Total de visualizações de página

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

3151 - Um pouco de passado.


---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1854                         Data: 13 de Junho de 2003 

----------------------------------------------------------


NO ALVORADA...


-“Pretendia receber o Kirchner com a mulher no palácio do Planalto, mas os manifestantes contra as reformas eram tantos, que tive de receber aqui.” – reclamou o presidente que, sentado na sua poltrona preferida, esticava um dos braços, observando os dedos entreabertos.

 -“É assim que eu vejo se estou nervoso.”

-“E o senhor está calmo, não é presidente?” – preocupou-se o assessor sabujo.

 -“Calmo, nada.”

-“Quer que eu chame o Gilberto Carvalho?”

Todos, principalmente o assessor sabujo, já conheciam  o chefe de gabinete como o fio terra por onde era descarregada a ira presidencial.

-“Não; dia desses passei uma descompostura no companheiro Gilberto que.., depois a Marisa me aconselhou a pedir-lhe desculpas.

-“Ora, presidente, não foi nada comparável àquelas descomposturas da Maria da Conceição Tavares.” – mostrou-se o assessor sabujo paciente com a dor de dente alheia.

-“Mas eu disse pro Gilberto “não vou te pedir desculpas, apesar da Marisa mandar.”

O assessor de jornal na mão interveio:

-“Acabo de ler que a CUT afirma que não será correia de transmissão do PT.”

-“Nem no próprio PT a correia de transmissão está bem azeitada.” – suspirou o presidente, de desalento.

-“Logo, aprenderão...”

Excitado, Lula ergueu-se da poltrona:

-“Meu governo está chegando no sexto mês. Esses dissidentes julgam a criança no ventre. Esperem a criança nascer para então julgar. Ora bolas!”

-“O seu governo ainda não fez nem o teste do pezinho...” – murmurou um assessor com um livro nas mãos.

-“O quê?” – não entendera o assessor sabujo.

-“Nada. Uma coisa que lia sobre  Lei de Terras.”

Lula, ainda sem sentar-se, prosseguia indignado:

-“Parece que não entenderam o meu discurso na CUT.”

E tentou relembrá-lo:

-“Há gente que se afoga, não por não saber nadar, mas porque se agita; bate por demais as mãos, mexe em demasia as pernas; falam demais, e falando demais bebem muita água, e afundam.”

-“A metáfora  era bem cristalina.” – aprovou o assessor sabujo.

-“O debate, porém, está aceso.” – observou o assessor de jornal na mão, enquanto o presidente refestelava-se de novo na poltrona.

-“São aquelas discussões que provocam muito calor, e pouquíssima luz.”- prosseguiu esse assessor.

-“Gostei da metáfora.” – disse o presidente.

-“A sua com o afogamento e com o bebê é bem melhor. É uma metáfora mais bem resolvida, literariamente falando.” – comparou o sabujo.

-“Quem  citava muito essa frase sobre as discussões que provocam  muito calor e pouca luz era o Roberto Campos.”

-“Não fale em Roberto Campos que me dá arrepio.” – reclamou do assessor com o jornal o assessor sabujo.

-“Há muita gente que odeia as idéias do Roberto Campos, mas adora embolsar o Fundo de Garantia que surgiu com ele, quando ministro do Planejamento do Castelo Branco. Injustiças...” – lembrou o assessor com um livro.

-“Vamos tratar das injustiças com o nosso presidente.” – solicitou o sabujo.

-“Essa reforma da previdência...” – torturou-se o Lula.

-“O companheiro Brizola é um dos seus mais empedernidos adversários, principalmente no que se refere à aposentadoria por idade.” – queixaram-se.

-“O Lula já disse: ele pisaria no pescoço da mãe para ser presidente. Como ele não foi presidente, atrapalha quem é.”

Era mais uma vez o sabujo que intervinha. E prosseguia:

-“Ele, que assumiria a presidência da República até com cem anos; atacar a idade avançada para se aposentar.”

-“E Brizola chegará aos cem.” – sorriu o presidente, com algum sadismo.

O assessor com o livro nas mãos interveio:

-“Ele sempre garantiu que os Brizolas chegam aos noventa. É bem capaz de ele chegar. Brizola, às vezes, me lembra o doge de Veneza, Enrico Dandolo. Com 95 anos, comandou a Quarta Cruzada, em 1202. Eram 20 mil homens  e quase 500 navios sob as  ordens de um ancião quase cego.”

-“Quantos anos?” – pediram para repetir.

-“No-ven-ta-e-seis- a-nos.” – escandiu bem as sílabas. E continuou:

-“Derrotou o exército bizantino e tomou Constantinopla. E temos de saber que Enrico Dandolo se tornou doge com 85 anos.”

-“E há gente que quer se aposentar com pouco mais de 50 anos...” – lastimou o assessor sabujo.

-“Psiu! O nosso presidente se aposentou com 42.” – soprou-lhe no ouvido o  chefe da Segurança.

-“É verdade que Enrico Dandolo cometeu muitas maldades na sua longa existência?” 

Aproveitando a oportunidade, o assessor de jornal na mão, que conhecia algum emaranhado de história geral,  tirou uma dúvida com o assessor do livro:

-“Não foi Dandolo o idealizador da chamada Cruzada das Crianças, quando milhares de rapazes e raparigas se dirigiram para Alexandria e lá foram vendidos como escravos?”

-“Não; isso foi em 1212, e Dandolo teria 106 anos, se vivo fosse. Além disso, a Cruzada das Crianças, em nome do papa, embarcou em Marselha, não em Veneza.”

Lula, até então calado, manifestou-se:

-“Eu não quero intervir porque o meu forte é a biografia de Napoleão Bonaparte. Suas viagens à China...”

-“Vamos falar de coisas atuais.” – repreendeu o assessor sabujo os outros dois colegas.

-“Os sem-terra daqui a pouco...” – parou no meio o chefe de Segurança, primeiramente porque o seu discurso não era articulado, e também porque julgou que essa parada brusca comunicava melhor a intensidade do problema dos sem-terras.

Lula estendeu de novo o braço para examinar a tremedeira dos quatro dedos daquela mão.

-“Os sem-terra...” – tentou o chefe de Segurança prosseguir.

O assessor do livro assenhoreou-se, então, da palavra:

-“Todo o problema começou com a Lei de Terras de 1850. Como nesse mesmo ano de 1850 a Lei Euzébio de Queirós proibia o tráfico dos navios negreiros, os proprietários de terra se prepararam para a inevitável abolição futura da escravidão. Assim, os saquaremas, membros do Partido Conservador, trataram de aprovar a Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, a Lei de Terras, que deixava bem claro, e bem separados,  os proprietários das terras daqueles que trabalharam nelas. Com a Lei de Terras, só se tornava proprietário de terras quem as comprasse.  Os imigrantes europeus tinham também de encontrar dificuldades à propriedade da terra no Brasil. Como diziam os saquaremas “a luta pela terra é um germe fecundíssimo de desordens e de crimes.”

-“Esse problema dos sem-terra tem mais de 150 anos.” – suspirou o assessor sabujo.

-“Enquanto, no Brasil,  os lafundiários cercavam os seus domínios, nos Estados Unidos do presidente Lincoln, doze anos depois, 1862, era aprovada o “Homestead Act”: os colonos que chegavam no oeste bravio e trabalhavam na terra tornavam-se seus proprietários. O filme “Os brutos também amam” retrata magnificamente essa   época.” – assinalou o assessor com o livro. 

-“Esse discurso todo me deu vontade enorme de jogar bola.” – ergue-se Lula da poltrona.

-“O Palocci já retirou o gesso.” – informou o chefe da Segurança.

-“Vai jogar no seu time, não no meu.” – garantiu o presidente da República.








quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

3150 - Saindo Mesmo




---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1862                          Data: 25 de Junho de 2003 

----------------------------------------------------------


A FREIRA NA ANTAQ



-“Será que a freira veio rezar pela sorte da ANTA?” – houve quem dissesse.


-“Como uma freira aparece na Agência..?” – indagam alguns assinantes do Biscoito Molhado, bizarrice essa que só ocorre nos filmes de Fellini, como a freira anã do “Amarcord”.


Apareceu,  porque não liberaram a carga da religiosa. Fosse cocaína e não haveria nenhum problema: a carga passaria, e os consumidores fungariam na paz do Senhor. Mas a carga da freira era remédio para caridade. Ora, nossos burocratas quando souberam de tal petulância, retiveram a carga no porto, e falaram grosso:


-“Documentos e mais documentos na mesa.”


A  freira não se atemorizou e, com o crucifixo em punho, exigiu a presença do manda-chuva. Como este se achava, ou se perdia, em Brasília, ela foi mais além, falou com quem manda no manda-chuva.  Assim, nós terminamos a última edição do Biscoito Molhado, assinalando que a Digníssima Amantíssima não confessara os seus pecados.


Enquanto isso, Dieckmann ainda arrumava as malas. Chegou às oito e meia da manhã, e já encontrou o seu computador desativado.


-“Isso é o que se chama de eficiência.” – comentou, sem perder a esportiva.


-“Isso é o que se chama de ódio.” – diríamos mais preocupados com a palavra justa do que com o “aplomb”.


Pouco depois, o Ronaldinho da Informática ativava o seu computador e o Dieckmann pode, assim,  copiar para  disquetes os arquivos do seu interesse e algumas das suas correspondências eletrônicas. Tudo com muita pressa, temendo o risco de tirarem de vez o seu computador do ar.


-“Daqui a pouco vão salgar a sua sala para não nascer mais nada.” – imaginamos.  


-“E a exoneração?... Quando será publicada?” – indagaram.


-“Isso demora.” – respondeu  ele, que soubera da sua saída pelo telefone no dia anterior às cinco horas da tarde.


-“Isso é o que se chama de eficiência.” – repetiria, sem nunca perder a esportiva, ao saber, horas depois, que a sua exoneração já estava no Diário Oficial. 


No meio da arrumação, especulou-se sobre  nomes cotados para ocupar o seu cargo de gerente. 


-“Se não houver injunção política do PT, Luís Exílio...”


Houve muitos arrepios ao som desse nome, mas, inegavelmente, ele tem todo o perfil  dos que hoje dão as cartas na Agência. Se não, vejamos retrocedendo na história: a Super, quando era Sub e vendia jóias... Quantas colegas suas hoje não ostentam pulseiras vendidas pela Super, quando ela era pobre!... Fujo do assunto.  A Super, quando era Sub, e trabalhava na Seção de Estatística, como funcionária da Ana Luiza, nada saiu desse setor em termos de estatística para o anuário da marinha mercante. 


Quando o Djalma criou um programa com computadores para reiniciar o que fora interrompido por quatro anos – o denominado “Buraco do Collor nos Anuários da SUNAMAM” – 2° semestre de 1993 - ela já se encontrava na Divisão de Acordos, como funcionária do Mílton Barello. Diria ela mais tarde que até o seu filho de dez anos realizaria  o trabalho da Estatística.  A sua intenção óbvia era de se desfazer dos bits e bytes do Djalma. Ela foi tomada pela soberba dos ignorantes e, como o seu tiro no Djalma resvalou em nós, o Biscoito Molhado lhe desceu o pau (a Aloísia, no caso, agiu como leva-e-traz – “olha o que saiu sobre você no Biscoito...”.


Um pouco antes disso, o antecessor do Dieckmann como coordenador,  Paulo Octávio, argumentando que pretendia “oxigenar o órgão”, trocou as chefias: Djalma foi mandar onde o Luís Exílio mandava e este, por sua vez, foi mandar onde o Djalma mandava. Com isso, a Seção de Estatística, com toda a sua programação computadorizada, passava para o Luís Exílio. Este, no seu discurso de apresentação, olhou com cara de nojo para os meninos do Djalma (Djalma assim chamava os computadores da digitação de manifestos de carga), e disse:


-“Não conheço isso e nem quero conhecer.”


Era a mesma soberba dos ignorantes.


Visto isso, nesse deserto de idéias e talentos do comando desta nossa agência, ele é um nome a ser considerado para o lugar do Dieckmann.   


Haja freiras para rezar por nós!















segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

3149 - Saindo

---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1862                          Data: 25 de Junho de 2003 

----------------------------------------------------------


O DIA DE ONTEM


No dia 20 de abril de 1998, foi enterrado o Sérgio Mota e, no dia seguinte, morreu o Luís Eduardo Magalhães. Os humoristas dos jornais  recordo-me bem – queixaram-se aos céus:

- “Assim, não podemos trabalhar!...”

É mais ou menos isso o que ocorre por aqui, na ANTA. Pedem humor no Biscoito Molhado – “de séria já basta a vida, etc”  – mas como?... Abri o meu correio eletrônico às sete e meia da manhã e me deparei com a despedida do Dieckmann da ANTA. Sem nenhum Simão Cirineu para me ajudar a carregar a cruz dessa notícia, telefonei para o Rio Grande do Sul. Quando atenderam, estranhei, pois esperava  ouvir a Alba:

-“A Alba, por gentileza.”

Uma voz que ainda se espreguiçava, respondeu:

-“É ela.”

Percebi, então, que a Alba saindo dos braços de Morfeu é outra mulher, principalmente com outra voz. Dada a notícia, ela me perguntou se o Dieckmann não caiu pra cima. Que nada! A turma aqui, quando derruba, amarra antes um pedregulho de toneladas no nosso pescoço. Volto, então, ao sentido da nossa pergunta: como fazer humor assim? Digamos que o redator-chefe do Biscoito Molhado descarte de vez a hilariedade e descreva a ANTA como ela é. Caso eu assim proceda, dirão que plagio o poeta Dante no Canto XXIX da sua obra-prima, onde descreve a décima vala do oitavo círculo do Inferno.  Ah, sim: quem se acha na décima vala do oitavo círculo do Inferno? Os falsários. Vamos, então, de qualquer maneira.  

-“Cheiro de churrasco já?...”

E pensar que já as oito horas da manhã dos últimos dias nos queixávamos dos camelôs que colocavam os churrascos na brasa. O cheiro – agora sabemos – era da fritura do Dieckmann. Ontem, na sua sala, recolhendo os seus pertences em três malas e um baby-container, comentava:

-“Eu não ia mais a Brasília... Havia assuntos importantíssimos subordinados à minha gerência, em Brasília, e eu não era escalado para viajar.”

-“Mas o cheiro de fritura prossegue.” – farejamos.

-“Prossegue, mas não é mais para mim.” – declarou.

E, assim, se encontrava ele, na sua sala que, à primeira vista, nos pareceu uma barricada, tantas eram os seus colegas. Para distraí-lo, contei o que me acontecera às sete horas da manhã, e que não deixou de ser um mau presságio: o trinco do banheiro, que estava quebrado, trancou a  porta e me prendeu. Para eu escapar, tive de tirar os sapatos, apoiar o pé na privada, e escalar o espaço de uns setenta centímetros que uma divisória deixa até o teto.

-“Rapaz, e não saiu com merda no femural, não?” – indagou o Dieckmann.

-“Não.” – garanti.

Porém, Dieckmann que, como eu, pretende sair por cima, escalando a cabeça daqueles que o derrubaram, não escapará da merda no femural.

-“Qual o motivo da saída, Dieckmann?...”

Bem, o motivo era o fato de o Dieckmann, desde que apareceu no Departamento de Marinha Mercante, ser alegre, comunicativo,  aglutinador, animador cultural e – pecado mortal – conhecer o serviço. A pergunta mais pertinente seria: 

-“Qual foi o pezinho para decapitá-lo de vez, Dieckmann?”

Ele acredita  que foram os seus apartes, numa palestra da Shell, com a presença da alta cópula da ANTA, contra as empresas de papel. Nem cheguei, naquele momento, a imaginar uma manchete para o Biscoito Molhado como: DIECKMANN ENFRENTA O POLVO ANGLO-HOLANDÊS, E CAI.  Mais tarde, no almoço no Jirau, onde estivemos eu, ele, Alberto, Djalma, Cláudia, Lourdinha e Vera, um telefonema ao doutor Barreiros apontava para uma outra versão para a sua  queda:

-“Críticas à diretoria.”

-“Como, doutor Marreiros?”

-“Críticas à diretoria.”

Dieckmann era, agora, a Heloísa Helena da ANTA. Outra versão - o que explica a expressão alta cópula – é que cada demissão representa um orgasmo. Se o Djalma, o Dieckmann, o Alberto e a Cláudia, por exemplo, fossem demitidos numa só canetada, teríamos um orgasmo múltiplo na alta cópula.

Para espairecer um pouco no almoço, falamos sobre algumas autoridades marítimas... Minha Nossa Senhora dos Navegantes!... O problema do Mílton Barella é o cerceamento: lê uma frase, e fica inteiramente atado a ela, não criando nada, absolutamente. Quanto à Belinha, lê a frase, esquece, lê a frase de novo e esquece de novo. Passa, então, a tomar remédio para a memória, e esquece de tomar o remédio para a memória. Quanta a Aloísia... “Que frase?... Está na hora da minha ginástica!”

No final do expediente de ontem, cruzei com a Digníssima Amantíssima acompanhada de uma freira, que se vestia como tal. Juro que é verdade.  Reparei, então, nas orelhas da religiosa: como não estavam com o tamanho das orelhas do Dumbo, deduzi que  a D.A. não fizera a sua confissão.


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

3148 - Restaurantes do Tempo Perdido

---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1856                          Data: 16 de Junho de 2003 

----------------------------------------------------------


O FIM DO BAREBOAT


O espírito não se abre logo ao entendimento, quando o fato é marcante. Uma sabedoria instintiva prepara, como no teatro, os artistas e o cenário antes que a boca de cena abra, e se dê o espetáculo.  O  saber popular recorreu a uma metáfora telefônica, mais diretamente ligada aos orelhões, e cunhou a expressão “cair a ficha”. Na terça-feira passada, quando o Vergasta me garantiu que a minha pretensão de almoçar no Bareboat não se realizaria, porque o mesmo acabara, a “ficha não caiu”. De volta à ANTAQ, comentei com um e outro colega o fim do restaurante do Zé Luiz, e retornei à minha faina de separar por estados os portos, barrancos e terminais do Brasil, cadastrados no sistema Mercante.

Dois dias depois, assistindo a um canal de TV a cabo e ouvindo nas cordas de uma orquestra as plangentes notas do tango “Por una cabeza”, caía finalmente a ficha. Ou, saindo do popular para a esfera mais erudita, ecos proustianos, através da memória afetiva, me fizeram ver e sentir o espetáculo que foi vivido no Bareboat.  Em uma das centenas de vezes em que lá almocei, tocou “Por una cabeza”, pois uma das características da casa era a música ambiente. Antes de sair, comentei com o Zé Luiz:

-“É um tango do Carlos Gardel. E ele era adepto do turfe; como perdera a amada por uma besteira, lamenta a perda recorrendo à imagem de um cavalo em que apostara e que deixou de ganhar por uma cabeça.”

-“Eu também adoro tango, Carlos. Cheguei a estudar para cantor de óperas.”

Daí, a nossa conversa seguiu pelo passionalismo dos tangos e óperas, da predileção que Gardel nutria por Caruso, até terminar num freguês que se apresentava para pagar a conta.

Em decorrência do modo tão poético com que o meu espírito se abrira ao entendimento sobre o fim do Bareboat, naquela noite de quinta-feira, o meu primeiro impulso foi escrever um poema “Elegia a um resataurante”. Músico não sou, senão eu correria para um piano, e comporia “Pavana para um restaurante defunto”, com a pretensão que ela fosse tão melodiosa quanto a “Pavana para uma princesa morta” de Ravel, que até no enterro do presidente Tancredo Neves foi tocada (se tocassem a minha “Pavana para um restaurante defunto” apenas no enterro do Fernando Collor, eu já me daria por satisfeito). Descartado esse meu delírio musical, cuidei da elegia. Necessitaria, para isso, de rimas. Rimaria Zé Luiz com o quê?... “Chegou no Bareboat e comeu o que quis?...” E o Nil?... Com o quê eu rimaria o nome do mestre-cuca premiado da Bahia, o dengoso Nil?... “Cozinhava para mais de mil?...” Não; nada de composições poéticas consagradas ao luto e à tristeza. Lembraremos o restaurante Bareboat numa crônica hoje, outra amanhã; servindo os leitores como os garçons servem os comensais: um prato de cada vez, apesar de a característica do nosso restaurante extinto ser o “self service”.

Nessa retrospectiva gustativa, em primeiro lugar, ou como entrada, por que Bareboat, que diz respeito ao afretamento a casco nu? Porque era um restaurante performático. José Luiz, que pertencera à Aliança e a representava na Conferência Brasil/Europa/Brasil, não quis desatar de vez a sua ligação com a navegação, mesmo caindo para 3% a participação da bandeira brasileira no nosso comércio com as outras nações. Por ele, no restaurante, entraríamos pelo portaló e almoçaríamos no camarote do armador.

Há muito o que lembrar do Bareboat, apesar da sua passagem meteórica (pouco mais de dois anos). Houve, por exemplo, o garçom que sumiu no carnaval de 2002 e obrigou o Zé Luiz, com a família do dito cujo, que viera do Espírito Santos, a procurá-lo até no necrotério. Dias depois, o Zé Luiz saberia que o sujeito levara alguns cheques seus. Era um meliante. Substitui-o o Paulo. Paulo era o garçom que mais me perguntava pela “dona Glória”, apesar de ela o considerar amaneirado em demasia, com ou sem bandeja na mão. Outro que me abordava com perguntas era o Nil; a este preocupava mais o destino do estômago da Amelinha na hora do almoço:

-“Cadê a Amelinha, Carlos?”

Evidentemente, que não eram só as duas que mexiam com esses dois funcionários da Casa. Paulo também me perguntava sobe “aquela moça que às vezes vem almoçar com o senhor”...

-“A Lourdinha?...”

-“Isso mesmo. A dona Lourdinha não vem?”

Em poucos dias, já decorara o seu nome:

-“A dona Lourdinha não vem, seu Carlos?”

Quanto ao Nil, com uma memória mais cultivada, ao ver-me (esse era o problema de eu chegar cedo para almoçar), desfiava quase toda a lotação feminina da ANTAQ:

-“Cadê Amelinha?... Inês?... Nanci?... Cláudia?... Lourdinha?... Glorinha?... “

Glorinha... Com a sua afetuosidade baiana, chegara aonde o Paulo não ousara: Glorinha. Percebo agora que foi, no Bareboat, os últimos dias em que se podia almoçar com a Glória sem a desagradável presença da mosca que voeja ao seu redor. Continuasse o Bareboat vivo e hoje as perguntas seriam outras:

-“Cadê a Glorinha ?”

-“Está no banheiro.”

-“E a mosca que voeja ao seu redor?” 

-“Está lhe passando o papel.”




sábado, 18 de novembro de 2023

3147 - Trotes e Raparigas


---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1855                          Data: 13 de Junho de 2003 

----------------------------------------------------------


TROTE NA SUNAMAM


Alguma coisa até que acontece por aqui. Temos, por exemplo, desde que o Talma deixou de ser o gerente da Fiscalização,  um “reality show”, onde todos os ocupantes dos espaços apartados por vidro tornaram-se uma platéia compulsória.  E o espetáculo não cai no agrado do público; talvez porque os apreciadores desses espetáculos prefiram casais mais perfumados pela flor da idade; embora intelectualmente insuficientes, como Sabrina e Dhomini,  como outros  casais de TV dos quinze minutos de sucesso do Andy Warhol, que, por já transcorrerem  esse espaço de tempo, eu já esqueci os seus nomes. Talvez esse descontentamento da platéia seja pela falta de um animador como Pedro Biau, para incentivar a dupla de artistas.  A platéia compulsória reage... ou melhor, não reage:  são muitos os bocejos e o tédio é interminável, como observa a reportagem do Biscoito Molhado nas suas idas ao banheiro.

Mas alguma coisa acontece, como afirmamos acima;  não com a mesma intensidade do Departamento de Marinha Mercante que, ao que parece, agora é Departamento do Fundo da Marinha Mercante. Explica-se:  o DMM é inflamado pelo calor tropical, ainda mais inflamado  com o “Fundo” que ganhou no nome, enquanto na ANTAQ, somos desanimados pelo frio glacial. Nessa terça-feira, por exemplo, quando atravessamos a geografia e a avenida Presidente Vargas, e lá estivemos, deparamo-nos com o Adelino que, beijocando as moças e apertando as mãos dos homens, como se esses fossem portadores da pneumonia asiática,  declarava:

-“De homem quero distância. Quanto às mulheres, podem subir sobre mim, me montar, fazer o que desejarem...”

Pretende o Adelino colar dois adesivos no corpo: um no tórax e outro nas costas com os mesmos dizeres: “Mantenha a distância, se você for homem”. A diferença é que as letras do adesivo nas costas serão garrafais. Não sei se enxergarão...

Poucas horas depois, quando já nos achávamos  na ANTAQ, Dieckmann que desancava os anões de jardins (para ele um gosto kitch dos novos ricos da Barra da Tijuca)  ao saber da aversão do Adelino, garantiu que o seu problema com os anões de jardins nada tem de pessoal com o ex-diretor do DMM.

Falando no Dieckmann, ele viera, nessa oportunidade, à Seção de Estatística, para pegar gazeteiros na sala de relax Cíntia Martins e, ao perceber que a Cíntia se molhara, quis saber o porquê.

Nós, que antes da chegada do nosso amigo, já ouvíramos a reclamação dela, porque o frasco com o corretivo à base d'água esparramara-se sobre ela, examinamos a reação do Dieckmann com a  resposta da Cíntia.     

-“Tomei um banho de corretivo.” 

-“Ninguém,  Cíntia, pode dizer, agora,  que você não é uma mulher correta.”

Ali estava o mesmo Dieckmann que, nas aulas do curso da Fundação Getúlio Vargas, ora agia como um jogador de vôlei (se a bola subia, ele cortava), ora agia como um jogador de futebol (se a bola quicava, ele chutava), ora agia como um jogador de basquete (se a bola vinha no rebote, ele encestava). Nunca, porém, Dieckmann agia como um jogador de beisebol – se arremessam a bola, mete-se o porrete. Nada de piadas grosseiras, nada de mau gosto, nada de anões de jardim. Dieckmann é gentil, embora confesse que, às vezes, controla a vontade de calçar os borzeguins do seu tempo de Colégio Militar, que dona Jurema o obrigava a lustrar diariamente, e chutar algumas bundas e bundões. 

-“Mulher correta...” – falou o Dieckmann, nesse meio de tanta incorreção.  Recordo-me de uma mulher que estava correta, apesar da sua atividade para ganhar dinheiro. Não!... A sua atividade para ganhar dinheiro era menos sutil. Tratava-se de uma profissional do sexo que apareceu na SUNAMAM no tempo da avenida Rio Branco 115.

-“Lá vai o redator-chefe do Biscoito Molhado descambar  outra vez pelo passado.” – reclamará um e outro assinantes, já prevejo.

Fazer o quê? Pouca coisa acontece por aqui; o máximo que pode sair do nosso “reality show” talvez sejam uns ensaios de nus para a revista Portos e Navios ou Fairplay. Voltemos, então, no tempo. Todos devem reconhecer que tento ser mais historiador do que passadista.

O diabo é que solicitaram os serviços da profissional do sexo dando o telefone da Ana Luiza.      

-“Nunca um funcionário meu faria  uma molecagem dessa.” – insurgiu-se a Ana Luiza.

Era um trote, sem dúvida. A moça, a princípio, ficou  emburrada, mas  depois  reagiu com preocupação, pois teria de se apresentar ao seu patrão sem a  parte dele do michê. Ana Luiza, menos nervosa, explicou ao cafetão, no telefone, a situação deplorável da sua funcionária. Ele teria que compreender.  Em seguida, neurastênica de novo, pois correra a notícia que o boy Zé Grandão da diretoria de Cabotagem fora o autor do trote, Ana Luiza rumou para a sala do doutor Pacheco:

-“Ela, com  uns óculos enormes, estava mais assustadora do que nunca.” – lembra-se ainda hoje o Lampier do arrepio que lhe percorreu a espinha com a súbita aparição da chefe do Bureau de Fretes no lugar onde trabalhava.

-“O comandante Pacheco tinha verdadeiro horror à voz da Ana Luiza.” – diz ainda hoje a Regina, também funcionária do comandante.

Lá, na Diretoria de Cabotagem, Ana Luiza queixou-se mais da  canalhice que foi darem o número do telefone da sua sala para uma chamada dessas, do que da covardia que fizeram com a moça.

De volta ao Bureau de Fretes, esculhambava agora o comandante Pacheco, porque sempre passou a mão pela cabeça desse “compridão ordinário” (o Zé Grandão).

-“Funcionário meu não faz isso!” – berrou com toda a estridência da sua voz.

Nesse tempo, ainda não haviam aparecido o Nilo e o Volto Já na SUNAMAM, mas já trabalhava o Marcos. Ele, funcionário da Cabotagem, sem histerias e correrias, e com seu profundo conhecimento da natureza humana, tirou do bolso o provento da profissional (ela ganhava por hora),  entregou-lhe e o caso foi resolvido. Isto é correção de rumo.

   






terça-feira, 7 de novembro de 2023

3146 - Traduções



---------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO


Volume 1 Edição 1815                          Data: 15 de Abril de 2003

----------------------------------------------------------


 TRADUZINDO E TRAINDO




“Tradutor, traidor” – reclamam os críticos das traduções, traduzindo a célebre máxima italiana “tradutore, traditore”.

O acadêmco Raimundo Magalhães Júnior – nome hoje lembrado porque era o pai da carnavalesca Rosa Magalhães – traduziu a peça de Tennessee Wiliams, Cat on a hot tin roof, como Gata em teto de zinco quente. Millor Fernandes não perdeu tempo ao saber dessa tradução,  representou numa charge uma gata (ou seria um gato?) de cabeça para baixo, andando sobre um teto, desafiando a lei da gravidade. Teto esse que nem quente era, pelo  menos na charge. Passaram trinta anos, e quando a peça é encenada no Brasil, permanece o título:   Gata em teto de zinco quente. Se ainda fosse uma peça surrealista...

Outro erro de tradução – esse mais escondido dentro da obra – ocorreu num livro sobre guerra vertido do inglês para o português. O editor do mesmo, ao ler os originais, intrigou-se com os encontros que Hitler mantinha com um tal de General Staff; em certo momento, mandou chamar o tradutor, o famoso escritor Marques Rabelo.

-“Você não sabe que General Staff é Estado-Maior?”

-“Eu nem sei inglês.”- respondeu Marques Rabelo.

Há, contudo, as traduções praticamente impossíveis. Dia desses, pelo telefone, Léozinho enveredou pela infância de Napoleão Bonaparte:

-“Ele era chamado pelos seus colegas de escola de Napadonez.”

Como traduzir esse trocadilho para a nossa língua sem perder o nariz (nez, em francês)? Impossível.

O próprio Léozinho, agora no restaurante Tarantino, tratou das traduções indiretas; obras redigidas em alemão, por exemplo, e que conhecemos em português através de traduções do francês.

-“O Feliciano de Castilho fez uma boa tradução do Fausto de Goethe, mas do francês.”

Sem nada falar, para não interromper o Léozinho, lembramos que essa obra máxima da literatura alemã inspirou algumas óperas, entre elas a Danação de Fausto de Berlioz. A Canção do Rato, recitada por Mefistófoles, que comprara a alma de Fausto, ganhou na ópera de Berlioz um formidável acompanhamento orquestral;  não fez, porem, sucesso, o que levou o compositor Rossini a comentar:

-“A Canção do Rato não fez sucesso porque não havia um só gato pingado na platéia.”

Bem, prossigamos com a peroração do Léozinho sobre as traduções, naquele nosso erudito almoço no Tarantino:

-“A tradução, Carlinhos, tem de ser também uma obra de arte, e não uma simples mudança de um idioma para o outro. Veja as obras de Dostoievsky: sempre nos chegaram através de traduções indiretas,  principalmente do francês. Agora, há um tradutor que tem familaridade com a cultura, a língua e a literatura russa, e que nos indica muitas contrafações que houve ao passarem as obras de Dostoievsky para o português.”

Sem tomar fôlego, prosseguiu:

-“O conto do Dostoievsky, Noites Brancas, por exemplo; trata-se do branco que se vai tornando mais transparente no fenômeno típico de São Petersburgo entre 21 de junho e 1° de julho.”

Outra questão que o Léozinho chamou a atenção, baseado nesse profundo conhecedor da língua russa e de Dostoievsky, é a relação muita profunda entre o estado de espírito das personagens e a sua linguagem. Esse ponto é interessante, como os assinantes do Biscoito Molhado poderão constatar, e até mesmo identificar exemplos próximos, como veremos:

“...Mas, na medida em que as personagens vão entrando em conflito com seu universo social e consigo mesmos, a linguagem fica mais complexa. Há momentos em que a personagem se torna quase que incompreensível...”

Não parece o Sílvio Carello?... Só falta mesmo o farol de milha... Alguém, talvez, resmungue:

-“Sílvio, um personagem de Dostoievsky?!...”

Ora, o autor russo foi o primeiro grande escritor a trazer o povo miserável para o primeiro plano, para o proscênio da literatura, e o Sílvio Carello, mesmo hoje, não apaga da nossa memória a sua choradeira pelo seu escasso salário no passado recente.

Como o assunto é vasto, e mais vasta ainda é a erudição do Léozinho, não tivemos tempo, na nossa conversa, de tratar das traduções faladas, ou seja, das dublagens. Como sempre encontramos lugar no Biscoito Molhado para qualquer assunto perdido, aí vai um trecho, ou melhor, uma frase de um dublador do Robert Mitchum, num filme que assistíamos na TVA.

-“Me dá um chopis.”

Mudei de canal sem esperar que ele pedisse dois pastel.