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segunda-feira, 8 de abril de 2013

2354 - o sobrinho que era filho 2


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4154                                   Data:  22 de  Março de 2013
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84ª VISITA À MINHA CASA
2ª PARTE

-Você já obtivera a sua formação jurídica?
-Sim, mas o estudo das leis não era para mim.
-Como Goethe.
-Se você insiste na comparação...
-Hoffmann, você transitou bem na sociedade polonesa?
-Passei os melhores anos da minha vida na Polônia prussiana. Encontrei lá a atmosfera que vivi em Berlim.
-Encontrou velhos amigos e se deu muito bem com o colega jurista, Hitzig, que seria seu biógrafo.
-Hitzig ampliou meu horizonte cultural, pois pertencia ao Nordstern, grupo literário de Berlim. Ele me mostrou as obras de Novalis, Calderon, Gotthilf, Carlo Cozzi e outros. Transitei, também, num círculo admirável de intelectuais.
-Mas não há bem que sempre dure, ainda mais nos primeiros anos do século XVIII.
De fato. Em novembro de 1806, durante a Guerra da Quarta Coalizão, as tropas de Napoleão tomaram Varsóvia e os burocratas prussianos como eu perderam o emprego. Em janeiro de 1807, minha mulher, com nossa filha de dois anos, voltou para Posen, enquanto eu intentava ir a Viena ou a Berlim. Caí doente, o que atrasou as coisas, As autoridades francesas me recusaram o passaporte para Viena, fui para Berlim, mas visitei, antes, minha pequena família em Posen.
-Em Berlim, você estava resolvido a promover a sua carreira de escritor e de músico?
-Estava, mas a má sorte me perseguia. Com a cidade ocupada pelos franceses, meu dinheiro era escasso; tive, então, de recorrer aos amigos. Eles não me recusavam os empréstimos, apesar de a situação financeira deles não ser das melhores. Passei fome e soube que a minha filha tinha morrido.
-Mas o infortúnio não secou a sua fonte de inspiração.
-Compus “Seis Cânticos para Coro a Capela”, que me consolou.
-Consideram uma das suas melhores composições.
-Em 1º de setembro de 1808, fui para Bamberg, com minha mulher, onde consegui o emprego de administrador de teatro. Tentei melhorar o padrão das encenações, provoquei enciumadas, vieram as intrigas e eu fiquei sem emprego.
-E o que fez?
-Consegui o cargo de crítico musical de um periódico de Leipzig, Allgemeine Musikalische Zeitung. 
-Nos seus artigos, você divulgou a genialidade de Beethoven.
-Fiquei extasiado, principalmente, com a sua Quinta Sinfonia.
-Nessas suas páginas, o seu personagem “Kapellmeister Johannes Kreisler” faz sua primeira aparição.
-Eu madurava o personagem.
-Hoffmann, a sua grande virada aconteceu em 1809, com a publicação de Ritter Gluck, a história de um homem que acredita ter encontrado o compositor Gluck, morto há vinte anos. É uma das suas histórias fantásticas que exerceriam grande influência na literatura universal; Edgar Alan Poe que o diga.
-Não se esqueça que Jean Paul já abrira esse caminho e eu continuei.
-Nessa obra, você acrescentou um A ao seu nome.
- A de Amadeus, uma reverência minha ao gênio de Mozart. Passei a me chamar Ernst Theodor Amadeus Hoffmann; troquei o Wilhelm por Amadeus.
-No ano seguinte, você trabalhou no Teatro de Bamberg, como decorador e autor de peças a serem encenadas.
-E ainda dava aulas de música.
-Foi quando você se apaixonou por uma das suas jovens alunas?
-A graciosa Julia Marc. Mas a mãe dela entrou em cena e acabou com tudo.
-Profissionalmente, as coisas pareciam melhorar para você quando, em abril de 1813, Joseph Seconda lhe ofereceu o cargo de diretor musical da companhia de ópera em Dresden.
-Com a deflagração da Guerra da Sexta Coalizão, as barreiras cresceram à minha frente.
-O império napoleônico começou a sangrar depois da desastrada campanha na Rússia e os seus adversários, sentindo cheiro de sangue, atacaram. - comentei.
-O caminho de Leipzig a Dresden foi interrompido pela bombardeamento das pontes. Supliquei por carta a  Joseph Seconda que me enviasse um adiantamento em dinheiro. O meu bálsamo foi reencontrar Hippel, depois de nove anos afastados um do outro.
-A guerra, no entanto, prosseguia.
-Eu vagava pelos campos ensaguentados com a curiosidade de artista. Numa viagem de carruagem, houve um acidente em que a minha esposa saiu ferida e um passageiro morreu.
-Mas você conseguiu dar início ao seu trabalho com a orquestra de  Joseph Seconda.
-Era uma orquestra da melhor qualidade. Houve um armistício, o que nos permitiu retornar para Dresden. Com o fim do armistício, recrudesceu a Batalha de Dresden. A cidade foi bombardeada e muitos morreram. A cidade se rendeu em novembro e a companhia viajou para Leipzig no mês seguinte. Porém, a minha boa relação  com Seconda não durou muito e larguei tudo. Então, surgiu Hippel, que me reconduziu para a carreira de jurista.
-A derrota de Napoleão, na Europa, que trouxe como consequência o seu exílio na Ilha de Elba, não acalmou as coisas?
-Sai Napoleão e entra Metternich. - disse em voz soturna.
Depois de uma pausa, prosseguiu:
-Com Napoleão derrotado, fui para Berlim e consegui trabalho na Kammergericht.  Foi quando a minha ópera Undine foi encenada no Teatro de Berlim.
-As publicações diziam que o seu padrão de qualidade caía, mas foi esse o período das suas melhores obras. - observei.
-Não devemos levar todos a sério. - sorriu.
-A situação polícia continuava má. O Príncipe  Klemens Wenzel von Metternich liderou uma cruzada anti-liberal, prendendo centenas de pessoas como traidoras por causa das suas opiniões, vigiando as palestras dos professores. E você também era visto com suspeição.
-Isso, na Áustria, na Prússia a situação não era melhor. O Rei Frederico Guilherme III tomava medidas ainda mais duras contra aqueles que não comungavam com o seu ideário.
-Quando você transformou o Comissário Kamptz na sua obra literária Meister Floh, a censura prussiana foi em cima de você.
 - Meister Floh foi publicada, mas com as passagens que ridicularizavam o  Comissário Kamptz retiradas.
-E a sua saúde?
-Piorou. Eu abusava do álcool e a sífilis se apoderava de mim. Senti fraqueza nos braços e nas pernas e fiquei paralítico. Minhas últimas obras foram ditadas para a minha mulher e uma secretária.
-Você morreu com 46 anos de idade.
-Eu ainda tinha  muitas ideias para pôr no papel. - lamentou.
-No seu túmulo, lê-se: E.T.W. Hoffmann, nascido em 24 de janeiro de 1776, em Königsberg, morto em 25 de junho de 1822, em Berlim. Conselheiro da Corte de Justiça, excelente no seu ofício, como poeta, músico, pintor; epitáfio dedicado por seus amigos.
E  Hoffmann se foi.




sexta-feira, 5 de abril de 2013

2353 - o sobrinho que era filho

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4153                                   Data:  21 de  Março de 2013
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84ª VISITA À MINHA CASA

-Hoffmann!... - vibrei.
-Não me diga que você só me conhece por causa dos “Contos de Hoffman”, ópera de Offenbach.
-Não. Sei que uma novela sua foi usada por Tchaikovsky no balé “O Quebra-Nozes”, que outra serviu de inspiração do balé “Coppelia”, de Leo Delibes, que o cavalo de batalha de muitos pianistas, a “Kreisleriana”, de Schumann, foi baseada no seu personagem Johannes Kreisler...
-Veja a ironia; sendo eu músico, não transformei em melodias imortais o que criei como escritor.
-Mas a sua aptidão intelectual me lembra muito a de Goethe; como ele, você foi jurista, pintor, desenhista, caricaturista, crítico de música, compositor. Se você não se destacou tanto nas ciências como Goethe, ele também não conhecia tanto a arte musical.
-Fomos contemporâneos.
-Eram alemães.
-Goethe nasceu em Weimar e eu em Königsberg, no Reino na Prússia.
 -Seu pai era advogado?
-Sim, também era poeta e músico amador: tocava viola da gamba. Ele se casou com a prima e tiveram três filhos, eu era o caçula e o segundo filho morreu na infância.
-O casamento não foi feliz?...
-Eles se separaram, em 1778, dois anos depois do meu nascimento. Meu pai foi de Königsberg para Insterburg, levando o primogênito. Minha mãe permaneceu na cidade comigo e se ligou ainda mais aos seus parentes. Fiquei com duas tias, Johanna Sophie Doerffer e Charlotte Wilhelmine Doerffer, e o irmão delas, Otto Wilhelm Doerffer. Todos solteirões.
-Você, então, foi o filho desses três?
-Um leve sorriso na comissura dos seus lábios foi a resposta afirmativa.
-Meu tio era o chefe da família. Eu o retratei numa peça com o nome O Weh.
-Você sentia falta do seu pai?
-Sentia, mas nunca deixei de me recordar das minhas tias com grande afeição, mormente da Tia Charlotte a que eu chamava de Tante Füsschen (tia de Pés Pequenos) (*).
-Tia de Pés de Boneca.
-Embora ela tenha morrido muito jovem, eu a entesourei na minha memória e a fantasiei, como personagem, em algumas das minhas obras.
-Vários estudiosos acreditaram que essa sua tia fora fruto da sua imaginação, mas, depois da Segunda Guerra Mundial, foi comprovada a sua existência.
-Não entendo porque demoraram tanto. - retorquiu.
-Sua família despertou a sua imaginação criativa, mas você teve de completar a sua educação num colégio.
-Frequentei uma escola luterana de 1781 a 1792, quando li vorazmente os clássicos. Aprendi também desenho, e um organista polonês chamado Podbileski, ensinou-me contraponto.
-Alguma dessas pessoas lhe inspirou algum personagem de uma obra sua?
-Meu professor de contraponto foi o modelo do personagem Abraham Liscot em Kater Murr.
-Soube que, enquanto você escrevia e desenhava, mostrava um grande talento de pianista.
-Sim, mas eu me achava numa província, longe de onde fervilhavam as ideias revolucionárias das artes alemã e europeia.
-Mas você lia Goethe, Schiller, Rousseau, Jean Paul, Swift e Sterne, além de escrever Der Geheimnisvolle.
-Sim.
-Não foi a época em que você conheceu o grande filósofo Immanuel Kant?
-Travei, em 1787, amizade para a vida inteira com Hippel, que era sobrinho do escritor e amigo do filósofo. Os dois se chamavam Theodor Gottlieb von Hippel, um era o jovem, o outro, o velho, para diferenciá-los.
-Você, então, conviveu com o autor de “A Crítica da Razão Pura”?
-Nada disso; assisti, com Hippel, às conferências dadas por Kant na Universidade de Köningsberg. Apesar da diferença de classe social, Hippel sempre me considerou seu grande amigo.
-Houve, certamente, uma enorme afinidade intelectual entre vocês.
Depois de uma pausa, perguntei-lhe:
-E a sua imaginação amorosa?
-Em 1794, com 18 anos de idade, apaixonei-me por Dora Hatt, uma mulher casada que tomava lições musicais comigo. Ela era dez anos mais velha do que eu e tinha uma filharada, cinco. A família dela protestou e um dos meus tios conseguiu um emprego para mim na cidade de Glogau, na Silésia.
-E qual era o emprego?
-Eu trabalhei como escrevente do meu tio Johann Ludwig Doerffer, que vivia em Glogau com a filha Mina. Foi quando passei por Dresden e visitei a galeria de pinturas. Fiquei embevecido com os quadros de Correggio e Rafael.
-Isso foi em 1796?
-Sim. No verão de 1798, meu tio foi transferido para a Corte de Berlim, uma promoção e fomos os três para lá.
-Você não se enamorou da sua jovem prima? - mostrei-me indiscreto.
-Nada a sério. - sorriu.
-Você estava, agora, na grande cidade da Prússia.
-Entusiasmado, compus a opereta Die Maske e enviei uma cópia para a Rainha Luise. A resposta dos seus conselheiros foi um conselho: escrever para o diretor da Ópera Real de nome Iffland.
-Uma maneira nobre de recusar a sua opereta.
-Fui para Posen, no sul da Prússia, com meu amigo Hippel, antes, parei em Dresden para rever as obras-primas da galeria.
-Você não havia encontrado ainda uma diretriz na vida?
-Meus tios, diretores de escola, párocos diziam que eu levava uma vida dissoluta. E eu, de 1800 a 1803, trabalhei na Grande Polônia e Masovia, províncias da Prússia. Pela primeira vez, eu me livrava da supervisão dos meus parentes.
E prosseguiu animadamente:
-Em Posen, caricaturei vários oficiais militares e as minhas caricaturas fizeram grande sucesso num baile de carnaval.
-Já imagino a confusão que arrumou.
-Houve denúncias contra mim às autoridades de Berlim e eu fui transferido para Plock, na Nova Prússia Oriental, cidade que foi capital da Polônia, de 1079 a 1138.
 -Visitei a cidade em busca de uma pousada para me alojar, mas, antes, casei-me, em Posen, com “Mischa”, Marianna Tekla Michalina Rorer. Fomos, em seguida, para a antiga capital da Polônia.
-A sua lua de mel foi em Plock.
-Lá, na verdade, foi meu exílio. Desenhei autorretratos na lama, andrajoso e com ratos ao redor.
-Era uma maneira de sublimar o seu desespero.
-O isolamento deu-me, no entanto, condições para escrever e compor. Iniciei um diário, redigi um ensaio teatral que foi publicado no periódico Die Freimüthige, e participei de uma competição com a peça Der Preis.
-Venceu?
-Selecionaram a minha peça, mas não deram para ninguém o prêmio. Foi um período triste da minha vida; morreram meu tio Hoffmann, em Berlim, a minha tia Sophie e  a minha amada Dora Hatt, em Köningsberg.
-E quando você foi trabalhar em Warsaw?
-Logo depois; passei por Königsberg, encontrei-me com as filhas de Dora Hatt e nunca mais revi a minha cidade natal.

(*) O redator do seu O BISCOITO MOLHADO escreveu Fübchen. Esse b aí é um beta na verdade e o som é de SS. Daí, o Distribuidor fez a substituição e pronto. Os alemães escrevem FüBchen, usando o B maiúsculo para simular o beta, mas nós não entendemos tal sutileza.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

2352 - quilos e cátedras


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4152                                      Data:  20 de  Março de 2013
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SABADOIDO  PAPAL
PARTE II

-Você viu, Carlinhos, o padre que anunciou o novo papa?
-Não, Gina.
Ele parecia bêbado, balançava de um lado para o outro.
Eu saberia, depois, que se tratava do Cardeal Louis Tauran, que sofre da doença de Parkinson.
-Carlão, os argentinos já chamam o papa de Francisco Diego Maradona. - interveio o Daniel com a sua alegria costumeira.
-Gostei do papa, pois não se deslumbrou com o cargo e porque é bem-humorado.
-Não se deslumbrou até agora. - alfinetou a Gina, que se diz kardecista e frequenta a igreja católica.
-O que mais gostei do papa foram as suas palavras sobre os ateus e agnósticos. - frisei.
-Intolerante ele não é. - afirmou meu irmão.
Daniel, que saíra por minutos, voltou para me informar que o seu computador estava à minha disposição.
-O Carlinhos está agora com a NET de 10 megas, não vai precisar. - interferiu a Gina.
-Há uns vídeos que ainda não posso ver porque me falta um programa no computador que logo será instalado. - justifiquei-me.
Cinco minutos depois, eu assistia os vídeos com os três gols que levaram o Botafogo ao título da Taça Guanabara. Depois de rever pela quarta vez esses gols, Gina, que acessava um notebook, numa salinha contígua ao lugar onde eu estava, declarou:
-Depois, você fala que o Daniel não se cansa de ver os gols do título do Fluminense...
De volta à cozinha, percebi que o Claudio estava sem discurso com a demora do jornal e do Luca.
-Claudio, você conhece aquela história narrada pelo Fernando Henrique Cardoso?
-Como você não disse qual é a história, não posso responder sim ou não.
-O Fernando Henrique conta que, quando candidato a presidente, em 1994, falou para uma plateia de agricultores de Juazeiro do Norte, no Ceará. Rememorou, então, que se opusera à Revolução de 1964 e que, por isso, foi preso e perdeu a cátedra. No momento dos apertos de mãos, um popular o cumprimentou e lhe disse: “Este negócio de cátedra... Não se preocupe. Você é homem! É macho! Todo mundo sabe. E foi por uma boa causa.”
-Eu li isso no Ricardo Noblat há uns três anos. - garantiu-me.
Nesse instante, o telefone soou.
-É o Luca. - previu a Gina.
Atendi e ouvi a voz do nosso amigo informando que já se encontrava no portão.
Mal ele entrou no recinto da sessão do Sabadoido, ou seja, na garagem do antigo fusquinha da Gina, foi abordado por meu sobrinho.
-Luca, o papa é o Chico Segundo, porque o primeiro é o Chico Buarque de Holanda.
-É isso aí, Daniel.
-É o Chiiiiiiiiiiiico.- completou meu sobrinho.
Depois que todos se sentaram, Luca teve a palavra.
-Consegui vencer o gordo. Ele não me esquarteja mais no pingue-pongue.
-Você estava endiabraaaaaado.
-Estava Daniel. Ele tem uns 170 quilos, mas é 20 anos mais novo do que eu.
-Vou chamar o Válber. - pilheriou meu irmão reportando-se a um antigo morador da Chaves Pinheiro com 70 e muitos anos, que se casou com a irmã da nora, que também tem gosto pelo pingue-pongue.
-Esse gordo é tão bom assim?
-Carlinhos, ele joga mais do que eu. O jogo dele é de muita porrada,  diz que o meu é técnico.
E discorreu sobre a sua preparação para as partidas.
-Eu uso anti-inflamatório em spray nos joelhos, depois enfio flexores  nas canelas, nos joelhos. Enquanto jogo, nada sinto, mas, quando as partidas terminam, eu não consigo erguer os braços para arrancar a camisa de tão doloridos que ficam. Eu, com 68 anos, ele, com 170 quilos, jogamos horas, enquanto aparecem garotos com 30 anos que logo se dizem cansados.
-O Luca estava endiabraaaaado.- voltou a brincar meu sobrinho.
-E a Kiarinha? - perguntou a Gina por sua neta.
-Está lá. A avó puxa por ela nos estudos, porque muitas coisas eu não resolvo, como MDC.  Nos cálculos que eu fazia, sempre usei a prova do 9.
-Hoje, é tudo na maquininha. As pessoas ficaram com preguiça de calcular.
-Sim, Gina, mas na hora da prova, não se pode usar a máquina de calcular.
Kiara trouxe-me à mente seu pai, o Pedro, e, por associação, o taxista Machado.
-Luca, peguei o táxi do Machado, nesta semana e ele me disse que você se mudou, informei-lhe que seu filho é que se mudara.
-O Machado apareceu na hora da mudança e eu lhe falei que aqui só passava carro de motorista que fosse de Pernambuco da cidade de...
E citou a cidade natal do Machado cujo nome me escapa.
Claudio voltou a expressar a sua decepção com o ministro Joaquim Barbosa por ter agredido verbalmente um jornalista.
-E as desculpas não deveriam ser dadas por nota de assessoria. Por muitíssimo menos, o Barack Obama, que é presidente dos Estados Unidos, chamou um jurista e um xerife, que se altercaram e ele, Obama, se metera com uma opinião infeliz, para tomarem cerveja com ele na Casa Branca.
-Eu também me decepcionei com o Joaquim Barbosa, Claudiomiro.
-E o André Rieu de quem você me falava no telefone, quando tive de interromper porque estava com um problema para resolver no trabalho?
Luca se voltou para todos, menos para o Claudio, que rumara para a cozinha para pegar as bebidas.
-Vocês sabem qual a música que o André Rieu considera a mais popular do mundo?
-Pensei no “Danúbio Azul”, mas citei a “Primavera” de Vivaldi.
-”Aleluia”.
-”Aleluia” de Handel? - surpreendi-me.
Gina cantarolou “Deus, alegria dos homens” de Bach para, em seguida, afirmar que julgava essa a mais popular.
Claudio, que ouvira palavras soltas, voltou sem os copos para dizer que “Deus, alegria dos homens” não era de Handel.
-Ninguém disse isso, Claudiomiro.
-Ah, bom! Com o Carlinhos aí...
Com todos presentes, menos o Daniel, Luca se indignou com as três aberrações que o Faustão citara como os maiores sucessos musicais do ano. E prosseguiu:
-O Humberto Reis dizia, no rádio, que o maior sucesso do ano foi “Coração de Mãe”, do Teixeirinha, mas que ele não tocaria no programa dele.
-”Churrasquinho de mãe” é melhor do que essas três que o Faustão citou.
-Sem dúvida alguma, Claudiomiro.
Reportei-me à excelência do gosto musical de antigamente, quando o compositor e virtuose da flauta, Patápio Silva, colocava mais de uma música entre as dez mais ouvidas no Brasil. Quis citar a novela da Globo que reviveu uma das suas composições, há pouco tempo, mas o nome “Primeiro Amor” não me ocorreu.
Falou-se muito nesse Sabadoido, até na língua latina, em que foi dito que quiproquó vem de quid pro quo, que significa tomar uma coisa pela outra.
Fui para outro tema:
-E a nossa estimada Rosa Grieco?
E o Luca me passou as suas cartas, que me pus a ler, enquanto a conversação no Sabadoido transcorreu com concordâncias e discordâncias.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

2351 - a carlotinha e a jabuticaba


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4151                                      Data: 19 de  Março de 2013
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SABADOIDO  PAPAL

Nesse sábado de meados de março. O Globo avisou que, por problemas técnicos, os jornais dos assinantes seriam entregues por volta do meio-dia. Meu irmão que, mesmo lendo o noticiário, conversa comigo, ficou, por isso,  mais veemente.
-Que decepção eu tive com o Joaquim Barbosa! Mandar o jornalista chafurdar no lixo porque é o lugar dele.
-A celebridade lhe subiu a cabeça.- diagnosticou a Gina.
-Dores na coluna contribuem para o seu mau gênio.- manifestei-me.
-Se todo o mundo que tivesse dores saísse xingando os outros... - continuou  irritado.
Nesse instante, meu sobrinho adentrou a cozinha.
-Daniel, você já recebeu o comprovante do imposto de renda?
-Recebeu, mas deixou  no trabalho. - respondeu a mãe por ele.
-Carlão, que manga é essa?... Parece uma bola de futebol de salão. - surpreendeu-se com as frutas que eu trouxera na sacola e colocara sobre a mesa.
-Comprei na barraca da rua Itamaracá. O vendedor me disse que existem mangas do tamanho de uma bola de basquete.
-Mas não tem gosto de nada. - interferiu o Claudio.
-Sei que as mangas que eu compro lá são bem doces.
-Não são gostosas como a carlotinha, a espada.
-Não tenho do que me queixar dessas que compro. - devolvi.
-É coração de boi.- rotulou a Gina a minha fruta.
-Uma vez, folheando a autobiografia do Bill Clinton, deparei-me com uma página em que ele conta que, no Brasil, chupou manga até se fartar.- manifestei-me.
-A mangueira não é originária do Brasil parece que é da Índia.- interveio o Claudio.
-A jabuticabeira só dá no Brasil. -entrou no assunto o Daniel.
-”Se só existe no Brasil e não é jabuticaba, pode saber que é besteira.” - citei a frase.
-Quem é o autor? - quis sabe o Claudio.
-É uma daquelas frases que atribuem a autores diferentes. - tergiversei.
-O Ferreira Gullar teve de escrever crônicas para deixar bem claro que a frase era da sua autoria “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. Diziam que era do Otto Lara Rezende ou de outros escritores. - lembrou  o Claudio.
-O Luca...
-O Luca estava endiabraaaaaado. - interrompeu-me o Daniel com seu jeito brincalhão.
Retomei o que dizia:
-O Luca se referiu, dia desses, `as frases que são soltas sem pretensão, mas que deveriam ser registradas, como aquela do papai sobre beber verniz.
-Seu Amaury tinha muitas. - interveio a Gina.
-Uma vez, na TV Manchete, a Pepita Rodriguez, que entrevistava no programa dela o presidente José Sarney, que aniversariava, debulhou-se em lágrimas, emocionada. O Adolpho Bloch, dono da emissora, ao ver aquilo, disse uma frase, publicada nos jornais, que nunca esqueci: “Quem é essa louca?”
-Nunca gostei dela como atriz. - comentou a Gina.
Claudio, voltado para mim,  mudou de assunto.
-Você viu o Lindbergh Faria na votação dos royalties do petróleo?
-Infelizmente, eu não sintonizei o Canal Câmara nessa votação.
-Caramba, como o Lindinho é brigão! Ele enfrentou o Renan Calheiros de igual para igual, enfureceu-se porque só lhe deram cinco minutos de discurso quando ele tinha direito a vinte.
-Os representantes dos estados e municípios estão com um apetite feroz pelos royalties do petróleo. - intervim.
-O Lula é o culpado de tudo isso quando mexeu no que foi estabelecido no governo do Fernando Henrique. - indignou-se.
E prosseguiu:
-Na eleição para  governador do Rio, eu prefiro o Lindinho ao candidato do Sérgio Cabral, pois ele parte mesmo para a briga.
Mostrei-me menos entusiasmado do que meu irmão, reportando-me ao líder dos caras pintadas do passado e, agora, amigo do Fernando Collor.
-Ninguém presta.- resumiu a Gina todo o seu pessimismo com os políticos.
A expressão do Claudio, no entanto, era alegre quando ele continuou com a sua narrativa da votação:
-O Garotinho, marido da minha governadora, a tricolor Rosinha...
Fez uma pausa para observar a minha reação à sua piada, e foi adiante.
-Quando o Renan Calheiros deu a palavra ao Garotinho, ele disse que estava, naquele momento, assinando a petição que pedia a  sua renúncia  da presidência do Senado.
E riu com o gesto teatral do ex-governador do Rio de Janeiro.
Agora, era eu que mudava de assunto:
-Minha quinta-feira desta semana não foi fácil. Primeiramente, tive de fazer todo o meu imposto de renda de novo.
-Por que, Carlão? - interessou-se o Daniel.
-Porque, na hora de emitir o DARF de pagamento, eu tinha, por engano, marcado débito automático.
E continuei:
-Em seguida, telefonei para a OI para cancelar o Velox 3G. Jogaram-me de um  atendente para outro, que pediam todos os meus dados e o motivo do cancelamento. Por fim, desviaram a ligação para o que chamaram de Central de Atendimento. Passei, então, a ouvir uma  cacofonia musical  por vinte minutos. Desliguei.
-Imagine a covardia que fazem com os idosos. - vociferou  o Claudio.
-Mas lhe deram o número do protocolo?
-Sim, Gina. Com ele, telefonei para a ANATEL e fiz minha reclamação contra a operadora.  Depois de cinco dias, tenho de telefonar para a OI de novo.
Mais tranquilo, eu irmão comentou:
-É como aquele filme: “Pague para entrar e reze para sair”.
-É um sofrimento. - lastimou a Gina.
-De noite, eu pensei que seria recompensado. Veio a Luciana (minha sobrinha) com o marido e a filhinha, para acertar o meu computador. Ela colocou a Firefox como navegador, neutralizando a tartaruga chamada  Explorer, e o Facebook ficou uma beleza. Depois, ela pôs o servidor Yahoo como primeira página. Enquanto isso, a Maria Eduarda, nas imediações, não parava de fazer bagunça.
-A menina não desgruda da mãe. - comentou meu irmão.
De repente, não mais que de repente, tudo se apagou no computador. A Maria Eduarda tinha aperado com o dedinho o botão do no brake.
-E você ligou de novo? - interveio o Daniel.
-Liguei, mas o anti-vírus ficou travado, ou seja, a tela ficou congelada.
-Que zica, Carlão!
-Por pouco a fúria de Herodes não se apossou de mim; por muito pouco mesmo.
-Calma, Carlão, o Botafogo foi campeão e o Flamengo perdeu para o Resende. - disse o Daniel.

terça-feira, 2 de abril de 2013

2350 - castanholadas

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4150                                      Data: 18 de  Março de 2013
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EU e  ELIO NA ESPANHA MEDIEVAL

-Onde estamos, Elio?... Tudo aqui  parece muito atrasado.
-Não é o Brasil, porque aqui não existe alegria.
De repente, um grito ameaçador.
-Prendam esta cigana, ela enfeitiçou meu filho.
Um homem sisudo, cuja vestimenta indicava nobreza, além do fato de um número grande de soldados o obedecerem, indicou com um dedo uma infeliz senhora que logo foi presa.
O filho do senhor feudal, um bebê, estava com diarreia provocada pela insalubridade, apesar de viver num palácio.
-Queimem esta cigana, antes que ela enfeitice meu outro filho. - ordenou.
Enquanto sentíamos o cheiro de carne queimada, Elio Fischberg mostrava o conhecimento de história que adquirira com a sua mãe, Dona Sarita.
-A Reforma Protestante de Lutero diminuiu o poderio da Igreja Católica, o que ensejou movimentos como o Renascimento, mas a Espanha continua medieval.
-Enquanto eu ouvia o comentário do Elio, uma cigana, que trazia um bebê no colo se esgueirava no meio do populacho que vibrava com a horrenda cena.
-Eu me vingarei. - rosnou ela.
E se vingou; entrou furtivamente no palácio e de lá saiu com um dos filhos do senhor feudal, que escondeu sob uma manta.  No entanto, ela estava tão fora de si que, em vez de jogar o bebê raptado na fogueira em que ardia a sua mãe, jogou o próprio filho por engano. Perseguida pelos soldados, ela fugiu sobraçando o menino nobre.
-Que época estamos vivendo! - exclamou o Elio.
Como já foi explicado, os anos transcorrem como minutos nas viagens que fazemos pelo tempo, assim, num piscar de olhos, fomos transportados para mais de vinte anos depois, infelizmente, no mesmo cenário trágico.
Eu e Elio estávamos agora próximos a um castelo. Numa espécie de balcão, uma linda donzela, junto a uma aia, relembrava, sonhadora, um romântico jovem que ela coroou como vencedor de um torneio de trovadores. Infelizmente – dizia ela – ele teve de partir porque irrompeu uma guerra civil, e ele era soldado.
Subitamente, uma agradável voz de menestrel soou ao longe.
-É o soldado trovador. - encantou-se a donzela.
Com a aproximação do cantante, com uma roupa em que sobressaia o vermelho, a sua voz se tornou mais audível. A apaixonada moça correu ao seu encontro, mas foi interceptada no caminho por um truculento nobre.
-Você vai se casar comigo. - vociferou com os olhos faiscantes.
O trovador diante de tal cena desembainhou a espada, o mesmo fez o nobre. E, para o desespero da donzela, iniciaram um duelo.
-Vamos desapartar. - sugeriu o Elio.
-Você está maluco? - reagi.
Com a luta, o nobre perdeu a espada e a sua vida ficou à disposição do trovador que, na hora do golpe fatal, hesitou. A donzela saiu dali, pois já provocara confusão demais, enquanto o nobre, com a vida poupada se afastava.
-Por que ele não o matou?- quis saber o Elio.
-Porque são irmãos. A cigana criou o filho do senhor feudal como se fosse seu. Conheço a história. - esclareci.
No acampamento dos ciganos, iluminado pelas labaredas das fogueiras, havia uma agitação feérica. Perto do trovador, a cigana, sugestionada pelos clarões do fogo, narrava para ele o trágico fim da   sua mãe. Ele, que às vezes duvidava da sua origem, perguntou-lhe quem era na realidade, e ela respondeu enfaticamente;
-Você é o meu filho.
-Então, a cigana queimada era a minha mãe. - disse com a voz entrecortada.
-Que coisa! - esfregou o Elio as mãos nervosamente.
O diálogo foi interrompido pelo melhor amigo do trovador com a notícia que as forças inimigas da guerra civil assediavam o castelo da donzela.
-Tenho de ir para lá imediatamente.
E foi com seu amigo cigano arregimentar seu exército. Eu e Elio o seguimos. A batalha foi feroz; ele não sabia apenas cantar trovas, era um guerreiro valente. Venceu, mas o seu rival ordenou que um dos seus sabujos lançasse o boato que o trovador morrera.
Deprimida, afirmando que a vida de felicidade não estava destinada a ela, a donzela se retirou para um convento. Quando a notícia chegou aos ouvidos do seu amado, ele correu para lá, com seus soldados, com o objetivo de impedir que ela recebesse os votos religiosos. Caso análogo aconteceu com o seu rival, que concebera o boato para que ela esquecesse o trovador e se casasse com ele.
No convento, os inimigos se olharam com as expressões rubras como o fogo, e as espadas saíram das bainhas.
-Carlos, isso está parecendo briga de torcidas de futebol. - gracejou o Elio para mitigar a apreensão.
A madre superiora, evocando Deus com a sua voz autoritária, exigiu respeito à santidade do lugar. As armas baixaram, e o sangue não correu. O truculento nobre se retirou com seus soldados, com a expressão de derrota, enquanto o trovador se foi feliz, porque sabia que a sua amada não pensava mais em viver no claustro de um convento.
Logo, o menestrel estava no castelo da donzela trocando  juras de amor.
-Carlos, parece a cena do balcão do Romeu e Julieta. - observou o Elio.
 Mas a tragédia estava à espreita. Um velho servidor do senhor feudal contou para o inimigo do trovador que viu uma cigana com a aparência que lembrava a velha bruxa que fora queimada há vinte e cinco anos e a prendera. Ao vê-la, amarada numa estaca e torturada, soube que se tratava da mãe do seu rival, e soltou um pavoroso grito de júbilo.
O colóquio amoroso do trovador com sua donzela não foi adiante porque o cigano seu amigo lhe avisou do que ocorria com sua mãe. Com os olhos chispando de ódio, ele correu para libertá-la.
-Essa agonia não para?... - exasperou-se o Elio.
O trovador, com a mente embotada pelo desespero, não raciocinou e caiu numa armadilha.
A donzela (com tantos percalços ainda o era) procurou o seu desagradável pretendente. Este afirmou que só o soltaria se ela se tornasse sua esposa.
Sim, disse a donzela, mas antes queria se despedir do trovador. Enquanto ele saía para buscar o prisioneiro, a pobre moça ingeriu um frasco de veneno. Ao ver a sua namorada, ele sorriu, mas quando ela lhe disse que estava livre, ele a insultou porque sabia que teria de pagar com a própria virgindade. Nesse instante, o veneno faz efeito, e se inicia a agonia. O trovador lhe pede perdão enquanto lhe jura amor além da vida terrena.
  O vilão chega e, ao constatar que fora enganado, seus olhos chispam e ele ordena que cortem o pescoço do seu rival. Enquanto seus subordinados carregam o prisioneiro para o patíbulo, ele passa por cima do cadáver da infeliz moça, e vai até a cigana.
Arrasta a cigana até uma janela e lhe diz com uma voz que parecia vinda do inferno:
-Você agora vai presenciar a morte do seu filho.
Assim que o machado cai sobre o pescoço do trovador, ela grita:
-Você matou o seu irmão.
E conclui antes de cair morta:
-Mãe, você está vingada.
O vingativo nobre fica aterrado.
-Carlos, isso parece um libreto de ópera italiana. Mas que compositor conseguiria transformar isso em boa música?
-Verdi, o grande Verdi. - respondi.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

2349 - o craque da rodada

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4149                                      Data: 17 de  Março de 2013
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SABADOIDO DOS CRACUDOS

Desviei-me do caminho costumeiro da minha casa ao Sabadoido porque levava latinhas vazias de cerveja para uma moradora gorda e patusca da Rua Gaugin, Assim, em vez de seguir pela Vlamink e dobrar na Itamaracá, segui pela Gaugin e dobrei na Avenida Suburbana. Lá, não vi, como no sábado passado, a romaria de fiéis do bispo Macedo que ia da Igreja Universal até a livraria Saraiva do Norte Shopping, onde era vendido o livro “Nada a perder- Momentos de convicção que mudaram a minha vida,” do bispo Macedo.
Vi, isso sim, três cracudos estirados sob a marquise do local que fora o Armazém São Domingos. Apesar da cena deprimente, me vieram à mente as compras que eu fazia lá, quando morava na Rua Cachambi, a pedido do meu pai e, depois as reclamações que eu, garoto indignado, levava ao meu pai.
-Lá, eles atendem primeiro as mulheres, mesmo eu chegando na frente.
Bem, deixei tudo para trás e segui até o portão da casa da Gina. Enquanto aguardava que alguém abrisse o portão, recuei uns dois metros e avistei outro cracudo, estirado sob a marquise do edifício onde morou o Luís Afonso, português que lá viveu desde pequerrucho e que, depois de uns 20 anos de idade, se fixou com a família em Portugal.
O craque é hoje, no Brasil, como o gim na Inglaterra antes do reavivamento do século XVIII: jogou a população pobre na mais tenebrosa degradação; a situação só foi revertida com o aumento do preço da bebida e o desenvolvimento econômico. Um século depois, o império britânico derrubaria a China disseminando o ópio. Pensava nisso, quando o meu sobrinho apareceu para me franquear a casa. Falou-me sobre as últimas notícias do futebol enquanto seguíamos até a cozinha, onde o Claudio à mesa lia o Globo.
A leitura não o impedia de ler o jornal, por isso me referi ao imposto de renda da minha mãe.
-A mamãe recolheu R$ 9.004, 00 na fonte e só vai receber 2 mil de volta. É o cúmulo que ela pague mais de 6mil reais de imposto de renda.
-O governo precisa de dinheiro porque são muitos os ladrões. - comentou.
-Carlinhos, o Daniel vai ter de pagar, este ano, imposto de renda. - informou-me a Gina.
-Daniel, basta você baixar o imposto de renda no computador que o resto é fácil. - voltei-me para ele.  
-Carlão, prefiro baixar o santo; ele, pelo menos, não morde como o leão. - manifestou-se.
Nesse instante, o seu pai se animou com uma notícia e a leu em voz alta. Dizia ela que a Casa da Moeda alcançara um lucro espetacular.
-Mais dinheiro no bolso do Daniel. - completou.
-E mais mordida do leão, que adora a participação nos lucros do contribuinte. - acrescentei.
Para não jogar água na fervura, expliquei que em qualquer ganho agora só incidiria o imposto no ano de 2014.
-Já prevejo uma má Copa do Mundo. - pilheriou o Daniel.
Voltei-me para a mãe dele.
-Como há cracudos por aqui, Gina.
-Sábado passado, quando você saía com o Luca, ele não deu conversa a um cracudo, quando entrava no carro. E ele, depois, veio se queixar a mim.
E a Gina reproduziu a fala do sujeito:
-Ô tia, eu ia avisar que um guarda estava multando todo o mundo por aqui.
E prosseguiu a Gina:
-Um desses cracudos me viu com três quentinhas, um dia e me perguntou onde eu comprara. Mostrei-me desconfiada, mas ele disse que não queria dinheiro para comprar droga, que morador de rua sente fome e ele estava faminto. Eu lhe indiquei um restaurante onde ele conseguiria uma quentinha com mais comida, pois era self service.
-E lhe deu dinheiro? - perguntei.
-Espero que ele tenha comprado a quentinha, mas tenho as minhas dúvidas.
-E ele sumiu? - tive curiosidade.
-Ainda não; certa vez, eu conversava com o Luís Xalulu, quando ele apareceu. Eu lhe perguntei por que não largava o craque para arrumar um trabalho. Ele me disse que bem que tentava, mas sempre lhe pediam documentos e ele não tinha. Então, o Xalulu entrou na conversa: “Por que você não vai ao comitê da Tereza Bergher, que lá conseguem documentos para você?” E ele, como nós, não sabia que a valorosa Dona Sarita, a mãe do Elio Fischberg, trabalha num desses comitês.
-E ele?
-Carlinhos, depois dessa, eu nunca mais o vi.
-O preço da pedra do craque é 5 reais.- interveio o Claudio.
Voltei a pensar no baixo preço do gim na época da degradação dos pobres da Inglaterra, no início do século XVIII.
-Muitos fogem dos cracudos, mas eu até converso com alguns deles.
-O taxista de ontem, que viu muitos cracudos nas rampas da estação do metrô de Maria da Graça, afirmou que eles só assaltam na sugestão, porque não andam armados.
-Se colocarem uma arma na mão deles, vendem logo para comprar pedras de craque. - disse o Claudio.
Gina se reportou a outro caso com esses viciados.
-Há duas semanas, alguns deles estavam deitados, quando passou um cracudo e roubou o chinelo de outro cracudo. Acordaram a vítima que, percebendo que ficara sem o chinelo, passou a dizer umas palavras desconexas para o ladrão, porém este já estava longe.
-Ladrão e vítima não tinham condições de correr; são zumbis. - comentei.
Meu sobrinho, que se retirara para o interior da casa, voltou para dizer que o seu computador estava liberado para mim.
-Daniel, estou providenciando uma assinatura com a GVT e logo o seu computer  ficará livre de mim.
-Disponha, Carlão.
 Diante do computador, acessei um vídeo com uma palestra dada por uma portuguesa, diante de um auditório e ao lado de uma mesa de palestrantes que, parecia, já deram os seus recados.  Declarava ela que tinha 36 anos e que era jovem. Seu pai, porém, que vivera os duros anos de Portugal, não foi jovem, pois teve logo de trabalhar. Ele não gozou a juventude, nem mesmo a infância, e o mesmo aconteceu com a sua mãe. Ela não pôde ser criança, brincar, e também ser jovem, com as despreocupações que lhe deram tempo para o lazer. No entanto, via o Portugal de hoje, afundado numa terrível crise econômica, com bastante apreensão, em que as pessoas corriam o risco de, como seu pai, não terem infância nem juventude.
A chegada da Gina desviou minha atenção do vídeo que, por sinal, já acabara.
-O Luca e o Vagner não vêm. O Luca vai ajudar o filho na mudança de casa. - anunciou.
-O cavalo que substitui os ausentes do Sabadoido ficará sobrecarregado. - concluí.
-É caso de nos queixarmos à Secretaria de Defesa dos Animais. - brincou ela.