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segunda-feira, 18 de março de 2013

2336 - os colaboradores


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4136                            Data: 20 de fevereiro de 2013
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CARTAS DOS LEITORES

-“Em tempos de fantasias de Carnaval – tem umas coisas que o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO não perdoa no redator. Ele esteve cara a cara com o falecido e nem reproduziu a hora anterior à morte do mesmo. Coisa que iríamos saborear e ninguém poderia negar. Por sorte, este Distribuidor recebeu, em sonho, a informação, com o sussurro do falecido, que já tinha lido esta edição:
-“Bota isso no asterisco, que o teu redator não teve peito!”
E toca a relatar:
“... esperei, espremido entre o muro da capela da Colônia, no maior frio, o primeiro bonde da manhã. Só tinha o Taquara-Cascadura, o que me servia bastante, pois minha filha Eulina residia em Cascadura. Cheguei à porta da casa dela antes das seis da manhã e meu estado físico certamente a assustou bastante. Sabendo que os médicos já não tinham me dado maiores esperanças, e nem menores, encaminhou-me a uma mãe-de-santo que providenciou o despacho, no literal e no espiritual, ao entardecer daquele mesmo dia.
Subimos a encosta da Rua São Fernando, no Morro do Fubá – eu, literalmente arrastado morro acima pelas pedras molhadas pela água que escorria – tudo isso para encontrar a situação propícia para a minha cura. Infelizmente, não deu certo, talvez porque tivesse desabado uma tempestade na noite do dia 3 de fevereiro de 1934. A tormenta era tanta, que me abandonaram na clareira do despacho, com 7 velas que se apagaram quando o vento bateu. De novo com frio, só que molhado, não resisti e me lembro da cascata iluminada pelos raios como derradeira visão – foi pra lá que fui. O resto vocês conhecem.” - Dieckmann
BM: O nosso leitor, distribuidor e, às vezes, revisor (mais jurídico do que jornalístico) se reporta  à sua visita à minha casa registrada no BM 2316.
Sobre a morte do grande compositor, consultamos, agora, o Jblog do Jornal do Brasil que diz o seguinte, como título:
“1934 – O alívio do Maestro Nazareth.”
Vem, então o texto:
“E finalmente, a fuga e o suicídio. A morte que ele procurou, ainda talvez com uns requintes de beleza, nas águas tumultuosas de uma cascata... Águas tumultuosas como a sua inspiração de artista que sonhou a vida boa como a música, mas que teve que se vir despedaçar entre as pedras de uma realidade triste que o encheu de humilhações,e que só lhe deu a evasão da loucura e o alívio final da morte...”
“Desaparecido desde o dia 1º de fevereiro, após fugir da colônia psiquiátrica Juliano Moreira em Jacarepaguá, aonde (sic) estava internado em estado de insanidade mental, o Maestro Ernesto Nazareth, 70 anos, foi encontrado morto boiando na represa de um rio nas proximidades da colônia. Devido ao avançado estado de putrefação de seu corpo, o laudo de óbito do médico Armando Campos não precisou a data de sua morte, mas a sugeriu no dia 3 de fevereiro.”
No mencionado blog, foi estampado o fac-símile da edição do Jornal do Brasil, de 7 de fevereiro de 1934, quarta-feira, em que se lê:
“A NOTA
O MAESTRO ERNESTO NAZARETH
Eu pensava que o maestro Ernesto Nazareh tinha morrido há muito tempo. A notícia de sua morte trágica, depois de sua fuga da Colônia de Psicopatas  de Jacarepaguá, veio mostrar que Ernesto Nazareth era um desses mortos-vivos que passam anos e anos no esquecimento, depois de uma celebridade efêmera.”
Este é o primeiro parágrafo de uma coisa chamada de nota, que prossegue na sua ignorância, mas que não foi abrangida neste fac-símile. Pouparam-nos.
Entende-se que o compositor pelo que se leu, diferentemente do Pestana de “O homem célebre” de Machado de Assis, Ernesto Nazareth  morreu também de mal com os outros (o público).
Felizmente, a posteridade soube dar valor a Ernesto Nazareh, embora ele merecesse muito mais.
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-“Andei muito nesses mármores do Cinema São Luiz, subi e desci muito esses degraus aí da foto, enganei muitos bilheteiros sobre minha idade, para assistir a filmes proibidos para menores de 14 até 18 anos, entrei muito no recinto, andando de costas, para não pagar ingresso e para ultrapassar o limite de idade da censura do filme, em meio ao público que saía da sessão acabada, fui a muita matinê de domingo, também, ver muitas  bombas, mas ver também bons filmes.”  Elio
BM: As reminiscências do nosso amigo Elio Fischberg afloraram depois que ele viu uma fotografia do Cinema São Luiz, que foi enviada pela Branca Euler.
Elio, ficamos sabendo agora, teve, na sua adolescência, semelhanças com o personagem do clássico autobiográfico de François Truffault, “Os Incomprendidos”. O garoto de 15 anos, Antoine Doinel, interpretado por Jean- Pierre Léaud,  utilizava de mil artimanhas para entrar nos cinemas, porque não tinha dinheiro.
Elio não deixa claro se as suas espertezas eram inspiradas pela falta de l'argent. Como dizem os franceses:  point d'argent, point de suisse. Como a Rosa Grieco não é a única pessoa a ler este periódico, aqui vai a tradução: “sem dinheiro nada se alcança.”
Elio viveu seus momentos de Truffault menino, mas, diferentemente do francês,  não se tornou cineasta, preferiu a carreira jurídica.
-Será que perdemos um grande diretor de cinema?...
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-Sobre a conversa imaginária entre o Biscoito e um taxista, em recente BM sobre o latim, tenho a declarar que eu tive  dificuldades com esse idioma, como o teve Winston Churchill, conforme revelação sua  no livro “Minha Mocidade.” Bob Dieckmann.
BM: Sempre modesto, Dieckmann se compara a Winston Churchill. Tudo bem, o boxeador Cassius Clay dizia que bem que tentava ser modesto, mas logo ficava sem argumentos.
O Departamento de Pesquisas do Biscoito Molhado arregaçou as mangas e encontrou páginas bolorentas de caderno sobre a língua latina e um instigante texto da Natalia Cristine. Quem é ela?  Bem, não é fotografada pelos repórteres de revistas de artistas, nem é procurada pelas câmeras de filmagem nos desfiles de escolas de samba; o que só depõe a seu favor. Mas sigamos adiante.
Ela escreveu que o latim teve seu período clássico entre os anos 81 a.C e 17 d.C, época dos principais escritores latinos: Cícero, Júlio César, Virgílio, Horácio, Ovídio, Tito Lívio, Sêneca, entre outros.
Voltaire manuscreveu uma carta a uma amiga em que a aconselhava a aprender latim para ler Virgílio, ressaltando que nada superava a poesia do poeta que influenciou Dante, Camões e outros tantos, mesmo transcorridos  bem mais de mil anos da sua morte.
O português foi resultado da mistura do latim com o galego, principal língua falada na região do Condado Portucalense, que hoje corresponde à região de Portugal. Foi uma das línguas derivadas que mais demorou a se formar, sendo provavelmente este o motivo de ser o português tão semelhante ao idioma de Cícero.
Olavo Bilac retratou poeticamente esse fato histórico num soneto, cuja primeira quadra aqui reproduzimos:
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura.
Ouro nativo, que na garapa impura,
A bruta mina entre entre os cascalhos vela.
Lácio, como todos sabem,  região fundada no século V a.C. , com o desenrolar da história, se tornou o Latium Novum, berço do idioma latino.
Reportando-nos à conversa imaginária no táxi, citada na carta, quando foi dito que as declinações latinas estão na estrutura do nosso idioma, aqui vão dois exemplos:
O objeto direto está relacionado com a declinação acusativo e o objeto indireto com s declinação dativo.
Quem conhece bem o latim não confunde verbo transitivo direto com verbo transitivo indireto. Mas quem conhece?
Winston Churchill e Dieckmann (*), que deveriam dar o exemplo, foram, como confessaram, um fiasco no aprendizado da língua latina.

(*) A língua inglesa tem menos problemas de afinação do que a portuguesa e não se sabe que Churchill tenha tido problemas no domínio do Inglês. Analogamente, seu companheiro de infortúnio, o ex-aluno do CMRJ Dieckmann, pelo que este Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO já leu, também não tem problemas no trato com o Português, a língua.
Donde se conclui que Latim tem utilidade para poucos. Falássemos todos Latim e como os bailes funk apareceriam?

terça-feira, 12 de março de 2013

2335 - gregos, egípcios e... judeus


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4135                            Data: 18 de fevereiro de 2013
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SABADOIDO DAS ROMARIAS EVANGÉLICAS
PARTE II

-Os europeus se queixam porque comeram carne de cavalo pensando que era de vaca. - disse-me o Daniel quando eu rumava para o  Sabadoido.
-Quando eu trabalhei com manifestos de carga, ficava abismado com a quantidade de exportação brasileira de carne de cavalo, mas os países do extremo oriente é que comprava.
-Lá, eles comem de tudo. - finalizou.
Vagner, Claudio e Gina trocavam  ideias quando me juntei a eles.
Claudio se referia, agora,  a um pastor evangélico que explorava os crentes mais simplórios com lenços que dizia que era milagroso por conter um suor sagrado...
-Vendia os lenços? - perguntou o Vagner.
-Claro; e esse pastor tinha uma criatividade incrível para tirar dinheiro dos crédulos.
E fez uma ressalva.
-Não concordo com muitas ideias do pastor Silas Malafaia, mas lhe faço justiça: ele fala para os seus seguidores irem ao médico caso se sintam doentes.
-O outro pastor não, curava. - comentou o Vagner com um sorriso.
A Gina, que estava calada, se manifestou:
-Dizem que numa reunião do rebanho do Edir Macedo, no Maracanã, um pastor gritou para que todos os que enxergavam mal jogassem os óculos fora, e o chão do Maracanã ficou cheio de óculos.
-E todo o mundo continuou míope. - concluiu o Vagner com uma gargalhada.
-Há um filme, com Steve Martin, que mostra bem isso; Fé Demais Fede.  Você assistiu a esse filme, Carlinhos?
-Claudio, o filme que eu conheço sobre líder religioso charlatão é Elmer Gantry, o Burt Lancaster atua como protagonista.
Enquanto me irmão escarafunchava a memória à cata desse filme, aproveitei para narrar um dos episódios  mais marcante:
-O Elmer Gantry  lidera seus seguidores  na destruição de um prostíbulo e se depara com uma mulher que se tornara prostituta porque ele a seduziu; a partir de então, ele é desmascarado.
-Dudu (nosso primo) falava muito nesse filme. - recordou-se meu irmão.
-Se levasse no cinema de novo, eu veria.- garanti.
-Os judeus reconhecem a existência de Cristo, mas não com essa divindade que nós vemos. - assinalou a Gina.
-Eles falam do advento do Messias que, para nós, é Jesus Cristo.
-Para os judeus, Messias ainda não chegou.- seguiram-se as palavras da minha cunhada  às minhas.
Claudio que, embora agnóstico, dedica algumas horas para ouvir prédicas religiosas de diversas vertentes, interveio:
-Há pastores que consideram Davi mais importante do que Cristo.
-Sim, a estrela de Davi para eles é um símbolo mais forte do que a cruz.
O diabo é quando usam símbolos para arregimentar rebanhos na política, pensei, reportando-me à suástica, à foice e martelo, e à estrela do PT. Mas não desviei o tema religioso para o político.
-Davi consolidou a nação hebraica e o filho dele, Salomão, quando reinou, houve abundância:  riqueza e bem-aventurança.
-Mas eles tiveram momentos de decadência; foram escravos no Egito.
-Eu vi Os Dez Mandamentos, Gina.- disse o Vagner voltando-se para ela.
-Vocês conhecem a piada dos dez mandamentos? - perguntei sem muita esperança de ouvir um não.
Para minha surpresa, os três desconheciam a piada.
-Deus foi aos persas e perguntou se eles queriam um mandamento. Perguntaram,então, que mandamento era esse. Quando Deus respondeu que era “não roubarás', eles recusaram porque atrapalharia a economia deles. Então, Deus voltou-se para os gregos com a mesma proposta. Quando souberam que o mandamento era “não cobiçarás a mulher do próximo”, recusaram porque estragaria o fim de semana deles. Por fim, Deus foi até os judeus. Ao ouvi-lo, eles perguntaram: “Quando custa o mandamento?” Deus respondeu: “É de Graça.” Os judeus, então  disseram: “Manda dez”.
Embora eu não represente bem o papel de contador de anedotas, consegui arrancar alguns risinhos.
-O Egito tem uma cultura muita antiga; influenciou muito os gregos. - voltou-se a falar sério no Sabadoido.
-Dia desses, a Rosa corrigiu um cronista da Folha de São Paulo que escreveu sobre o mito da ave Fênix, que renasce das cinzas, dizendo que é grego.  “É egípcio”. - colocou ela em vermelho.
-O cão de Cérbero  titubeou o meu irmão.
-Essa patacoada foi do cronista de sábado do Globo... um Bloch.
-Arnaldo Bloch. - socorreu-me o Claudio.
Fui, com essa ajuda adiante:
-O Arnaldo Bloch confundiu os cães mitológicos, e a Rosa Grieco sublinhou os erros impressos e escreveu ao lado a  residência  certa dos cães citados.
-Os judeus não foram escravos só no Egito. - interveio a Gina.
-Foram cativos na Babilônia do rei Nabucodonozor.
-O Carlinhos sabe isso por causa da ópera do Verdi. - pilheriou o Claudio.
-E muita gente que gostava da música do PL, quando o Álvaro Vale aparecia com sua prédica, não sabia que se tratava do coro dos hebreus escravizados na Babilônia, e que esse trecho da ópera se tornou um hino para os italianos que lutavam pela unificação da Itália, fatiada no Congresso de Viena de 1815.
Gina deixou que eu terminasse a minha garrulice para afirmar que Jesus Cristo frequentava sinagogas e seguia os preceitos judaicos.
-Quem  criou o cristianismo foi Saulo, que tinha a cidadania grega, e se tornou mais tarde. Ele era um intelectual que, em vez de se tornar filósofo, enveredou pela religião. Eu li, há poucos dias, trechos da biografia de Sêneca, que se correspondeu com Saulo, São Paulo. Mas o irmão do Sêneca, também letrado, trocou mais correspondência com ele. São Paulo foi muito influenciado pela filosofia estoica, vida sem luxos, frugal, de Sêneca, e a levou para o cristianismo.
Deixaram-me de novo tagarelar.
Mas sempre há uma sabatina no Sabadoido e, dessa vez, a pergunta coube à Gina.
-Quem foi o último faraó do Egito?
Fez-se silêncio, Gina falou em mulher, veio-me à mente o imperador Augusto, que não se deixou seduzir como César e Marco Antônio por ela, e respondi Cleópatra. 
Ela, então, se levantou da cadeira.
-Daqui a dez minutos, eu saio para almoçar. - informou.
-Eu aproveitarei para ir embora mais cedo, pois tenho de ir para casa pela viação canela.
Nesse ínterim, relembramos eu, Claudio e Vagner os acontecimentos picantes dos anos 60 e 70 das ruas Americana e Chaves Pinheiro.
Eu era mais contemplativo no meu tempo de Chaves Pinheiro, pois ficava muito tempo na janela que dava para fora, enquanto na Modigliani não fico mais de um minuto. - pensava, enquanto a Gina reaparecia,
Do portão aberto por ela, gritei um até logo para o Daniel que, na sala, me ouviu e me saudou.
-Gina, a romaria os evangélicos prossegue. - surpreendi-me, pois já se passaram mais de três horas daquele fluxo constante.
-O pessoal não esmorece nem sob este sol  escaldante.- observou antes de seguir para o lado contrário a mim.
Ao atravessar a rua Cachambi, uma agradável surpresa que me veio através de uma buzinada: parado no sinal, estava o carro do Luca, que levava a Glória, a Kiara, a cunhada Candinha e o marido a um churrasco. Corri até ele. Um apressado buzinou quando o sinal abriu, mas Luca teve tempo de me entregar um envelope.
Com os textos da Rosa Grieco bem seguros na minha mão, segui para casa saboreando o fecho de ouro daquele Sabadoido.



segunda-feira, 11 de março de 2013

2334 - o nome da avenida


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4134                            Data: 17 de fevereiro de 2013
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SABADOIDO DAS ROMARIAS EVANGÉLICAS

Pisei o chão da Avenida Suburbana vindo da Rua Gaugin, passei por ela porque tinha de jogar duas latas de cerveja no quintal da casa cuja moradora, uma simpática senhora gorda e patusca, reforça a sua receita com a venda de alumínio.
Logo que avistei a citada avenida, surpreendi-me com uma espécie de romaria que se estendia no outro lado da calçada. Deduzi que só a Igreja Universal do bispo Macedo reunia ali, em Del Castilho, em Cachambi e arredores tanta gente.
Prossegui em direção à casa da Gina, pensando na alfinetada que o então prefeito César Maia dera nos evangélicos ao mudar o nome da Avenida Suburbana para Dom Hélder Câmera.  Afiançam, eu ainda não comprovei, que os evangélicos apenas utilizam o novo nome da avenida ao declinarem o endereço da sua igreja... Quanto a mim, faço o mesmo, mas por motivos diametralmente oposto; Dom Hélder Câmera sempre procurava os holofotes para exibir seu favorecimento aos perseguidos. Eu preferiria estar, naquele momento, na Avenida Dom Eugênio Sales, que morreu com fama de reacionário, mas, soube-se depois, protegeu e salvou inúmeros presos políticos, bem mais do que o religioso midiático.
Depois de alguma demora (certamente procurava alguma notícia boa no jornal, o que requer tempo), meu irmão abriu o portão para mim.
-O Daniel já voltou do carnaval de Paraty?
-Já, ele tem trabalho na Casa da Moeda na segunda-feira.
-Vida boa. - brinquei.
Na cozinha, Claudio retomou a leitura do jornal, enquanto eu, antes de me acomodar no sofá de alvenaria, coberto por duas almofadas, coloquei um envelope sobre a mesa. Ao perceber o envelope, meu irmão advertiu que o Luca não viria.
-Pena, pois trouxe quatro páginas de uma reportagem da VEJA, para a Rosa, sobre Ricardo III e a seu esqueleto encontrado num estacionamento em Leicester.
-Falam em ironia da sorte: ele, que ficou a pé, na batalha, e propôs a troca do seu reino por um cavalo, acabou debaixo de um estacionamento de carros. - comentou.
Logo, o assunto mudou para a tragédia da boate Kiss.
-Cláudio, você deveria navegar na internet, há um vídeo de um popular revoltado da cidade de Santa Maria que tem de ser visto por todos.
-O Daniel toma conta do computador que ninguém mais pode colocar a mão. - justificou-se.
Injustiça clamorosa, como se diz no futebol, eu mesmo o usava sempre que o pedia ao meu sobrinho.
-O que tem nesse vídeo? - mostrou-se curioso, mas sem largar o jornal que lia.
-Grosso modo, o revoltado denuncia a série de corrupção que concorreu para o incêndio da boate Kiss, que matou quase duzentos e cinquenta pessoas.
E prossegui:
-Ele citou o CREA, que emite o ART, integrado por pessoas que recolhem o dinheiro dos engenheiros para tomar cachaça, e que só libera o documento com propina.
-Eles devem beber uísque escocês. - contrapôs.
-Ele culpou a Corporação dos bombeiros, que também só libera o certificado com um dinheiro por fora. Não havia, por isso, rota de fuga, o que desnorteou muita gente, na hora do incêndio, e, assim, a grande maioria morreu encurralada nos banheiros.
-Sem falar naquela espuma de poliuretano, altamente tóxica, que asfixiou as vítimas. As pessoas pensam que o Corpo de Bombeiros é composta apenas dos homens que vão apagar incêndios, há muitas autoridades com desvio de caráter lá dentro. - acrescentou meu irmão.
-Ele culpou também a prefeitura, os funcionários que só emitem alvarás se receberem uma polpuda gorjeta.
-Chegou, então, aos políticos?
-Os políticos lavam dinheiro com essas casas de espetáculo lucrativas, colocando laranjas como donos.
-Dizem que o dono dessa boate Kiss é um deputado do PT.
-Claudio, seja do PT, do PSDB, do PDT, do PSOL, de onde for, tem de mofar na cadeia.
-Mas esse denunciante mostrou a cara?
-Não só mostrou a cara, como citou o próprio nome três vezes. Afirmou que a cidade de Santa Maria só funciona com corrupção.
-A cidade e todo o Brasil.- completou meu irmão.
-Eu avisei todos os meus colegas, que fiscalizam portos e terminais, que vejam esse vídeo e fiquem alertas; afinal, nós exigimos o ART do CREA, o Certificado do Corpo de Bombeiros, a colocação bem visível da rota de fuga...
-Vocês têm de tomar cuidado com esses megaempresários que compram todo o mundo.
-Com esses, eu já fico com um pé atrás, Claudio.
As chegadas do Daniel e da Gina transportaram a conversação para um tema ameno.
-Daniel, vi as suas fotos de Paraty.
-A Roberta (sua prima) colocou umas cinquenta no Facebook.
-Espera lá, Daniel: eu salvei no pendrive só as fotografias em que você aparecia, e foram mais de setenta.
-Chegou a isso?
-Salvei para transferir para um CD e a sua avó ver. Ela viu, achou você bonito e o Valtencir (marido da Roberta) bastante envelhecido.
-O Valtencir envelheceu mesmo – concordou a Gina, acrescentando:
-E ficou mais careca.
-Minha mãe também se referiu a essa calvície. - manifestei-me.
-E você ainda fala que ela enxerga mal, Carlão.
-Rapaz, ela enxergou aquele fiozinho para vocês, que atravessavam aquela estreita ponte de madeira, segurar.
-Carlão, aquela travessia me deu um medo...
-Só você se aventurou?
-Nada; o Valtencir ainda atravessou com a Mariana (a filha) no colo.
-Mas ficou para a posteridade apenas a sua travessia. - comentei.
-Carlão, o computador está livre.
Não fiquei sozinho diante do computador por muito tempo, pois logo veio o Daniel e, depois, a mãe.
-Daniel, pedem aqui a minha assinatura para que o Renan Calheiros renuncie, mas não consigo assinar no trabalho, pois os computadores são bloqueados.
-Aqui, você não terá problemas. - garantiu.
Enquanto eu punha meu nome no abaixo-assinado, Gina retransmitia uma notícia que o Claudio leu para ela sobre duas estagiárias do Senado que postaram no Facebook um rato morto pelos faxineiros de lá com o comentário Renan Calheiros não era o único.
-Foram demitidas?- indaguei.
Depois da resposta afirmativa, eu atentei que não se deve usar as ferramentas do trabalho para essas coisas, embora eu, muitas vezes, esquecesse disso.
-Elas postaram o rato no Facebook pelo celular. - interveio o Daniel.
-Então, é ditadura, mesmo. - concluí.
-Uma das estagiárias é sobrinha do Joaquim Barbosa. - informou a Gina.
-E a Petrobras, Carlão?
-Depois que o Lula privatizou a Petrobras para o PT, está explorando merda em vez de petróleo.
Gina percebeu um corte no meu supercílio, devido a uma pancada numa porta de vidro transparente, no meu trabalho, e se prontificou a fazer um curativo.
Enquanto ele mexia em água oxigenada e esparadrapo, perguntei-lhe sobre a razão da romaria dos evangélicos pela Suburbana.
-Parece que eles estão indo para a Livraria Saraiva, no Norte Shopping, comprar um livro do bispo Macedo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

2333 - o desejo do biscoito


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4133                            Data: 16 de fevereiro de 2013
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81ª VISITA À MINHA CASA

-Marlene Dietrich. - vibrei.
-Como você olha para mim e não pensa só nas minhas pernas, resolvi visitá-lo.
-Não é que eu não pense nas suas belas pernas, afinal, eu assisti ao “O Anjo Azul” quando a testosterona fervilhava nas minhas veias. Mas soube, depois, que o seu cérebro era privilegiado.
Pensei, naquele momento na atriz Hedy Lamar, precursora de um invento importante como o celular, mas, por cavalheirismo, me calei.
-Alguns diretores de cinema me consideraram muito lúcida. - disse, sem falsa modéstia.
-Alguns diretores?... Billy Wilder, Orson Welles, os grandes... - enfatizei.
-Tenho saudades deles.
-Billy Wilder disse, para os biógrafos dele, que, de todas as atrizes com que trabalhou, você foi aquela a quem ele mais admirou.  Disse textualmente que as pessoas falavam sobre as suas pernas, que, reconhecia, eram muito boas, além do restante do seu corpo e do seu talento. Mas o que ele mais admirava era sua inteligência. Assinalou que você era corajosa em manter as suas convicções, que reconheceu logo os nazistas. “Não aceitou seus prêmios e convites e foi embora da Alemanha, mesmo não sendo judia.
-Hitler me convidou para protagonizar filmes pró-nazistas, considerei aquele homem de bigodinho tão ridículo quanto o que seria retratado, anos depois, pelo Charles Chaplin. Depois de recusar, viajei para os Estados Unidos e me tornei cidadã americana. Hitler me tachou de traidora.
-Suas raízes eram bem germânicas?
-Sim; eu nasci em Schöneberg, um distrito de Berlim. Minha mãe era de uma família endinheirada, que possuía uma fábrica de relógios na capital da Alemanha. Meu pai era financeiramente mais modesto, um tenente da polícia, mas morreu logo, em 1911, eu contava com dez anos de idade.
-Eram você e a sua irmã um ano mais velha, Elizabeth?
-Sim. Viúva, minha mãe foi cortejada pelo melhor amigo do meu pai, um refinado primeiro tenente dos granadeiros. Casaram em 1916. Mas eu perdi também o meu padrasto, que morreu na Primeira Grande Guerra Mundial. Eu estava com quinze anos de idade.
-E o que você fez?
-Preparei-me nas escolas de arte cênica e integrei o elenco de filmes mudos até 1930. Nesse ínterim, precisamente 1921, casei-me com um ajudante de diretor de cinema, e tive, em 1924, a minha única filha, Maria.
-Quando você estreou no teatro?
-Em 1924; fiquei na vida teatral por cinco anos, mas apenas colhi experiência nesse período, sucesso nenhum.
-E como você saiu do teatro para o cinema?
-O cineasta austríaco Josef Sternberg me viu numa dessas peças sensaboronas e me fez o convite para atuar em Der Blaue Engel.  
-Um filme que se tornaria um clássico, O Anjo Azul.
-Ainda bem que o meu primeiro filme sonoro me catapultou logo para o cinema, pois eu marchava a passos de ganso para trinta anos de idade.- comentou com uma risadinha.
-Não conheço melhor história do que a d' O Anjo Azul, para retratar a degradação de um senhor respeitável por uma mulher.  O venerável Professor apaixonado até cacareja por sua causa.  Evidentemente que o seu papel de mulher fatal tinha uma importância fundamental para o público aceitar a história como plausível.
-Não vamos esquecer a qualidade do romance de Heinrich Mann. Ele não se destacou, na literatura, para não falar em política, tanto quanto o irmão, mas tem o seu valor.
-Já recebi uma visita de Thomas Mann aqui em Del Castilho. Sinto-me atraído pela família Mann, não só pelas artes, mas também pelas personalidades complexas. Sem falar que a matriarca, Kátia, era natural de Paraty.
-Como eu me iniciei tarde, no cinema, não podia falhar.
-Nessa sua estreia cinematográfica, você se aproveitou das suas pernas bem torneadas pela natureza, mostrando-as em posições ousadas para o ano, 1930.
 -Eu era, na fita, uma cantora de cabaré, tinha um álibi perfeito, com isso, tirei partido: fingia que a mostrava para um pequeno grupo de frequentadores de espelunca, quando a minha intenção era deslumbrar as grandes plateias dos cinemas pelo mundo afora. É claro que fui muito incentivada pelo Josef von Sternberg.
-Assisti ao seu filme umas três vezes pela televisão e fiquei encantado, como aqueles alunos do tal professor. Infelizmente, não soube de uma só exibição desse filme nos cinemas comerciais, na época em que eu os frequentava.
-Cinemas comerciais... Você adjetivou muito bem: esse é o motivo. O jeito é se contentar com  os filmes clássicos pela televisão.
-Você trabalhou sob a direção de Josef von Sternberg por um bom tempo?
-De 1930 a 1935; sete foram os filmes: o já citado, Marrocos, Desonrada, O Expresso de Shangai, A Vênus Loura, A Imperatriz Galante e Mulher Satânica, este o último.
-Então, Hitler, o senhor da Alemanha, no auge da popularidade, a convidou para ser protagonista de fitas pró-nazistas. - voltei ao assunto.
-Sobre ele, não vou falar mais para não desperdiçar energia. Eu fiquei decepcionada com a falta de lucidez do povo alemão; peguei minhas coisas e viajei para os Estados Unidos com o propósito de mudar a minha nacionalidade e prosseguir dignamente na carreira artística.
-O que torna o seu gesto ainda mais louvável era você não ser judia, ou seja, recusou a bem-aventurança que o ídolo do povo germânico lhe fornecia. Você era uma mulher que estava à frente do seu tempo.
-Sim, fui a primeira mulher a usar calças em público; isso, na década de 20. - informou com um trejeito irônico.
  -Você descobriu que sabia não apenas representar, mas também cantar.
-Eu gostava muito de cantar. Assim, fui ao encontro dos soldados aliados, na Segunda Guerra Mundial, distraí-los das agruras da vida com a minha voz.
-Enfurecendo os alemães. - completei.
-Não os lúcidos, que eram os que eu considerava.
-No meu tempo de garoto, eu a vi na tela grande do Cine Cachambi, num filme com o Gary Cooper (*). Não me recordo do nome do filme, mas não me sai da mente a cena em que você desperta o desejo dos homens numa partida de bilhar.
-Saí muitas vezes para cantar, principalmente em Las Vegas, para fugir um pouco desse estereótipo de atriz erótica.
-Mas um diretor da qualidade do Orson Welles a chamou para atuar num dos melhores filmes dele, A Marca da Maldade.
 -Eu tinha cinquenta e seis anos, na época, mas tivesse trinta e Orson Welles continuaria a me ver como uma mulher que sabe pensar.
-Billy Wilder a convocou um ano antes para atuar  em Testemunha de Acusação.
-Billy Wilder dizia que era louco pela sopa de cogumelo que eu preparava.
-Ele era, na verdade, louco por você. - disse em tom jocoso.
-Sim, mas ele era muito respeitoso. Um austríaco que, por ser judeu, viu-se obrigado a se refugiar nos Estados Unidos para não ser morto pela barbárie nazista.
-E a Alemanha, Marlene?
-Em turnê, como cantora, pisei o solo alemão em 1962. Ainda no aeroporto, ouvi vozes que me chamavam de traidora.
-Como dizia Einstein, a estupidez humana é infinita.
-Sim, mas é hora de partir.
E, com a mesma leveza com que chegou, ela se foi.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO custou, mas achou – é o filme Desejo (1936). La Deitrich contracenou com todo mundo, mas Gary Cooper foi um dos primeiros, na fase Hollywood.


quinta-feira, 7 de março de 2013

2332 - o paralelepípedo míope

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4132                            Data: 15 de fevereiro de 2013
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CAMINHANDO  SEM  ÓCULOS

Na noite do dia anterior, assistindo ao canal Film & Arts, que corre o sério risco de ser retirado da TV a cabo do Brasil, mais uma contribuição à ignorância nacional... Dizia eu que via televisão, quando, por singela experiência, arranquei os óculos e os coloquei sobre a mesa de jantar. Constatei, com um ar triunfante, que conseguia ler as legendas, apesar de elas não serem grandes e de eu estar a uns três metros de distância.
Reportei-me, então, ao início da década de 70, quando fui a um oculista de loja, entre o Méier e o Engenho Novo, na vizinhança da então famosa Fotos Quesada. Quem, morador do Cachambi, Del Castilho, Méier, Engenho Novo, Todos os Santos, não tirou a sua fotografia 3x4 lá? Mas voltemos à ótica, pois o assunto é este.
Examinado, diagnosticaram-me uma miopia de grau próximo de três.
Os óculos na minha cara eram um corpo estranho. Eu tinha o pressentimento de que todos me tomavam por um alienígena. Era uma megalomania às avessas, ninguém, na verdade, reparava em mim, a não ser os amigos e parentes do dia a dia.
-Estou horrível, não estou?
-Não, quatro olhos.
Castigo: no colégio, eu sempre lembrava os portadores de óculos que eles tinham quatro olhos.
A minha sensação incômoda, naquela época, era bem diversa do personagem de um conto de Guimarães Rosa que, menino, colocadas as lentes sobre seus olhos, deslumbrou-se com o mundo que agora podia contemplar.
Voltando para hoje. Acostumado a assistir a um pouco de televisão e passar as minhas vistas pelas páginas de um livro até o sono chegar, adormeci. Despertei pouco antes das cinco horas da manhã e, vinte minutos depois, juntava os petrechos para mais uma corrida pelas ruas.
Quando já me preparava para sair, vieram-me à mente os óculos. Onde estavam os meus óculos? Não estavam nos lugares de costume: sobre a mesa do computador ou do criado mudo, que insistia em ficar calado embora eu lhe perguntasse onde estavam meus óculos.
 Estariam sobre a mesa do jantar, quando os arranquei para constatar que lia as legendas da televisão sem eles?  Claro que não, pois me recordo bem de ter lido a biografia do Conde Francesco Matarazzo com eles, enquanto Morfeu não chegava. Ainda assim, fui escarafunchar a mesa da sala de jantar. Puro TOC – diagnosticariam. 
Investiguei duas ou três vezes os mesmos lugares, incluindo banheiro e cozinha, nada. Uma amiga de muitos anos recorre a São Longuinho, dando três pulinhos, uma espécie de simpatia, para achar objetos perdidos, mas, naquela hora, as ideias que me vinham não eram nada católicas.
 Para não desperdiçar mais energia, antes do tempo, tomei a decisão:
-Vou caminhar sem óculos.
Caminho pelas ruas Honório, Itamaracá, Gaugin, Vlamink, Renoir, Modigliani, Braque, pela Avenida Suburbana e não sinto falta deles. Até vejo cocos permeando o meio-fio da Rua Honório. Diabo, por que esses cocos apareceram pelo chão? Nunca os vi, assim, nem mesmo com os óculos?...
Bem, eu já completei trinta minutos de andança pelos asfaltos e paralelepípedos, agora vou rodar na quadra de basquetebol da Praça Manet, onde o piso  não é traiçoeiro, além de ser inteiramente plano. Para chegar nela, tenho de passar por mesinhas e cadeiras de concreto em que se acomodam bebedores de cerveja e, já me deparei algumas vezes, cheiradores de cocaína. Agora, porém, tudo parecia tranquilo, até que… 
Com o susto que levei, freio o meu ímpeto: um sujeito está estendido no chão, completamente imóvel e pareceu-me que a sua cabeça, arrancada do corpo, ali estava. A cena era por demais macabra, estuguei, então, os passos rumo à outra quadra, onde então, eu terminaria a minha caminhada programada para quarenta e cinco minutos.
Mil conjecturas me vinham à mente. Os traficantes da favela Bandeira 2, à questão de quinze dias, desovaram um corpo dentro de um contêiner de lixo na movimentada, embora fosse madrugada,  esquina da rua Van Gogh com a Avenida Suburbana.
Será que desovaram agora um cadáver, com a cabeça arrancada, em plena Praça Manet, junto ao trailer “Fofoca da Madrugada”?... Que eles são cruéis para deceparem as cabeças dos corpos não resta dúvida. Ou, em vez de cabeça, aquilo era um coco?... Esta dúvida me ocorreu, porque ainda estávamos no horário no verão, ou seja, só clarearia daqui a meia hora.
Por que não me aproximo mais do morto, já que todos dormem nesta quarta-feira de cinzas, não me vendo, por conseguinte, e tiro a dúvida de uma vez por todas?  Faltou-me estômago. Procurei me encorajar trazendo à lembrança os incontáveis livros que li, e não menos numerosos filmes a que assisti sobre a Revolução Francesa. Mas eram Maria Antonieta, Luís XVI, Lavoisier, Andrea Chenier, Madames Du Barry, Camille Desmoulins, Danton e Robespierre guilhotinados em papel e celuloides, o que representava uma diferença abismal entre mim, naquela situação e os populares que vibravam na Praça da Concórdia no período do terror.
Noto que um sujeito de camiseta regata e bermudas, que viera pela rua Renoir, viu o corpo e se aproximou. Diminuí minhas passadas e me concentrei naquela cena. O sujeito se curva para olhar o corpo mais detidamente.
-Comentará comigo alguma coisa? - pensei, pois eu era a pessoa mais próxima, apesar de me encontrar a uns trinta metros.
Nada disso, ele seguiu em frente.
-Já era hora de um carro da polícia aparecer, pois não é possível que morador algum deste conjunto do IAPC de Del Castilho não saiba que está lá um corpo estendido no chão.
Voltei para casa. Tomei banho, vesti-me e, agradável surpresa, deparo-me com os meus óculos sobre a cadeira que fica à mesinha do computador.
Passou quase uma hora e contei ao meu irmão, que se preparava para ir às compras, o que eu vira e não vira. Ele chegou à janela e olhou em direção da “Fofoca a Madrugada”. Embora as amendoeiras atrapalhassem a sua visão, deduziu que, caso houvesse uma desova ali e com um corpo separado da cabeça, haveria uma grande movimentação, inclusive com carros da polícia.
-Lopo, escute os comentários dos moradores e me diga depois. - pedi.
Ele saiu às sete da manhã e retornou às dez.
-E então?
-Carlinhos, era um bêbado, que ainda está lá, estirado no chão, e, ao lado dele, está um boné.
-Um boné:????!!!...
Ainda bem que encontrei meus óculos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

2331 - Ricardo III, o retorno

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4131                            Data: 14 de fevereiro de 2013
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SABADOIDO DA SEMANA DE CARNAVAL
2ª PARTE

-O gordo me esquartejou. - dramatizou o Luca.
Ele já me contara o caso pelo telefone, por isso, folheei um dos alentados livros da Rosa, enquanto o Claudio expressava curiosidade.
-Claudiomiro, antes de eu viajar para Foz de Iguaçu, o pessoal me apresentou um desafiante para umas partidas de pingue-pongue.
Todos têm um pouco de técnico de futebol e de empresário. - pensei com os meus botões sem largar as páginas sobre Fernando Pessoa.
-Em dez partidas de 15, o gordo me ganhou de 8 a 2. Eu sacava, e ele respondia à altura. Cortou-me em postas.
 -Não houve outras partidas?
-Houve, Claudiomiro; ele arrasou comigo de novo: 18 a 12.
-O placar foi bem mais apertado dessa vez. - confortou-o meu irmão.
-Mas ele tem 170 quilos.
-Mas é baixo?- interferi.
-Tem mais de 1,85 m de altura. Ele me disse que perdeu 40 quilos.
-Nem dá para imaginar como ele era antes. - acrescentei.
-O gordo é faixa preta de aikidô, foi se graduando sem participar de competições. Disse-me que gosta mesmo é de disputar partidas de pingue-pongue.
-Ótimo, Luca; você tem agora um competidor que vai exigir de você.
-Sim, Carlinhos. Como dizem os judeus: prefiro perder para quem sabe do que ganhar de quem não sabe.
-E lá em Foz do Iguaçu? - quis saber o Claudio.
-Era o aniversário da Glória, levei a Kiara e a Carolina (sua filha) também foi. No lado argentino, procurei comprar uns equipamentos para partidas de pingue-pongue, mas não encontrei nada que prestasse. A espuma que reveste as minhas raquetes já estão ressecadas.
-A Foz do Iguaçu é uma beleza. - afirmou meu irmão que a conhece, como eu, apenas por filmes e por fotografias.
-É uma obra que traz orgulho aos brasileiros; ainda não está concluída... (*)
-Espera lá; ela foi realizada pelo governo militar em 1973. - protestou meu irmão.
-A maior obra dos militares foi Itaipu e a pior, a Transamazônica. - emendei.
-Mas a obra prossegue; o Lula esteve lá, quando governava, e todos os presidentes que lá vão tem de plantar uma árvore.
Antes que meu irmão interviesse, ele se antecipou ao seu comentário ferino.
-Lula pretendia plantar cana, mas foi obrigado a plantar um ipê.
-Um ipê de cana. - fez meu irmão o trocadilho, que o Luca alterou um pouco.
-Um ipé de cana. -
Nesse instante, mostrei uma sacola de plástico azul aos dois.
-Recebi isto no meu trabalho com este papelzinho grampeado em que está escrito “Ao ilustre militante”. Abro, e me deparo com um Sedex 10. Dentro dele, está essa publicação que traz na capa as letras PT em formato de foice e martelo. Folheando a dita cuja, encontrei as manifestações mais absurdas dos xiitas do partido.
-E quem lhe enviou?
-Claudio, pensei primeiramente no Reinaldo.
-Reinaldo não faria isso.- defendeu  o cunhado.
-Não pensei nisso mais do que um minuto, pois imagino que o Reinaldo está desiludido, como muitos petistas de caráter que conheço. Então, a suspeita recaiu sobre um colega de trabalho que, há poucos dias, reclamou do radicalismo dos amigos que tem no PT, mas, como é gozador acima de tudo, e sabendo da minha simpatia pelo FHC, que neste material é chamado de príncipe dos sociólogos que virou príncipe das trevas, e da minha oposição declarada ao Lula e asseclas ...
-Certamente foi ele. - concluiu o Claudio.
-Bem, eu vou jogar isto fora.
-Não, Carlinhos, é uma agenda, apesar de tudo.
Enquanto eu estendia o braço para entregar-lhe aquela remessa, o Luca se deteve no cartapácio sobre o Fernando Pessoa que, há pouco, eu folheara.
-A Rosa espinafrou com o livro.
-Houve um cronista que esculhambou com o Fernando Pessoa . - puxou meu irmão pela memória.
Eu via o Arnaldo Jabor na minha frente, mas o seu nome não me chegava à mente.
-Aquele que tem um parentesco com a Rosa Grieco?...
-O Arnaldo Jabor, Carlinhos?
Claudio uniu minhas palavras às do Luca e completou seu pensamento:
-Foi o Arnaldo Jabor que, escrevendo sobre os 100 anos do Rubem Braga, disse que o cronista não gostava, também, do Fernando Pessoa.
-O que é lastimável. - concluiu o Luca.
-O Arnaldo Jabor tem essa mania de comparações excludentes: comparou, por ocasião da morte do João Cabral de Mello Neto, ele com o poeta português, para apequenar o autor de Tabacaria.
Falava e me vinha à mente o hábito do Mário Henrique Simonsen, como crítico de música, de comparar, por exemplo, Mozart com Beethoven, a Missa Solene de Beethoven com a Missa em Si Menor de Bach, a  voz do Pavarotti com a do Placido Domingo, mas com uma diferença fundamental: eram comparações enaltecedoras.
-Uma vez, Arnaldo Jabor criticou Machado de Assis para elevar o Eça de Queirós.
-Qual é o problema de gostar dos dois? - perguntei.
Luca se referia, agora, a excitação intelectual a que a Rosa Grieco foi submetida com a descoberta da ossada do rei Ricardo III num estacionamento para funcionários públicos em Leicester.
-Leitora voraz das peças de Shakespeare e da história nas monarquias europeias, eu imagino como está fervilhando o cérebro dela com esse retorno do Ricardo III. - manifestei-me.
Luca, enquanto isso, sacou da maçaroca de papéis, que trouxe, uma fotografia que a Rosa me destinava. Era ela, em 1968, na cidade de Bruxelas. “Bem que valia uma missa”, pensei enquanto a mirava aquele instantâneo.
Em seguida, Luca me entregou uma fotografia, esta em preto e branco e em dimensões maiores da sua mãe, Dona Isaura, sentada, bordando, e de seu pai, Agripino Grieco, numa cadeira de balanço, lendo.
-Assim era a vida dos dois, o pai lendo e a mãe bordando. -comentou o Luca.
Depois de o Luca reproduzir os seus costumeiros desentendimentos com a erudita e idiossincrática Rosa, entregou-me cartas delas. Gosto muito de lê-las, embora haja citações em francês, inglês, italiano e latim; ainda assim, não é um aranhol intricado, pelo contrário, é de uma clareza meridiana.
Claudio passou a falar de carnaval.
-Parece-me, Claudio, que as melodias das escolas de samba são as mesmas, muda apenas a letra. - intervim.
Luca concordou imediatamente comigo, e eu aproveitei para assinalar que boas melodias de samba enredo houve no passado, principalmente com Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola.
-Houve muitos compositores de samba-enredo. - assinalou meu irmão.
E pôs-se a cantar “Lapa em três tempos”, da Portela de 1970, com o Luca o acompanhando no gogó, na falta de pandeiro, reco-reco e tamborim.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO solicita paciência ao leitor. Todos sabemos que Foz do Iguaçu não é uma obra do governo e que já estava lá bem antes do Lula nascer. O sentido aparecerá em 3 linhas, a obra do governo a que se refere é Itaipu.