Total de visualizações de página

quinta-feira, 23 de maio de 2013

2381 - trinchas, brochas e pincéis

-------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4181                                    Data:  05 de  Maio de 2013
-------------------------------------------------------------

88ª VISITA À MINHA CASA

-Toulouse-Lautrec, o primeiro artista que desviou o patrocínio da pintura da igreja e da nobreza para atender o comércio crescente advindo da Revolução Industrial sem deixar de fazer uma grande arte. - vibrei com a visita.
-Veja a ironia; eu era de família nobre.
-Sei que seus ascendentes remontam aos condes de Toulouse que se casaram com os aristocratas Lautrec.
-Nasci numa noite tempestuosa.
-Houve de geração a geração muitos casamentos consanguíneos na sua família.
-Meu pai, Conde Alphonse de Toulose-Lautrec-Monta era primo de minha mãe, Adèle Tapié de Celéyran. Não sei por que cito os nomes deles completos, pois a pompa da aristocracia nunca me atraiu.
-Enfim, esses casamentos entre parentes no correr dos anos, segundo a ciência, explica a debilidade óssea que deixou comprometido seu crescimento.
-Ah, essa distrofia!... - exclamou com um sorriso triste na comissura dos lábios.
E continuou:
-Com doze anos de idade, caí e quebrei o fêmur esquerdo; com quatorze, era o direito que se partia. Com meus ossos mal soldados, parei de crescer.
-E a sua altura não passou de 1,52 m.
-Tive corpo de homem adulto sustentado por curtas pernas de meninos.
-Você passou os longos períodos acamado desenhando e pintando aquarelas, enquanto o seu talento desabrochava com todo o vigor.
-Se não fosse a arte...
-Um escritor da França, um pouco mais jovem do que você, Marcel Proust, disse que só a arte consola.
-Com dezesseis anos, estudei pintura com León Bonnat, mas ele me desagradava pela sua rigidez e visão antiquada.
-No seu primeiro quadro, podemos dizer assim, você desenhou o seu pai, com vestes caucasianas, montado num cavalo, com um falcão. Um homem, enfim, poderoso.
-O meu pai era tudo o que eu não poderia ser com o meu corpo frágil. - lamentou.
-Ele gostava das artes.
-Apesar disso, não havia empatia entre nós. Ele, porém, disse-me uma coisa de que jamais esqueci na minha curta vida.
-O que foi? - não contive a curiosidade.
E Toulouse-Lautrec procurou reproduzir palavra por palavra o que ouvira:
-Lembre-se: a única maneira boa de se viver é ao ar livre e sob o sol.
E acrescentou:
-E eu logo deduzi: nada havia de pior do que o confinamento e a falta de liberdade.
 -Seu pai era uma pessoa solar.
-Se assim fosse, não traria sofrimentos à minha mãe.
-Você pintou mais de uma vez à sua mãe, a Condessa de Toulouse-Lautrec.
-Mas em nenhum desses quadros ela aparece com o porte magnânimo dos nobres, pelo contrário; pintei como a via.
-Numa das mais representativas pinturas suas desse tempo, sua mãe mostra candura e tristeza. Está triste porque seu casamento estava desfeito, embora mantivesse a aliança.
-A sua melancolia era também proveniente da perda do seu segundo filho, o que me fez sentir mais pesada a carga sobre os meus ombros.
-Isso não o impediu de sair da sua pequena cidade natal, Albi, e viajar para Paris?
-Claro que não. Fui a Paris e fiquei arrebatado com as obras de Manet, Cézanne e Monet. Eles muito me influenciaram e me ajudaram na procura do meu próprio caminho.
-Nesses quadros da sua mãe, de que falei, já havia forte influência impressionista.
-Eu já estudava com Fernand Cormon, cujo estúdio ficava nas ladeiras de Montmartre.
-E quando você saiu de Albi e se mudou definitivamente para Paris?
-Em 1884, quando eu estava com 20 anos de idade.
-Não pôde ficar mais longe de Montmartre.
-O bairro era o reduto de artistas e filósofos. Montmartre era um caldeirão onde fervilhavam todos os tipos humanos e eu era mais um.
-Não, Toulouse-Lautrec, você não era mais um; você foi o maior cronista a usar o pincel para retratar aquele mundo e submundo de prostitutas, bêbados e rufiões.
-Que usei o pincel até não mais poder é verdade. - disse com um riso malicioso.
-Tanto a sua virilidade artística como sexual se tornaram legendárias.
-Para satisfazer toda a minha energia, não bastavam apenas as telas.
-Diziam que, da cintura para baixo, apenas as suas pernas eram curtas.
Toulouse-Lautrec gargalhou. - mais uma demonstração de que, apesar da sua criação aristocrática, se sentia à vontade com as piadas pouco refinadas, mesmo grosseiras.
-Bem, você captou a Paris alegre dos cafés, dos bares, dos cafés concertos e a Paris das lavadeiras, das libertinas...
Quando percebi que o entusiasmo me tornava verborrágico, cortei no meio a minha frase.
-Eu admirava a arte japonesa e as boas fotografias, considerei que elas podiam ser aproveitadas na pintura, mas não fui o primeiro a ver isso.
-Em Montmartre, você frequentou muito o Moulin de La Galette?
-Lá estava um tesouro para um artista explorar. - afirmou.
-Que o diga Renoir com um dos seus mais famosos quadros. - intervim.
-Ele retratou muitas pessoas de uma só vez, mas cada uma dizia muito de si.
-Creio que você, mais do que qualquer outro pintor, usou a sua palheta para mostrar Montmartre.
-Tudo estava ali, bastava você pintar.
-Não era assim tão simples, fazia-se necessário muito talento, e poucos o tiveram como Toulouse-Lautrec. - enalteci-o sem que ele reagisse com falsa modesta.
-Eu já me sentia, desde Albi, atraído pelas mulheres. Em Paris, encontrei nas prostitutas toda a generosidade de que eu tanto carecia.
-Você, provavelmente, ganhava uma boa mesada dos seus pais.
-Elas não se ligaram a mim apenas pelo interesse pecuniário.
-Claro que não, muitos eram os seus talentos que traziam as mulheres para perto de você.
-É verdade que eu recebia mais dinheiro do que Cézanne, que também tinha o pai distante. 
-Que era banqueiro. - acrescentei.
-Cézanne se viu tolhido pelo moralismo paterno; casou com uma mulher pobre, nasceu-lhe um filho e o pai só soube oito anos depois, pois ele temia perder a sua fonte de renda.
Após uma pausa, perguntou:
-Nem sei se ainda estava vivo quando esse problema familiar aconteceu com ele.
-Deixemos Cézanne de lado e falemos de você.
-Nunca é demais falar dele, que foi reconhecido pelos seus pares, mas foi o último impressionista cujo brilho o mercado das artes viu.
-Em Paris, Toulouse-Lautrec, a sua queda pela bebida se tornou irreversível. 




quarta-feira, 22 de maio de 2013

2392 - os cães ladram para Tijuana

----------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4192                                  Data:  21 de  Maio de 2013
-----------------------------------------------------

RÁDIO MEMÓRIA DA BABÁ AOS UIVOS

A primeira obra musical (e que obra musical!) a ser citada na abertura do programa desse domingo, 19/05, foi o “O Rapto no Serralho” de Mozart. Isso porque o Jonas Vieira deu início aos trabalhos informando que o Luzer Machtyngier voltaria a ser um dos substitutos do Sérgio Fortes, enquanto reportava-se à apresentação da OSB em que seu convidado foi um dos violinistas do singspiel do divino Mozart.
Coube ao Dieckmann indicar a primeira gravação do Rádio Memória e ele não voltou muito no passado, optando pela “Diana”, com Paul Anka, que alcançou grande sucesso nos anos 60. Antes, explicou que a inspiradora dessa canção foi a sua babá. (*)
Logo me veio à mente o escândalo que Freud provocara quando palestrou para os seus pares sobre a sexualidade infantil. Reagiu o pai da psicanálise à indignação geral com uma frase apenas: “As babás sabem do que estou falando.”
Luzer foi para os Estados Unidos, sem recuar muito no tempo e solicitou uma gravação que juntou, em 1967, para o nosso regalo, dois dos maiores expoentes do século XX: Duke Ellington e Frank Sinatra.  Com destacados instrumentistas na orquestra do mestre do Jazz, Frank Sinatra teve de ceder espaço para alguns solos que abrilhantaram ainda mais “I like the Sunrise”. O arranjo era de Billy May. (**)
A gravação solicitada depois, pelo titular do programa, robusteceu ainda mais a minha decisão de sintonizar a Rádio Memória. Disse o Jonas essas palavras que tento reproduzir fielmente, embora saiba que a tentativa é vã:
-Luiz Barbosa era um cantor estilista. Hoje, está esquecido, mas foi ele que influenciou as interpretações de Ciro Monteiro e Moreira da Silva. Boêmio inveterado, morreu cedo. O samba que vamos ouvir, “Sou jogador” é do próprio Luiz Barbosa, e a letra é tão boa que vou lê-la.
E eu que não sabia até então da existência de tamanho talento!...Reconheci, enquanto o samba soava, que, em matéria de cultura popular brasileira, havia, em mim, uma lacuna que, agora, começava a ser preenchida. 
A bola voltou para o Dieckmann, que, além de não sair do Brasil, continuou com outro grande sambista, Ismael Silva. Optou pela música dele de que eu mais gosto, “Se você jurar”, mas sem se esquecer de falar do “Antonico”. Nesse samba, sem alterar uma letra de uma frase do Pixinguinha, Ismael Silva transformou-a em verso: “faça por ele como se fosse por mim”. Com essas palavras, Pixinguinha encerrou uma carta, de 1939, em que pedia ao historiador Mozart de Araújo/Antonico ajuda a um amigo (Ismael Silva), que passava por grandes dificuldades financeiras.
Houve uma pausa para a meditação (não sei se nesse momento) e foi lida pela voz empostada do José Maurício, a resenha de Quincas Borba, do grande Machado de Assis.
Luzer quis ouvir Scott Joplin, o compositor mais representativo do ragtime, que morreu louco, devido à sífilis, em 1917.  A música era “The Cascades”, inspirada na  Exposição  Internacional de Saint Louis, em 1904.
Enquanto o Dieckmann, além de ligar “Cascades” ao filme “O Golpe de Mestre”, dissertava sobre o Palácio Monroe, que foi edificado no Brasil graças a essa exposição, eu me recordava do programa da Rádio MEC do João Carlos Carino em que ele comparou “The Cascades” de Scott Joplin com “Ubiratan” de Pixinguinha. E concluiu-se que as duas composições eram primas, ou seja, tinham a mesma origem, era africana. Certo, mas que o Choro de Pixinguinha tem mais malemolência, não há dúvidas.
Jonas Resende me surpreendeu mais uma vez.  Agora, com o trompetista Rafael Mendez que transpôs do violino para o seu instrumento a peça mais difícil do mais virtuose violinista de todos os tempos, Nicolò Paganini, que é o “Moto Perpétuo”. Todos ficaram assombrados com o fôlego do trompetista; Luzer, encarregado pelo titular do programa a dar uma explicação, considerou que uma junta médica, com pneumologistas, seria mais indicada do que ele para explicar.
Eu, até aquela hora, conhecia apenas o “Moto Perpétuo” transcrito pelo Edu da Gaita.  O músico brasileiro precisou de onze anos de estudo, segundo o seu filho, para adaptar as mil e duzentas notas para a gaita e tocá-la em 3 minutos e 21 segundos. Conseguiu a façanha em 1956, acompanhado pelo piano do maestro Leo Peracchi.
Nos áureos tempos do Pasquim, Edu da Gaita concedeu uma entrevista e disse que orientou Villa Lobos, no concerto que este compôs para Gaita e Orquestra, mais foi ludibriado – garante – pois ele dedicou a obra ao conhecido, internacionalmente, como mestre da harmônica, o americano John Sebastian. Restou-lhe o consolo de ganhar a dedicatória do concerto para Gaita e Orquestra de Radamés Gnatalli. Mas isto é outra história.
Eu não sabia que Les Paul fora o inventor da guitarra elétrica, instrumento  que deixa o José Ramos Tinhorão de cabelo em pé.  E a música que soou ficara célebre com Glenn Miller; “In the mood” que, na versão de humorística de Aloysio de Oliveira, transformou-se em “Edmundo”.
Antes de a guitarra elétrica vibrar, há, na gravação de 1961, um falatório entre Les Paul e sua mulher, Mary Ford, que o manda arrumar um emprego.
Na vez do Luzer, ele apresentou uma das muitas obras-primas de Noel Rosa, “Pra que mentir?”, com a parceria do Vadico, compositor a quem cabia colocar música na peça em versos de Vinícius de Moraes, “Orfeu no Carnaval”. Ele declinou do convite por causa da sua agenda repleta, cabendo a missão a um jovem que iniciava na carreira, Antonio Carlos Jobim.
A letra de Noel Rosa confirma o Poeta da Vila como aquele que elevou as letras das canções populares a um patamar de excelência.
 A gravação era com Paulinho da Viola, cuja voz acaricia os nossos ouvidos.
A última música do programa desse domingo estava a cargo do Jonas Vieira e ele, antes de mostrá-la, discorreu sobre o apogeu e nadir das orquestras. O desaparecimento se deu nos anos 60, mas uma delas ainda resistiu bravamente, “Tijuana Brass”.  A gravação era “A Taste of Honey”.
Depois de tocada, Dieckmann comentou que ele e o Luzer se reportaram ao triunvirato Henry Mancini, Burt Bacharach e Herb Alpert.
Como a finalidade do programa é ativar as nossas reminiscências, sinto-me encorajado a dizer que eu, ao contrário dos dois, reportei-me ao Big e Veludo, cachorros da nossa casa da Rua Cachambi.
Meu irmão Claudio tinha o LP Herb Alpert & Tijuana Brass e predileção pela faixa “A Taste of Honey”, mas sempre que a colocava na vitrola, a nossa dupla canina uivava como lobos solitários à lua. Até então, Big e Veludo só uivavam com a sirene do bombeiro, mas o instinto melancólico, ou lá o que seja, passou a ser deflagrado também com o trompete de Herb Alpert. Era constrangedora a barulheira dos nossos cães, pois não havia o encanto dos uivos do coiote que Ennio Morricone transformou em notas musicais na trilha sonora do filme “Três Homens em Conflito”.
A coisa ficou tão séria que nossos pais proibiram a audição do “A Taste of  Honey” em casa. Não adiantou muito, pois eles passaram a uivar com a protofonia da ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes, mais uma razão para que o rádio fosse desligado na “Voz do Brasil.”
E vieram as despedidas e alusão às férias do Sérgio Fortes na Europa que, caso não sejam férias de almirante, se encerram nos próximos dias. (***)
Bem, foi mais um Rádio Memória que cumpriu o seu objetivo: levar os ouvintes aos bons momentos do passado. 

(*) Se o seu O BISCOITO MOLHADO fosse escrito em latim, a construção da frase não deixaria dúvidas. A babá em questão é a do Paul Anka.

(**) o redator deste periódico devia estar sonolento. Luzer foi bem enfático quando disse que Sinatra fez o Billy May maneirar. Deixa os caras tocarem!

(***) Sérgio Fortes já voltou! Sérgio Fortes já voltou!

terça-feira, 21 de maio de 2013

2379 - cimentos, concretos e engenhos

-------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4179                                     Data:  28 de  Abril de 2013
-----------------------------------------------------------------

MENSAGENS ELETRÔNICAS COMENTADAS

Fischberg me remete inúmeras fotografias dos Estados Unidos de cem anos atrás, numa delas “banhistas” numa praia de Atlantic City, datada de 1915. Banhistas aqui vão aspados porque muitos parecem que estão em plena Wall Street, num momento de folga, palestrando sobre as altas e baixas das ações.
Entendo agora outro e-mail que recebi poucos dias antes. Trata-se de uma fotografia, de 1922, que mostra mulheres sendo presas em Chicago por desafiarem a proibição do uso de trajes de banho em público. Era vetado o uso de roupas que mostrassem a barriga e as pernas. As mulheres também tinham de se cobrir nas praias quando não estivessem dentro da água.
O que vemos na fotografia são mulheres levadas para um veículo da polícia (bem mais alto que os nossos camburões e igualmente estreitos). Lembrei-me das prostitutas francesas embarcando à força, em Le Havre, num navio que ia para a América, no segundo ato da ópera Manon Lescault, de Puccini. Não sei o porquê dessa lembrança, talvez porque uma delas, num gesto de deboche, curvou-se e jogou a saia para cima, mostrando o traseiro para as autoridades.
Veio-me também à lembrança, no caso da primeira foto, um filme de um documentário em que aparece o então presidente Richard Nixon, numa praia, em que o seu terno escuro contrastava com a areia branca e o  comentário do narrador: “Ele era uma figura lúgubre.”
Se alguém hoje, nas praias do Rio de Janeiro, principalmente, aparecesse vestida como essas jovens de Chicago, em 1924, diriam que elas usam paraquedas em vez de biquíni.

Recebi da Alba, correspondente do Biscoito Molhado em Porto Alegre e repassei imediatamente aos meus amigos, a carta de Vespasiano ao seu filho Tito Flavio.  Devido à atualidade da mesma, no Brasil, em que rios amazônicos de dinheiro são gastos na construção de estádios de futebol, alguns desses amigos me perguntaram: “Mas essa carta é verdadeira?”
Se non é vero é bene  trovato.
Aqui vão uns trechos dela, datada de 79 d.C, um dia antes da sua morte:
“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, Imperador. (...) De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns Senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro. Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por “omnia saecula saeculorum” e sempre que o olharem dirá: Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou.”
“Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas, “Vel caeco appareat” (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma.”
“Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: “Ad captandum vulgus, panem et circenses” (Para seduzir o povo, pão e circo).”
Não custa relermos a história do Coliseu, também conhecido por Anfiteatro Flavio. 
O nome Coliseu se origina do vocábulo latino Colosseum, que se refere à colossal estátua do imperador Nero, erguida nas proximidades, mas a intenção dos idealizadores não era homenagear o matricida, como veremos depois.
Edificado entre 70 e 90 d.C., foi iniciado por Vespasiano, inaugurado por Tito Flavio, em 81 d.C, ano do seu falecimento e concluído por Domiciano, seu irmão mais novo, que governou de  81 a 96 a.C.
O local escolhido por Vespasiano para a construção se achava no fundo de um vale entre colinas. O lugar fora devastado pelo Grande Incêndio de Roma, em 64 d.C. que, como sabemos, serviu para que Nero chacinasse os cristãos. Pouco tempo, depois, o Imperador Nero o reurbanizou  com um enorme lago artificial, “Casa Dourada”, situada num complexo de construções, para seu prazer pessoal. E lá mandou, ególatra como era, que fizessem a colossal estátua de si mesmo de que já falamos.
Acredita-se  que o imperador Vespasiano optou pelo levantamento da sua grande obra no lago do “Palácio Dourado de Nero”, com o objetivo de que os males causados pelo seu antecessor fossem esquecidos. Além de agradar o povo, Vespasiano colocou o símbolo do poder da sua dinastia no coração de Roma.  Infelizmente, não pulverizou a estátua de Nero.
A edificação foi financiada com os tesouros conseguidos depois da vitória romana na Grande Revolta Judaica, no ano 70. Drenou-se o lago, e os homens puseram mãos à obra.
A sua arquitetura é extraordinária. A sua planta elíptica mede dois eixos que se estendem aproximadamente de 190 por 155 metros. É construído em mármore. Pedra travertina, ladrilho e pedra calcária com grandes poros, chamada tufo. A fachada é composta de arcadas decoradas com colunas dóricas, jônicas e coríntias, de acordo com o pavimento em que se encontravam. Subdivisão possível porque a construção, sendo essencialmente vertical, cria uma diversificação do espaço.
Formado por cinco anéis concêntricos de arcos abóbadas, o Coliseu representa o avanço introduzido pelos romanos à engenharia de estruturas. Esses arcos são de concreto (de cimento natural), revestidos por alvenaria. A alvenaria era, na realidade, construída simultaneamente e servia de forma para a concretagem.
A entrada e saída dos espectadores, que alcançavam 50 mil, se dava em tempo curtíssimo o que faz os engenheiros de hoje babarem, de admiração.
O Coliseu foi utilizado durante 500 anos aproximadamente. Deixou de ser frequentado  para entretenimento no começo da Idade Média, mas foi, posteriormente, usado como habitação, oficina, forte, pedreira, sede de ordens religiosas e templo cristão.
Vem-me à mente o estádio de futebol do Engenhão, cuja obra se iniciou em 2003 d.C., e foi interditado 10 anos depois devido o risco de desabamento...  As construtoras embolsaram todo o seu dinheiro, como pregava Vespasiano e pior: o povo não teve o seu circo por muito tempo.
É melhor parar por aqui.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

2378 - pintaram o muro...

---------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4178                                      Data:  25 de  Abril de 2013
------------------------------------------------------------------

160ª  CONVERSA DE TÁXI

Nunca mais peguei o táxi do Botafoguense, não porque ele mudou o horário de trabalho, mas por desencontro mesmo. Quando eu apareço no ponto da Domingo de Magalhães, há quatro ou cinco colegas dele na frente, e eu tenho de ir num desses carros.
E logo agora que o Botafogo passou a vencer?!... Com o título da taça Guanabara e a chegada às semifinais da Copa Rio, ele expressaria toda a sua alegria para mim. Tem ele, então de transportar passageiros que, diferentemente de mim, são flamenguistas, vascaínos, tricolores ou, na sua maioria, indiferentes às pelejas de futebol.
Quando o Botafogo perdia, sempre calhava de, pelo menos uma vez na semana, ele me conduzir até a minha casa. Lamentava, então, a falta de um ou outro jogador que estava contundido, e os erros dos árbitros. Quando eu saltava na Rua Modigliani, ele, porém, expressava o seu otimismo:
-Vai melhorar.
Agora, que as jeremiadas foram substituídas pelo entusiasmo, não consigo falar com ele.
Outro desencontro tem acontecido com o 009, o táxi do Gaguinho.  Contava-me, a cada corrida, a saga do filho para conseguir uma bolsa de estudos de chefe de família. Quando a bolsa parecia certa no Colégio Castelo Branco, os corruptos, que se acham em todos os lugares, enfiaram as mãos nos cofres da instituição de ensino e o Colégio viu-se, então, obrigado, a cortar a verba dos esportes. Tentou-se, então, o Colégio São José; o técnico da garotada talentosa que joga handebol disse para o Gaguinho, que havia grandes possibilidades de se conseguir nessa escola a tão almejada bolsa de estudos.
Conheço a história até aqui, pois, como disse, os desencontros me impedem de entrar no seu táxi e ouvir a continuação dessa saga.
Estava difícil também pegar o táxi do Paizão. Via-o quase sempre na fileira de carros do ponto da Domingo de Magalhães, pois ele começa seu trabalho às 16h 30mim, encerrando por volta da meia-noite, mas sempre havia algum colega seu na dianteira e houve até casos de aparecer passageiro para ele segundos antes de eu chegar.
Gosto de prosear com o Paizão, pois é daquelas pessoas que, próximas de nós, nos anima. Traz bons fluidos, como se diz corriqueiramente.
Na semana passada, quarta ou quinta-feira, não me lembro bem, tive, finalmente, a sorte de entrar no seu táxi.
-Poxa, já fazia um bom tempo...
-Fazia mesmo. - concordou.
Pouco depois, ele revelava a sua idade: 79 anos.
-Mas o senhor está muito bem. - surpreendi-me.
-E daqui a poucos meses, chego aos 80.
-Sem parar de trabalhar; faz muito bem.
-Eu já lhe disse: não saio no meu táxi com preocupação de embolsar um valor em dinheiro, o que eu ganhar está bom.
-Sei, e que, geralmente, eu sou a sua primeira viagem.
-Hoje, você é o primeiro. Lá pelas 11 horas da noite, meia-noite, no mais tardar, eu recolho o carro. Então, vou assistir a um bom filme. É verdade que disputo a televisão com a minha neta, que é notívaga.
-O senhor não se estressa, nunca o vi zangado nas inúmeras vezes que peguei seu táxi... É por isso que o senhor chega aos 80 tão bem.
-O médico me recomendou que eu caminhasse três vezes por semana, pelo menos e é o que eu faço.
Essas palavras foram ditas quando eu já saltava do seu carro na Modigliani.

Uma semana antes, ou quase isso, no almoço de domingo de Páscoa, deu-se a corrida de táxi mais inusitada. Não tentei chamar um pelo telefone porque não me saía da mente o almoço de Natal: três cooperativas foram acionadas por mim e nenhuma delas conseguiu um veículo para me levar ao Méier. A maioria dos taxistas também almoçava com a família e os poucos que foram trabalhar escolheram as corridas longas, haja vista que a oferta de passageiros crescera exponencialmente.
Assim, nesse domingo de Páscoa fui para a rua, no caso a Avenida Suburbana, pegar um táxi “na maçaneta”, termo que o Bob Esponja usa quando relega para o segundo plano as chamadas pelo rádio e sai em busca de clientes que sinalizam na rua.
Não esperei três minutos e veio um táxi.
-Rua Ajuratuba, ali entre o Méier e Todos os Santos. - disse o meu destino logo que me acomodei no cinto de segurança.
-Não conheço.
-E a Rua Santos Titara?
-Essa, eu sei...
-Então, chegaremos lá.
Depois dessas palavras, expressei a minha surpresa de ver tantos táxis rodando naquela hora.
-Imaginei que teria a mesma dificuldade do Natal, quando minha sobrinha teve de vir até a minha casa, no carro dela, para buscar a mim e à minha mãe para o almoço.
-Amigo, desde às 7h da manhã que estou na praça. Guiei por toda a Zona Sul, Glória, Flamengo, Botafogo, Copacabana, Leblon, Gávea, Lagoa. Vim, então, para a zona norte e peguei o meu primeiro passageiro na Marechal Rondon; o meu segundo,  foi na Abolição. Agora, 11h 30min, pego meu terceiro passageiro: você.
-Eu imaginei que os táxis hoje seriam requisitados a todo o momento.
-Mesmo pensamento meu, mas aconteceu isso. Afinal, a Páscoa é mais importante do que o Natal, pois confirma a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Depois de uma pausa, ele passou a falar de amenidades e, em seguida, de assuntos da família. Era um tagarela. Falou do dia a dia em casa, dos filhos, da dificuldade em colocar os netos, que só pensam em joguinhos de computador, para estudar e da imprescindível ajuda que recebe da patroa (a esposa) para levar as coisas como deve.
Apesar dos netos, aparentava pouco mais de 50 anos, não bastasse a aparência física, a energia que demonstrava era de um pessoa mais jovem.
O toque do celular cessou o fluxo do seu discurso.
-Com licença. - pediu-me.
E mudou de interlocutor.
-Alô. É você.
Ouvi, então, uma voz feminina, não porque apurasse os ouvidos: ele pusera o celular no viva-voz.
 -Comprei um ovo de Páscoa para você, daquele chocolate gostoso.
E aquela voz melíflua de mulher prosseguiu:
-Você não vem aqui buscar?
E ele não desliga o viva-voz. - disse comigo mesmo, surpreendido.
-Eu estou lhe esperando.
-Assim que puder, estarei aí.
Feita a promessa nada católica, desligou. E prosseguiu a falar das trapalhadas dos seus parentes como se aquele telefonema de segundos antes não existisse.
-A Rua Santos Titara é aquela. - indiquei.
E deixou-me, pouco depois, na Rua Ajuratuba, sem antes contar o caso de uma passageira que levou para Vila Valqueire que tinha como referência o muro verde de uma casa.
-Pintaram o muro de outra cor e foi um martírio encontrar a tal casa.











sexta-feira, 17 de maio de 2013

2377 - Bomba! bomba!


---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4177                                      Data:  23 de  Abril de 2013
----------------------------------------------------------

EU  E  DIECKMANN  FUGINDO DAS BOMBAS VOADORAS

Meados de 1943, estávamos em Londres.
Olhei para o céu e nada vi que assustasse, nem mesmo nuvens negras anunciando chuva. (*)
-Os dias tumultuados de bombas despejadas pela Luftwaffe sobre a cidade passaram. - disse.
Dieckmann ouviu e olhou-me com a expressão preocupada.
-Os alemães estão ocupados na Rússia, mas não se esqueceram da Inglaterra. - afirmou.
-Sim, depois de serem atacados por mais de mil aeronaves de Hitler abastecidas por combustível de Stalin, os ingleses dormem agora mais sossegados. - comentei.
-Feita essa comparação com os anos iniciais da guerra, sim, está melhor hoje. A Luftwaffe bombardeou até o Palácio de Buckingham...
-E Churchill sugeriu que a família real se protegesse nos Estados Unidos, ou no Canadá, mas eles preferiram continuar junto do seu povo. -  interrompi o Dieckmann.
-Dobrar o soldado da Inglaterra é praticamente impossível. - afirmou o Dieckmann.
-A Inglaterra deve muito ao morcego a vitória sobre a Alemanha nos ares.
Antes que o Dieckmann me interpelasse, prossegui:
-O invento do radar surgiu da observação dos voos do morcego e, com essa invenção, a RAF pode localizar os aviões inimigos, que tinham a superioridade numérica e derrubar muitos deles.
-A batalha da Inglaterra foi um inferno de máquinas no céu que durou o dia inteiro, no final, prevaleceram não só a eficiência dos radares britânicos como a competência dos pilotos da RAF. - comentou o Dieckmann.(**)
--Quando foi mesmo que Churchill fez aquele célebre discurso em que disse: “Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”? - indaguei.
-Em 20 de agosto de 1940, na Câmara dos Comuns. - respondeu.
-Depois disso, passou a haver escaramuças nos céus da Grã-Bretanha. - comentei.
-Se você chama o que veio depois de escaramuças... - disse com um tom crítico na voz.
-Claro que não chamo; só nas três primeiras semanas de agosto de 1942, a RAF colocou 420 aviões da Luftwaffe fora de combate. - manifestei-me.
-Não os derrubou todos aqui, pois os radares permitiam que a RAF localizasse as aeronaves inimigas logo que decolavam, evitando, com isso,  que perdessem tempo e combustível em rondas aéreas. - observou.
-O comandante da Luftwaffe, Goering, com  aquele corpo gordo, que logo me lembra o burguês-bunda do poema do Oswald de Andrade, não me convence como comandante da Luftwaffe.
-No entanto, ele foi um dos maiores pilotos alemães da Primeira Guerra Mundial. - retorquiu o Dieckmann.
-Os observadores bélicos disseram que os aviões de ataque nazistas não tiveram muita autonomia de voo.
-Hitler, com seus subordinados, diminuiu os tanques dos aviões para que coubessem mais armamentos, assim, eles tinham de voltar logo para a França, depois de rasgar o céu de Londres, para abastecer. - esclareceu-me o Dieckmann.
E foi enfático, em seguida:
-A Lutwaffe chegou a reunir 2669 aeronaves operacionais, com 1015 bombardeiros, 346 caças de mergulho, 933 caças e 375 caças com armamento pesados.
-Mas depois de enfrentar o heroísmo britânico e invadir a Rússia, a força aérea de Hitler caiu acentuadamente e nós podemos agora, em meados de 1943, prosear por horas, sem sobressaltos, em pleno Hyde Park.  Eles não furam, como antes, as defesas antiaéreas londrinas. - observei.
-A guerra ainda está indefinida. - afirmou.
-Atualmente, a RAF irrompe pelos céus da Alemanha e reduz a escombros bairros e mais bairros das cidades desse país. Caem as bombas e o moral alemão.
-Os alemães sofreram com as brutais reparações de guerra do Tratado de Versalhes, atravessaram uma das maiores hiperinflações da história, estão, portanto, escarmentados para superar maus momentos. - frisou o Dieckmann.
Nesse momento, convergi minha atenção  para cima, e vi alguns aviões da RAF.
-Vão arrasar mais cidades.
-Parece-me que a função deles é de reconhecimento.
Subitamente, eu e Dieckmann fomos engolidos por um turbilhão. Quando acordamos, estávamos em outro lugar e as vozes que chegavam aos nossos ouvidos indicavam que o idioma também era outro. Depois de uma hora, descobrimos que estávamos um pouco além das praias do Báltico, a 96 quilômetros do nordeste da cidade de Stettin, num local cercado por arames farpados eletrificados.
 -Estamos na estação de pesquisas da Luftwaffe em Peenemünde. - localizou-nos o Dieckmann.
-Um e outro avião da RAF passam, mas parece que os alemães não dão muita atenção a eles e continuam trabalhando.
-Os ingleses já sabem o que se faz aqui.
-E o que se faz aqui, Dieckmann?
-As armas secretas com que Hitler pretende arrasar com 80% da Londres e, em seguida, virar o rumo da guerra para o lado dele.
-As bombas-voadoras V1 e V2?
-Sonderwaffen. - como diria o meu avô alemão que arrefeceu o seu entusiasmo ariano depois que o meu pai quase o prendeu.
Do assunto familiar, meu amigo passou para o bélico.
-Concentram-se aqui os melhores técnicos da Luftwaffe e os mais capacitados homens da ciência alemã.
-E quem comanda isso tudo? - quis saber.
-O General de Divisão Wolfgang von Chamier-Glisezenski, que também é cientista. Sob as suas ordens, está uma miríade de professores, engenheiros e peritos em propulsão por meio de expansão de gases e em foguetes de longo alcance.
-Os ingleses já estão informados de tudo.
-Tanto estão que temos de sair daqui antes que o fogo amigo nos pegue.
Para mais de 600 quadrimotores carregados de bombas arrasa-quarteirão, algumas incendiárias, decolaram das bases aliadas com a missão de destruir Peenemünde.  Os Pathfinders foram os primeiros a aparecer, seus voos a pouca altura indicaram os alvos para os bombardeiros que atacaram com todo o poder de destruição.
Na manhã seguinte, um Spitfire de reconhecimento fotografou os danos causados; metade das 45 barracas, onde os especialistas e cientistas estavam, foram arrasadas. 40 edifícios, inclusive as oficinas de montagem e os laboratórios foram destruídos e outros 50 danificados.
-O êxito dessa missão não só salvou Londres, como antecipou o Dia de desembarque na Normandia. - afirmou o Dieckmann.
-Mas as Sonderwaffen, como você gosta de falar, caíram sobre Londres. (***)
-Mas as primeiras V-1 só começaram a ser lançadas em 13 de junho de 1944; seu combustível era de avião a jato. O Messerchmidt 262 foi o primeiro caça a jato do mundo. (4*)
-E eles ainda lançaram a V-2. - interrompi o Dieckmann.
-O foguete V-2 foi o primeiro objeto feito pelo homem a alcançar o voo espacial sub-orbital. Ele viajava a 4 000 quilômetros por hora e alcançava o alvo mais rápido do que o som.
-Dieckmann, ainda bem que Peenemünde foi arrasada.
-A corrida espacial foi, na verdade, travada entre os alemães que foram aprisionados pelos americanos e pelos alemães aprisionados pelos russos. - afirmou.

(*) Desta vez, não há dúvida, confirmou o Dieckmann a este Distribuidor, era mesmo eu! Dia sem nuvem na capital do fog, só comigo a bordo!

(**) piloto por piloto, no começo da guerra não daria para fazer diferença. O que pegou foi a dificuldade logística de decolar e  atravessar um canal antes de entrar em combate e a necessidade nazista de escurecer o céu, fosse com o que fosse, até com Stuka, uma aeronave que já estava obsoleta ainda nos céus da França. O resultado foi a perda de centenas de bons pilotos tripulando aviões que não eram páreo para os excelentes Hurricanes e Spitfires, enviados aos céus na hora certa e na direção certa, a partir das informações de radar. Dieckmann ainda iria acrescentar mais aviônicas, mas este Distribuidor interrompeu a longa digressão.

(***) Sonderwaffen era o nome usado para armas secretas, que incluíam muito mais coisas do que V-1 e V-2. O Dieckmann leu esta edição antes da Distribuição e gostou de saber que existia o termo, bem como de tantos detalhes que o redator pesquisou para os leitores. É óbvio que, se ele assim se expressou em 1943, já tinha se esquecido, logo ele que para saber se fez a barba de manhã, passa a mão na bochecha ao meio-dia.

(4*) O Me-262 merece muito mais que uma linha. Faz de conta que não li. A V-1 era uma bomba voadora, não era foguete. Ela tinha um motor a jato em cima da fuselagem e duas pequenas asas. Não tinha controle remoto. O alemão apontava na direção da Inglaterra e ligava o motor. Se falhasse qualquer coisa, o artefato poderia até explodir no pé do alemão, pois nada podia ser feito depois da decolagem.
A V-1 andou aterrorizando, mas logo os ingleses perceberam que a velocidade delas era inferior a de seus caças e voavam lado a lado com elas ainda sobre o mar e, de repente, provocavam um vácuo sob as pequenas asas da V-1, o que era suficiente para fazê-las cair imediatamente,





quinta-feira, 16 de maio de 2013

2389 - Dia das Mães 2, com madeleines proustianos, revisado.

-->
-------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4189                                  Data:  15 de  Maio de 2013
----------------------------------------------------------------

RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DAS MÃES
2ª PARTE


Jonas Vieira pediu pausa para meditação e foi lida uma crônica sobre o Dia das Mães. Depois, ele aludiu à última crônica, sobre a frase “O que é sólido se desmancha no ar”, com elucubrações marxistas, que ficou nebulosa no seu final e que, por isso, não foi entendida pelos ouvintes.
Feita a emenda, entrou o reclame do programa das bandas, às 11 horas da noite e logo me recordei da “Lyra do Xopotó”, da Rádio Nacional, que meu pai não perdia e eu, na carona, escutava. Em seguida, outro anúncio, “A voz da periferia”, à uma hora da tarde. “É para o maternal do trabalho do Dieckmann, estou fora” - disse comigo mesmo.
E a escolha musical da Branca foi feita antes da pausa para meditação? - imagino as reclamações.
Resolvido o problema de som no meu computador nesse trecho do programa, detenhamo-nos nesse pedido. Tratava-se nada mais nada menos que Cole Porter, que não só compunha como escrevia as letras. E a música que a Branca solicitou é considerado um dos momentos mais elevados da sua inspiração: “Anything Goes”.
Branca falou da peça que entrou em cartaz na Broadway, pela primeira vez, em 1934 e que, além de ser uma contribuição para o American Songmusic,  recebeu duas versões cinematográficas. Em seguida, fez uma rápida resenha do musical; um rapazote pobre que estava num transatlântico que fazia a travessia New York- Londres, que conhece e se apaixona uma herdeira que estava noiva de um lorde. Enfatizou ainda que, nesse musical, estreou a Ethel Merman.
-E a gravação? - perguntaram.
-A gravação é com a Patti LuPone. Depois falo sobre ela.
Jonas Vieira lhe deu o sinal verde para falar antes de a música ir ao ar e a Branca prosseguiu:
Patti LuPone é fantástica, porque não era só cantora, também era atriz. Ela fez “Evita”, “Os Miseráveis”. Em 1983, recebeu o Tony Awards.
O entusiasmo da Branca tinha razão de ser, era a conclusão nossa a cada nota do “Anything Goes” que soava.
O titular do Rádio Memória tinha todo o direito de escolher, pelo menos, uma música e o fez; antes, preparou o espírito dos ouvintes.
-Os tempos de hoje são bicudos. Nos anos 40, 50, era tudo romântico, principalmente o cinema. Até os filmes de guerra eram românticos.”
Houve um aparte do Dieckmann sobre um filme de 1958 do Festival de Cinema Francês e foi dita a música que iria ao ar: “Sempre no meu coração”, de Ernesto Lecuona, versão de Mauro Mendes, na interpretação arrebatadora (adjetivo preferido do Dieckmann) do Orlando Silva.
Caramba, às primeiras notas que chegaram ao meu ouvido, o filme, de 1942, logo entrou em cartaz na minha cabeça. Apesar de eu não o ter assistido na tela do cinema, que causa uma empatia maior com a plateia e sim, na telinha da televisão, fiquei maravilhado.  Todos os problemas do mundo, por piores que fossem e os da fita eram familiares, seriam resolvidos com essa belíssima criação do Ernesto Lecuona, foi o sentimento que tive durante semanas.
A opção retornou ao Fernando Borer, que preferiu “Day by day”, de Axel Stordahl, Paul Weston e letra de Sammy Cohn, a gravação era com o trio Los Panchos e Eydie Gormé.  Ilustrou seu pedido dizendo que a gravadora se encontrava em dificuldades financeiras e, por economia, juntou a cantora com o trio, o que redundou em extraordinário sucesso. E disse mais: “Day by day” foi o sufixo de um programa muito demandado da Rádio Tamoio, “Músicas na Passarela”.
-Grande Rádio Tamoio. - exclamou o Dieckmann, prenhe de saudosismo.
No momento de identificar o locutor de Músicas na Passarela, Fernando Borer se tornou dubitativo. Ora, ninguém melhor do que o nosso amigo Luca para falar desse locutor, pois Humberto Reis quase se tornou seu cunhado. Foi ele, segundo o Luca, que o introduziu na poesia de Rainer Maria Rilke. Radialista de bom gosto, ainda com a palavra o Luca, informou, certa vez, que o “Coração de Luto”, de Teixeirinha foi o disco mais vendido do ano, mas que não o tocaria no seu programa.
Humberto Reis se tornou mais popular como jurado do Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, em que teve de fazer “tipo”.
Lembro-me dele na Rádio Nacional enaltecendo, por inúmeras vezes, a voz do Tony Bennett e como intermediário de perguntas de cultura geral dos ouvintes dessa emissora para o enciclopédico Vieira de Mello.
Na vez da Branca, ela só disse uma palavra:
-Surpresa.
Então, uma voz feminina, que se tornou mais sensual por causa da língua francesa, convergiu a atenção de todos.
-Não é uma Barbra Streisand, mas agrada. - disse comigo mesmo.
E a Branca matou a nossa curiosidade, pelo menos, a minha: era Brigitte Bardot.
-A música, de 1963, celebra a propriedade de Brigitte Bardot em Saint Tropez, “La Madrague”. – prosseguiu, com palavras parecidas com estas, que aqui reproduzo.
Fiquei tão interessado, pois Brigitte Bardot estrelou o único filme proibido para menores de 18 anos a que não consegui assistir no Cine Cachambi, e acionei o Departamento de Pesquisas do Biscoito Molhado.
Ela filmara, em 1962, com Marcelo Mastroiani, sob a direção de Louis Malle, a película “Vida Privada”, que, até certo ponto, era a sua existência de prisioneira da celebridade. Retirou-se, em seguida, para Saint Tropez, onde se estabeleceu na mansão chamada “La Madrague”, que deu samba, ou melhor, canção.
Mas lá ficou por pouco tempo, retornou a Paris e, em 1963, atuou no filme de Jean-Luc Godard, “O Desprezo”.
Dieckmann, sem a concisão da Branca, falou que era o dia das surpresas, além de ser das mães e citou o nome do seu pedido: “Flying Home”.
Ótima pedida. Solos de vibrafone e clarinete com swing não deixavam ninguém indiferente. Após uns quatro minutos, chegou o momento de o nosso amigo apresentar mais informações sobre a sua surpresa com palavras que tento aqui reproduzir.
-Lionel Hampton, membro da banda de Benny Goodman, tinha pavor de avião, então seus amigos colocaram em música o momento dele subindo os degraus de um avião. (*)
Coisa de gente com talento, que transforma algo banal em uma obra de arte. Caso do André Victor Correia, por exemplo, que, por ter ido a uma baile em que sofreu com um calçado apertadíssimo, compôs o choro imortal, “André de Sapato Novo.”
Sobre “Flying Home”, Dieckmann nos inteirou que a composição é de Benny Goodman, Eddie De Lange e do próprio Lionel Hampton, o primeiro vibrafonista da história do Jazz.
 Coube ao doutor Fernando Borer, além de iniciar o programa, encerrá-lo. A sua escolha recaiu sobre uma música que quase todos os grandes cantores gravaram, “Autumn Leaves”. Assim como uma programa de jazz da Rádio MEC foi todo dedicado às gravações de “Stardust”, poder-se-ia fazer o mesmo com “Autumn Leaves”.
O convidado do Jonas Vieira disse que a sua origem é francesa, de 1945, com o nome “Les Feuilles Mortes”, composta pelo franco-húngaro Joseph Kosma, com letra de Jacques Prévert.  Yves Montand a apresentou ao público no filme “Les Portes de la Nuit”.
Veio, depois, a versão inglesa, “Autumn Leaves”, que, em 1950, foi gravada pela Edith Piaf, que também o fez no original.
Apesar de todo o encantamento que “Autumn Leaves” traz, principalmente na voz do Nat King Cole - a gravação escolhida – não posso deixar de me lembrar do filme de 1956, dirigida por Robert Aldrich.  Talvez porque tivesse medo de ficar maluco, fiquei assustadíssimo com a cena do eletrochoque, além de me decepcionar com o Lorne Greene de “Bonanza”, no papel de um vilão.
Mas voltemos ao “Autumn Leaves” com o Nat King Cole.  Fernando Borer citou o LP lançado em 1957, “Love is the Thing” (O Amor é Importante), mas, pelas nossas pesquisas, essa gravação aparece na faixa 5 do lado A do Long Playing “Sings for Two”, com créditos para Joseph Kosma, Jacques Prevert, Johnny Mercer e arranjos de Nelson Riddle.
Bem, importa mais a excelência da música.
Jonas Vieira, com intervenções do Dieckmann e da Branca, encerrou o programa sem deixar de aludir às férias do Sérgio Fortes nas “Oropas”.
Bem, Rádio Memória cumpriu inteiramente a sua missão nesse domingo; em uma hora, serviram-me várias os bolos Madeleines proustianos.

(*) Lionel Hampton merece uma linha a mais. Ele realmente se tornou membro da banda do Benny Goodman, antes de fazer a sua própria, mas o que interessa é o seguinte: o nosso Lionel tinha um vagão ferroviário de beira de estrada, onde mantinha uma lanchonete e vivia. Um dia, um Benny Goodman faminto parou ali com amigos e pediram os hambúrgueres de praxe, no que foram plenamente atendidos pelo balconista Lionel, preparados pelo cozinheiro Lionel e servidos na mesinha pelo garçon Lionel. Todos servidos e bem sentados, o Lionel puxou um vibrafone e começou a tocar, sem saber quem eram os comensais. Bom, a surpresa completa e, como a qualidade do vibrafonista Lionel era tamanha, eles foram pegar seus instrumentos de trabalho e montaram uma Jam session por horas, finda a qual, o Lionel virou banda.
É o que jura o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO. Publique-se a lenda!