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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

2017 - na era do rádio

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3847 Data: 13 de setembro de 2011

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QUANDO FUI POLITICAMENTE ROMÂNTICO

Na casa do professor que me preparava para o concurso de admissão ao ginásio, na Rua Rocha Pita, colocaram na porta de entrada um cartaz que dizia: Jânio, Milton e Lacerda. Jânio Quadros era candidato à presidência da República, Milton Campos, à vice-presidência e Carlos Lacerda, a governador do Estado da Guanabara.

No fundo da casa, havia um galpão onde estudavam uns dez alunos de manhã e uns quinze de tarde. Seu Alcir, o professor; ele e sua família não tocavam em política conosco, mas a garotada, envolvida pelo clima eleitoral, esquecia, por momentos, a bola, a pipa e os livros, e se enfronhava no assunto de adultos.

Numa aula, a poucos meses das eleições e das provas, um colega de concurso bradou:

-Use o crânio e vote em Jânio.

Fiquei encantado. Era como se essa rima tivesse superado toda a poesia de Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves Dias que eu havia lido nos estudos da língua portuguesa. Agora, além da vassoura espetada no bolso da camisa, um broche que me deram, eu tinha um verso para difundir o nome do político que iria salvar o Brasil.

Mas não foi numa escola de udenistas que surgiu o meu encanto pelo Jânio Quadros e sim na minha casa de petebistas. Meses antes, houve a convenção da UDN, transmitida pela TV Tupi ou TV Rio, não me recordo bem. A minha atenção se convergia para o meu pai e para o que estava na imagem televisiva. Quando o deputado Carlos Lacerda foi convocado para discursar, meu pai se ajeitou na cadeira para melhor ouvir, enquanto aplausos, seguidos por um silêncio de expectativa, tomaram conta da convenção com a presença do futuro candidato a governador da Guanabara.

Decidia-se ali quem seria o candidato da UDN à sucessão de Juscelino Kubitscheck: Jânio Quadros ou Juracy Magalhães. Carlos Lacerda enalteceu o ex-governador de São Paulo e fez referências a ligações do político baiano com o atual presidente da República, para dividir a oposição. Com uma oratória preciosa - palavras exatas numa voz vibrante e clara – Carlos Lacerda alcançou um triunfo. Não restava mais a menor dúvida que a UDN escolheria o Jânio Quadros como seu candidato.

-Tenho de reconhecer que a inteligência do Carlos Lacerda é impressionante. - disse o meu pai.

Voltando ainda mais no passado, ficou marcada na minha memória de criança a visão do meu pai, colado no rádio, inteiramente entristecido, ouvindo as notícias sobre o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Foi o meu primeiro contato com a política. Depois, escutei por inúmeras vezes ele chamar o Carlos Lacerda de assassino do Getúlio. Meu pai, no entanto, era jornalista, e, embora escondesse (minha mãe revelou seu segredo), nutria um grande orgulho em pertencer ao jornalismo. Assim sendo, Carlos Lacerda, por ser jornalista, não era de todo mal. Digo isso porque ele nunca se opôs à minha admiração explícita pelo primeiro governador da Guanabara. Mas retornemos ao Jânio da Silva Quadros, o homem que iria varrer a sujeira do Brasil.

Aproximavam-se as eleições. Lá, em casa, também se viu pela televisão o discurso apoteótico dos candidatos do PTB. Uma multidão gritava:

-É Lott, é Jango, é Sérgio Magalhães.

Eu já havia assistido partidas de futebol no estádio do Vasco da Gama, mas a paixão dos torcedores lembrava palidamente a daqueles aficionados do PTB; talvez num Vasco e Flamengo no Maracanã houvesse tantos gritos apaixonados. Não sei... percebi que a disputa para a minha trinca, Jânio, Mílton e Lacerda seria acirrada. Enquanto isso, a irmã mais velha da minha mãe, platonicamente apaixonada pelo Marechal Lott, apareceu lá em casa, como cabo eleitoral e distribuiu inúmeras espadas para nós espetarmos na roupa, como broches. Mantive-me fiel à vassoura.

O grande dia chegou, o da votação, 3 de outubro de 1960. Talvez porque me visse tão empolgado com o pleito eleitoral, meu pai resolveu me levar com ele. Creio que do caminho de casa às urnas, ele me ouviu repetir umas dez vezes: “Use o crânio, vote em Jânio”. Não me repreendeu, escutava e sorria. Na fila de votação, eu contive os meus arroubos janistas e me mostrei curioso com a presença de um cidadão jovial que andava de um lado para outro com uma braçadeira da UDN.

-Quem é, pai?

-É fiscal do partido. - respondeu.

De volta para a casa, a minha curiosidade represada se soltou:

-Votou no Jânio?

-Votei no Jango. - foi a resposta que deu para fugir da minha pergunta.

Que ele votaria no João Goulart para vice-presidente era um truísmo, por causa da sua paixão pelo Getúlio Vargas, e para presidente?... Falava-se muito na chapa clandestina Jan-Jan, Jânio e Jango, mas meu pai, como uma esfinge, não declarava o seu voto para a Presidência da República. Viveu mais 38 anos sem revelar a sua escolha, foi um segredo mais bem guardado do que o da receita da Coca-Cola.

Com a apuração das urnas, meu pai se mostrou impressionado com os votos no Jânio:

-Nem Getúlio conseguiu essa votação.

Getúlio Vargas não conseguiu, mas a sua influência, mesmo depois do suicídio, ou por causa disso, ainda era acentuada: João Goulart superou Milton Campos, apesar de todos reconhecerem a retidão de caráter do ex-governador de Minas Gerais.

No dia da posse de Jânio Quadros, eu ainda morava na Rua Cachambi 533 aptº 103. Minha mãe conversava com Dona Maria, a espanhola do 203, quando espocaram foguetes na Rua Chaves Pinheiro. Saudavam o novo presidente do Brasil com a alegria que os torcedores apaixonados festejam um título da seleção brasileira de futebol. Minha mãe levantou a voz sobre aquela barulheira.

-Esse homem vai ser a desgraça do Brasil, Dona Maria.

Ela, que era de Santander e sentiu, desde menininha, os horrores da guerra civil da Espanha, apenas escutou aquelas manifestações.

Na casa do Seu Alcir, o cartaz Jânio, Milton e Lacerda não saiu do lugar. Mas eu partia agora para o Colégio Estadual Visconde de Cairu, que ofereceu 70 vagas para milhares de pretendentes e alargou esse número com a interferência do agora governador Carlos Lacerda.

Em agosto de 1961, umas cinco mães ainda buscavam os seus filhos no colégio e eu, vergonhosamente, era um deles. No dia 25, mal eu saí da sala de aula e pisei o chão da rua, ouvi esta notícia da minha mãe:

-O Jânio renunciou.

Senti o golpe. Mas essa desilusão que me atingiu precocemente foi benéfica, a partir de então nunca mais me envolvi emocionalmente com política.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

2015 - o corcunda da Guerra dos Cem Anos

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3845 Data: 09 de setembro de 2011

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COMENTANDO OS E-MAILS

PARTE II

Acesso minha correspondência e topo com o “questionário da loura burra”. São perguntas, com respostas em múltipla escolha que, com exceção da última, iludem aqueles que imaginam que se trata de coisa parecida com “qual é a cor do cavalo branco do Napoleão?”. Eis as questões, primeiramente:

1) Quanto tempo durou a Guerra dos Cem Anos?

2) Em que país é fabricado o chapéu panamá?

3) Em que mês os comunistas russos celebravam a Revolução de Outubro?

4) Qual era o primeiro nome do Rei George VI?

5) As Ilhas Canárias, no Oceano Atlântico, têm seu nome tirado de que animal?

6) Quanto tempo durou a Guerra dos Trinta Anos?

Como a Rosa Grieco me emprestou a Bíblia de Mogúncia, posso bradar como ela:

“-Com a mão na Bíblia de Mogúncia!”, declaro que sabia que a Guerra dos Cem Anos durou mais do que uma novela mexicana, perdurou por cento e dezesseis anos; que o chapéu panamá não era fabricado no Panamá; que a Revolução Comunista, de outubro, aconteceu em novembro, no calendário gregoriano; que George VI era chamado de Bertie (Albert era seu primeiro nome); e que a Guerra dos Trinta Anos, entre as famílias York e Lancaster, durou três décadas.

Confesso que não sabia o período da Guerra dos Trinta Anos (de 1618 a 1648, depois de uma visitinha ao Google).

Na questão nº 5, responderia como as mulheres de cabelos dourados da piada: canário. Lendo as respostas, sou surpreendido: as Ilhas Canárias devem seu nome ao cachorro. E segue a explicação: o nome era Insularia Canaria, que, em Latim, significa Ilha do Cachorro.

Antes de passar a outra mensagem eletrônica, tenho de visitar de novo o Google, para saber o período da Guerra dos Cem Anos. Cá está: foi de 1337 a 1453.

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Não faltam e-mails alarmistas em minha caixa de correspondência. Semanalmente, chegam notícias sobre novos vírus que apagarão toda a memória do hard disk, levando meu computador a sofrer do Mal de Alzheimer. Novos golpes na praça aparecem sempre e, suspeito, até ensinam os malfeitores a praticá-los. Anteontem, deparei-me com um alarme que nunca vira: “Cuidado com a escolopamina”.

O que é “escolopamina”? Nem quis saber, limei a mensagem. Já basta me precaver com os males que são velhos conhecidos.

Um alerta que não enviam costumeiramente é sobre a conta de restaurante. Dez dias atrás, recebi um que, para enfatizar o cuidado que nós, fregueses de restaurantes, devemos tomar, trazia uma conta escaneada. Apareciam as bebidas e petiscos consumidos com os valores ao lado, e embaixo estavam os somatórios, R$173,20 e R$190,52, sendo que este último significava o acréscimo dos 10% do garçom. Então, viam-se, na mesma nota, os números de cada bem escrito a mão e a soma refeita: R$111,30. Um comensal atento não se deixou bigodear em mais de R$60,00.

O golpe da conta, segundo o denunciante, ocorre porque o garçom deixa, de má fé, um número na memória da máquina de calcular. Será isso? Eu mesmo já errei contra mim, em algumas ocasiões, porque julgava que a máquina de calcular estivesse zerada. Quanto à conta de restaurantes, já participei de grupos de almoço com desconfiados, calculistas e sovinas, de não deixarem passar um erro sequer. Aqui vão algumas passagens com eles:

Leandro Varella, o desconfiado, averigua o número de bolinhos de bacalhau, de tulipas de chope, enfim, de cada item computado pelo garçom. Depois de muita discussão, quando cada comensal quantifica o que comeu e bebeu, ele passa aos preços. Com Leandro Varella, passamos mais tempo pagando a conta do que almoçando.

Brito – quando o Brito está com a conta do restaurante nas mãos, ele tem pela máquina de calcular uma ojeriza comparável a de um vegetariano por um espeto de churrasco.

Certa vez, inadvertidamente, ofereci-lhe uma maquininha quando o garçom lhe entregou a “dolorosa”. Com um rápido movimento, ele afastou meu braço com o objeto que embota o nosso cérebro. Brito soma, multiplica, subtrai e divide de cabeça, chegando, quando é o caso, à dízima periódica. Sua fama, entre os amigos, superou a das calculadoras marcas Texas e HP.

Levy – este é um colega mais recente, que chegou ao meu trabalho depois de superar um concurso que derrubou mais de noventa e cinco por cento dos participantes. Não tem a mesma agudeza do Brito, no cálculo de cabeça, mas chega até a segunda casa decimal com impressionante exatidão e, em seguida, se torna inflexível. Por exemplo: se coube, pelo rateio, o pagamento de R$20,38, e alguém disser que vai pagar R$20,50, para arredondar, ele é peremptório:

-Já estou dando 10% ao garçom, vou pagar R$20,38.

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Recebi uma mensagem eletrônica que poderia se chamar “Tudo o que você gostaria de saber sobre a Catedral de Notre Dame, mas tinha vergonha de perguntar”.

Nos primeiros slides, aprendi que os agitadores da Revolução Francesa invadiram essa grande obra gótica da Era Medieval e não respeitaram algumas obras de arte que lá estavam. Com o correr dos slides, soube que a Catedral passou por uma reforma em regra.

- Estou sabendo mais sobre a Catedral de Notre Dame do que Quasímodo. - disse comigo mesmo, quando acessei o slide 70.

Não era exagero meu, pois, com a citada reforma, o Corcunda de Notre Dame, que se pendurava nos sinos que badalavam a ponto de ficar surdo, não reconheceria muita coisa por causa dos acréscimos que foram feitos.

Lá pelo slide 90, notei que estava com menos tempo para realizar uma tarefa que trouxe do trabalho para casa e para escrever mais uma edição do Biscoito Molhado.

No slide 100, veio a pergunta que não queria calar:

-Isto é uma mensagem ou é um livro eletrônico?

Confesso que, quando os detalhes arquitetônicos da Catedral foram mostrados, pulei páginas, ou melhor, slides, e fui ao final, onde recebi parabéns imerecidos por ter acompanhado todo o arquivo, neste corrido mundo globalizado.

Bem, li, como já registrei, o livro “Nossa Senhora de Paris”, de Victor Hugo, e também vi duas versões do filme “O Corcunda de Notre Dame”, uma com Charles Laughton e outra com Anthony Queen. E assisti ao desenho dos estúdios de Walt Disney, que deturpou a história do escritor francês. Saí do cinema achando o desenho tão absurdo quanto a Esmeralda, protagonizada por Gina Lollobrigida, que, estirada no chão, parecia que tinha saído de um salão de beleza, de tão bem aparadas que estavam suas sobrancelhas e cílios.

Depois, reconheci que o desenho de Walt Disney tinha o público infantil como alvo e, por isso, tinha mesmo de receber um final feliz.

Quanto ao tal e-mail, quase um e-book, sobre a Catedral de Notre Dame, voltarei a ele quando meu tempo estiver folgado, pois merece toda a atenção.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2020 - rótulos amarelados

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3844 Data: 07 de setembro de 2011

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COMENTANDO OS E-MAILS

Como se fosse cometa, o hoax – boato difundido pela Internet – volta.

Abro minha caixa de correspondências eletrônicas e me deparo com o alerta de que as frutas devem ser ingeridas em jejum. Vários nutricionistas já demonstraram cientificamente que tal afirmação é uma asnice, mas os boateiros não se intimidam ou contam com a amnésia dos internautas.

Outro hoax que reaparece é aquele que nos conclama a olhar para o céu em determinada data porque, depois de não sei quantos séculos, a conjugação dos astros se dará de tal maneira que o planeta Marte aparecerá no céu, para nós, a olho nu, maior do que a Lua.

Entre as vítimas ilustres desse boato, uns três anos atrás, esteve o comentarista de temas cibernéticos da Rádio CBN, Etevaldo Sequeira, que reconheceu em público que caíra numa espécie de 1º de abril.

A periodicidade do Cometa Halley era de setenta e seis anos, a do hoax deve ficar por volta de setenta e seis semanas. Não sei se o Cometa Halley já se desintegrou, mas o hoax continua firme como uma rocha. Aguardo, por esses dias, e-mails que digam que Arnaldo Jabor estaria proibido de falar contra o governo, que Alexandre Garcia foi demitido pela TV Globo, que o governo vai acabar com o 13º salário, que cerveja com limão mata, e muitos outros.

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Recebi mensagem eletrônica com o título “alongamento para o pescoço.”

Antes de abrir o arquivo anexado, imaginei situações que me tornam pescoçudo: a passagem de uma mulher cuja beleza é estonteante, ou encontrar uma barreira de pessoas altas pela frente, quando aconteça algo que faça convergir a atenção de todas.

Bem, não esperei mais e abri o arquivo.

Deparei-me com texto em seis parágrafos, que se encontravam dispostos, alternadamente, em posição normal e de cabeça para baixo.

Isto posto, temos de ficar três vezes de cabeça para baixo, para entender tudo o que foi escrito. Onde o pescoço se alonga nessa história toda, confesso que não sei.

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Carlos Alberto Torres, que não é o autor do último gol do Brasil na Copa do Mundo de 1970 e daquela própria Copa, depois de me enviar o substancioso livro “Comidas de Samba, Bebidas de Choro”, remete-me um e-mail com notícia do seminário que se realizará nos dias 14 e 15 de setembro, no salão Pedro Calmon, do Palácio Universitário da UFRJ, 2º andar, na Av. Pasteur 250, Urca, campus da Praia Vermelha, sobre os cento e quarenta anos da Comuna de Paris.

Além da programação do evento, o remetente nos brindou com seu comentário:

-”Esse é o fabuloso “mundo acadêmico”, só perde para o fabuloso mundo do antigomobilismo.”

Até a primeira vírgula, ele foi sério, a partir dela, brincou com seus amigos colecionadores de carro de décadas pretéritas.

Aprendemos nos livros de História Geral, no tempo do ginásio, que a França de Napoleão III (Le Petit, segundo Victor Hugo) foi fragorosamente derrotada pela Prússia, de Bismarck, em 1870 e, no ano seguinte, a Comuna de Paris se instalou por quarenta dias.

Procurei na programação do seminário alguma coisa interessante, como uma palestra do prof. Fiani, sobre a música de Jacques Offenbach, algo parecido com o que ele fez no programa “Clube da Ópera”, do Sérgio Fortes, na Rádio MEC, quando comentou “Os Contos de Hoffmann”, do compositor acima citado.

Recordo aqui o que disse o professor Fiani.

Para agradar o país da opereta, em que se transformara a França do Segundo Império, Jacques Offenbach desperdiçou seu talento, compondo música superficial para satisfazer uma sociedade fútil. Alcançou uma popularidade incomparável, ganhou muito dinheiro, renegando a arte mais apurada.

A guerra franco-prussiana tirou os franceses das nuvens e, já no fim da vida, o compositor procurou se redimir, elaborando uma ópera digna do talento que desdenhara. Como escreveu os últimos compassos no leito de morte, não viu encenada sua obra-prima.

Também não vi na programação enviada pelo Carlos Alberto Torres nada que se referisse aos livros de Zola, que retrataram os franceses que viviam sob o império de Napoleão III, até o romance “A Derrocada”, que reproduz com crueza a guerra-franco-prussiana.

Resumindo, nada vi de interessante.

Entre os conferencistas agendados, há uma representante de uma Association les Amis de la Commune de Paris, um membro do Partido Comunista da Grécia e um participante do Movimento Sem Terra.

Bem melhor seria uma exposição de carros antigos, pois estes, pelo menos, andam para frente.

Nutro a ligeira suspeita de que o Seminário Cento e Quarenta Anos da Comuna de Paris se encerrará quando alguém gritar: “- O Muro de Berlim caiu em 8 de novembro de 1989!”.

Antes de passarmos para outro e-mail, um esclarecimento: não estamos ridicularizando o fato histórico em si, que teve momentos de avanços, como a jornada de trabalho de oito horas e melhores salários para os professores, entre outros, mas, sim, o proveito ideológico que os “acadêmicos” querem tirar disso.

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Degustação de vinhos às cegas, na França.

Dieckmann não filmou, nem bebeu, mas vale a pena assistir ao instigante filme anexado ao e-mail, que um internauta amigo me enviou.

Em um restaurante, o cidadão conversa com a câmera, mas é tudo simples, não tem nada a ver com a cinematografia de Goddard. Ele diz que dez garrafas de vinho serão submetidas a destacados sommeliers, sem que eles conheçam os rótulos, para avaliação, com notas escritas, por cada qual, em papeletas individualizadas.

Em seguida, a câmera mostra a degustação e as opiniões emitidas pelos especialistas sobre alguns dos dez vinhos saboreados. Com todas as notas dadas, as papeletas são recolhidas e a contagem é feita.

Vêm, então, as surpresas. O vinho que ficou em segundo lugar custava pouco mais de vinte euros, o primeiro colocado não era também caro, não chegava a cem euros, mas o vinho de dois mil euros ficou em penúltimo lugar.

Lendo amenidades políticas, soube que colegas de partido do Vice-Presidente Michel Temer reclamaram do vinho servido no Palácio Jaburu, depois que leram o rótulo da garrafa. Eis o que disseram, segundo a revista VEJA:

“- Michel, assim não dá, este vinho é de supermercado, custa trinta contos!”

Informa a revista que boa parte das garrafas servidas no Palácio Jaburu, no Itamaraty, no Palácio do Planalto e em outras repartições públicas, vem de apreensões da Receita Federal.

Pensamos nós que, se o Vice-Presidente trocasse os rótulos para Romanée Conti ou de algum outro vinho de renome, mantendo o líquido na garrafa, todos ou quase todos brindariam o anfitrião.

“- Michel, esta bebida é o maná dos deuses.”

terça-feira, 20 de setembro de 2011

2013 - uma craca à deriva

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3843 7 de setembro de 2011

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CARTAS DE LEITORES

-O redator do Biscoito Molhado que, recentemente, enalteceu o talento de Augusto Aníbal Sardinha, o Garoto, acha que sua composição “Gente Humilde” merecia a letra que lhe puseram, muitos anos depois de sua morte? - Gilmar

BM: Sem dúvida alguma, a letra divulgou a música requintada de Garoto, mas os versos são piegas. O derradeiro, então, é de uma pieguice extrema. Acredito no que li, ou seja, que Chico Buarque entrou nessa letra com duas ou três palavras apenas, porque Vinícius de Moraes o queria como parceiro. De todas as letras escritas somente por Chico Buarque, não conheço uma que enverede pela pieguice. O patético disso tudo é que, por várias vezes, escutei no programa da Rádio Roquete Pinto essa música do Garoto, em ritmo de choro, mas atribuída inteiramente a Chico Buarque.

-Quando você recebeu Moacyr Scliar em sua casa, não houve referências a escritores que praticam a Literatura, isso se considerarmos as páginas do Paulo Coelho como temas de autoajuda. - Djalma.

BM: Terei de reler sobre a visita do premiado escritor para confirmar sua observação. Mas ele se referiu, que me lembre, a Rubem Fonseca, a Dalton Trevisan e a Luís Fernando Veríssimo. Disse, em outras palavras, que Rubem Fonseca não fala (*), no Brasil, mas que em encontros internacionais de escritores fica à vontade e até tagarela. Quanto a Dalton Trevisan, é um mudo empedernido. Eu diria que é calado como uma estátua, nem com ordem de Michelangelo ele falaria. Quanto a Luís Fernando Veríssimo, disse: às vezes fala, às vezes, não. E Moacyr Scliar resumiu: o que os escritores têm a dizer está em seus textos, por isso são tão calados.

Aqui entre nós, caro leitor, Moacyr Scliar, no programa “Sempre um papo”, da TV Câmara, falou por cerca de trinta minutos, sem uma pergunta da plateia que deflagrasse sua oratória. Acredito que sua experiência de professor de alunos educados o levava a esses longos e didáticos discursos.

E o que os seus pares disseram dele? Bem, Luís Fernando Veríssimo o chamou, pessoalmente, de vergonha da classe dos escritores, porque não bebia.

-Como surgiu a loura burra? - Hideraldo Luiz

BM: Marie Curie, Clara Schumann, Elizabeth I, Catarina da Rússia, Jane Austen, Madame Pompadour, Mary Shelley, algumas dessas mulheres eram louras e tinham cérebros privilegiados.

Mas as suspeitas sobre a inteligência das louras se iniciaram com os papéis vividos por Marilyn Monroe, no cinema, além de com ela própria, na vida real. O débito de atenção de que sofria levava os diretores de seus filmes ao desespero. Billy Wilder, que a dirigiu em “Quanto mais Quente Melhor”, alertou Tony Curtis e Jack Lemmon: “- Acertem sempre, porque será a cena que Marylin conseguir acertar que eu considerarei.” Laurence Olivier, que a dirigiu em “O Príncipe e a Corista”, além de atuar com ela, escreveu que ficou anos sem rever o filme, para não relembrar os problemas causados pela desatenção dela nas filmagens.

Seria Marilyn Monroe burra? Agora mesmo, o diretor dinamarquês Lars Von Trier, do elogiadíssimo filme Melancolia, que foi expulso do Festival de Cannes deste ano porque levaram a sério aquela sua piada, de péssimo gosto, como ele mesmo reconheceu - “ - Entendo Hitler...” - justificou-se, tempos depois, com uma frase da Marilyn Monroe: “ - Se você não aguenta o meu pior, não merece o meu melhor”.

O belo filme que ele levou para Cannes, a piada de péssimo gosto que foi tomada a sério, todo esse imbroglio ficou resumido nessa frase.

Mudando de mulher para homem e de loura para mulato, Garrincha, que era tido por burro, ao ver o técnico do seu time cogitar sobre mil jogadas táticas, fez uma pergunta que, até hoje, é repetida por renomados intelectuais: “ -Já combinaram com o lado adversário?!...”

Considero apenas o lado humorístico desse estereótipo das louras, como faz a louríssima atriz Goldie Hawn. Disse ela que, juntamente com outras mulheres de cabelos dourados, saíram em passeata de protesto, até o Central Park, contra a difamação de suas inteligências, mas se perderam no caminho.

-Na visita que o economista Mário Henrique Simonsen fez ao redator do seu O Biscoito Molhado, não foi citado o mestre dele, o austríaco Friedrich von Hayek. - José Ely de Miranda

BM: Quem, na verdade, ficava de pé, respeitosamente, ao citar o autor de “O Caminho da Servidão”, o pai do neoliberalismo, era Eugênio Gudin, e não Simonsen. Ele também não era seguidor do monetarismo de Milton Friedman, que estabelecia que os agentes econômicos tomavam como principal informação para a formação de expectativas a emissão dos agregados monetários.

Apesar de o seu tio Eugênio Gudin considerar Keynes o “amigo da onça do capitalismo”, Simonsen era, no fundo, keynesiano.

Recentemente, o economista Paulo Nogueira recorreu a Friedrich von Hayek, que cunhou a expressão “mercadores de ideias de segunda mão” -gente que não formula nada e, sim, repete teses alheias, em geral berrando – para se referir a Paulo Francis, Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi, na defesa do direitismo. Eles não são, segundo Paulo Nogueira, criativos, como Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen.

-Depois de ler a edição do BM sobre “O Caminho de Darwin”, gostaria de saber mais alguns detalhes sobre essa viagem, no navio Beagle? - Orlando

BM: Charles Darwin chegou em casa, no dia 29 de agosto de 1831, uma segunda-feira e encontrou um envelope encorpado, com a marca postal de “Londres”, esperando por ele. Abriu e encontrou algumas cartas. Leu-as e se deparou com a notícia de que uma viagem ao redor do mundo lhe estava sendo oferecida.

Sobre a embarcação que o levaria, eis o que escreveram os biógrafos Adrian Desmond e James Moore, antes de sua partida:

“...O Beagle era um brigue de dez canhões, com onze anos de idade e em franca decomposição. Estava sendo completamente reconstituído, como barca de três mastros, no estaleiro da Marinha inglesa. FitzRoy, o comandante, estava supervisionando o trabalho e nenhuma despesa era poupada, mesmo que tivesse de afundar a mão no próprio bolso. O navio tinha agora um novo convés superior, com claraboias, casco de cobre reforçado (**) e todas as tecnologias mais recentes: um leme especialmente projetado, um fogão de cozinha prateado, pára-raios avançados e canhões de bronze, em vez de ferro, para evitar interferências nas bússolas. Charles Darwin subiu ao navio para encontrar com os oficiais, um “conjunto ativo e determinado de jovens camaradas”, segundo ele. O que o fez estremecer foi o tamanho do Beagle – apenas vinte e sete metros de comprimento e sete metros e meio de largura, a meia-nau. Tinha apenas duas cabinas e eram minúsculas. A cabina de popa, atrás da roda do leme, media três por três metros e meio. E Charles, com seus um metro e oitenta de altura, tinha de se inclinar para ali entrar. Ela possuía uma vasta mesa de mapas marítimos, com três pequenas cadeiras, e o mastro da mezena passava através dela. A cabina do capitão ficava abaixo do convés, sob a roda do leme e era ainda menor. Havia luxuosos móveis de mogno por toda parte, mas aquilo não representava consolo algum. Aposentos pequenos, sim, porém Charles nunca os imaginara tão pequenos. Seu ânimo naufragou.”

Voltaremos ao assunto. casco de cobre reforçado

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO garante: o redator daqui também só abre a boca para comer.

(**) Em vez de casco de cobre reforçado, seria mais adequado se referir a casco com revestimento de cobre. Os navios de madeira eram alvo de ataques por inúmeros insetos, larvas e microorganismos especialmente nas águas quentes dos Trópicos. Então se revestia o casco com placas finas de cobre, que são impenetráveis para as populares brocas e venenosas o suficiente, para evitar a incrustação por cracas, mexilhões e outros seres destruidores.

1) Os cascos de embarcações podem abrigar comunidades incrustantes que são geralmente caracterizadas por espécies que possuem hábito escavador, se os cascos forem construídos com madeira, estágio bentônico séssil ou incrustante e mobilidade dos adultos ou estágios larvais, que permitem a dispersão. Os organismos incrustantes mais freqüentemente encontrados nos cascos são cirripédios, bivalves, hidrozoários, anêmonas, briozoários, esponjas, tunicados e algas, além de organismos errantes associados , como gastrópodes, isópodos, anfípodas e caranguejos, entre outros.

2) Craca é o nome comum para os crustáceos marinhos sésseis de vários gêneros, da classe cirripedia. Estes animais quando adultos têm o exoesqueleto calcificado composto por várias placas que definem uma forma cónica. As cracas escolhem normalmente substratos rochosos, mas podem fixar-se também a fundos de barcos (onde causam estragos) ou a outros animais (por exemplo baleias). Por serem animais que formam colônias (durante a fase natante de larva), a sua reprodução é constante. Cerca de 97% das espécies conhecidas são hermafroditas.

Uso culinário

Algumas espécies de cracas são utilizadas na alimentação humana, servindo de base à confecção de entradas ou entrando na composição de pratos de marisco. Entre as espécies mais utilizadas está a Megabalanus azoricus, uma craca de grandes dimensões que deve o seu nome específico ao ter sido originalmente descrita com base em espécimes colhidos no arquipélago dos Açores, onde é utilizada na alimentação humana, sendo consumida cozida em água do mar. Posteriormente foi identificada noutros locais como, por exemplo, nos arquipélagos da Madeira e de Cabo Verde.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

2012 - a profeta portuguesa

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3842 Data: 6 de setembro de 2011

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62ª VISITA DE ESCRITORES À MINHA CASA

-Há semelhanças, Simonsen, entre a sua trajetória e a de seu tio, Eugênio Gudin. Ele era engenheiro, mas tornou-se o decano dos economistas brasileiros e foi Ministro da Fazenda.

-Meu tio Eugênio chegou aos cem anos, bebia vinho e praticava algumas corridas, muitos anos antes de o Kenneth Cooper divulgar os seus benefícios para a saúde.

-Ele viveu trinta e sete anos a mais do que você.

-Calculei o número de cigarros que fumei, 800 mil, mas não tive variáveis para descobrir quantos baldes de uísque bebi. Fumava a toda hora, mas beber tinha limites; eu não admitia álcool na hora de meus trabalhos acadêmicos, escrevendo ou ensinando. Para não colocar um cigarro nas mãos, passei a andar com uma batuta de maestro, mas já era tarde.

-Eugênio Gudin afirmava que as duas maiores vergonhas do Brasil eram Brasília e o Lloyd Brasileiro.

-Brasília sugou um Everest de dinheiro do Brasil e não produziu um alfinete. O Lloyd Brasileiro apresentou um buraco tamanho, que não houve jeito de tapá-lo para, em seguida, privatizá-lo.

-Aqueles que não enxergavam o óbvio culparam os interesses internacionais pela liquidação do Lloyd Brasileiro.

-Ah, essa turma de nacionalistas!... - respirou ruidosamente.

-Eles criaram um personagem, o Brasilino, lembra-se?... “Brasilino acorda cedo, ainda escuro, e acende a luz da Light, que é canadense, barbeia-se com uma lâmina Gillette, americana, escova os dentes com creme dental Colgate e se ensaboa com Palmolive, tudo dos Estados Unidos...”

-Eu transcrevi isso num livro de coletânea de artigos meus para a imprensa.

-Eu li, Simonsen.

-Mas o que eles queriam?... Queriam que o Brasilino acordasse e acendesse uma vela e se barbeasse com um caco de vidro?...

-Também li sua resposta.

E continuei:

-Eu assisti à sua polêmica, na televisão, sobre a conjuntura econômica, com a Maria da Conceição Tavares.

-Que polêmica?!... Ela monopolizou a palavra e não me deixou dizer uma letra, quanto mais uma frase. Ela falava aos borbotões.

-Eu me lembro do seu olhar desesperado para o mediador do debate, mas nem ele conseguiu uma brecha na garrulice da economista portuguesa. - recordei com um sorriso.

-Ela foi aluna de Economia do Roberto Campos, mas nem preciso dizer que não seguiu o mestre. - riu.

-Era uma intelectual passional, se podemos conciliar a razão com os arroubos apaixonados e isso a levou à cadeia no regime militar. Você lutou para que ela fosse libertada e teve êxito.

- Era uma colega. Nossas ideias eram diferentes, mas nosso objetivo foi o mesmo: o melhor para o Brasil. Maria da Conceição Tavares na cadeia era um absurdo.

-Ela dizia: “o Mário é ético, o Delfim, não.” - recordei.

-O Delfim... - repetiu com a expressão enigmática.

-Se você tivesse vivido tanto quanto seu tio teria visto os admiradores da Maria da Conceição Tavares se aliarem ao ex-czar da Economia, mas ela não – manteve sempre a honestidade.

-Coerência.

-Eu ratifico: honestidade.

-Eu e Conceição tínhamos algumas coisas em comum: a formação dela era a Matemática.

-A facção malfeitora da esquerda intentou conspurcar sua memória, falando de uma pretensão sua em anexar o AI-5 à Constituição do Brasil. Jornalistas, como Elio Gaspari e a ensaísta e pesquisadora Heloísa Buarque de Holanda entraram em ação e neutralizaram essa vilania.

-No plebiscito de 1993, eu apoiei a monarquia parlamentarista.

-Lembro-me de vê-lo no horário eleitoral, Simonsen, exercendo esse apoio. Dom Pedro II bem que tentou trazer Wagner, com Tristão e Isolda, para o Brasil.

-Em meus últimos anos de vida, eu estava voltado quase que inteiramente para a música.

-Fechava-se o ciclo: dedicou o seu tempo a ela dos doze aos dezoito anos e, dos cinquenta ao sessenta e três anos, retornou.

-Presidi júri de festival de canto, escrevi críticas de discos clássicos e récitas de óperas e concertos no Teatro Municipal... Da música, só me vinham prazeres, diferentemente da política, que me trouxe dissabores.

-Eu li uma entrevista sua, em 1985, em que você revelava que tinha uns cinco mil discos LP.

-Sim, e a minha caixa de som era comparável à das boates que juntavam a juventude do rock. O maestro Sergiu Celibidache não gostava de gravar porque a reprodução em disco achataria o som, porém minha aparelhagem amenizava esse problema.

-A música só lhe deu prazeres?

-Divertimentos, também. Certa vez, em Bayreuth, o baixo Manfred Jüngwirt desafinou e foi vaiado, o diretor Wieland Wagner subiu ao palco para explicar que o baixo estava resfriado e também foi apupado. O maestro húngaro Georg Solti se atrapalhou com a partitura e o público não quis saber do seu talento, vaiou-o impiedosamente.

-O diretor que você citou, bisneto do compositor, esteve aqui em 1981, no Teatro Municipal, numa récita do “Tristão e Isolda”.

-Eu estava lá.

-Eu sei, Simonsen. Vi-o fora e dentro do teatro. Depois, li sua crítica na revista VEJA.

-Quando aquele doido apareceu para dirigir “O Navio Fantasma”, a minha saudade por Wieland Wagner apertou...

-E você não viu o que ele fez com “Tristão e Isolda”, em 2003. Mas deixemos para lá o Gerald Thomas!...

-Eu cantava trechos do Wotan e do Alberich de “O Anel dos Nibelungos”.

-Você, então, não cantava apenas as óperas italianas?!... - surpreendi-me.

-Eu também entoava trechos de Wagner, embora tivesse que olhar antes a partitura.

-Quais as óperas da sua predileção?

-”Don Giovanni”, de Mozart; “Otello”, de Verdi; e “Tristão e Isolda”, de Wagner. Sobre Mozart, considero-o o mais completo dos compositores, embora só tenha vivido trinta e cinco anos.

-Mozart chegou pronto, como músico, ao nosso mundo. - frisei.

-Assisti ao premiado filme “Amadeus”, em Bruxelas, antes de ele ser lançado no Brasil. Não é uma biografia e sim o retrato de Mozart, fornecido pela mente atormentada de um ancião.

-Nós sabemos que Salieri deu aulas a Beethoven, a Schubert e até ao filho de Mozart, além de ter sido um compositor de talento. Teatralizaram as vidas deles no teatro e, depois, no cinema.

-O mérito do filme é divulgar Mozart.

-Quais os melhores compositores para você?

-Bach, Mozart, Beethoven e Wagner, nessa ordem.

-E o maior tenor das últimas décadas?

-Em 1985, eu disse, numa entrevista, que a voz de Pavarotti se estrangulara. O maior tenor do mundo era Placido Domingo.

-Consideraram, recentemente, Placido Domingo o maior de todos os tenores. Ele mesmo protestou, citando Caruso.

-Placido é um gentleman. Eu me avistava com ele sempre que podia.

-Em suas andanças pelo exterior, atrás da boa música, o que o deixou mais extasiado?

-Foi um Festival, em Salzburg, onde assisti “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, regida por Karl Böhm, “Boris Gudunov”, de Mussorgski, e “Parsifal”, de Wagner”, óperas regidas por Herbert von Karajan. Pérolas autênticas.

-Herbert von Karajan era seu maestro preferido, não é?

-Sim, Karajan era o regente mais completo, mas ralentava os andamentos nas óperas italianas, quando o certo é a vivacidade que Arturo Toscanini imprimia. Georg Solti era um maestro excelente, mas carente de ternura. Leopold Stokowski foi um regente de Hollywood, bom para a “Fantasia”, de Walt Disney.

-E o James Levine, do Metropolitan Opera House de Nova York?

-Ele era ainda jovem em meu tempo de crítico, mas sua regência da Sétima Sinfonia de Beethoven era simplesmente admirável.

-Parece que chega outra visita. - disse, depois de uma pausa.

E prosseguiu:

-Vou-me, porque meu tio Eugênio Gudin sempre me dá uma bronca, quando me vê, por eu ter encurtado a minha vida com tantos cigarros.

Foi-se, enquanto ficava no ar o allegretto, da Sétima Sinfonia, de Beethoven.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

2011 - quem não tem Simonal

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3 841 Data: 05 de setembro de 2011

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62ª VISITA DE ESCRITORES À MINHA CASA

-Simonsen... - surpreendi-me com a visita.

-Cá estamos nós.

-Infelizmente, o Vinícius passou por aqui, dia desses e acabou com o estoque de uísque.

-E o uísque e, principalmente, o cigarro acabaram comigo. Morto, sou mais resistente aos vícios.

-Você, já sofrendo de enfisema e câncer no pulmão, calculou o número de cigarros que fumou em vida.

-Fumei três maços por dia, durante trinta e cinco anos ininterruptos. Fiz os cálculos e concluí que foram oitocentos mil cigarros.

-Os números sempre exerceram grande atração sobre você.

-Meu amor pelos números começou com a Música. - enfatizou Mário Henrique Simonsen.

-Disseram que a música é uma equação com sentimentos. - manifestei-me.

-Os primeiros sinais da ligação da Matemática com a Música surgiram no século VI a.C., quando Pitágoras, através de experiências com os sons do monocórdio, chegou a uma descoberta que representou o quarto ramo da Matemática: a Música. – disse, com seu jeito professoral.

-Como foi, então, esse seu início com o quarto ramo da Matemática?

-Estudei Música dos doze aos dezoito anos. Nesse período, até compus. Mas eu não era um Mozart e rasguei minhas partituras. Dediquei minha atenção ao currículo escolar do Colégio Santo Inácio e, mais tarde, ao curso de Engenharia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

-Tive um professor que foi seu colega de turma, na UFRJ, e ele afirmava que, no quadro negro, resolvendo intricados problemas de Cálculo, você mostrava mais sabedoria do que os próprios professores.

-Até perto de minha morte, muitas vezes, na hora do almoço, eu dizia, no meu escritório, para a secretária que não estava para ninguém. Sem ser incomodado, eu abria um livro de problemas de Matemática e me punha a resolvê-lo. Outras vezes, eu cantava óperas, árias ou duetos com Paulo Fortes, Nélson Portela...

-As óperas não aconteciam apenas na hora do almoço?...- perguntei.

-Podiam ser a qualquer hora, mas a ordem para a secretária era a mesma: “não estou para ninguém”.

-O seu escritório tinha uma boa acústica?

-Não era uma Sala Cecília Meireles... - riu.

-Dinheiro não faltava para uma boa acústica.

-Eu pertencia à classe média alta. Meu pai, Mário Simonsen, foi um advogado que exerceu atividades financeiras e minha mãe, Carmem Roxo Simonsen, era descendente da família Belford Roxo. Mas fiquei rico por acaso, quando meu amigo de infância, Júlio Bozano, me convidou para ser sócio minoritário dele, no Banco que viria a se chamar Bozano Simonsen.

-Seu amigo fez o que toda pessoa inteligente faria.

A modéstia o levou ao silêncio.

-Sendo você engenheiro, tornou-se, praticamente, um economista autodidata.

-Eu necessitava do diploma de economista. Por isso, matriculei-me numa faculdade onde só aparecia para realizar as provas. Tive problemas apenas com uma matéria, Contabilidade de Custos, que me obrigou a uma prova oral.

-Conheci o professor, o Sarquisão. Ele era considerado um gênio na matéria, embora doido.

-Com o diploma de economista, fiquei mais tranquilo para dar aulas e assessorar o governo...

-Você tinha vinte e nove anos de idade, quando ocorreu o golpe militar de 1964. Logo, Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões, Ministros do Planejamento e da Fazenda, respectivamente, o convocaram para participar da Consultec, empresa de consultoria, onde você se sobressaiu como Solucionador de Problemas, o que os americanos denominam Problem Solver.

-Dei minha ajuda, naquela época, a duas mentes destacadas no campo da Economia.

-A criação do FGTS, em substituição à estabilidade no trabalho depois dez anos, que representou um passo fundamental para a modernização do capitalismo no Brasil, não teve o seu dedo?

-Vamos creditar a criação do FGTS ao Roberto Campos. - sorriu.

-Quanto ao Mário Henrique Simonsen, como professor da Fundação Getúlio Vargas, dizem que suas aulas se caracterizavam pela baixa frequência dos alunos, porque poucos conseguiam acompanhar seu raciocínio. Dentre seus alunos, citam Daniel Dantas, Armínio Fraga, Maria Silva Bastos....

-Há muitos outros que obtiveram projeção na carreira de economista. - frisou bem.

-O que considero extraordinário é que você, praticamente um autodidata, teve discípulos que se doutoraram em faculdades americanas e europeias, como André Lara Resende, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Carlos Langoni...

-Tive cargos políticos, mas eu era mesmo um acadêmico.

-Por ser um acadêmico, Delfim Neto tomou o seu posto de Ministro do Planejamento, no governo Figueiredo.

-Em 1979, o mundo estava à beira de uma dura recessão. Eu pretendia desaquecer a economia para aguentar o baque, mas veio o Delfim e prometeu taxas de crescimento altas...

-A promessa leviana do czar da economia levou o Brasil à hiperinflação, que só foi debelada quatorze anos depois, pelo Plano Real. Creio que a antipatia do Delfim Neto por Fernando Henrique Cardoso se originou do fato de ele ter corrigido sua lambança.

-A ideia daquele menino, Persio Arida, juntamente com André Lara Resende, de indexar toda a economia através da URV, para, no momento propício, desindexar, foi muito boa.

-Mas eles partiram dos seus estudos sobre inflação inercial.

-Sim. Mas, depois que saí do governo, meus interesses intelectuais já se voltavam para outros assuntos.

-Mesmo como ministro, você, quando viajava ao exterior, para alguma conferência, não perdia um só concerto.

-Eu tinha de aproveitar os momentos de lazer.

-E ainda havia o jogo de xadrez.

-Minha esposa, Iluska, era uma grande jogadora de xadrez. Ela me incentivou muito a mexer com peões, bispos, reis, rainhas...

-Ela conseguiu empatar com Boris Spassky que, anos antes, disputara o título mundial com o legendário enxadrista Bobby Fischer.

-Ela obteve o empate numa simultânea, de que participou o grande mestre internacional, aqui no Brasil. Eu joguei, em outra oportunidade, contra o Mequinho, então campeão brasileiro, mas perdi.

-Sua esposa escrevia uma coluna de jogos de xadrez no Jornal do Brasil e eu era leitor assíduo.

-Aprendi muito com a Iluska.

-Creio que foi Goethe quem disse que o xadrez é uma ginástica para o cérebro.

-Eu morri em 1997, ano em que o grande enxadrista era Gary Kasparov, judeu do Azerbaijão.

-Depois de Kasparov, o jogo de xadrez ficou muito esvaziado. Posso afirmar que o último grande jogo a mexer com a mídia foi o de Kasparov contra o Deep Blue, computador da IBM.

-Sem o xadrez, minha mulher deve estar ouvindo ópera. Influência minha, nesse caso.

-Vocês tiveram três filhos?

-Sim, Ricardo Sérgio e Maria Cristina. A garota é boa flautista.