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sexta-feira, 20 de julho de 2012

2187 - convertidos e descobridores

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3987                                    Data: 17 de julho de 2012
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EU  E  ELIO  NA DESCOBERTA    DO  BRASIL

-Não estamos mais no último baile da Ilha Fiscal. - disse, quando os cinco sentidos me voltaram.
O ambiente em torno de nós era solene; vozes altaneiras, com forte acento lusitano, se alternavam numa imponente igreja.
-Carlos, meus ascendentes são hebreus. O que faço numa missa católica?
-Elio, Henrique de Navarra, para se tornar rei de França, abjurou o protestantismo e disse: “Paris vale uma missa”.
-Mas eu não pretendo ser rei e estamos em Lisboa. - encrespou-se o Elio Fischberg.
-Recuamos alguns séculos. - constatei olhando as pessoas ao redor e divisando uma multidão lá fora.
-Pelo figurino, estamos no século XV.
-Que figurino, Elio!... Isto não é teatro.
-Viva o rei Dom Manuel I. - gritou a plebe.
-É Dom Manuel, o Venturoso.
-Ele é venturoso porque colhe os frutos de reinados anteriores ao dele que investiram na navegação, Elio. Podemos fazer uma analogia com o Brasil em que alguns presidentes ficam com a fama do que os outros fizeram antes deles.
-Preciso saber a data de hoje. - preocupou-se.
Depois de abordar um fidalgo que parecia saído das páginas de Alexandre Herculano, voltou-se para mim.
-Carlos, estamos no dia 8 de março de 1500. Sabe o que isso significa?
Antes de eu responder, Causídico Verborrágico se antecipou.
-Isso significa o Dia Internacional da Mulher, e eu não dei um presente para a Regina.
-Elio, isso significa que esta missa é uma despedida do povo português, com o seu rei à frente, da tripulação de Pedro Álvares Cabral que parte para as Índias.
-Como você sabe disso?
-Tive boas professoras de história no curso ginasial.
Depois, olhei-o abismado.
-Dona Sarita, sua mãe, não lhe ensinou isso?
-Evidentemente que sim; obrigou-me saber o nome das treze embarcações que compunham a frota de Cabral e também o nome dos navegadores mais destacados como Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Diogo Dias.
-Você sabe que a missão do capitão-mor Pedro Álvares Cabral não é apenas a busca de especiarias da Índia?
-Ele vai tomar posse do Brasil. - frisou o Elio.
-Eu conhecia até agora a descoberta do Brasil por livros, filmes e pela música de Villa Lobos.
-Temos a oportunidade, agora, de conhecer ao vivo a descoberta do Brasil. - animou-se o Elio Fischberg.
-Então, vamos descansar porque as naus partem amanhã. - propus.
Caminhamos pelas ruas lisboetas até uma espelunca onde havia duas enxergas; deitamos nas mesmas, recuperamos a energia despendida na farra do último baile da Ilha Fiscal e, antes das seis horas da manhã, já víamos os navios que zarpariam para a Índia via Brasil.
-Elio, teremos de penetrar num desses navios clandestinamente.
-Evite a nau comandada por Vasco Ataíde, pois, se as palavras da minha mãe não se apagaram da minha memória, ela afundará. - alertou-me.
Antes do embarque, conversamos com um soldado.
-Por que Bartolomeu Dias, com a experiência de ter enfrentado o Cabo das Tormentas, não é o capitão-mor? - quis saber o Causídico Verborrágico.
-Pedro Álvares Cabral tem o título de fidalgo do Conselho do Rei e foi nomeado Cavaleiro da Ordem de Cristo. Ele tem de ser, por isso, o chefe, mas precisa de navegantes que conheçam a arte de se conduzir o navio, como Bartolomeu Dias. - explicou o soldado.
-Quantos partirão? - perguntei.
-Mil e quinhentos, setecentos são soldados, como eu. A frota está dividida em duas; a primeira, composta de nove naus e duas caravelas, rumará para Calecute, com o fim de estabelecer relações comerciais e uma feitoria, e a segunda, uma nau e uma caravela, partirá de Sofala, na África.
-Sofala é um porto de Moçambique. - esclareceu o Elio.
-Você está otimista em chegar a Índia? - quis saber.
-Por que não estaria?... Vasco da Gama chegou lá, contornando o sul da África e retornou no ano passado, 1499. Agora, o Rei Dom Manuel I designou Pedro Álvares Cabral para fazer a mesma viagem e firmar a presença portuguesa no solo indiano.
-E vai dar certo?
-Em todo o empreendimento que o rei se envolve resulta em ganhos para Portugal, por isso ele é o venturoso. - empolgou-se o soldado que, apressadamente, despediu-se de nós.
-Elio, que são duas pessoas no meio de tanta gente?...
Assim, nós nos misturamos com os marinheiros e conseguimos penetrar na nau capitânia.
-Quem é aquele sujeito barbudo, de uns 35 anos de idade, com o tamanho de um jogador de basquete?
-É o Pedro Álvares Cabral; ele tem mais de 1,90m de altura. - elucidou-me o Elio.
Cinco dias depois, navegávamos nas águas das Ilhas Canárias.
-Sabe o porquê desse nome?
E sem esperar pela nossa resposta, um marujo fedendo a álcool disse:
-Por que há muitas aves canoras nessas ilhas.
-Carlos, eu não fui tão bom em latim, no Colégio Militar, quanto o Dieckmann, mas sei que Canárias vêm de canis, cão. O nome se origina, portanto, dos cachorros.
-Há mais latidos do que trinados nessas ilhas. - completei.
No dia 22 de março, passamos por Cabo Verde. Um dia depois, um frêmito correu pela espinha de todos:
-Não se avistava mais a nau de Vasco Ataíde.
-Carlos, não lhes diga a verdade.
Poucos dias depois, a ordem era navegar mais a oeste.
-Por que se afastar ainda mais da África? - reclamou um marinheiro.
Elio o ouviu e comentou em voz baixa:
-Ele e muitos aqui não sabem que Pedro Álvares Cabral vai tomar posse do Brasil.
No dia 21 de abril, tripulantes com os olhos iluminados apontavam para o mar e gritavam de alegria:
-Algas marinhas... Algas marinhas.
Em seguida, aves de pouca autonomia de voo eram vistas.
No dia subsequente, a frota ancorou num local que Pedro Álvares Cabral chamou de Monte Pascoal.
-Não vamos sair dos navios? - impacientei-me.
Cabral esperou mais um dia e vendo pessoas estranhas, ao longe, mandou Nicolau Coelho, que viajara com Vasco da Gama, estabelecer contato. Os habitantes da terra eram pacíficos e os dois índios da tribo Tupiniquim que Afonso Lopes, o piloto da nau capitânia, trouxe a bordo para falarem com Cabral, comprovavam essa impressão.
Quando pisamos finalmente a terra, Elio Fischberg disse diante de tanta gente nua à nossa frente:
-Infelizmente, não há costureiras por aqui.
Depois, embarcamos e viajamos mais 65 quilômetros ao norte, e ancoramos num lugar que foi batizado de Porto Seguro.
Era o dia 26 de abril, domingo de Páscoa, e deu-se início a uma missa a ser celebrada por Frei Henrique de Coimbra.
-Outra missa! - lamentou o Elio.
Enquanto o meu amigo resmungava, eu convidava Pedro Álvares Cabral para me fazer uma visita em casa.

 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

2186 - O nome do Biscoito


O BISCOITO MOLHADO
Edição 3986                                            Data: 16 de julho de 2012
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COMENTANDO OS E-MAILS
PARTE II

Dieckmann pendurou o seguinte asterisco na edição do Biscoito Molhado sobre o “Último baile da Ilha Fiscal” a propósito da frase “festerjar-se-á as bodas de prata da Princesa Isabel e do Conde D' Eu”:
-“O Distribuidor ficou embatucado e recorreu ao consultor de latim Dieckmann, já citado em edições anteriores por sua proverbial cultura e conhecimentos generalizados, que vicejam desde passeios na Lua até rebimbocas de automóveis antigos, tudo isso devidamente registrado nestas páginas cibernéticas. Muito solícito, o Dieckmann sugeriu que o verbo fosse escrito no plural, tendo em vista a origem etimológica de bodas (votum- promessa) e, portanto, ser bastante razoável que se celebrem as bodas ou os votos, sempre no plural, mesmo que seja um casamento só.”
Comentários:
Eu só conheço duas pessoas que falam de si próprio na terceira pessoa: Pelé e Dieckmann. Como Pelé disse que só existiu um Beethoven, assim como só existe um Pelé, eu acho que o Dieckmann está com toda razão. (*)

Recebi um e-mail sobre as maiores bibliotecas do mundo, aliás, não é o primeiro, talvez seja o quinto ou o sexto que me destinam desde que navego nas águas nem sempre confiáveis da internet.
Sobre as bibliotecas, propriamente dita, ninguém ainda me enviou alguma coisa até hoje, por isso, faz-se mister consultar uma enciclopédia, pois a matéria merece ser estudada.
A primeira biblioteca de que se tem notícia é a do faraó Ramsés II, do Egito. Outra biblioteca importante da Antiguidade foi a de Nínive, organizada entre 669 e 629 a.C. por Assurbanipal, na Assíria.
Perguntarão os eruditos leitores desde periódico sobre a Grécia de antigamente, dos grandes filósofos, historiadores e autores de peças teatrais. Calma, chegaremos lá.
A primeira biblioteca pública grega foi fundada em 571 a.C., por Pisístrato, mas as mais significativas pertenciam a particulares, sobretudo filósofos e teatrólogos.
A mais célebre das bibliotecas antigas era a de Alexandria, formada no século III a.C., que tinha cerca de 700 mil volumes, vítima de três incêndios, o último dos quais, definitivo. Famosa também foi a biblioteca de Bérgamo, com 200 mil volumes, incorporada à de Alexandria por Marco Antônio, como um presente à Cleópatra. Cabe aqui um comentário: existia uma incompatibilidade de gênios entre Marco Antônio e os livros, tanto que ele matou Cícero, um dos maiores intelectuais da época. Cleópatra, por outro lado, estava mais interessada nos produtos de embelezamento pra subjugar os comandantes de Roma do que em brochuras. Conclui-se, então, que a propriedade apenas de uma biblioteca já representava uma honraria.
Os romanos foram o povo da Antiguidade que mais se preocupou com a difusão e profusão das bibliotecas públicas, datando de 39 a.C. a criação da primeira, em Roma. Dentre todas, a mais importante era a de Ulpiana, fundada por Trajano, que, juntamente com a Palatina, formava a dupla mais notável das 29 bibliotecas públicas que Roma possuía no século IV a.C.
A Idade Média conheceu três tipos de bibliotecas: as monacais, as das universidades e as particulares.  Aos mosteiros e aos monges copistas deve-se a salvação e resgate, para o mundo moderno, dos escritores da Antiguidade. As bibliotecas monacais foram as grandes confeccionadoras de livros e guardiães do acervo existente, nelas apareceram os códices (livros escritos em folhas semelhantes aos livros atuais); com eles surgiram as estantes.
Quem leu “O nome da Rosa”, de Umberto Eco, ou assistiu ao filme, constatará a importância dessas bibliotecas como mantenedoras da cultura da antiguidade. Pela paixão do poeta argentino Jorge Luiz Borges pelos livros, Umberto Eco chamou de Jorge o personagem da sua obra que velava pela biblioteca, apesar de ele ser vilão, na trama.
A fundação das universidades representou um marco na história das bibliotecas, pois esses centros foram responsáveis pela laicização da cultura ocidental. A mais importante foi a de Oxford, chamada de Bodleiana; na França, a da Universidade de Paris, que mantinha acorrentados os livros do seu acervo (costume medieval para salvaguardar as obras).
A partir do século XVI, a biblioteca passou por uma grande transformação, devido a quatro fatores de mudanças fundamentais, a saber:
1- A laicização desde a Antiguidade até o Renascimento, a biblioteca tinha caráter religioso, não pelo conteúdo dos livros registrados, mas pela natureza de sua administração; na Renascença adquiriu caráter leigo e civil;
2- A democratização: antes fechada e restrita praticamente à classe sacerdotal, passou a ser realmente pública, aberta a todos; e além do seu antigo sentido (conservação), adquiriu um novo, o da difusão.
Um dos grandes beneficiários dessa democratização foi Karl Marx, que frequentou religiosamente a biblioteca de Londres, enfronhou-se, principalmente, nas páginas dos economistas clássicos ingleses, Ricardo e Adam Smith, e elaborou os seus textos que abalariam o mundo desde as últimas décadas do século XIX;
3- A especialização: a difusão implicou atender aos mais variados gostos e necessidades;
4- A socialização: de órgão passivo passou a ser dinâmico, desempenhando importante função junto à coletividade, dando a todos os cidadãos o direito de desfrutar dela.
Não há dúvidas de que a maior biblioteca do mundo de hoje é a do Congresso dos Estados Unidos da América, fundada em 1800, na cidade de Washington. No Brasil, desponta a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, criada em 1810 e, em São Paulo, a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, criada em 1925. Os leitores infanto-juvenis são atendidos pela Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, que oferece a maior quantidade de livros da América do Sul.
Atualmente, no Brasil, a maior biblioteca particular talvez pertença ao ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Delfim Neto, com 250 mil livros em 2002 que, passados dez anos, aumentou ainda mais.
Disse Delfim Neto sobre o seu descomunal acervo de livros:
-Uso a minha biblioteca quando trabalho. Não tenho nenhuma edição especial. Tenho todos os clássicos, mas não tenho nenhuma primeira edição. Eu não sou um bibliófilo, sou um colecionador de livros. Tenho muito prazer nisso.
Como José Mindlin e Plínio Doyle, verdadeiros bibliófilos, ele não cultua as edições diferenciadas de um clássico.  Vê os livros como consultores, prontos a ajudá-lo num momento de dúvida.
Delfim Neto já se decidiu: doará a sua biblioteca para a Universidade de São Paulo.
-A USP vai ficar, eu não. - disse. (**)

(*) Ledo engano. Como economista que é, o redator do seu O BISCOITO MOLHADO não é muito afeito a números. É certo que o Dieckmann se refere a ele na terceira pessoa, só que o faz duas vezes, pois no período mencionado aparecem, pela ordem, o Distribuidor e o consultor de Latim Dieckmann.

(**) Às vezes, o seu O BISCOITO MOLHADO traz boas notícias, mesmo quando não retransmite os comentários dos taxistas de Maria da Graça.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

2185 - entre riquixás e vinagretes


O BISCOITO MOLHADO
Edição 3985                                     Data: 14 de julho de 2012
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DA  ORIGEM  DO  TÁXI  AO  BOB  ESPONJA

A caminho da estação de Maria da Graça, aproveitando que havia espaço no vagão do metrô para eu colocar um livro à minha frente, tratei de ler, no caso, a origem dos táxis. Eis o que aprendi nos poucos minutos de leitura.
O serviço de táxi começou, praticamente, com a civilização. O primeiro, ao que parece, foi o riquixá, carro de duas rodas puxadas por um só homem, que vemos nos filmes sobre a Antiguidade.
Na Roma Antiga, surgiram as liteiras levadas por dois ou quatro escravos que transportavam quem pedisse seus serviços e, obrigatoriamente, seus donos. Foi na Roma Antiga que despontaram os veículos com rodas, mas esses “táxis” não eram utilizados na sua função por causa das movimentadas vias de comunicação da metrópole.
A Queda do Império Romano do Ocidente representou o fim do transporte público e privado.
Na Idade Média, apareceram as carruagens, ainda rudimentares, movidas à tração animal, que assegurou o transporte de pessoas. No Renascimento, as carruagens foram mais bem elaboradas, receberam ornamentos, coberturas e até cortinas.
Em Londres, 1605, precisamente, fizeram-se presentes as primeiras carruagens de aluguel, as Halkneys; vieram, em seguida, as Sociables, em Paris. Os Landaus e os Landaulets são carruagens alemãs desse tempo. Pouco depois, na França e na Inglaterra, lançaram os Gigs, Tilbury e Cabriolet.
O primeiro táxi motorizado foi visto em 1896, na cidade alemã de Estugarda. Em 1897, Freidrich Greinar abriu uma empresa concorrente, na mesma cidade, com uma diferença fundamental: os seus carros estavam equipados com um sistema de cobrança, o taxímetro.
A implantação dos táxis foi generalizada em 1907. Nesse mesmo ano, em Paris, todos os carros de aluguer tinham de possuir obrigatoriamente, por lei, um taxímetro. Antes da Primeira Guerra Mundial, já todas as grandes cidades americanas e europeias tinham serviços de táxis legais e pintados com cores diferentes. Desde então, as alterações foram poucas, as mudanças eram no próprio carro.
Com a chegada do trem do metrô em Maria da Graça, guardei o livro na mochila e rumei para o ponto de táxi da Rua Domingo de Magalhães. Saindo da última rampa, vi grande parte da turma de taxistas no seu posto à espera dos passageiros. Lá estava o Machado.
Será que o Machado, em vidas passadas, foi carregador de riquixá?...
E o Dedão do Arqueiro Inglês, será que ele transportou Júlio César numa liteira?
Bob Esponja, não sei por que, parecia-me que foi cocheiro de Tilbury e levou, sem saber, Jack, o Estripador ao seu destino.
Eram essas as minhas perguntas e minhas cismas sobre as vidas passadas até atravessar a Rua Domingo de Magalhães e entrar no táxi 045 do Gordinho.
Ele é um personagem bissexto nas edições do Biscoito Molhado sobre os profissionais da cooperativa Metrô-Táxi, fiquei, por isso, em dúvida: sabe ele ou não o meu destino?... Ainda assim, aguardei que ele tomasse a iniciativa. Como o Gordinho se manteve calado durante parte da corrida, intuí que ele soubesse que eu queria ir para a Rua Modigliani. Quando uma viatura policial passou por nós em sentido contrário, ele quebrou o silêncio.
-Eles deveriam estar a três quilômetros daqui, no Jacarezinho.
-Soube que houve uma escaramuça entre policiais e traficantes do Jacarezinho. - manifestei-me um tanto timidamente, pois não atento muito para o noticiário de crimes.
-Prenderam o traficante da favela, o Diogo. Então, a turma dele invadiu a 25ª DP, para resgatar o sujeito.
-Pelo que ouvi no rádio, conseguiram. - aparteei.
-Conseguiram, mas a polícia invadiu o Jacarezinho e já matou quatro.
-Por isso, um colega meu, que chega ao trabalho de bicicleta, informou-me que as coisas estavam pretas pelo lado do Jacarezinho.
-Bandido é muito burro, por causa de um, já perderam quatro. Esse Diogo não dura muito também.
-A pouca inteligência desses traficantes é indiscutível. - concordei.
O Gordinho se animou.
-Você viu na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão?... Eles desafiaram a polícia e viram cair sobre eles a polícia militar, a polícia civil, o BOPE, o Exército...
-A Marinha, não esqueça a Marinha que, com aqueles tanques de fabricação suíça, ultrapassou os obstáculos que eles colocaram no caminho. - acrescentei.
-Bem lembrado, a Marinha.
-Rua Modigliani. - falei como se colocasse um ponto final na nossa conversação.
No dia subsequente, peguei o carro do Bob Esponja.
-Estou mais ou menos. - antecipou-se a uma pergunta sobre ele que eu não fizera.
-Levei o rádio do meu táxi para o conserto e a coisa vai ficar em 280 reais. Vou ter de rodar muito para cobrir esse prejuízo.
-O táxi, desde a implantação do taxímetro, recebeu poucas modificações, mas uma delas foi a entrada do rádio através das cooperativas. - manifestei-me com o cuidado de não me mostrar erudito.
-Sem o rádio, temos de pegar o passageiro da maçaneta.
-É aquele passageiro que sinaliza para o taxista na rua?...
-Esse mesmo; a minha sorte é que um amigo me emprestou o rádio.
Como o Bob Esponja fala muito e escuta pouco, prosseguiu:
-Para tirar o meu prejuízo, tenho como quase certa uma corrida para Campo Grande, serão 200 reais na minha caixinha.
Pensou em voz alta nas outras maneiras de conseguir em curtíssimo prazo os 280 reais até me deixar no meu destino.
No dia seguinte, embarquei no carro do Cláudio, o Gaguinho, antes, porém, um dos seus colegas esticou o braço e pediu para que eu não entrasse logo no carro. Em seguida, espanou com a mão a suposta poeira que havia no banco em que eu sentaria.
-Agora sim, o carro está em condições de receber o meu amigo.
Quando ele se afastou com a expressão de quem exagerara na cerveja, comentei com o Gaguinho.
-O pessoal do ponto do ônibus, ali em frente, olhou espantado para o que ele fazia.
Gaguinho reagiu com um balançar desolado de cabeça.
Como ele é a pessoa em que mais confio de todos ali, contei-lhe sobre as peripécias do 081.
-Entrou naquela rua à esquerda, que vamos passar agora, mesmo eu lhe dizendo que era contramão.
-Ele é maluco. - diagnosticou.
Quando parou em frente à minha casa, o carro dele retrocedeu e bateu numa falha do asfalto, porque o freio de mão estava escangalhado.
-Ele é maluco. - insistiu o Gaguinho.
48 horas depois, estava eu de novo no carro do Bob Esponja;
-E o rádio do táxi?
-Amigo, o defeito não foi o imaginado: em vez de 280 reais, o conserto ficou em 30. Papai do céu ajuda quem trabalha.
Nesse instante, tirou o celular do bolso, deu uma olhada no visor e fez cara feia.
-São essas mulheres que a gente pega na internet; agradam por alguns momentos, mas, depois, falam muito. Mulher é uma desgraça quando abre a boca.
E passou toda a corrida sonhando em voz alta com as mulheres mudas.

(*) O Departamento de Pesquisas do seu O BISCOITO MOLHADO obteve na Wikipédia o seguinte texto:


A pintura de 1707 "Les deux carrosses" de Claude Gillot mostra uma carroça tipo riquixá em uma cena cômica. Essas carroças, conhecidas como vinagretes por causa de sua semelhança com os carrinhos de mão de produtores de vinagre, foram utilizados nas estradas de Paris nos séculos XVII e XVIII. (Fresnault-Deruelle, 2005) 


Os riquixás surgiram no Japão por volta de 1868, no início da Restauração Meiji. Eles logo se tornaram um meio de transporte popular, pelo fato de serem mais rápidos que as liteiras utilizadas anteriormente (e o trabalho humano era consideravelmente mais barato do que a utilização de cavalos).
A identidade do inventor (se houve um) permanece incerta. Algumas fontes citam o ferreiro estadunidense Albert Tolman, a quem é atribuída a invenção do riquixá por volta do ano de 1848 em Worcester (Massachusetts) para um missionário. Outros afirmam que Jonathan Scobie (ou W. Goble), um estadunidense missionário para o Japão, inventou riquixás por volta de 1869 para transportar sua esposa inválida pelas estradas de Yokohama.
Outros ainda dizem que o riquixá foi projetado por um pastor evangélico americano em 1888. Essa hipótese certamente está incorreta, pois um artigo de 1877 de um correspondente do The New York Times declarava que o "jin-riki-sha, ou carruagem de tração humana" estava sendo popularmente utilizado, e tinha sido inventado provavelmente por um americano em 1869 ou 1870.
Fontes japonesas frequentemente creditam Izumi Yosuke, Suzuki Tokujiro, e Takayama Kosuke, que teriam, segundo eles, inventado os riquixás em 1868, inspirados nas carruagens de cavalos que tinham sido introduzidas nas estradas de Tóquio pouco antes. Começando em 1870, as autoridades de Tóquio emitiram para esses três homens uma permissão para fabricarem e venderem riquixás. A assinatura de um desses inventores também era exigida em todas as licenças para operar um riquixá.
Em 1872, cerca de 40.000 riquixás estavam sendo utilizados em Tóquio. Eles logo se tornaram o principal meio de transporte público no Japão. (Powerhouse Museum, 2005; The Jinrikisha story, 1996)
Por volta de 1880, os riquixás apareceram na Índia, primeiro em Simla e, 20 anos mais tarde, em Calcutá. Lá eles foram utilizados inicialmente por comerciantes chineses para o transporte de mercadorias.






terça-feira, 17 de julho de 2012

2184 - a nudez da velhice, ou, Volvo

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3984                                 Data: 13 de julho de 2012
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COMENTANDO OS  E-MAILS

Recebi um e-mail intitulado “Funcionário municipal não vote no Eduardo Paes para prefeito”. Cliquei no arquivo e li estas palavras: “Na reunião com servidores, o procurador do Município, Fernando Dionísio, disse, para justificar o projeto de capitalização do FUNPREVI: “É o único jeito: a maioria da categoria é mulher, que se aposenta mais cedo e, infelizmente, demora a morrer”.
Como o prefeito (*) não se manifestou contra essa barbaridade, as mulheres, principalmente as funcionárias do município, como é o caso da remetente desse e-mail, se revoltaram.
Ricardo Berzoini, quando foi ministro da Previdência Social, foi ainda mais perverso: obrigou, em 2003, que todos os velhinhos saíssem das suas camas de enfermo para darem presença de vida. Vimos, então, fotos nos jornais e imagens na TV de seres humanos em cadeiras de rodas, mal sabendo o que acontecia ao redor, colocados em filas indianas. Não fosse a torta com que um popular lhe emplastrou a cara, não haveria qualquer tipo de punição para esse Herodes da 3ª idade, que prosseguiu flanando no seu ministério.
Voltando a esse tal de Fernando Dionísio, ele se insurge contra a longevidade das mulheres. Bem, de uma maneira geral, as mulheres vivem mais do que os homens. Se eu tiver de citar ascendentes nonagenários, citarei avós e não avôs. No que diz respeito à literatura, temos as viúvas machadianas e as viúvas sicilianas muito lembradas como uma espécie de confraria, o que não vemos com os homens nas páginas literárias. Há casos personalizados de viúvos, como o Conselheiro Aires personagem do próprio Machado de Assis e o mais famoso deles, de Edgar Allan Poe, o narrador atormentado que perdeu a esposa Leonor e ouve, no seu desespero, o corvo repetir “Nunca Mais”.
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Enviaram-me um e-mail que trazia anexadas dezenas de slides da Brigitte Bardot com 77 anos de idade. Ora, já escrevi mais de uma vez que ela abriu as portas do erotismo para mim, quando surgiu nua na tela do cinema Cachambi no trailer do filme “E Deus criou a mulher”. Entrei na adolescência com pensamentos libidinosos pela Brigitte Bardot e julgaria que, mesmo velho, essa lubricidade por ela permaneceria, como a do personagem do ator Jean Gabin, na fita “Amar é minha profissão”. Kim Novak, Cláudia Cardinale, Elizabeth Taylor, Fada Santoro e outras beldades me encantavam, mas era na atriz francesa que eu via o sexo em sua plenitude naquela época.
Excesso de sol, que envelhece a pele, contribuiu para a perda da sua beleza.  Brigitte Bardot adorava as praias; cá, no Brasil, sentiu-se cativada por Búzios, até então uma colônia de pescadores e o lugar se tornou um dos balneários mais procurados do país. Ela não recorreu aos avanços da cirurgia plástica para retardar, aparentemente, o tempo, como fez, por exemplo, outro monumento de mulher da sua geração, Sofia Loren.  Há poucos anos atrás, a setentona atriz surgiu tão bela num evento, com um decote tão generoso, que deslumbrou a todos, principalmente o presidente Bill Clinton, que não se importou com as câmeras de TV e logo escancarou os olhos na sua direção. A pertinácia da atriz em permanecer bela, a cirurgia, o silicone, enfim, um conjunto de fatores adia a feiúra da Sofia Loren.
Vendo os mencionados slides da Brigitte Bardot, uma frase do Paulo Francis me veio à mente: “A velhice é um naufrágio”. Porém, observando a sua expressão serena, concluí que um autor mais nobre, no caso, Cícero, se ajusta melhor, com suas observações filosóficas a esse estado da sua vida. Entre outras coisas, escreveu Cícero no seu opúsculo sobre a velhice:
“Por certo, os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida. Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza. E a velhice, seguramente, faz parte delas. Todos os homens desejam alcançá-la, mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a incongruência da estupidez! Queixam-se de que ela chegue mais furtivamente do que a esperavam. Quem, então, os forçou a se enganar assim? E por qual prodígio a velhice sucederia mais depressa à adolescência do que esta última sucede à infância?”
Adiante:
“... Dois amigos cônsules da minha geração queixam-se amargamente de estarem privados dos prazeres sem os quais, supunham, a vida nada mais vale; ou, ainda, de serem agora negligenciados pelos mesmos que os honravam outrora. Escutando-os, eu tinha a impressão de que se enganavam de culpado. Será de fato a idade é que devemos incriminar?  Nesse caso,  eu também deveria padecer dos mesmos inconvenientes e, comigo, todas as pessoas idosas. Ora, sei de muitos que vivem sua velhice sem  jeremiada (...) É, portanto, ao caráter de cada um e não à velhice, propriamente, que devemos imputar todas essas lamentações. Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos, suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.”
É isso aí, sábio Cícero. As portas da minha casa sempre estarão abertas para receber a sua visita. (**)
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Recebo um e-mail com um vídeo anexado que traz no seu título a marca de automóveis Volvo. Sempre apreciei a Volvo, pois sem a necessidade de um advogado persistente como Ralph Nader, que combateu obstinadamente pela segurança dos carros estadunidenses, tornou seus veículos seguros para os seus consumidores, sem perder a sua eficiência. Pelo contrário, a Volvo é que se antecipou em questões de segurança e talvez tenha inspirado Ralph Nader.
Bem, depois eu cliquei no arquivo, sobre Irvin Gordon, natural de Bay Shore, New York, que dirige um Volvo 1966 P 1800 S (***). Ele já rodou mais de 2 milhões de milhas, o que representam 3 200 quilômetros, ou seja, 1, 176 vezes  a volta ao globo terrestre.
Irvin Gordon tem 72 anos de idade, mas aparenta menos anos de vida. Vale lembrar que o grande diretor de cinema Billy Wilder, que morreria com 96 anos de idade, só se sentiu velho quando foi obrigado pelo médico a deixar o volante do seu carro.
 Irvin Gordon dirige o seu Volvo 1966 por todo lugar e se mantém no Guinness, no quesito veículos com alta quilometragem, desde 2002. E foi ele a primeira pessoa a manter esse recorde.
-É um carro prazeroso de dirigir. - afirma.
O odômetro do incansável Volvo não o deixa mentir. 

(*) Auxiliares do Prefeito projetam fechar algumas das entradas e saídas do Porto do Rio de Janeiro que acarretarão transtornos previsíveis e queda na eficiência do Porto. Questionados, responderam: “O Porto não deveria estar ali.”
Seguindo essa lógica, este Distribuidor teme que o Oceano Atlântico seja a próxima vítima da ganância imobiliária que virá por aí. E daí a outro reclamar da longevidade das mulheres, nada mais a estranhar.

(**) O Cícero merece retorno ao AP. Farináceo, sem dúvida. Brigitte Bardot foi uma revolução, mas outras mulheres povoaram com muito mais eficácia a imaginação do então jovem Distribuidor. Rossana Podestà, com suas lentes de contato douradas, no final dos Sete Homens de Ouro fez muito mais nas minhas retinas, sem tirar a roupa igualmente dourada. Talvez nos anos 60, a nudez já tivesse deixado de ser um must em si. (****)

(***) Esse carro não me encanta, mas tem fãs pelo mundo todo. E é, sem dúvida, durável, como eram os automóveis até os anos 60. É sabido que o percentual de automóveis Volvo emplacados ao longo dos anos supera o de todas as demais marcas. Daí, faliu, a marca foi comprada, hoje é um carro comum.

(****) Claro que a lista é enorme. Audrey, Bond girls, Jean Simmons (notem a ordem alfabética) e vai por aí...
Tratou-se de um raríssimo caso de um asterisco de segundo grau. O asterisco do asterisco. Formidável.
 




segunda-feira, 16 de julho de 2012

2183 - o implante da mudez

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3983                                     Data: 09 de julho de 2012
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ALMOÇO  À  TROIS

Luca me cobrava um almoço com o “amigo Elio”, pois o último ocorreu no Alentejano no dia 20 de janeiro, data em que não se trabalhava no Rio de Janeiro, em homenagem ao santo padroeiro da cidade. Cinco meses depois, exatamente no dia 20 de junho, abriu-se uma brecha na agenda dos comensais porque o prefeito, atendendo a um pedido da Presidente da República, declarou os dias 20, 21 e 22 como ponto facultativo por causa do evento Rio + 20.
 Afirmar que se abriu uma brecha na agenda é um exagero, pois o Elio Fischberg tinha programado de manhã um implante dentário, ainda assim, confirmou as sua presença. No sabadoido que antecedeu àquela quarta-feira, no restaurante Alentejano, Luca expressou a sua preocupação.
-Será que o meu “amigo Elio” estará em condições de cantar comigo ao som da flauta boliviana do Buraco do Lume?
Acalmei-o:
-Luca, fiz um implante de dente dez anos atrás e só fiquei fora de combate enquanto houve a cirurgia; nas outras fases do tratamento, eu praticava os meus exercícios aeróbicos normalmente.
O almoço foi marcado para as 12h 15min. Como o Luca me pegaria de carro, calculei que quarenta minutos seria tempo suficiente para irmos do Cachambi à Rua São José; por isso, às 11h, eu conversava com a minha irmã, que aparecera lá por casa. Nesse instante, o telefone tocou: era o Luca; demonstrava preocupação com o trânsito.
-Que horas você vem, então, me buscar? - perguntei.
-Saio de casa agora.
Cacete, tenho de fazer em dez minutos o que Joséphine Bonaparte fazia em dez horas: vestir-me.
Ajustei-me na camisa, olhando pela janela, quando vi o Luca. Por sorte, meu cunhado, que viera pegar a minha irmã, o retardava com um animado papo. Calculei que conversavam sobre a tradicional festa junina da Dona Zita (sogra do Luca), que aconteceria dentro de pouco tempo, reunindo as gerações dos moradores da Chaves Pinheiro com seus familiares.  Aqui, um parêntese: a festa aconteceu e, segundo o depoimento dos que a frequentam há mais de 20 anos, foi descaracterizada pelo grande número de pessoas que nem sabia direito em que rua estava.
Sempre coloco as mãos no bolso para saber se falta alguma coisa, não faltava; assim sendo, saí de casa acompanhado da minha irmã. Na rua, houve os cumprimentos de praxe, depois, entrei no carro do Luca e ela, no do marido.
-Não sei como será o trânsito que vamos encontrar, por isso, é bom irmos agora. - mostrou-se previdente.
-Ouvi no rádio, que haverá uma concentração na Cinelândia e, depois, uma passeata pela Avenida Rio Branco.
-Agora? - crispou-se o rosto do Luca.
-4h da tarde. - tranquilizei-o.
-Ainda assim, a Rio Branco está interditada.
-Podemos fazer como naquele almoço em que você foi pela Cidade de Deus porque tinha de passar no bicheiro de lá para apanhar o dinheiro que você ganhou no jogo.
Não sei se ele ouviu a minha sugestão, pois se deteve em outro assunto.
-Você viu aqueles índios que apontaram o arco e a flecha para os seguranças do BNDES? Eles trataram de se esconder.
-A cena dos galalaus com medo das flechadas dos índios não deixou de ser engraçada. - observei.
-Está cheio de índios pela cidade.
-Luca, eu ia, na segunda-feira, para o restaurante Jirau, quando vinha, em sentido contrário, a passeata da cúpula das nações, assim, eu assisti a tudo.
-Então, você viu as mulheres batendo tambor de peito de fora?
-As que vi batendo tambor, serei sincero, estavam de bustier. Havia várias alas, naquela passeata, como um bloco carnavalesco: ala dos sem-terra, das lésbicas, das estrangeiras... Da caixa de som vinha um discurso em língua espanhola. Havia trechos da passeata com uma animação contagiante.
Luca evitou as avenidas presidente Vargas e Rio Branco, trafegando pelas imediações da Lapa para chegar ao estacionamento do Unibanco, a uns trezentos metros do restaurante Alentejano sem problemas.
-Estamos chegando, Carlinhos.
-Estacionar ali requer muita perícia, Luca. Eu, quando dirigia, treinava no estacionamento do Norte Shopping, isso na época em que trabalhei meio-expediente. Mesmo com aqueles treinos, tenho as minhas dúvidas de que posicionaria bem um carro onde você vai parar.
-Caramba, é um vigia do Unibanco que não me conhece. - preocupou-se, quando despontou com o seu carro na frente do estacionamento.
Luca se dirigiu a ele falando dos seus velhos conhecidos do banco, enquanto mostrava sutilmente ao vigia a sua condição de calouro.
-Carlinhos, aqui é o lugar dos diretores e eu estou de bermudas. - sussurrou.
-Luca, enquanto você estaciona, vou ao banheiro. Como diz a Rosa, eu transbordo como a “Fonte dos Quatro Rios” em Roma.
Dez minutos depois, sentamos na mesa de costume do Alentejano, e aguardamos o Elio Fischberg. Divisei-o ao longe, com algo brilhante na mão. (*) Enquanto ele apertava a mão do Luca, disse-lhe que me parecia Diógenes, com uma lanterna na mão, à procura e um homem...
-À procura de um homem honesto, bem entendido, Elio. - frisei.
-Venho do dentista.
Elio Fischberg me surpreendeu ao contar que, de fato, passara, horas antes, por uma cirurgia de implante.
-Como evoluiu!... Eu levei três anestesias, o dentista pediu à enfermeira o martelo cirúrgico e o meu dente levou várias marteladas. O sangue se espalhou pela minha cara.
-Eu não posso beber nada alcoólico e a minha comida terá de ser pastosa. - informou o Elio.
Com a chegada do garçom, pediu-se uma sopa para ele. O garçom nos alertou que demoraria, pois não estava na previsão. Mas isso não importava.
-Também não posso falar muito. - acrescentou o Fischberg. (**)
-Deixa isso com o Luca.
Luca entrou, então, num dos assuntos que mais inflamam a sua oratória: Caetano Veloso. Se Cícero lançou as catilinárias, discursos em que desancava Catilina, Luca lançou as “caetantinárias”.  Como se reportava à crônica do compositor em que foram citadas a droga e a presença de um dos filhos do banqueiro Walter Moreira Salles, aparteei:
-Walter Moreira Salles foi ministro da Fazenda do governo João Goulart.
Luca pensou que tal cargo fora ocupado pelo banqueiro no governo JK. Elio também, porém, expressei-me com tamanha convicção, que eles não discutiram comigo.
Causídico Verborrágico concordou com o Luca: Caetano Veloso cometia um grave erro em reviver uma polêmica com Paulo Francis, quando ele não está vivo para se defender. Tratava-se de um assunto inteiramente intempestivo.
-Eu até comentei com a Regina sobre o descalabro que o Caetano Veloso cometeu nesse artigo. - disse o Elio.
-E ele dizer que o Paulo Francis não emplacou uma frase no New York Times, enquanto a Tropicália é uma referência. - indignou-se o Luca.
-Isso é uma idiotice. - resumi.
Findo o almoço, que mesmo não ocorrendo nas melhores condições físicas de um dos comensais, foi ótimo, eu disse, enquanto atravessávamos a porta do Alentejano:
-Vocês dois não vão cantar?... Se vão, nada de canções depressivas, pois, das outras vezes, os leitores reclamaram. Porém, com a falta do boliviano flautista, que talvez se preparasse para alguma passeata da Rio +20, eles não se animaram.

(*) Seria o implante?
(**) E o Distribuidor perdeu essa?