que fedor! - consegui exclamar.
-Agora, eu sinto na carne o que Jean Valjean sentiu, com Marius Pontmercy nos ombros, quando lhe salvou a vida em “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
-Sim, Elio, mas não estamos em Paris e sim, em Londres.
E indiquei-lhe com a cabeça, pois os meus dedos estavam ocupados em apertar as minhas narinas, a Catedral de Westminster.
-Desde que entramos nessa geringonça chamada de máquina do tempo, passamos por neve, por calor escaldante, por chuva de nuvens e de balas, mas nunca experimentamos tamanha fedentina. - manifestou-se com irritabilidade.
-Elio, você nunca entrou num banheiro de botequim no Rio de Janeiro?
-Entrei, mas bastou-me sair e trancar a porta para me restabelecer fisicamente; aqui, não, o fedor nos alcança em todos os lugares para os quais fugimos.
Estávamos os dois no que os ingleses denominaram “O Grande Fedor de 1858”.
Antes, ou seja, em 1852, a máquina do tempo nos levou ao Palácio de Buckingham. Lá, depois do impacto que nos causou o requinte do lugar, atentamos para a felicidade da Rainha Vitória e do Príncipe Albert.
-Todos os casamentos reais são realizados por interesses políticos, mas, nesse caso, houve uma exceção, eles se gostam, basta reparar na expressão do casal.
-Houve interesses políticos, Carlos, mas nesse caso, o amor prevaleceu. - fez o Elio a ressalva.
Não pudemos prosear por mais tempo, pois os assessores da rainha se prontificaram a receber George Jennings que faria demonstrações do seu invento anunciado como o mais espetacular. Ocultos, atrás de uma cortina, eu e Elio, mortos de curiosidade, presenciamos tudo. George Jennings abriu uma caixa, transportada por um ajudante, e de lá retirou um vaso sanitário com uma tampa. Levantou, em seguida, essa tampa e seu ajudante se sentou no vaso.
-Sem arriar as calças?!...
-É apenas uma demonstração, Carlos.
O inventor pôs-se, calmamente, a explicar a todos da maneira mais didática possível sua criação. Os dejetos das pessoas são depositados nesse vaso, e, em seguida, com um mero puxão de uma cordinha, a bomba de descarga é acionada, com isso, um jato d'água com a sucção carrega esse dejeto para bem longe dos olhos e do nariz. Tudo muito higiênico e simples.
Se a Rainha Vitória e o Príncipe Albert se encantaram com a invenção do vaso sanitário o que dizer dos seus súditos?
A era industrial já despontara na Inglaterra há quase um século, e, em Londres, todos sonhavam em ter uma privada em casa, e muitos conseguiram realizar o seu sonho.
Enquanto isso, no Brasil, arremessavam-se penicos pela janela com o grito de alerta “Se abaixa, ioiô, que lá vai cocô.” - manifestei-me.
-Sem falar nos escravos que ficavam enfezados quando a merda dos barris que transportavam escorria sobre eles. - acrescentou o Elio.
Mas nem tudo eram flores (se tal palavra pode ser usada nesse contexto). Os dejetos que desapareciam no vaso sanitário reapareciam nas tubulações de escoamento de chuva que, por sua vez, desaguava no Rio Tâmisa.
Transcorreram um, dois, seis anos e o Tâmisa se tornou terrivelmente  fedegoso e contaminado.
-Elio, os casos de cólera aumentaram dramaticamente; dezenas de milhares de pessoas já morreram.
-Nada de bebermos água, somente algo bem forte como gim. - propus em seguida.
-Não temos de temer o cólera, pois ainda não nascemos.
-Sim, Elio, ainda assim, não escapamos de cheirar essa fedentina.
Agora, em 1858, a coisa saiu do controle. A família real arrumou as malas e viajou para uma cidade mais perfumada do Reino Unido.
-Vamos queimar uns incensos. - sugeriu o Elio.
-Uma fetidez não vai substituir outra. - retruquei.
Elio teve, então, outra ideia.
-Vamos para o Parlamento. Lá, não pode estar tão mal quanto nos outros lugares de Londres.
Fomos.
Integrantes do Partido Conservador de Disraeli e do Partido Liberal de Gladstone esqueceram as suas diferenças políticas e se uniram para encharcar as cortinas do Parlamento de perfume.
Um político que, pelo entusiasmo era um admirador dos Estados Unidos, pediu a palavra e anunciou tonitroante:
-Na América, acabaram de inventar o papel higiênico.
-Ora, cala-te! O problema vai muito além da limpeza do rabo. - trovejou um liberal com um mau-humor compreensível.
-Para neutralizar essa fecaloide só um rio de perfume tão caudaloso quanto o Tâmisa. - comentou um político olhando as cortinas molhadas.
-O Rio Tâmisa está morto, a putrefação mostra isso. - disse alguém.
Então, um parlamentar da situação pediu a palavra e a algazarra se desfez por minutos.
-Foi criado o Metropolitan Board of Works para fornecer a infraestrutura necessária para o alucinante crescimento da nossa economia, que inclui um sistema de esgoto condizente.
-Sim, mas onde estão os resultados? - replicou a oposição.
-Mas o Metropolitan Board of Works foi criado no ano passado, os resultados não aparecem da noite para o dia.
Com discussões por todos os cantos, o tumulto reiniciou.
-Só uma lufada de vento vindo do Tâmisa emudece essa gente. - imaginei.
-Lufada de vento, não – temeu o Elio - prefiro ouvir essa gritaria toda.
-Se a máquina do tempo for generosa, nos transportará para a cidade em que a Rainha se encontra. - desejei.
Em vez disso, fomos enviados para o meio das obras de construção do esgoto de Londres.
-É uma portentosa obra de engenharia, Carlos.
-Concordo, mas eu sou economista, você se formou em ciências jurídicas. O razoável é que se encontrasse aqui o Dieckmann, que é engenheiro, e não, nós. - reclamei da sorte. (*)
-A Inglaterra deslancha economicamente como a maior potência do mundo; e este é o preço do progresso. Tem de haver obras de infraestrutura, como esta, para que um país tenha condições de progredir com sustentação.
-E pensar que mais de cem anos depois disto aqui, que cheiramos em Londres, há países cujos governos não realizam obras de infraestrutura porque não dão votos.
-Carlos, estive em Londres, nos anos 1980 e constatei que o Rio Tâmisa foi ressuscitado. Cardumes de salmão saltavam sobre as suas águas.
-E você comeu algum desses salmões?- fui tomado pela curiosidade.
-Comi, Carlos, mas, se antes eu tivesse passado pelo “Grande Fedor de 1858, não comeria.

(*) Muito estranho esses dois passearem por todo lado e só lembrarem de mim quando estão na fedentina. – disse Dieckmann ao Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, que não teve alternativa se não a resignação absoluta ante tamanha injustiça.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

2563 - invertendo o processo



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4363                         Data: 13 de fevereiro de 2014
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174ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

E passamos eu e Paizão a tratar da falta de segurança na cidade.
-Eu lhe contei da dona que entrou na quadra em que eu caminhava às 6h da manhã de um sábado, perguntando se podia ficar comigo?
-Ficar com você? - estranhou.
-Nada entendi também na hora; mesmo ela andando apressadamente, como uma atleta, percebi que não pretendia caminhar.
E o que ela queria?
Antes de eu falar alguma coisa, dirigiu-se a mim com agressividade.
-Eu queria ver se um parente seu fosse assaltado. Eu acabo de ser assaltada.
-O que a senhora quer que eu faça?- foram as palavras que me vieram à boca. Ela nada disse, e subiu a Rua Vlamink, ainda desarvorada, falando com todas as pessoas que passavam.
-Certamente, contava que acabou de ser assaltada. - concluiu o Paizão.
-Depois, entendi por que ela me perguntou se poderia ficar comigo, procurava proteção, mas ao se tornar agressiva, queria que eu agisse como um policial.
-E os policiais pensam em agir em defesa dos cidadãos? - reagiu o Paizão com sarcasmo mesclado com decepção.
-Já tive parentes assaltados, já fui assaltado.
-E quem não foi?
-Das cinco e meia da manhã até cinco e quarenta e cinco, o tempo que levo da minha casa à estação do metrô de Del Castilho, são quinze minutos de risco de assalto que eu corro de segunda a sexta-feira. -disse-lhe.
-Ainda está escuro nessa hora, mas mesmo que estivesse claro, esses marginais não desistiriam de roubar os trabalhadores.
Retomei a palavra:
-Semana passada, quando eu estava a uns cinco metros do beco dos cracudos, que sou obrigado a atravessar , pois é caminho para a estação de Del Castilho, deparei-me com uma moça com um capacete de motociclista na mão, a pé, indagando-me onde se encontrava a cabine de PM mais próxima. Indiquei-lhe a do Norte Shopping, e, em seguida, lembrei-me da cabine bem mais próxima, após o viaduto de Del Castilho e lhe avisei que para ir lá teria de subir por ele.
-Essa cabine do viaduto foi desativada há muito tempo. -Informou-me e acrescentou:
-Você sabe o que aconteceu com a dona?
-Roubaram-lhe a motocicleta. - respondi.
-E você tem alguma dúvida?!...
Enquanto eu saltava do seu táxi, Paizão comentava que a polícia estava mais interessada em dividir a receita da madrugada com os traficantes.
Antes de o Albino me receber com a sua pergunta infalível  - como está o metrô? – eu me antecipei.
-Tenho notado que as chamadas de emergência no metrô caíram consideravelmente de 2012 para cá.
-Como eu só ando de carro, nada entendo de metrô. Explique-me essa chamada de emergência.
-Se algum passageiro passa mal, um bom samaritano quebra o lacre da emergência e informa ao maquinista da ocorrência. A composição para, em seguida, e vem a pergunta que repercute por todos os vagões: “Qual o motivo da emergência?”
-É assim? - apressou-se, cortando o fluxo da minha tagarelice.
-Então, o metro reinicia a viagem até a próxima estação, onde um segurança já aguarda o doente. Normalmente moças com crise de pressão baixa causada por dietas.
Ele sorriu e eu prossegui.
-Quando se ouve a pergunta – Qual o motivo da emergência? - as reações de contrariedade dos passageiros são unânimes.
-Querem mais que o adoentado se dane. - deduziu.
-Para eles é um estorvo, - acrescentei.
-É sempre assim no metrô?
-Essa solidariedade?... Por coincidência, hoje, na volta do trabalho, quando as portas dos vagões abriram na estação da Presidente Vargas, ouvi, atrás de mim (eu me amparava num balaústre), vindo dos que entraram uma voz que dizia “uma gestante”. Vi, então, uma moça grávida de seis ou sete meses.
-E não cederam lugar a ela no banco destinado a idosos, deficientes físicos, grávidas?...
Antes de me manifestar, devo ter expressado um sorriso de decepção.
-As duas mocinhas que se refestelavam nesse banco, identificado pela cor laranja, fizeram cara de paisagem e a grávida permaneceu em pé. Uma jovem, constrangida por esse absurdo, se levantou e cedeu o lugar para ela.
-Infelizmente, são poucas as pessoas como essa mocinha e isso em todo o lugar. - frisou, enquanto eu saltava na Rua Modigliani.
-Hoje é a noite da minha peladinha.
Embora eu já tivesse ouvido mais de uma vez o Bob Esponja louvar as suas façanhas sexuais, sabia que o assunto era outro.
-Quarta-feira, não é isso?... O seu dia de jogar futebol.
- Dia sagrado. - frisou.
Como me contou, meses atrás, que o nível da sua glicose assustara o médico, perguntei-lhe sobre a diabete.
-A taxa de açúcar deve ter caído com as peladinhas semanais.
-Por que não caminha pelo menos quatro vezes por semana? - aconselhei.
-Com este calor?!... Há doidos, como o 081, que caminha pelas ruas; já foi assaltado na Rua Rocha Pita, Ele já teve um dedo do pé amputado pela doença, Eu prefiro jogar bola a andar pelas ruas.
-E você dorme bem?
-O amigo quando desce a Van Gogh às cinco e meia da manhã, geralmente me vê no ponto com o meu táxi.
-Sim, mas eu durmo às nove e meia da noite. - retruquei.
-Não dá para eu dormir tão cedo; sou exigido pela minha noiva e pelas mulheres que sempre aparecem... - deixou escapar um sorriso safado.
-Disse que, depois dessas peladas, a sede aumenta e seca algumas garrafas de cerveja.
-Com um churrasquinho. - acrescentou.
-Lembra-se do deputado federal Luís Eduardo Magalhães?
Depois de breve esforço evocativo, respondeu-me:
-O filho do ACM?!... Se não me engano, morreu depois de uma caminhada sob o sol a pino em Brasília.
-Não foi o sol a pino que lhe provocou o enfarte. Segundo o Nuno Cobra, que também foi personal-trainer do Aírton Senna, Luís Eduardo Magalhães inverteu o processo.
Sem lhe dar chance de intervir, pois desviaria o tema em questão, segui em frente.
-O processo se resume em primeiro lugar, dormir bem; em segundo lugar, numa alimentação correta e nas horas certas, por último, a atividade física. O Luís Eduardo Magalhães dormia mal, deitava-se de madrugada; alimentava-se horrivelmente, pois frequentava aqueles restaurantes de Brasília onde ingeria comidas gordurosas.
-E praticava exercícios físicos. - aparteou-me porque se sente agoniado quando não fala por dois minutos num diálogo.
-Por ter invertido o processo, isto é, colocado o terceiro ítem da hierarquia em primeiro lugar, Luís Eduardo Magalhãs apressou o deslocamento das placas de gorduras nas artérias que lhe provocaram o infarto. Não seria a atividade física que neutralizaria os malefícios das noites mal dormidas e da alimentação descontrolada.
-Rua Modigliani. - anunciou o Bob Esponja o fim da corrida.
Desci do seu táxi sem ter a certeza de que ele entendera o porquê de eu lhe lembrar o fim  do promissor político baiano.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

2562 - o surdo



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4362                         Data: 11  de fevereiro de 2014
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NA ESTREIA DA NONA DE BEETHOVEN

Nem tínhamos nos recuperado ainda da alucinante viagem pelo tempo, quando ouvimos gritos de criança e sons estalados de tapas numa cacofonia dramática.
-O que é isso, Carlos?
Quando consegui recuperar a visão, por pouco não fechei, agora, voluntariamente, os olhos.
-Um senhor bate num guri, Elio.
-Vou enquadrar esse criminoso no Estatuto da Criança e do Adolescente. - indignou-se.
-Deixe seu cacoete de jurista, Elio; pela vestimenta dos dois, se não estivermos no século XVIII, estamos no XIX.
Nem terminei de falar e pancadas fortes soaram na porta da casa onde o menino era espancado. Era uma vizinha irritada com a barulheira.
-Pare com isso, Herr Beethoven. Não basta eu ter de ouvir a sua música, ainda sou obrigado a escutar berros de criança.
-Bee-tho-ven!... escandimos eu e Elio cada sílaba levados pelo espanto.
O menino conseguiu escapar das mãos roliças do compositor e correr para a porta. Seguro de que escaparia, esganiçou tanto a voz que até um surdo o ouviria.
-Nasci para ser militar, não um pianista.
E saiu, em desabalada carreira.
-Carlos, já sei o que acontece: Beethoven queria que o menino, filho do seu irmão morto, se tornasse músico de qualquer maneira.
-Aconteceu isso também com ele... - observei sem atentar para a clareza das minhas palavras.
-Como assim?
-Mais criança do que o seu sobrinho, agora, Beethoven era submetido pelo pai bêbado a surras homéricas porque não se mostrava um menino prodígio como Mozart.
-Já entendi; o pai de Mozart ganhou dinheiro e fama exibindo, pela Europa, o filho desde os cinco anos de idade, aos monarcas e ao papa, e o pai de Beethoven pretendia fazer o mesmo.
-Isso mesmo, Elio.
-E agora, ele comete o mesmo crime que sofreu. - voltou a indignar-se o Elio.
Depois, intentou se corrigir.
-Saí da modulação, meu tom de voz não é tão alto.
-Não se preocupe, ele não nos escuta.
Enquanto falávamos, Beethoven encheu de água uma vasilha, levantou-a com as duas mãos, pendeu para baixo a cabeça e despejou tudo sobre ela sacudindo-a com gestos bruscos em seguida.
-Ele sempre faz isso antes de compor. - lembrei.
O vizinho debaixo soltou sonoros palavrões, pois a água escorria pelas rachaduras no assoalho.
-Não adianta xingar, ele é surdo. - manifestou-se o Elio.
-Vamos sair daqui para não incomodar o gênio no momento da criação. - propus.
Saímos à rua e estacamos quando vimos, numa estalagem, o sobrinho do Beethoven. Não gritava mais, no entanto, transparecia na sua fala o momento sofrido há poucos minutos.
-Por que não fiquei com a minha mãe?... Meu tio me obriga a ser o que eu não sou. - dizia para uma senhora gorda que parecia dona do modesto estabelecimento.
-Um dia, ele vai se conformar. - contemporizou.
O menino prosseguiu:
-Quando não me tortura, fica de um lado para o outro cantarolando lá lá lá rá rá rá rá rá rá.
Apesar da entonação tosca, os olhos do Elio brilharam.
-Carlos, essa não é a nona sinfonia?
-É isso e muito mais.
Elio não entendeu a minha entonação irônica, percebi e tentei esclarecer o porquê.
-Certa vez, eu estava na seção de discos clássicos de uma loja, quando um rapaz se aproximou de mim com uma pergunta, se eu sabia o nome de uma música; em seguida, cantarolou o trecho que ouvimos agora.
-E você? - reagiu o Elio com curiosidade.
-Antes de eu falar alguma coisa, ele pretendeu ser ainda mais explícito, dizendo-me que ela era tocada na propaganda, se a memória não me trai, de uma marca de Biscoito.
-O rapaz não sabia nada.
-E como não sabia, eu o informei que aquilo era um trecho de dez segundos de uma sinfonia com mais de uma hora e quinze de duração. Ele nem quis saber de mais nada, retirou-se quase que correndo da seção de discos clássicos.
E voltamos à realidade do século XIX.
-Há doze anos que Beethoven não compõe uma sinfonia, a última foi a oitava, em 1812. - manifestei-me com empolgação.
-Estamos, então, em 1824. - concluiu o Elio.
E pensou em voz alta:
-O que ocorreu de importante neste ano?...
-Elio, a criação da Nona Sinfonia de Beethoven, uma das maiores obras realizadas pela mente humana, como o Hamlet, de Shakespeare, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o Davi de Miguelângelo...
-Vamos, então, à estreia da última sinfonia de Beethoven. - interrompeu-me.
Há anos que Beethoven pretendia incorporar parte do poema An die Freude (À Alegria) à sua arte, e essa incorporação vocal a uma sinfonia era um feito nunca tentado antes, e esse momento se daria no quarto movimento. Para tanto, o compositor torturou a sua mente para encontrar a maneira mais adequada de introduzir a ode de Schiller à massa orquestral.
Anton Schindler, célebre pela amizade que nutriu pelo compositor, escreveu sobre as dores dessa criação. Pelo que se lê, ao encontrar o momento correto para a entrada do coro, Beethoven gritou de júbilo, pela casa, como Arquimedes ao descobrir a “Lei do Empuxo”.
Bem, a estreia foi marcada para o dia 7 de maio, no Kärntnertortheater em Viena. Eu e Elio estávamos lá.
-Beethoven queria reger... - sussurrei.
-Como, se anda com uma corneta acústica nos ouvidos?! - disse o Elio.
-O diretor musical do teatro vai reger, mas Beethoven ficará no palco do lado dele. - informei.
-Coisas nunca vistas e ouvidas acontecerão aqui. - concluiu o Elio, enquanto os músicos da orquestra afinavam seus instrumentos.
Beethoven desejava que a primeira audição da sua obra fosse em Berlim, pois acreditava que o gosto dos vienenses tendia para as óperas de Rossini, mas se enganou: o teatro estava repleto.
Quando maestro e compositor pisaram o palco, a plateia vibrou. Assim que os dois se postaram diante da orquestra houve um silêncio profundo.
-Carlos, são dois maestros para uma só orquestra. - comentou o Elio com a inusitada cena que todo o teatro testemunhava.
Os primeiros acordes emudeceram todos. Beethoven gesticulava freneticamente, os músicos, no entanto, o ignoravam, seguindo os gestos do regente Michael Umlauf. Como o compositor nada percebia, continuou a reger.
-Ele está atrasado em vários compassos. - comentou alguém perto de nós.
Na entrada do coro, no quarto movimento, a monumental música se tornou ainda mais impressionante.
Quando ecoou a última nota, os aplausos substituíram a música em intensidade. Sem ouvir nada, Beethoven permanecia de costas para o público; então, a jovem solista que cantara com o registro de contralto, pegou-o pelo braço e o mostrou à plateia em delírio. Ele, então, viu as mãos se batendo incansavelmente, lenços e chapéus sacudidos no ar. Estava comovido. Curvou-se várias vezes em agradecimento.
Nós é que temos de agradecer. - devem ter pensado todos os presentes.