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quinta-feira, 13 de março de 2014

2581 - tijolaços



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4381                         Data: 12   de março de 2014
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SABADOIDO PÓS-CARNAVAL
2ª PARTE

-Luca, como a Rosa me dá um livro com mais de mil páginas?!...
-Só de notações são mais de duzentas páginas, ou seja, outro livro. - observou o Claudio.
Luca esboçou um sorriso e defendeu a Rosa.
-Ela presenteou com a melhor das intenções.
-E ainda enviou um recado para a Gina em que dizia que, pelo menos, aquele “tijolaço” poderia servir de calço de porta,- lembrei.
-Não fale em “tijolaço” que eu me lembro dos direitos de resposta do Brizola contra as Organizações Globo. - interveio com gestos histriônicos meu irmão, que ainda se considera brizolista.
Nesse momento, Daniel apareceu na sessão do Sabadoido  com a sua transbordante alegria.
-Luca, eu te vi, endiabrado, desfilando no Bola Preta.
-Quem gosta de sambar no Bola Preta é a minha Carolina.
-Você estava endiabrado, encapetado!
-Garoto, não folga comigo... - entrou o Luca no espírito de gozação.
-Eu quero distância desses blocos; centenas de pessoas se esbarrando e não se ouvindo nada da banda.
-E mijando nas ruas. - acrescentou a Gina as suas palavras às do Claudio.
-Se eu saio em um desses blocos, ficaria falido de tanto pagar multas, pois urino de vinte em vinte minutos.
Dizendo essas palavras, levantei-me da cadeira para ir ao banheiro.
-Como diz a Rosa Grieco, eu inundo.
Momentaneamente esvaziado, retornei. Daniel falava.
-Não é que o livro seja grosso, Luca, mas a Gininha quando sobe nele, de um metro e sessenta ela passa a um metro e oitenta, e fica mais alta do que eu.
Claudio interferiu:
-Acredito que a Rosa lidera alguma revolução feminista, pois com o tempo que a Gina levará lendo esse livro, não vai poder cozinhar, ensaboar os talheres e lavar as minhas cuecas.
-Claudiomiro, eu queria ser machão como você. - vibrou o Luca, atuando também no teatro em que, por várias vezes, o Sabadoido se transforma, afinal, somos todos atores.
-Até parece que ele manda aqui. - reagiu a Gina com um gesto de desdém dirigido ao marido.
-Daniel, você não saiu em bloco algum?... Nem na Banda do Sargento Pìmenta?...
-Luca, eu gosto dos Beatles sem essas intimidades carnavalescas.
-Disse bem, garoto. - aprovou.
-Falando disso, vou tocar teclado. - fez menção de ir para o seu quarto.
-Toque samba, sim. - pediu o Claudio com um timbre que pretendia autoritário.
-Não mais falando disso, fico aqui,
-Vocês leram o caderno Prosa do Globo de hoje?
À minha pergunta, o Luca respondeu que ainda não, e o Claudio que passou a vista ligeiramente, pois teve de sair.
-Trata da biografia que o Rodrigo Alzuguir elaborou sobre o Wilson Baptista.
-Falando em biografia, como ficou essa pendenga de autorizada, não autorizada, sobre a qual não se fala mais depois de tanto estardalhaço?
Temi que o assunto se desgarrasse, mas uma resposta sucinta - “Ainda vai a julgamento.” - me ajudou.
-Um programa inteiro do Rádio Memória foi dedicado a Wilson Baptista com a presença do seu biógrafo.
-Qual o nome dele?
-Rodrigo Alzuguir; se o Sérgio Fortes não enviasse antes, por e-mail, o nome todo dele, eu faria uma salada no Biscoito Molhado em que tentei reproduzir esse programa.
-Wilson Baptista não é o compositor de...
E trauteou o Luca, erguendo-se da cadeira:
-”Etelvina, acertei no milhar, ganhei 500 contos. Não vou mais trabalhar. Eu vou mudar seu nome pra Madame Pompadour”.
-Você leva jeito, Luca. - comentou o Daniel sarcasticamente, vendo-o dançar com os trejeitos do Moreira da Silva.
-Ele polemizou com o Noel Rosa. - bradou meu irmão.
-Nada de polêmicas aqui.- advertiu a Gina, pilheriando com as discussões travadas entre o Claudio e o Luca.
Então, o Daniel convergiu todas as atenções:
-Respirem fundo, levantando a barriga... assim... Agora, expirem baixando a barriga... assim... E meditem. Dessa maneira, vocês controlam as emoções fortes.
E concluiu:
-Carlão me ensinou isso para que eu ignorasse os motoristas barbeiros.
Interrompi a brincadeira do meu sobrinho, elevando um pouco o tom da voz.
-Nesse caderno Prosa, esmiúça-se  essa polêmica musical. No Rádio Memória, não havia tempo para se tratar de tudo da vida do Wilson Baptista.
-Dessa polêmica, saíram do Noel Rosa “Palpite Infeliz” e “Feitiço da Vila”, enquanto o Wilson Baptista fez samba chamando o Noel Rosa de Frankenstein. - lembrou meu irmão com a expressão séria.
-Vou tocar teclado. - decidiu-se, enfim, o Daniel, fazendo o caminho que, há minutos, sua mãe fizera.
-Nessa reportagem, fiquei sabendo que o Noel Rosa contava com 23 anos de idade, e o Wilson Baptista, com 20.
-Ele era três anos mais novo que o Noel? - abismou-se o Luca.
-E foi muito bom também. Eu gosto muito daquele samba que fala do lenço no pescoço. - disse meu irmão.
-Eu gravei toda polêmica através do You Tube, uns quatro meses atrás. - informei.
-O sucesso do Wilson Baptista começou nessa polêmica. - frisou o Claudio.
-Nessa reportagem, que recomendo a leitura, comenta-se que, apesar de ele ter sido projetado por esse duelo musical, ficou a remissão, a expiação da figura do Wilson Baptista ao mito Noel Rosa.
-Só o fato de o Noel Rosa ter dado tanta atenção a um compositor de 20 anos de idade, já prova, cabalmente, o valor que ele tinha. - concluiu o Luca.
-Vou pegar a bebida. - disse o Claudio já de pé.
-Claudiomiro, traga o meu copo com bastante gelo.
-Vou trazer com um gelo de afundar o Titanic.
Luca virou-se para pegar na mesa o envelope que trouxe com cartas da Rosa e com recortes de jornal e passou tudo às minhas mãos.
-Não dá para imaginar a Rosa, na solidão da sua surdez, nessa época em que todos somem. - penalizou-se.
-E, para culminar, o aniversário dela caiu  na terça-feira de carnaval. - lembrei.
-Escreva um BM sobre isso. - sugeriu.
-E o Gordo de tênis de mesa, viajou?
-Ele e os outros ficaram aqui. Tenho jogado tênis todos os dias.
Depois, reclamou:
-Há uma garotada lá que me chama de decano. - indignou-se.
-Dê a sua resposta, vencendo as partidas, Luca.
Nesse instante, o Claudio retornou com dois copos de caipiroska.
-Como é o nome do livro sobre o Wilson Baptista? - perguntou-me, enquanto passava um copo para o seu amigo.
-”Wilson Baptista, o samba foi sua glória”; e tem quase 600 páginas.
-Certamente, eu o ganharei de presente. - disse o Luca, confiante.

quarta-feira, 12 de março de 2014

2580 - o carnaval



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4380                     Data: 11   de março de 2014
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SABADOIDO PÓS-CARNAVAL

-E o seu pai? - indaguei do Daniel, quando me abriu o portão em vez dele.
-O jornal chegou cedo, ele leu e foi ao Wal Mart.
-Em busca de uma promoção de cerveja?
-Provavelmente.
Entrei na cozinha. Lá, com a ausência do meu irmão, eu podia optar: a cadeira em que ele lê o Globo ou a cadeira em que chupa laranja, abanquei-me no seu lugar de leitura. Meu sobrinho se sentou no banco de alvenaria coberto de almofadas.
-Então, Daniel, a Casa da Moeda deu folga aos seus funcionários de quinta à segunda-feira seguinte ao carnaval? Quase uma féria.
-Veja bem, Carlão: nós estamos contribuindo para que haja menos engarrafamentos nas estradas. - disse-me com o seu habitual jeito folgazão.
-Não foi a Paraty como no carnaval do ano passado?
-Não, e a cidade deve estar sofrendo com o impacto da minha ausência.
-Tem praticado caminhadas?
Dessa vez, respondeu-me com seriedade:
-Com este tempo, não me animei a ir à Lagoa Rodrigo de Freitas.
-Você precisa aprender a respirar pelo diafragma.
Enquanto eu falava, apareceu a Gina.
-O Nuno Cobra pede que seus seguidores respirem pelo diafragma e, em seguida, meditem.
-O personal-trainer do Senna?... - animou-se.
Gina, que se sentara do lado do filho, não demonstrava entusiamo algum.
Continuei voltado para ele:
-Você inspira subindo a barriga, e expira descendo a dita cuja. Nuno Cobra sugere colocar um livro sobre o abdômen, mas penso que é um exagero.
-Ele manda respirar assim?... - perguntou a Gina com o rosto vincado.
-Segundo o Nuno Cobra, o pulmão fica mais oxigenado.
Gina discordou, e, mexendo com um ombro, o outro, e, se a memória não me trai, o tórax, exibiu a oxigenação plena do pulmão.
-Da respiração pelo diafragma, chega-se à meditação que nos prepara para dominar as emoções com que nos deparamos no dia a dia.
-Ora, Carlinhos, cada um é como é. - reagiu ela.
-Gina, há muitos casos de pessoas, mesmo inteligentes, que cometem até assassinatos por motivos fúteis por não controlar suas emoções. O pintor Iberê Camargo é um exemplo.
Não convencida, insistiu que uma pessoa nasce “assim” e vive “assim”.
Voltei, então, ao Aírton Senna, grande ídolo do Daniel, que nos ouvia calado.
-O Aírton Senna seguia o ensinamento do Nuno Cobra e meditava antes das corridas. No Grande Prêmio de San Marino, a TV Globo reprisou o momento em que ele meditava profundamente, e os mais apressados disseram que ele, ali, previa a própria morte.
-O Senna até que era fraquinho.
-Daniel, o Senna era fraquinho?
Antes que o filho se manifestasse, ela acrescentou:
-Até desmaiava depois das corridas.
Quem desmaiou foi o Piquet. - interveio, enfim, o Daniel.
-Ele não conseguiu nem levantar um troféu. - não se deu por vencida..
-Isso aconteceu quando levou o seu carro à vitória com apenas uma marcha, feito inédito na história da Fórmula 1. O seu esforço foi sobre-humano.- argumentei.
A chegada do Claudio do Wal Mart, sem latinhas de cerveja, veio a calhar, deu-me a oportunidade de mudar de assunto. Mal ele se sentou na sua cadeira de chupar laranja, perguntei-lhe, enquanto descascava uma:
-Gostou do resultado das escolas de samba?
-Carlinhos, eu não concebo que uma escola ganhe o carnaval exibindo carros de Fórmula 1.
Lembrei-me, então, da felicidade do Daniel, na quarta-feira de cinzas, ao se expressar, no facebook, sobre a vitória da Unidos da Tijuca com o enredo sobre o Aírton Senna: “Ídolo de criança nunca será esquecido.” - escreveu.
-Nada a ver carro de Fórmula 1 com samba. - frisou.
Daniel fez comentários, em seguida, sobre o dia chuvoso que o impediu de sair de casa.
Nesse instante, o telefone tocou: era o Luca anunciando a sua chegada para mais um Sabadoido.
-Isto aqui está um canteiro de obras. - disse o Luca ao se acomodar na sua cadeira.
-A cidade está quase toda assim. - falei, enquanto me acomodava na cadeira à sua esquerda.
-A Chaves Pinheiro está impedida para o trânsito de veículos há mais de duas semanas. - entrou o Claudio na conversa.
-Mas consegui estacionar o carro numa baia.
-Há muita gente que ainda não veio da viagem. - explicou o Claudio o porquê de ele não ter precisado parar o seu carro no canteiro que divide a Avenida Suburbana.
-Falando em viagem nos dias de carnaval, o Lopo, com passagem de 3 horas da tarde, para Rio das Ostras, ficou na Rodoviária das 10 horas da manhã até 8 horas da noite, quando conseguiu, enfim, sair no ônibus.
Ao ouvir de mim o tormento por que passara meu irmão, aludiu a do seu filho, que viajara para Casimiro de Abreu.
-Quando todos têm a mesma ideia, certo está aquele que nada contra a corrente. - filosofei.
-Ou,,,
E completou o Luca citando Nélson Rodrigues:
-Toda unanimidade é burra.
-Bem faço eu, que aqui fico ouvindo meus discos, comendo meu churrasco e bebendo minhas biritas. - jactou-se o Claudio.
-Todos ficaram aqui no carnaval? - surpreendeu-se o Luca.
Gina, que caminhava até nós, escutou a pergunta e respondeu:
-Sábado passado, fomos de manhã bem cedo ao Pão de Açúcar. Claudio não vai mesmo.
-E como estava lá? - quis saber o Luca.
-Com turistas por todos os lados; alemão, japonês, americano, argentinos...
-O número de argentinos que vem entrando no Brasil é enorme; muitos fogem do desmazelo que a Cristina Kirshner causa no país para trabalhar no Brasil.- aparteei minha cunhada, que retomou a palavra.
-Havia um lá que falava português, o engraçado era que íamos para um lado e ele para outro, mas nos encontrávamos. Ele chegou a brincar: “Outra vez!...” 
-Vejam o inferno pelo qual o Lopo passou: após tantas horas na Rodoviária, mais horas no engarrafamento da estrada.- voltei ao caso, por não me conformar com essa tortura imposta a si mesmo.
-No primeiro minuto, eu teria rasgado a passagem e pego o táxi de volta para casa. - complementei.
-Por que Rodoviária?... - indagou o Luca.
-O carro do amigo dele enguiçou. - esclareci.
-E o Vagner?... Vem hoje?... - lembrou-se dele o Luca.
Não; o cavalo – disse o Claudio alisando o peso de papel na mesa – substitui os ausentes.

terça-feira, 11 de março de 2014

2572 - O trânsito e o amigo



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4372                          Data: 01 de março de 2014
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175ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

-Rapaz, o prefeito criou o caos no trânsito com essa mão dupla na Avenida Rio Branco. Não sei, como pedestre, se o sinal está aberto ou fechado para mim, os motoristas, também não. - manifestei-me para o Meu Nobre.
Ele, por outro lado, disse que, com essa barafunda, pretendia realizar apenas corridas curtas, mas se um passageiro quisesse ir para o Centro da cidade, não havia remédio, teria de conduzi-lo e perder horas naquela loucura.
-Muitos procuram escapar evitando os ônibus e demandando os trens e o metrô. Resultado: pego o metrô às 5h 45min da manhã e vou para o trabalho amassado pela multidão. Se eu me atrasar e for para o metrô 30 minutos depois, viajo colado no vidro da porta como lagartixa.
-O Eduardo Paes não disse que se mataria caso o Brasil fosse derrotado na final da Copa do Mundo pela Argentina... Vamos torcer pelos argentinos. - foi a solução encontrada pelo Meu Nobre.
-Nesse caso, sou argentino desde pequenininho. - garanti.
-Será duro torcer pela Argentina. - mostrou-se agora dubitativo.
-Há muitas semelhanças entre os dois povos, a rivalidade certamente está nisso. Os franceses e os ingleses...
-Eles são nossos “hermanos”. - cortou-me, pronunciando a palavra espanhola com um sorriso mordaz.
-Somos mais “hermanos” do que queríamos nós, brasileiros, e eles. - frisei.
-Você pensa assim? - tornou-se a sua expressão mais séria.
-Penso. Tanto o Brasil como o Argentina são os países das oportunidades perdidas.
Pelo meneio da sua cabeça, constatei que concordava com as minhas palavras e fui em frente.
-Brasileiros e argentinos são receptivos aos políticos populistas; passam quase no mesmo tempo por governos ditatoriais... E não aprendem com as experiências passadas.
-Você me convenceu. Vou torcer nessa Copa do Mundo por uma seleção europeia. - bradou.
No dia subsequente, a corrida se deu no táxi do 014 que, dias atrás, me revelara que Saquarema é o lugar onde, na companhia da mulher e da filha, recarrega as baterias para enfrentar a neurastenia do trânsito Rio de Janeiro.
-Vai a Saquarema nesse carnaval?
-De que adianta sair de um rebuliço para entrar em outro?
-É verdade. Você vai à praia e não consegue nem pisar a areia, tantos são os banhistas esparramados pelo chão. Se pretender comprar alguma coisa, terá de enfrentar filas quilométricas. Sem falar dos preços que disparam.
-Quero a paz da minha casa.
E acrescentou:
-Prefiro Saquarema fora da temporada de turistas.
-Vinte anos atrás, mais ou menos, eu viajava para Cabo Frio nessa época agitada. Ah, a minha animação acabou rápido; uma cidade construída para 200 mil habitantes não tem infraestrutura para suportar mais de 1 milhão de visitantes.
Ouviu-me e retomou a palavra.
-Ficarei os 4 dias em casa com minha mulher e filha descansando e, uma vez ou outra, saindo para um passeio com elas.
-Não vai trabalhar como o 081? - provoquei.
-Ele é doido; tem mais de 20 imóveis, só em Maria da Graça, e trabalha no táxi todos os dias.
E deixou-me na Rua Modigliani desejando-me um bom carnaval.
Estuguei os passos para ultrapassar o passageiro do metrô que rumava para o ponto de táxi, e, assim, evitar o 017, mas não adiantou; o acelerado entrou no táxi do Paizão e não me restou outra alternativa.
É verdade que o 017 nunca ficou encaramujado nas inúmeras corridas que fez comigo no seu táxi, pelo contrário, sempre se mostrou falante, mas seu temperamento irascível, as suas histórias autobiográficas com final infeliz me deixam arredio. O próprio Paizão, taxista octogenário de excelente humor, contou-me que, certa vez, discutiu com ele e o considera “esquisito”. Mas, como disse o educador Darcy Ribeiro, devemos ler as pessoas como se livros fossem. E aditamos nós que sempre há alguma coisa nessa leitura aproveitável.
-A cidade está uma tormenta. - comentou o 017 secamente.
 -Se a gente corre risco de vida atravessando na faixa de pedestre, no Centro, imagine fora da faixa. - observei.
-Esse prefeito é uma besta que só quer levar o nosso dinheiro. - rezingou.
-Hoje, dirigindo-me para a estação Carioca do Metrô, vi que não daria tempo de eu atravessar, porque o sinal estava aberto para os pedestres e eu não chegaria a tempo; diminui, então, os passos, pois só me restava, agora, atravessar na faixa de pedestre seguinte. Eis a minha surpresa: esse sinal ficou um longo tempo fechado para os veículos e eu pude ir para o outro lado da Avenida Rio Branco ali mesmo.
Essa maluquice dos sinais de trânsito não foi só lá. Para se ir de um lugar para outro, numa distância nem longa nem curta, levava-se mais de duas horas. - informou.
-Os sinais de trânsito neste momento... Tudo, enfim, contribui para o caos. - disse-lhe.
-Agora, você veja... - pediu-me uma maior atenção.
E prosseguiu:
-Uma mulher, com a estação de Maria da Graça a 50 metros dela, me pediu para levá-la a Botafogo.
-Caramba; ela estará em Botafogo, viajando de metrô, em 40 minutos no máximo.
-E eu ficarei preso no engarrafamento com ela uma hora e meia no mínimo. Sem contar a minha volta.
-E o senhor a conduziu até Botafogo?
-Eu não posso recusar passageiros.
Lembrei-me, em seguida, que já me contara esse caso meses atrás, e percebi que ele o requentava para os turbulentos dias atuais para torná-lo mais dramático.
-Você sabe que fui multado quando voltava de Niterói, para onde transportei um passageiro?
-Isso é causa de multa?- abismei-me.
-Soube que nós, taxistas, podemos recusar passageiros que nos solicitam corridas para outra cidade que não seja o Rio de Janeiro.
-Eu não sabia.
-Eu já guiei meu táxi por Nova Iguaçu e foi uma complicação só. Lá, são ruazinhas, não há uma avenida, ou mesmo uma rua maior, que sirva de referência para nos orientar.
-E o passageiro, não ajudou?...
-Estava tão perdido quanto eu. Sorte minha de não entrar por dentro de uma favela. Pelo menos, deu um bom dinheirinho: 150 reais.
E bradou:
-Mas nunca volto lá, nem a outras cidades cheias de muvuca.
No fim do trajeto, paguei-lhe com notas de 2 reais. Ficou tão satisfeito com o dinheiro trocado que, primeira vez, chamou-me de amigo.



segunda-feira, 10 de março de 2014

2571 - Parabéns



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4371                                   Data: 04 de março de 2014
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EDIÇÃO COMEMORATIVA

Dia 4 de março de ????? nasceu Rosa Grieco.
A nossa amiga Rosa está em boa companhia e, para provar isso, pedimos licença ao Sérgio Fortes que, entre suas mil atividades, é o homem-calendário do Rádio Memória, para fazer o mesmo neste Biscoito Molhado.
Nasceram no dia 4 de março:
- 1188, Branca de Castela, esposa de Luís VIII da França;
- 1394, Infante Dom Henrique de Sagres;
- 1678, Antonio Vivaldi;
-1869, Eugênio de Castro, poeta e escritor português;
-1910, Tancredo Neves;
Morreram no dia 4 de março:
-1193, Saladino, fundador da dinastia aiúbida;
-1615, Hans von Aachen, pintor alemão;
-1832, Jean-François Champollion;
-1852, Nicolai Gogol.

Tantos foram o acontecimentos históricos no dia 4 de março que, nós, sabendo que a nossa homenageada é uma shakespeariana obstinada, vamos nos ater apenas às ocorrências que envolvem, direta ou indiretamente, a Inglaterra.
-1215, o rei João da Inglaterra presta juramento ao papa Inocêncio III como cruzado com o objetivo de obter o seu apoio;
-1461, Guerra das Rosas: o rei Henrique VI é deposto por seu primo, que se torna o rei Eduardo IV;
-1492, o rei Jaime IV da Escócia faz uma aliança militar com a França contra a Inglaterra;
-1665, o rei inglês Carlos II declara guerra aos Países Baixos, dando início à segunda guerra anglo-holandesa;
-1681, Carlos II da Inglaterra concede a William Penn o título de propriedade das terras que, mais tarde, se tornariam a Pensilvânia;
-1931; o vice-rei britânico da Índia põe fim ao monopólio estatal do sal com o objetivo de evitar a continuação de um movimento de desobediência civil liderado por Mahatma Gandhi;
-1975, Charles Chaplin é condecorado pela rainha Elizabeth II do Reino Unido.
E foi no dia 4 de março, precisamente no ano 1924, que Clayton Summy publicou a canção “Parabéns pra você”, letra e música composta pelas irmãs Mildred J. Hill e Patty Smith Hill.

Sobre o aniversário da Rosa, destacamos os seguintes depoimentos:
Agripino Grieco (seu pai): “Ao contrário de mim, que não li “Terra Encharcada”, do Jarbas Passarinho, com medo de contrair impaludismo, ela leu tudo sem medo de pegar uma doença. Ela não fazia outra coisa que não fosse ler. Acredito que leria até na lua de mel.”
Sigmund Freud: Fiquei inteiramente desvanecido ao saber que sou um dos três barbichas que deixam a Rosa Grieco arrebatada. Eu gostaria de analisá-la e, obviamente, ser analisado por ela.
Vivaldi: Rosa aniversaria no mesmo dia que eu?... Que beleza! Apesar do nome de flor, ela está presente nas quatro estações.
Jean-François Champollion: Morri no dia 4 de março de 1832, consagrado por ter decifrado os hieróglifos da Pedra de Rosetta, trazida do Egito, durante o período napoleônico. Embora eu conhecesse dezenas de idiomas, até o caldeu, persa e pahlavi, seria capaz de decifrar a Rosa Grieco? Bem que gostaria de tentar, pena que não tivesse nascido 100 anos depois.
Paulo Coelho: Meus livros foram traduzidos até no Irã, mas enquanto eu não for lido pela Rosa Grieco, não me sentirei realizado.
Camões: Há quem diga que no naufrágio que sofri na foz do rio Mekong, eu salvei o manuscrito dos Lusíadas em vez da minha amada, a donzela chinesa Dinamene, que morreu afogada. Fosse a Rosa, que vim a conhecer depois de morto, na minha vigília por este mundo de aquém túmulo, que estivesse naquele fatídico navio, eu largaria “Os Lusíadas” ao sabor do mar e a salvaria.
Castro Alves: Fui admirado pelo seu pai, que me considerava o maior poeta do Brasil, embora eu só tivesse tempo para escrever poesias até os 24 anos de idade, quando morri. Ele até recusou dar o nome de um viaduto, proposto pelo prefeito Negrão de Lima e sugeriu que eu, sim, recebesse essa homenagem, o que de fato aconteceu. Por isso, fico bastante magoado por não ser sequer citado por sua filha. Quando isso acontecer, eu sentirei, de fato, o gosto da glória.
José de Alencar: Encontro-me na mesma situação do Castro Alves. Por ocasião da efeméride dos 80 anos de Agripino Grieco, ele declarou mais de uma vez, que me considerava o maior escritor brasileiro. Contudo, a sua filha pouco fala de mim. Se eu a conhecesse quando vivi, além de “Iracema”, eu teria escrito “Rosa”, que não seria a virgem de lábios de mel, mas seus lábios não seriam menos doces.
Machado de Assis: Agripino, você não gosta de mim, mas sua filha gosta.
José Saramago: Apesar de a Rosa Grieco me considerar um “chato de tamancos”, sinto-me recompensado quando ela lê os meus romances.
Stendhal: Rosa Grieco se sente maravilhada quando lê meus romances, principalmente “A Cartuxa de Parma”? Se eu tivesse o dom de Nostradamus e antevisse o futuro, teria frequentado menos as reuniões sociais de Paris, e dedicado mais tempo ao meu ofício de escritor para ser mais apreciado por ela.
Victor Hugo: Rosa Grieco é das minhas: não deixa que o passar do tempo esfrie...

Contudo, mais importante do que o aniversário é o desaniversário devido à quantidade de dias, evidentemente, 364 versus 1.
Muitos não sabem o que significa desaniversário e nós aqui, de bom grado, tentaremos esclarecer. Trata-se de um neologismo cunhado por Lewis Carrol cuja obra magna é “Alice no País das Maravilhas”.
Em “Alice através do Espelho”, Humpty Dumpty está usando uma gravata (confundida por Alice com um cinturão) que lhe é dada como um “presente de desaniversário” pelo Rei e Rainha de Copas; em seguida, ele leva Alice a calcular o número de desaniversários por ano.
O livro “Alice através do Espelho”foi tranformado em filme, pelos estúdios da Disney, e há uma cena em que ele se depara com o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Dormindongo numa festa de desaniversário cantando “Feliz Desaniversário”. Como Alice fica estupefata, sem nada entender, o Chapeleiro Maluco lhe esclarece tudo, ela diz que aquele era também o seu dia de desaniversário, e ganha dele também um bolo para celebrar.
Apesar de Sammy Fain e Bob Hillard serem bem mais talentosos do que as irmãs Mildred J. Hill e Patty Smith Hill, ficaram a anos-luz do sucesso delas com a canção  “Feliz Desaniversário”que compuseram para o filme.
Resumindo: ninguém conhece melhor esse dia do que a Rosa Grieco, que quase todas as semanas presenteia seus amigos, principalmente, com livros. E, nada mais justo, que ela seja festejada não só no dia 4 de março.
Parabéns, Rosa, por este dia e pelos outros.