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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3895 Data: 31 de janeiro de 2012

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VARANDÃO DA SAUDADE

Na página social do Globo, apareceu o administrador de empresas Gil Ferreira, trajado de tirolês, quando era pequerrucho, lembrando que, no tórrido carnaval de 1951, o pai dele parou para beber uma cerveja, enquanto ele e a mãe tomavam hidrolitol.

Apesar de, no início da década de 50, me fantasiarem de chinês e, segundo minha mãe, eu ter alcançado tamanho sucesso que cheguei a ser filmado, não me recordo do hidrolitol.

Não faz muito tempo, o decano dos nossos colegas de trabalho citou essa bebida e foi chamado de último sobrevivente dos dinossauros. Uma hora depois, quando as brincadeiras cessaram, acerquei-me dele e perguntei sobre o hidrolitol.

-Carlinhos, era uma bebida carbonatada, que refrescava muito.

Como eu aprendia muito com ele, não o deixava sem perguntas:

-Você começou a trabalhar muito cedo...

-Com treze anos de idade.

-Pegou, então, a época anterior a Xerox.

-Carlinhos, nós usávamos como copiadora, o forninho.

E ele explicava o funcionamento da geringonça, que esquentava muito, daí o nome, enquanto eu queria saber, depois, de algum semelhança com o mimeógrafo, patenteado por Thomas Edison.

-O mimeógrafo fedia muito a álcool. - criticou.

-Trabalhei no Jornal do Brasil, como estagiário, lidando com os anunciantes das sete principais rádios do Rio de Janeiro, impressos em papel mimeografado. Antes de ir para casa, tinha de me lavar no banheiro para tirar a tinta que passava para os meus braços. - lembrei.

-O forninho era melhor que o mimeógrafo. - garantiu,

-E os cinemas do seu tempo de garoto?

-Ali na Rua da Carioca, onde hoje é a Sapataria Polar, ficava o Cine Ideal. Era o único cinema do Brasil, talvez da América Latina, que abria o teto e o céu se descortinava todo para nós. Era bom pra fumar.

-Eu li que o Cine Ideal foi frequentado pelo Ruy Barbosa que, aliás, era um cinéfilo. - aparteei.

-Deve ter sido, porque ele foi inaugurado em 1909 e durou até 1961.

-Tenho certeza que Ruy Barbosa o frequentava. Ele escreveu páginas de exaltação ao cinema, que o fazia conhecer lugares onde fisicamente ele não poderia estar. - insisti.

-E o Colubiazol, Carlinhos? Você ainda se lembra?

-Ainda usam, hoje, como spray, mas como era antigamente... - estremeci, mas continuei:

-Quando eu apresentava um probleminha na garganta, e a minha mãe se aproximava de mim com o dedão vermelho...

-Você quer dizer, Carlinhos, que a sua mãe envolvia o dedo indicador de algodão e, em seguida, o encharcava de Colubiazol?

-E dizia que ia pincelar minha garganta. Eu trincava os dentes, mas ela abria a minha boca... Meu pai usava tamancos, mas ela não recorria às tamancadas. Depois de me pincelar a goela, eu tossia e fazia um escarcéu dos diabos.

-Era incômodo, mesmo. - concordou.

-Dia desses, perguntei à minha mãe sobre o Colubiazol, e ela relembrou um problema que esse remédio lhe provocou quando o usou em si mesma, em spray. Ela repreendeu duramente o médico que o receitou.

-Mas o hidrolitol é do seu tempo, também, Carlinhos, você tem certeza que não conhece?

-Você falou que refrescava, e eu, quando saía do Manoel Bomfim, onde estudei dos 7 aos 11 anos, mitigava o calor com o sorvete Jajá de Coco.

-Uma vez, o Luís Fernando Veríssimo escreveu que chupava Jajá de Maracujá, os leitores disseram que ele estava errado, mas apareceram outros leitores do Globo afirmando que existiu Jajá de Maracujá. Estão doidos. - exaltou-se.

-Quando não havia Jajá de Coco, eu poderia optar pelo sorvete de maracujá, de abacaxi e de limão.

-O sorvete de abacaxi era o Kalu e o de Limão, o Tombon - esclareceu.

-Sem falar no Chicabon e no Eskibon.

-Eskibon era mais caro. - assinalou.

Quando não eram os sorvetes, no meu tempo de primário, eram algodão doce e pipoca, as guloseimas. Nunca gostei de pipoca salgada, só a que chamavam de pipoca de mel. Não fui também atraído pelo algodão doce, parecia que eu estava comendo a barba do Papai Noel.

-Eu não gostava também.

No ginásio, eu me tornei mais independente, ou seja, o dinheiro saía do meu bolso, antes, saía da bolsa da minha mãe, com exceção dos sábados, quando meu pai me buscava da escola.

-E o que você bebia no tempo do ginásio?

-Na cantina do Visconde de Cairu, eu pedia Grapete ou Crush.

-Hidrolitol não se vendia em cantina de escola. - disse ele.

-Eu tinha lido sobre essa bebida, anos atrás, numa crônica do Ivan Lessa. - esclareci.

-Você lembra, Carlinhos, quando lançaram o Vakamoto no Brasil?

-Como eu vou esquecer?!... Eram as pílulas que nos deixariam saudáveis como um touro.

-Ainda bem que não era um tônico como o que o Bolinha da Luluzinha tinha de engolir.

-Era a época da recuperação do Japão, do milagre econômico deles, então tudo que vinha de lá repercutia como maravilhoso.

-E você se sentia melhor com Vakamoto, Carlinhos?

-Eu me sentia melhor mesmo depois de assistir a um filme, no cinema. Parecia que eu, sim, dei porrada nos bandidos, matei os índios, beijei a noiva. Eu saía do cinema energizado. Com Vakamoto, devo ter tomado umas trinta pílulas, não sentia alteração alguma, creio que aquilo era placebo.

-E o radinho de pilha?

-O primeiro que eu vi foi um Spica. O marido da irmã mais nova da minha mãe apareceu com um, na casa da minha avó, quando era noivo. Fiquei tão fascinado com aquele radinho, que nos acompanhava para todo lugar que, muitas vezes, atrapalhei o noivado dos meus tios.

-Ele tinha de se decidir: ou largava o radinho, ou largava a sua tia. - foi meu amigo solidário comigo.

-Penso que ele tinha medo de eu deixar o Spica cair no chão, se ficasse aos meus cuidados.

-E a sandália de dedo japonesa? - perguntou.

-As coisas do Japão eram uma febre mesmo, naquela época. - comentei.

-Você usou as sandálias japonesas, quando apareceram aqui?

-Apesar de eu só ter treze anos de idade, já tinha visto a ópera Madame Butterfly e ela usava aquelas sandálias. Então, eu disse que tais sandálias não eram coisa de homem, que eu jamais as usaria na minha vida. Mudei de opinião logo: eram bem melhores que os tamancos calçados por meu pai.

Como as tarefas do dia exigiam a nossa presença, demos a nossa conversa por encerrada.

2094 - alternantes, felizes dissonantes

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3894 Data: 30 de janeiro de 2012

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O SABADOIDO SOB CHUVA

PARTE III

-Há certas letras de música que eu mudaria. - disse o Luca sem se mostrar encabulado.

-”Chega de Saudade”, por exemplo, com aquelas palavras “beijinhos”, “carinhos”...

-O Vinícius colocava uns diminutivos... - criticou o parceiro de Tom Jobim, o Cláudio.

-A produção de letras do Vinícius era industrial? - perguntei, fazendo-me entender em seguida.

-Quero dizer que o Vinícius de Moraes colocava letra numa música com extrema rapidez.

-Sem dúvida. - concordou o Luca.

-Eu li a biografia do Vinícius de Moraes, escrita pelo irmão do Toquinho, em que ele revela que levou quinze dias para escrever a letra de “Chega de Saudade”. A música popular brasileira tinha o choro e o samba, como gêneros musicais e ali estava a canção que inaugurava outro gênero de musica, a bossa nova. A canção começa em tom menor e passa para tom maior, Vinícius penou para ajustar as sílabas às notas musicais. Mas com a sua letra, ele deu cara à bossa nova; daí vieram letras despojadas, sem dramas, como “O Pato”...

Cláudio e Luca reclamaram (*) em uníssono de “O Pato” e eu citei, então, “O Barquinho”, “Lobo Bobo”, “Desafinado”...

Não, não cheguei a exemplificar com “Desafinado” porque o Luca bradava altissonante, que ele sempre afirmara que Tom Jobim e Vinícius de Moraes formaram a maior dupla da música popular brasileira.

Menos enfático, acrescentou que eu dissera que o Tom Jobim homenageou o chorinho no arranjo de “Chega de Saudade”.

-Arthur da Távola, num programa dele na Rádio MEC, chamou a atenção para as primeiras notas do arranjo que representam um chorinho.

Luca trauteou o início para confirmar que há uma mudança repentina quando entram as sílabas de “Chega de Saudade” com a melodia.

Cláudio teceu loas ao Tom Jobim, enquanto o Luca se referia às críticas do Vinícius de Moraes à letra do Braguinha para “Carinhoso”.

-Com chuva, o Vagner não aparece. - disse o Cláudio, sem desviar o assunto em discussão.

-Diziam que o Manuel Bandeira considerava um verso do “Chão de Estrelas do Orestes Barbosa como o mais bonito da nossa poesia.

Citaram um verso que não era o da maior predileção do poeta da “Estrela da Vida Inteira”

-Tu pisavas nos astros distraída.” - disse e prossegui:

-O Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica ao Chão de Estrela. Segundo ele, o último verso, que deveria ser o fecho de ouro, esculhamba com todo o poema. Ele considerou inteiramente infeliz o verso derradeiro: “a cabrocha, o luar e o violão”. Por que Paulo Mendes Campos não apresentou, então, um verso melhor, nessa crônica? Não quis passar de estilingue à vidraça.

Vale lembrar que, nos últimos anos de vida, Paulo Mendes Campos publicou no Globo inspirados poemas que até elogios do Millor Fernandes ganhou. Conta o poeta Geraldo Carneiro que, ao encontrá-lo, alardeou o seu talento, a mão segura para a poesia, e recebeu esta resposta: ”Não adianta... Eu não gosto de mim.”

-O Vinícius de Moraes, quando deu para escrever aquelas letras baianas, não foi mais o mesmo.

-Luca, nessa época, ele bebia litros de uísque. - contemporizei.

-O Tom Jobim também bebia e nunca perdeu a qualidade de compositor. - devolveu.

Gina, que havia chegado no carro da irmã, voltou para arrematar as compras da manhã, enquanto o Daniel preferia ficar recolhido na sala da televisão, embora a chuva já tivesse passado.

-Falei para o meu amigo Elio Fischberg que você, Claudiomiro, e o Carlinhos, conhecem cinema profundamente.

-Alguma coisa, Luca.

-Vocês estão sendo modesto.

Depois de pôr a mão num envelope, tirou uma crônica do Ruy Castro, e começou a lê-la. Tratava-se da história de Carlinhos, um cinéfilo, que acreditava no céu, e que lá, se encontraria com Frank Capra, seu ídolo, Com o cineasta, conversariam sobre “Galante Mr. Deeds”...

-Gary Cooper. - aparteou o Cláudio.

-Grande Gary Cooper! - vibrou o Luca.

-Frank Capra dirigiu ótimas comédias e o Cary Grant foi um ator perfeito para elas.

-Tudo bem, Carlinhos, mas Gary Cooper foi um excelente ator.

-Depois da intervenção do Cláudio, Luca retomou a leituras.

-... ”Eles conversariam sobre “Adorável Vagabundo”.

-”Do Mundo Nada Se Leva”, “Aconteceu Naquela Noite”, “Este Mundo é Um Hospício...” - espocaram as obras do grande diretor.

-”Carlinhos conversaria sobre Gary Cooper e James Stewart...”

-Ruy Castro deveria citar também o Cary Grant. - intervim.

-”Se Carlinhos não encontrar Frank Capra, poderá conversar com John Ford, Billy Wilder...”

Não sei se o Luca concluiu a sua leitura sobre Elia Kazan que, apesar de excelente cineasta, caiu em desgraça entre as pessoas éticas porque delatou colegas na época do Macartismo.

Gina chegou e, depois de trocar algumas palavras, foi para dentro de casa.

Voltou-se ao “Galante Mr Deeds”, não para falar dos nomes do filme, alguns bizarros, que recebeu: “Doido com Juízo”, em Portugal; “L'Extravagant Mr Deeds”, na França; “É arrivata La Felicità”, na Itália; “El Secreto De Vivir”, na Espanha. Falou-se especificamente do protagonista.

-Gary Cooper não atuou também em “Adeus às Armas”?

-“Adeus às Armas” é com Rock Hudson. - disse o Cláudio.

Adivinhei que o Luca fazia confusão com os livros de Ernest Hemingway que se transformaram em fotograma de celulóide e disse-lhe que Gary Cooper protagonizara “Por quem os sinos dobram”

-Você tem certeza?

-Luca, assisti ao “Adeus às Armas”, no Cine Cachambi, levado pela minha mãe num sábado à noite.

-É um filme de guerra.

-Isso, Claudiomiro, é um filme de guerra.

-”Por quem os sinos dobram” é um filme ambientado na Guerra Civil da Espanha e “Adeus às armas”, na Primeira Guerra Mundial. - ficou esclarecido.

Luca, depois de se referir ao desentendimento entre Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, disse que a Glória queria assistir, à noite, “Emilinha e Marlene”.

-São duas horas e quarenta e cinco minutos dentro de um teatro; eu não aguento. - justificou-se.

-Há óperas que duram mais de três horas.

-Claudio, se a ópera for de Wagner, dura mais de quatro horas.

-Muita coisa. - suspirou o Luca.

-Nesta semana mesma, eu assisti ao “Tristão e Isolda” de Wagner, em DVD, encenada no Scala Mundial, há poucos anos. Vi o primeiro ato na segunda-feira, o segundo na terça, e o terceiro, na quarta.

Só quando o Luca pegou de novo a palavra, atentei para o fato de a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, ter comparecido a essa récita. É verdade que só filmaram as autoridades italianas e árabes antes do início do espetáculo, e eu tive de recorrer à memória.

-Convenci a Glória a assistir outra peça de teatro hoje à noite.

Quando voltei do banheiro, pensando em não esquecer o guarda-chuva na hora de ir embora, encontrei os dois falando do desabamento de três prédios da Avenida Treze de Maio.

-Alguns, que escaparam, dizem: “Foi Deus”. E os que não escaparam?... Vamos supor que o meu filho e o Daniel vão viajar, o meu filho desiste e o avião cai. Eu vou dizer: “Foi Deus”? E para o Daniel, não foi Deus, não?!

-O que tem o Daniel?- perguntou a Gina da cozinha.

-Ouvido de mãe escuta tudo. - falei para o Luca.

Em poucos segundos, aparecia o Daniel no Sabadoido, informando que faria um seguro de vida.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO é um fã da Bossa Nova e, vez por outra, topa com comentários de nariz torcido sobre a densidade das letras da época. Talvez isso possa ser debitado às gerações que não escutaram as músicas imediatamente anteriores à chegada da Bossa Nova. As letras eram densas, sobre corações dilacerados, abandonos hediondos, traições, ciúmes e outras deturpações da alma e da paixão. Quando a Bossa chegou com a praia, o rebolado, o barco, não foi só a alternância de tons dentro da música que veio como inovação, mas toda a referência. Os temas largaram as agruras da alma e buscaram objetos, adjetivos e locações que combinassem com a leveza que se propunha musicalmente.

Interessante que Chega de Saudade é, ao mesmo tempo, uma letra inovadora e um basta nos trituradores da alegria, desde o título até os beijinhos, peixinhos e abraços.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2093 - difícil de batizar

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3893 Data: 29 de janeiro de 2012

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SABADOIDO SOB CHUVA

PARTE II

Depois que o Daniel liberou para mim o computador, procurei o último vídeo do Dieckmann, mas me deparei com um em que aparecia a Jane Fonda. Claro que não foi o Dieckmann que a filmou, e o remetente também não era ele e sim, o Evandro Verde. Tratava-se, vi logo, de uma palestra de 11 minutos da atriz. Sabedor que ela estuporara muitos joelhos com a ginástica “step” que divulgou, em anos pretéritos, eu não estava com muito ânimo, porém, influenciado pelo sobrenome do remetente, que considerava o filmezinho imperdível, fiquei esperançoso e teclei para vê-lo.

Jane Fonda bela, apesar dos seus 72 invernos, falava dos 34 anos de acréscimo de vida que ganhamos sobre os nossos avós. Claro que era uma média, senão o Brasil teria de suportar o José Sarney até os 124 anos de idade, pois parece que a avó dele se foi aos 90.

Sem a cultura de Cícero, no seu “Da Velhice”, mas convincente, Jane Fonda mostrou com argumentos sólidos que essa sobrevida não representa decadência. Citou a 2ª Lei da Termodinâmica, que trata do declínio depois de alcançado o ponto máximo – a entropia – e rebateu com a filosofia da escada: nós podemos viver como quem sobe degraus.

Ela, apesar de não estar tão viçosa como no tempo em que filmou Barbarella e nem tão saltitante quanto na época do “step”, é uma prova viva que melhora com a idade.

Dieckmann, por sua vez, no seu filme, mostrou mais interesse no passado e exibiu um Citroën que me lembrou o assassinato na Ladeira do Sacopã. O carro recebeu umas demãos de tinta e o Roberto Dieckmann resolveu subir numa grua para filmá-lo de diversos ângulos. Houve momentos em que eu julguei ver um telefone gigante. Não havia atores, atrizes, pratos de comida...

-Será que o Dieckmann não conseguiu financiamento da Petrobras?!... - pensei com os meus botões.

Eu espiava, agora, as mensagens eletrônicas do Elio Fischberg, enquanto as vozes do Luca e do meu irmão chegavam até mim. Quando o Claudio saiu para ajudar a Gina, que vinha das compras, no transporte das sacolas, o Daniel fez sala ao Luca, melhor, fez garagem, pois lá se encontravam eles.

Lula ironizava as horas que eu dedicava ao computador, naquele Sabadoido, enquanto o Daniel se reportava à maneira decidida da Kiara de acabar com a minha navegação internética. Naquele momento, no entanto, eu procurava saber o que aconteceu no meu trabalho na semana em que estive fora. O segundo prazo de um Processo Administrativo Contencioso se esgotava porque todos resolveram fruir férias ao mesmo tempo e se dizia no e-mail que não é legal mais uma prorrogação.

-Por hoje, chega!

Desliguei o computador e rumei para a sessão do Sabadoido.

Como se falava de Música Popular Brasileira, eu trouxe à baila a crítica que o Luca fez ao Caetano Veloso, quando voltávamos do Adegão, na quarta-feira, porque citou, na sua crônica, um desentendimento entre a Elis Regina e a Nara Leão.

-Luca, depois fiz umas pesquisas e soube que a Ellis Regina, como pessoa, era intragável.

Luca, para ser mais enfático, saltou da cadeira e elevou a voz em algumas oitavas.

-A Maria Betânia destratou aos berros uma pessoa menos qualificada num show. As divas são assim.

Retomei a palavra:

-Era uma constante no mundo artístico a Ellis Regina destratar a Nara Leão. Diziam que ela tinha uma paciência de Jó por suportar tanta agressão. Ela até patrulhava a Nara Leão, dizendo que ela cantava bossa nova, samba de morro e até iê-iê-iê. Ora, a Ellis Regina gravou musiquinha do Pelé.

-Carlinhos, duas porcarias. - aparteou o Cláudio.

-Na concentração do Santos, o Coutinho conta que escondiam o violão do Pelé porque ninguém o suportava arranhando aquilo. - lembrei.

-O Tom Jobim também não gostava da Ellis Regina.

-Certamente, chamaram a atenção dela, pois ela mudou uma letra para dizer “Quando não sou eu, é Nara Leão”.

-É verdade, Carlinhos. - disse o Luca.

-E outra coisa: a Nara Leão era queridíssima no mundo artístico, mesmo com a sua voz pequena.

-Era. - concordou o Luca.

-Eu me recordo do Carlos Imperial, quando a Ellis Regina e o Ronaldo Bôscoli casaram: “O diabo juntou os dois.”

E fiz, em seguida, uma ressalva:

-Não se discute aqui a belíssima voz da Ellis Regina.

Luca pegou um recorte de jornal, com uma reportagem sobre a Nara Leão e leu alguns dos fatos mais marcantes da sua vida.

-Pena que ela morreu tão jovem. - lamentei.

-A filha cuida da memória dela. - disse o Claudio.

-A Nana Caymmi sofreu horrores com a Maysa e Ellis Regina, quando cantou “Saveiros” no Festival Internacional da Canção. - trouxe eu outra vítima do serpentário artístico.

-A Nana Caymmi deixava os irmãos constrangidos falando para os outros que o pai dela ficou em cima da mãe...

Às palavras do Luca, berrei:

-”Ô, pernão.”

-Isso a Nana Caymmi gritou de dentro do carro, quando viu o Chico Buarque fazendo caminhada.

-Carlinhos, o que você disser sobre o Chico Buarque, o Luca conhece. - observou o Cláudio.

-Existem artistas de que eu gosto, mas eles lá e eu cá. O Carlinhos falou no meu carro, na quarta-feira, como era difícil conviver com Mozart.

-Mozart nasceu, praticamente, pronto. Com 5 anos, pegou o violino e tocou. O pai tratou de explorar o filho e, assim, ele se apresentou para os Habsburgo, reis e papas. Muito cedo, também, já compunha. Mozart viveu 35 anos com uma infância mal resolvida. Como era maçom e estava em dificuldades financeiras, um admirador da maçonaria viajou com ele custeando as despesas. Mozart se mostrou tão agitado (não era para menos, pois a inspiração lhe chegava aos borbotões, escreveu 22 mil páginas de música) e tão desagradável, o Mecenas não suportou e se desentendeu com ele.

-Fulano (não me recordo o nome) disse que Tom Jobim foi melhor do que Mozart. - aparteou-me o meu irmão com um sorriso provocador.

A piada era tão ruim, que nem deu para rir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

2092 - camas e depressões

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3892 Data: 29 de janeiro de 2012

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SABADOIDO SOB CHUVA

Anos atrás, quando programava idas às praias, eu me irritava com a previsão do tempo, pois não tinha uma resposta decisiva, podia chover, fazer sol, ou ficar nublado, era como se os técnicos do Serviço de Meteorologia jogassem sempre triplo, na loteria esportiva. Agora, não; na quarta-feira, por exemplo, quando o asfalto há dias fumegava com o sol, ouvi a previsão de frente fria na sexta-feira e olhei com carinho para o guarda-chuva.

Pensava no que vai acima escrito, remanchando ainda na cama, enquanto a chuva caía.

-Hoje, o Sabadoido será debaixo d´água.

No dia anterior, a temperatura caiu consideravelmente, e a minha mãe, que costuma, nessas horas, dizer que é assim que as crianças caem doentes, só agradeceu pela ida do calor senegalesco.

Quando saí para caminhar durante uma hora, não caiu uma gota, mas minutos depois, fui para o Sabadoido protegido por um guarda-chuva.

Quando o Daniel aparecer para abrir o portão, direi que craques como ele jogam tanto no seco quanto no molhado.

Como soía acontecer nas minhas chegadas de manhã cedo, para o Sabadoido, meu irmão estava sentado à mesa com o jornal nas mãos.

-Estou na primeira página, logo termino. - avisou-me.

Você é igual ao pai; lia o jornal de trás para frente, porque começava com a página do futebol.

-Hoje, há um caderno dedicado ao esporte, mas sigo o costume.

-Não me lembro, Cláudio, de 1960 para cá, de ficarmos um dia sem O Globo.

-E o papai trabalhou no Diário de Notícias, na Vanguarda, no Informador, no Mundo Ilustrado, em várias publicações e nunca no Globo. - registrei.

-Do Diário de Notícias, ele partiu para o DNER.

-Tenho acompanhado a minissérie “Os Kennedys.” - mudei de assunto.

-E o John Kennedy já se tornou presidente?

-Você sabe que a disputa com Richard Nixon, vice-presidente do Eisenhower, foi acirradíssima. O patriarca da família, Joseph Kennedy, sabia que precisava dos votos de Chicago para vencer em Illinois, colégio eleitoral fundamental.

-Ele era o cabeça de tudo?...- comentou com rispidez.

-Ele era o motor e colocou o Robert Kennedy para coordenar a campanha do irmão mais velho.

-A chapa do John Kennedy era formada com o texano Lindon Johnson. - lembrou meu irmão.

-Como eu dizia, eles precisavam ganhar em Illinois para chegar à presidência. Então, a minissérie mostra o Frank Sinatra servindo de intermediário de um encontro entre o Joseph Kennedy e o mafioso Sam Giancana, sucessor do Al Capone, que controlava os sindicatos de Chicago e manobrava os cabos eleitorais da cidade.

-O ator Peter Lawford, que pertencia à turma do Sinatra, era casado com a Patrícia Kennedy, irmã do futuro presidente. O John Kennedy, através dele, conheceu o Frank Sinatra e participou com ele de umas farras.

-Sim, Cláudio; a máfia sempre investiu em artistas de Hollywood. Quando o Bugsy e outros mafiosos construíram Las Vegas, se beneficiaram do George Raft, que levou muitos artistas para divulgar a cidade deles. Depois, o Frank Sinatra, com a fama que possuía, se tornou o queridinho da máfia.

-E o Frank Sinatra levando o Joseph Kennedy ao Sam Giancana?... - impacientou-se.

-Neste ponto, a minissérie falha, pois mostra o pai do Kennedy dizendo duas frases vazias, o Sam Giancana falando um tanto agressivamente. Joe Kennedy pega o chapéu e antes de sair o mafioso lhe pergunta se ele era, de fato, amante da Gloria Swanson. Ora, Cláudio, um negociador como o patriarca dos Kennedy não se encontra com o chefão da máfia para não tratar do que lhe interessa.

-Todo o mundo sabe que esse acordo dos Kennedy com a máfia saiu.

-O que a minissérie mostra?... O Frank Sinatra convencendo o Sam Gincana como a máfia ganharia com a eleição do John Kennedy. Ora, o mafioso foi interrogado pelo Robert Kennedy, em 1957, precisaria, portanto, de garantias para apoiá-lo. O filme, depois, mostra um Frank Sinatra como um leva e traz, levando esporro dos dois. O Joe Kennedy bate o telefone na cara dele...

-Sei que o John Kennedy se torna presidente dos Estados Unidos graças a esses votos de Chicago e que, pouco depois, a máfia passa a ser incomodada pelo irmão do presidente. - interveio o Cláudio.

-Sim, o Robert Kennedy, como Procurador-Geral da República, investigou a máfia. Houve mafiosos que, sentindo-se traídos, quiseram matar o Frank Sinatra. Assisti a um documentário em que o Sam Giancana controla os que pretendiam acabar com o cantor dizendo que ele entrou nessa história como otário.

-Sei que o Frank Sinatra tomou ódio dos democratas e se tornou um republicano empedernido.

-Interessante também é o relacionamento do Robert Kennedy com o seu subordinado, o chefe do FBI, J. Edgar Hoover, que sabia da vida de todo o mundo.

-Depois, todo mundo soube da vida dele, que era louco por rapagões.

-Naquela época, a imagem dele era irretocável; conseguira, praticamente, expulsar o Charles Chaplin dos Estados Unidos.

-O Clint Eastwood fez, agora, um filme sobre o J.Edgar Hoover; não sei se o Leonardo di Caprio se saiu bem no papel.- falou meu irmão.

-Já presidente dos Estados Unidos, o John Kennedy recebeu, de madrugada, na Casa Branca, uma mulher. Dias depois, o J. Edgar Hoover pediu uma audiência ao presidente e mostrou as fotos que o FBI tirou da mulher entrando e saindo do encontro. E informou que ela era amante do Sam Giancana.

-E o chefe dele?

-O Robert Kennedy esteve presente nessa audiência. - respondi ao meu irmão.

-Ah, bom, o J.Edgar Hoover tinha de respeitar a hierarquia.

-Essa mulher e outras passavam pelas camas do Frank Sinatra, do Sam Giancana e do John Kennedy. Mas é o Chefe do FBI que informa os irmãos sobre um encontro entre o pai deles e o maior mafioso de Chicago.

-E o que acontece?

-Os dois convocam o pai e cortam o cordão umbilical, ou seja, o Joseph Kennedy não poderia negociar mais em nome dos filhos.

-E ele? - quis saber meu irmão.

-Ele se sentiu como no dia em que levou o pontapé na bunda de Franklin Delano Roosevelt, quando embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra. Aposentado em casa, deprimido, teve um derrame e perdeu a fala. (*)

Nesse instante, o Daniel apareceu com sua alegria esfuziante falando de futebol.

(*) Pudera, o Joe Kennedy era embaixador lá e defendia os nazistas; ficou deprimido porque quis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2089 - cada caso é um caso

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3889 Data: 25 de janeiro de 2012

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CARTAS DOS LEITORES

-”Estou anexando o recorte (FRANÇA “CAI” e EUROPA FICA NAS MÃOS DA ALEMANHA) para documentar minha admiração pela Margareth Thatcher, que não embarcou a Inglaterra no trem da alegria do Euro garantindo que a Alemanha iria dominar a Europa inteira. Se essa é, de certa forma, uma 3ª Guerra, os alemães perderam as duas primeiras e estão levando essa no bico.

O Sarkozy está metendo o narigão nos lugares errados e os gregos são demais inocentes, pretendem os mármores do Lord Elgin de volta e me parece que no Museu Britânico estão a salvo. E a acrópole só explodiu porque, dominados pelos turcos, deixaram (os gregos) que fizessem um paiol lá dentro.

Não sei o motivo, coloco a Inglaterra num lugar especial no meu armário de respeito e de louvação, sempre cai de pé. A não ser que o futuro Charles II embanane tudo. Tenho muita pena da rainha, sempre em linha reta e rodeada de gente sem equilíbrio.

R

BM: Iniciemos pela parte final da carta da Rosa Grieco.

Para substituir um templo arrasado pelos persas, os gregos construíram, na acrópole, o Partenon – templo da deusa Atena – de 447 a.C a 433 a.C.

Durante muitos séculos ocupada pelos otomanos, a Acrópole ficou desfigurada. Edificaram-se nela mesquitas, minaretes, paióis, etc. Em 1687, os venezianos, liderados por Francesco Morosini, atacaram Atenas e, com um tiro de canhão, acertaram o paiol de pólvora da Acrópole, que explodiu.

Em 1801, o embaixador britânico em Constantinopla, Lord Elgin, obteve permissão do sultão de estudar e, eventualmente, recolher as esculturas que achasse. Lord Elgin, amante das artes, empregou muitos trabalhadores que retirou o que podiam das paredes e do chão. As esculturas pertencentes ao Partenon (a frontaria) foram trasladados para o Museu Britânico e são conhecidas como os “Mármores de Elgin”.

Desde a independência da Grécia, em 1832, o governo grego pede a devolução das esculturas, mas o British Museum não cogita essa possibilidade. Como escreveu a Rosa, elas agora estão a salvo. E, acrescentamos nós, é um perigo fazer negócio com os gregos de hoje, haja vista os problemas com o euro. Assim, passemos para a parte inicial da carta.

Sim, a Margareth Thatcher mostrou a sua lucidez política, quando previu que a ideia repercutida por Jacques Delors de uma moeda única para a Europa seria desastrosa. Eis um trecho de Peter Oborne do Daily Telegraph:

Today, Margaret Thatcher’s autobiography, first published in 1993, reads like a prophecy. It shows how deeply and with what extraordinary wisdom she had examined Delors’ proposals for the single currency. Her overriding objection was not ill-considered or xenophobic, as subsequent critics have repeatedly claimed.

They were economic. Right back in 1990, Mrs Thatcher foresaw with painful clarity the devastation it was bound to cause. Her autobiography records how she warned John Major, her euro-friendly chancellor of the exchequer, that the single currency could not accommodate both industrial powerhouses such as Germany and smaller countries such as Greece. Germany, forecast Thatcher, would be phobic about inflation, while the euro would prove fatal to the poorer countries because it would “devastate their inefficient economies”.”

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A página de cinema do Biscoito Molhado vislumbrou influências do Quentin Tarantino no filme “Mangas Arregaçadas” do Roberto Dieckmann. Onde está esta influência que eu não vi?- FDR.

BM: Se não for o Franklin Delano Roosevelt que está escrevendo para mim (serei grato em recebê-lo na nossa sessão espírita), é o Fernando Dias Ramos. Mas não importa, todos os leitores têm igual importância.

Quentin Tarantino ficou conhecido pela sua verborragia (neste ponto, ele lembra mais o Elio Fischberg do que o Dieckmann), e seu conhecimento enciclopédico de filmes, tanto populares, quanto os considerados “cinema de arte”.

Os roteiros de Quentin Tarantino não são lineares. Aqui há semelhanças com a cinematografia do Dieckmann que, às vezes, começa com a sobremesa para encerrar com o antepasto. Também caracteriza a arte de Quentin Tarantino os diálogos afiados e o uso da violência que, muitas vezes, provoca risos. Quanto a esta última característica, Dieckmann, que ainda não superou a morte da mãe do Bambi, não conseguiu explorar.

Sendo mais objetivo: a cena em que o protagonista de “Mangas Arregaçadas”, Fred Dieckmann, corre o risco de cortar os próprios dedos com um facão que amolara segundos antes, ao picar ingredientes do prato principal, lembra uma cena do cineasta nascido no Tennessee. Trata-se do quarto episódio do fime de 1995, 'Grande Hotel”. A fita é composta de quatro histórias diferentes, ambientadas em Los Angeles, às vésperas do ano novo. Dirigiram Allison Anders, Alexandre Rockwell, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Coube a ele, a última parte, The man from Hollywood, uma refilmagem de um média metragem de Alfred Hitchcock, estrelado por Steve McQueen.

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-Por que, no Sabadoido, não se falou mais no estupro do Big Brother Brasil? - M

BM: Falou-se, M, mas tudo não foi reproduzido nas páginas deste periódico para não cansar os leitores. Luca, por exemplo, repetiu uma frase de um almoço no Alentejano com o Elio Fischberg: “Não sou voyeur de gente simplória. Eu aproveitei a observação, no Sabadoido, não no restaurante e me reportei ao voyeurismo praticado pelo personagem de James Stewart no filme de Alfred Hitchcock, “Janela Indiscreta”. E acrescentei que essa obra é uma metáfora sobre o cinema. Claro que não estabeleci comparações entre espectadores: o protagonista do “Janela Indiscreta” não apontava a sua luneta para a cama ou o banheiro dos vizinhos.

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-A deslumbrante esposa do jogador do Milan, Boateng, informou, numa entrevista, que ele caiu de produção porque faz sexo com ela dez vezes por semana. O que o Biscoito Molhado tem a dizer? Z

BM: O assunto é complexo, Zorro. Há quem diga que Balzac conseguiu escrever 88 livros, mesmo vivendo apenas 51 anos, porque a sua amada estava na Ucrânia. Bem, o prolífico escritor francês, era gerontófilo: teve casos amorosos com muitas mulheres de 50 a 60 anos (a mulher de 30 foi um artifício dele, sentia atração, mesmo, pelas mais velhas). Por outro lado, George Simenon, que escreveu 200 livros, afirmou que teve mil amantes. Como George Simenon adquiriu fama de mitomaníaco, temos de tomar a sua declaração como bazófia. Mas o caso aqui é esporte.

O lutador Éder Jofre declarou que só perdeu uma luta, quando era amador, porque se masturbou no dia anterior. Jack La Mota, o campeão mundial que derrotou o amante da Edith Piaf, Marcel Cerdan e que se manteve de pé diante do extraordinário Sugar Ray Robinson, despejava uma jarra de água gelada no pênis, quando se sentia excitado antes de um combate – é isso que nos mostra Martin Scorsese no filme “Touro Indomável”.

Garrincha... Bem, Garrincha, quando não aparecia no treino, o técnico João Saldanha mandava alguém buscá-lo na zona. Em campo, ele decidia as partidas. Resumindo com aquele velho truísmo: cada caso é um caso.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

2091 - música para um bacalhau salgado

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3891 Data 27 de janeiro de 2012

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NO OÁSIS DO ADEGÃO

PARTE II

Luca atendeu o celular (*), mas o tema futebolístico continuou:

-Elio, o Pelé abraça o Messi no dia em que ele recebeu pela terceira vez o título de melhor do mundo e, no dia seguinte, diz que o argentino precisa de três copas do mundo e de mais de mil e duzentos gols para se comparar com ele. Essa autopromoção é insuportável.

-Mas ele precisa dela, Carlos.

-Há racismo, mil mazelas no futebol para o Pelé tratar, nos seus pronunciamentos, mas ele só abre a boca para falar o que todos já sabem, que ele foi o melhor com a bola.

-Ele brigou com muitos...

-Brigou até com o Gérson, Elio. E o Gérson, que jogou com ele, na seleção brasileira, garantiu que o Pelé jamais exigiu regalias, tirando partido da fama que usufruía: submetia-se aos mesmos deveres de todos os demais jogadores. Tinha uma humildade que disse que aprendeu com o pai, que também jogou bola. Mas depois que o Pelé veste o terno e se transforma no Édson Arantes do Nascimento, a modificação é brutal.

-Ele precisa se promover. - insistiu o Elio.

Nesse instante, o Luca desligou o celular. Olhando ao redor, disse:

-Aqui, no Adegão, tem um retrato do Eurico Miranda.

Ainda bem que não se encontra no nosso campo de visão, pois eu perderia o apetite. - pensei, sem me manifestar.

Não, não dava para perder o apetite; o Bacalhau ao Zé do Pipo, ao contrário de muitos que são pescados em águas turvas, estava simplesmente delicioso; era de fazer o Barão do Rio Branco rever o que dissera, que a bacalhoada não é um prato diplomático.

-O Adegão Português foi eleito como o melhor restaurante de bacalhau. (**)

Embora falasse com a boca cheia, eu e Elio entendemos e provamos o que o Luca dizia.

A comida não nos tirou do ar.

-Carlinhos citou o Millor e eu me lembrei da briga dele com o Chico Buarque. Há a briga do Aldir Blanc com o João Bosco, do Mário Vargas Llosa com o Gabriel Garcia Marquez...

-Nesse instante, aparteei o Luca:

-Eles são opositores politicamente; Mario Vargas Llosa comunga o pensamento neoliberal, enquanto o Gabriel Garcia Marques ficou muitas vezes em Cuba, com o Fidel Castro.

-Mas a briga não foi política. Vargas Llosa estava com problemas com a mulher e Gabriel Garcia Marquez, muito amigo do escritor peruano, se prontificou a reconciliar os dois. Com isso, envolveu-se com a mulher do amigo. Quando se encontraram, Gabo abriu os braços para dar um abraço no Vargas Llosa e recebeu um murro na cara que o sangue espirrou.

Elio Fischberg, por sua vez, contou a briga do Aldir Blanc com o João Bosco, quando também não respeitaram o brocardo popular: “mulher de amigo meu é homem.”

-Eu pretendia narrar a briga do Jean-Luc Godard com o François Truffaut, que vi, num documentário há dez dias, mas como não havia mulher envolvida, permaneci calado.

-Eu tenho ingressos para o show do Chico Buarque.

Os olhos do Luca se iluminaram.

-Muito bom, Elio?

-Luca, o Chico escreve as poesias, vai para o palco e os músicos mandam as notas musicais. Você não canta uma melodia desse último disco dele.

-Eu canto.

-Canta, então. - desafiou-o.

-Vou recitar...

-Está vendo, Carlos?... Luca vai recitar, porque não consegue cantar.

-Eu canto no carro.

-Cantando com a orquestra... Tem de cantar aqui,

O impasse dos dois não se resolvia, eu chegava à conclusão que não teríamos, como nos almoços passados, o dueto entre Apolíneo e Bem Apanhado.

-O Chico quer ser dissonante como o Tom Jobim, mas não dá. - criticava.

-Eu assisti a um DVD do Tom Jobim, em que ele está ao piano, tocando “Samba de uma nota só” e o Gerry Mulligan, ao clarinete. O americano não conseguia entrar na música, com o seu instrumento, pois ela começa com uma só nota, mas depois vem uma cascata de notas, além de alternâncias no ritmo. Então, o Gerry Mulligan fala na “cozinha do jazz”, ou seja, umas notas que cria o clima jazzístico. Tom Jobim faz, então, no piano “a cozinha do jazz”, e ele consegue, com o seu clarinete, captar o “ Samba de uma nota só”. - tagarelei.

- Eu tenho um amigo que viu “Águas de Março” surgir. - declarou o Elio.

Depois de descartar a Thereza Hermany e a Ana Beatriz Lontra, como mulheres do Tom em 1970, quando foi composta a canção, Elio falou da casa que ele fazia, com a companheira, nas lonjuras da cidade.

-Era pau, pedra, lama... Tudo isso ele colocava na letra. Festa na cumeeira...

-Elio, você viu o DVD do Van Gogh sobre as cartas do Theo? - perguntei, enquanto o Luca se ocupava de uns papéis que trouxera

-Não tive tempo, Carlos.

-Eu gravei e vou trazer para você um filme sobre os últimos meses do Tolstoi.

-Deve ser bom.

-Tolstoi foi endeusado, quando envelheceu. Transformaram-no numa espécie de santo, quando ele era um pecador como muitos por aí. Nos momentos de lucidez, ele se dizia menos tolstoiano do que seus adeptos. Com isso, a mulher dele, Sófia, que teve 13 filhos, leu e copiou os rascunhos de 1300 páginas de “Guerra e Paz”, seis vezes, ficou para trás. Tchertkov, o criador da religião Tolstoiana, conseguiu que ele deixasse toda a sua fortuna para os pobres. Sófia, com toda razão, lutou contra esse sujeito e a maluquice do marido. O filme mostra esse drama verídico com muita competência, Elio. O que de bom saiu daí foi que o Tolstoísmo influenciou Gandhi e Nélson Mandela.

Luca mostrou uma caricatura bem feita de uma mesa de pingue-pongue que chora, com a sua saída do Unibanco e uma fotografia do seu Fusca de 1973, com placa SW 3200.

Elio pediu um gato mineiro de sobremesa, que eu chamei de gato de botas. (***)

Diante de tanta doçura, eu me queixei de só darem valor, entre as obras do Umberto Eco, a “Em Nome da Rosa”.

-Cemitério de Praga” é excelente.- citou o Elio.

-A Ilha do Dia Anterior”, “O Pêndulo de Foucault”, cito só dos que li.- ressalvei.

Veio a conta, onde acrescentaram um terceiro chope que não desceu pela minha garganta nem pelos comensais que me acompanhavam.

Quando saímos do refrigerado Adegão Português, o calor era tão terrível, que o Campo de São Cristóvão mais parecia a Caatinga de São Cristóvão.

-Deixei o seu carro na pole position. - avisou-lhe o manobrista.

-Entra no carro, Elio, que vou deixá-lo no metrô.

Com o celular no ouvido, Elio aceitou o convite.

-Vou colocar o último disco do Chico.

-Mas vai ter de cantar. - desafiou-o de novo o Elio.

Quanto a mim, já estava conformado com o silêncio da dupla Apolíneo e Bem Apanhado.

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, tomado de intensa preguiça corporal e lerdeza cerebral neste 02.02.02, informa que leu Lula em lugar de Luca. Quase que não sai o jornal.

(**) O Distribuidor faz saber que não nutre a menor simpatia pelo Adegão em pauta. Conhecedor do tema, recomenda o Adonis, de Benfica.

(***)...nem assim, morrendo de curiosidade, irei ao Adegão verificar o ‘gato mineiro’. Fico com a lembrança do ‘mineiro com botas’ sobremesa requintada, do Rio Minho, aliás, restaurante frequentado pelo Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia e com quem concordo sobre o uso do bacalhau.