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quinta-feira, 9 de abril de 2015

2828 - Canetado Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5078                                      Data:  02 de abril de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXVII

 

 

CANETA – No curso primário e na admissão, eu só escrevi com lápis. Todos, mesmos os que comiam pão com ovo na hora da merenda, usavam lápis; caso alguém aparecesse com caneta, acredito que a professora o impediria de usá-la. Ela com o giz, e nós com o lápis. Eram lápis que traziam escrito, longitudinalmente, o nome do fabricante – Johann Faber. Acompanhava-o o apontador; eram bens complementares no jargão econômico. O diabo era que muitos desses apontadores eram autênticos comedores de lápis; não seria exagero dizer que, às vezes, moíam todo o Johann e paravam no “a” de Faber, sobrando em nossas mãos um cotoco. Assim, tínhamos, sob o risco de cortes no dedo, de recorrer à lâmina da Gillette que, inegavelmente, apontava melhor a ponta do lápis do que o apontador. Havia, entretanto, professoras que só faltavam pedir porte de armas aos alunos que carregassem Gillette no estojo.

O professor que me preparou para os exames do Colégio Visconde de Cairu, em 1960, corrigia os nossos exercícios com uma caneta Compactor. Eu olhava, com cobiça, para ela já sabendo que, no curso ginasial, os lápis cediam o lugar para as canetas tinteiros. Aprovado, pedi uma Compactor e a ganhei dos meus pais.

Não me considerei apequenado com os colegas do curso ginasial que ostentavam os diversos modelos da Parker, 21, 51 e 61. Aprazia-me a minha Compactor; gostava de injetar a sua ponta no tinteiro Quink e de sugar a tinta com o êmbolo e ver a parte transparente do corpo da caneta carregada, o que não era possível com as outras marcas. Sujei-me mais de uma vez nessa operação, é verdade, mas o mesmo aconteceria comigo se fosse uma Parker; nunca fui tão caprichoso quanto as minhas colegas de classe.

Às vezes, a caneta espirrava tinta no papel, ainda assim, nunca usei mata-borrão e nem vi alguém da turma usando. A professora que relevasse as manchas nas provas. Mata-borrão era coisa antiga para nós, do tempo em que se matava as aves para escrever com as suas penas. Devemos muito aos gansos: a Magna Carta, o Tratado dos Direitos Humanos, obras-primas da literatura, do teatro, da filosofia, etc. Feita justiça à ave, prossigamos.

A caneta nos trouxe mais responsabilidade, não tínhamos, agora, a borracha que apagava os nossos erros; ainda assim, os mais açodados as buscavam para apagar a tinta, aumentando a lambança. Com a caneta, vieram as rasuras.

Às vezes, era melhor rascunhar a lápis e, depois, dar a versão definitiva com a caneta; assim, muitos de nós sempre deixavam um lápis de sobreaviso, ele não foi descartado de vez.

Numa aula do 3º ano ginasial, a professora de inglês, uma gozadora corpulenta de ascendência alemã, avisou à turma que encontrara um lápis perdido no chão, mas que não havia problemas, pois o nome do seu dono estava estampado nele e leu: Johann Faber.

Paulatinamente, a caneta tinteiro cedeu lugar às esferográficas, bem mais práticas e tão baratas que carregávamos para as aulas, três delas, até mais. Eram necessárias mais de uma, pois sempre havia alguma temperamental que recusava a mostrar a sua tinta no papel.

Já na faculdade, notei que todos, sem exceção, escreviam apenas com canetas esferográficas. Houve um aluno que, no começo de uma prova, revelou ao professor que esquecera a sua em casa. Você vai à guerra sem levar a arma? - foi a reação do professor antes de lhe emprestar uma.

Embora a caneta Montblanc exista desde a primeira década do século passado, hoje ela se tornou exemplo de status com seus modelos de luxo, vendidos, no Brasil, até em prestações mensais. Os políticos brasileiros, na sua maioria, quando têm de assinar alguma coisa sacam as suas Montblanc. Tancredo Neves foi uma honrosa exceção; ganhara do presidente Getúlio Vargas a caneta com que ele assinou a Carta Testamento e a carregou consigo por toda a vida como um troféu.

Mas, dizíamos, impera entre nossos políticos a Montblanc. Um cidadão, insatisfeito com esse exibicionismo, postou, então, nas redes sociais, a imagem de uma reunião do Barack Obama com a sua equipe; todos portavam canetas esferográficas, inclusive o presidente.

 

ÓCULOS – Devo ter sido acometido de miopia um pouco antes de 1970, período da minha vida em que eu não olhava muito para longe, ler à distância entre mim, os livros e as revistas me satisfazia. Depois desse ano, não, meus olhos buscavam novos horizontes e percebi que havia algo errado, que não os enxergava como nos bons tempos.

Levado a uma ótica na Rua Arquias Cordeiro, no Méier, onde havia um oftalmologista, foi constatada uma miopia ao redor de três graus, se a memória não me falha tanto quanto a vista naquela época. Eu não era o Monsieur Magoo, mas uma providência tinha de ser tomada.

Houve, então, a encomenda de um óculos de aros brancos com lentes que mais se assemelhavam a vidros de cristaleira de tão grandes. No primeiro dia em que o coloquei, sofri a impressão de que todo o mundo me olhava, era um narcisismo às avessas. E assim foi durante um tempo. Seria complexo de culpa por participar, durante o curso primário, da turma dos malvados que chamava os portadores de óculos de “quatro olho”? É verdade que o John Lennon mudou radicalmente o jogo com aqueles óculos de pequenas lentes arredondadas e aros finos que fizeram que todos os rapazes de zero a dez graus de miopia sonhassem em tê-los enganchados no nariz. Ninguém mais falou em “quatro olho”. Mas, no meu caso, a coisa era diferente, o deboche vinha da infância, o que pede explicações freudianas.

Quando eu estava sem os óculos, era o Doutor Jeckyll, mas bastava colocá-los para me sentir o Mister Hyde. Era tudo um exagero da minha parte; nada como ser uma pessoa gregária para perder a visão distorcida da realidade. Integrado à turma da Chaves Pinheiro, constatei que ninguém queria saber dos meus óculos, estavam bem mais interessados nas calcinhas da Dona Isa penduradas na corda do quintal, onde jogávamos pingue-pongue, que mais pareciam um paraquedas.

Acostumei-me com os óculos, eles passaram a fazer parte do meu corpo – mais um exagero – e só os tirava para dormir e tomar banho.

Ria com desdém quando, na hora da pose para fotografia, alguém os tirasse do nariz para sair melhor; eu, sem os óculos, me sentiria menos eu, já bastava o largo sorriso no retrato para me descaracterizar.

Muitos conhecidos meus, integrantes do clube dos míopes, trocaram os óculos pelas lentes de contato, mas eu não me animei com essa substituição. Vinha-me à mente o campeonato mundial de basquete, que ocorreu no Brasil, em 1963, porque sempre que jogavam os Estados Unidos, o jogo era paralisado uma, duas vezes e todos se punham a procurar, na quadra, a lente que caíra dos olhos de um jogador americano. Com o transcorrer dos anos, elas foram aperfeiçoadas, mas só de pensar em enfiar aquilo no globo ocular para, antes de dormir, arrancá-las, já me dava aflição. Os óculos são bem menos invasivos.

Há um conto do Guimarães Rosa que versa sobre um menino tristonho. Ele descobre o verdor das matas, o azul do céu, a beleza do mundo, enfim, quando lhe colocam, pela primeira vez, no rosto, um par de óculos. Essa cena é narrada de uma maneira tão intensa, que não resta dúvida ao leitor que esse menino era o Guimarães Rosa. Escritor, aliás, que nunca se separou dos seus óculos de lentes de fundo de garrafa. 

 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

2829 - o bamba do rádio


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5079                                   Data:  05 de abril de 2015

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O RÁDIO MEMÓRIA DA PÁSCOA

 

Os ouvintes do Rádio Memória da Páscoa estranharão o calendário, devido à ausência do Sérgio Fortes nesse dia. Aqui vai a explicação: ele gravou o calendário e saiu apressadamente para distribuir ovos nas comunidades carentes. Porém, na edição do programa, ficou estabelecido que dariam um tempo maior ao convidado, o promotor cultural Haroldo Costa; com isso, os radio-ouvintes não ficaram sabendo do que ocorrera no dia 5 de abril ao longo dos séculos. Para que o mesmo não ocorra com os nossos leitores, este periódico reproduz, agora, essa gravação.

-Em 823, Lotário I é coroado Sacro Imperador Romano-Germânico em Roma.

Voltou-se para o titular do Rádio Memória.

-Jonas, tive o máximo de cuidado para não trocar o nome do imperador.

-Sérgio, a palavra otário chegou ao nosso idioma através de um tango cantado pelo Carlos Gardel.

-Sei... sei... sei...

-O nome do tango não me ocorre agora, mas vou me lembrar daqui a pouquinho. Otário é um leão marinho da Patagônia, é uma falsa foca, pois tem orelhas e não nada tão bem quanto ela. Pesado e lento, o otário entrou na gíria dos malandros da Argentina, o lufardo, como sinônimo de estúpido, tolo, e, assim, entrou na letra de um tango que fez muito sucesso no Brasil... Lembrei-me agora do nome: “Garufa”. O João Dias gravou uma versão.

-Quando foi isso, Jonas?

-O tango “Garufa” é da década de 20, a palavra otário se difundiu no nosso linguajar desde os anos 30.

-Pois é, Jonas; se eu troco o nome do Lotário I, posso provocar um estremecimento diplomático com a Argentina da Cristina Kirchner.

-Aqui, na Roquette Pinto, havia o programa “Noche Tanguera”, do Hugo Paim, que era um especialista em Tango e tudo isso foi explicado.

-Sei... sei...sei...

-O que mais aconteceu no dia 5 de abril, Sérgio?

-Em 1632, na Guerra dos Trinta Anos, as tropas suecas, comandadas por Gustavo Adolfo, atravessam o Rio Lech e se confrontam com as tropas da Baviera na conhecida Batalha de Rain. Jonas, os suecos, que estavam encapetados no calendário passado, continuam da pá virada.

-Essa guerra durou trinta anos mesmo, Sérgio?

-Não sei; a Guerra dos Cem Anos, entre a Inglaterra e a França, durou, na realidade, 116 anos. Quem fez essa contagem errou os números no meio do caminho, provavelmente um precursor do ministro Guido Mantega.

-Provavelmente. - concordou o Jonas Vieira.

-Em 1722, o explorador holandês Jakob Roggeveen descobre a Ilha da Páscoa. Jonas, eu coloquei essa data na relação por causa da coincidência: hoje, 5 de abril de 2015 é Páscoa.

-Ele deve ter encontrado muitos coelhinhos na ilha.

-Do jeito que eles proliferam... O coelho é um animal inflacionário em se tratando de reprodução.

-Os coelhos só não proliferam mais do que aqueles leões marinhos da Patagônia, Sérgio.

-Em 1795, é assinado o Tratado de Paz de Basileia entre a França e a Prússia. Estes dois países sempre viveram às turras.

-Bismarck, no século XIX, uniu a Prússia aos principados alemães, criou a Alemanha, não foi assim, Sérgio?

-Foi, Jonas. As guerras passaram a ser entre a França e a Alemanha.

-Em 1764, o Parlamento inglês aprova a Lei do Açúcar, substituindo a Lei do Melaço, criando, assim, novos impostos sobre o açúcar americano.

-Foram do melaço para o açúcar para aumentar os impostos. - pensou o Jonas Vieira.

-Por pouco, eles não chegaram à cachaça, Jonas. A Inglaterra devia estar fazendo um ajuste fiscal nas contas públicas.

-Em 1871, acontece a fundação da cidade de Mococa em São Paulo. Jonas, as transmissões da Rádio Roquette Pinto chegam a Mococa?

-Sérgio, não é só a Rádio Jornal de Recife que fala para o mundo.

-Então, aqui vai um abraço aos mocoquenses.

-Em 1928, Celina Guimarães Viana é a primeira mulher a votar no Brasil, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Um marco.

-Sim; mulher só votava para síndico de prédio até então.

-Em 1930, num ato de desobediência civil, Mohandas Gandhi, mais conhecido como Mahatma Gandhi, quebra a lei britânica ao marchar até o mar e fazer sal. O monopólio britânico, Jonas, impedia que os hindus fabricassem o seu próprio sal. Gandhi liderou, então, a Marcha do Sal, que percorreu 124 milhas durante 24 dias. Impressionante.

-Gandhi, Mandela, Martin Luther King foram grandes líderes do século XX. - salientou o Jonas.

-1945, Segunda Guerra Mundial: a União Soviética rompe o Pacto de Neutralidade Nipo-Soviético com o Japão, ao mesmo tempo em que se prepara para invadir a ilha juntamente com os aliados, conforme decisão na Conferência de Ialta. Jonas, o Japão, em 4 de abril de 1945, já estava derrotado. Foi o mesmo que chutar cachorro morto.

-E cachorro japonês. - completou o Jonas.

-Em 1955, Winston Churchill demite-se do cargo de primeiro-ministro do Reino Unido devido a questões de saúde.

-Sérgio, Churchill pretendia desfrutar, agora, os passeios no iate Cristine do Onassis. Ao mesmo tempo, o Onassis levava também a Maria Callas no iate.

-Onassis pediu dinheiro emprestado ao Peter, comprou um iate e não pagou. Ele te pagou, Peter?

A resposta não foi ouvida pelos radio-ouvintes, Peter fala muito baixo, mas parece que deu o calote mesmo, coisa de grego. O homem Calendário prosseguiu:

-Em 1968, o ministro da Justiça proíbe o funcionamento da Frente Ampla, criada por Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek, que era um movimento pela volta da democracia ao Brasil. Jonas, o A.I. 5 já tinha sido baixado?

-Veio nove meses depois.

-Barra pesada. - constatou o Sérgio Fortes.

-Nascimentos. - impostou a voz o Homem-Calendário.

-Em 1568, o Papa Urbano VIII. Jonas, existiu algum Papa Rural?

-Talvez apareça um agora com o agronegócio.

-Em 1588, nasceu Thomas Hobbes, filósofo inglês. Jonas, ele formulou a teoria do Estado Leviatã, que é estudo obrigatório nas faculdades de economia e direito.

-Sem dúvida, Sérgio.

-No Brasil, o estado anda mais Levy... atã do que nunca.- não perdeu o trocadilho para o desespero do Mark Twain e do Dieckmann.

-Em 1866, Vicente de Carvalho, poeta, político e jornalista brasileiro. No Santo Inácio, nós tínhamos de ler alguns poemas dele.

-Em 1889, nasceu Donga, compositor e sambista brasileiro.

-Grande Donga. - acentuou o titular do programa.

-Jonas, ele gravou o primeiro samba, “Pelo Telefone”, em 1916.

-O samba, com a sua cadência, surgiu anos depois no Estácio de Ismael Silva e outros bambas. “Pelo Telefone” tem muito de maxixe, mas o Donga teve uma importância fundamental em registrar em disco a palavra samba.

-Em 1900, Spencer Tracy, ator americano.

-Excelente ator.

-Em 1908, Bette Davis.

-Minha vilã favorita, Sérgio.

-Nesse mesmo ano, Jonas, nascia Herbert von Karajan, regente austríaco.

-Grande maestro.

-Jonas, contam que, ao descer no aeroporto de Londres e pegar um táxi, o taxista perguntou a Herbert von Karajan para onde ele ia, e ele respondeu: “para qualquer lugar, pois em todos os lugares sou aguardado”.

-Em 1916, Gregory Peck.

-Lembro-me dele no “Moby Dick”.

-Velho, ele engordou e já podia fazer o papel da baleia.

-Em 1931, Genival Lacerda, aquele que está de olho na butique dela.

-Falecimentos. - alteou a voz.

-Em 1794, Camille Desmoulins, advogado, jornalista e revolucionário francês. Jonas, fizeram a Revolução Francesa, guilhotinaram os nobres e, depois, por falta de cabeça, passaram a se guilhotinar. Foi assim com Danton, com o poeta Andrea Chenier, com Camille Desmoulins...

-Em 1952, morria Fala, um Scottish Terrier, cadela de estimação do presidente Franklin Delano Roosevelt.

-Sérgio, segundo os republicanos, Fala teria sido esquecida,  nas Ilhas Aleutas, durante uma visita do presidente e ele enviou, então, um navio de guerra para resgatá-la, isso em 1944. Num discurso, Roosevelt disse que suportava as críticas, as calúnias, porque tinha a pele dura, mas Fala não, tinha o sangue escocês e ficou indignada. O povo americano adorou.

-Roosevelt era um gênio, Sérgio.

-Em 1964, Douglas MacArthur, general norte-americano.

-Foi um militar polêmico, Sérgio. O presidente Truman não gostava dele e o mandou para casa, onde trocaria a farda pelo pijama,

-Ele queria fazer umas maluquices na Guerra da Coreia, Jonas.

-Em 1975, morria Natal da Portela.

-Um abraço ao Monarco e à Velha Guarda da Portela. - vibrou o Jonas Vieira.

-Jonas, você sabe quem foi George Savalla Gomes?

-Não.

-O Carequinha.

-Caramba! 2015 é o centenário de nascimento dele, é também do Orlando Silva, entre outros. Eu não vou deixar passar em branco o centenário do Orlando Silva.

-Em 2014, morria José Wilker, ator brasileiro.

-Ótimo ator, o Simon Khoury deve saber algumas histórias dele.

Encerrado o calendário, chegou o convidado Haroldo Costa com gravações da divina Elizeth Cardoso para o deleite dos ouvintes do Rádio Memória.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2015

2827 - Endiabrado Dicionário Ortográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5077                                      Data:  02 de abril de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXVI

 

DIABO – No verbete JULGAMENTO, eu aludo ao diabo como a representação do mal, porque esse era o contexto; mas, na verdade, não tremo nos alicerces e nem faço o sinal da cruz quando há referências a ele.

Quando vi o diabo pela primeira vez, eu estava na primeira infância, tinha uns 5 anos de idade. Passávamos eu, meus pais e meus irmãos alguns dias na casa da minha avó, na Rua General Padilha (não sei por que razão), quando me deparei com a avermelhada figura; e não foi só eu: minha irmã e meu irmão Claudio estavam comigo. O diabo parou no portão e nós, três, aos gritos, corremos alucinadamente. Despertado, nosso pai veio ver do que se tratava; encorajados com a sua presença, paramos de correr e lhe apontamos o diabo no portão; ao virar o rosto para ver, o nosso susto passou para ele. O capeta, enfiara através das grades do portão o seu comprido tridente, que, a um palmo do nariz do meu pai, o fez estremecer. Meu pai não se persignou, não vociferou “Vade retro, satana”, sorriu e nos tranquilizou:

-Não é nada, é só o diabo. Continuem brincando.

Apareceram depois, alguns morcegos, que se juntaram ao capeta, e nós passamos a brincar de ter medo.

Foi animado o carnaval daquele ano na Rua General Padilha.

Poucos anos depois, precisamente, em 1959, a Rádio Nacional conseguiu um dos maiores tentos da sua história: a radiofonização da vida de Cristo. Ela entrava no ar todas as sextas-feiras santas, em capítulos que iam da manhã à noite. Os primeiros tinham uma duração de meia-hora ou um pouco mais, e o último capítulo, que se iniciava às 18 horas, ia da traição de Judas à ressurreição e durava de uma a duas horas, não me recordo exatamente do tempo.

Mesmo não havendo, naquela época, católicos praticantes de ir à igreja todos os domingos, como os torcedores de futebol iam ao Maracanã, a nossa família se reunia em volta do rádio mal se iniciava cada capítulo, e assim foi durante três ou quatro sextas-feiras santas.

Num desses capítulos, transmitidos de tarde, Jesus Cristo está no deserto de Judeia, jejuando por 40 dias e noites, quando gargalhadas estridentes quebra bruscamente o momento de recolhimento.

-É ele. - disse o meu pai.

Sim, era ele: o diabo, representado na voz do radioator Rodolfo Mayer. E ouvíamos os dois, atentamente, as tentações propostas por ele ao filho do Senhor.

Depois, eu o vi na ópera, em 1964, quando encenaram “Mefistófeles”, de Boito, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1964. Na verdade, eu não vi, escutei a transmissão da récita pela PRD 5, Rádio Roquette Pinto. Assistiria a essa ópera, muito tempo depois, em VHS, numa representação de 1989, na Ópera de São Francisco, com o baixo Samuel Ramsey no papel principal. A Noite de Walpurgis - o Sabbat – cena do 2º ato, comandada pelo demo, é de uma animação que me fez lembrar os bailes de terça-feira gorda de carnaval no clube Monte Líbano. Reforçou-se, então, a minha ideia de que não havia nada de dantesco com o  inferno e que o escritor americano Mark Twain teve as suas razões para dizer que preferia o paraíso pelo clima e o inferno pelas companhias.

Transcorreram muitos anos quando, dirigindo meu FIAT, pela Avenida Dom Hélder Câmara, num sábado, ouvi alucinantes gritos de “Sai... Sai... Sai...” que estremeciam o asfalto por onde eu passava. Soube que eram os fiéis da Igreja Universal Reino de Deus expulsando para longe o diabo.

A cantora Maria Betânia recusa canções em que ele é citado, o cantor e compositor Roberto Carlos renegou o seu maior sucesso dos anos 60, “Que tudo mais vá pro inferno”, e muitas pessoas menos conhecidas se recusam terminantemente a falar o seu nome.

Para mim, o diabo é uma figura carnavalesca; ótima para nós brincarmos de ter medo.

 

RELÓGIO – Tive o meu primeiro relógio com 13 anos de idade; passei para um colégio do governo e o ganhei de presente do meu pai. Era colorido, com números com luminosidade que sobressaíam na penumbra e um tique-taque de despertador, mas para mim, o seu valor estimativo o equiparava a um Rolex.

Quando caí, ao saltar do bonde andando, a caminho do colégio, o moço que me socorreu disse: “Não foi nada... o seu relógio não se quebrou...” Sim, ele chamava a atenção. Chamou ainda mais a atenção quando, numa aula do Visconde de Cairu, naqueles raros momentos em que toda a turma ficava em silêncio, o tique-taque do meu relógio soou ensurdecedoradamente. Logo, a garotada localizou o barulho vindo do meu pulso esquerdo e a gozação caiu sobre mim durante algum tempo. Mas não reneguei o presente do meu pai, nem mesmo quando o vidro côncavo rachou, provavelmente porque eu esbarrara inadvertidamente em alguma coisa e o mostrador ficou um pouco exposto. Ele funcionava e era isso que valia para mim. Quando a fissura se acentuou a ponto de os ponteiros ficarem sem proteção e um deles ter se entortado, vi-me obrigado a aposentá-lo.

Passei para outros relógios, todos eles baratos, até que, ao receber o meu primeiro salário de funcionário efetivado no Serviço Público, fui incitado por uma amiga a comprar um relógio de verdade. Para mim, relógio de verdade eram todos os que marcavam minutos e horas como aqueles que eu já tivera, principalmente o primeiro. Ela disse que eu estava enganado, que me levaria à Mary Joias para eu ver um. Tratava-se de uma loja que se localizava na Rua do Rosário, quase na esquina com a Rio Branco. Lá, ela me mostrou um Seiko Quartz, um relógio que, pela discrição, era a antítese do meu primeiro. Com três parcelas mensais – o seu preço era um pouco alto – passou a ser meu.

E ele me acompanhou durante anos e anos. Eu dizia, orgulhosamente, que confiava mais nele do que nas horas informadas pela Rádio Relógio.

Quando fui atropelado em 5 de março de 1986 por um Passat, saí com arranhões e ferimentos, enquanto o meu relógio sobreviveu com uma leve arranhadura e uma sequela – o ponteiro dos segundos passou a se locomover de dois em dois segundos. Ainda assim, o meu Seiko não perdeu a sua precisão suíça, embora fosse japonês.

Perdi-o em 2003, a sua correia metálica andava frouxa no meu pulso, e, num momento atribulado, sem que eu sentisse, ele escorregou pela minha mão, caiu na rua e nunca mais o vi. Fiquei pesaroso; havíamos passado por tantas experiências juntas, principalmente aquele atropelamento.

Depois daquele relógio de verdade, decepcionado, deixei a fidelidade de lado; compro, agora, relógios baratos, descartáveis, de 15 reais; acabou a bateria, passo para outro. 

Há pessoas que não conseguem sair de casa sem celular, não é o meu caso. Desde os 13 anos de idade, eu não vou da minha casa à primeira esquina sem um relógio no pulso. Fico sem falar no telefone, mas não fico, desde os 13 anos de idade, sem ver as horas.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

2826 - Veraneando e Invernando Dicionário Biográfico


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5076                                    Data:  31 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXV

 

CADERNO – No verbete TREM , depreender-se-á facilmente que, na faculdade de economia, bastava saber quais as matérias foram ministradas por cada professor, na sua disciplina e aparecer para as provas semestrais; não havia a necessidade premente de comparecimento às aulas. Assim foi no tempo do ministro Mário Henrique Simonsen, assim foi no meu tempo.

Quando se aproximavam essas provas, apareciam os turistas, aqueles que só marcavam presença na hora da avaliação dos professores. Eles buscavam freneticamente os cadernos dos alunos assíduos nas salas de aula com os assuntos que foram tratados durante o semestre. De posse desses cadernos, tiravam várias xerox, geralmente  nos locais em que trabalhavam e elaboravam as suas colas.

Apesar dos estágios que fiz durante três anos dos quatro em que cursei a faculdade, dificilmente eu perdia uma aula, logo, o meu caderno era um bem valiosíssimo para eles. Num desses estágios, um colega da Universidade Gama Filho me aconselhou a cobrar dos alunos relapsos por cada página xerocada do meu caderno, quanto a ele, estipulava um valor para quem quisesse colar durante as provas.  Não fiz isso, evidentemente.

O meu caderno era parrudo, um cartapácio com peças laterais coloridas a cada 70 ou 80 páginas, separando as disciplinas do ano letivo.  Ele já não era impecável como as das meninas caprichosas, de tão manuseado tinha orelhas de Dumbo. Com vários alunos bissextos levando-o para tirar xerox, o seu estado físico piorou. Um dia, quando estava nas minhas mãos, a sua capa se soltou do fio em espiral e caiu. Inspirado, escrevi uns versos; perdi o papel em eles estavam, mas não os esqueci.

“Andando de mão em mão,

Igual a mulher do Mangue,

Meu caderno perde a capa,

Que caiu no chão exangue.

Igual a um desesperado,

Que frequenta várias seitas,

Frequentou diversas casas,

As de família e as suspeitas.

 

Foi ao BB, ao IPERJ,

Inda mais à Eletrobrás.

Cansou-se tanto, coitado,

Que caiu morto pra trás.

 

Mas hoje, no cemitério,

Um epitáfio se avista:

Aqui jaz o meu caderno,

Vitimado por turista.

 

INVERNADA – Meu pai dizia que o caldeirão do diabo estava no Méier, tanto era o calor que irradiava desse bairro e adjacências: Cachambi, Del Castilho, etc. Em Olaria, que se localiza perto do Méier, o calor deve ser parecido. Quanto ao frio, não deve haver também diferença entre os bairros.

Certa vez, queixei-me que esfriara muito – a temperatura caíra para uns 18º – e deixei um amigo português da Rua Chaves Pinheiro escandalizado:

-Frio?!... Você chama isso de frio?!... Frio eu senti em Portugal. - deu ele proporções siberianas ao inverno do seu país tal a sua ênfase.

Mesmo não existindo frio no Rio de Janeiro, apenas calor, houve invernada em Olaria. Isso aconteceu pela primeira vez, em 1962, no governo Carlos Lacerda e durou alguns anos. Não tinha nada a ver com a estação do ano, e sim com forças policiais. Falo da Invernada de Olaria.

Seu período áureo foi o tempo do mencionado governador, quando até alguns dos seus policiais se entrincheiraram com ele no Palácio Guanabara, logo que estourou a Revolução de 1964.

Desses policiais, o mais famoso entre nós, moleques das ruas São Gabriel e Americana, era o Neto que, soube depois, era o segundo da hierarquia desse grupo ligado ao Departamento Estadual de Segurança Pública.

O Cachambi tinha os seus delinquentes, mas, entre eles, dois despontavam: Borboleta e Cabeção. Dois bandidos românticos comparados com os de hoje – afirma o meu irmão Claudio. Talvez, tenha razão. Já servi de garoto de recado do Borboleta que, um dia, na Americana, me pediu para chamar o Cabeção, que morava numa cabeça de porco dessa rua. Fui, quando perguntei por ele, e as senhoras souberam que era o Borboleta que o procurava, estamparam apreensão no rosto e me falaram que eu dissesse que ele não estava em casa. Obedeci.

Cabeção não parecia má pessoa; subia, muitas vezes, a Rua São Gabriel, dobrava a Americana, via a nossa turma reunida e participava pacificamente das conversas. Era uma turma bem heterogênea; faziam parte dela adolescentes, como eu, de 15 anos, adultos na casa dos 20, 30 anos de idade, e até o guarda-noturno, que sempre parava a sua ronda para bater papo com a gente.

Um dia, o Guaraci, amigo e vizinho, um dos mais velhos do grupo, alertou-me para evitar dizer o nome Cabeção quando os dois se achavam juntos.

-O guarda não sabe e nem pode saber. - salientou.

Um dia, correu o bochicho que o Neto, da Invernada de Olaria, andava atrás dele e o encontrou, pois o Cabeção ficou um bom tempo sem comparecer as nossas reuniões noturnas, quando o vimos, estava com esparadrapos e gases num dos olhos, um tampão enorme.

Borboleta não era tão próximo de nós quanto o seu companheiro, mas os rumores sobre ele sempre chegavam. Disseram um dia, que ele, ao ver a mulher do Neto, na Rua Getúlio, segurou os testículos e os balançou à sua frente. Esse boato não se confirmou, mas Borboleta tomou um chá de sumiço, reapareceu todo estropiado.

Cabeção e Borboleta, tanto um quanto o outro logo, soltos, estava prontos para outra.

Quanto a nós, moleques da Rua Americana, que não roubávamos nem pirulito de criança – é verdade que havia algumas exceções – morríamos de medo da Invernada de Olaria. Quando o camburão com esse temível nome na lataria despontava na esquina, tremíamos de medo. Os mais experientes nos pediam tranquilidade, que prosseguíssemos discutindo futebol, pois, se levantássemos suspeitas, os homens poderiam vir até nós e exigir os documentos de todos.

Quando, em 1963, assassinaram o primogênito do escritor Odylo Costa, filho, em Santa Teresa, enquanto namorava, o governador Carlos Lacerda declarou guerra implacável ao crime, então, o nosso medo se tornou pavor. Mal o camburão da Invernada de Olaria era vislumbrado por um de nós, o alarme soava, disparávamos cada um para a sua casa. Quinze, vinte minutos depois, com passos miúdos e olhares alongados, certificando-nos de que o perigo já passara, retornávamos ao nosso antigo posto.

Os anos se passaram, a Invernada acabou e caiu no esquecimento. Na década de 90, eu almoçava com uma colega de trabalho, num restaurante do Centro, quando um senhor ocupou uma cadeira ao lado da nossa e, não contente em se comunicar apenas com o garçom, interrompeu intempestivamente a nossa conversa para falar da ineficiência da nossa polícia.

-Você talvez tenha conhecido a Invernada de Olaria?- dirigiu-se a mim.

Depois da minha confirmação, exclamou com suspiros de saudade:

-Aquilo é que era polícia!

 

 

 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

2824 - nas barras da justiça


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5074                              Data:  28 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXIV

 

JULGAMENTOS - Em 1958, não havia muitas televisões, a grande mídia era exercida pela imprensa escrita. Os jornais, as revistas (O Cruzeiro despontando entre todas) só falavam do assassinato da Aída Curi. Eu estava com dez anos de idade e – eu ainda não era um leitor voraz – não via outra coisa nas manchetes. Também ouvia, e ouvi meu pai indignado com a afirmação do Dom Hélder Câmera que a vítima era uma santa.

-Ela entra num edifício com dois homens e é santa?!... - esbravejou.

Era um prato cheio para a imprensa o caso de uma moça de 18 anos de idade, que veio de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, que é convencida por dois rapazes, com jeito dos transviados que surgiam com o rock and roll, a acompanhá-los até um apartamento na Avenida Atlântica e de lá se atira para a morte para não ser estuprada,

Com o Diário de Notícias e o Globo em casa, com o meu pai emitindo opiniões incisivas sobre o assassinato da Aída Curi, não havia como eu me alhear desse caso. Captava tudo como uma esponja e ficava cada vez mais confuso.

Em 1958, nós tínhamos uma televisão de 14 polegadas, que meu pai comprou de segunda mão, cujo estado normal era estar escangalhada. Somente um técnico japonês conseguia endireitá-la, porém, ele dificilmente se encontrava disponível. Poucos dias antes do julgamento do crime, o japonês reapareceu com toda a sua habilidade em lidar com válvulas e fios entrelaçados e nós pudemos assistir a ele, o julgamento, na televisão.

Um dos assassinos com nome de boa família, Ronaldo Guilherme de Souza e Castro, e o porteiro, que franqueara a porta e, provavelmente, participou da curra, estavam no banco dos réus. Cássio Murilo, por ter 17 anos de idade, foi protegido por uma lei que não vigora nos países mais avançados do mundo, ficou fora, encaminharam-no para o S.A.M.

Quando as câmeras do canal do Assis Chateaubriand focalizava o rosto do criminoso transviado, eu não via a sua cara e sim os óculos escuros. Para mim, aquele Ronaldo não tinha rosto, tinha óculos escuros.

Quando o juiz proferiu a sentença, condenando-o a 38 anos de detenção, se não me trai a memória, meu pai se indignou. Ele, mesmo sendo jornalista, achava imprensa responsável por uma pena tão elevada.

Em 1958, nós morávamos na Rua Cachambi e, no final de 1961, na São Gabriel. Foi com a turma dessa rua, que o Reco veio com a notícia: o Cássio Murilo do crime da Aída Curi, servindo o Exército, matou um coronel com um tiro de 45, a arma cujo calibre, na época, assustava tanto quanto o fuzil AR 15 hoje em dia. 

Se a Aída Curi foi, de fato, santa, como proclamava Dom Hélder Câmera, aquele julgamento de 1958 não contemplou o diabo.

No ano de 1961, explodiu o caso Dana de Teffé, uma milionária tcheca que desapareceu quando viajava pela Via Dutra.  Foi um prato suculento para os jornalistas; um deles, creio que o Davi Nasser colocou a alcunha no principal suspeito, o causídico da vítima, Leopoldo Heitor, de “O Advogado do Diabo”.

Em 1963, dois anos depois, portanto, eu iniciei um tratamento dentário, e a sala de espera do consultório do dentista, meu tio, mais parecia uma sucursal da revista “O Cruzeiro”. Assim, tenho quase mil horas de leitura da publicação mais exitosa do megaempresário Assis Chateaubriand e as páginas que meus olhos mais percorreram foram sobre o sumiço da milionária que levou às barras do tribunal o “Advogado do Diabo”. Parecia que o crime se dera no dia anterior e que o cadáver da vítima, que nunca apareceu, ainda estava fresco,

Havia ainda espaço para notícias sobre o crime do Sacopã, que ocorrera há mais de dez anos, em 1952, precisamente.  Nesse assassinato, o dono da Luta Democrática, saiu em defesa do réu, o Tenente Bandeira.

Para os jornais e revistas, nada se esquecia, nada prescrevia, um indício novo sempre aparecia.

Os grandes crimes continuaram a acontecer, com a cobertura maior dos canais da televisão a partir da década de 70, mas longe do impacto que a imprensa escrita, nos seus áureos tempos, provocava.

 

TROTE – Quando entrei para o Visconde de Cairu, fui submetido com os demais calouros a um trote chapa-branca. Explico: o diretor do colégio enfileirou todos os alunos em fila, com a presença dos pais, no pátio e ordenou à banda que tocasse “O Bom Menino”, música infantil do palhaço Carequinha.

Depois, veio o trote dos veteranos - menos de dez alunos que se animaram a exercer o rito de iniciação dos novatos para que não fosse quebrada a tradição.

-Ordenaram-me que eu cuspisse quadrado. - contei para o meu pai, que riu, enquanto eu achava isso uma idiotice. Mais tarde, tomando conhecimento de trotes que provocam até mortes, como a ocorrida no curso de Medicina da USP, em 1999, percebi que os idiotas não eram aqueles garotos de 14, 15 anos de idade.

Também me mandaram fazer uma barra, como se estivéssemos na aula de Educação Física. Por que não exigiram de mim 10 flexões de braço? Eu não me sairia mal nessa modalidade de exercício, mas eles queriam que eu agarrasse a barra e erguesse o meu corpo com os braços até o meu queixo ficar sobre ela. Saltei e as minhas duas mãos se fecharam na barra como uma torquês. Na parte em que eu tinha de levantar o meu corpo, flexionando os braços, veio a dificuldade: trinquei os dentes, estufei a veia do pescoço, procurei ajuda das pernas soltas no ar... Ufa! Consegui. Antes que me pedissem bis, soltei as duas mãos e os meus pés tocaram a boa terra.

Voltei à barra, mas, dessa vez, numa aula de Educação Física, com o traje apropriado: tênis, calção e camiseta regata. O professor enfileirou a turma diante de outra barra ordenando que um por um se erguesse nela o máximo que pudesse. Aquilo, na verdade, era uma disputa. O grandalhão, entre nós, franco favorito, foi um desapontamento: não chegou a três barras. Ganhou o azarão, o menor da turma, que conseguiu subir e descer o corpo sem largar a barra por sete vezes. Quanto a mim, saí-me tão bem como no trote.

No ano seguinte, na segunda série, estava com um grupo quando avistamos a garotada que acabara de entrar para o colégio, alguém falou em dar trote, mas ninguém se animou, muito menos eu.

 

 

 

2825 - chuteiradas e brizoladas


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5075                                    Data:  29 de março de 2015

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RÁDIO MEMÓRIA NO DOMINGO DE RAMOS

 

Antes de partir para o calendário, Sérgio Fortes quis saber há quanto ano tempo existe o Rádio Memória. Jonas Vieira respondeu que há uns 30 anos, e falou das duas fases do programa, a.B e d.B – antes do Brizola e depois do Brizola; que quando o governador assumiu, a Rádio Roquette Pinto se perdeu, não mais cumpria o objetivo  maior daquele que dava nome a emissora: educar.

-Quando o Brizola saiu, nós voltamos. - disse o titular do programa.

O secretário das Culturas, Artur da Távola, pôs as coisas nos seus devidos lugares.

-Vamos ao calendário, Sérgio.

-Em 1461, Guerra das Rosas: Eduardo de York derrota a Rainha Margarida e se torna o Rei Eduardo IV da Inglaterra. Jonas, essa guerra foi um prato cheio para o Shakespeare.

-Sérgio, não podia dar certo: a guerra é das rosas e a rainha se chamava Margarida.

-Em 1549, chegam os primeiros jesuítas ao Brasil. Assim, começa a história do Colégio Santo Inácio.

-Começou com os jesuítas e terminou com você.

-Não, Jonas, começou com os jesuítas, passou pelo Mário Henrique Simonsen, pelo Arnaldo Jabor, por mim e prossegue a história do Colégio Santo Inácio.

-Nesse mesmo ano, 1549, é fundada a cidade de Salvador, a primeira capital do Brasil.

-Mal os jesuítas apareceram, fundaram Salvador?

-Não, Jonas; o fundador foi Tomé de Souza. Houve uma grande festa e os baianos estão comemorando até hoje.

-Em 1638, os suecos chegaram à América e estabeleceu o primeiro assentamento permanente em Delaware chamado Nova Suécia. Jonas, nos séculos passados, os Sem-Terra da Europa procuravam assentamentos nos Estados Unidos.

-Mas esses Sem-Terra não destruíam, eles construíam.

E gostavam de trabalhar.

-Em 1693, é fundada a cidade de Curitiba, no Paraná, por Mateus Leme. Você sabe que foi Mateus Leme?

Jonas Vieira devolveu a pergunta.

-Mateus Leme participou da bandeira de Fernão Dias Paes Leme, cujo percurso se estendeu de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Ele, Mateus Leme, escolheu o lugar que seria hoje o Paraná para viver e trabalhar. Lá, expulsou alguns espanhóis, fundou a cidade, e foi designado pelas autoridades portuguesas capitão-mor de Curitiba.

-Em 1792, o Rei Gustavo III da Suécia morre depois de ter sido baleado nas costas, treze dias antes, durante um baile de máscaras em Estocolmo. Ele é sucedido por Gustavo IV.

Deteve-se nessa data, porque dizia respeito à ópera.

-Giuseppe Verdi usou o tema para escrever a sua ópera “Un Ballo in Maschera” - O Baile de Máscaras. Politicamente, a ópera era muito incorreta, havia todas aquelas lutas na Itália, aquelas discussões e a ópera foi devidamente censurada. Mas o tema era esse: o assassinato do Rei Gustavo III.

 Verdi teve de transformar o rei da Suécia em governador de Boston, na América, para a ópera ser liberada.

-Em 1809... - aparteou-se para fazer um comentário.

-Jonas, os suecos estão encapetados no calendário de hoje.

-Por que, Sérgio?

-Porque, em 1809, o Rei Gustavo IV abdica devido a um golpe de estado. Os finlandeses prometem fidelidade ao Czar Alexandre I da Rússia, encerra-se, assim, o Grão-ducado Finlândia e Suécia e essa perda traumática motivou o golpe.

-Caramba!

-Os golpistas, no ano seguinte, ofereceram o reinado da Suécia ao melhor marechal de Napoleão Bonaparte, Jean-Baptiste Bernadotte, que era casado com Desirée, o amor de Napoleão, segundo Hollywood.

-Como o imperador entregava os reinados da Europa aos seus parentes, os suecos não fora bobos, Sérgio.

-Foram bobos nada. Mais tarde, depois de 1812, Bernadotte liderou as forças suecas contra o seu antigo líder com êxito.

-Puxa!

-E a Casa Bernadotte atravessou década e séculos. O Rei Adolfo, que entregou a Jules Rimet ao Belini, na Copa do Mundo de 1958, era descendente do ex-marechal de Napoleão Bonaparte.

-Taça que foi roubada e derretida. - acrescentou o Jonas Vieira.

-Em 1871 foi inaugurado, pela Rainha Vitória, o Royal Albert Hall, em Londres. Jonas, é impressionante. Eu estive lá e fiquei perplexo; cabem 8 mil pessoas. Quem tiver acesso ao canal da BBC pode ver todos os domingos um espetáculo lá. A motivação da Rainha Vitória era homenagear o seu marido, que faleceu 10 anos antes, o Príncipe Albert. Ele era chamado de Príncipe Consorte.

Sérgio Fortes não resistiu ao “consorte” e fez um trocadilho, deixando – imaginamos – o Dieckmann e o Mark Twain de cabelo em pé.

-Em 1882, ocorre o primeiro voo, no Rio de Janeiro, de um balão dirigível, “Le Victoria”, terceiro voo no mundo, por Júlio César Ribeiro de Sousa. Ele, além de balonista, era escritor, teatrólogo, dicionarista, um talento poliédrico.

-Em 1934, Albert Einstein, físico alemão, perde a cidadania alemã.

-Que coisa!

-Jonas, num discurso na Sorbonne, em 1922, Einstein disse o seguinte: “Se a minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães que sou judeu.

-Em 1936, na Alemanha, o ditador Hitler recebe 99% dos votos favoráveis em um referendo para ratificar a reocupação ilegal da Renânia pelos nazistas, recebendo 44,5 milhões de votos dos 45,5 milhões de votos registrados.

Como diria o Nélson Rodrigues: Toda unanimidade é burra.

-Em 1945, último dia dos ataques das bombas voadoras V-1 na Inglaterra. Jonas, eis uma notícia que me surpreendeu; a guerra chegava ao fim, mas a Alemanha ainda lutava.

-Ainda tinha bala na agulha, Sérgio.

-Em 1951, Julius e Ethel Rosenberg são condenados à morte por espionagem. Eis um caso traumático, Jonas, não se sabe até hoje se eram culpados ou não.

-É verdade.

-Em 1959, o Bahia vence o Santos por 3 a 1, no Maracanã, conquistando a primeira edição da Taça Brasil. A derrota do Santos, com todos aqueles craques, Pelé, Coutinho, Dorval, foi uma coisa surpreendente.

-Foi uma zebra do tamanho do Cavalo de Troia.

-Em 1971, um júri de Los Angeles, Califórnia, condena à pena de morte Charles Manson e três de suas seguidoras. Jonas, se o Charles Mason fosse brasileiro, ele estaria preso?

-Claro que não; estaria solto e fagueiro.

-Estaria num quiosque, em Ipanema, tomando chope.

-A impunidade no Brasil é a mãe da violência. - afirmou o Jonas Vieira.

-Nascimentos. - impostou a voz o Homem-Calendário.

-Em 1746, nascia Carlo Maria Bonaparte, juiz assessor. Foi pai de 8 filhos, entre eles, um tal de Napoleão Bonaparte.

-Em 1907, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha.

-Grande Braguinha! - exclamou o Jonas Vieira.

-Em 1913, Carvalhinho, compositor brasileiro.

-Lima Duarte, ator, diretor e dublador brasileiro.

-O Zeca Diabo.

-Em 1939, Terence Hill, ator italiano, parceiro do Trinity. Fala português correntemente; casou com uma brasileira.

-Em 1951, Dick Jol, juiz de futebol. Conhece, Jonas?

-Não, Sérgio, mas a mãe dele é conhecidíssima.

-Falecimentos. - alteou a voz o Homem-Calendário.

-Em 1960, Luís Americano, grande músico e compositor.

Virtuose do clarinete.

-Em 1980, Annunzio Paolo Mantovani, maestro italiano. A minha avó, Jonas, tinha pilhas de LPs do Mantovani.

-Ele foi do tempo das grandes orquestras, Sérgio.

-Em 1982, Carl Orff, destacado compositor alemão, autor da celebrada cantata profana “Carmina Burana”.

-Em 2009, Maurice Jarre, compositor francês.

-Em 2010, Armando Nogueira.

Ele presenciou dois fatos históricos em 1954: o atentado da Rua Toneleros e a chuteirada que o técnico da seleção brasileira, Zezé Moreira, deu no ministro dos Esportes Húngaro, quando a partida entre o Brasil e a Hungria, na Copa do Mundo, descambou para a briga. Essa chuteirada, ele foi o único que teve a sorte de fotografar.

-Em 2001, morria José Alencar, ex-vice presidente do Brasil. Político importante.

-Não acho, é um dos iniciadores dessa situação que está aí.

-Jonas, se você quiser que eu exerça o meu espírito crítico, a Rádio Roquette Pinto sai do ar.

Sem dúvida alguma: bastaria o Sérgio ler dois ou três e-mails que nos envia; a coisa ficaria bem pior do que no tempo do Brizola.