Total de visualizações de página

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

2205 - mordomias castelãs


-----------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4005                                          Data: 13 de agosto de 2012
-----------------------------------------------------------------------------------

SABADOIDO  OLÍMPICO

-Daniel não está.
-Viajou para assistir a cerimônia de encerramento das olimpíadas, em Roma?...- brinquei, embora a notícia dada pelo meu irmão tenha me deixado desenxabido.
-Ele foi convocado para trabalhar hoje.
 -Imaginei que, na Casa da Moeda, ele estivesse livre do trabalho aos sábados.
-Nada; há três semanas o colocaram de prontidão, e hoje o chamaram.
-Justamente no dia em que ele iria baixar um programa antivírus no meu computador. - lamentei.
O jeito foi abrir o jornal que estava à minha disposição, enquanto o Claudio catava uma laranja na geladeira.
-Está lendo o noticiário da disputa da medalha de ouro, hoje, entre Brasil e México?- perguntou-me, enquanto colocava a laranja dentro de um prato, empunhando uma faca amolada, presumia-se.
-Leio a seção “Há 50 anos”, a notícia da desclassificação do Montecristo, no Grande Prêmio Brasil. Claudio, eu havia jogado no Ortile, que herdou a vitória com a desclassificação do cavalo chileno.
-Mas quem apostou no Ortile, como ganhador, não recebeu nada.
-Sei disso, a minha indignação dura esse tempo todo.
-Poxa, Carlinhos, nós jogávamos nos cavalos desde garotos. Foram os irmãos Olavo e Oduvaldo que nos viciaram com aquelas apostas no bookmaker da Rua São Gabriel.
-Havia também uma herança genética do nosso avô, e o papai nos deu, de Natal, aquele brinquedo de hipódromo de papel com Mossoró, Tirolesa, Sargento, Albatroz, Six Avril...
-Eu acho que Montecristo era argentino. - interferiu.
-Tenho quase certeza que era chileno. Os argentinos, na época, primavam pela criação apurada de puros-sangues, não recorriam à patifaria em provas internacionais.
Fez-se um silêncio que se tornou mais pesado com as ausências do meu sobrinho e da minha cunhada, que se se encontrava no supermercado.
-As meninas do vôlei decidem hoje a final contra os Estados Unidos.
-Cláudio, eu me preocupo mais com essa decisão do que com a do futebol. As nossas jogadoras têm combatido com uma garra impressionante; mostram que corre sangue nas suas veias. Para ser mais sincero ainda, só sinto curiosidade pelo jogo Brasil e México, nenhuma emoção. Por que motivo eu me emocionaria por jogadores que ganham rios de dinheiro e não correspondem em suor?... Isso para não falar dos dirigentes que foram para Londres desfrutar a mordomia.
-Se você quiser usar o computador do Daniel, está á sua disposição. - disse depois de descascar a laranja, demonstrando que economizava o seu ímpeto polemista para o início, propriamente dito, do Sabadoido.
Diante do ecrã do computador, no cybercafé do Daniel, acessei o filme que o Dieckmann me enviara sobre o desmonte do Morro do Castelo, em 1922. O chamado na época “arrasamento”, ocorreu sob o alcaide Carlos Sampaio. O Morro do Castelo tinha 184 mil metros quadrados e ocorreu graças a retirada dos entulhos por pequenas locomotivas de manobra. O prefeito Carlos Sampaio contratou a empreiteira estadunidense Leonard Kennedy & Co, de Nova York. Foram retirados 4,6 milhões de metros cúbicos de terra, que seriam usados para aterrar charcos e mangues que cercavam o morro, no Centro, em Copacabana, Urca e Gávea. Segundo os defensores da demolição do histórico Morro do Castelo, o dito cujo impedia a circulação do vento que vinha da Baía de Guanabara, contribuindo para disseminar moléstias e epidemias, além de o aterro de charcos e mangues eliminar os miasmas febris.
Esse vídeo, que ora surge na internet, deve ser assistido (*) por quem não quer ser mais um ignorante neste país de desmemoriados.
Quando eu passava para outra mensagem eletrônica, a música elotroacústica do telefone soou. O meu irmão atendeu, era o Luca. Pelas palavras altissonantes do Cláudio, sabia-se do que o Luca falava mesmo sem ouvi-lo. 
-Se vai haver reunião com o jogo do Brasil às 11 horas?... Eu que não vou assistir a essa pelada. Você também não?... Então, pode vir para cá.
Os dois não me decepcionaram. – pensei, enquanto me vinham à mente a garra de atletas lembrados apenas de quatro em quatro anos e a prepotência das figuras que levavam o futebol para Londres.
Passaram uns dez minutos, eu observava os slides que mostravam a engenhosidade que exigiu o erguimento da Torre Eiffel, quando a voz grave do Vagner soou repetidamente como uma aldrava que bate na porta nos filmes com cenário de séculos passados.
Vagner é bem diferente de mim, pois chamo só  uma vez e me afasto uns dois metros para me pôr sob o agradável sol, torcendo para ele demorar a aparecer. – murmurava, enquanto o meu irmão se aborrecia com tanta pressa.
Quando eu abria o arquivo em que apareciam celebridades do passado, como Picasso, Agatha Christie, Sartre, Simone de Beauvoir, Maria Callas (com olhos de tigre no palco e na areia), as vozes do Luca e da Gina soaram abafando o diálogo que o Claudio e o Vagner travavam.  Discutiam a mudança no trânsito da Rua Chaves Pinheiro. Esperei alguns minutos e parti para o local onde, antes, morou o fusquinha da Gina e, hoje, abriga gente que, algumas vezes, esquenta mais do que o antigo inquilino.
  Cheguei e vi notas de 20 e 10 reais que estalavam de novas espalhadas na mesinha.
-Estamos jogando bafo-bafo, Carlinhos. - avisou o Luca.
-Não vi ainda essas notas. - disse, enquanto pegava uma delas para saber que animais eram contemplados.
-Nem vem que não tem. - brincou ele.
-O mico leão dourado. - exultei, pois a homenagem no real significava que ele não estava tão próximo da extinção, otimismo que eu não poderia vivenciar caso a moeda fosse o cruzeiro ou o cruzado.
Antes de devolver as notas que pegara ao dono, observei o número de uma delas, e perguntei:
-Não jogou na centena e no milhar invertidos?
-E eu perco uma oportunidade?...
-Logo hoje o Daniel foi trabalhar... - dirigi-me à Gina.
-Ele não está muito interessado nesse jogo do Brasil com o  México. - enfatizou.
-Faz ele muito bem; mas não é ao futebol a que me refiro. Preciso da ajuda dele para instalar um programa antivírus...
-O seu computador está desprotegido? - interveio ela.
-Mais desprotegido do que a defesa brasileira.
Luca, que se sentara, ergueu-se com ímpeto de orador.

(*) O link para o filme é: https://vimeo.com/46981938

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

2204 - o bom cliente

----------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4004                                          Data: 12 de agosto de 2012
------------------------------------------------------------------------------

O MUNDO NO TÁXI

Abri a porta do táxi que ponteava a fila e tive uma surpresa ao deparar-me com o taxista de Cantagalo.
-Há quanto tempo! - exclamei.
-Tive de aparecer por aqui- disse-me com os seus característicos gestos delicados.
-Ainda se lembra para onde eu vou?
-Para a pracinha de Del Castilho.
-Na Rua Modigliani. - precisei.
-Eu me esqueço do nome da rua.
-Você leva passageiros para outras cidades do Rio de Janeiro, principalmente Cantagalo.
-Vou muito para Cantagalo.
-É a cidade de Euclides da Cunha; nasceu em Cantagalo e morreu no subúrbio da Piedade.
Enquanto eu me preocupava com a literatura, ele dizia dos funcionários de alto coturno que transportava da cidade do Rio de Janeiro para Cantagalo e de lá para cá.
-Tenho de trabalhar estes dias aqui porque tenho de tratar de alguns assuntos, um deles é a troca do taxímetro. Os meus clientes das estradas não ficarão sem táxi porque meu pai me substitui.
-Você, aliás, herdou esses clientes do seu pai; não foi isso que você me contou, uma vez?
-Sim; meu pai está, aos poucos, aposentando-se.
Em seguida, reclamou do dinheiro que gastaria com a troca do taxímetro.
-Uns 250 reais. Eles não perdem uma oportunidade para enfiar a mão nos nossos bolsos.
-E a Prefeitura recolhe a sua parte?
-Sempre. - enfatizou.
-Se o dinheiro recolhido revertesse na melhoria das ruas. Há armadilhas para motoristas e pedestres. De vez em quando, uma pessoa idosa tropeça num desnível da calçada e se escarrapacha no chão.
-Jovens também caem. - disse, enquanto me deixava na rua Modigliani.
No dia seguinte, entrei no táxi 184 de um motorista que eu nunca vira antes.
-Rua Modigliani.
No entanto, parecia que ele me conhecia de  velha data.
-E o metrô? - perguntou.
-Bem, o metrô... tentei  ganhar tempo para concatenar as ideias, pois ele me surpreendera.
-Levei um passageiro de Maria da Graça a Botafogo, porque ele disse que não resistiria à espremedura do metrô.
-Bem, eu chego ao trabalho uma hora antes para sair às quatro horas da tarde com o objetivo de não ficar muito amarrotado nos vagões.
-Está tão ruim assim?
-Já esteve pior; se o trem do metrô atrasa, porém, mais de dez minutos, o sofrimento se instala. Como disse uma passageira: “a gente viaja colada no vidro da porta como lagartixa.”
-E no verão? - indagou com ressaibo de sadismo.
-No início, vieram trens da França para o metrô, onde o clima não é tropical como o nosso, por isso, o termostato não suporta. Agora, trazem trens da China que não se ajustam às plataformas...
Ele interveio:
-No Brasil, rasga-se dinheiro; é um desperdício impressionante. Eu sou economista, trabalhei na Prefeitura na década de 80. Sabe o que eles fizeram?...
Como era uma pergunta retórica, mantive-me emudecido.
-Eles trouxeram do exterior aparelhos de ultrassonografia. A mercadoria chegou às mãos da Prefeitura, e ninguém sabia manipular aquilo. Toda carga ficou no depósito, dentro de caixotes, enferrujando. Rasgaram dinheiro.
Eu pretendia perguntar se o prefeito era o Saturnino Braga, quando a cidade do Rio de Janeiro foi à falência, mas o humor do 184 mudara subitamente.
-Morando na Modigliani, você deve conhecer o Edinho.
-Não conheço.
-Mas todos conhecem o Edinho.
Falou como se eu tivesse a obrigação de saber quem era a tal figura.
-Certamente, eu o conheço de vista e não estou ligando o nome à pessoa. - busquei uma saída política, enquanto pagava a corrida.
-Se o taxímetro estiver marcando 4,70, na partida, não deixe o motorista consultar a tabela, pois já foi tudo atualizado, A  consulta só deve ser feita se marcar na partida 4,40.
-Todo o mundo da Metrô Táxi é gente boa.
-É verdade. - concordou comigo.
Na quarta-feira, peguei o táxi do Botafoguense.
-Do jeito que o Botafogo está, eu só acompanho os esportes dos Jogos Olímpicos de Londres.
-Mesmo que o Botafogo estivesse disparado na frente da tabela, eu me interessaria pelas disputas que só ocorrem de quatro em quatro anos.- retruquei.
-Torcendo muito pelo Brasil? - quis saber.
-Só me mostro indiferente à seleção brasileira de futebol.
-Mas é a único título que o nosso futebol não tem... - mostrou-se abismado com a minha reação.
-Os jogadores de futebol do Brasil têm as maiores regalias, se compararmos com a grande maioria dos demais atletas brasileiros são uns nababos. No entanto, mostram-se em campo como crianças mimadas cheias de vontade, são manhosos. Ainda há os dirigentes de moral duvidosa, com algumas exceções. Veja os boxeadores brasileiros, por exemplo, disputam medalhas e treinaram com o pai no quintal da casa, no Espírito Santo, junto a uma bananeira.
-Você não deixa de ter razão.
-Os futebolistas brasileiros não são como os jogadores de basquete dos Estados Unidos, que estão anos luz à frente dos adversários.
-Mas os nossos adversários no futebol são tão fracos que temos a obrigação, dessa vez, de ganhar a medalha de ouro. - mostrou-se otimista.
Depois de uma curta pausa, voltou às olimpíadas.
-E o Diego Hipólito que caiu de novo?...
-Um ou dois dias antes da apresentação dele, deixou-se filmar. Um massagista fazia massagens na planta do seu do pé, enquanto ele falava das dores que sentia, mas que, na competição, seriam superadas. Eu vi em toda aquela cena uma demonstração de desculpa para um fracasso anunciado. Quem é guerreiro, só demonstra vitalidade quando parte para a luta, não fala de dores.
-A queda dele nesta olimpíada foi pior do que a outra, embora a de Pequim fosse mais vexatória por ele ter batido com a bunda no chão. - disse o Botafoguense. Enquanto eu saltava do seu carro.
Na quinta-feira, repetiu-se a corrida de terça-feira, ou seja, no táxi do 184. A pergunta inicial dele foi a mesma de antes:
-E o metrô?
-Pelo menos, é um aperto que dura pouco tempo, de Del Castilho à estação da Carioca eu vou em 20 minutos.
-Não pegou fogo na estação do metrô de Uruguaiana?
-Parece que houve uma fumaça por lá, mas pouco antes das sete da manhã. Eu já havia passado por lá.
-Mas mexeu com todo o sistema metroviário.
-Soube que resolveram tudo rapidamente.
-Para você, qual é a solução para o metrô?- inquiriu-me.
-Se a agência reguladora, a AGETRANSP, cumprir a sua função, como deve, já é um grande caminho andado.
Quando eu saltei do seu táxi, fui chamado por ele aos berros. Olhei e vi uma Kombi parada ao lado do seu carro.
-Este é o Edinho. Este é o Edinho. - dizia com uma alegria infantil.
-Prazer. - berrei, enquanto murmurava.
-Se ainda fosse o Shakespeare...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

2203 - a Guerra do Paraguai, a PetrobraX e a Lua


-----------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4003                                          Data: 10 de agosto de 2012
------------------------------------------------------------------------------

CARTA  DO  LEITOR

Para que o leitor não suspeite que este periódico protege a Rosa Grieco, dedicando edições inteiras apenas às suas cartas, hoje, só comentaremos as cartas do Dieckmann; na realidade, são asteriscos transformados em cartas, como aqueles que recebem o Biscoito Molhado através dele logo reconhecerão. Advirto que o Dieckmann, como o Pelé (*), fala de si na terceira pessoa do singular.
Agora, vamos lá.
“Na Petrobras, o nome de FHC era palavrão, fosse por querer privatizar e mudar para PetrobraX (como se fosse do Eike), ou fosse porque muita mordomia foi pelo ralo. Hoje, já se ouve severas (e bem informadas) críticas ao Lula e o que ele fez com a Petrobras, devido à aplicação de política industrial nacional e do controle da inflação da moeda à custa da empresa.” Dieckmann
BM: Tentaremos contextualizar esse caso historicamente.
Tendo como prioridade reordenar o Estado, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu largada à série de propostas de emenda à Constituição, começando pela redefinição do conceito de empresa nacional. Como estava formulada na Constituição de 1988, de maneira retrógrada, os investidores podiam julgar que o Brasil prescindia de capital externo e que era hostil a ele. Assim, menos de dois meses após a posse, em fevereiro de 1995, essas propostas de emenda constitucional chegaram ao Congresso. Abria-se a exploração do gás natural aos capitais privados, através de concessões, quebrava-se o monopólio estatal das telecomunicações (lá se ia a ineficiente Telebrás...)  o que possibilitaria a privatização com a ampliação da  telefonia fixa e móvel, sem esquecer  que, com isso, os brasileiros puderam desfrutar livremente o mundo dos computadores  depois do atraso provocado pela estúpida Lei da Informática dos anos 80.
Mas onde o presidente FHC encontrou maiores resistências foi na questão petrolífera. Eis o que escreveu:
“... Propunha-se o que eu chamei de “flexibilização” do monopólio do petróleo, ou seja, sem privatizar a Petrobras, promover a concorrência da estatal com outras empresas, nacionais e estrangeiras, nas atividades de exploração, importação e refino. (...) Eu estava convencido de que a flexibilização traria maiores recursos para acelerar a exploração do petróleo, assegurando dessa maneira mais depressa a autossuficiência. Além do mais, acreditava que ela seria um instrumento para obrigar a Petrobras, até então monopolista, a ser mais transparente, mostrando para a sociedade seus números e procedimentos, obscuros mesmo para o principal acionista, o Tesouro Nacional. Não custa lembrar que, por peculiaridades  das empresas estatais brasileiras, a Petrobras não era de propriedade exclusivamente estatal. Tinha ações negociadas em bolsa e acionistas privados. A presença do ente privado não constituía, portanto, algo tão insólito na vida da empresa como davam a entender os defensores do monopólio.”
Em resumo: com a flexibilização do monopólio aprovada, a produção da Petrobras dobrou em poucos anos.
Quanto à alteração de nome no governo FHC, mudaria o nome comercial (marca) para PetroBrax. A nova designação foi escolhida pela agência paulista de design Und SC Ltda.
Argumentava-se que o nome Petrobras daria a impressão de imperialismo brasileiro para o caso de expansão da empresa nos países da América Latina, além de uma suposta dificuldade fonética dos falantes da língua inglesa e espanhola com a palavra Petrobras. Quanto ao Eike Batista, que tanto gosta de aparecer ligado às empresas com terminação em X (para ele um símbolo multiplicador, mesmo nas palavras), não havia ele ainda aparecido, a não ser como marido da Luma de Oliveira.  O que iria para o Eike da Petrobras? A Lubrax?...
Bem, a Petrobras, que foi feudo do General Geisel, hoje é feudo do PT.
-------------------------------------------------------

“A experiência foi relatada sucintamente e perguntamos ao próprio Dieckmann qual era a sua lembrança do fato. O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO primeiramente alegou falta de memória, mas, em seguida, convencido pelos holofotes que iluminaram o seu nome a partir de uma história decente nos disse: “O exercício era para mostrar a funcionalidade do trabalho em grupo. E, no caso, tratou-se não de autoritarismo puro e simples, mas da capacidade excepcional da colega em questão em colocar seus pontos de vista. Com perspicácia e argumentação de primeira linha, retirou as opiniões do Mc Gyver e as substituiu por idiotices soberbas. Foi o único caso no DMM em que a nota do grupo foi inferior à média das notas individuais. O SEBRAE comentou pouco depois que foi um dos poucos casos em que esta situação ocorreu e que seria um caso de forte liderança negativa.” Em seguida, o Dieckmann disparou: “Pode-se considerar  o episódio uma história decente?” Claro que pode – retrucamos.” Carta  do Dieckmann sobre a funcionária que não ouvia os técnicos. Caso dos grupos perdidos na lua.
BM: A personalidade em questão, psicóloga, volto a lembrar, era capaz de defender a fidelidade de Messalina ao marido, o imperador romano Cláudio e muitos se deixariam levar pela sua oratória bem articulada, e acreditariam. O pior de tudo era que ela cria no que falava. Anos depois desse teste em que ela deixou seus liderados inteiramente perdidos na lua, tornou-se chefe de fato, pois aquele que fora nomeado para esse cargo, levado pela sua verbosidade, limitava-se apenas a assinar as papeladas que ela redigia.
Então, chegaram os concursados que ficaram sob o seu comando. A psicóloga discutiu a funcionalidade dos navios gaseiros com um deles, um engenheiro que trabalhara na Transpetro e foi tratada com deboche. Discutiu tributos de certidões de empresas de navegação com um concursado que trabalhara na Receita Federal e ouviu palavras rudes sobre a sua ignorância. Ela apressou, então, a sua aposentadoria, e hoje verbaliza as suas “idiotices soberbas” em outra freguesia. (**)
----------------------------------------------

“A Batalha do Curupaiti foi travada entre as forças aliadas e paraguaias durante a Guerra da Tríplice Aliança em 22 de setembro de 1866. Durante os combates por Curuzu e negociações diplomáticas posteriores, Curupaiti teve as suas defesas reforçadas com um entrincheiramento de cerca de dois quilômetros de extensão, complementado por um fosso de dois metros de profundidade por quatro de largura. A terra retirada do fosso foi apiloada em parapeitos defensivos de dois metros de altura, atrás do qual se distribuíam noventa canhões, cobrindo o lado do rio e o lado de terra, bem como cinco mil soldados paraguaios.”
“O desastre aliado em Curupaiti imobilizou a campanha e teve importantes repercussões sobre os seus rumos. O general Venâncio Flores retirou-se para Montevidéu após a derrota, e as forças Argentinas passam a ter uma participação menor. A partir de Curupaiti, coube sobretudo ao Império do Brasil continuar a luta do lado aliado, com pequena participação Argentina e apenas simbólica de forças Uruguaias. A derrota também causou repercussões na opinião pública brasileira, o que levou à nomeação do marechal de campo Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), então Marquês de Caxias, como comandante em chefe do Exército brasileiro no Paraguai (10 de outubro de 1866).”
“Caxias adotou uma estratégia de cerco, isolando o entrincheiramento. Isso levou à sua evacuação pelos paraguaios e permitiu aos aliados ocupar posições. Após dois anos impedindo o progresso das forças aliadas, estas, finalmente, entraram no entrincheiramento no dia 23 de março de 1868.” Dieckmann
BM: Os leitores do Biscoito Molhado na Guerra do Paraguai estranharam quando eu escrevi que a cor do Elio era branca como a do leite das vacas holandesas. Agora que o Dieckmann reproduziu com maiores detalhamentos a Batalha de Curupaiti, todos agora devem entender o que foi escrito. O medo embranqueceu o nosso amigo. (***)

(*) Corre a lenda, no Clube Federal, que o Dieckmann seja o Pelé, rejuvenescido e embranquecido, tipo Michael Jackson. Vida longa aos dois.

(**) Nem tanto. Trata-se de uma pessoa de excepcional capacidade para o trabalho e tem um bem desenvolvido método de análise. Foi minha funcionária e seus pareceres eram os únicos com pé e cabeça no setor em que trabalhava. Dificilmente teria sucesso chefiando quaisquer concursados que são julgados como intratáveis por todos os funcionários antigos e pode ter lhe faltado um pouco de perspicácia nos casos mencionados. Entretanto, confirmo, não entendia nada de Lua, é verdade.

(***) Quem diria, o rei das costureiras da Rua Taylor, amarelando na Guerra do Paraguai? Tomás Coelho, se sabedor do fato, ter-lhe-ia barrado ao portão, ele mesmo, se dispusesse desse pó-de-pirlimpimpim.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

2202 - a rádio Roquette


-------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4002                                          Data: 05 de agosto de 2012
----------------------------------------------------------------------

65ª VISITA À MINHA CASA

   A visita que o grande educador Edgar Roquette-Pinto fez à minha casa foi uma as melhores coisas que me acontecerem.
-A sua importância foi fundamental para o país, pena que os brasileiros não valorizam as grandes personalidades que aqui nasceram. - disse-lhe.
-Eu dei o máximo de mim para levar educação ao povo. - afirmou.
-Um dos momentos mais significativos da sua vida foi a comemoração do I Centenário da Independência do Brasil?
-Sim, ela aconteceu aqui, no Rio de Janeiro, Capital Federal, com a Grande Feira Internacional.
-Foi nessa feira que os empresários estadunidenses mostraram a tecnologia da radiodifusão.
-O rádio, que surgiu na Primeira Grande Guerra, para acelerar as informações entre as tropas, passava a ser usada comercialmente. - interferi.
-Nessa Feira Internacional – prosseguiu – eles, para testar esse meio de comunicação, instalaram uma antena no pico do morro do Corcovado, onde colocaram mais tarde o Cristo Redentor; também havia aparelhos receptores em São Paulo.
Sim... - expressei a minha ansiedade em ouvir suas palavras sobre esse fato histórico.
-Então, o presidente Epitácio Pessoa proferiu o seu discurso de celebração do I Centenário da Independência do Brasil que foi captado aqui, em Niterói, em Petrópolis, na serra fluminense e em São Paulo.
-Foi a primeira transmissão radiofônica no Brasil. - vibrei.
-A bem da verdade, houve uma emissão radiofônica, em 1919, na Rádio Clube de Pernambuco.
-Sim, Professor Roquete Pinto, mas nessas proporções, que envolveram milhões de ouvintes, essa, da Feira Internacional dos Estados Unidos do  I Centenário da Independência do Brasil, foi  a primeira transmissão radiofônica no Brasil.
-Quando a isso, não há a menor dúvida. - concordou.
-Para você, que a tudo assistiu, foi como uma epifania.
-Eu disse na hora: “Eis uma máquina importante para educar nosso povo”.
-E partiu para a luta?
-Lutei para convencer o Governo Federal a comprar os equipamentos radiofônicos apresentados na Feira Internacional, mas foi uma batalha inglória.
-Estivéssemos no tempo do Império e Dom Pedro II, que se entusiasmou pela máquina fotográfica e pelo telefone, logo adotaria a invenção de Marconi. - manifestei-me.
-Eu não esmoreci, e convenci a Academia Brasileira de Ciências a adquirir os equipamentos. Foi criada, então, em 1922, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a atual Rádio MEC, dirigida por mim.
-Considerada a primeira rádio do Brasil.- enfatizei.
-Não se esqueça que, em 1919, já existia a Rádio Clube de Pernambuco. - lembrou-me.
-Sim, mas partindo da premissa do presidente Getúlio Vargas, que o Rio de Janeiro é um tambor que repercute por todo o Brasil, a sua rádio ficou conhecida como a primeira do Brasil e o programa “Ópera Completa”, aos domingos, 17 horas, como o mais antigo.
-A minha obsessão era educar o povo brasileiro e eu tinha nas mãos um importante instrumento. Eu disse: “O rádio é o jornal de quem não sabe ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do pobre, é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos, o guia dos sãos, desde que o realizem com espírito altruísta e elevado.”
-Além das escolas em que estudei, Professor Roquette Pinto, eu cito a Rádio MEC como a instituição em que mais colhi ensinamentos, mormente sobre música clássica. Creio que, dos treze anos de idade, até hoje, não fiquei mais de trinta dias sem ouvir a rádio que você fundou.
-O presidente Getúlio Vargas percebeu a força da comunicação com as massas populares e investiu no rádio. Em 1936, os aparelhos de rádio já eram vendidos nas lojas. O alcance em mega-hertz da radiofusão foi elevado, pelo governo, a um nível que não poderia ser atingido pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
-Por ocasião do registro dos 80 anos do rádio, no Brasil, em 2002, eu assisti a uma entrevista com sua filha, na extinta TV Educativa. Ela disse que o pai, não tendo condições financeiras para investir, procurou o ministro Gustavo Capanema, do Ministério da Educação e Saúde, em 1936, com o objetivo de doar a rádio ao governo.
-Fui informado que ela seria incorporada ao Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Protestei na hora e estava certo, imagine que três anos depois, surgiria desse departamento o DIP, órgão repressor, responsável pela censura.
-Sua filha afirmou nessa entrevista, que você impunha a preservação do objetivo educativo como condição para a entrega da rádio e, no fim, venceu a disputa.
-O ministro Gustavo Capanema era um admirador da cultura, não fosse assim, não teria como chefe de gabinete um homem como Carlos Drummond de Andrade.
-Quantas poesias e crônicas do grande poeta não foram lidas na Rádio MEC.- recordei.
-Muitas obras de grandes homens de letras do Brasil foram repercutidas na Rádio MEC, apesar de o espaço maior da programação ser dedicado à música.
-Sim, mas houve, na década de 60, um programa em que eram lidos, diariamente, capítulos de um romance. Assim, eu tomei conhecimento de “O turbilhão”, de Coelho Neto, sem precisar comprar o livro num sebão.
-Na década de 60, eu já estava morto. Vivi de 1884 a 1954. Fundei também a Rádio Escola Municipal que, em 1946, o prefeito Henrique Dodsworth, sob meus protestos, mudou o nome para Rádio Roquete Pinto.
-Você era médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e ensaísta?
-Eu não ficava parado.
-Você viajou com o Marechal Rondon?
-Fiz parte, em 1912, da Missão Rondon e fiquei várias semanas em contato com os índios nambiquaras, nas costas do Rio Grande do Sul, que desconheciam a civilização. Eu trouxe extenso material etnográfico das minhas viagens e, como tinha de partilhar com as demais pessoas o que aprendera, eu escrevi “Rondônia – Antropologia Etnográfica”.
-Você trouxe muitas gravações dos cantos indígenas, de músicas folclóricas, o som da selva.
-Villa Lobos gostou muito dessas gravações e as consultava com interesse.
-Vi, certa vez, o Guerra Peixe afirmar que o índio que o Villa Lobos conhecia era o carnavalesco. Dizia, subliminarmente, que o lenda de que viajara pelas selvas brasileiras em busca da música  silvícola.
O Professor Roquette Pinto preferiu não interferir nessa celeuma, mantendo-se quieto.
-A rádio Roquete Pinto está sob o domínio do governo estadual e até transmitiu óperas completas no passado; mas quando Carlos Lacerda se tornou governador, com a Capital Federal passando para Brasília, tornou-se marcantemente política. Certa vez, na campanha do seu candidato, Flexa Ribeiro, à sua sucessão, ele falou das 22 horas às 4 da manhã. Décadas depois, a rádio foi tomada pela chamada música da periferia, um atentado aos ouvidos civilizados, Há poucos anos, o Arthur da Távola, como secretário das Culturas, reformulou a programação e já se escuta choro, jazz, depoimentos de compositores e estudiosos da música popular brasileira. Houve uma melhora sensível. - tagarelei.
-Eu, quando me despedi, em 1936, da rádio que fundara, cochichei, chorando, no ouvido da minha filha Beatriz: “Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha”.
Com essas palavras, partiu.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

2201 - compositores, vaias e apupos.l


-------------------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4001                                          Data: 04 de agosto de 2012
--------------------------------------------------------------------------------------

A ÚLTIMA SESSÃO DO SABADOIDO... DO MÊS DE JULHO
3ª PARTE

-Carlinhos, quais foram as canções que o Cole Porter compôs para o Frank Sinatra?
Luca formulou apressadamente a sua pergunta, pois o Frank Sinatra, por melhor que fosse, não gozou o privilégio de ter composições do Cole Porter criadas especialmente para ele.
-De Cole Porter, Frank Sinatra cantou “Night and Day”, “I Love Paris...”
-Begin the Beguine... – atropelou-me as palavras o Claudio com uma risada..
-Essa não foi para ele, Claudiomiro. – protestou o Luca, que emendou outra pergunta, dessa vez dirigindo-se a todos:
-Quem é o melhor compositor de música popular dos Estados Unidos? - insistiu o Luca na música americana.
Meu irmão se antecipou:
-Jerome Kern, Richard Rogers e Oscar Hammerstein, Cole Porter...
-Cole Porter é o melhor de todos para mim. - aparteou o Luca.
-George Gershwin, Henry Mancini...
Dessa vez fui eu que interrompi o Claudio:
-Duke Ellington, Irving Berlin... Temos, no entanto, de separar os populares dos eruditos, pois George Gershwin compôs concertos, ópera, rapsódias e Duke Ellington criou também obras de fôlego, de mais de 40 minutos de duração.
-Mas também fizeram coisas populares, como o Leonard Bernstein do “West Side Story”. - retrucou o Claudio.
-Eu creio que a questão é a que o Luca expôs antes; não se trata do melhor compositor norte americano, mas com quem nos identificamos mais.
-Isso, Carlinhos.
Em seguida, Luca enveredou pelos apupos do público.
-“Sabiá” recebeu a maior vaia de todos os tempos.
A vaia que a composição de Tom Jobim e Chico Buarque repercutiu muito. Recordo-me que, no dia subsequente, o Globo, em editorial, comparou a manifestação ruidosa do público à ocorrida no Teatro Champs Élysées, em Paris, na estreia de “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky, em 29 de maio de 1913. Editorial esse que gerou mil protestos, pois “A Sagração da Primavera”, apupada, revolucionou a música do século XX e inspirou as seguintes palavras do maestro Leonard Bernstein: “... Ela também tem as melhores dissonâncias que ninguém poderia ter imaginado e as melhores assimetrias e politonalidades já feitas, qual seja o nome que você queira dar.”
Mas voltemos à nossa narrativa.
-Creio que a maior vaia foi endereçada a “Saveiros”.
Meu irmão discordou de mim.
-Quem recebeu a maior vaia foi o Sérgio Ricardo com o “Beto Bom de Bola”.
-Claudio, ele foi vaiado no Teatro Record e nós estamos falando do Maracanãzinho.- reagi.
Ele não levou em consideração as minhas palavras e se deteve no violão quebrado pelo Sérgio Ricardo, que caiu sobre alguns baderneiros da plateia.
-Como diz a Rosa, eu transbordo. – falei, enquanto me levantava da cadeira para ir ao banheiro.
Quando voltei, troquei algumas palavras com o meu sobrinho que, agora, estava defronte ao ecrã do seu computador.
-No meu trabalho, Daniel, instalaram a versão 2003 do Word com o português de Portugal, então, surgem as confusões, porque arquivo é ficheiro, salvar é guardar e por aí vai.
-Carlão, você tem de aprender mais um idioma. - aconselhou-me com  seu jeito folgazão.
De volta à sessão do Sabadoido, Claudio se reportava aos CDs que comprou a preço de queima de estoques no Carrefour.
-Comprei Caetano Veloso por 1,99; Chico Buarque também. Tom Jobim valia o dobro, 4 e 99. (*)
-Está certo. – disse o Luca, percebendo a ironia do meu irmão que fez o Vagner rir.
-Este CD da Susan Boyle estava também muito barato. – passou-o às minhas mãos.
Li rapidamente o repertório e elogiei a voz da cantora inglesa que despontou para o sucesso com a idade avançada.
-Ela canta muito. - disse também o Vagner.
O tema do Sabadoido passou a ser a dança e eu estava com a palavra.
-Assisti a uma reprise do programa do Sérgio Britom “Arte”, que homenageou durante uns 20 minutos o Bob Fosse. Eu desconhecia os filmes dele, como dançarino, da década de 50. Fiquei deslumbrado com o seu talento de dançarino, Claudio.
-Quando se fala em dança, lembra-se logo o Fred Astaire. - disse o Luca.
-Bob Fosse, além de grande coreógrafo, foi um grande dançarino. - afirmou meu irmão.
-Eu vi o “All That Jazz” no cinema. - lembrei-me.
-Nesse filme, o Bob Fosse transforma a própria morte em dança. Ele fumava muito, era mulherengo...
Meu irmão foi aparteado pelo Luca:
-Os americanos dançam muito bem. Havia aquele que viveu aqui, No Brasil...
-Lennie Dale. - falei.
-Eu assisti, ao vivo, no teatro da TV Excelsior, o Lennie Dale dançando.- lembrou-se o Claudio com orgulho.
-O corpo dele era de dançarino mesmo. - disse o Luca.
-Lennie Dale ensinou muitos artistas a dançar.
-Liza Minnelli foi uma das alunas dele. - corroborei a afirmação do Cláudio.
-Parece, não tenho certeza, que ele ajudou na coreografia do West Side Story.
-A Liza Minnelli dançava, a Shirley MacLaine...
Luca, que interrompera o Claudio, foi interrompido por mim.
-A Liza Minelli se perdia, às vezes, na dança; a Shirley MacLaine era bem mais talentosa.
-O Lennie Dale criou, aqui no Brasil, os Dzi Croquetes.
E com a lembrança do meu irmão, os nomes de alguns dançarinos foram citados por nós dois.
-Ciro Barcelos, Paulette, Cláudio Tovar...
Retomei a palavra:
-Por duas vezes, assisti, no Teatro Glauce Rocha, à peça “Aldir Blanc, um cara legal.” No momento em que se ouve a Elis Regina cantando “Dois pra lá, dois pra cá”, o Cláudio Tovar dança com a Lucinha Lins, percebe-se, logo, o molejo de quem foi um dos expoentes dos Dzi Croquetes.
Luca, franqueando o envelope com cartas e recortes de jornal, mudou de assunto.
-Eu falei, Carlinhos, que a Rosa não queria que divulgassem os versos dela, e você ainda atribuiu outros a ela...
Claudio e Vagner iniciaram uma conversa paralela, enquanto o Luca me mostrava algumas cartas da filha caçula do Agripino Grieco. Numa delas, eu era chamado de padeiro maluco cuja poesia era um repentino bebê.
“Estava no jogo do truco,
quando um padeiro maluco
Me apareceu.
Vinha com uma poesia no colo
E dizia pro povo que o verso era meu.
Não senhor!
Toma que o versinho é teu”
Não senhor!”

Meu sobrinho, nesse momento, apareceu vestido para ir almoçar num restaurante do Méier com a Gina, a tia, a prima e demais parentes, e o Luca fez questão de levá-lo de carro.
-É o meu caminho para casa mesmo. - justificou a carona.
E saímos os três no carro do Luca, restando sozinho no local do Sabadoido o meu irmão.

(*) Essa noção de dobro deve incorporar uma liberdade poética.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

2200 - uma Lua para dois


------------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 4000                                         Data: 03  de agosto de 2012
-------------------------------------------------------------------------------------

O  PLANO  REAL

O Biscoito Molhado alcança a edição de nº 4000 e, para comemorar este acontecimento, optamos por falar de uma das poucas coisas boas que duram neste país: o Plano Real, que chegou aos 18 anos de existência. A inflação, quando ele surgiu, era maior do que o número de moedas que o Tio Patinhas guardava na sua caixa-forte: 1 142 332 741 811 850%, de 1967 a 1994. Este valor impronunciável foi constituído nos governos de Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Batista de Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor de Mello e Itamar Franco. Para que não cometamos injustiças, temos de citar os seguintes governantes que muito contribuíram para tal desgraça: Juscelino Kubitschek, com a construção de Brasília; Jânio Quadros, com a sua renúncia; e João Goulart, pela anarquia avermelhada.
Dos presidentes citados, o gramaticão José Sarney foi quem mais se impregnou de charlatanice com o denominado Plano Cruzado. Lançou-o com o congelamento de preços e os mais iludidos se denominaram “fiscais do Sarney”, e, depois de eleitos quase todos os candidatos a governador do seu partido, a derrocada veio com maior intensidade e se abateu sobre o país. Deixou o governo com uma hiperinflação diária de 3%.  Nesse cenário, Fernando Collor de Mello tomou posse e ministrou ao paciente um remédio mais maléfico do que a doença: o confisco do dinheiro circulante. Destituído do poder por corrupção (a moda da punição não pegaria no Brasil), assumiu o vice-presidente Itamar Franco.
Depois de indicar quatro ministros da Fazenda sem competência para o cargo, ouviu um conselho iluminado do parlamentar Roberto Freire: “Mude o Fernando Henrique Cardoso do Ministério das Relações Exteriores para o Ministério da Fazenda”.
Sobre o novo cargo que teria de assumir no governo de Itamar Franco, FHC escreveu:
“Curiosa a vida. Eu sempre olhara para a economia pelo viés sociológico das questões estruturais. De repente, tive que entrar em cena em um momento no qual o desafio a ser enfrentado requeria medidas ortodoxas de política fiscal e de política monetária, sem contar negociações com os banqueiros internacionais para pôr fim à desafortunada moratória de 1987.”
Sobre essa moratória, vale lembrar um episódio ocorrido no Senado Federal onde o carismático ministro Dílson Funaro foi prestar esclarecimentos sobre o Plano Cruzado. Em certo momento o Senador Roberto Campos o abordou:
-Ministro, eu fui informado que as reservas do Brasil não passam de irrisórios 5 bilhões de dólares.
-Eu posso lhe garantir que as reservas são bem maiores do que esse valor. - retrucou Funaro.
-As reservas do Brasil estão perigosamente baixas. - insistiu Roberto Campos.
-É a minha palavra contra a sua. - declarou Dílson Funaro sob os aplausos da plateia orelhuda.
Poucos meses depois, ou seja, em 1987, o Brasil entrava na “desafortunada moratória”, cinco anos após aquela decorrente da quebra do país, em 1982, na gestão do czar Delfim Netto.
Para tratar desse mal, o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso convocou a personalidade mais capacitada para tal, Pedro Malan. Eis o que escreveu:
“... Pedro Malan, primeiro como negociador-chefe e depois, como presidente do Banco Central, com firmeza e seriedade, além da paciência chinesa que o caracteriza, preparou um intricado pacote de opções para a troca dos antigos títulos da dívida por novos, com melhores condições de pagamento.”
“Com esse aval nas mãos (a chancela do FMI) o Tesouro americano emitiria bônus de uma série especial que o Banco Central do Brasil compraria e depositaria no Banco Internacional de Compensações (BIS) - espécie de banco central dos bancos centrais, sediado em Basileia, na Suíça. Esses bônus serviriam de garantia aos bancos credores na troca dos títulos velhos por novos, com melhores condições de pagamento e juros menos agressivos.”
“O volume total da dívida negociada chegou a 70 bilhões de dólares, sendo cerca de 50 bilhões com credores privados e o restante com governos e instituições oficiais. Emitiram-se títulos novos de prazo médio superior a 20 anos. Com a renegociação da dívida, o Brasil saiu da moratória e voltou ao mercado internacional de crédito. Foi a maior operação de renegociação da dívida feita até então pelo mercado financeiro internacional.”
O Dieckmann apresentou um dia, no Departamento de Marinha Mercante, um teste de um curso de administração de empresas. Consistia o mesmo em quatro grupos de cinco pessoas, com um chefe. Eles se perderam da nave-mãe, na lua, e cada um dos perdidos possuía treze artigos (bússola, lanterna, caixa de fósforos, lata de leite em pó, garrafa d' água, etc.). Todos, com uma listagem na mão, deveriam, depois de um tempo de confabulações no seu grupo, assinalarem em ordem decrescente os artigos mais importantes para se chegar à nave mãe. No final, valeria como nota de cada grupo a listagem entregue pelo seu respectivo chefe, mas se saberia depois a nota de todos os participantes do teste.  O grupo chefiado por uma colega psicóloga, que se antecipara e escolheu o MacGyver (um amigo engenheiro, mestre nessa matéria) para o seu grupo, tirou, no entanto, a segunda pior nota, entre os grupos, do teste, cinco e meio, enquanto ele foi o que mais se destacou de todos, oito e meio. Por que aconteceu essa disparidade? Porque o conhecimento técnico foi neutralizado pela ignorância autoritária da chefe.(*)
Fernando Henrique Cardoso soube escolher e organizar a melhor equipe para a formulação do Plano Real, ouvir as ideias desses técnicos, e, com excelente tino administrativo, no Ministério da Fazenda, colocá-las em prática, enquanto dissuadia o presidente da República, Itamar Franco, de tomar medidas populistas, como o congelamento de preços.
André Lara Resende, Persio Arida e Edmar Bacha, que estiveram no Plano Cruzado como o MacGyver dos “perdidos na lua”, foram convocados para atuarem no Plano Real, além do já citado Pedro Malan, e outros, como Armínio Fraga. Sobre este, escreveu Fernando Henrique Cardoso:
“... Armínio, que eu viria a conhecer melhor mais tarde, após ele ter assumido o BC, em 1999, já àquela época (1993) tinha consistência técnica profunda. Sempre demonstrou acuidade e raciocínio rápido, somado à capacidade de ação. Com seu jeito adolescente – depois de minha saída da Presidência, várias vezes apareceu na minha casa em São Paulo de mochila às costas - sua simplicidade pessoal e a maneira agradável, direta e clara de expressar o que pensa e faz, cativam logo. Além disso, é de um otimismo fundamental.
Fernando Henrique Cardoso defendeu o Plano que interrompeu a marcha insidiosa da inflação de 1 142 332 741 811 850% até poucos dias antes do fim do seu mandato. Eis o que escreveu o cronista Ricardo Noblat
-”A campanha presidencial de 2002 estava pelo meio quando FH convidou Lula para uma conversa reservada: “O que você acha?”- perguntou Lula. “Acho que você vai ganhar, mas precisa fazer um gesto para acalmar o mercado financeiro e o mercado internacional.” - respondeu FH.
“Pouco tempo depois, Lula divulgou a Carta aos Brasileiros onde prometia manter a política econômica de FH. Em telefonemas para os presidentes dos Estados Unidos, Bill Clinton, do FMI e do Banco Mundial, FH avalizou a promessa de Lula.”
Como se vê poucas coisas foram tão eficazes na história do Brasil quanto o Plano Real, por isso é o assunto deste Biscoito Molhado que chega ao número que se equipara à inflação anual do tempo do presidente Sarney.
Além disso, o Biscoito Molhado também chegou aos 18 anos de existência.
(*) A experiência foi relatada sucintamente e perguntamos ao próprio Dieckmann qual era a sua lembrança do fato. O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO primeiramente alegou falta de memória, mas, em seguida, convencido pelos holofotes que iluminariam o seu nome a partir de uma história decente nos disse: “O exercício era para mostrar a funcionalidade do trabalho em grupo. E, no caso, tratou-se não de autoritarismo puro e simples, mas da capacidade excepcional da colega em questão em colocar seus pontos de vista. Com perspicácia e argumentação de primeira linha, retirou as boas opiniões do Mc Gyver e as substituiu por idiotices soberbas. Foi o único caso no DMM em que a nota do grupo foi inferior à média das notas individuais. O SEBRAE comentou pouco depois que foi um dos poucos casos em que esta situação ocorreu e que seria um caso de forte liderança negativa.”
Em seguida, o Dieckmann disparou: “Pode-se considerar o episódio uma história decente?”Claro que pode – retrucamos.