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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

2097 - begin the beguine

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3897 Data: 04 de fevereiro de 2012

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A IMPORTÂNCIA DO INÍCIO

-”Morri em...” Não me lembro o ano. (*)

Quem morreu não fui eu nem meu professor de português do 4º ano ginasial, que disse a frase acima. Explico-me: Machadiano, e meu melhor mestre no ensino do nosso complexo idioma, citou o trecho que aqui vai aspado para mostrar que Machado de Assis prendia a atenção do leitor desde as primeiras palavras de um conto ou romance. É evidente que as palavras não eram exatamente estas, mas o meu professor – recordo-me do seu nome completo, José Vinícius Frias Ruas – falava para uma turma de garotos de 16 anos, por isso se importou mais em fixar nas nossas cabeças a excelência de Machado de Assis desde o começo das suas obras.

Muitos anos depois, vi o Gabriel Garcia Marquez, numa entrevista na televisão, discorrendo sobre o tempo que dedica para alcançar a frase inicial dos seus romances. Como leitor, ele lembrou Franz Kafka, que abre o livro “A Metamorfose” magistralmente:

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso.”

O escritor colombiano aprendeu a lições dos grandes da arte literária, pois o “Amor no Tempo do Cólera” principia de uma maneira inesquecível para o leitor:

“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.”

Nunca um suicídio foi apresentado de uma maneira tão delicada.

E Gabriel Garcia Marquez prossegue:

“O doutor Juvenal Urbino o sentiu logo que entrou na casa ainda mergulhada nas sombras, à qual chegara acudindo a chamado de urgência. O refugiado antilhano Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e seu adversário de xadrez mais compassivo, se havia posto a salvo dos tormentos da memória com uma fumigação de cianureto de ouro.”

Se pedirem a alguém que leu as mais de 800 páginas de Ana Karenina, de Leon Tolstoi, que reproduza textualmente uma frase desta obra-prima, acredita-se que quase todos reproduzirão a primeira frase:

“Todas as famílias são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira.”

Leon Tolstoi dedica o primeiro capítulo da novela “A morte de Ivan Ilitch”, à repercussão do seu falecimento entre seus conhecidos do Tribunal e de casa. No segundo capítulo, o foco do escritor recai sobre o protagonista, e a primeira frase, aquela que resume Ivan Ilitch, é tão estarrecedora que se fixa logo na nossa mente:

-”A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e, portanto, das mais terríveis.”

Marcel Proust abre os sete volumes de “À Procura do Tempo Perdido” como se musicasse o cotidiano que passou.

-”Longtemps, je me suis couché de bonne heure.”

Como a melodia das palavras de Marcel Proust se esvai na tradução, muitos reproduzem esta abertura da magnífica obra no original:

-”Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n' avais pas le temps de me dire: “Je m' endors”. Et, une demi-heure après, la pensée qu' il était temps de chercher le sommeil m' éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir dans les mains et souffler ma lumière; je n' avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire; mais ces réflexions avaient pris un tour particulier; il me semblant que j' étais moi-même ce dont parlait l' ouvrage: une église, un quatuor, la rivalité de François Ier et de Charles-Quint...”

(“Durante muito tempo, deitava-me cedo. Ás vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E meia-hora depois, a ideia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V.”)

Voltando algumas décadas no passado, saindo da França para a Inglaterra, passando de Marcel Proust para Charles Dickens.

A antítese, que aprendemos na escola como figura de linguagem, foi explorada de maneira genial e insuperável por Charles Dickens nos primeiros parágrafos do seu romance “Um conto de duas cidades.”

O autor, numa das poucas vezes em que enveredou pela história, cria a sua obra em 1859. “Um conto de duas cidades” é ambientado em Londres e em Paris, antes e durante a Revolução Francesa. Charles Dickens mostra o contexto que contribuiu para essa revolução: a miséria de um lado, o elitismo do outro, sendo a opressão e a brutalidade os elos entre os dois; mostra a pobreza faminta e a riqueza luxuosa. Com a mente nesse mundo contraditório, Charles Dickens principia “Um conto de duas cidades” com uma frase antológica que ficou marcada na literatura universal.

-”Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a era da sabedoria, foi a era da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a estação da Luz, foi a estação da Escuridão, foi a primavera da esperança, foi o inverno da desesperança, tínhamos tudo à nossa frente, nada tínhamos à nossa frente, íamos todos diretos para o Céu, íamos todos diretos ao sentido oposto – abreviando, esse período era tão desigual ao presente que algumas das suas mais barulhentas autoridades faziam questão de serem recebidas, para o bem para o mal, num grau superlativo de simples comparação.”

O filho de uma amiga minha, que conheci menino, quando se formou em Economia pela PUC, por volta de 1992, enviou-me o convite de formatura, e lá estavam as palavras de Dickens de “Um conto de duas cidades”, que nós transcrevemos. O mundo continuava contraditório...

Vamos encerrar como iniciamos; com um grande escritor brasileiro.

A primeira página do romance “Iracema”, de José de Alencar, é um autêntico poema em prosa. Vale reproduzir um trecho:

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiro.”

“Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.”

(*) Não achei a menor graça nas últimas frases desta edição do seu O BISCOITO MOLHADO. Entretanto, teria adorado a primeira, caso as aspas incluíssem as aspas e o verbo decorrente da aplicação delas tornaram-se o pomo da discórdia entre o redator e o ex-revisor em busca de raízes, radicais e fundamentos da formação e uso de aspar, ou aspear mas, como ia dizendo, incluíssem toda a frase: “Morri em... Não me lembro o ano”. Vou procurar me lembrar mais tarde dela, para colocar no início do meu romance, que não será autobiográfico.

Já pensaram no impacto do quantum de esquecimento contido no ato de se esquecer da própria morte? Maior, com certeza, do que a cena de abertura de “Sunset Boulevard” quando o morto começa a narrar o filme. E que já é um impactão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

2096 - notícias e influenzas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3896 Data: 01 de fevereiro de 2012

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COMENTANDO O QUE LEIO NOS JORNAIS

50 ANOS ATRÁS (leio sempre esta seção do Globo) saía a seguinte notícia em janeiro de 1961:

“O príncipe Charles, filho da Rainha Elizabeth II, será castigado com bastonadas se cometer certas faltas, como fumar em público – declarou o Sr. T.Chew, diretor da “Gordonstow”, escola que o príncipe passará a frequentar a partir do primeiro trimestre. O diretor informou também que todas as manhãs o príncipe deverá correr pelo jardim, vestindo apenas um calção branco e uma camiseta e, em seguida, tomar uma ducha de água fria.”

Minha mãe dizia a qualquer hora que lhe perguntassem a idade do Príncipe Charles, porque eu nasci a treze meses do primeiro parto da Elizabeth II. Eu usava o mesmo método mnemônico da minha mãe: não erro a idade da rainha, porque as duas nasceram no mesmo ano, 1926.

Quanto à notícia transcrita acima... Bem, a educação inglesa forja têmperas viris. Vale lembrar, agora, a obra-prima da literatura portuguesa, “Os Maias”, de Eça e Queirós. Porque o filho Pedro da Maia se suicidou por causa de um amor contrariado, o patriarca da família culpou a influência da carolice, que ele sofrera da mãe e contratou tutores ingleses para educar o neto. Assim, Carlos Eduardo Maia, desde menino, praticou natação, remo, corridas e, depois, ia para o chuveiro de água fria. Quando a desilusão amorosa desabou sobre ele, ao contrário do pai, ele escapou com vida.

Em 1961, o príncipe Charles levaria umas bastonadas caso fumasse. Foi nesse ano que dei início à minha prática de tabagismo. Minha mãe saiu com meus irmãos e eu tratei de ir ao botequim, que ficava na esquina da Rua Honório com a Rua Cachambi, onde comprei um maço de cigarros Continental. Em casa, acendi um cigarro no outro e fumei até ficar tonto e me sentir enjoado. O mal-estar que eu senti deveria fazer o efeito das bastonadas, mas a idolatria que eu tinha pelos artistas de cinema – todos fumantes inveterados – fez-me superar aquela fase até eu me tornar viciado. Dois anos depois, eu estava fornecendo cigarro a um professor de matemática. Meu pai, por sua vez, só abriu guerra contra a bebida alcoólica: o cilindro catingoso dos filhos ele tolerava, desde que não fosse fumado na sua frente.

Não sei se, por causa do cigarro, o príncipe Charles gostaria de trocar de posição comigo, como na história de “O Príncipe e o Mendigo” de Mark Twain.

Correr de calção, camiseta e entrar numa ducha de água fria também foram a minha atividade desde que entrei no Colégio Visconde de Cairu. O desagradável era o tempo que os professores de Educação Física davam para a ducha: 1 minuto. Ora, com 1 minuto, nós estávamos ainda acostumando o corpo à friagem. Também era esse o prazo para nós vestirmos o uniforme da escola depois do banho. Um minuto era o tempo que a Josefina Bonaparte precisava para segurar uma das suas meias. Assisti, aliás, a um filme em que Napoleão Bonaparte, depois de esperar que a imperatriz se vestisse para um concerto, disse-lhe que ela levou mais tempo se vestindo do que o compositor para escrever a sinfonia que os dois ouviriam.

Essa educação sem regalias fez bem ao príncipe Charles, na vida adulta? Na minha opinião, sim, pois ele casou com quem não queria casar, por exigências do trono e depois ficou com a sua amada “bruxinha”, prevalecendo a sua vontade.

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“Em entrevista à revista britânica “New Scientist”, o físico divorciado duas vezes e pai de três filhos, citou o sexo oposto, quando perguntado sobre o que mais pensa durante o dia: -Nas mulheres, elas são um mistério completo.”

Não se trata de qualquer físico, e sim daquele que é considerado o maior deles com vida, o britânico Stephen Hawking. Palavras ditas por ocasião das festividades dos seus 70 anos.

O jornalista, que elaborou a reportagem com a frase aspada acima, deu-lhe o título: “Mulheres, um mistério para Hawking” e o subtítulo: “Aos 70 anos, físico que decifrou os buracos negros diz não entender o sexo oposto.”

Para mim, não foi surpresa, não porque ele vive numa cadeira de rodas e a sua cabeça está no cosmos, pois, mesmo assim, casou duas vezes e teve três filhos. Não foi surpresa porque Freud, que criou a psicanálise, declarou que nunca se sabe o que uma mulher pensa.

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“Em discurso de apenas 20 minutos pronunciado semanas atrás, o candidato Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara que cultiva o estilo pitbull, mencionou três vezes que a maior ameaça dos Estados Unidos seria se tornar um país parecido com a Europa. Aproveitou para mostrar um vídeo que retrata Mitt Romney, até agora o mais viável adversário de Obama, como tendo tido um passado “internacionalista” - leia-se, europeu. No vídeo, o ex-governador de Massachusetts aparece fluente na língua estrangeira que causa maior indigestão aos republicanos – o francês.”

O texto acima é da jornalista casada com Elio Gaspari, Dorrit Harazim. Ela, mais adiante, revela que o político americano que fala francês e ainda se formou na Universidade de Harvard causa engulhos aos extremistas de direita dos Estados Unidos. Aqui, no Brasil, ocorre praticamente a mesma coisa, só trocam as ideologias. É aquela velha história: os extremos se tocam. A presidente Dilma Rousseff gosta da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner, mas declara em entrevistas que é fã das músicas de Jerry Adriani (Arfff!...). Ela tem de se mostrar parecida com o povo, como o seu padrinho Lula.

Dia desses, o cronista do Globo, Daniel Dapieve, se referiu aos elogios que a presidente fez ao último livro de poesia do Ivan Junqueira e aconselhou, como um incentivo à educação do povo, que ela repercutisse o seu gosto pela arte bem feita. Não creio que consiga sucesso, pois homem culto no Brasil, de uns dez anos para cá, é sinônimo de pedante.

No artigo da Darrit Harazim, ela alude às French fries (Fritas francesas, nome com que Thomas Jefferson batizou as batatas fritas). Dois congressistas republicanos irados, porque a França votou contra a invasão do Iraque, em 2003, conseguiram trocar o nome das French fries, servidas nas lanchonetes e restaurantes do Capitólio, para liberty fries. Depois de um tempo, o nome dado por um dos pais da nação americana retornou.

A batata é originária do Peru e a batata frita nem francesa é, veio da Bélgica.

Por hoje, é só.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3895 Data: 31 de janeiro de 2012

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VARANDÃO DA SAUDADE

Na página social do Globo, apareceu o administrador de empresas Gil Ferreira, trajado de tirolês, quando era pequerrucho, lembrando que, no tórrido carnaval de 1951, o pai dele parou para beber uma cerveja, enquanto ele e a mãe tomavam hidrolitol.

Apesar de, no início da década de 50, me fantasiarem de chinês e, segundo minha mãe, eu ter alcançado tamanho sucesso que cheguei a ser filmado, não me recordo do hidrolitol.

Não faz muito tempo, o decano dos nossos colegas de trabalho citou essa bebida e foi chamado de último sobrevivente dos dinossauros. Uma hora depois, quando as brincadeiras cessaram, acerquei-me dele e perguntei sobre o hidrolitol.

-Carlinhos, era uma bebida carbonatada, que refrescava muito.

Como eu aprendia muito com ele, não o deixava sem perguntas:

-Você começou a trabalhar muito cedo...

-Com treze anos de idade.

-Pegou, então, a época anterior a Xerox.

-Carlinhos, nós usávamos como copiadora, o forninho.

E ele explicava o funcionamento da geringonça, que esquentava muito, daí o nome, enquanto eu queria saber, depois, de algum semelhança com o mimeógrafo, patenteado por Thomas Edison.

-O mimeógrafo fedia muito a álcool. - criticou.

-Trabalhei no Jornal do Brasil, como estagiário, lidando com os anunciantes das sete principais rádios do Rio de Janeiro, impressos em papel mimeografado. Antes de ir para casa, tinha de me lavar no banheiro para tirar a tinta que passava para os meus braços. - lembrei.

-O forninho era melhor que o mimeógrafo. - garantiu,

-E os cinemas do seu tempo de garoto?

-Ali na Rua da Carioca, onde hoje é a Sapataria Polar, ficava o Cine Ideal. Era o único cinema do Brasil, talvez da América Latina, que abria o teto e o céu se descortinava todo para nós. Era bom pra fumar.

-Eu li que o Cine Ideal foi frequentado pelo Ruy Barbosa que, aliás, era um cinéfilo. - aparteei.

-Deve ter sido, porque ele foi inaugurado em 1909 e durou até 1961.

-Tenho certeza que Ruy Barbosa o frequentava. Ele escreveu páginas de exaltação ao cinema, que o fazia conhecer lugares onde fisicamente ele não poderia estar. - insisti.

-E o Colubiazol, Carlinhos? Você ainda se lembra?

-Ainda usam, hoje, como spray, mas como era antigamente... - estremeci, mas continuei:

-Quando eu apresentava um probleminha na garganta, e a minha mãe se aproximava de mim com o dedão vermelho...

-Você quer dizer, Carlinhos, que a sua mãe envolvia o dedo indicador de algodão e, em seguida, o encharcava de Colubiazol?

-E dizia que ia pincelar minha garganta. Eu trincava os dentes, mas ela abria a minha boca... Meu pai usava tamancos, mas ela não recorria às tamancadas. Depois de me pincelar a goela, eu tossia e fazia um escarcéu dos diabos.

-Era incômodo, mesmo. - concordou.

-Dia desses, perguntei à minha mãe sobre o Colubiazol, e ela relembrou um problema que esse remédio lhe provocou quando o usou em si mesma, em spray. Ela repreendeu duramente o médico que o receitou.

-Mas o hidrolitol é do seu tempo, também, Carlinhos, você tem certeza que não conhece?

-Você falou que refrescava, e eu, quando saía do Manoel Bomfim, onde estudei dos 7 aos 11 anos, mitigava o calor com o sorvete Jajá de Coco.

-Uma vez, o Luís Fernando Veríssimo escreveu que chupava Jajá de Maracujá, os leitores disseram que ele estava errado, mas apareceram outros leitores do Globo afirmando que existiu Jajá de Maracujá. Estão doidos. - exaltou-se.

-Quando não havia Jajá de Coco, eu poderia optar pelo sorvete de maracujá, de abacaxi e de limão.

-O sorvete de abacaxi era o Kalu e o de Limão, o Tombon - esclareceu.

-Sem falar no Chicabon e no Eskibon.

-Eskibon era mais caro. - assinalou.

Quando não eram os sorvetes, no meu tempo de primário, eram algodão doce e pipoca, as guloseimas. Nunca gostei de pipoca salgada, só a que chamavam de pipoca de mel. Não fui também atraído pelo algodão doce, parecia que eu estava comendo a barba do Papai Noel.

-Eu não gostava também.

No ginásio, eu me tornei mais independente, ou seja, o dinheiro saía do meu bolso, antes, saía da bolsa da minha mãe, com exceção dos sábados, quando meu pai me buscava da escola.

-E o que você bebia no tempo do ginásio?

-Na cantina do Visconde de Cairu, eu pedia Grapete ou Crush.

-Hidrolitol não se vendia em cantina de escola. - disse ele.

-Eu tinha lido sobre essa bebida, anos atrás, numa crônica do Ivan Lessa. - esclareci.

-Você lembra, Carlinhos, quando lançaram o Vakamoto no Brasil?

-Como eu vou esquecer?!... Eram as pílulas que nos deixariam saudáveis como um touro.

-Ainda bem que não era um tônico como o que o Bolinha da Luluzinha tinha de engolir.

-Era a época da recuperação do Japão, do milagre econômico deles, então tudo que vinha de lá repercutia como maravilhoso.

-E você se sentia melhor com Vakamoto, Carlinhos?

-Eu me sentia melhor mesmo depois de assistir a um filme, no cinema. Parecia que eu, sim, dei porrada nos bandidos, matei os índios, beijei a noiva. Eu saía do cinema energizado. Com Vakamoto, devo ter tomado umas trinta pílulas, não sentia alteração alguma, creio que aquilo era placebo.

-E o radinho de pilha?

-O primeiro que eu vi foi um Spica. O marido da irmã mais nova da minha mãe apareceu com um, na casa da minha avó, quando era noivo. Fiquei tão fascinado com aquele radinho, que nos acompanhava para todo lugar que, muitas vezes, atrapalhei o noivado dos meus tios.

-Ele tinha de se decidir: ou largava o radinho, ou largava a sua tia. - foi meu amigo solidário comigo.

-Penso que ele tinha medo de eu deixar o Spica cair no chão, se ficasse aos meus cuidados.

-E a sandália de dedo japonesa? - perguntou.

-As coisas do Japão eram uma febre mesmo, naquela época. - comentei.

-Você usou as sandálias japonesas, quando apareceram aqui?

-Apesar de eu só ter treze anos de idade, já tinha visto a ópera Madame Butterfly e ela usava aquelas sandálias. Então, eu disse que tais sandálias não eram coisa de homem, que eu jamais as usaria na minha vida. Mudei de opinião logo: eram bem melhores que os tamancos calçados por meu pai.

Como as tarefas do dia exigiam a nossa presença, demos a nossa conversa por encerrada.

2094 - alternantes, felizes dissonantes

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3894 Data: 30 de janeiro de 2012

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O SABADOIDO SOB CHUVA

PARTE III

-Há certas letras de música que eu mudaria. - disse o Luca sem se mostrar encabulado.

-”Chega de Saudade”, por exemplo, com aquelas palavras “beijinhos”, “carinhos”...

-O Vinícius colocava uns diminutivos... - criticou o parceiro de Tom Jobim, o Cláudio.

-A produção de letras do Vinícius era industrial? - perguntei, fazendo-me entender em seguida.

-Quero dizer que o Vinícius de Moraes colocava letra numa música com extrema rapidez.

-Sem dúvida. - concordou o Luca.

-Eu li a biografia do Vinícius de Moraes, escrita pelo irmão do Toquinho, em que ele revela que levou quinze dias para escrever a letra de “Chega de Saudade”. A música popular brasileira tinha o choro e o samba, como gêneros musicais e ali estava a canção que inaugurava outro gênero de musica, a bossa nova. A canção começa em tom menor e passa para tom maior, Vinícius penou para ajustar as sílabas às notas musicais. Mas com a sua letra, ele deu cara à bossa nova; daí vieram letras despojadas, sem dramas, como “O Pato”...

Cláudio e Luca reclamaram (*) em uníssono de “O Pato” e eu citei, então, “O Barquinho”, “Lobo Bobo”, “Desafinado”...

Não, não cheguei a exemplificar com “Desafinado” porque o Luca bradava altissonante, que ele sempre afirmara que Tom Jobim e Vinícius de Moraes formaram a maior dupla da música popular brasileira.

Menos enfático, acrescentou que eu dissera que o Tom Jobim homenageou o chorinho no arranjo de “Chega de Saudade”.

-Arthur da Távola, num programa dele na Rádio MEC, chamou a atenção para as primeiras notas do arranjo que representam um chorinho.

Luca trauteou o início para confirmar que há uma mudança repentina quando entram as sílabas de “Chega de Saudade” com a melodia.

Cláudio teceu loas ao Tom Jobim, enquanto o Luca se referia às críticas do Vinícius de Moraes à letra do Braguinha para “Carinhoso”.

-Com chuva, o Vagner não aparece. - disse o Cláudio, sem desviar o assunto em discussão.

-Diziam que o Manuel Bandeira considerava um verso do “Chão de Estrelas do Orestes Barbosa como o mais bonito da nossa poesia.

Citaram um verso que não era o da maior predileção do poeta da “Estrela da Vida Inteira”

-Tu pisavas nos astros distraída.” - disse e prossegui:

-O Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica ao Chão de Estrela. Segundo ele, o último verso, que deveria ser o fecho de ouro, esculhamba com todo o poema. Ele considerou inteiramente infeliz o verso derradeiro: “a cabrocha, o luar e o violão”. Por que Paulo Mendes Campos não apresentou, então, um verso melhor, nessa crônica? Não quis passar de estilingue à vidraça.

Vale lembrar que, nos últimos anos de vida, Paulo Mendes Campos publicou no Globo inspirados poemas que até elogios do Millor Fernandes ganhou. Conta o poeta Geraldo Carneiro que, ao encontrá-lo, alardeou o seu talento, a mão segura para a poesia, e recebeu esta resposta: ”Não adianta... Eu não gosto de mim.”

-O Vinícius de Moraes, quando deu para escrever aquelas letras baianas, não foi mais o mesmo.

-Luca, nessa época, ele bebia litros de uísque. - contemporizei.

-O Tom Jobim também bebia e nunca perdeu a qualidade de compositor. - devolveu.

Gina, que havia chegado no carro da irmã, voltou para arrematar as compras da manhã, enquanto o Daniel preferia ficar recolhido na sala da televisão, embora a chuva já tivesse passado.

-Falei para o meu amigo Elio Fischberg que você, Claudiomiro, e o Carlinhos, conhecem cinema profundamente.

-Alguma coisa, Luca.

-Vocês estão sendo modesto.

Depois de pôr a mão num envelope, tirou uma crônica do Ruy Castro, e começou a lê-la. Tratava-se da história de Carlinhos, um cinéfilo, que acreditava no céu, e que lá, se encontraria com Frank Capra, seu ídolo, Com o cineasta, conversariam sobre “Galante Mr. Deeds”...

-Gary Cooper. - aparteou o Cláudio.

-Grande Gary Cooper! - vibrou o Luca.

-Frank Capra dirigiu ótimas comédias e o Cary Grant foi um ator perfeito para elas.

-Tudo bem, Carlinhos, mas Gary Cooper foi um excelente ator.

-Depois da intervenção do Cláudio, Luca retomou a leituras.

-... ”Eles conversariam sobre “Adorável Vagabundo”.

-”Do Mundo Nada Se Leva”, “Aconteceu Naquela Noite”, “Este Mundo é Um Hospício...” - espocaram as obras do grande diretor.

-”Carlinhos conversaria sobre Gary Cooper e James Stewart...”

-Ruy Castro deveria citar também o Cary Grant. - intervim.

-”Se Carlinhos não encontrar Frank Capra, poderá conversar com John Ford, Billy Wilder...”

Não sei se o Luca concluiu a sua leitura sobre Elia Kazan que, apesar de excelente cineasta, caiu em desgraça entre as pessoas éticas porque delatou colegas na época do Macartismo.

Gina chegou e, depois de trocar algumas palavras, foi para dentro de casa.

Voltou-se ao “Galante Mr Deeds”, não para falar dos nomes do filme, alguns bizarros, que recebeu: “Doido com Juízo”, em Portugal; “L'Extravagant Mr Deeds”, na França; “É arrivata La Felicità”, na Itália; “El Secreto De Vivir”, na Espanha. Falou-se especificamente do protagonista.

-Gary Cooper não atuou também em “Adeus às Armas”?

-“Adeus às Armas” é com Rock Hudson. - disse o Cláudio.

Adivinhei que o Luca fazia confusão com os livros de Ernest Hemingway que se transformaram em fotograma de celulóide e disse-lhe que Gary Cooper protagonizara “Por quem os sinos dobram”

-Você tem certeza?

-Luca, assisti ao “Adeus às Armas”, no Cine Cachambi, levado pela minha mãe num sábado à noite.

-É um filme de guerra.

-Isso, Claudiomiro, é um filme de guerra.

-”Por quem os sinos dobram” é um filme ambientado na Guerra Civil da Espanha e “Adeus às armas”, na Primeira Guerra Mundial. - ficou esclarecido.

Luca, depois de se referir ao desentendimento entre Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, disse que a Glória queria assistir, à noite, “Emilinha e Marlene”.

-São duas horas e quarenta e cinco minutos dentro de um teatro; eu não aguento. - justificou-se.

-Há óperas que duram mais de três horas.

-Claudio, se a ópera for de Wagner, dura mais de quatro horas.

-Muita coisa. - suspirou o Luca.

-Nesta semana mesma, eu assisti ao “Tristão e Isolda” de Wagner, em DVD, encenada no Scala Mundial, há poucos anos. Vi o primeiro ato na segunda-feira, o segundo na terça, e o terceiro, na quarta.

Só quando o Luca pegou de novo a palavra, atentei para o fato de a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, ter comparecido a essa récita. É verdade que só filmaram as autoridades italianas e árabes antes do início do espetáculo, e eu tive de recorrer à memória.

-Convenci a Glória a assistir outra peça de teatro hoje à noite.

Quando voltei do banheiro, pensando em não esquecer o guarda-chuva na hora de ir embora, encontrei os dois falando do desabamento de três prédios da Avenida Treze de Maio.

-Alguns, que escaparam, dizem: “Foi Deus”. E os que não escaparam?... Vamos supor que o meu filho e o Daniel vão viajar, o meu filho desiste e o avião cai. Eu vou dizer: “Foi Deus”? E para o Daniel, não foi Deus, não?!

-O que tem o Daniel?- perguntou a Gina da cozinha.

-Ouvido de mãe escuta tudo. - falei para o Luca.

Em poucos segundos, aparecia o Daniel no Sabadoido, informando que faria um seguro de vida.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO é um fã da Bossa Nova e, vez por outra, topa com comentários de nariz torcido sobre a densidade das letras da época. Talvez isso possa ser debitado às gerações que não escutaram as músicas imediatamente anteriores à chegada da Bossa Nova. As letras eram densas, sobre corações dilacerados, abandonos hediondos, traições, ciúmes e outras deturpações da alma e da paixão. Quando a Bossa chegou com a praia, o rebolado, o barco, não foi só a alternância de tons dentro da música que veio como inovação, mas toda a referência. Os temas largaram as agruras da alma e buscaram objetos, adjetivos e locações que combinassem com a leveza que se propunha musicalmente.

Interessante que Chega de Saudade é, ao mesmo tempo, uma letra inovadora e um basta nos trituradores da alegria, desde o título até os beijinhos, peixinhos e abraços.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2093 - difícil de batizar

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3893 Data: 29 de janeiro de 2012

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SABADOIDO SOB CHUVA

PARTE II

Depois que o Daniel liberou para mim o computador, procurei o último vídeo do Dieckmann, mas me deparei com um em que aparecia a Jane Fonda. Claro que não foi o Dieckmann que a filmou, e o remetente também não era ele e sim, o Evandro Verde. Tratava-se, vi logo, de uma palestra de 11 minutos da atriz. Sabedor que ela estuporara muitos joelhos com a ginástica “step” que divulgou, em anos pretéritos, eu não estava com muito ânimo, porém, influenciado pelo sobrenome do remetente, que considerava o filmezinho imperdível, fiquei esperançoso e teclei para vê-lo.

Jane Fonda bela, apesar dos seus 72 invernos, falava dos 34 anos de acréscimo de vida que ganhamos sobre os nossos avós. Claro que era uma média, senão o Brasil teria de suportar o José Sarney até os 124 anos de idade, pois parece que a avó dele se foi aos 90.

Sem a cultura de Cícero, no seu “Da Velhice”, mas convincente, Jane Fonda mostrou com argumentos sólidos que essa sobrevida não representa decadência. Citou a 2ª Lei da Termodinâmica, que trata do declínio depois de alcançado o ponto máximo – a entropia – e rebateu com a filosofia da escada: nós podemos viver como quem sobe degraus.

Ela, apesar de não estar tão viçosa como no tempo em que filmou Barbarella e nem tão saltitante quanto na época do “step”, é uma prova viva que melhora com a idade.

Dieckmann, por sua vez, no seu filme, mostrou mais interesse no passado e exibiu um Citroën que me lembrou o assassinato na Ladeira do Sacopã. O carro recebeu umas demãos de tinta e o Roberto Dieckmann resolveu subir numa grua para filmá-lo de diversos ângulos. Houve momentos em que eu julguei ver um telefone gigante. Não havia atores, atrizes, pratos de comida...

-Será que o Dieckmann não conseguiu financiamento da Petrobras?!... - pensei com os meus botões.

Eu espiava, agora, as mensagens eletrônicas do Elio Fischberg, enquanto as vozes do Luca e do meu irmão chegavam até mim. Quando o Claudio saiu para ajudar a Gina, que vinha das compras, no transporte das sacolas, o Daniel fez sala ao Luca, melhor, fez garagem, pois lá se encontravam eles.

Lula ironizava as horas que eu dedicava ao computador, naquele Sabadoido, enquanto o Daniel se reportava à maneira decidida da Kiara de acabar com a minha navegação internética. Naquele momento, no entanto, eu procurava saber o que aconteceu no meu trabalho na semana em que estive fora. O segundo prazo de um Processo Administrativo Contencioso se esgotava porque todos resolveram fruir férias ao mesmo tempo e se dizia no e-mail que não é legal mais uma prorrogação.

-Por hoje, chega!

Desliguei o computador e rumei para a sessão do Sabadoido.

Como se falava de Música Popular Brasileira, eu trouxe à baila a crítica que o Luca fez ao Caetano Veloso, quando voltávamos do Adegão, na quarta-feira, porque citou, na sua crônica, um desentendimento entre a Elis Regina e a Nara Leão.

-Luca, depois fiz umas pesquisas e soube que a Ellis Regina, como pessoa, era intragável.

Luca, para ser mais enfático, saltou da cadeira e elevou a voz em algumas oitavas.

-A Maria Betânia destratou aos berros uma pessoa menos qualificada num show. As divas são assim.

Retomei a palavra:

-Era uma constante no mundo artístico a Ellis Regina destratar a Nara Leão. Diziam que ela tinha uma paciência de Jó por suportar tanta agressão. Ela até patrulhava a Nara Leão, dizendo que ela cantava bossa nova, samba de morro e até iê-iê-iê. Ora, a Ellis Regina gravou musiquinha do Pelé.

-Carlinhos, duas porcarias. - aparteou o Cláudio.

-Na concentração do Santos, o Coutinho conta que escondiam o violão do Pelé porque ninguém o suportava arranhando aquilo. - lembrei.

-O Tom Jobim também não gostava da Ellis Regina.

-Certamente, chamaram a atenção dela, pois ela mudou uma letra para dizer “Quando não sou eu, é Nara Leão”.

-É verdade, Carlinhos. - disse o Luca.

-E outra coisa: a Nara Leão era queridíssima no mundo artístico, mesmo com a sua voz pequena.

-Era. - concordou o Luca.

-Eu me recordo do Carlos Imperial, quando a Ellis Regina e o Ronaldo Bôscoli casaram: “O diabo juntou os dois.”

E fiz, em seguida, uma ressalva:

-Não se discute aqui a belíssima voz da Ellis Regina.

Luca pegou um recorte de jornal, com uma reportagem sobre a Nara Leão e leu alguns dos fatos mais marcantes da sua vida.

-Pena que ela morreu tão jovem. - lamentei.

-A filha cuida da memória dela. - disse o Claudio.

-A Nana Caymmi sofreu horrores com a Maysa e Ellis Regina, quando cantou “Saveiros” no Festival Internacional da Canção. - trouxe eu outra vítima do serpentário artístico.

-A Nana Caymmi deixava os irmãos constrangidos falando para os outros que o pai dela ficou em cima da mãe...

Às palavras do Luca, berrei:

-”Ô, pernão.”

-Isso a Nana Caymmi gritou de dentro do carro, quando viu o Chico Buarque fazendo caminhada.

-Carlinhos, o que você disser sobre o Chico Buarque, o Luca conhece. - observou o Cláudio.

-Existem artistas de que eu gosto, mas eles lá e eu cá. O Carlinhos falou no meu carro, na quarta-feira, como era difícil conviver com Mozart.

-Mozart nasceu, praticamente, pronto. Com 5 anos, pegou o violino e tocou. O pai tratou de explorar o filho e, assim, ele se apresentou para os Habsburgo, reis e papas. Muito cedo, também, já compunha. Mozart viveu 35 anos com uma infância mal resolvida. Como era maçom e estava em dificuldades financeiras, um admirador da maçonaria viajou com ele custeando as despesas. Mozart se mostrou tão agitado (não era para menos, pois a inspiração lhe chegava aos borbotões, escreveu 22 mil páginas de música) e tão desagradável, o Mecenas não suportou e se desentendeu com ele.

-Fulano (não me recordo o nome) disse que Tom Jobim foi melhor do que Mozart. - aparteou-me o meu irmão com um sorriso provocador.

A piada era tão ruim, que nem deu para rir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

2092 - camas e depressões

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3892 Data: 29 de janeiro de 2012

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SABADOIDO SOB CHUVA

Anos atrás, quando programava idas às praias, eu me irritava com a previsão do tempo, pois não tinha uma resposta decisiva, podia chover, fazer sol, ou ficar nublado, era como se os técnicos do Serviço de Meteorologia jogassem sempre triplo, na loteria esportiva. Agora, não; na quarta-feira, por exemplo, quando o asfalto há dias fumegava com o sol, ouvi a previsão de frente fria na sexta-feira e olhei com carinho para o guarda-chuva.

Pensava no que vai acima escrito, remanchando ainda na cama, enquanto a chuva caía.

-Hoje, o Sabadoido será debaixo d´água.

No dia anterior, a temperatura caiu consideravelmente, e a minha mãe, que costuma, nessas horas, dizer que é assim que as crianças caem doentes, só agradeceu pela ida do calor senegalesco.

Quando saí para caminhar durante uma hora, não caiu uma gota, mas minutos depois, fui para o Sabadoido protegido por um guarda-chuva.

Quando o Daniel aparecer para abrir o portão, direi que craques como ele jogam tanto no seco quanto no molhado.

Como soía acontecer nas minhas chegadas de manhã cedo, para o Sabadoido, meu irmão estava sentado à mesa com o jornal nas mãos.

-Estou na primeira página, logo termino. - avisou-me.

Você é igual ao pai; lia o jornal de trás para frente, porque começava com a página do futebol.

-Hoje, há um caderno dedicado ao esporte, mas sigo o costume.

-Não me lembro, Cláudio, de 1960 para cá, de ficarmos um dia sem O Globo.

-E o papai trabalhou no Diário de Notícias, na Vanguarda, no Informador, no Mundo Ilustrado, em várias publicações e nunca no Globo. - registrei.

-Do Diário de Notícias, ele partiu para o DNER.

-Tenho acompanhado a minissérie “Os Kennedys.” - mudei de assunto.

-E o John Kennedy já se tornou presidente?

-Você sabe que a disputa com Richard Nixon, vice-presidente do Eisenhower, foi acirradíssima. O patriarca da família, Joseph Kennedy, sabia que precisava dos votos de Chicago para vencer em Illinois, colégio eleitoral fundamental.

-Ele era o cabeça de tudo?...- comentou com rispidez.

-Ele era o motor e colocou o Robert Kennedy para coordenar a campanha do irmão mais velho.

-A chapa do John Kennedy era formada com o texano Lindon Johnson. - lembrou meu irmão.

-Como eu dizia, eles precisavam ganhar em Illinois para chegar à presidência. Então, a minissérie mostra o Frank Sinatra servindo de intermediário de um encontro entre o Joseph Kennedy e o mafioso Sam Giancana, sucessor do Al Capone, que controlava os sindicatos de Chicago e manobrava os cabos eleitorais da cidade.

-O ator Peter Lawford, que pertencia à turma do Sinatra, era casado com a Patrícia Kennedy, irmã do futuro presidente. O John Kennedy, através dele, conheceu o Frank Sinatra e participou com ele de umas farras.

-Sim, Cláudio; a máfia sempre investiu em artistas de Hollywood. Quando o Bugsy e outros mafiosos construíram Las Vegas, se beneficiaram do George Raft, que levou muitos artistas para divulgar a cidade deles. Depois, o Frank Sinatra, com a fama que possuía, se tornou o queridinho da máfia.

-E o Frank Sinatra levando o Joseph Kennedy ao Sam Giancana?... - impacientou-se.

-Neste ponto, a minissérie falha, pois mostra o pai do Kennedy dizendo duas frases vazias, o Sam Giancana falando um tanto agressivamente. Joe Kennedy pega o chapéu e antes de sair o mafioso lhe pergunta se ele era, de fato, amante da Gloria Swanson. Ora, Cláudio, um negociador como o patriarca dos Kennedy não se encontra com o chefão da máfia para não tratar do que lhe interessa.

-Todo o mundo sabe que esse acordo dos Kennedy com a máfia saiu.

-O que a minissérie mostra?... O Frank Sinatra convencendo o Sam Gincana como a máfia ganharia com a eleição do John Kennedy. Ora, o mafioso foi interrogado pelo Robert Kennedy, em 1957, precisaria, portanto, de garantias para apoiá-lo. O filme, depois, mostra um Frank Sinatra como um leva e traz, levando esporro dos dois. O Joe Kennedy bate o telefone na cara dele...

-Sei que o John Kennedy se torna presidente dos Estados Unidos graças a esses votos de Chicago e que, pouco depois, a máfia passa a ser incomodada pelo irmão do presidente. - interveio o Cláudio.

-Sim, o Robert Kennedy, como Procurador-Geral da República, investigou a máfia. Houve mafiosos que, sentindo-se traídos, quiseram matar o Frank Sinatra. Assisti a um documentário em que o Sam Giancana controla os que pretendiam acabar com o cantor dizendo que ele entrou nessa história como otário.

-Sei que o Frank Sinatra tomou ódio dos democratas e se tornou um republicano empedernido.

-Interessante também é o relacionamento do Robert Kennedy com o seu subordinado, o chefe do FBI, J. Edgar Hoover, que sabia da vida de todo o mundo.

-Depois, todo mundo soube da vida dele, que era louco por rapagões.

-Naquela época, a imagem dele era irretocável; conseguira, praticamente, expulsar o Charles Chaplin dos Estados Unidos.

-O Clint Eastwood fez, agora, um filme sobre o J.Edgar Hoover; não sei se o Leonardo di Caprio se saiu bem no papel.- falou meu irmão.

-Já presidente dos Estados Unidos, o John Kennedy recebeu, de madrugada, na Casa Branca, uma mulher. Dias depois, o J. Edgar Hoover pediu uma audiência ao presidente e mostrou as fotos que o FBI tirou da mulher entrando e saindo do encontro. E informou que ela era amante do Sam Giancana.

-E o chefe dele?

-O Robert Kennedy esteve presente nessa audiência. - respondi ao meu irmão.

-Ah, bom, o J.Edgar Hoover tinha de respeitar a hierarquia.

-Essa mulher e outras passavam pelas camas do Frank Sinatra, do Sam Giancana e do John Kennedy. Mas é o Chefe do FBI que informa os irmãos sobre um encontro entre o pai deles e o maior mafioso de Chicago.

-E o que acontece?

-Os dois convocam o pai e cortam o cordão umbilical, ou seja, o Joseph Kennedy não poderia negociar mais em nome dos filhos.

-E ele? - quis saber meu irmão.

-Ele se sentiu como no dia em que levou o pontapé na bunda de Franklin Delano Roosevelt, quando embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra. Aposentado em casa, deprimido, teve um derrame e perdeu a fala. (*)

Nesse instante, o Daniel apareceu com sua alegria esfuziante falando de futebol.

(*) Pudera, o Joe Kennedy era embaixador lá e defendia os nazistas; ficou deprimido porque quis.