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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

2034 - masculino, feminino, predicado e sujeito

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3864 Data: 17 de outubro de 2011

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MEUS PROFESSORES INESQUECÍVEIS

Com o Dia do Professor, no dia 15 deste mês, apareceram em alguns jornais e rádios cidadãos aludindo ao seu professor inesquecível; eu tive vários e tentarei falar deles, em ordem cronológica.

Considerarei inesquecível até professores cujos nomes se apagaram da minha memória (são poucos), mas, que pelos seus atos e palavras serão lembrados sob pseudônimo.

Maria Teresa era a professora da Turma 1, a pior da Escola 9-10 Manuel Bomfim, em 1955. Comecei na Turma 3, mas como a minha nota foi 15, na primeira prova, e 17, na segunda, rebaixaram-me para a Turma 1. (*)

Minha mãe me colocou, então, diante dos jornais que meu pai trazia do serviço e me ensinou a ler as manchetes. Depois, ela mesma repetia os ditados do trabalho de casa da professora e me recomendava não ajudar ninguém que não soubesse. Dito e feito, pediram-me cola e eu disse um rotundo não. Tornei-me um aluno exemplar e a minha nota final foi a melhor da turma, 85.

Coitada da professora Maria Teresa!... Ela chorou de soluçar, segundo a minha mãe, porque apenas três alunos seus passaram de ano. Ficou-me o orgulho de provar, com a minha nota, que a culpa do mau desempenho daquele grupo não era dela. (**)

Com o meu primeiro lugar, adquiri o direito de estudar, no horário da manhã, numa das melhores turmas do segundo ano. Surge, então, um problema que se reflete em mim: uma professora, que tinha um filho no São Bento, precisava de uma vaga para ele de manhã, no Manuel Bomfim, para cuidar do seu rebento. Minha mãe, por motivos pessoais, me queria na escola de tarde, aceitou a troca; voltei para o horário vespertino e a participar de uma turma mais fraca. Senti uma forte frustração, que eu não soube expressá-la em palavras nos meus oito anos de idade. O fato é que minha eficácia escolar caiu acentuadamente e eu só passava raspando. Alie-se a isso o fato de eu sofrer com a falta de professoras, sendo remanejado muitas vezes para outras turmas, embora houvesse a opção de retorno à casa.

Faltei até prova, como uma, em 1958, para ouvir um jogo do Brasil, na Copa do Mundo, o que demonstra que eu já não era o mesmo estudioso da Turma 1. Tive um alento pelos livros escolares na Admissão, quando a professora era a Dona Dulce Silveira Consuelo Lopes, filha da dona do Colégio Piratininga, da Rua Hermínia. Ela possuía os gens da didática, contudo, diante de um programa escolar fraco, de alunos impregnados de falhas no ensino nos anos anteriores, não conseguia fazer milagres.

Passei com uma nota razoável, 64 e parti para fazer a prova de 1960 do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Sujeito, predicado, aumentativo de incêndio, eu nunca vira isso no tempo em que cursei a Escola 9-10 Manuel Bomfim. Reclamam da truculência dos militares, mas eles tiveram a gentileza de só declararem as notas daqueles que obtiveram êxito no concurso. (***)

Para ser melhor preparado, fui estudar com o Professor Alcir. Tratava-se de um mestre em Matemática do Pedro II, que era assessorado pela Olinda, uma normalista da Escola Carmela Dutra. Ela, na verdade, ficava encarregada de ensinar história, geografia e, principalmente, português. A crítica que me ocorre foi a pouca atenção ao ensino de geografia e de história (o professor ensinou que D. Pedro II reinou durante 50 anos sobre o Brasil, mas corrigiu, a tempo, para 49).

Dos colégios públicos de nome, na época, a abrir concurso, o Colégio Estadual Visconde de Cairu foi o primeiro. Amadurecido, parti para os exames. Só a prova de português, a primeira, eliminava, mas a minha nota 7,5 foi boa. Tirei 5 em matemática, o que se constituiu num feito e tanto, haja vista o número assustador de zero. Não obtive desempenho bom em geografia e história, mas a minha atenuante foi a pouca atenção dada pelos meus professores à matéria, como já registrei.

O meu êxito inicial satisfez à minha mãe e, assim, não tentei pela segunda vez o Colégio Militar. Talvez a minha mãe fosse avisada por um arcanjo que eu poderia ser coleguinha do Dieckmann, do Fischberg, do Sérgio Nei, do Reinaldo do Jipe, do Bráulio Goffman, do Nei Abóbora, do Grande Manitou, que o Dieckmann chama de Mahatma (4*), etc, etc.

No Visconde de Cairu, todos os meus professores de Educação Física foram inesquecíveis: Jobim, Adir, Admildo Chirol. Entrávamos em formação, marchávamos, descansávamos, sempre como soldados. Adquiri gosto pela atividade física e nunca a perdi, mesmo nos anos em que a ginástica não era moda.

No primeiro ano ginasial, tive um professor de Moral e Cívica, que chamarei de Cícero (esqueci-me do seu nome), que usava perna mecânica. A mesma descrevia meio círculo a cada degrau da escada que ele subia ou descia, e os alunos apressados, como eu, tinham que se conter para não o atropelar.

Ele nunca iniciava uma aula sem contar seus feitos heroicos. Certa vez – contou ele – enfrentou os playboys da Turma do Imperator, brandindo a sua bengala.

No segundo ano ginasial, fui aluno de matemática do Henrique, um tabagista compulsivo. Certa vez, dei-lhe um dos meus cigarros da marca Continental e recebi o apelido de “Maconha” dos colegas invejosos. Com ele, aprofundei-me mais no estudo da álgebra. No terceiro ano, quando fui aluno do Charada – o professor das provas de três questões de álgebra e geometria que colocava dois terços das meninas para chorar (5*) – as minhas notas ficavam entre 5,5 e 6,5, o que significava primeiro ou segundo lugar.

Há o caso do Humberto (esqueci-me do seu nome de pia batismal), professor de Geografia no 2º ano ginasial. Ele permitia que se abrisse o livro, o atlas e o caderno durante as provas, pois afirmava que o importante era o uso do raciocínio. Não sei o que houve comigo, pois eu não me adaptava ao seu método de ensino e, por consequência, o meu desempenho era fraco. Perdi a confiança em mim e fiquei bloqueado a ponto de trocar, numa prova, a ordem crescente pela decrescente.

Um dia, o professor me pediu, no meio de uma aula, que dissesse todas as matérias que eu estudava (umas nove) com as minhas respectivas notas. Quando terminei, ele disse:

-Mas só na minha matéria você se sai mal?!...

Houve, então, duas provas mensais de geografia que foram pura memorização, sem consultas, é claro, a livros e cadernos. Não deixei a oportunidade passar e obtive média para passar de ano com tranquilidade.

Dona Cacilda era professora de francês, morava em Niterói e nunca faltava a uma aula. Quando ocorreu uma greve das barcas, houve aluno do Visconde de Cairu que apostou na presença dela na escola:

-Ela atravessará a baía a nado para não faltar.

Nos anos que antecederam a queda do governo João Goulart, o martírio da Dona Cacilda foi terrível, pois as greves nos transportes em todo o Brasil eram uma constante.

Também fui aluno de francês do Pierre Vincent (vai esse nome, Pierre Vançã, professor da minha cunhada, que também foi do Visconde de Cairu, três anos depois de mim). O Pierre Vincent não se conformava com o fato de exército, em francês, ser uma palavra feminina: l' armée. Era o cúmulo, para ele, pois a França, com seu formidável exército, foi dirigida por Napoleão Bonaparte.

Será que Pierre Vincent sabia que vagina, na língua de Voltaire, é uma palavra masculina: le vagina?

No 4º ano, tive um excelente professor de português, que chegou a ser diretor do CEFET, José Vinícius Frias Ruas. A deficiência daquele que, talvez, foi o mais destacado colégio estadual, era o ensino de português. O diretor Enéias, que seria afastado pelo governador Carlos Lacerda por improbidade, escrevia livros sobre a matéria e os impingia aos alunos. O José Vinícius bem que tentou desfazer a grande lacuna que encontrou, mas só teve poucos meses para isso.

Bem, estudei, em seguida, com outros mestres inesquecíveis, como o Silva Jardim (sobrinho do republicano que caiu no Vesúvio), Carlos Haroldo Porto Carreiro, Silvando, Luís Rocha, Luís Fernando Pinto Furtado, Fiani, Zé Maria, Ruy Santacruz, Tia Carla e outros, mas fica para outra oportunidade.

(*) Na opinião do distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, geralmente menosprezada, quem tira 17 na escola 9-10 é gênio. O redator deve ter sido transferido para melhorar o nível, desta certeza não nos afastamos um milímetro de insegurança.

(**) O Distribuidor vai distribuir asteriscos hoje porque já viu o próprio nome espalhado nesta edição. No seu entender, mais uma vez há um pensamento equivocado em relação à estimada professora. Ora, o fato de haver um CDF que estudava em casa e que se recuperou dos fracassos iniciais não garante a excelência da professora e sim do aluno. Ou dos 3 alunos.

(***) Acredita-se que o Redator foi reprovado, raspando, como era seu hábito. Uma revisão de prova poderia ter mudado o curso da História.

(4*) O Castro Neves adotou o Mahatma, sem consultar ninguém. O Bráulio corrigiu para Caghatma – por razões não esclarecidas, porém imagináveis. O Caghatma chama o Distribuidor de Odin e assim por diante.

(5*) Se a turma tinha 32 alunos e dois terços das meninas choravam 5 g de choro por dia, quantos lenços de cambraia quadriculada seriam necessários para enxugara face das mesmas alunas no funeral do Getúlio?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

2033 - Darwin e as Malvinas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3863 Data: 15 de outubro de 2011

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COMENTANDO AS MENSAGENS ELETRÔNICAS

Lá estava na minha caixa de correspondência eletrônica: “Margareth Thatcher não estava errada”. O remetente... Bem, deixa pra lá: o remetente quer, às vezes, ficar oculto.

Margareth Thatcher teve razão quando reagiu à agressão da ditadura militar nas Ilhas Falklands. A Argentina passava por um mau momento na sua economia e os donos do poder, de um modo solerte, desviaram a ira do povo para a Inglaterra. Como a maioria dos argentinos não é politicamente madura (a maioria dos brasileiros também não), preparou-se a nação para a guerra. Resultado: os ingleses vieram da Europa e restabeleceram a ordem internacional, contribuindo para a queda do regime militar no país vizinho.

Lida a primeira frase do e-mail, constatei que o assunto era um pouco diferente. Tratava-se de uma citação de Adrian Rogers feita em 1931:

“É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Para cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. Quando metade da população entende a ideia de que não deve trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.”

Margareth Thatcher, que recebeu o cognome de “A Dama de Ferro”, assumiu o cargo de primeiro-ministro da Inglaterra numa conjuntura de penúria provocada pela intromissão exagerada do Estado, que sustentava malandros, lutou contra isso e restabeleceu o orgulho inglês. Paradoxalmente, um século antes, despontava na política europeia Bismarck, conhecido como o “Chanceler de Ferro”. A alcunha era mais do que merecida: ele reorganizou o exército prussiano, declarou guerra à Áustria, subjugou os estados menores e criou a Alemanha. Poucos anos depois, infligia à França de Napoleão III uma derrota acachapante. Esses fatos podem ser lidos com riqueza de detalhes na biografia de Bismarck, do historiador Jonathan Steinberg, lançada no Brasil, recentemente.

No entanto, os críticos que, de uma maneira geral, elogiam o livro mencionado, lamentam que o biógrafo tenha dedicado apenas duas páginas ao pioneiro do Welfare State, o estado-babá da rede de proteção social. Sim, o autoritário Bismarck, um dos ídolos de Hitler, foi quem primeiro olhou pelos velhinhos que deixavam de trabalhar em pleno capitalismo selvagem.

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Em outra mensagem eletrônica, alguém, cujo nome não me ocorre agora, escreve sobre os cinco filmes fundamentais de Charles Chaplin. Na introdução, ele faz alguns comentários sobre o lendário artista e cita uma apreciação do ator Marlon Brando: não conheceu ninguém mais sádico do que Charles Chaplin. Bem, pela vida do Marlon Brando, pelo que aprontou nas filmagens do “Último Tango em Paris”, segundo a sua parceira Maria Schneider, não é para ser levado a sério em assuntos contra o sadismo, talento de ator à parte. Se a acusação de sádico a Chaplin partisse da atriz Virginia Cherrill, de “Luzes da Cidade”, que teve de filmar uma cena mais de 300 vezes – reza a lenda – e que chegou a ser despedida por ele, porque não se enquadrava na sua idealização artística, mereceria muito mais crédito.

Na verdade, a técnica de filmar do gênio da arte cinematográfica, com muita improvisação e a busca pelo perfeccionismo, provocava bastante estresse. Já foi narrado no BM 2010 o esporro que a atriz Madeleine Ozeray recebeu do diretor teatral Jouvert, indignando seus amigos brasileiros que pensaram em espancá-lo. Ao saber disso, a atriz francesa caiu na gargalhada, pois as reprimendas aos berros são normais no mundo do espetáculo.

Para nós, que enriquecemos o nosso espírito vendo e revendo filmes do Carlito (*), importa o artista que vemos na tela, o Charles Chaplin a quem Carlos Drummond de Andrade dedicou dois poemas; e de um deles, “Canto ao Homem do Povo”, transcreveremos alguns versos:

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“Era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,

preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,

viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse

para dizer-te algumas coisas, sobcolor do poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam

e que nisso, como em tudo o mais, nossa gente se parece

com qualquer gente do mundo – inclusive os pequenos judeus

de bengalinha e chapéu-coco,sapatos compridos,olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem

nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro,Polícia,

e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor

como um segredo dito no ouvido deum homem do povo caído na rua

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Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode

caminham numa estrada de pó e de esperança.”

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Dieckmann me encaminha o e-mail de uma amiga sua, Cecília Rodrigues, que, depois de ler o Biscoito Molhado nº 2027, que trata do “Framboesa de Ouro”, que premia os piores atores, e do “Ig Nobel”, uma sátira ao Nobel, pergunta se eu conheço o Darwin Awards (Prêmios Darwin). Depois dessa mensagem, procurei saber alguma coisa. Trata-se de uma seleção de erros tão absurdos que, ao cometerem, os autores põem fim à própria vida ou provocam a própria esterilização. Os prêmios se fundamentam no pressuposto de que esses indivíduos, ao se autodestruírem, eliminam os maus gens de que são portadores.

Wendy Nothcutt, o maior divulgador do Darwin Awards, autor de livros sobre o assunto, estabeleceu cinco condições fundamentais para a obtenção do prêmio:

-Incapacidade de gerar descendência – através da própria morte ou esterilização;

-Excelência – forma sensacional e estúpida com que se comete o erro, incrível desuso da lógica e da razão;

-Autosseleção – causa desastre por si mesmo, com mérito incondicionalmente individual;

-Maturidade – o indivíduo deve estar em total uso das suas capacidades físicas e mentais. Deve possuir capacidade de raciocínio e julgamento.

-Veracidade – o evento tem de ser verificável; excluem-se as lendas urbanas.

Nesse mesmo e-mail do Dieckmann, ele cita o caso de um universitário que, para tornar mais convincente a sua fantasia de vampiro, prendeu uma estaca na camisa e acabou morrendo com ela cravada no coração.

Eu mesmo vi, num filmezinho da internet, um indiano, em cima de um trem, parado na estação, que segura um fio para saber se era de alta tensão, era; depois de uma pequena explosão, ele estrebucha e morre.

Não precisamos ir muito longe e voltar no tempo, quem acendeu a luz do restaurante “Filé Carioca” da Praça Tiradentes, onde escapava gás desde o dia anterior, nessa última quinta-feira, provocando tão pavorosa explosão, merecia o Prêmio Darwin. (**)

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO conhece e admira a obra do Carlitos, sempre no plural. Entretanto, o poema em pauta o retrata no singular, que foi mantido, por obra e graça da coerência.

(**) O mesmo Distribuidor discorda da opinião do Senhor Redator. O desastre em pauta não se encaixa nos quesitos AUTOSSELEÇÃO (quem acendeu a luz, ou acendeu um fósforo, pode não ter nada a ver com quem permitiu o vazamento de gás) e MATURIDADE, pois quem faz fogo em ambiente com cheiro de gás não tem capacidade de raciocínio e julgamento.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

2032 - os iluminados 3 - a bossa nova

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3862 Data: 13 de outubro de 2011

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66ª VISITA DOS ESCRITORES À MINHA CASA

-Roberto Campos, você esteve na Rússia?

-O Brasil restaurou relações diplomáticas com a União Soviética, em 1961, quando o meu inesquecível amigo San Tiago Dantas era ministro do Exterior do período João Goulart. No governo Castelo Branco, coube a mim formar uma comitiva de brasileiros para intensificar nossos laços, apesar das ressalvas do ministro da Guerra, Costa e Silva.

-Lembro-me, quando li “A Lanterna na Popa”, que José Mindlin, da Metal Leve, integrou essa comitiva.

-José Mindlin nasceu na Ucrânia, era o único, entre nós, que falava o idioma eslavo.

-Certamente, saiu à cata de livros raros, na União Soviética. - previ.

-Fiquei hospedado no compound da Embaixada do Brasil, à Rua Guertzena, 54. Para a minha sorte, o embaixador era Henrique Rodrigues Vale, meu colega de concurso para o Itamaraty, um dos componentes dos 18 do Forte. Henrique se celebrizou pela sua prodigiosa memória, declamava, de cor, interminavelmente, versos de Camões e Bocage. Mais tarde, o Mal de Alzheimer o atingiu e a sua lendária memória se transformou num tatibitate infantil.

-Ainda bem que as suas recordações não o abandonaram nos seus 84 anos de vida.

-O prédio da embaixada do Brasil em Moscou tinha certa dignidade, com salões de piso alto e um bom piano, no qual Arthur Moreira Lima nos brindava com a música de Chopin.

-Você contou aquela piada russa no seu livro de memórias... - interrompi.

-Soube de algumas piadas pelo embaixador do Canadá, na União Soviética, John Ford, casado com uma brasileira. Ele conseguia ir além da curva da sexta vodca com os funcionários soviéticos e, assim, aprendeu muito sobre o senso de humor deles.

-Conte uma dessas piadas. - pedi.

E ele me atendeu:

-Em Moscou, a diferença entre drama, tragédia e realismo socialista é a seguinte: drama é quando se tem a mulher e não o apartamento; tragédia é quando se tem o apartamento e não se tem a mulher; e realismo soviético é quando se tem a mulher e o apartamento na hora exata da reunião do Partido.

-Você contou essa e outras piadas da União Soviética ao presidente Castelo Branco, não contou?

-Sim e disse ao Castelo que, ao contrário do que eu supunha, o sense of humor sobrevive na União Soviética e isso é o começo da salvação. Não se sustenta um país que não sabe rir de si mesmo, defeito fatal de Hitler.

-Dos soviéticos para os americanos e... a sua passagem pelos Estados Unidos como embaixador do Brasil, no governo João Goulart?

-Como são muitos os assuntos do meu tempo de embaixador nos Estados Unidos, vou me restringir aos músicos.

-Ótimo, Roberto Campos.

-Com quatro dias de trabalho, fui abordado, na embaixada, de maneira agressiva, por uma americana com ar um pouco hippy; disse-me ela que era hábito dos embaixadores apoiar e encorajar talentos artísticos de seus respectivos países quando se apresentavam em Washington. Ela estava hospedando em sua casa um verdadeiro gênio pianístico – João Carlos Martins- sem que tivesse conseguido despertar a menor atenção dos diplomatas brasileiros. “O mínimo – dizia ela – que se poderia fazer seria prestigiá-lo com uma recepção após o concerto inaugural, para apresentá-lo ao mundo cultural de Washington”.

-Quem era ela?

-Ann Mansfield, filha do líder da maioria no Senado, Mike Mansfield, que mais tarde se tornaria meu grande amigo.

-E a sua reação diante da proposta da Ann Mansfield que, para você, ainda era uma desconhecida?

Respondi-lhe que isso seria fácil em termos materiais. Eu poderia fornecer a embaixada, as bebidas e os petiscos. Entretanto, tendo chegado há apenas quatro dias, meus conhecimentos sociais eram extremamente limitados. Por que não dividir a tarefa? Eu ofereceria as instalações físicas, e ela, como mecenas de saias, convidaria as pessoas para o cocktail.

-E tudo deu certo?

-O concerto inaugural da carreira de João Carlos Martins- tocando peças de Bach, que o consagrariam mais tarde como grande intérprete – foi um sucesso. E a recepção na embaixada permitiu-me contatos com uma gama diferenciada de políticos, burocratas e artistas. Ann Mansfield conhecia bem não só o meio diplomático como o círculo político de Washington.

-No seu tempo de embaixador, Roberto Campos, aconteceu o célebre concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall.

-Essa onda musical, a grande inovação do fim dos anos 50 e começo dos anos 60, surgira no Brasil, mas só se tornou um “acontecimento” nos Estados Unidos após dois concertos marcantes pelo final de 1962. O primeiro se realizou em novembro, em Nova York, habitualmente reservado a exibições de música clássica. A esse concerto compareceu Adlai Stevenson, então representante americano na ONU.

-Adlai Stevenson tinha perdido para John Kennedy a indicação pelo Partido Democrata para concorrer à presidência dos Estados Unidos. - manifestei-me.

-O segundo foi o concerto no Lisner Auditorium em Washington, em dezembro. Organizei uma recepção na embaixada, à qual compareceu em peso o mundo político e diplomático de Washington, interessado na novidade musical. Ali estavam João Gilberto (que deu um susto no pessoal da embaixada ameaçando não comparecer), Tom Jobim, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Sérgio Ricardo, Roberto Menescal e Agostinho dos Santos. Compareceram também os promotores da “Bossa Nova” nos Estados Unidos: Felix Grant, Stan Getz, Lalo Schiffrin e Charles Byrd. Foi um sucesso artístico e propagandístico.

-Você não cultivava a música clássica como Mário Henrique Simonsen?

-Mário tinha um gosto musical muito mais apurado do que o meu, mas aposto que ele gostaria de estar no meio da plateia do Carnegie Hall cantando, como todos, “O Pato”, com o João Gilberto. Ele era bem-humorado.

-E a Conferência de Bretton Woods, que mudaria a economia do mundo ocidental?

-Rapaz, isso foi de 1 a 22 de julho de 1944, com a participação de 44 países. Eu era muito novo. Fui como terceiro secretário de embaixada. Na delegação brasileira estava o ministro da Fazenda do governo Getúlio Vargas, Arthur de Souza Costa, mas os grandes conhecedores de economia eram Eugênio Gudin e Otávio Gouveia de Bulhões.

-Se um dos dois vier me visitar, ficarei honrado. - disse.

-O grande nome de Bretton Woods, um vilarejo nas montanhas de New Hampshire, foi Keynes. Lá também estavam Denis Robertson e Lionel Robbins. A piada corrente era que Keynes era demasiado inteligente para ser coerente; Denis Robertson demasiado coerente para ser inteligente; e Lionel Robbins não era nem inteligente nem coerente.

-Com o tempo, Lionel Robbins desmentiu os detratores.

-Keynes era o único a quem fora permitido levar, ao isolado hotel de Bretton Woods, a esposa, a belíssima bailarina russa Lydia Lopokova. Todos os demais eram obrigados, durante as três semanas de duração da Conferência, a uma vida celibatária. Vivia-se um racionamento de gasolina e tínhamos, mesmo, de ficar longe dos lugares mais alegres. A piada corrente é que se tratava de um truque diabólico do judeu Morgenhau, presidente da delegação americana e secretário do Tesouro, porque depois de três semanas sem mulher, todos assinariam qualquer documento.

-Roberto Campos, alguém foi mais patrulhado pelas esquerdas brasileiras do que você?

-Penso que não.

-Mesmo tendo passado tantas décadas no poder, você, com 80 anos de idade, ainda participava de eventos em morros do Rio de Janeiro para obter votos como candidato ao Senado. Muitos dos seus críticos da esquerda, com poucos meses no governo, enriqueceram, pilharam os cofres públicos.

-Fui ingênuo ao dizer que o esquerdismo era uma doença infantil como o sarampo, é bem mais do que isso.

Depois de uma pausa, despediu-se sob a alegação de que outro espírito queria baixar.

-Obrigado, Bob Fields.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

2030 - iluminados 2

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3860 Data: 8 de outubro de 2011

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65ª VISITA DOS ESCRITORES À MINHA CASA

-O latim que você aprendeu como seminarista lhe foi útil até no ministério do Planejamento, Roberto Campos, quando você defendeu, em cadeia de rádio e televisão, a política-econômica do governo Castelo Branco contra os ataques do governador Carlos Lacerda.

-Rapaz, aquilo me deu um susto... Caminhava eu pelo calçadão de Copacabana, quando sou agarrado por um crioulo de dois metros, que me suspende. Estou morto – imaginei. Ele, então, me diz: “Isso mesmo, cague latim na cabeça do assassino do Getúlio”.

-Você também conhecia alguma coisa do idioma grego?

-Sim, quando entrei na Academia Brasileira de Letras e me tornei amigo do Carlos Heitor Cony, nós dois trocávamos textos em gregos.

-Como conhecedor de idiomas quem você mais admira?

-João Guimarães Rosa, sem dúvida, o maior amante das palavras sem distinção de nacionalidade. Era um poliglota versado em latim e grego, que se tornaria conhecedor de nove idiomas, inclusive exóticos, como húngaro, o servo-croata, o persa, o árabe, o malaio e o japonês. Tratava-se de uma coisa estranha, pois aprendera algumas dessas línguas ainda quando pacato médico do interior em Itaguara, Minas Gerais. Quando o conheci no Itamaraty, dizia-se um “fabulista mercenário”, pois publicara aos vinte anos, alguns contos “não por amor à arte, mas por amor ao dinheiro”. Em 1936, ganhara o prêmio da Academia Brasileira de Letras com seu livro de poemas Magma, nunca publicado. “Sou um poeta intramuros” - costumava pilheriar.

-Você falou da sua admiração por ele. - lembrei.

-Trocávamos versos em latim. Logo, ele começaria a escrever Sagarana, que foi publicado em 1940. Guimarães Rosa usaria criativamente afixos e preposições latinas para conseguir extraordinários efeitos estilísticos, surpreendentemente sintonizados com o balbuceio sertanejo. Grande Sertão: Veredas foi uma obra-prima de engenharia semântica, revelando Guimarães Rosa incrível habilidade para transformar o cotidiano em lenda. “Sou médico, rebelde e soldado”, dizia Rosa, que durante a revolução constitucionalista de 1932, fora voluntário para serviços médicos no setor do túnel, onde também se encontrava o urologista Juscelino Kubitschek.

-Quando o conheceu, ele já fora designado para o Consulado de Hamburgo, e você, Roberto Campos?

-Meu começo no Itamaraty?... Eu e o Júlio Agostinho de Oliveira não conhecíamos ninguém lá e, por isso, éramos os patinhos feios. Foram todos requisitados para os diferentes departamentos mais nobres – o Político, Jurídico e o Cultural. Não tendo sido nossos trabalhos requestados (*) por ninguém, fomos consignados à Divisão de Material, ou seja, o almoxarifado. Tratava-se de óbvia subocupação de nossos talentos. Dedicarmo-nos a construir um sistema sofisticado de controle de custo de material, com enorme esbanjamento de gráficos e projeções estatísticas. Àquela época, o material de expediente era distribuído centralmente, a partir de Londres, pela Casa Harrison & Sons, pois o Itamaraty se preocupava validamente com a padronização do material, e, frivolamente, com requintes de qualidade. Com nossa sofisticação estatística, o Itamaraty teve um almoxarifado de luxo.

-Voltando às críticas provocadas pela política econômica do governo Castelo Branco, que tinham você e o Octávio Gouveia de Bulhões à frente...

Açodado, Roberto Campos me atropelou com sua oratória.

-O governo começou liberando os preços e as exportações agropecuárias, tradicionalmente sujeitas a controles e congelamentos. A liberação foi seguida de uma brusca, porém temporária elevação de preço de alimentos, que levou Augusto Frederico Schmidt, amigo de Castelo Branco e meu velho adversário dos tempos do governo Kubitschek, a procurar Castelo Branco para adverti-lo da “iminente catástrofe inflacionária”. Falava com a autoridade de grande acionista dos supermercados Disco. Octávio Bulhões e eu nos esforçamos para tranquilizar o presidente. Essa reação de mercado seria temporária, pois a oferta se expandiria. De qualquer modo, os controles de preço tinham resultado em filas de compradores e escassez de alimentos, o que equivalia a uma inflação oculta. Era o que eu chamava de “inflação socialista”. Eu dizia para o presidente Castelo: “O capitalismo tem preços flexíveis e prateleiras cheias, o socialismo, preços congelados e prateleiras vazias.”

-Recordo-me que no meio da euforia com o Plano Cruzado, surgiu a sua voz dissonante.

-O congelamento de preços abriu o caminho para o fracasso do Plano Cruzado. Ainda bem que Fernando Henrique Cardoso, como ministro da Fazenda, conseguiu convencer o presidente Itamar Franco a deixar os preços liberados no Plano Real.

-Voltando ao tempo do governo Castelo Branco, o seu maior crítico na área econômica foi o governador Carlos Lacerda. Ele escreveu livro, falou em cadeia de rádio e televisão, deixou as Forças Armadas de prontidão.

-Enfrentei de uma só vez os dois polemistas mais terríveis do Brasil: Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand.

-Assis Chateaubriand estava numa cadeira de rodas.

-Sim, mas o seu cérebro funcionava como nos velhos tempos e ele tinha mil assessores para andar por ele.

-E você foi para a televisão defender o governo?... Eu me lembro; morava numa casa de vila na Rua São Gabriel e não saía da frente da televisão quando você e o Lacerda falavam.

-O presidente Castelo me ordenou que fizesse a defesa do nosso programa financeiro.

-O ponto polêmico era o PAEG – Plano de Ação Econômica do Governo 1964/1966. Nele, atuei full time, com a colaboração do Octávio Bulhões, Mário Henrique Simonsen, jovem e inteligentíssimo, e Bulhões Pedreira. O principal arauto da objeção ao PAEG foi Carlos Lacerda. Ele era especialista em criar bonecos de palha para depois destruí-los. Lacerda descrevia o PAEG como um “código de intervencionismo e dirigismo estatal”, aplicado a uma economia “socializante sem ser socialista, com um palavreado liberal e atos intervencionistas”. Ele achava o PAEG comprometido pelo vício original de tornar o complexo econômico, numa sociedade democrática, como algo que pode e deve ser objeto de um planejamento ou programa global. E pleiteava a adoção de uma “política de soluções práticas, adaptável às circunstâncias”.

-Foi injusto. - interrompi-o.

-Eu demonstrei o quanto ele estava errado.

-Errado de todo?- provoquei o Roberto Campos.

-Não, em alguns casos nós exageramos. Como, por exemplo, o número de ovos que o Brasil produziria no ano. Carlos Lacerda perguntou se as galinhas tinham sido consultadas.

De repente, Roberto Campos olhou para cima.

-O ectoplasma de um dos 18 do Forte do Itamaraty pretendia se materializar aqui, na nossa conversa, mas não escreveu livro algum.

-Eu o considerarei como uma visita.

Em seguida, pedi a sua opinião sobre Castelo Branco.

-O político pensa na próxima eleição, e o estadista, na próxima geração. Castelo Branco foi um estadista.

(*) nada como distribuir o seu O BISCOITO MOLHADO. Requestar, que parece com o verbo em inglês to request é a mesma coisa: solicitar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

2029 - iluminados

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3859 Data: 06/10/2011

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64 ª VISITA DOS ESCRITORES À MINHA CASA

-Bob Fields, é uma alegria recebê-lo em minha casa.

-Bob Fields... - sorriu.

-Deixando a brincadeira à parte: quem o apelidou tão maldosamente?... Uns dizem que foi o Millor Fernandes, outros, o Sérgio Porto.

-A esquerda nunca chega a uma conclusão mesmo para assuntos simples. - concluiu para, em seguida, responder.

-Em 1958, eu era secretário do Conselho de Planejamento do governo, quando recebi um telefonema da Presidência da República.

-Juscelino Kubitschek lhe telefonou? - interrompi.

-Convocaram-me para uma reunião de emergência. O problema vinha da Bolívia; o Brasil corria o risco de perder concessões na exploração de petróleo lá, porque eles passariam a não admitir mais empresas estatais.

-Há poucos anos os bolivianos invadiram os campos de exploração da Petrobras. A coisa é antiga e não é só com o Brasil.

-Eles se meteram com a poderosa Inglaterra vitoriana. Como as balas de canhão não alcançavam La Paz, por causa da altitude, a Rainha Vitória declarou a inexistência da Bolívia. - enveredou Roberto Campos pela história com um riso irônico.

-E, então, o presidente Juscelino estava com esse problema... - apresentei-lhe o gancho para retornar à narrativa.

-Indiquei o caminho a ser seguido: a Petrobras se associaria a empresas americanas, num contrato de risco e, assim, contornaria o obstáculo. O advogado Nehemias Gueiros, que participava da reunião, para zombar da minha ideia fez a tradução literal do meu nome. Os esquerdistas repercutiram ao infinito o “Bob Fields”. No meu livro de memórias, eu registrei o mal que este apelido me trouxe.

-Um livro de memórias com um título de mestre: “A Lanterna na Popa.”

-Méritos para o grande poeta Samuel Taylor Coleridge, que viveu de 1772 a 1834, e escreveu estes versos:

“Mas a paixão cega nossos olhos,

e a luz que a experiência nos dá é a

de uma lanterna na popa, que ilumina

apenas as ondas que deixamos para trás.”

-Sim, mesmo idoso, a paixão ainda cega nossos olhos. - disse.

-Na página que podemos denominar de epígrafe da sua autobiografia, você cita outro poema.

-Poema de João Cabral de Melo Neto, meu colega de Itamaraty. Cito-o de cor:

“Sempre evitei falar de mim,

falar-me. Quis falar de coisas.

Mas na seleção dessas coisas

não haverá um falar de mim?”

-Entre os dois poemas, estava uma citação de Guimarães Rosa, outro diplomata. - lembrei.

E Roberto Campos reproduziu a frase de “Grandes Sertão: Veredas”:

-”Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa.”

-Quando você fez prova para o Itamaraty?

-Passei no concurso do Itamaraty em dezembro de 1938 na sétima colocação. Senti-me mentalmente humilhado com esse sétimo lugar, pois estava acostumado, desde o seminário, à primeira colocação. Essa frustração foi atenuada quando eu soube que todos os classificados à minha frente eram repetentes do concurso, ao contrário de mim. Julguei ter realizado uma ótima prova de Direito Internacional Privado e tirei nota baixa; com o meu colega, Carlos Alfredo Bernardes, o Lolô, aconteceu exatamente o contrário. Imaginei que houvessem trocado as notas, mas não pedi revisão de prova.

-E eu que dizia que você foi o nono colocado... - confessei.

-Nós, os concursados de 1938, formamos uma turma conhecida como o grupo dos 18 do Forte

-Você saiu da pensão da Rua da Relação e foi para o Butantã da Rua Larga.

-São cobras, mas fingem que são minhocas. - dizia-me de seus colegas o admirável Guimarães Rosa, que depois se tornaria meu escritor preferido.

-E tudo correu bem para vocês do grupo dos 18 do Forte, no início?

-Nada. O presidente Getúlio Vargas nomeou, sem concurso, cerca de 13 novos diplomatas, alguns deles auxiliares de carreira e outros, meros apaniguados políticos.

-O ano de 1938 terminava. - falei em tom de quem divagava.

-Quando cheguei ao Rio, vindo do interior para grande cidade, Getúlio, com a implantação do Estado Novo, em novembro de 1937, completara a sua longa manobra conspiratória em busca do poder ditatorial.

-Alguns acontecimentos recentes ajudaram. - aparteei.

-Com a irrupção do levante comunista em 1935, Vargas obteve apoio militar para o seu projeto de centralização do poder contra o radicalismo de esquerda. O putsch integralista, em maio de 1938, viria dar-lhe azo para reagir ao radicalismo de direita, consolidando, por mais sete anos, sua dominação caudilhista da vida política brasileira.

-E como foi seu começo no Itamaraty, Roberto Campos?

-Pouco depois do meu ingresso, tornou-se secretário-geral o embaixador Maurício Nabuco, filho do grande Joaquim Nabuco. Era um homem de alto estofo moral, mas não herdara o brilho do pai.

- O Brasil de hoje precisa ler as obras de Joaquim Nabuco. O presidente Fernando Henrique Cardoso e o compositor Caetano Veloso andaram divulgando pensamentos do grande brasileiro.

Roberto Campos me ouviu, com atenção e prosseguiu a sua narrativa com o Maurício de Nabuco.

-Ele era, como eu costumava dizer, um perfeccionista do supérfluo. Devolvia ofícios urgentes e complexos, porque o espaçamento de algumas linhas escapara à bitola oficial ou estava mal atada a fita verde-amarela.

-Os perfeccionistas do supérfluo proliferam no serviço público. - declarei com um sorriso de desânimo.

-Mas antes do concurso do Itamaraty, a minha memória guardou algumas histórias da Rua da Relação.

-Conte. - pedi.

-O porteiro alojou-me num quarto com três outros hóspedes. O preço era barato, mas certamente justificado pela penúria das instalações. Éramos quatro no quarto. Um deles tinha uma bizarra combinação de nomes: Aristóteles Lenormand Peroba. Parecia-me extravagante essa combinação de nomes: um grego, um belga e outro tipicamente nativo.

-Não precisa nem dizer que era chamado de Peroba.

-Isso; Peroba foi um ex-piloto do Lloyd Brasileiro transformado em chefe de vendas das Casas Pernambucanas. No meu livro “Lanterna na Popa”, falo da sua triste história de amor.

E continuou com os colegas de quarto.

-O hóspede Flávio era um guarda-civil, cujos padrões éticos eram estritamente função do fluxo de caixa. Dizia ele que o salário até que não era mau; o pior era viver os últimos 29 dias do mês... Em geral, na primeira parte da quinzena, Flávio era um austero policial, cumpridor de seus deveres. Costumava enxotar as bichas da Praça Tiradentes, um tradicional valhacouto dos homossexuais da época. Lembro-me ser frequente objeto de solicitações pecaminosas de bichas que faziam o trottoir entre o Teatro São José, na praça, e o Teatro do Recreio, no fim do beco, onde pontificava Walter Pinto com seus shows, cuja pièce de resistance eram as fabulosas pernas de Virgínia Lane.

-Há mais um hóspede. - cobrei.

-Era o Theófilo. Seu problema era a epilepsia, depois dos ataques, tornava-se violento. Descobri que a récita de trechos da missa em latim o acalmava. Era uma espécie de exorcismo, arte para a qual eu estava sumamente qualificado, pois, no Seminário Católico de Belo Horizonte recebera as ordens menores, inclusive a do exorcistato. Enquanto Theófilo estrebuchava no chão, começava eu o recital litúrgico: - Introibo ad altare Dei. Ele passava a murmurar em resposta: Ad Deum qui laetificat juventutem meam (Ao Senhor Deus, que alegra minha juventude). Acrescentava eu: Judica me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me (Julgue-me Deus, e separa minha causa daquela de gente não santa: protege-me do homem iníquo e doloso). E por aí adiante: Domine exaudi orationem meam... (Senhor, ouve minha oração). Et clamor meus ad te veniat (E a ti chegue meu clamor).

-O som dos versículos atuava como uma forma de hipnose. - encerrou Roberto Campos com essa frase a sua referência ao colega de quarto que sofria de epilepsia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

2031 - Manitou e Flecha Ligeira

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3861 Data: 10 de outubro de 2011

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A CARTA DA LEITORA

“Prendado bebê de outubro:

Desejo-lhe um aniversário abiscoitado. Já havia separado o anexo livro (1) para bombardeá-lo ao ler o BM 3849 (2), coincidência ou premonição? Bebi os 6 volumes (3) ensopados em chá, bebida que odeio e já sabia, desde criancinha, que os amigos são a família que você escolhe. Mesmo assim, louvo o Deresiewicz (4), perpetrou um louvável trabalho para o nosso deleite.

Sua mamãe deve ter visto “Orgulho e Preconceito”, com Laurence Olivier e Greer Garson.(5) Lady Catherine de Bourgh era a Edna May Oliver, indispensável para ser encaixada em todas as velhotas de boca molenga.

Peço vênia para alcandorar seu portentoso vocabulário; usa “garrulice” e “destampatório” (6) enriquecendo os biscoitos-molhadistas leitores.

Ouso sugerir que o BM 3845 embananou a Guerra dos 30 anos com a Guerra das Duas Rosas (7) (tô fora) entre York e Lancaster, tô exorbitando? E no BM 3844, final observação: é “maná” ou “ambrosia”? (8)

Peço vênia para comentar que o Paulo Nogueira Batista Júnior foi pessoa de minha convivência quando ainda era estudante; chamava-o de “lixo atômico” porque o pai era o Grande Manitou (9) da CNEN. Bom menino.

Aproveito as ensanchas oportunosas para questionar se viu “As Grandes Manobras” do René Clair. Aportou à minha bruxuleante memória (não sou eu a “senhora” de 80 anos, citada no BM 3848, tenho apenas 4 vezes 20, e o resto é silêncio (10), reputo-o um dos melhores filmes que vi em longos anos de cinemeira. Inesquecível (11).

Ósculos da gárrula.

R.”

BM: O escritor James Joyce afirmou que Hitler invadiu a Polônia, em 1º de setembro de 1939, porque pretendia desviar a atenção do mundo para o lançamento do seu livro Finnegans Wake. Algo parecido aconteceu comigo: Steve Jobs pediu aos médicos para desligarem os aparelhos justamente na véspera do meu aniversário. Os grandes amigos, no entanto, não esqueceram este dia, como o Dieckmann, que me enviou dois torpedos; o Luca, que ganhou no bicho, mesclando o ano em que nasci com os que vivo; esta carta da Rosa Grieco, que agora transcrevo; e outras manifestações que agradeço genuflexo (como diria a missivista).

Para se responder a Rosa Grieco, tem de ser por parte. Como não consegui enquadrar a sua carta num gráfico cartesiano de ordenada e abscissa, para melhor localizar os assuntos a serem comentados, recorri à velha numeração. Vamos lá.

(1) Rosa Grieco se refere ao presente que me dá, o livro “Aprendi com Jane Austen”.

(2) O Biscoito Molhado 3849 tem como protagonista a ínclita escritora inglesa.

(3) Leitora voraz, a remetente desta carta não deixaria, evidentemente, de ler todos os romances escritos pela Jane Austen, que foram: “A Abadia de Northanger”, “Persuasão”, “Emma”, “Mansfield Park”, “Razão e Sensibilidade”e “Orgulho e Preconceito”.

(4) Trata-se do escritor americano William Deresiewicz, autor do mencionado “Aprendi com Jane Austen”. Ele conta que, aos 26 anos de idade, preparava-se para fazer o doutorado em literatura e, para preencher a lacuna da sua educação literária, lia, Chaucer, Shakespeare, Melville e Milton. O que ele queria, naquela época, era estudar o modernismo: “Joyce, Conrad, Faulkner, Nabokov: obras complexas, difíceis, sofisticadas”. Agora, eu reproduzo uma parte da orelha do livro, e recomendo o corpo inteiro:

“... Mas quando Emma foi escolhida como leitura obrigatória para uma aula que ele cursava, algo de extraordinário aconteceu. Com sofisticadas descrições do dia a dia burguês, em que vidas comuns passam a ter grande valor graças à maneira como as concebia, Jane Austen provocou uma mudança sem precedentes em William Deresiewicz – algo que jamais poderia imaginar. À medida que passou a ver o mundo pelos olhos generosos de Austen, o futuro professor de literatura começou a descobrir que as pessoas que o cercavam eram profundas e complexas como os personagens de um romance. Sua verdadeira educação havia finalmente começado.”

(5) Conta minha mãe que, quando menina, chamada para ir ao cinema, estabelecia as seguintes condições: “Só se for filme do “Calito” ou do “Zé Mujica.” Mocinha, tornou-se fã do Laurence Olivier.

Sobre o filme de 1940, “Orgulho e Preconceito”, dizem que até aqueles que não diferenciam as vestimentas dos períodos georgiano, eduardiano e vitoriano, repararam no figurino equivocado desse filme. Logo, descobririam que houve o reaproveitamento dos trajes de “E o vento levou...”, lançado um ano antes do “Orgulho e Preconceito”. “Economia, economia, Horácio...” - diria Laurence Olivier no papel de Hamlet. O ator que atuou no papel de Darcy, não teve nada a ver com essa batatada histórica, ele não era o figurinista.

Ah, sim, minha mãe viu “Orgulho e Preconceito”, mas o seu filme preferido com Laurence Olivier é “O Morro dos Ventos Uivantes”.

(6) Por que não dizer, uma vez ou outra, gárrulo em vez de tagarela, e destampatório, em vez de esporro?

(7) O fato de “A Guerra das Duas Rosas” ter durado trinta anos não é desculpa para eu perpetrar tamanho erro. “A Guerra dos 30 anos envolveu grande parte da Europa e mexeu com religiosidade e com a rivalidade na família Habsburgo, enquanto “A Guerra das Duas Rosas” foi uma guerra civil inglesa entre a dinastia Lancaster e York, que pretendiam o trono da Inglaterra. A Casa Lancaster tinha como símbolo uma rosa vermelha, e a Casa York uma rosa branca.

E logo eu, que vi Ricardo III de Shakespeare, no cinema com Laurence Olivier, o rei cuja derrota na batalha em que ele trocaria o seu reino por um cavalo, sacramentou o fim dessa Guerra Civil?... Ainda bem que temos uma Rosa que é neutra (nem York, nem Lancaster), para apontar esses equívocos. Obrigado.

(8) Ambrosia é a bebida dos deuses e seria, grosso modo, a palavra exata, mas no contexto do BM 3844, quando são os políticos de Brasília que se manifestam, a palavra maná se aplica melhor, pois, além de sinônimo de ambrosia, no dicionário do Caldas Aulete, também é, no sentido figurado, qualquer coisa vantajosa ou proveitosa obtida sem esforço.

(9) Acredito que desde os 10 anos, quando eu lia os gibis do “Flecha Ligeira” e do “Zorro e Tonto”, que não ouço falar do “Grande Manitou”. Ótimo, pesquisei e soube que “manitu” é uma palavra alconquina que significa espírito.

Não só os alconquinos reverenciavam o “Grande Espírito”, existem referências a essa entidade também entre os Cheyenne e os Sioux.

(10) “... O resto é silêncio”. - frase dita por Hamlet de Shakespeare, ao morrer.

(11) Dos clássicos do cinema francês, eu assisti “A Grande Ilusão” e “A Regra do Jogo” do filho do grande pintor impressionista, Jean Renoir. Sei que “As Grandes Manobras” de René Clair se encontram entre os maiores filmes do cinema – é mais recente, 1955, enquanto os dois citados são do fim da década de 30 – mas, infelizmente, não vi. Espero tapar essa lacuna na primeira oportunidade.

É só.