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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

2101 - Kicoisa ou Kibamba?

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3901 Edição 15 de fevereiro de 2012

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COMENTÁRIOS SOBRE EDIÇÕES PASSADAS

Comentei dia desses o vídeo em que a Jane Fonda enaltece a velhice (a outra opção é a morte), descartando a entropia da segunda lei da termodinâmica, ou seja, a queda depois do “auge” e o CAT – Carlos Alberto Torres – reagiu com indignação. Ele não estava irritado com os argumentos apresentados e sim, com a apresentadora.

Lembrou o xará do grande capitão do escrete brasileiro de 1970 que a Jane Fonda foi a Hanói, no momento mais crítico da Guerra do Vietnã e posou, num clima de festa, sentada num canhão de defesa antiaéreo dos inimigos dos americanos. Ela seria – escreveu – fuzilada como traidora em qualquer outro país.

Concordamos; por muito menos, ou seja, porque fornicaram com os alemães, na França ocupada, na Segunda Grande Guerra, as francesas tiveram os seus cabelos cortados no meio do escárnio popular. Quanto à Jane Fonda, continuou a exibir suas belas madeixas douradas nas telas do cinema.

Na época em que a atriz posou para as fotografias sentada nos canhões inimigos, ela era casada com um ativista político da esquerda, o senador Tom Hayden que, certamente, a influenciou.

É evidente que o governo Nixon, os conservadores e muitos veteranos de guerra, na época, quiseram vê-la enforcada nas tripas do marido. O apelido com que até hoje ela é tratada, “Hanói Jane”, demonstra que não é só o nosso amigo CAT que se lembra dessa grande batatada na biografia da filha de Henry Fonda.

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Depois de ler mais uma edição do Biscoito Molhado que recebeu de mim pelo Yahoo sobre os taxistas da cooperativa Metrô Táxi, Dieckmann colocou um asterisco num comentário do 017 – “a temperatura do congelador de uma geladeira é 0 (zero) grau” – e digitou:

“A água se torna sólida a 0 grau, mas a temperatura do congelador é -6º.

Mas onde o Dieckmann caprichou mesmo no asterisco foi no Biscoito Molhado que transcreveu diálogos do Sabadoido sobre as letras da Bossa Nova. Avesso a versos passionais, a temperamentos depressivos, ele escreveu, entre outras coisas:

“... Talvez isso possa ser debitado às gerações que não escutaram as músicas imediatamente anteriores à chegada da Bossa Nova. As letras eram densas, sobre corações dilacerados, abandonos hediondos, traições, ciúmes e outras deturpações da alma e da paixão. Quando a Bossa chegou com a praia, o rebolado, o barco, não foi só a alternância de tons dentro da música que veio como inovação, mas toda a referência. Os temas largaram as agruras da alma e buscaram objetos, adjetivos e locações que combinassem com a leveza que se propunha musicalmente.”

“Interessante que Chega de Saudade é, ao mesmo tempo, uma letra inovadora e um basta nos trituradores da alegria, desde o título até os beijinhos, peixinhos e abraços.” - concluiu.

Dieckmann não se aprofundou nas origens da Bossa Nova para ser convincente na sua argumentação. A Bossa Nova, além de ter recebido influência do impressionismo de Debussy, na harmonia, principalmente em “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim, foi marcada por duas vertentes do jazz, o cool jazz e o bebop. Vinícius de Moraes quando recebeu de Tom Jobim a música de Chega de Saudade para colocar letra, já carregava uma apreciável bagagem de quem conviveu com os mais celebrados jazzistas americanos na época em que foi vice-cônsul do Brasil em Los Angeles.

Com aquela música do seu parceiro nos ouvidos, Chega de Saudade, ele logo sentiu que ali cabia uma letra cool (calma, despojada, descompromissada, na falta de melhor tradução). Enfim, o gênero musical que surgia não se ajustava aos “trituradores da alegria”, como o Dieckmann tratou os letristas passionais.

A Bossa Nova alcançou sucesso nos Estados Unidos, no Japão, mas, no Brasil, ao completar os 50 anos de existência, não mostra o mesmo vigor do Choro, que tem mais de 150 anos e do centenário Samba. Como já escreveram (o João Máximo foi um deles) a Bossa Nova se esgotou, deixou de ser um gênero musical para se tornar um repertório, as composições são as mesmas, não há renovação.

O brasileiro é latino, como o argentino, que gosta de tango; o mexicano, que gosta de bolero; o italiano que gosta das óperas. Nosso temperamento necessita não só de músicas alegres como também daquelas prenhes de paixão para se sentir satisfeito. O ser humano, enfim, precisa de músicas tristes para sublimar seus sofrimentos. (*)

Dito isso, vou escutar agora “Vingança” de Lupicínio Rodrigues para, depois, prosseguir na redação deste Biscoito Molhado.

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Meu amigo Elio (como diz o Luca) escreveu penalizado porque eu não incluí o Kikoisa e o Kibamba na edição sobre as minhas reminiscências infanto-juvenis. E acrescentou: “... Kikoisa era uma pequena barra, endurecida por fora, mas mole por dentro, revestida de chocolate escuro, com chantilly branco por dentro, que vinha envolvida em um papel meio seda, pintado de prata, marrom e verde e era vendido nos carrinhos da Kibon, junto com os sorvetes. Era primo-irmão do Kibamba, também de chocolate por fora, mas o chantilly por dentro era misturado com chocolate, daí a cor amarronzada que ganhava.”

Eu não escrevi porque, infelizmente, o Kikoisa e o Kibamba não estavam no meu cardápio, talvez estourassem o orçamento dos meus pais que tinham quatro filhos adoradores de sorvetes.

Como citei o Grapete, perguntou-me o Elio de que era feito. Bem, na época, eu só sabia que quem bebe Grapete, repete; não só bebia, como sentia a força dessa rima (ou será bebida? ). Lembra o nosso amigo que, apesar da crença geral, o Grapete não era de uva e sim, de framboesa.

No Sabadoido, o Luca, de maneira menos direta do que o nosso amigo Elio, se referiu ao “rabo quente”.

O “rabo quente”, um rádio que trabalhava com corrente contínua e alternada, chegou ao Brasil no fim dos anos 40 e durante muitos anos prevaleceu nos nossos lares. Como nunca ouvi, lá em casa, alguém chamar o rádio por esse apelido, não cuidei dele nas minhas recordações.

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Sobre o diagnóstico do meu sobrinho Daniel da perda da sua fluência em inglês devido à falta dos alemães para dialogar nos Correios, conforme registro de um Sabadoido, Dieckmann redigiu o seguinte asterisco:

“Há uma razão para cariocas e alemães se entenderem bem em Inglês (isto não vale para paulistas): a pronúncia do Alemão e do Português é muito assemelhada, praticamente se fala tudo como se lê – exceção para ei, eu e outras pequenas diferenças. Além disso, cariocas tem um erre gutural que cai bem com alemães e holandeses e que os faz sentirem-se em casa, mas que faz a diferença entre os nativos da língua inglesa. Já paulistas, mineiros e outros interioranos falam door igualzinho aos ingleses.”

E terminamos por aqui.

(*) É uma visão limitada. O ser humano pode resolver seus problemas sem músicas tristes. Isso não invalida a beleza das músicas, sejam tristes ou não. O que o Dieckmann procurou mostrar – como confidenciou ao Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO – foi que a chegada da Bossa Nova interrompeu um ciclo de lamentos, muitos dos quais de baixa qualidade.

O que mata é a baixa qualidade, seja no lamento, seja na Bossa Nova e que, por isso, virou um repertório. Isso foi bom lembrar. Bach também é um repertório, nunca mais se renovou.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

2100 - gorjetas congeladas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3900 Data: 11 de fevereiro de 2012

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TÁXI...

Desci as rampas da estação do metrô de Maria da Graça pensando no antigo craque do Botafogo Nilton Santos que dizia, sobre os jogos às 15h 30min, no Maracanã, que aproveitava a sombra da marquise do estádio que caía sobre o gramado e que só saía para o sol quando o adversário vinha com a bola dominada.

-Pelo menos, há sombra nessas rampas.- sussurrei, enquanto o táxi do 017 me esperava de portas abertas.

-Que calor! - desabafei antes de sentir a maciez do banco do carona.

-Nem fala.

-Aqui, esta quentura, e lá em cima, no hemisfério norte, um frio de congelar até a alma. - comentei.

-Rapaz, está fazendo 47 graus abaixo de zero na Rússia. - mostrou-se embasbacado.

-Ouvi hoje, na Rádio CBN, durante minhas caminhadas, que em alguns lugares elevados da Suíça a temperatura atinge a 40 graus negativos.

-Mas na Rússia são 47 graus negativos.

Sem entrar na Rússia, fui ao Japão. O inverno japonês também é rigorosíssimo. Muitos nipônicos, ao retirarem a neve do telhado, escorregaram e morreram, sem falar naqueles que se foram por causa do frio mesmo.

-Não se vive com 47 graus abaixo de zero. - interrompeu-me com sua ideia recorrente.

-A Sibéria é maior do que o Brasil e muita gente vive lá. Não digo que toda essa região é habitada, que não é, mas a realidade lá, durante 365 dias do ano, não derrete. - manifestei-me.

-Você veja o congelador de uma geladeira, é zero grau (*). Imagine, agora, menos 47 graus. - insistiu.

Quase lhe disse que estava cansado de ver filmes, no cinema e na televisão, que mostram a retirada dos soldados de Napoleão de Moscou, em 1812.

-Certamente, não sai água da torneira e nem a descarga funciona com 47 graus abaixo de zero.

-Um amigo meu conhece uma senhora que passou inúmeras temporadas em Bruxelas, na Bélgica. Ela afirmou que não há nada melhor do que ouvir certas músicas com a neve caindo lá fora.

-Ela disse isso porque em Bruxelas não faz 47 graus abaixo de zero. - enfatizou.

Quando saltei do táxi, na Rua Modigliani, pensava nesse diálogo:

-Deu, pelo menos, para esquecer este calor de 40 graus. - confortei-me.

No dia subsequente, mal entrei no táxi do Botafoguense e ele deu início a uma jeremiada sobre os gols perdidos pelo nosso time no clássico de domingo, no Engenhão. Sem paciência para o futebol, mudei e assunto.

-A viagem de metrô se tornou uma tortura; se eu tivesse de trabalhar mais 5 anos no Centro, me mudaria para a Lapa.

-A Lapa melhorou muito.

-Lapa, precisamente, Rua do Riachuelo... Lá, moraram José do Patrocínio, Di Cavalcanti, Villa Lobos, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha, Donga, João Pernambuco, Francisco Alves...

-Só gente boa. - entusiasmou-se o Botafoguense com seu jeito bonachão.

-Lá, também habitou a Capitu; nessa época, a rua se chamava Matacavalos, mas com a Guerra do Paraguai mudou o nome para Riachuelo.

-Por tudo isso, você escolheria a Rua do Riachuelo para morar na Lapa.

-A razão principal é que o meu pai trabalhou no “Diário de Notícias”, que ficava nessa rua. Garoto, eu adorava ficar no jornal com ele. Meu pai, às vezes, levava trabalho para fazer em casa, eu corria para auxiliá-lo, mas ele me expulsava para longe: “Você atrapalha mais do que ajuda”.

Botafoguense soltou uma gargalhada com as palavras do meu pai reproduzidas por mim.

-Está explicado, então, o seu carinho pela Rua do Riachuelo. - diagnosticou.

-O escritor Pedro Nava tinha paixão, ele anotou na autobiografia o desejo que as suas cinzas fossem jogadas na esquina da Rua Riachuelo com a Gomes Freire.

-A esquina certamente lhe traz boas recordações. - deduziu.

-O lugar já entrara em decadência quando o meu pai trabalhou lá, o Diário de Notícias, do Orlando Dantas, também, depois da sua morte. O jornal não ressuscitou, mas a rua, sim.

-Toda a Lapa ressuscitou. - deu ênfase às suas palavras o Botafoguense.

-Eu li que os lançamentos imobiliários se esgotam no mesmo dia, praticamente. Uma moradora do Edifício Victor, ao ser entrevistada, informou que volta e meia aparece alguém perguntando se há apartamento para alugar. A reportagem que me passou pelos olhos diz que esse edifício foi construído na década de 30 por um espanhol que morria de amores pelos nazistas, por isso, incrustou no piso mosaicos com a suástica.

-A marca do Hitler?!...

Antes de eu responder, o Botafoguense gargalhou de estremecer as ilhargas e parou no segundo poste da Modigliani.

No dia seguinte, entrei no veículo daquele taxista que, à minha pergunta, no ano passado, sobre casos de dengue em Maria da Graça e adjacências, respondeu-me que já teve meningite. Dessa vez, resolvi não mexer com o mosquito e falei da dificuldade do povo se locomover de casa para o trabalho.

-E com este calor...

-Esta soalheira nos tortura ainda mais dentro dos vagões. - concordei e, em seguida, me referi à viagem de metrô que me levara ao seu táxi.

-Os passageiros comentavam, na composição onde eu estava, que o povo se revoltou e apedrejou um trem. O senhor sabe de alguma coisa.

-Sei; eu via o programa do Vagner Montes, na televisão, quando deram a notícia. O que provocou a parada dos trens foi o roubo de cabos elétricos.

Esse cara está tratando de um fato que ocorreu dois dias antes, no metrô e que eu senti na carne. - pensei, sem me manifestar.

-O transporte de trens ficou prejudicado durante toda a manhã. - acrescentou.

Soube, mais tarde, por outra fonte, naturalmente, que o trem da Supervia enguiçara e os populares, revoltado com o descaso das autoridades, deram início a um quebra-quebra na estação de Sampaio.

No segundo poste da Modigliani, apresentei uma nota de 10 reais para pagar a corrida de 7,10. Dizendo que estava sem nota alguma, agitou-se e saiu em busca de um recipiente de plástico onde se encontravam as moedas.

-Aqui está 1 real.- disse, depois de juntar uma pilha de 10 centavos com gestos ansiosos.

Com a mão trêmula, repetiu tudo de novo. Pretendia dizer-lhe que não estava com pressa, mas ele podia estar, por isso, continuei calado.

-Mais 1 real.- entregou-me mais uma pilha de 10 centavos.

-Faltam agora 90 centavos.

-Não, não falta nada; eu sempre dou 8 reais de Maria da Graça até aqui.

Saltei do seu táxi, enquanto ele agradecia.

Quem me vir com tantas moedas, vai dizer que a minha receita do dia no sinal de trânsito foi boa. - calculei.

(*) A água se torna sólida a 0ºC, mas a temperatura média dos congeladores residenciais é -6 ºC.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

2099 - fonética diferenciada

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3899 Data: 09 de fevereiro de 2012

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SABADOIDO MUSICAL

PARTE II

Abri a minha caixa de correspondência, no computador e me deparei com quase vinte e-mails relacionados a uma foto da Avenida Atlântica de 1957 com banhistas e, o mais importante para os remetentes, carros, quatro ou cinco. Uma questão foi proposta de início: quais as marcas dos automóveis que posaram para a prosperidade? Quanto às marcas, não restaram dúvidas, pois a turma do Dieckmann está apta a responder sobre veículos no “Céu é o limite”. Um parêntese, já que citamos o antigo programa televisivo de perguntas e citamos o holandês voador: “dizem que, quando jovem, Dieckmann tinha o pé direito tão pesado, ao dirigir, que o céu era mesmo o limite”.

Confesso que não li todas as respostas e comentários, pois o automobilismo não é minha praia, apesar da Avenida Atlântica, mas vi que um deles discordou do ano da foto, seria anos 40 e não, 1957.

Passei para outra mensagem eletrônica, seu título: “Não compre esse GPS”. Cliquei no vídeo e surgiu um motorista, dirigindo numa rua, enquanto uma voz feminina vinda de um GPS o instruía: “Entre a esquerda, seu imbecil. Por aí não, seu idiota?...”

-Isso é GPS ou é a sogra do motorista no banco de trás do carro?

Ao fazer-me esta pergunta, o Daniel e a Kiara entraram na minha Lan House, ou seja, no quarto.

-Daniel, veja este vídeo. - e cliquei no replay.

-Carlinhos, isto é sacanagem. - manifestou-se prontamente a Kiara.

-Se vendessem GPS igual a esse, eu compraria um para dar de presente. - comentou o Daniel.

-Kiara, antes de eu liberar o computador, tenho de enviar um e-mail.

-Sim, Carlinhos... Não tem pressa.

Enquanto eu esclarecia a um colega de trabalho que determinada frase era da autoria do Barão de Itararé e não uma das Leis de Murphy, a neta do Luca informava que o seu tio Benjamim aparecera no Globo Rural. Daniel reagiu com uma gargalhada e a menina ficou ressabiada. Ele teve de se explicar. Em seguida, ela apresentou outra novidade.

-Vou começar a fazer um curso de inglês.

-Don’t you think that your English is good enough to go to Barra da Tijuca?...

Depois dessa pergunta, Daniel prosseguiu com mais duas frases em inglês, titubeou, perdeu a fluência, e concluiu:

-Minha saída dos Correios enferrujou o meu inglês.

-Não há mais os turistas para atender?- indaguei.

-Principalmente, os alemães, eles são muito alegres e adoram conversar...

-Eles adoram conversar na língua da Margareth Thatcher. (*) - interrompi.

Avisei, em seguida, a Kiara que o computador estava liberado para os joguinhos dela e fui à sessão do Sabadoido onde já se achavam o Cláudio, o Luca e o Vagner.

-Ninguém interpretava Free Again com a carga passional da cozinheira da Dona Nonô. - lembrava o Luca.

-Ela superava a Barbra Streisand. - cheguei dentro do espírito da brincadeira.

-No momento em que ela cantava but, free again, ela socava ainda com mais força a carne para amolecê-la. - prosseguiu nas reminiscências dos anos 70 da rua Chaves Pinheiro o Luca.

-Cláudio cantando Alone Again do Gilbert O' Sullivan também emocionava. - recordaram.

-Era o meu cavalo de batalha daquela época. - admitiu meu irmão.

-Ninguém cantava como o Careca “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos.” - falei.

-O Careca morreu.

-Há algum tempo.

-Faz uns anos...

Ouvindo essas frases dos meus três interlocutores, reagi com tristeza:

-O Careca, irmão da Cristina, filho do Zorro, que era garoto quando éramos rapazes?

-Ele mesmo. - confirmaram a má notícia.

Feitos do Careca saíram imediatamente debaixo das cinzas da minha memória.

-Lembra-se, Cláudio, quando o Careca lhe fez companhia, no ponto, e quando você entrou no ônibus, que estava cheio, ele gritou com um passageiro levantar-se para lhe dar o lugar?

-Eu ri sozinho durante uma boa parte da viagem. - disse.

-O Careca não viajou nesse ônibus? - quis saber o Vagner.

-Não, ele esmurrou, do lado de fora, a carroçaria do ônibus, e quando o passageiro, sentado, olhou pela janela, levou esse esporro do Careca. - explicou.

Luca puxou um dos recortes de jornal que trouxera, um artigo do Ruy Castro e leu que o centenário do Nélson Rodrigues será apoteótico.

-Nem tudo está perdido. - pensei sem me manifestar.

-Nélson Rodrigues falava que seria esquecido.

E acrescentou com uma frase do dramaturgo:

-O morto só descansa realmente em paz quando é esquecido.

Em seguida, reproduziu parágrafos do autor do “Anjo Pornográfico” sobre os eventos que estavam agendados para os 100 anos do Nélson Rodrigues.

-Ele é um dos autores mais citados pelo Carlinhos.

Caramba, eu nem tentei expressar o meu encantamento quando me deparei com as suas crônicas esportivas, quando adolescente. Anos depois, o deslumbramento prosseguiu com as suas “Confissões” e, já adulto, com os seus textos da tragédia carioca para o teatro.

-Nélson Rodrigues morreu com 68 anos de idade, em 1980.

-Novo – interrompeu-se o Luca, que se aproxima dessa idade.

-A tuberculose o golpeou fortemente deixando sequelas por toda a sua vida. - pensei.

-A fala do Nélson era arrastada, elástica, bovina. Apesar da idade, morreu velhíssimo. - leu e comentou o Luca.

-Hoje, com 68 anos, canta-se rock, anda-se de motocicleta... - foi a vez do Cláudio interromper sob o olhar de aprovação do Vagner.

Luca passou a falar sobre seu encontro com um Paulinho que é conhecido por todos ali, da sessão do Sabadoido, menos por mim.

-Pelo que ouço de vocês, é uma figura folclórica.

-Carlinhos, você precisa conhecer o sujeito. - aconselhou o Vagner com mordacidade.

-Ele gosta mais do Chico Buarque do que eu. - admitiu o Luca, que não deixava ninguém lhe tomar a palavra como um jogador individualista que não passa a bola.

-Ele diz que escuta todos os músicos de jazz e que nenhum deles supera o Chico. E ele escuta mesmo jazz, pois herdou os discos do pai. Na música popular, de que país for, ainda não apareceu quem compusesse como o Chico, é o que o Paulinho garante.

-Ele é doido. - protestou o Cláudio.

-Eu falei com o Paulinho que nós fechamos com o Chico, mas para ele não bobear com o Claudiomiro, que é “piranho” velho em matéria de música. - disse o Luca.

-Esse tal de Paulinho deve ser uma pessoa que adquiriu muito conhecimento sem que o seu cérebro estivesse capacitado a processá-lo, por isso, fala disparates e é visto como uma pessoa folclórica pelos amigos. - julguei, sem nada falar.

-Kiara, hora de ir embora. - gritou o seu avô depois que percebeu que já passava das doze horas.

(*) Há uma razão para cariocas e alemães se entenderem bem em Inglês (isto não vale para paulistas): A pronúncia do Alemão e do Português é muito assemelhada, praticamente se fala tudo como se lê – exceção para ei, eu e outras pequenas diferenças. Além disso, cariocas tem um erre gutural que cai bem com alemães e holandeses e que os faz sentirem-se em casa, mas que faz a diferença entre os nativos de língua inglesa. Já paulistas, mineiros e outros interioranos falam door igualzinho aos ingleses.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

2098 - música e letra

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3898 Data: 5 de fevereiro de 2012

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SABADOIDO MUSICAL

Dei pela falta do Daniel, quando cheguei para mais um Sabadoido, e meu irmão me informou que ele estava compondo.

-Villa Lobos, seriamente doente, respondeu a uma repórter que estava decompondo, quando esta lhe perguntou sobre a sua próxima composição. - pensei sem me manifestar.

-E a minissérie os Kennedy, Carlinhos?

-Ela mostra, agora, a crise em Berlim Oriental que originou o erguimento do muro. O presidente Kennedy, com a equipe dele, assiste a filmes que mostram os berlinenses fugindo para o lado ocidental. Os assessores que não enxergavam um palmo além do nariz aconselharam a intervenção americana, mas os mais lúcidos perceberam logo que a melhor coisa a fazer era divulgar para o mundo esses registros; assim, todos veriam o quanto é horrível viver no mundo comunista.

-Era uma guerra de propaganda. - interveio o Cláudio.

-Muitos não viram, como dizia o Nélson Rodrigues, o óbvio ululante: o fracasso do regime comunista.

-Em novembro de 1989, os próprios alemães derrubaram o muro. - disse.

-E o maestro Leonard Bernstein foi lá, no mês seguinte, no Natal, reger a Nona Sinfonia de Beethoven, com televisionamento para vinte países. Falando nele, era grande amigo da primeira dama Jacqueline Kennedy a ponto de telefonar para a Casa Branca e convidá-la para um concerto. Ela ia.

-E o John Kennedy?

-Culturalmente falando, ele estava aquém dela. Jacqueline Kennedy falava francês e espanhol e foi nesta língua que discursou quando esteve na América Latina. O John Kennedy, quando a acompanhava aos concertos sinfônicos, não se sentia à vontade. Há uma cena, nessa minissérie, em que a Jacqueline Kennedy promove um recital de piano, com um aclamado concertista, com a presença de vários milionários que estavam contribuindo com uma dinheirama para um projeto cultural. No meio do evento, John Kennedy sumiu: foi para o retiro dele, uma sala de cinema, onde assiste a um trecho de “Spartacus” de Stanley Kubrick e depois fornica com uma das convidadas.

-Voltou a tempo das despedidas dos doadores do evento cultural?

-Voltou nada, Cláudio, a pobre da Jacqueline Kennedy teve de se virar sozinha.

-Bem, ainda não dei alpiste para as rolinhas. - foi a justificativa que deu para ir da cozinha ao quintal da casa.

Sozinho, peguei o Globo para ler algumas páginas até a chegada do Daniel, que não demorou muito.

-Já compôs a sua sinfonia?

-O que é isso, Carlão; são músicas de três minutos.

-Você sabe por que Robert Mitchum decidiu ser ator? - perguntei.

-Não.

-Por causa do Rin-tin-tin. Ele disse: “Se um cachorro pode, eu também posso.” Partindo desse pressuposto, se tanta gente por aí pode compor, eu também posso. (não pretendia ser indelicado e coloquei o verbo na primeira pessoa).

-Poxa, Carlão, assim você não me incentiva.

-Desculpe-me, Daniel, eu não queria perder a piada.

Depois de uma curta pausa, retomei o assunto:

-Você não está justapondo acordes sobre acordes?...

-Como assim?

-Você tem de criar uma melodia, uma sequência de notas que agrade os ouvidos; é a parte A. Depois, você faz a mesma coisa para a parte B; em seguida, a parte A é repetida. Não esquecendo o refrão se o caso for apelo popular. Temos de sentir que há uma integração entre as partes. Bem, você que estudou teclado sabe isso, tecnicamente, melhor do que eu. Meu conhecimento de música é de diletante.

-Só estudando horas e horas por dia, para se conhecer música, Carlão.

-Eu não preciso ser entendido para saber que Paul McCartney, ao compor “Admiral Halsey”, se perdeu...

Daniel me atropelou:

-Ele se perdeu no meio do “Admiral Halsey” e saiu outra música. O John Lennon esculhambou o Paul McCartney por isso....

-Lá no meu trabalho, Daniel, criaram no ano passado um bloco carnavalesco e o compositor é um concursado, um rapaz do nordeste que tem mais ou menos a sua idade. O conhecimento dele de música é nulo. Para o carnaval deste ano, ele escreveu uma letra sobre os bueiros que explodem no Rio de Janeiro e depois me deu para ler. Li aquele negócio engraçadinho e me perguntei completamente cético: como ele vai musicar isso?

-Ele parte da letra para a música?

Depois de responder que, provavelmente meu colega já tinha uma melodia na cabeça ao escrever a letra, prossegui:

-Então, ele pegou o papel da minha mão, onde a letra estava impressa, e começou a cantar. As sílabas se transformavam em notas musicais; ele fazia pausas para obter o ritmo e, em seguida, criou um refrão. Resumindo: aquilo não agredia os ouvidos, era cantável, cantabile, como se diz em música. Depois de pouco tempo, o bloco tinha uma marcha razoável para cantar neste carnaval.

-Mas, Carlão, 95% dos músicos populares compõem mais ou menos dessa maneira.

-Eu sei. Por que um dos primeiros trabalhos do Tom Jobim foi colocar nos pentagramas os grandes sucessos da música popular brasileiro? Porque quase todo o mundo compõe de ouvido.

-Como muita gente, também, só toca de ouvido.

-Certa vez, Daniel, o Sinhô tocava no piano, a pedido do público, várias composições, principalmente as suas. Então, uma senhora lhe entregou a partitura do Rêverie de Jules Massenet e lhe solicitou que a tocasse. Aquilo era grego para o Sinhô, mas ele não perdeu a pose. Devolveu-lhe a partitura, dizendo:

-”Não me dou com o compositor.”

-É verdade. - limitou-se o Daniel a dizer.

-Existe um mistério para os musicólogos: por que algumas melodias nos obcecam, e outras, não? Normalmente, essas melodias que são criadas da maneira que falei, intuitivamente, agradam, mas logo enjoam.

-Isso é relativo, Carlão.

-Tem razão, Daniel. É como o vinho, quem tem o paladar apurado pelas melhores safras francesas não vai apreciar as bebidas das vinícolas mais modestas.

-Mas que existe musiquinha vagabunda que entra na nossa mente e custa a sair, Carlão, existe. É como certas expressões.

-Isso me reporta ao artigo de ontem, no Globo, do Zuenir Ventura. Falava ele sobre um bordão que se propagou pela internet, para em seguida corrigir para meme. E disse ele que meme é um termo lançado pelo escritor Richard Dawkins no livro “O gene egoísta”. Afirma o autor inglês que o meme é capaz de se replicar, passar de uma mente para outra e se disseminar de maneira viral.

-E a que meme o Zuenir Ventura se referiu, especificamente, porque há muitos por aí.

-”Menos a Luiza, que está no Canadá.”

-Este até que não incomoda tanto.

-Nas campanhas políticas, recorre-se muito a esse tipo de vírus. - assinalei.

“Este cara é bom”. - citou o meme do César Maia.

Nesse instante, meu irmão retornou à cozinha.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

2097 - begin the beguine

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3897 Data: 04 de fevereiro de 2012

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A IMPORTÂNCIA DO INÍCIO

-”Morri em...” Não me lembro o ano. (*)

Quem morreu não fui eu nem meu professor de português do 4º ano ginasial, que disse a frase acima. Explico-me: Machadiano, e meu melhor mestre no ensino do nosso complexo idioma, citou o trecho que aqui vai aspado para mostrar que Machado de Assis prendia a atenção do leitor desde as primeiras palavras de um conto ou romance. É evidente que as palavras não eram exatamente estas, mas o meu professor – recordo-me do seu nome completo, José Vinícius Frias Ruas – falava para uma turma de garotos de 16 anos, por isso se importou mais em fixar nas nossas cabeças a excelência de Machado de Assis desde o começo das suas obras.

Muitos anos depois, vi o Gabriel Garcia Marquez, numa entrevista na televisão, discorrendo sobre o tempo que dedica para alcançar a frase inicial dos seus romances. Como leitor, ele lembrou Franz Kafka, que abre o livro “A Metamorfose” magistralmente:

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso.”

O escritor colombiano aprendeu a lições dos grandes da arte literária, pois o “Amor no Tempo do Cólera” principia de uma maneira inesquecível para o leitor:

“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.”

Nunca um suicídio foi apresentado de uma maneira tão delicada.

E Gabriel Garcia Marquez prossegue:

“O doutor Juvenal Urbino o sentiu logo que entrou na casa ainda mergulhada nas sombras, à qual chegara acudindo a chamado de urgência. O refugiado antilhano Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e seu adversário de xadrez mais compassivo, se havia posto a salvo dos tormentos da memória com uma fumigação de cianureto de ouro.”

Se pedirem a alguém que leu as mais de 800 páginas de Ana Karenina, de Leon Tolstoi, que reproduza textualmente uma frase desta obra-prima, acredita-se que quase todos reproduzirão a primeira frase:

“Todas as famílias são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira.”

Leon Tolstoi dedica o primeiro capítulo da novela “A morte de Ivan Ilitch”, à repercussão do seu falecimento entre seus conhecidos do Tribunal e de casa. No segundo capítulo, o foco do escritor recai sobre o protagonista, e a primeira frase, aquela que resume Ivan Ilitch, é tão estarrecedora que se fixa logo na nossa mente:

-”A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e, portanto, das mais terríveis.”

Marcel Proust abre os sete volumes de “À Procura do Tempo Perdido” como se musicasse o cotidiano que passou.

-”Longtemps, je me suis couché de bonne heure.”

Como a melodia das palavras de Marcel Proust se esvai na tradução, muitos reproduzem esta abertura da magnífica obra no original:

-”Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n' avais pas le temps de me dire: “Je m' endors”. Et, une demi-heure après, la pensée qu' il était temps de chercher le sommeil m' éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir dans les mains et souffler ma lumière; je n' avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire; mais ces réflexions avaient pris un tour particulier; il me semblant que j' étais moi-même ce dont parlait l' ouvrage: une église, un quatuor, la rivalité de François Ier et de Charles-Quint...”

(“Durante muito tempo, deitava-me cedo. Ás vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E meia-hora depois, a ideia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V.”)

Voltando algumas décadas no passado, saindo da França para a Inglaterra, passando de Marcel Proust para Charles Dickens.

A antítese, que aprendemos na escola como figura de linguagem, foi explorada de maneira genial e insuperável por Charles Dickens nos primeiros parágrafos do seu romance “Um conto de duas cidades.”

O autor, numa das poucas vezes em que enveredou pela história, cria a sua obra em 1859. “Um conto de duas cidades” é ambientado em Londres e em Paris, antes e durante a Revolução Francesa. Charles Dickens mostra o contexto que contribuiu para essa revolução: a miséria de um lado, o elitismo do outro, sendo a opressão e a brutalidade os elos entre os dois; mostra a pobreza faminta e a riqueza luxuosa. Com a mente nesse mundo contraditório, Charles Dickens principia “Um conto de duas cidades” com uma frase antológica que ficou marcada na literatura universal.

-”Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a era da sabedoria, foi a era da insensatez, foi a época da crença, foi a época da incredulidade, foi a estação da Luz, foi a estação da Escuridão, foi a primavera da esperança, foi o inverno da desesperança, tínhamos tudo à nossa frente, nada tínhamos à nossa frente, íamos todos diretos para o Céu, íamos todos diretos ao sentido oposto – abreviando, esse período era tão desigual ao presente que algumas das suas mais barulhentas autoridades faziam questão de serem recebidas, para o bem para o mal, num grau superlativo de simples comparação.”

O filho de uma amiga minha, que conheci menino, quando se formou em Economia pela PUC, por volta de 1992, enviou-me o convite de formatura, e lá estavam as palavras de Dickens de “Um conto de duas cidades”, que nós transcrevemos. O mundo continuava contraditório...

Vamos encerrar como iniciamos; com um grande escritor brasileiro.

A primeira página do romance “Iracema”, de José de Alencar, é um autêntico poema em prosa. Vale reproduzir um trecho:

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiro.”

“Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.”

(*) Não achei a menor graça nas últimas frases desta edição do seu O BISCOITO MOLHADO. Entretanto, teria adorado a primeira, caso as aspas incluíssem as aspas e o verbo decorrente da aplicação delas tornaram-se o pomo da discórdia entre o redator e o ex-revisor em busca de raízes, radicais e fundamentos da formação e uso de aspar, ou aspear mas, como ia dizendo, incluíssem toda a frase: “Morri em... Não me lembro o ano”. Vou procurar me lembrar mais tarde dela, para colocar no início do meu romance, que não será autobiográfico.

Já pensaram no impacto do quantum de esquecimento contido no ato de se esquecer da própria morte? Maior, com certeza, do que a cena de abertura de “Sunset Boulevard” quando o morto começa a narrar o filme. E que já é um impactão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

2096 - notícias e influenzas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3896 Data: 01 de fevereiro de 2012

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COMENTANDO O QUE LEIO NOS JORNAIS

50 ANOS ATRÁS (leio sempre esta seção do Globo) saía a seguinte notícia em janeiro de 1961:

“O príncipe Charles, filho da Rainha Elizabeth II, será castigado com bastonadas se cometer certas faltas, como fumar em público – declarou o Sr. T.Chew, diretor da “Gordonstow”, escola que o príncipe passará a frequentar a partir do primeiro trimestre. O diretor informou também que todas as manhãs o príncipe deverá correr pelo jardim, vestindo apenas um calção branco e uma camiseta e, em seguida, tomar uma ducha de água fria.”

Minha mãe dizia a qualquer hora que lhe perguntassem a idade do Príncipe Charles, porque eu nasci a treze meses do primeiro parto da Elizabeth II. Eu usava o mesmo método mnemônico da minha mãe: não erro a idade da rainha, porque as duas nasceram no mesmo ano, 1926.

Quanto à notícia transcrita acima... Bem, a educação inglesa forja têmperas viris. Vale lembrar, agora, a obra-prima da literatura portuguesa, “Os Maias”, de Eça e Queirós. Porque o filho Pedro da Maia se suicidou por causa de um amor contrariado, o patriarca da família culpou a influência da carolice, que ele sofrera da mãe e contratou tutores ingleses para educar o neto. Assim, Carlos Eduardo Maia, desde menino, praticou natação, remo, corridas e, depois, ia para o chuveiro de água fria. Quando a desilusão amorosa desabou sobre ele, ao contrário do pai, ele escapou com vida.

Em 1961, o príncipe Charles levaria umas bastonadas caso fumasse. Foi nesse ano que dei início à minha prática de tabagismo. Minha mãe saiu com meus irmãos e eu tratei de ir ao botequim, que ficava na esquina da Rua Honório com a Rua Cachambi, onde comprei um maço de cigarros Continental. Em casa, acendi um cigarro no outro e fumei até ficar tonto e me sentir enjoado. O mal-estar que eu senti deveria fazer o efeito das bastonadas, mas a idolatria que eu tinha pelos artistas de cinema – todos fumantes inveterados – fez-me superar aquela fase até eu me tornar viciado. Dois anos depois, eu estava fornecendo cigarro a um professor de matemática. Meu pai, por sua vez, só abriu guerra contra a bebida alcoólica: o cilindro catingoso dos filhos ele tolerava, desde que não fosse fumado na sua frente.

Não sei se, por causa do cigarro, o príncipe Charles gostaria de trocar de posição comigo, como na história de “O Príncipe e o Mendigo” de Mark Twain.

Correr de calção, camiseta e entrar numa ducha de água fria também foram a minha atividade desde que entrei no Colégio Visconde de Cairu. O desagradável era o tempo que os professores de Educação Física davam para a ducha: 1 minuto. Ora, com 1 minuto, nós estávamos ainda acostumando o corpo à friagem. Também era esse o prazo para nós vestirmos o uniforme da escola depois do banho. Um minuto era o tempo que a Josefina Bonaparte precisava para segurar uma das suas meias. Assisti, aliás, a um filme em que Napoleão Bonaparte, depois de esperar que a imperatriz se vestisse para um concerto, disse-lhe que ela levou mais tempo se vestindo do que o compositor para escrever a sinfonia que os dois ouviriam.

Essa educação sem regalias fez bem ao príncipe Charles, na vida adulta? Na minha opinião, sim, pois ele casou com quem não queria casar, por exigências do trono e depois ficou com a sua amada “bruxinha”, prevalecendo a sua vontade.

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“Em entrevista à revista britânica “New Scientist”, o físico divorciado duas vezes e pai de três filhos, citou o sexo oposto, quando perguntado sobre o que mais pensa durante o dia: -Nas mulheres, elas são um mistério completo.”

Não se trata de qualquer físico, e sim daquele que é considerado o maior deles com vida, o britânico Stephen Hawking. Palavras ditas por ocasião das festividades dos seus 70 anos.

O jornalista, que elaborou a reportagem com a frase aspada acima, deu-lhe o título: “Mulheres, um mistério para Hawking” e o subtítulo: “Aos 70 anos, físico que decifrou os buracos negros diz não entender o sexo oposto.”

Para mim, não foi surpresa, não porque ele vive numa cadeira de rodas e a sua cabeça está no cosmos, pois, mesmo assim, casou duas vezes e teve três filhos. Não foi surpresa porque Freud, que criou a psicanálise, declarou que nunca se sabe o que uma mulher pensa.

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“Em discurso de apenas 20 minutos pronunciado semanas atrás, o candidato Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara que cultiva o estilo pitbull, mencionou três vezes que a maior ameaça dos Estados Unidos seria se tornar um país parecido com a Europa. Aproveitou para mostrar um vídeo que retrata Mitt Romney, até agora o mais viável adversário de Obama, como tendo tido um passado “internacionalista” - leia-se, europeu. No vídeo, o ex-governador de Massachusetts aparece fluente na língua estrangeira que causa maior indigestão aos republicanos – o francês.”

O texto acima é da jornalista casada com Elio Gaspari, Dorrit Harazim. Ela, mais adiante, revela que o político americano que fala francês e ainda se formou na Universidade de Harvard causa engulhos aos extremistas de direita dos Estados Unidos. Aqui, no Brasil, ocorre praticamente a mesma coisa, só trocam as ideologias. É aquela velha história: os extremos se tocam. A presidente Dilma Rousseff gosta da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner, mas declara em entrevistas que é fã das músicas de Jerry Adriani (Arfff!...). Ela tem de se mostrar parecida com o povo, como o seu padrinho Lula.

Dia desses, o cronista do Globo, Daniel Dapieve, se referiu aos elogios que a presidente fez ao último livro de poesia do Ivan Junqueira e aconselhou, como um incentivo à educação do povo, que ela repercutisse o seu gosto pela arte bem feita. Não creio que consiga sucesso, pois homem culto no Brasil, de uns dez anos para cá, é sinônimo de pedante.

No artigo da Darrit Harazim, ela alude às French fries (Fritas francesas, nome com que Thomas Jefferson batizou as batatas fritas). Dois congressistas republicanos irados, porque a França votou contra a invasão do Iraque, em 2003, conseguiram trocar o nome das French fries, servidas nas lanchonetes e restaurantes do Capitólio, para liberty fries. Depois de um tempo, o nome dado por um dos pais da nação americana retornou.

A batata é originária do Peru e a batata frita nem francesa é, veio da Bélgica.

Por hoje, é só.