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terça-feira, 16 de abril de 2013

2360 - O Sítio do Biscoito Amarelo 3


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4160                                   Data:  29 de  Março de 2013
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85ª VISITA À MINHA CASA
3ª PARTE

-Você se reergueu maravilhosamente bem, depois da falência, com a Companhia Editora Nacional.
-Os livros que editávamos tinham o selo de qualidade Monteiro Lobato. - disse com orgulho.
-Você voltou, então, com ânimo renovado a elaborar novos livros para a meninada que, claro, eram lidos pelos pais.
-Misturei os meus personagens, Narizinho, Pedrinho, Tia Anastácia, entre outros, com figuras da mitologia grega, do cinema e das histórias em quadrinhos americanas. Eu intentava abrasileirar tudo. E vendi muito pela nova editora.
-Sem dizer que você, nas suas obras, ensinava as matérias escolares de maneira lúdica, como “Emília no País da Gramática”,
-O então presidente Washington Luís, ao contrário do Artur Bernardes, que me arruinou, leu alguns dos meus livros e tinha afinidade com os meus pensamentos quanto à necessidade urgente de alavancar o progresso do Brasil. Urgia abrir muitas estradas para escoar a nossa produção.
-Ferrovias, hidrovias... - acrescentei.
-Em 1927, eu fui nomeado pelo presidente da República adido cultural nos Estados Unidos. Mudei-me, então, para Nova York, e a Companhia Editora Nacional ficou sob a administração do meu sócio.
-Prevejo que o vírus empresarial que você trazia dentro de si logo se assanhou diante do avanço tecnológico americano.
-Sim e constatei a importância do ferro e do petróleo como sustentáculos desse avanço, e imaginei a fundação da Tupy Publishing Company.
-E o Monteiro Lobato escritor, nos Estados Unidos?... - preocupei-me.
-Não deixei de escrever lá, e não foram livros de marmanjo apenas, aumentei bem a minha bibliografia infantil com “O Gato Félix”, “O Circo de Escavalinho”, “A Pena do Papagaio”, “A Cara de Coruja”. Tudo foi unificado no volume “Reinações do Narizinho”.
-De Nova York, você foi a Detroit e visitou a Ford e a General Motors.
-E fiquei acachapado. Pensei numa produção em larga escala, e entabulei logo uma empresa brasileira para fabricar ferro esponja pelo processo William H. Smith. Para tanto, investi na Bolsa de Valores.
-E veio a sorte funesta e carregou tudo por água abaixo. - intervim com pesar.
-Com a crise de 1929, perdi tudo. Para cobrir o meu prejuízo, tive de vender as ações da minha querida Companhia Editora Nacional.
-Mas não foi dessa vez que você esmoreceu.
-Retornando a São Paulo, coloquei a minha pena na defesa do tripé ferro, petróleo estradas para a saída do Brasil da pasmaceira.
-Mas o presidente que dissera “governar é abrir estradas” estava de saída.
-Tive esperanças, pois Washington Luís seria substituído por Júlio Prestes que, quando governador, procurou petróleo nas terras paulistas. Mas veio a ditadura varguista...
-Ainda assim, você mergulhou no petróleo. - disse, sem deixar transparecer meu tom crítico.
Tive muitos bravos seguidores que subscreveram as ações que eu lançava, assim, depois de implantar a Companhia Petróleos do Brasil, fundei muitas empresas para perfurar petróleo, como a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira, a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul e a Companhia Mato-Grossense de Petróleo. Esta última era a maior de todas, pois perfuraria perto da Bolívia, país onde tinha sido encontrado o óleo negro.
-Nem imagino os obstáculos que você encontrou pela frente nessa empreitada, contudo, seus biógrafos garantem que a sua produção literária não foi prejudicada.
-Naquele período febril da minha vida, escrever era, para mim, uma terapia.
-O ardiloso presidente Getúlio Vargas tentou abduzi-lo, oferecendo-lhe a direção de um ministério da Propaganda.
-Recusei e fiz severas críticas à política de minérios do seu governo numa carta.
-Você comprou uma briga feia.
-Consideraram a minha carta desrespeitosa, subversiva, agressiva com o Conselho Nacional do Petróleo. Resumindo: condenaram-me a seis meses de prisão e fui encarcerado.
-Ficou três meses preso, a metade da pena, porque os intelectuais intervieram e houve uma campanha para que o presidente lhe concedesse o indulto.
-Em 1939, foi achado petróleo na Bahia, sob a jurisdição do Dr. Fernando de Sousa Costa, que fora subordinado ao governador Júlio Prestes que, na década anterior, prospectara petróleo em São Paulo, como eu já disse.
-Você também arcou com sérios problemas familiares.
-Sim, perdi um filho, três anos depois, perdi outro. Uma desgraça.
-Bem, em 1943, Caio Prado Júnior fundou a Editora Brasiliense e negociou com você a publicação das suas obras completas.
-Aceitei, Caio Prado Júnior era muito culto, um ótimo interlocutor.
-Em seguida, você integrou a delegação paulista do 1ª Congresso Brasileiros de Escritores, que exigiu completa liberdade de expressão do pensamento e redemocratização plena do país.
O revanchismo da ditadura varguista não se fez por esperar; as minhas companhias foram liquidadas e o tacão da ditadura pesou sobre mim. Jogaram-me, assim, nos braços, dos comunistas.
-Ironia cruel da sorte; logo você que era o protótipo do empresário que almejava a multiplicação de bens e serviços para a sociedade.
Após uma pausa, fui adiante.
-Mas petróleo, no Brasil, existia mesmo no fundo do mar, com vultosos custos de prospecção.
-Os comunistas me queriam na vida pública, mas recusei. Luís Carlos Prestes leu uma saudação minha num comício no estádio do Pacaembu. Tornei-me diretor do Instituto Brasil – URSS, quando me afastei por problemas de saúde.
-E as crianças, Monteiro Lobato?
-Bem, Narizinho se transformou em Narisino, na publicação italiana. Caio Prado Júnior preparou as minhas obras completas em espanhol, pois os argentinos eram receptivos às minhas histórias infantis. Antes de me exilar na Argentina, tornei-me sócio da Editora Brasiliense.
Voltou em 1947, mas se indispôs também com o governo Eurico Gaspar Dutra.
-Era o Estado Novíssimo, no qual a constituição seria pendurada num ganchinho no quarto dos badulaques.
 -Antes, você havia fundado a Editora Acteon. Em momento algum da sua vida você se limitou a escrever apenas.
-Eu admirava o Conde Francesco Matarazzo, que era um permanente rush para cima.  Editei a sua biografia, escrita por Vicenzo Blancato. Todo o empreendimento dele dava certo, o que não ocorreu comigo. - lamuriou-se.
-Seu grande mérito, como empresário, foi ampliar o mercado editorial brasileiro.
-Eu queria inundar a nação de livros. “Um país se faz com homens e livros.”
-Depois da cirurgia que lhe extirpou um cisto do pulmão, em 1945, parecia que você baixaria as luvas como os boxeadores vencidos.
-Ainda lutei por mais três anos. Fui a Salvador, em dezembro de 1947, assistir a opereta Narizinho Arrebitado. O novo libreto para o espetáculo foi minha derradeira criação infantil. Em junho de 1948, um espasmo cerebral me jogou por terra.
-O grande educador Anísio Teixeira disse o que se segue: ”Lobato continua e continuará a viver nos corações das crianças brasileiras, que beijam seus retratos antes de dormir como se beijassem um amigo ou um pai, e no espírito de todos os brasileiros que se inquietam com o nosso destino e sonham maior e melhor.”
E Monteiro Lobato saiu sem sair de nós.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

2359 - o Sítio do Biscoito Amarelo 2

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4159                                   Data:  27 de  Março de 2013
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85ª VISITA À MINHA CASA
2ª PARTE

-Mas, Monteiro Lobato, foi na condição de fazendeiro que, praticamente, se iniciou a sua carreira literária?
-Eu estava indignado com a ignorância dos caboclos que praticavam costumeiramente queimadas. Assim, escrevi “Velha Praga” e enviei para a seção “Queixas e Reclamações”, destinada aos leitores do jornal Estado de São Paulo. Eles não publicaram meu texto como carta e sim como artigo.
-Saltava aos olhos o valor literário da sua escrita.
-Como consequência, produzi outros artigos para esse jornal.
-Entre eles, “Urupês”, em que surgiu um dos personagens brasileiros mais representativos, o Jeca Tatu.
-Jeca Tatu é um piraquara... assim são chamados os habitantes das margens do rio Paraíba do Sul.
-Eu aqui tenho o seu livro “Urupês” e vou ler um trecho.
Dizendo isso, abri o livro na página procurada e pus-me a ler, saltando algumas frases devido à premência do tempo:
Feia e sorna, nada a põe de pé. Pobre Jeca Tatu! Como é bonito no romance e feio na realidade! Jeca Tatu é um Piraquara do maravilhoso epítome de carne e osso onde se resumem todas as características da espécie. O fato mais importante da vida do Jeca é votar no governo. A modinha, como as demais manifestações de arte popular existe no país, é obra do mulato em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d' envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro. O caboclo é soturno. Não canta senão rezas lúgubres. Não dança senão o cateretê aladainhado. O caboclo é sombrio Urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida.
-Eu não me conformava que, entre as raças de variados matizes, formadora da nacionalidade brasileira, existisse essa, a vegetar de cócoras. - afirmou Monteiro Lobato.
 -Você até assinala, mais adiante, que o vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade do meio ambiente.
-Sim, o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda a poder de estacas e diques. Quanto ao Jeca Tatu sempre de cócoras...
-Você provocou muita polêmica, muitos disseram que você conheceu apenas o caipira caboclo e generalizou.
-O folclorista Cornélio Pires discordou de mim, contudo, guardei as suas palavras: “Apesar dos governos, os outros caipiras se vão endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene. Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa. Ele nada sabe. Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral.”
-Por outro lado, Rui Barbosa o apoiou; falou, numa conferência do seu Jeca Tatu “a vegetar, de cócoras, incapaz de evolução e impenetrável ao progresso.”
-Rui Barbosa foi um bom aliado, era um polemista inflamado.
-Seu grande mérito, Monteiro Lobato, foi despertar a atenção de todos para uma questão social, estando você certo ou errado na sua apreciação.
-Não tenho dúvidas que despertei a atenção dos brasileiros para o Jeca Tatu.
-Dia desses, os jornais estamparam a concretização de uma previsão sua de quase cem anos: as cidades que margeiam o rio Paraíba do Sul se tornariam fantasmas.
-Acertei, infelizmente.
-As geadas o atormentaram também a ponto de você escrever páginas e páginas sobre elas.
A ponto de eu ficar em dificuldades financeiras e ser obrigado a vender a fazenda São José do Buquira, em 1916, mas não foram só as geadas...
-Você se estabeleceu, então, com a família na cidade de São Paulo?
-Sim. Fundei, em Caçapava, a revista “Paraíba”, mas trabalhei mesmo no Jornal “O Estado de São Paulo”. Cobri a Grande Geada de 1918, que dizimou com os cafezais paulistas.
-Foi o ano da gripe espanhola.
-Pois é, os editorialistas caíram com a gripe e eu tive de me desdobrar para substituí-los.
-E a sua vocação de empresário?
-Adquiri, em 1918, a Revista do Brasil, que publicava autores conhecidos, mas também, eu exigia isso, os novos talentos.
 -A Revista do Brasil repercutiu tanto, no mundo cultural, que você pôde montar uma empresa editorial.
-Inovei: os livros eram distribuídos por vendedores autônomos e por distribuidores espalhados pelo Brasil.
-Seus dois primeiros livros, “Urupês” e “O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito” foram publicados por sua editora?
-Por minhas editoras, no plural, pois da Editora Revista do Brasil, eu passei para a Monteiro Lobato & Cia, que seria chamada de Companhia Editora Nacional.
-Você publicou romances que alcançariam muitas edições sem falar nas obras da sua lavra.
-Também fiz a tradução de muitos livros que, em seguida, eu publicava.
-Nesse tempo, você se interessou pela exploração do petróleo no Brasil?
Primeiramente, editei o polêmico “A Luta pelo Petróleo”, de Essay Bey, com introdução minha, em que procurei acordar os brasileiros para a questão do petróleo neste imenso país.
-Deixemos, por favor, para depois o polemista e vamos falar do Monteiro Lobato escritor que tinha a petizada como alvo.
-Escrevi, como já dissemos antes, “A Menina do Narizinho Arrebitado”. A repercussão foi tamanha, adicionada pela atração que eu sentia pelo mundo infantil, que veio um livro após outro: “Fábulas do Narizinho”, e “O Saci”, em 1921; o Marquês de Rabicó, em 1922; “A Caçada da Onça”, “O Noivado de Narizinho”, “Jeca Tatuzinho e “O Garimpeiro do Rio das Garças”, esses em 1924. Eu só retornaria a literatura infantil em 1928.
-Sabemos todos que esses livros alcançaram uma tiragem impressionante.
-Pude, então, entregar a direção da Revista do Brasil a dois excelentes cidadãos e dedicar-me exclusivamente a editora.
-A sua vocação de empresário, sempre latente, irrompeu, então, com grande força.
-A demanda pelos livros subiu exponencialmente e, para atendê-la, eu importei máquinas dos Estados Unidos e da Europa. Não tive sorte, porque houve uma seca que racionou o consumo de energia elétrica, o que obrigava a gráfica a trabalhar apenas dois dias por semana. Como golpe final, o presidente Artur Bernardes tomou medidas econômicas desastrosas.  Tive de pedir falência em 1925.
-Sabemos que, pelo seu dinamismo, você não se abatia com derrotas.
-Eram batalhas, não era a decisão da guerra. Juntei-me, em sociedade, com Octalles Marcondes e abrimos a Companhia Editora Nacional, transferi-me, por isso, para o Rio de Janeiro.
-Veio, finalmente, para a Capital Federal.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

2358 - O Sítio do Biscoito Amarelo 1

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4158                                   Data:  26 de  Março de 2013
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85ª VISITA À MINHA CASA

-Monteiro Lobato?!...
-E como está a questão do petróleo no Brasil?
-Vamos falar dos seus livros para as crianças. - propus.
-As pessoas da sua geração gostavam muito das minhas histórias infantis.
-E as que nasceram bem antes de mim também. O Jô Soares disse que chorou copiosamente quando soube da sua morte ocorrida em 1948.
-Ele era um menino na época, deduzo.
-Você só foi escrever para a petizada perto dos 40 anos de idade.
-Eu já estava enjoado de escrever para marmanjos, bichos sem graça; mas, para criança, um livro é um mundo.
-Você foi o precursor dos textos infantis neste país.
-Meu primeiro livro foi “A menina do nariz arrebitado”, escrito em 1920.
-Houve, que eu saiba, apenas uma reedição em fac simile desse livro em 1981.
-“A menina do nariz arrebitado” deu origem à Lúcia, que é a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo.
-E vieram outros livros desse gênero para a alegria e aprendizagem da criançada.
-Você não leu esses livros?
-Confesso que não, Monteiro Lobato, apesar de eu ser um leitor voraz desde garoto. Quem me abastecia de livros era o meu pai, que me trouxe muitos romances de Michel Zevaco e Alexandre Dumas, principalmente. Por outro lado, a minha mãe me dava livros do José de Alencar para ler, como “O Tronco do Ipê”, “O Guarany”, “Til”, “Senhora”.
-Mas o José de Alencar recorria a alguns vocábulos incompreensivos para os jovens.
-Eu tropeçava nessas palavras, mas a atração dos enredos me fazia ir adiante.
-Imaginei o Sítio do Picapau Amarelo como um sítio no interior do Brasil com a Dona Benta, dona do lugar, seus netos Narizinho e Pedrinho, e a empregada Tia Anastácia. Para animar a fértil imaginação da criançada, acrescentei a Emília, uma boneca irreverente, o Visconde de Sabugosa, um aristocrático boneco de sabugo de milho, o rinoceronte Quindim, o porco Rabicó, a vaca Mocha, o burro Conselheiro...
-A Cuca. - interferi.
-O bicho papão está no imaginário das pessoas desde tenra idade.
-Você, Monteiro Lobato, foi criado num sítio? - fiz a analogia.
-Em Taubaté, onde nasci, mas digamos que era uma fazenda. Fui alfabetizado por minha mãe, Olímpia Augusta e, em seguida, por um professor particular. Entrei para a escola com sete anos de idade.
-E descobriu um mundo novo?
-O mundo novo para mim foi a imensa biblioteca do meu avô materno, o Visconde de Tremembé. Li tudo o que havia lá para criança.
-E essas leituras despertaram o seu talento?
-Bem, escrevi pequenos contos para os jornaizinhos de todas as escolas que frequentei.
-Mesmo sabendo que você aprendeu mais fora dos colégios do que dentro deles pergunto: como foi o seu périplo escolar?
-Com onze anos de idade, fui transferido para o Colégio São João Evangelista. Rumei para São Paulo três anos depois, ou seja, em 1896, prestei exames, mas fui reprovado; retornei, então, a Taubaté. No Colégio Paulista, colaborei para três jornaizinhos ao mesmo tempo.
-Voltou a São Paulo e, dessa vez, foi aprovado. - antecipei-me.
-Isso. Em São Paulo, eu tinha mil assuntos para colocar nas cartas à minha família. Continuei a redigir textos de estudante e, quando fixei moradia na grande cidade, tornei-me interno do Instituto Ciências e Letras.
-Mas a má sorte o espreitava.
Às minhas palavras, Monteiro Lobato suspirou:
-Meu pai morreu de congestão pulmonar e como minha mãe era passionalmente dependente dele, faleceu no ano seguinte. Fui em frente, viver era uma obrigação minha.
-Você não se destacava apenas na redação, desenhava com talento.
-Meu sonho era frequentar a Escola de Belas Artes, meu avô, no entanto, impôs que eu estudasse Direito, pois me designara seu sucessor na administração dos negócios.
-Você, então, foi estudar na renomada Faculdade do Largo de São Francisco.
-Lá, fundei com alguns colegas meus de turma a “Arcádia Acadêmica”, quando, na sessão inaugural, discursei.
-O tema não eram as crianças?
-Não, eu ainda estava plenamente impregnado de assuntos dos marmanjos.
-Soube que seus argumentos eram originais, e que você demonstrava um humor sutil que lembrava os ingleses espirituosos.
-Eu era, na verdade, anticonvencional; dizia o que pensava, agradasse ou não aos que me ouviam ou liam.
-Você, na faculdade, também se interessou por teatro?
-Elaborei estudos sobre a arte cênica; sei que eles ajudaram na formação do grupo “O Cenáculo”, que alcançou sucesso.
-Seu conto Gens Ennuyeux também.
-Venci com ele um concurso e foi publicado no jornal “Onze de Agosto”.
-E os estudos?
-Diplomei-me em Direito com 22 anos de idade, em 1904, e regressei a Taubaté.
-Em São Paulo, você teria um campo mais amplo para exercer a sua profissão de advogado.
-Eu me julgava também um empresário. Fiz, em sociedade com um amigo, planos para fundar uma fábrica de geleias. Enquanto isso, ocupava interinamente a promotoria de Taubaté. Foi quando conheci a minha futura esposa, “Purezinha”.
-E foi nomeado promotor público na cidade de Areias.
-A vida parada em Areias me entendiou, apesar do nascimento da minha filha. Planejei abrir um estabelecimento comercial de secos e molhados.
-E não abriu?
-Associei-me aos investidores de estradas de ferro.
-A sua tendência empresarial não prejudicava o seu dom de escritor?
-Eu não parava de escrever, eram artigos para jornais e revistas, além de traduzir artigos para o português do Weekly Times. Também não deixei de desenhar e fazer caricaturas, a revista Fon-Fon publicou muitas delas.
-Quantos anos você tinha quando morreu o seu avô Visconde de Tremembé?
-Vinte e nove anos de idade, foi em 1911.
-Foi uma sacudidela na sua vida já movimentada?
-Herdei a fazenda São José de Buquira e lá residi com mulher e dois filhos. Larguei a promotoria pelo trabalho de fazendeiro. Tratei logo de modernizar a lavoura e as criações de animais que existiam por lá.
Depois de uma pausa para recuperar o fôlego, prosseguiu:
-Com o lucro que obtive, abri um externato na minha cidade natal e confiei os negócios do colégio ao meu cunhado.
-O seu temperamento de empresário não iria se contentar só com isso?
-Não me bastava a vida de fazendeiro. Voltei os olhos para a cidade de São Paulo e planejei explorar comercialmente, em sociedade, o Viaduto do Chá.
-Monteiro Lobato se entregava aos sonhos como escritor e como empresário. - foi o meu pensamento que não se transformou em palavras.  




quinta-feira, 11 de abril de 2013

2357 - farinha lírica


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4157                                   Data:  25 de  Março de 2013
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MINHA BIOGRAFIA MUSICAL CLÁSSICA

Minha biografia musical clássica se iniciou com as óperas. Meu pai entoava, na sua voz nada operística, algo parecido com “La donna e mobile”, inventando uma letra engraçada, e eu, bem garoto,  prestava atenção. O mesmo ele fazia com a ária do Fígaro de “O Barbeiro de Sevilha”. Meu pai, é bom que se diga, não se limitava a parodiar o que havia de mais popular no mundo da ópera, sintonizava o rádio nas árias de Verdi e Puccini, principalmente, e, com seriedade, tecia considerações abalizadas sobre as grandes vozes.
Mas o meu primeiro deslumbramento com o gênero lírico se deu através da televisão, em meado dos anos 50, quando eu fazia companhia à minha avó no seu casarão da Rua General Padilha. Na época, só existia um canal de televisão, a TV Tupi, então, Assis Chateaubriand não precisava se preocupar com a concorrência.
Foi assim que eu assisti ao trecho de um filme com a parte final de “Os Palhaços”, de Leoncavalo. Fiquei imediatamente encantado com aquele teatro musicado. Às vezes, entre um programa e outro, a TV Tupi preenchia o tempo com 40 minutos de comercial.
“Por que não colocam “Os Palhaços” de novo?” - eu perguntava à minha avó.
Havia também um programa operístico com artistas brasileiros, desses guardei na memória o barítono Paulo Fortes, porque diziam lá em casa que ele não deveria ficar no Brasil com a voz que tinha. Das árias cantadas, entesourei na memória algumas, principalmente a “Canção do Aventureiro”, do Guarany, talvez porque a minha patrioteira avó realçasse o fato de ser de autoria de um excepcional  compositor brasileiro.
Em casa, meu pai sintonizava a Rádio Guanabara, nas manhãs de domingo, para ouvir por uma hora “Cancioneiros Famosos”, de Januário Ferrari, em que canções napolitanas eram entoadas por Caruso, Tito Schipa, Beniamino Gigli, com uma ária de ópera como fecho de ouro.
De volta à casa da minha avó, que possuía uma televisão de 21 polegadas (a única da família nos anos 50), passei a ver mais óperas. Recordo da minha contrariedade quando tive de retornar para casa sem assistir ao “Romeu e Julieta”, programado para o dia seguinte. Confesso que, caso visse essa ópera, ficaria um pouco decepcionado, pois, nesse tempo, eu estava inteiramente tomado pela força dramática e passional dos italianos.
Quando fui crismado, em 1960, ganhei de um primo bem mais velho do que eu um LP do Ferruccio Tagliavini. Acredito que nunca ouvi na vida tanto um disco como esse. Quando não era eu, era o meu pai que o colocava na vitrola.
Em 1961, o grande tenor veio ao Brasil e cantou a Tosca no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com transmissão radiofônica da Ministério da Educação e Cultura. Grudados no rádio, eu e meu pai, aguardávamos ansiosamente o “E lucevan le stelle.  Emitida  a última nota da ária, meu pai comentou, certamente estabelecendo a comparação com o disco, que não era o melhor Tagliavini, apesar dos aplausos de esfolar as mãos e o bis concedido pelo grande tenor. Felizmente, gravaram esta récita que ouvi há poucos anos, e constatei que  meu pai exagerara na crítica.
Já deixei de estudar na véspera de uma ópera para não perder o Otello com o Assis Pacheco. Os nomes dos cantores que eu vira na TV Tupi se tornavam agora familiares para mim.
A meio-soprano Maria Henriques apresentava um programa de óperas na Rádio Roquette Pinto, lá pelas 21 horas, em que levava um convidado que tinha o direito de escolher uma ópera completa. Não me esqueço da minha decepção quando optaram por “Salomé” de Richard Strauss.  Meus ouvidos ainda não estavam preparados.
É evidente que sempre sintonizava, com o meu pai, “Ópera Completa” de Zito Batista Filho – domingo, 17 horas – e fugíamos das óperas de Wagner, quando eram programadas; de Mozart também, confesso, envergonhado.
A temporada lírica internacional de 1964 foi um encantamento e chegou ao seu ponto alto quando a soprano Magda Olivero cantou, do Mefistófoles de Boito, “L' altra notte in fondo al mare”. Que aclamação! Que delírio! O grande baixo Cesare Siepi que, teoricamente, era o dono da ópera, sentiu tamanho ciúme que retornou para a Itália descumprindo seus compromissos profissionais.
Nunca ninguém cantou assim. - diz-me sempre a memória.
Ginasiano, eu estudava de manhã, assim, eu não perdia o programa “Trechos Lírico”, da Ida Bocchino, que ia das 14h 30min às 15 horas na hoje chamada Rádio MEC.
No dia do enterro do meu avô, “Trechos Líricos” programou apenas duetos de amor, neles, o preferido pelo parente morto: o do “Amico Fritz”, de Mascagni, com Tito Schipa e Mafalda Favero. Meu avô faleceu em 1963 e como meu pai era o único dos seus quatro filhos que herdara o gosto musical semelhante ao dele, os seus incontáveis discos de ópera e de canções italianas, em 78 rpm, de cera carnaúba, foram para a nossa casa. Eu parecia o personagem da “Montanha Mágica” de Thomas Mann, no sanatório, quando teve acesso ao fonógrafo. A parte final do 2° ato da Carmem de Bizet, um daqueles bolachões herdados, nunca me cansava, além da serenata de Arlequim com o Tito Schipa.
Sem perder o gosto pela ópera italiana e francesa (algumas), meus ouvidos passaram a exigir também outras músicas. O Prelúdio do Lohengrin de Wagner me fascinou, a Rapsódia Húngara nº 2 de Liszt se tornou uma obsessão. Vieram as obras de Tchaikovsky e,  particularmente, uma composição  de Berlioz que mexia muito com a minha imaginação, a  “Sinfonia Fantástica” com a sua ideia fixa.
Estava aberto o caminho para eu desfrutar as sinfonias de Beethoven. Quando o ex-presidente Castelo Branco morreu estranhamente em 19 de junho de 1967, não tomei champanhe como o já mudo e tetraplégico Assis Chateubriand, mas senti certa satisfação porque a Rádio Ministério da Educação, de luto, tocou durante toda a programação do dia as sinfonias de Beethoven.
A minha memória não determina com exatidão os anos em que eu não dormia sem ouvir antes o programa da meia-noite “Noturno”, que me deleitava com as obras dos grandes mestres da música. Esse programa tinha como tema a canção elizabethana, com o arranjo de Vaugham Williams, “Green Leaves”, que, até hoje, faz-me parar com tudo que estou fazendo para ouvi-la.
Eu sabia que Bach era o grande nome, mas muitas vezes, diante da sua música, eu era como a mariposa que rodeia a luz sem conseguir penetrá-la, usando uma imagem de Balzac. Eu era um diletante, sem bagagem de estudante de conservatório para conhecer na sua plenitude a genialidade de Bach. Paciência.
Um dia, já na casa dos vinte e tantos anos, ouvi a Primeira Sinfonia de Brahms; fiquei arrebatado. Não entendo até hoje por que Bernard Shaw, como crítico musical, desancou tanto o compositor alemão. Mais tarde, ele reconheceria que essas críticas estavam entre os maiores erros da sua vida.
E Mozart? Bem, meus ouvidos já estavam apurados para recebê-lo.
Estudando no Centro da cidade, fui a um sebão de discos e comprei um LP com a figura de Mozart na capa. Um lado era a Sinfonia Concertante para Violino e Viola K. 364, do outro, a Serena “Gran Partita”.
Descobri, assim, a música do compositor que mais me desvanece até hoje.
Numa minissérie sobre o filho dileto de Salzburgo, o compositor Michael Haydn, irmão de outro gênio, Joseph Haydn, diz para Mozart que ele compusera a música mais linda do mundo e assovia o andante da Sinfonia Concertante que citei.
O mundo mozartiano se abria para mim e hoje considero a sua ópera “Don Giovanni” como o ponto mais elevado do gênero.
A apresentação da 'Tristão e Isolda” de Wagner, no Teatro Municipal,  também exerceria um forte impacto sobre mim no início dos anos 80.
Com o passar dos anos, ficou mais refinado o meu gosto, mas nunca deixei de me emocionar com as óperas da minha fase infanto-juvenil, principalmente quando cantadas por Beniamino Gigli, Mario Del Monaco, Jussy Bjorlin, Maria Callas, Renata Tebaldi, Magda Olivero e tantos outros.
Como disse Orson Welles, “Considero a ópera a experiência do absoluto. A voz é um elemento comovente.”








quarta-feira, 10 de abril de 2013

2356 - Paquequer cracudos?


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4156                                   Data:  24 de  Março de 2013
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SABADOIDO ANTES E DEPOIS DO JORNAL

-O jornal ainda não chegou. - disse-me o Claudio.
-Agora que não preciso do computador do Daniel, teria tempo de tirar uma casquinha do Globo. - disse para ele.
Então, o telefone tocou. Era o Daniel, que informava a sua chegada na Casa da Moeda e o mau tempo que fazia em Santa Cruz.
-O Daniel trabalha sábado e domingo, na Casa da Moeda; são os dias em que ele pode fazer a manutenção dos computadores. É chato, mas ele ganha um dinheiro extra. Aqui faz sol, mal lá chove.
-Um sol meio suspeito, Claudio.
-No Rio não choveu tanto assim, mas em Petrópolis e Teresópolis...
-Você se lembra do capítulo final de “O Guarany” do José de Alencar?
-Carlinhos, eu nunca li esse romance.
-Li quanto tinha 13 anos, quando entrei no Visconde de Cairu, não porque o colégio exigiu, eu já era leitor de livros. Não me lembro muito bem, mas penso que Peri navega sobre uma palmeira com Ceci depois de uma chuvarada que fez transbordar o Rio Paquequer.
-O Paquequer é o primeiro rio a transbordar quando chove muito em Teresópolis.
Finalizou a sua fala dizendo que ia ver se o jornal já chegara. Enquanto rumava para a frente da casa, eu deduzia que a Gina estava no supermercado pelo silêncio no interior da casa. Claudio voltou sem nada nas mãos.
-Já é o terceiro sábado em que o Vagner não aparece. Estou preocupado, vou saber depois, com o Lula, se aconteceu alguma coisa com ele.
-A terceira sessão do Sabadoido que ele falta. - acrescentei.
E a conversa derivou para o futebol.
-Gostou do Brasil e Itália da quarta-feira?
-Carlinhos, para uma seleção desentrosada como a nossa, até que o time do Felipão foi bem.
-Claudio, até que enfim eu li uma pessoa lúcida falando do Brasil e Itália de 1982.
-A crônica do Fernando Calazans de quarta-feira no Globo?
-Ela mesma. Aquela seleção brasileira de 1982 ficou supervalorizada. Viram-na jogar com os olhos apaixonados e não se preocuparam em rever as suas partidas; então, para esses torcedores ficou tudo fantasiado na memória.
-Uma seleção que tinha Serginho Chulapa e Valdir Peres não poderia estar entre as melhores da história do Brasil. - diagnosticou.
-O Fernando Calazans se referiu, nas entrelinhas, à soberba dos brasileiros no jogo contra grandes jogadores da seleção italiana, de 1982, além de apontar falhas bisonhas na nossa defesa.
-Mais tarde, eu vou procurar, na montoeira de páginas do Globo, essa crônica. - disse ele.
-Quando eu revi o Brasil e Itália de 82, fiquei com a sensação que todas as vezes que eles precisavam fazer um gol faziam, e sem esperar muito tempo. - assinalei.
-Carlinhos, eles tinham jogadores como Bruno Conti, Scirea, Cabrini, Maldini, Baresi...
-E o que escreveu o Fernando Calazans?
-No primeiro gol da Itália, o Éder tentou desarmar o Bruno Conti de letra. A bola foi passada para Cabrini que cruzou para o Paolo Rossi que fez o gol de cabeça apesar da pouca altura.
-No segundo gol, o Cerezo cruzou a bola em frente da área do Brasil, erro que não se comete nem em pelada. O Paolo Rossi aproveitou e meteu o segundo gol. - antecipou-se meu irmão.
-Fernando Calazans também assinala a reação retardada da defesa brasileira nesse lance.
-O terceiro gol da Itália saiu de um escanteio, de uma bola vadia, um bate e rebate e a bola sobrando para o Paolo Rossi, que estava com uma tremenda sorte nesse dia.
-Sim, Claudio, mas o Fernando Calazans lembra como tudo começou.  Cerezo, ao fazer a cobertura de um lançamento longo, em vez de jogar a bola para a lateral, preferiu atrasar para o Valdir Peres, que foi nela com uma das mãos e não evitou o corner.
-Você lembra o que a seleção italiana disse depois desse jogo? - perguntou-me.
-Eu me lembro o que disse o Zezé Moreira, como olheiro do Brasil, depois de os italianos jogarem mal as oitavas de final e mostrarem que ascendiam ao derrotar a Argentina: “Cuidado com a Itália.”
-Os italianos disseram que o Brasil agora somos nós. - respondeu a sua pergunta.
-E foram campeões do mundo com alguma facilidade, meteram 3 a 1 na Alemanha Ocidental, depois de 3 a 0 até os 80 minutos de jogo.
Nesse instante, o celular tocou e meu irmão atendeu; era o Luca. Pelas palavras do meu irmão, dizendo que eu comprara todos os produtos da feira e, por isso, precisava de carona para voltar para casa, deduzi que ele não viria para a sessão do Sabadoido.
Falaram os dois de uma nota no Globo da sexta-feira sobre João Gilberto, que motivou mil piadas do Claudio com os cantores de nome João. Encerrada a ligação, premi o número do telefone do Luca no meu celular.
Enquanto isso, Claudio foi ver de novo se o Jornal chegara.
-Luca, e as partidas contra o Gordo nesta semana?
-Carlinhos, o Gordo não consegue vencer mais uma partida... - entusiasmou-se.
-Luca, você está esquartejando o Gordo.
-Ele até tirou a camisa, para se movimentar melhor e se refrescar, mas não adiantou. Dei-lhe uma coça.
-Pena que você não venha aqui para contar, pois os leitores do BM gostam de saber desses embates de pingue-pongue entre vocês.
-Eu estou na Arquias Cordeiro e posso passar ai, agora, para levá-lo para casa.
-Não se preocupe, o Cláudio exagerou. Eu só vou carregar uma sacola com quatro maçãs.
Claudio reapareceu com o Globo na mão.
Quando eu e ele reiniciamos o nosso falatório, reportei-me a um caso  de três dias antes com a minha irmã.
-Ela levou uma amiga, que passava mal, a duas clínicas, que as tratou mal. Foram para a UPA de Engenho de Dentro, onde o atendimento foi humano. Então, apareceu lá uma mãe com uma menininha e ela dizia que, caso a filha chorasse, não veria o Dorf,  Nossa irmã ficou intrigada, pois conhecia todos os desenhos da televisão e não havia visto esse tal de Dorf. Soube, depois, que se tratava do Seedorf e que estava prometido que ela entraria de mãos dadas com ele no próximo jogo do Botafogo. A menina foi furada duas vezes, para tirar sangue e não derramou uma lágrima.
-Seedorf é gente boa. - frisou.
-Não é por ser do Botafogo, mas é o ídolo perfeito para a petizada, e não esses Ronaldos e Neymar, cujas vidas fora dos gramados não são exemplares.
A Gina chegou das compras, falou sobre um e outro assunto, sem muita disposição, talvez estivesse com a enxaqueca que vez ou outra a ataca.
Saí daquele Sabadoido em que mais uma vez o cavalo que substitui os ausentes ficou sobrecarregado. Carregando a sacola com quatro maçãs, caminhei até a minha casa, com todo o cuidado para não pisar os cracudos esparramados pelas calçadas.




terça-feira, 9 de abril de 2013

2355 - E o Papa, hein?

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4155                                   Data:  23 de  Março de 2013
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CARTAS DOS LEITORES

-Li a biografia musical popular do redator deste periódico e não entendi por que lá não estão os Beatles, Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Rolling Stones. Carlos Alberto Torres
BM: Meu caro capitão da Copa de 70, a época das guitarras elétricas não fez a minha cabeça. Nunca usei cabelos compridos nem parti para as drogas (bebi até cachaça, mas parei tudo com 15 anos de idade, antes dessa turma aparecer). Descarto, então, de saída Led Zeppelin e Jimi Hendrix, sem lhes negar o valor artístico. Gostei de algumas canções dos Rolling Stones por causa do ritmo, mas eles foram beber no jazz, gênero que foi considerado na minha biografia musical. Os três Beatles criaram belíssimas melodias, se eu tivesse de destacar algumas, seriam os 10 minutos finais do LP Abbey Road, na voz do Paul Mc Cartney;  melodias e alternâncias de ritmo admiráveis..

-”Estava convicta da eleição de um italiano e acertei “à demi”, ele é argentino como eu sou brasileira, só na Certidão de Nascimento, sangue todo importado. Os jesuítas estão bombando, Ad majorem Dei gloriam. Talvez saiba que Santo Inácio de Loyola era valente soldado quando (para rimar) ficou manquitola numa guerra. Maior inteligência, fundou essa Ordem e se fez general de altos valores. Mas cresceram tanto que decidiram lhes cortar as asas (lembre-se do Aut sint ut sunt, aut non sint do Padre  Ricci ao Papa Clemente XIV)? E  não eram muito amados, até Stendhal (no “Promenades dans Rome”) garante que o Diabo está dentro da igreja do “Gésù” (belíssima), enquanto o vento o espera na porta. O Diabo não vi, Santo Inácio está enterrado lá.”  Rosa
BM: a Rosa Grieco repercute a recente eleição do Papa Francisco, pertencente à Ordem dos Jesuítas.
A polimata remetente faz alusões ao fundador da Ordem que nós ouvimos falar desde os estudos do colégio primário. Vamos nos deter um pouco mais, antes, porém, vamos procurar o Dieckmann para que ele nos traduza as citações latinas. Pronto, sempre prestimoso, ele já nos atendeu: Ad majorem Dei gloriam - Para maior Glória de Deus) – e nos esclareceu que era o lema da Ordem dos Jesuítas: AMDJ. Quanto ao Aut sint ut sunt, aut non sint - “Que sejam como são ou deixem de existir” foram as palavras de Matteo Ricci quando propuseram alterações no estatuto da Ordem de Jesus. Esclareceu-nos o latinista deste periódico. Agora, passemos para Inácio de Loyola.
A Igreja Católica acabara de sofrer a maior crise da sua história, com o protestantismo de Lutero e Calvino, e Inácio de Loyola surgiu como o maior combatente da Contrarreforma. Ele, na juventude, seguiu a carreira militar que foi abreviada em 1521, quando tinha 30 anos de idade, em Pamplona. Lutando contra os franceses, um tiro de canhão lhe dilacerou as pernas. Convalescente, afundou-se nos livros sobre Cristo. Decidiu, então, fundar uma ordem religiosa que recebeu a aprovação canônica do Papa. Surgiram, assim, os jesuítas que tiveram Inácio de Loyola como primeiro superior-geral até a sua morte, em Roma, em 1556.
Perinde ac cadaver (não é só a Rosa que faz citações em Latim), os jesuítas tinham de ser “obedientes como um cadáver”. Combater os protestantes não era a prioridade e sim a divulgação do catolicismo pelo mundo afora.  São Francisco Xavier, por exemplo, pregou em Goa, possessão portuguesa na Índia, pregou na China e no Japão. Na colonização da América, estiveram por aqui, entre muitos, os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, este o primeiro chefe da primeira missão jesuíta no Brasil. Os dois, conforme ensinam os livros escolares, fundaram, em 1554, o colégio do Planalto de Piratininga que foi a semente do surgimento da cidade de São Paulo. Para obter maior comunhão com os infiéis, exemplificando, José de Anchieta aprendeu tupi-guarani e o jesuíta Mateo Ricci, citado pela missivista, jesuíta na China, conheceu o idioma dos chineses a ponto de traduzir Confúcio, cujos pensamentos não se chocavam a seu ver com o ideário cristão. 
Eram os jesuítas contrários à escravização dos índios, como os citados, contrariando, assim, as ambições dos colonizadores portugueses. Mais tarde, surgiria no Brasil Antônio Vieira, invencível orador, de têmpera inquebrantável.
  Foi a ordem criada por Francisco de Loyola, com o correr dos anos, vítima de intrigas, como a participação em conspirações de assassinato de monarcas. O marquês de Pombal, que governava o reino lusitano, devido à tibieza do rei Dom José I, considerando a Ordem uma ameaça, expulsou, em 1759, os jesuítas de Portugal e suas colônias. Em 1764, a monarquia francesa tomou a mesma atitude e, em 1773, pressionado por todos os lados, o Papa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus.
A czarina Catarina, a Grande, ignorou a determinação do papa e acolheu os jesuítas. A companhia criada por Santo Inácio de Loyola só seria reabilitada em 1814.
Sempre vista com alguma desconfiança, dentro da igreja, fornece, pela primeira vez um papa, Jorge Mario Bergoglio.
O Papa Francisco aparece num momento em que a Igreja Católica atravessa  outra  gravíssima crise que abala  seus alicerces.

“Na visita que E.T.A. Hoffmann fez à casa do redator do Biscoito Molhado, não foi mostrada (eu compreendo o porquê) a literatura fantástica do extraordinário criador. Isso poderia ser feito agora? - Fernando Dias Ramos
BM: Tentarei com uma resenha do libreto “Os Contos de Hoffmann” da ópera de Jacques Offenbach, em que o alter ego do escritor da cidade de Königsberg é protagonista. Vamos lá.
Prólogo. Em uma cervejaria, o poeta desabafa os seus infortúnios para um grupo de estudantes e para desocupados. Vítima de um espírito maligno, não encontra o verdadeiro amor. Sempre que está próximo do seu intento, um feitiço o impede de alcançar a felicidade.
1º ato. O poeta se apaixona por uma mulher, sem saber que ela sofrera um sortilégio e, se tornou, na verdade, uma boneca, Olympia. Hoffmann, na sua história, envereda também pelo humorismo quando faz que a boneca, em alguns momentos culminantes, fique paralisada por falta de corda.
2º ato. Ele se apaixona por uma cortezã de Veneza, mas um insidioso feiticeiro, o Dr. Coppellius, a instiga a aprisionar a alma do artista num espelho.
3º ato. O poeta cai agora de amores por uma donzela cuja mãe morreu cantando. Por um artifício diabólico do Dr. Coppellius, ela terá o mesmo fim caso cante. Todas as medidas são tomadas para que ela resista à sedução de soltar a sua maviosa voz. O bruxo, evocando a imagem da sua mãe, faz com que ela entoe uma melodia e, assim, morre.
4º ato. Em todas essas situações, o seu amigo e conselheiro Nicklauss tenta lhe convencer que nada se compara ao amor pela arte. O poeta descobre, então, que Nicklauss , na verdade, era umas mulher, a musa.  Percebe, então, que o amor romântico só valoriza a mulher que está distante, a inacessível.