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terça-feira, 11 de outubro de 2011

2028 - escândalo na família

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3858 Data: 01 de outubro de 2011

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O TAXÍMETRO ESTÁ RODANDO

-Embora seja cedo (quase 4 horas da tarde), o meu trabalho já voltou ao normal. - disse, enquanto entrava no táxi do 014.

Ele sorriu e me esperou fechar a porta para partir.

-Olha este caminhão parado na esquina, tira toda a visão. - reportei-me à época em que dirigia e reclamava dessa irregularidade no trânsito.

-Eles fazem o que querem... - expressou o 014 o seu conformismo.

-Quanto estive na autoescola, aprendi que um carro de passeio deve estacionar a mais de cinco quilômetros... desculpe-me, metros das esquinas e os veículos pesados tem de guardar, no mínimo, quinze metros.

-É bom saber isso. - reagiu desanimadamente.

-Para a prova teórica, na obtenção da carteira de motorista, eu consegui decorar praticamente todo o livrinho. Havia aquelas questões de apitos... eles chamavam de silvos, dos guardas de trânsito.

-Sei...

Tagarela, prossegui:

-Tantos silvos longos e tantos silvos breves representavam siga, outros tantos longos e breves representavam para... E por aí a coisa seguia silvando. Acontece que nem os próprios guardas sabem disso.

-Não sabem mesmo não. - concordou.

-Eu fui para a prova prática conhecendo tudo isso, sabendo que para entrar à esquerda, numa curva, você tem de abrir para entrar na sua pista, o que quase ninguém faz, quando dirige.

-A gente, ao dobrar uma esquina à esquerda, fica mais atento para não bater no carro que vem em direção contrária. - animou-se o 014 com o assunto.

-Nessa tal prova teórica, um senhor bonachão do DETRAN, que colocaram como vigilante, resolveu dar cola para os alunos. Ele lia a questão e a resposta que dava era errada.

Como o taxista ria muito, fiz uma ressalva:

-Ele não estava sendo ardiloso, respondia errado por falta de conhecimento, mesmo. Posso afirmar isso porque, repetindo, eu decorei as questões todas, praticamente.

-Então, você saiu com a carteira dirigindo que era uma beleza?

-Não é piada, falo com toda sinceridade: à proporção que eu esquecia a parte prática, eu melhorava na parte teórica.

-Modigliani. – avisou, depois de dobrar na Rua Sisley e parar no segundo poste.

No dia subsequente, a corrida se deu no táxi do Botafoguense. Como ele começou uma jeremiada, advinda de uma derrota sofrida pelo Botafogo, mudei de assunto antes da primeira curva.

-Soube que o Machado retornou...

-Graças a Deus.

-A mulher pagou?... - mostrei curiosidade.

-Não sei. Ela começou com uns empecilhos, mas parece que o seguro pagou, ainda assim, o prejuízo do Machado foi grande.

-Eu soube que ele estava parado, a mulher bateu com o carro no dele, chegando o táxi do Machado a capotar.

-Capotou.

-Um carro novo, um colega seu até pedia para o Machado não colocar penduricalhos no táxi, como fazia com o antigo.

-E não é isso... O Machado, como nordestino, não aparenta a idade que tem, ele passa dos 70 anos, não pode passar por essas emoções.

-Ele é pernambucano.

-Pernambucano?!... Eu julgava que ele fosse da Paraíba. - surpreendeu-se.

-Bem, um colega meu, de muitos anos, viajou do lado do Machado, na ambulância do Procardil, até Araruama e os dois conversaram bastante. Machado lhe revelou, então, que nasceu em Pernambuco.

-O Machado gosta de falar!- observou o Botafoguense com um sorriso.

-Se colocarem no papel o que ele fala do Cachambi a Araruama, dá um livro. - afirmei pensando nas muitas crônicas que ele me inspirara.

-Machado gosta mesmo é de jogar no bicho. - disse o Botafoguense.

-E esse meu amigo, que foi com ele, na ambulância, para a remoção de uma amiga e parente que sofrera um desastre de carro, também gosta.

-Então, ele e o Machado jogaram no milhar da placa do carro acidentado. - concluiu o Botafoguense já na Rua Modigliani.

-Voltou ao horário normal?- era o Dedão do Arqueiro Inglês, o 017, quando me viu no seu táxi depois das quatro e meia da tarde.

-Aqueles retornos com os trens do metrô com menos pessoas acabaram, embora eu sempre viajasse na ida como sardinha em lata.

-Eu ia lhe perguntar, justamente, como está o metrô?

-O pico de descaso com as pessoas ocorreu na transição do metrô Estácio-Pavuna, sem aquela maldita baldeação na estação do Estácio.

-Tenho notado que meus passageiros têm reclamado menos.

-Vale o sacrifício pelo tempo, de Del Castilho a Carioca são uns vinte minutos no relógio, e pelas conversas dos passageiros que me chegam aos ouvidos...

-Não tem como não escutar. - disse ele.

-Com todo mundo grudado, parece que na hora do rush viajam nove passageiros por metro quadrado, não há como fugir. Escuto muitas besteiras, mas as piores são aquelas ditas no celular.

-Quem fala no celular é mais burro?- indagou inocentemente.

-É mais irritante, porque expõe a sua privacidade, geralmente, falando alto. - expliquei.

-Ontem mesmo, fui obrigado a ouvir uma dessas musiquinhas de ritmo bate-estaca porque o imbecil do aparelhinho esqueceu o fone de ouvido.

-Nada se aproveita do metrô. - deduziu o dedão do Arqueiro Inglês.

-Às vezes se aproveita... falei, enquanto titubeava: conto ou não conto o que presenciei na semana passada. Como ele pisava com suavidade o acelerador, resolvi contar.

-Uns cinco dias atrás, tive que ficar mais espremido no trem do metrô porque entraram dois estudantes uniformizados na estação de Maria da Graça. Com uma cara que não passava dos dezesseis anos, ela usava a bainha da saia acima do joelho, nada que fosse escandaloso. Com mais idade e cuidando-se, será uma mulher atraente, mas já era bonita. Conversavam os dois sobre o comportamento de amigos comuns. Ouvi alguma coisa e, depois, tentei me abstrair do lugar onde eu estava. De repente, uma frase da mocinha despertou a minha atenção. Disse ela exatamente isto: “Mulher é sinônimo de dinheiro: relaxe e prepare-se para gastar”.

-Como elas estão?!...- reagiu o Dedão do Arqueiro Inglês com perplexidade.

Não lhe disse que anotara tal frase logo que me vi com liberdade para pegar na minha mochila papel e esferográfica na plataforma da estação da Carioca.

-Eles eram namorados?

-Grande parte da viagem até São Cristóvão, onde saltaram, ela colocou o braço no ombro dele, mas eu acredito que o gesto era de amizade e não de namoro. Eu imagino que ele tenha dito a ela que pretendia namorar alguém, e recebeu, então, esse conselho.

-Vai ter de gastar... - riu o taxista.

Como já estávamos na Modigliani, deixei para outra oportunidade o que vira recentemente no metrô: duas passageiras amando-se apaixonadamente no meio de um vagão superlotado.


Shame And Scandal
Peter Tosh

Who is real?
Shame and scandal in the family
Who is real?
Shame and scandal in the family

In Trinidad there was a family
with much confusion as you will see
it was a momma and a papa and a boy who was grown
wanted to marry a wife of his own
found a young girl suited him nice
went to his papa to ask his advice
his papa said: "Son, I have to say no,
that girl is your sister, but your momma don't know"

Who is real?
Shame and scandal in the family
Who is real?
Shame and scandal in the family

A week went by and the summer came down
soon the best cook in the island he found
he went to his papa to make a day
his papa shook his head and to him he did say
"Can't marry that girl I have to say no
that girl is your sister, but your momma don't know"

Who is real?
Shame and scandal in the family
Who is real?
Shame and scandal in the family

Went to his momma and covered his head
and told his momma what his papa had said
his momma she laughed, she says: "Go man, go
your daddy ain`t your daddy, but your daddy don't know

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

2027 - ponderações sobre o imponderável

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3857 Data: 01 de outubro de 2011

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PREMIAÇÕES INUSITADAS

Eu conhecia a paródia do Oscar, “A Framboesa de Ouro”, que premia os piores artistas do ano com a citada fruta de plástico estilizada sobre um filme Super 8 pintado de tinta dourada, com valor aproximado de US$ 4,97. Agora, tomo conhecimento de uma paródia do Prêmio Nobel, trata-se do IG Nobel.

O Ig Nobel de 2011 de Medicina foi para os entomologistas Darryl Gwynne e David Rentz pelos estudos que realizaram sobre os efeitos nocivos no organismo por segurar o xixi.

No último ano em que brinquei carnaval – 1970, no salão do Vasco da Gama, em São Cristóvão – fui alertado a 100 metros de distância pelo meu olfato que os banheiros de lá estavam bastante fedegosos, contive, então, a minha urina na bexiga de uma da manhã até às quatro. Mesmo não tendo bebido cerveja, na ocasião, eu seria uma boa cobaia para esses dois entomologistas. No carnaval deste ano de 2011, o prefeito Eduardo Paes ordenou a prisão dos mijões que evitavam os banheiros químicos. Minha Nossa, os banheiros químicos cheiram tão mal quanto a consciência do José Sarney!... Nos dias subsequentes ao carnaval, apareceu a reação dos foliões na internet:

-”Deixem-me mijar em Paes.”

Li, certa vez, uma entrevista do Nélson Piquet em que ele revela que, tomado por uma necessidade sobre-humana de urinar, no meio de uma corrida de Fórmula 1, não titubeou: liberou a urina sem tirar o pé do acelerador, voltando à época em que engatinhava pela casa com as fraldas molhadas.

O Ig Nobel de Química foi para o japonês que criou um alarme a partir do tempero de wasabi. Trata-se de uma invenção tão bizarra que eu não tenho comentários a fazer, além disso, os meus conhecimentos da culinária japonesa não vão além do sushi e do sashimi.

Pesquisas que esclarecem porque os arremessadores de discos nas olimpíadas ficam sonsos e os de martelo não, resultaram no Ig Nobel de Física de 2011. Pena que os nomes dos pesquisadores não tenham sido informados. Foram Bouvard e Pécouchet?... Não, eles morreram há muito tempo. Informam que a universidade onde ocorreram tais estudos é conceituada, mas o seu nome não é revelado também. De qualquer maneira, eu entendo, agora, porque o ex-presidente Lula tem recebido tantos títulos honoris causa no exterior.

O vencedor do Ig Nobel de Psicologia de 2011 foi Karl Halvor Teigen. Este cientista realizou acuradas observações na tentativa de desvendar o porquê de as pessoas suspirarem. Em 2012, ele deve chegar a uma conclusão e, com toda certeza, faturará o prêmio pela segunda vez.

Eu, particularmente, tenho uma colega de trabalho, terceirizada, que vive bufando. Certa vez, perguntaram-lhe se os elevadores enguiçaram, e ela subiu a pé os onze andares de escada. A tal colega não precisava de psicólogos, com prêmios ou não, para diagnosticar a razão de bufar tanto: atraso no pagamento do salário.

Os cientistas que previram o fim do mundo foram brindados com o Ig Nobel de Matemática de 2011. Ora, o fim do mundo é assunto para profissionais, ou seja, cartomantes, jogadores de búzios, leitores de Nostradamus e não amadores, como os matemáticos. Todos os espectadores do History Channel sabem que o mundo acabou há muito tempo.

Pertenceu ao prefeito de Vilnius, capital da Lituânia, Arturas Zuokas, o Ig Nobel da Paz de 2011 por ter conseguido resolver o problema dos carros estacionados em lugar proibido: ele ordenou que tanques de guerra passassem sobre eles.

Desde aquele político que resolveu o problema da mendicância, segundo a oposição, jogando os mendigos no rio, alguém não tinha um lampejo tão genial.

O 1º prêmio de um concurso bizarro foi para os pesquisadores de uma universidade canadense que registraram a tentativa de sexo entre um besouro e uma garrafa. Os besouros desafiam as leis da aerodinâmica e voam, eis que, agora, apareceu um que queria desafiar a natureza sexual. De tanto tentar convencer a garrafa a arriar a tampinha, o besouro morreu, segundo os pesquisadores, ou “voyeurs”, dessa universidade do Canadá.

Os leitores do Biscoito Molhado que, como eu, não possuem memória seletiva, lembram-se, certamente, de uma notícia jornalística no fim dos anos 80: um adolescente, com a testosterona em ebulição nas veias, numa piscina, introduziu a sua anatomia mais íntima num orifício do concreto. Não conseguiu retirá-la e os bombeiros foram convocados. Ele não morreu, como o besouro, mas não informaram se essa experiência deixou sequelas.

Sem mais informações sobre a paródia do Prêmio Nobel, retornemos ao “Framboesa de Ouro”.

Nós registramos no início desta edição, que os artistas de cinema são anualmente consagrados com o “Framboesa de Ouro”, mas houve exceções; a Sofia Copolla, por exemplo, foi considerada a pior atriz do século pela sua atuação em “O Poderoso Chefão III”.

-A melhor coisa d' “O Poderoso Chefão III” foi a morte da Sofia Copolla, pois, assim, estamos livres dela n' “O Poderoso Chefão IV” - disse-me o Labruna, um colega de trabalho do fim dos anos 80 e início dos anos 90.

Poucos anos depois, foi descoberto em que área das artes se encontrava o seu talento e Sofia Copolla se destacou como grande diretora.

O “Framboesa de Ouro” comete, de uma maneira geral, menos injustiças do que o badalado “Oscar” da Academia de Hollywood. Sylvester Stallone, neste caso, recebeu 20 indicações e foi obsequiado com 10 prêmios de pior ator principal e coadjuvante. Como a Sofia Coppola, foi considerado o pior ator do século e também da década de 80.

Outros atores lembrados: Burt Reynolds com 9 indicações e 1 prêmio, Arnold Schwarzenegger com 8 indicações, enfim, a disputa entre os piores atores é acirradíssima.

Na categoria atriz principal, Madonna reina absoluta: 12 indicações e 8 prêmios. Já lhe dedicaram a “Framboesa de Ouro” de atriz principal, de atriz coadjuvante, e também de pior atriz do século. (Creio que do século XXI, pois a filhota do Francis Ford Coppola foi a pior do século XX.

Angelina Jolie já recebeu 7 indicações de pior entre as piores, mas não a brindaram, porém, com o prêmio. Uma injustiça, pois no “Alexandre” de Oliver Stone, ela fez por merecer. Há uma cena de caras e bocas em que ela contracena com o filho, exibindo seus lábios carnudos, em que está imbatível.

Quanto aos piores filmes, lá estão “Rambo”, “A Saga Crepúsculo”, “Showgirl”, “Striptease”, mas se esqueceram de muitos outros.

Se houvesse uma “Framboesa de Ouro” para o pior filme estrangeiro, certamente “Lula, o filho do Brasil” seria imbatível, nem os lulistas que eu conheço foram assistir.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

2026 - Revista do Rádio

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3856 Data: 30 de setembro de 2011

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SABADOIDO: DEPOIS DO ZÉ PERI, O BERLUSCONI

-De repente, o delírio da Rosa Grieco se realizou: o primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, apareceu no Sabadoido.

-Berlusconi, o que você pensa da Angela Merkel?- provocou meu irmão.

-É bunduda, mas não é comível.

-O senhor não fala isso porque tem inveja da riqueza da Alemanha?- retrucou a Gina, que chegava das compras.

-Ora, eu sou dono do Milan; tenho dinheiro para promover festas com dez prostitutas para cada homem, embora eu só consiga satisfazer oito por noite...

-E a Itália?- foi a vez de o Luca provocar.

-É um país de merda. - respondeu.

-Desde o Luís Xalulu que não aparece uma figura tão bizarra no Sabadoido. - cochichei no ouvido do Vagner.

-Chame o Daniel para conhecer o Silvio Berlusconi. - pediu o Cláudio à Gina.

-Não, porque daqui a pouco, ele estará me imitando. - reagiu o primeiro-ministro da Itália.

-A fama do Daniel de imitador já chegou à Itália? - expressei a minha perplexidade.

-Sim, muitos jogadores brasileiros levam as novidades daqui para lá.

-Você acha que o Pato, namorando a sua filha, não pensa em dar o golpe do baú?- maldou a Gina.

-O Pato faz sucesso internacional, mesmo com aquele cantor brasileiro que não tem voz, o João Gilberto. - pilheriou o iminente sogro do atacante brasileiro.

-O senhor gosta do Brasil?- perguntou o Luca.

-Bem, se eu assassinar umas quatro pessoas na Itália, é claro que fugirei para o Brasil.

E tudo se desfez; a imaginação delirante da Rosa Grieco, que se transmudara na minha, se foi com o Silvio Berlusconi.

-O Reinaldo ficou encantado com o Biscoito Molhado do Carlos Alberto, mas eu lhe disse que o Carlinhos inventa. - quebrou Luca o silêncio.

Antes de prosseguirmos, um esclarecimento para aqueles que recebem este periódico do Dieckmann: Carlos Alberto é o Carlos Átila da edição dos “Três Momentos do Carlos Átila”.

Ao ouvir as palavras do Luca, retruquei:

-Alto lá: o Cláudio está aqui para confirmar o esporro que ele deu no Cabrita, por ter colocado o bibico sobre o ombro e os outros dois casos podem ser confirmados por moradores da Rua Estêvão Silva.

-Esse Carlos Alberto era do CPOR e andou atrás de mim. - revelou a Gina.

Meu irmão fingiu um ciúme requentado:

-Como você ousou?!...

-E muita gente viu o Pantera enfurecido porque o Carlos Alberto o ameaçou com a prisão.- enfatizei.

-Pantera não era de nada.

-Gina, comparado com aquele oficialzinho do CPOR, ele era fortíssimo.

-Eu, ao contrário de muitos, gosto do cinema brasileiro e vou assistir ao filme sobre a Rádio Nacional. - mudou o Luca de assunto.

Vagner e Cláudio se limitaram a balançar a cabeça, enquanto a Gina se retirava para cozinha, e o Luca prosseguia:

-O Peri Ribeiro, que vivia na Rádio Nacional, por causa dos pais dele, afirma que nunca viu o Roberto Carlos lá e, no entanto, o colocaram como uma das personalidades da Rádio.

-Se eu não me engano, Roberto Carlos foi lançado pelo Chacrinha. - manifestei-me.

-Qual é mesmo o prefixo da Rádio Nacional?

-1130. - dirimiu o Cláudio a dúvida do Luca.

-Durante muito tempo, a Rádio Nacional foi o maior veículo de divulgação do Brasil.

-Da América Latina.

-E não foram anos e sim, décadas, dos anos 40 até 1965, mais ou menos. Sim, Carlinhos, da América Latina. O Boni, da TV Globo, aprendeu muito lá. - entusiasmou-se o Luca com as lembranças da era radiofônica.

-Alguém se lembra das estações de rádio? - indagou.

E os nomes brotavam da nossa memória:

-Rádios Vera Cruz, Guanabara, Tamoio, Metropolitana, Continental, Mauá, Mayrink Veiga, Mundial, Rio de Janeiro, Imprensa, Globo, Roquette Pinto, Ministério da Educação, Jornal do Brasil, Nacional...

Resumindo: só esquecemos a Rádio Relógio.

-Alguém pode citar três programas da Rádio Mayrink Veiga?

-”Vai da Valsa”. -eu disse de batepronto.

Notei que o Luca não esperava por essa resposta, mas meu pai tinha preferência pela programação humorística, depois de um dia de trabalho, e, por isso, ele não perdia o programa citado além de “A Cidade se diverte”, da emissora mencionada.

-”Peça bis pelo telefone.”- citou meu irmão.

-Claudiomiro, todo o mundo ouvia, não é? Um programa do Jair de Taumaturgo.

-E Isaac Zeltman.

-Muito bem lembrado, Carlinhos. Eis um nome que está no esquecimento, mas que, na época, era faladíssimo.

-Ele apresentava o “Peça bis pelo telefone”. - acrescentou meu irmão.

-Havia um programa vespertino na Rádio Tamoio em que o Johnny Matthis sempre tirava o primeiro lugar. - lancei a dúvida.

-”Músicas na Passarela”. - disse o Cláudio.

-O Carlinhos se lembrou da Rádio Metropolitana. - interveio o Vagner.

-Lembrei-me por causa das “Melodias da Broadway” das quartas-feiras.

-Quem era aquele apresentador que fazia muitas versões, Claudiomiro?

-José Messias. Versões eram com José Messias e Rossini Pinto.

-Isso, Claudiomiro.

-Citei, então, algumas das grandes vozes de locutores juntamente com o Luca e o Cláudio.

-Para mim, Majestade, da Rádio Jornal do Brasil estava acima de todos.

-Prefiro Luís Jatobá.

Notei que a preferência do meu irmão era motivada pela sua queda pela polêmica, se eu citasse o Luís Jatobá, ele preferiria o Majestade. Na verdade, a maioria considera o apresentador do programa “Pergunte ao João”, Majestade, da Jornal do Brasil, como o primeiro, entre os locutores, por causa da sua voz possante e aveludada, além da sua dicção exemplar.

-O cinema está muito caro. - foi a vez de o Cláudio mudar de assunto intempestivamente.

E prosseguiu:

-Nos tempos passados, o cinema era bem mais barato.

-Também, eu lhe dava uma boa mesada. - reportei-me ao maluco do Zé Peri, que me julgara o pai do meu irmão quando cheguei.

-Era mais barato, sim. - concordou o Vagner.

-Nós não éramos endinheirados, quando garotos, pelo contrário, mas sempre assistíamos aos dois filmes por semana que levava no Cine Cachambi.

-E quando havia festival de filmes, um por dia, nós víamos todos. - reforcei as observações do meu irmão.

-A minha memória é péssima para cinema. - lamentou o Luca.

-A minha é horrível para fisionomia e lugares. - consolei-o.

-O último filme que vi, com a minha mãe, foi “Marcelino, pão e vinho”. - falou o Luca como se esta fosse a sua única reminiscência cinematográfica.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

2025 - Robin Hood vai à luta

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3855 Data: 28 de setembro de 2011

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CARTAS DE LEITORES

- Li, algures, em edição do Biscoito Molhado, que o Padre Perereca integrou o grupo de redatores do “Revérbero” e que Frei Caneca também foi articulista. Os senhores poderiam se inspirar no jornalista Alberto Dines e escrever um texto que nos lembre o “Observatório da Imprensa”? – Carlos.

BM: Será difícil, xará, pois quando pisamos o chão de um órgão informativo, em 1977, no caso o “Jornal do Brasil”, Alberto Dines era considerado o gênio do jornalismo a ser reverenciado. Mas, vamos lá.

Com o fim da censura prévia no Brasil, em 1821, reflexo da Revolução Liberal do Porto, um ano antes, cresceu o número de publicações no Brasil. Houve, na verdade, um verdadeiro surto de pequenos jornais, consequência do clima político que exacerbou a militância das elites e de alguns setores da classe média urbana.

Nos meses que antecederam a independência do Brasil, além de periódicos, proliferaram vários tipos de impressos: panfletos, manifestos, proclamações, etc. No início, discutia-se sobre a posição do imperador diante das exigências dos liberais portugueses. O interesse maior, para nós, era reforçar o papel do Brasil no reino português. Com a posição dos portugueses se tornando cada vez mais extremada, o tom se elevou e os debates se tornaram acirrados. O tema da independência se tornou mais manifesto e a imprensa cumpriu atuação de suma importância.

No contexto da independência do Brasil, deve ser destacado “O Espelho”, jornal fundado em outubro de 1821 por Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, o mesmo que participara da redação da “Gazeta do Rio de Janeiro”, de 1812 a 1821, e de “O Patriota”, de 1813. Como esses jornais, “O Espelho” defendia abertamente os interesses do Imperador que, oculto por pseudônimos, escreveu muitas vezes artigos em que sobressaía a linguagem grosseira, com palavrões e termos de baixo calão.

Chegamos, agora, ao “Revérbero”, do Padre Perereca. Era “Revérbero”, o periódico emblemático dessa época, por assumir posições contrárias às dos jornais do Visconde de Cairu, a “O Espelho” e a “O Patriota”. O “Revérbero” surgiu em 15 de setembro de 1821 e teve como redatores Joaquim Gonçalves Ledo, Januário da Cunha Barbosa e, é claro, o Padre Perereca. Extinguiu-se no exemplar de número 48, logo após a declaração de independência, em 8 de outubro de 1822, quando seus redatores se viram forçados a abandonar o país. Perereca ficou.

Mesmo com o Brasil independente, o jornalismo era uma profissão perigosa. Os irmãos Andrada fundaram “O Tamoio”, em 1823. O nome era uma homenagem aos índios que se aliaram a Villegaignon contra os portugueses. Fazia oposição ao Imperador Dom Pedro I e, por isso, com o fechamento da Assembleia Constituinte, foi extinto. Os irmãos Andrada foram presos.

“A Malagueta” foi outro jornal liberal importante. Seu redator e diretor, o português Luiz Augusto May, por publicar artigos panfletários de oposição, sofreu vários atentados e, em um deles, ficou aleijado da mão esquerda.

Chegamos agora a Frei Caneca. Ele fundou um órgão de muita evidência na imprensa, “O Tífis Pernambucano”, em 15 de janeiro de 1823. Frei Caneca lutou pela independência, pela abolição da escravatura e por uma Constituição liberal. Participou da Revolução Pernambucana, em 1817, e ficou por quatro anos preso. Por ter sido um dos principais líderes da Confederação do Equador, foi condenado à forca e, como todos os carrascos se recusaram a enforcá-lo, foi fuzilado em 15 de janeiro de 1825.

- Sobre a edição do Biscoito Molhado, sobre os apelidos, gostaria de saber se os membros desta equipe são dados a apelidar as pessoas. - Jair Marinho.

BM: Bem, o nosso distribuidor apelidou o redator de “Biscoito”, e apenas ele o chama assim, além de o próprio apelidado, quando se identifica para o mesmo autor da gracinha. O nosso revisor apelidou a si mesmo (*) de “Causídico Verborrágico”, porque tem consciência de sua ojeriza pela concisão. Ele, sem pestanejar, troca uma imagem por mil palavras. Apesar disso, o apelido não grudou, mas é lembrado de vez em quando.

Quanto ao redator, ele revela, com uma ponta de orgulho, que obteve sucesso nessa prática, quando, no início da década de oitenta, colocou a alcunha de “Chichisbéu” em pretenso conquistador de corações femininos do Departamento Nacional de Marinha Mercante, aqui no Rio.

Ele, digo, eu estava lendo a biografia de Balzac, de Stefan Zweig, traduzida para o Português de Portugal, quando me deparei com a seguinte frase: “Balzac gastava como um chichisbéu”. Consultado o Caldas Aulete, descobri que chichisbéu significa galanteador inoportuno. Ora, ninguém era mais galanteador inoportuno do que o tal conquistador, que sobrevoava colegas de trabalho como moscas fazem com doces de padaria. Pela sonoridade cômica da palavra, o apelido pegou.

O que é Tífis? - Pergunta presumível de um leitor

BM: Tífis, que se grafava Typhis, no Português de antigamente, é um personagem da mitologia grega. Discípulo da deusa Atená (“Palas Atena”), foi piloto do navio construído por Argos, participando, portanto, da perigosa saga dos argonautas, em busca do Velocino de Ouro. Frei Caneca, com esse nome em seu jornal, quis chamar a ousadia dos argonautas para Pernambuco do início do século passado.

- Lampião foi apenas um rifle que nunca se apagava nos confrontos com os “macacos” (soldados e policiais, inimigos dos cangaceiros), como deduzi de uma leitura do Biscoito Molhado? - João Carlos.

BM: Ele foi mais que isso. Lampião organizou um bando de cerca de cinquenta pessoas, formado por homens e mulheres e percorreu sete estados da região nordestina. Como tinha sido almocreve, possuía razoável conhecimento dos caminhos ínvios.

Lampião e seu bando de cangaceiros invadiam cidades, lugarejos e fazendas e, se contrariado, revidava com estupros, matanças de pessoas e animais, além de atos de piromania, como incêndio em lavouras. Para muitos, ele nem precisava ser contrariado para cometer tais crimes.

Como Lampião se tornou uma lenda, havia também aqueles que romantizavam suas vilanias, garantindo que ele organizava festas nos lugares invadidos e ainda dava esmolas, chamando-o de “Robin Hood dos pobres”. (**)

Há indícios de que o governo de Artur Bernardes negociou com Lampião, em 1926, para que ele lutasse contra os tenentes revoltosos da Coluna Prestes, oferecendo-lhe armas e outros recursos bélicos. Uma versão, que complementa esta, conta que Lampião foi convidado, através da intermediação do Padre Cícero, a colaborar com o governo, na época da marcha da Coluna Prestes, recebendo, em troca, a oferta da patente de capitão.

- Mas logo meu padim Padre Cícero!... - diria Zeca Diabo.

- Jânio Quadros não disse apenas aquela frase sobre a intimidade, citada pelo Biscoito Molhado, dia desses. Além de frasista, ele era bom polemista. - Edmilson.

BM: É verdade, Edmilson. Certa vez, em um debate, alguém disse para o Jânio que ele poderia falar à vontade, pois entraria por um ouvido e sairia pelo outro. E Jânio retrucou:

“- É mentira, pois o som não se propaga no vácuo...”

(*) Não é fato. O grupo webboteco de batepapo via e-mail, formado por ex-alunos do Colégio Militar dos anos 61-67 (escamoteia-se o século por conveniência) foi quem alcunhou o Elio. Ele chegou a um webboteco já em andamento e logo chocou os habituais frequentadores com mensagens de 380 linhas, em série, como se fosse um serial e-mailer.

A alcunha Causídico Verborrágico foi imediata, pois com a periculosidade inerente à figura, a sociedade buscava identificação chula para se proteger, como foi feito com o Cara-de-Cavalo, com o Mineirinho e com o Ricardo Teixeira.

Sabemos que Ricardo Teixeira é também nome de batismo, mas virou vocativo de malfeitores.

(**) para o distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO não existe Robin Hood dos ricos e nem o dos remediados.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

2024 - chega de saudade

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3854 Data: 26 de setembro de 2011

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O SABADOIDO COM O PERI, MAS SEM A CECI

PARTE II

-De quando é “Luzes da Cidade”?

-1926. - respondi ao Daniel e acrescentei:

-Seu avô Amaury tinha 10 anos de idade e dizia que riu muito com Carlitos como o pai dele. Eu e Cláudio rimos e você também, ou seja, quatro gerações e, assim, em muitas famílias. Carlitos criou uma dinastia de fãs.

-Nos “Tempos Modernos”, ele faz uma gozação ao cinema falado com uma canção de palavras desconexas. O filme é, principalmente, uma crítica à produção em série, ao Fordismo.

-Nessa fita, atua a Paulette Goddard. - lembrou o Cláudio.

-George Gershwin foi apaixonado por ela.

-Ele tinha bom gosto, Carlinhos.

-Você viu a homenagem que a TV Globo prestou a Charles Chaplin um ou dois dias depois da sua morte?- perguntei.

-Não.

-Foi um dos momentos mais elevados da história da nossa televisão que merecia ser reprisado uma vez por ano, pelo menos. Nessa homenagem, cenas de filmes do Carlitos são exibidas, enquanto o Chico Anísio diz de cor um emocionante texto.

-Quem escreveu?

-Não sei, Cláudio, só posso dizer que o redator estava num momento de elevada inspiração. Há ali uma afirmativa que não é leviana: “Desde Shakespeare que não aparecia, na Inglaterra, um artista como Charles Chaplin.”

-Não sei... - titubeou meu irmão.

-Um era mais autor do que ator, e o outro mais ator do que autor.

E encerrei buscando a cumplicidade do meu sobrinho:

-Não é, Daniel?

-Se você diz, Carlão...

-Já me colocaram como pai do meu irmão e, consequentemente, como seu avô, você tem de concordar comigo.

-Já concordei. - brincou.

-Carlinhos, eu lhe falei sobre um filme mudo com a Edna Purviance, que o Charles Chaplin dirigiu, mas não atuou. Você descobriu qual é o nome?

-Cláudio, confesso que não conheço filme mudo algum do Carlitos em que ele não tenha feito quase tudo.

-Mas há um em que ele não foi o ator, procure saber. - insistiu.

Ao perceber que o Daniel ia sair da cozinha, pedi que não se esquecesse de franquear-me seu computador por alguns minutos. Nesse ínterim, meu irmão foi para a frente da casa.

Só, no computador, procurei as novidades culinárias do Fred Dieckmann, e como estava se saindo o seu pai com uma “câmera na mão e uma comida na cabeça”. Depois, acessei as piadas do José Simão, com o Ricardo Boechat, Mengali e Tatiana Vasconcelos na claque. Salvou-se com méritos uma anedota sobre o Sarney.

Dizia Deus: “Ainda bem que não existia o Sarney quando eu criei o paraíso.”

-E quem o Senhor pensa que indicou a serpente? - perguntaram.

Fui interrompido pelo chamado insistente do telefone. Como os moradores da casa não davam sinal de vida, fui até a sala e atendi. Ouvi, então, um ruído que parecia saído da imaginação de um compositor de música contemporânea. Com o telefone na mão, procurei um tradutor. Encontrei meu sobrinho estendido na rede.

-Daniel, ligaram para cá.

Com o telefone no ouvido, ele logo identificou o Vagner. Voltei, em seguida, para o computador.

Encantando com os slides da cidade natal de Mozart, ouvi vozes que anunciavam a chegada do Vagner juntamente com a do Luca. Existiam ainda muitas mensagens eletrônicas para eu pôr em dia, por isso, retardei a minha entrada na sessão do Sabadoido.

Uns vinte minutos depois, eu caminhava para lá:

-Quem compôs o arranjo de “Chega de Saudade”?

-Tom Jobim. - respondi sem pestanejar.

-Na “Veja Rio”, colocaram Tom Jobim e João Gilberto como arranjadores. - assinalou o Luca.

Bullshit! - como dizem os americanos.

E pus-me a tagarelar:

-Vinícius de Moraes conta que Tom Jobim apresentou-lhe uma partitura dizendo que compusera uma coisa engraçada...

-Eu não estou dizendo que foi o Vinícius, e sim o João Gilberto... - atropelou-me o Luca.

-Espera lá! Na biografia do Vinícius de Moraes, escrita pelo irmão do Toquinho, eu li o depoimento dele sobre a música que deu a partida na Bossa Nova. Vinícius, que escrevia uma letra de canção com incrível rapidez, confessa ao biógrafo dele, que levou quinze dias para criar uma letra para “Chega de Saudade”, pois havia alternâncias de tom maior e menor, dissonâncias, acordes. Quando o João Gilberto tomou conhecimento “enlouqueceu”, segundo o Vinícius. O arranjo, com aquela introdução que é uma homenagem ao choro, é da autoria de Antonio Carlos Jobim, João Gilberto entrou com a batida.

Insistente, Luca telefonou para a filha e pediu que ela lesse o polêmico trecho da “Veja Rio”. Enquanto a Carolina procurava a revista, a Kiara pegou o telefone e encomendou alguns pedidos ao avô.

-Lê-se muita besteira por aí; temos de filtrar no cérebro o que entra pelos nossos olhos. - comentei com o Vagner, enquanto a atenção do Luca convergia para as palavras da revista, reproduzidas pela filha.

Meu irmão, confessando-se polemista, caricaturou o canto sussurrado do incensado artista baiano e fez todos rirem. Luca, depois desse momento de descontração, voltou à carga. Pediu a presença do Daniel.

-Recebi o seu e-mail do jogo de ping-pong.

Assim, o meu sobrinho se apresentou ao Luca, no Sabadoido, para, em seguida, imitá-lo:

-Eu joguei muito... Eu estava endiabraaaado.

-Daniel, você conhece os parceiros do Cazuza?

-Não sou de ouvir as músicas do Cazuza, mas o Frejat foi o parceiro dele mais conhecido.

-Você pode ver na internet se há composições do Cazuza com a Bebel Gilberto, filha do João Gilberto?

-E sobrinha do Chiiiiiico. - gozou meu irmão.

Eu pegava o rescaldo de temas que foram levantados no início da sessão do Sabadoido, enquanto me entretinha com a caixa de correspondência do computador. Assim, peguei uma frase do Luca pela metade:

- Foi o grande amor da vida dele.

-Ah, sim, a filha foi o grande amor da vida do Carlos Drummond de Andrade. - reportei-me a uma matéria de página inteira do 2º caderno do Globo, naquela semana.

-Eu dizia que o Ney Mato Grosso foi o grande amor do Cazuza. Quanto ao Drummond, as mentes sujas vieram com a história de incesto.

-Ele tinha todo o direito de gostar da filha como gostou. - concordei.

-Drummond não impediu que ela fosse embora para a Argentina junto daquele sujeito com quem ela se casou. - argumentou o Luca.

-Com a idade avançada, já tendo sofrido um ataque cardíaco, nada mais natural que morresse dias depois do enterro da filha. - reforcei sua argumentação.

-Cazuza compôs, sim, umas canções com Bebel Gilberto.

Ao ouvir as palavras do Daniel, que retornava, Luca se voltou para o meu irmão:

-Pois é, Claudiomiro, há umas coisas por aí que nós não sabíamos.

Neste exato momento, a Gina chegava das compras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

2023 - figuras de infância

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3853 Data: 24 de setembro de 2011

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SABADOIDO COM PERI, MAS SEM CECI

Subi no pequeno anteparo em frente ao portão da casa, vislumbrei o vulto da Gina varrendo e ia chamá-la quando, atrás de mim, alguém me aborda:

- Você é o pai do Cláudio?

- Eu, pai do Cláudio?!...

Se o Mano Menezes me convocasse para a seleção brasileira de futebol, eu não ficaria mais surpreso.

- Você é muito parecido com ele.

Com ele quem? O Cláudio ou seu pai?

Não fiz, porém, essa pergunta, pois o atropelo das palavras que saíam daquela boca indicava uma mente confusa.

- Eu sou o Peri.

Em trinta segundos, mais ou menos, ele se identificaria outras três vezes como Peri.

- Você se lembra de mim?

- Claro que me lembro! - disse, porque seu nome de personagem literário já funcionava para mim como uma técnica mnemônica, embora sua fisionomia estivesse completamente deletada da minha memória.

- Qual é sua idade?

Atrapalhado com diálogo tão intempestivo, comi um ano do meu tempo de vida.

-Tenho sessenta e um anos, somos quase da mesma idade.

- Eu sou irmão do Cláudio. - esclareci.

- Você está muito conservado.

E o Cláudio, mais conservado ainda, em barris de carvalho – pensei, sem me manifestar, quando ele voltou à carga:

- Você era gordo.

- No fim da década de setenta, fiquei alguns quilos acima do peso, mas passei a correr em 1983 e não parei mais, a não ser para caminhar.

- Manda um abraço para o Cláudio.

- Para o meu filho? Não esquecerei.

Apertou-me a mão, dizendo que era o Peri, pela quarta vez, e seguiu adiante.

- Vá procurar a Ceci. - resmunguei.

Voltei a subir no anteparo de proteção das águas da chuva e vi a Gina com a chave do portão entre os dedos, às gargalhadas.

- Ele é muito chato... Cismou, então, que você era o pai do Cláudio?!

- Espero que o Cláudio me tome a bênção.

- Ele vai tomar, sogro.

- Este Sabadoido promete. - resmunguei, enquanto me dirigia para a cozinha da casa.

Lá, meu irmão lia as últimas páginas do Globo.

- Encontrei lá fora o maluco do Zé Peri, não o via há uns trinta anos, pelo menos. Não o reconheci, pois não guardo as fisionomias das pessoas.

- De vez em quando, ele para na calçada daqui de casa e fala umas maluquices comigo.

- Perguntou-me se eu era o seu pai.

- Então, ele está melhorando da cabeça. - concluiu meu irmão.

- Daniel, você aniversaria na terça-feira, não é? - perguntei, quando o vi entrar para tomar o café da manhã.

- Certo. - respondeu.

- Então, como presente, vou lhe dar algum dinheiro para você comprar os ingressos para os jogos restantes do Botafogo no campeonato brasileiro.

- Apesar de tricolor, eu aceito.

Dado o presente, continuamos com o futebol.

- E o Flamengo?! Será que chega ao décimo primeiro jogo sem ganhar?!

- Dizem que o único jeito de o dólar cair é atrelá-lo ao Flamengo. – falei em seguida às palavras do meu sobrinho.

- Depois da piada do cachorro flamenguista, surgiu essa... - sorriu o Cláudio.

Nesse instante, a Gina irrompeu pela casa adentro, pois tinha hora marcada com a irmã para ir ao supermercado.

- Ontem, assisti a uma entrevista do Rivelino, na ESPN.

Sem aguardar manifestações, prossegui:

- Quando compararam Messi com Maradona, Rivelino afirmou que o Maradona já antevia a jogada antes de receber a bola, qualidade essa que o Messi não possui. Sobre a comparação do Maradona com o Pelé, ele se viu obrigado a repetir o Ramos Delgado: “Maradona, o “Negón” está num lugar lá em cima...”

- Quem é Ramos Delgado?- quis saber o Daniel.

- Foi um beque argentino de categoria. - respondi.

- O entrevistador perguntou ao Rivelino por que não aparecem mais craques como ele, Gérson, Tostão, Zico e Didi. Rivelino respondeu que o talento já é podado nas divisões de base, porque os técnicos exigem que a garotada marque, dê carrinho, corra atrás dos defensores adversários...

- É verdade. - interrompeu-me o Cláudio.

- O grande jogador, na visão do Rivelino, é meio preguiçoso, precisa que alguém faça o trabalho duro por ele e lhe entregue a bola. No Palmeiras, o Dudu fazia isso para o Ademir da Guia, na seleção, o Clodoaldo, para o Gérson e para ele. Hoje, o preguiçoso é o Ganso, do Santos, que tem de receber a bola limpa para criar.

- Estou indo ao supermercado. - disse a Gina, que atravessava de novo a cozinha, agora na direção contrária.

- De repente, uma sinfonia de canto de curiós quase abafou o áudio da entrevista. - reatei a conversa.

- O Rivelino é colecionador de curiós.

- Eu sei, Cláudio. Quando ele jogou no Fluminense, o Carlinhos Chamicha, que representava o Clube do Curió, presenteou-o com umas aves canoras.

- O Rivelino veio aqui, no Cachambi, receber os curiós. - informou meu irmão.

A vinda dele ao Cachambi, eu desconhecia. - confessei minha ignorância.

- Ele não falou do Neymar?

- Sim, Daniel. Disse que está amadurecendo como profissional, soltando a bola no momento exato, mas que, ainda assim, é alvo de muitas pancadas nas partidas.

- Os filmes do Carlitos, que o Telecine Cult está levando, eu tenho visto e o Daniel também. - mudou o Cláudio de assunto.

- O Daniel já assistia àquelas gravações em VHS. - lembrei.

- Eu só não consegui gravar, naquele tempo, “O Garoto”.

- Eu estou aproveitando esta oportunidade chapliniana e gravo tudo em DVD, Cláudio.

Daniel, comendo um pedaço de pão, nos ouvia em silêncio.

- Lembro-me de ter visto “O Grande Ditador”, no Cinema Cachambi. A mamãe me levou quando eu tinha uns dez anos. Assisti a “Tempos Modernos”, na década de oitenta, não me recordo em que cinema. Vi “Luzes da Cidade”, no Bruni Méier, não me esqueço do cinema porque nossa irmã ria tanto na cena da luta de boxe que uma besta, na plateia, soltava uns grunhidos de contrariedade.

- A mãe disse, ontem, que viu o DVD com a gravação que você fez de “Luzes da Cidade”.

- Orson Welles estava certo: “Luzes da Cidade” é um dos dez maiores filmes de todos os tempos. Charles Chaplin estava inspiradíssimo, saía de uma ideia genial para outra. - entusiasmei-me.

- É nesse filme, que ele usa a batida da porta do carro para que a florista cega julgue que ele fosse rico.

- Sei dessa cena... – Daniel interrompeu as palavras do pai.

- Charles Chaplin repetiu trezentas vezes a cena em que a cega, já enxergando, reconhece no vagabundo, ao segurar sua mão, aquele que tudo fez para ajudá-la.

E meu irmão concluiu:

- Muitos dizem que é a cena mais bonita da história do cinema. (*)

- Charles Chaplin, na divulgação do filme, assistiu-o ao lado de Albert Einstein, uma vez, e de Bernard Shaw, outra vez.

- Era só genialidade, Carlinhos! - disse meu irmão.

(*) Chaplin é gênio, isso é indiscutível, mas sua obra tem ora humor e ora drama pungente, às raias da pieguice. A memória do distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO não é capaz de revelar quantas vezes levaram-no ainda pequeno para chorar, 2 horas de cada vez, nos dramas do Carlitos. Esse passado não o permite chegar perto dos revivals do cineasta.